Os prazeres e as dores da carne

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Confira a coluna de hoje n’O Globo:

Os prazeres e as dores da carne


 

“As pessoas sensíveis não são capazes/ De matar galinhas./ Porém são capazes/ De comer galinhas”, escreveu Sophia de Mello Breyner Andresen, poeta portuguesa.

Li esses versos aos 15 anos, e foi quando descobri que, em certos casos, a sensibilidade nos concede a graça de disfarçar um pouco a nossa hipocrisia. O que os olhos não veem o estômago não sente.

Já foi legal e moralmente aceitável que seres humanos (de qualquer etnia) fossem capturados e escravizados. Que prisioneiros fossem torturados e, eventualmente, executados. Que mulheres não tivessem direito a voz e voto, sujeitas à tutela do pai, do marido, do irmão, do filho. Vitória, Elizabeth I, Elizabeth II, Catarina,a Grande, seriam apenas notas de rodapé se tivessem irmãos do sexo masculino (a profissão “irmão de rainha” só foi inventada no século 20).

Outro dia, o Ricardo Rangel escreveu que o respeito aos direitos humanos, a igualdade entre os sexos, a preservação do meio-ambiente e a luta contra o racismo são bandeiras suprapartidárias, civilizacionais. Eu incluiria aí os direitos dos animais – de todos os animais, não apenas os da espécie Homo sapiens.

Tudo começa pelo entendimento de que veganismo e vegetarianismo não são uma questão de dieta, mas de ética. Que tem menos a ver com consumo de carne e mais com a crueldade com que carne, leite, ovos e outros produtos de origem animal são obtidos.

Será uma longa batalha – mas quem disse que as outras foram breves?

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Yes, nós temos girafa

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imagem: Carl de Souza/AFP

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Yes, nós temos girafa


 

Quando garoto, era fascinado pela Amazônia. Pelo reino das Amazonas, pela lenda do Eldorado, a história do Marechal Rodon e o Serviço de Proteção ao Índio, a saga dos irmãos Villas-Boas no Xingu.

Paradoxalmente, era fã de Amaral Netto, o repórter, e sua narrativa épica da conquista do “inferno verde”, com imagens da Transamazônica rasgando o ventre da floresta para integrá-la à civilização, ao lado de cá do Brasil.

Eu era outro. Era outro mundo. Outro Brasil.

Hoje o índio é aquele sujeito que não fala nossa língua – mas ainda penso que somos nós que não falamos nenhum dos seus centenas de idiomas, tantos deles já extintos. Que ocupa 14% do território e inviabiliza o progresso do país – mas 100% do território era dele, e os 86% que ocupamos dão e sobram para todo o progresso que quisermos.

A Hiléia de Humboldt virou território de disputa entre grileiros, madeireiros, garimpeiros, políticos europeus tentando se desviar dos problemas internos e políticos tupiniquins se agarrando a uma causa irracional e, a longo prazo, suicida. Tendo como assistentes de palco celebridades desinformadas e como plateia uma claque disposta a engolir qualquer imagem tirada de contexto, qualquer informação manipulada.

Bem que tentei, mas não tinha como não falar disso hoje, sexta, n’O Globo.

Assimetria tóxica

assimetria

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Assimetria tóxica


 

A palavra do ano de 2016 nos Estados Unidos foi “pós-verdade.
No Brasil foi “golpe”.
(Subiram também ao pódio: ‘ ‘vergonha’, ‘tenso’ e ‘crise’.)

A de 2017, lá, foi “youthquake” (a revolução dos jovens).
No Brasil, “corrupção”.

Em 2018, a deles foi “tóxico”.
A nossa, “mudança”.
(As outras medalhas foram para “medo”, “esperança”, “luta” e “caos”).

Ou seja, desde 2016 estamos numa vaibe de vergonha tensa, medo da crise, golpe de mudança, luta contra a corrupção e esperança no caos.

Não votei nessas eleições vocabulares. Minhas favoritas para 2018 e minhas candidatas ao prêmio em 2019 são outras.

E pelos motivos expostos no texto de hoje, n’O Globo.

Prezado Jair,

bolsonaro

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Prezado Jair

 


 

O Jô Soares escreveu uma carta para ele.
O Mário Moscatelli também. Acho que duas.
E também a Mariliz Pereira Jorge.
Talvez outros tenham feito o mesmo.

Eu já tinha escrito uma, e venho escrevendo esta há algum tempo.

Ela foi ficando enorme, cada dia com um parágrafo novo.
Na terça, desisti de continuar atualizando.
Cortei, cortei, jamais cortei um texto tanto assim – ou não caberia no espaço que o jornal me concede.

A primeira carta, dois dias antes da eleição, era de esperança.
Pouca, mas era.
Íamos, finalmente, nos livrar do PT, responsável pelos governos mais desastrosos da nossa história (e olha que o páreo Sarney e Collor era duro).

Esta de agora não é bronca. É um desabafo.

O governo tem apoio popular.
Tem uma equipe econômica que sabe exatamente o que precisa ser feito. E está fazendo.

As catástrofes anunciadas não aconteceram.
Ainda há mulheres, negros, gays, índios e oposicionistas no país.
O Congresso funciona, o STF tem expediente normal, jornais e idéias circulam livremente.

Por que, então, o presidente insiste em metralhar diariamente o próprio pé?

Para permanecer em evidência na mídia? Bastavam as boas notícias de um governo cuja prioridade não é, como antes, o enriquecimento ilícito.

Manter a militância acesa?
Desviar a atenção dos assuntos embaraçosos?
Porque ele é assim mesmo e pronto, elegeu agora aguenta?

Queria ter escrito sobre o Rio de Janeiro, sobre os direitos dos animais, sobre o melancólico (des)acordo ortográfico, sobre a nossa dependência química de cada dia, sobre agosto.

Mas não deu.
Espero até o fim do ano ter motivos para uma terceira carta, dizendo que ufa! foi só um susto (ou um surto) e passou.

 

Alice Gonzaga e o país da memória

Alice

Confira a coluna de hoje n’O Globo:

Alice Gonzaga e o país da memória

 


 

Conheci Alice Gonzaga através da Patricia Queiroz. Já era amigo virtual da sua filha, Maria Alice.

Com a internet, caiu por terra a teoria dos “seis graus de separação”. Conhecer Alice é estar a um passo, no máximo dois, de Tyrone Power, Douglas Fairbanks, Carmen Miranda, Humberto Mauro, Rossana Ghessa, Ana Maria Magalhães, Charles Chaplin, Oliver Hardy & Stan Laurel, Dulcina de Moraes, Mário Peixoto, Oscarito, Grande Otelo, Orson Welles.

O que para nós, cinéfilos, é a história do cinema, para Alice é o cotidiano. Não são nomes: são pessoas com quem conviveu diretamente, ou das quais soube através de seu pai, Adhemar Gonzaga, fundador da Cinédia.

Alice é uma enciclopédia, uma cornucópia. Há um documentário sobre ela (“Desarquivando Alice Gonzaga” (de Betse de Paula). Deveria haver um longa metragem, contando a trajetória da menina que pintava cenários, esteve diante das câmeras, conheceu os bastidores e hoje é guardiã da memória de um tempo em que São Cristóvão foi uma espécie de Hollywood.

O texto de hoje, n’O Globo, é uma homenagem a quem, com zelo e memória prodigiosos, cuida para que parte da nossa cultura não caia (ou queime, ou seja soterrada) no esquecimento.

Todos os tons de verde e amarelo

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Todos os tons de verde e amarelo

 


 

Nem todo mundo que votou no Bolsonaro ou que torce para que seu governo dê certo quer o desmatamento da Amazônia, a submissão feminina, a desigualdade racial, a corrida armamentista da população.

Nem todo mundo que votou contra o Bolsonaro ou que torce para que seu governo dê errado quer a corrupção, o inchaço da máquina estatal, o aparelhamento do Judiciário, as escolas como foco de doutrinação.

O vermelho que tinge as manifestações da esquerda (derrotada nas urnas) não é um vermelho chapado – há nuances de anseios democráticos e totalitários, de idealismo e de ódio,

Com o verde e amarelo que dá às manifestações da direita (vencedora nas urnas) um ar de Copa do Mundo ,é a mesma coisa – há um quê de esperança e de revanche, de racionalidade e de força bruta.

É possível ser “de esquerda” e a favor de princípios éticos e da democracia.

É possível ser “de direita” e pró direitos humanos, inclusão, preservação do meio-ambiente.

Nas manifestações, sejam quais forem as cores das bandeiras, me lembro sempre da canção do Milton Nascimento e do Fernando Brant:

“Aqui vive um povo que é mar e que é rio
E seu destino é um dia se juntar

Aqui vive um povo que cultiva a qualidade:
Ser mais sábio que quem o quer governar.”