Sob o signo de câncer

Cancer

O primeiro câncer a gente nunca esquece.

Eu tinha 27 anos e a solução era relativamente simples: extirpar o testículo afetado e substituí-lo por uma prótese de silicone.  Ninguém precisava saber, ninguém notaria a diferença.

A fertilidade não ficaria comprometida, nem a produção de testosterona. Esse é o bônus dos órgãos duplos: um segura a onda quando o outro pisa na bola.

Não me opus à remoção, mas resolvi que não iria me submeter a qualquer tratamento agressivo posterior, como quimioterapia.

Avisei à família, mudei os beneficiários do seguro de vida, rasguei os textos que não prestavam (vai que a família resolve fazer uma edição póstuma e fico pagando mico perante a posteridade). E, apenas por desencargo de consciência, consultei outro profissional.

Este achou melhor não cortar o mal pela raiz sem antes fazer uma biópsia – e no final era apenas um cisto, que foi devidamente removido sem causar maiores danos aos “testemunhos da virilidade”.

O lado bom foi ter descoberto que era infértil – e todas as suspeitas de gravidez que ocorreram depois desse evento foram recebidas com a fleuma de um monge tibetano viciado em maracujina.

O segundo câncer a gente acaba esquecendo.

Demora mais um pouco, porque aconteceu há um mês.

O diagnóstico já não vem cheio de meias palavras: é na lata. Porque, de tanto uso, a palavra “câncer” foi esvaziada.

O dermatologista olhou minha cabeça e, se teve alguma dúvida, esta durou segundos: “É câncer. Tem que tirar o quanto antes.”

Um câncer no testículo (assim como o de mama) pode ser detectado na hora do banho, ou– não recomendo – na hora do sexo.  Um de pele, no topo da cabeça, só é descoberto pelo barbeiro ou por alguém que esteja catando piolho (delícia a que não faço jus desde os 10 anos de idade).

Devia estar lá há bastante tempo, incógnito, com suas celulazinhas surtadas se multiplicando fora do alcance das vistas, inacessível ao espelho.

Como da primeira vez, consultei um segundo profissional – agora um oncologista. O diagnóstico também levou segundos – o que me fez crer que, ou a coisa tava braba ou era um câncer com legenda.

Um terceiro médico atestou – e mandou remover aquilo de imediato.

Em 10 dias, lá estava eu nu (por que se tem que ficar nu para tirar uma mancha no cocuruto?), de camisolão, no centro cirúrgico. Não vi nada, não senti nada. Olhei para a anestesista, que disse que ia começar a me sedar e a frase seguinte já era a do cirurgião dizendo que o procedimento tinha sido um sucesso.

Dois cm2 de pele retirados, parte do couro cabeludo descolado do crânio para poder ser espichado e tampar o buraco sem necessidade de enxerto.  Passada a anestesia, me senti uma Elza Soares, todo repuxado (eu ria, e o crânio sorria comigo; piscava, e o crânio parecia piscar junto).

Ontem, às 10 da noite, o resultado: carcinoma basocelular. Um câncer de segunda linha, que talvez merecesse título menos pomposo.

Desta vez não alterei os beneficiários do seguro, não rasguei escrito nenhum (até porque não dá pra rasgar arquivos do Word), mas reiterei o que está no testamento vital: nada de terapias agressivas, entubamentos, reanimação, transplante, UTI. A vida está de boa; a sobrevida eu dispenso.

A única sequela é parte da cabeça raspada e o restante com máquina 2.  É bom mudar o visual de vez em quando. E descobrir que, se for preciso catar piolhos (metafóricos), posso contar com alguns bons amigos.

 

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Agosto

agosto

31 DE AGOSTO, 1960

– Você vai à parada do dia 7 tocando bumbo – garantiu o obstetra à minha mãe.

Não deu.

E ela gostava tanto de setembro.

Casou-se em setembro.

Um de seus filmes favoritos – ao lado de “As neves do Kilimanjaro” e “Candelabro italiano” – era “Quanto setembro vier”.

Quando setembro viesse, viria o segundo filho. De preferência, uma filha.

Esperara um ano antes pela Rita de Cássia, e vim eu. Desta vez, em setembro, Rita de Cássia haveria de vir.

Mas no dia 31 do mês do agouro, dos ventos e dos cachorros loucos, sentiu que o tempo virava – lá fora e dentro de si.

Entrou em trabalho de parto enquanto o céu começava a desabar – ou o céu desabou quando ela começou a sentir as dores, não é mais possível saber, e não faz diferença, pois não há relação de causa e efeito. Ou há?

Imaginemos que à primeira contração correspondeu um relâmpago, à segunda um trovão, às seguintes as janelas fechadas às pressas, e então as telhas voaram, e a água desceu pelas paredes, pelo bocal da lâmpada, até que se pôde ver o céu faiscando por entre as frestas do forro de madeira, e o quarto foi inundado.

Minha vó acudiu com rezas e panos. Meu avô abriu um guarda-chuva sobre a cama, para proteger a parturiente – avô, avó, cama, todos com água já pelas canelas.

Minha mãe queria que tudo acabasse logo – o vendaval, as dores – mas queria também que desse logo meia-noite e fosse setembro. E nem setembro chegava, nem o temporal se ia.

Às 11 e tanto, ainda sob a tempestade e o guarda-chuva,  envolvida pelas ave-marias e salve-rainhas que tentavam subir aos céus se esgueirando por entre os raios e trovões, foi mãe de novo.

No quarto inundado, fez ela mesma o batismo com o resto de água benta guardada no armário, antes que o teto viesse a desabar, e o bebê morresse pagão.

E o batizou de novo, para o caso de os estrondos terem abafado sua voz; e uma terceira vez, por garantia, e talvez porque ainda tivesse forças e houvesse água benta – ou quem sabe já fosse água da bica.

Sobreviveram todos – ela, o bebê, meus avós, os móveis, eu (possivelmente aos berros no colo de alguém), as tesouras do telhado, parte das telhas, o teto.

Ela queria tanto uma menina, que viria quando setembro viesse.

Foi mais um menino.

E ainda era agosto.

Quem sou eu

asma

Volta e meia tenho que escrever “uns dois parágrafos” a meu respeito, e embatuco.

Minha biografia não chega a tanto.

Mineiro, arquiteto e…. e é isso.

Há quem, nessas situações, coloque – meio à brinca, meio à vera – o signo, o ascendente e uma Lua em Escorpião para indicar que tem pegada.

Eu me contento com ser mineiro (é algo que me define, esses oitenta por cento de ferro na alma), arquiteto (é a profissão que escolhi, e com a qual me mantenho) e recuo antes de incluir “asmático”.

Asmático, não soasse como vitimização, deveria vir antes de arquiteto e junto com mineiro, porque nasci assim, e a todo o resto veio bem depois.

Ser mineiro moldou meu modo de falar, de pensar. Ser asmático, o jeito com que me afogo no ar que respiro, e que acaba por afetar como falo e penso.

Junto com a asma veio a ansiedade. E com a ansiedade, o pânico.

Esse aperto no peito pela manhã, à noite – é asma ou angústia?

Esse chiado, como se houvesse um gato asfixiado na garganta – é ar demais ou de menos?

E essa palpitação, essa vontade de fugir, de estar em qualquer outro lugar que não aqui, porque aqui o ar é irrespirável?

Asma e pânico são formas distintas de sufocamento. Uma é afogar-se no ar; a outra, no mundo.

Talvez nem todo asmático seja ansioso. Isso pode ter a ver com Touro, com a ascendência em Áries, com a Lua (sabe-se lá onde) prateando a solidão.

Aquela solidão de não poder correr na hora do recreio. Não poder sair no sereno. Ter que usar agasalho, frequentar curandeiros, tomar poções de mel e ervas, ser benzido junto à gameleira. Dormir quase sentado, com emplastro fumegante sobre o peito.

E, para aproveitar o fôlego, falar depressa demais. Por não poder correr, andar depressa demais. E respirar pela boca e pelo nariz em quantidade que nunca é demais para os pulmões.

Asma não tem cura. Ansiedade e pânico, talvez.

Na próxima vez que tiver que escrever “dois parágrafos” a meu respeito, talvez parafraseie Drummond:
“Quando nasci, um anjo aflito
desses de asas e retinas fatigadas
disse: Vai, Eduardo! ser ofegante na vida.”

Ter uma Lua em Escorpião ajudaria. Mesmo que fosse minguante. Mesmo que só para enfeitar a biografia.

Deu bode

maconaria

Meu pai era maçom. Nunca soube muito bem o que significava isso. Mas sabia que era como ser de capricórnio – algo que eu nunca seria.

Havia a lenda de que os maçons se reconheciam à distância, como os cachorros. Mas era só um toque de mão, um jeito de cumprimentar, de coçar a orelha, ou três pontinhos ao final da assinatura. Coisas assim, bem mais banais. Como as formigas, batendo as antenas. Abelhas dançando no ar.

Tinham segredos.
Montavam bodes.
Faziam pactos de sangue.
Adoravam o diabo.

Não conseguia ver meu pai fazendo nada disso, principalmente montar um bode. Então nunca levei essas crendices muito a sério.

Mas gostavam, sim, de símbolos.
E de roupas estranhas.
Aventais.
Babadores.
Anéis.

Não conseguia imaginar meu pai de avental, como minha mãe, e de babador, como meu irmão caçula.

Mas isso não queria dizer nada, porque eu tampouco conseguia imaginá-lo fazendo sexo com minha mãe – eu tinha doze anos, já tinham me contado tudo na rua, e, como éramos cinco filhos, eu sabia não apenas que já tinham feito, como que não fora uma vez só.

Mas entre acreditar e conseguir imaginar vai uma boa distância.

Eu via os maçons como uma espécie de templários genéricos, fora de época, sem armadura, sem cavalos, sem jerusaléns a conquistar.

Seu templo era, naquela época, uma série de valetas escavadas no terreno baldio em frente à nossa casa, onde seriam as fundações da sua Loja.

Brincávamos por ali, tentando adivinhar onde era a sala da caveira, o calabouço, a sala do bode.

Só quando começaram a subir a construção é que perceberam que havia um erro no projeto. O engenheiro rabiscara a planta apenas com linhas, sem considerar a espessura das paredes.

Com 50 cm perdidos nas alvenarias externas, mais 15 descontados aqui, 15 esquecidos ali e outros 15 acolá, as salas menores se tornaram corredores.

Alheios às sérias discussões dos adultos sobre como resolver o problema e salvar a Loja, brincávamos do mesmo jeito no corredor da caveira, no corredor do calabouço, no corredor do bode.

Nisso que dava acreditar num Supremo Arquiteto do Universo e contratar um engenheiro na hora de fazer o projeto.

19 de julho

Helder
Mãe e filho em 2014

 

Minha mãe me acordou.

– Vá chamar a parteira.

Com certeza já tínhamos telefone, talvez a parteira é que não tivesse.

Desci as escadas, dobrei à direita, passei pela praça, pela matriz, desci a Rua do Comércio, atravessei a linha, tomei o rumo do Bairro de Lourdes.

Daí a pouco voltávamos, eu e a parteira. Fui dormir de novo e só acordei de madrugada, com um choro de criança.

Minha mãe estava deitada, suada, com um bebê nos braços.

Não me lembro de ter sentido nada, de ter dito nada. Era só um bebê, ainda sem nome, que chorava. Um menino (mais um! e ela queria uma menina).

A parteira voltou para casa sozinha, ou chamou um táxi, ou dormiu por lá mesmo, não sei.

Meu pai, como nos quatro partos anteriores, não estava por perto. Não estava em casa, nem na mesma cidade.

Voltei a dormir e acordei com o dia já claro. Vi um dos meus irmãos, de 4 anos (até a véspera, o caçula), de pé no parapeito da varanda (nossa casa era imensa, e ocupávamos os quartos do segundo andar). Tinha uma toalha de banho amarrada no pescoço, como quando brincávamos de super-herói.

– Pula. Você voa – insistia meu outro irmão, um ano mais novo que eu.

E ele tinha medo de não voar, e não pulava.

– Pula!

E estava prestes a ser empurrado para o voo quando minha mãe surgiu na porta, arqueada como se tivesse 100 anos.

Agarrou pela toalha o que estava no parapeito e pelos cabelos o outro, o que o instigava a voar.

E bateu nos dois.

Até se cansar. Até não conseguir mais levantar a mão.

Então voltou para a cama, se apoiando nas paredes, abraçou o recém-nascido e chorou.

Chorou mais que todos.

Chorou pelo filho que ganhara horas antes e pelo que, por pouco, não perdera horas depois.

Chorou por estar sozinha, com 5 filhos em casa. (Talvez estivessem ainda ali a parteira, ou alguma das empregadas, não sei. Mas era o choro de quem estava visceralmente sozinha.)

Chorou por estar dolorida do parto. Chorou pela caminhada trôpega até a varanda. Chorou pelo esforço do salvamento e da surra.

Chorou porque sabia que não poderia morrer pelos próximos 20 anos, pelo menos, até o novo caçula, o temporão, estar “criado”.

Chorou por tudo que não tinha chorado e não tornaria a chorar – não creio jamais tê-la visto chorando, antes ou depois.

Chorou porque era uma mulher que não chorava.

Isso foi há 51 anos.
Num 19 de julho, como este de hoje.

(para o Hélder, o que nasceu; o Hubbley, o que não voou; e para minha mãe, que talvez tenha esgotado ali todas as lágrimas)

Direito e avesso

molde

O universo não se dividia, então, em luzes e sombras ou entre o Bem e o Mal, mas nos domínios do masculino e do feminino, representados pela máquina de escrever e a máquina de costura.

A primeira comandava o escritório do meu pai; a segunda, o quarto da minha mãe. Uma cercada de livros e silêncio; outra, de retalhos coloridos, música e risos.

Escrever, com os indicadores catando milho nas teclas da Remington, exigia concentração – ali, no âmbito das leis, não éramos bem-vindos. Nosso lugar era no chão, de tesoura da mão, recortando figuras das revistas de moda, aos pés da Singer.

Cada um desses mundos tinha seu vocabulário próprio, seu dialeto. Cerzir e sursis, corpetes e habeas corpus, evasês e evasões – palavras que se aproximavam, sem jamais se tocar.

Junto ao pedal da máquina de costura, imperava aquilo que mais tarde soube chamar-se francês: godê, plissê, cotelê, croqui. Nos raros momentos sob a escrivaninha, prevalecia o que desde sempre se chamou latim: animus, caput, data vênia, de cujus, pari passu, causa mortis, sine die.

Havia uma palpável hierarquia entre a matéria – o pano, a pence, o pesponto – e o espírito. Entre o braçal da carretilha, da agulha e do dedal, e o reino da autoridade intelectual, da retórica, da persuasão.

Essa divisão era ancestral: minha avó regia a roupa no varal, a labuta na cozinha, e meu avô, as conversas no salão, a posse do dicionário, as palavras cruzadas no jornal.

Um desses espaços era mais sentimental e mais lúdico: o do soutache, do ilhós, da passamanaria. Do cós, do viés, da sianinha, da lapela, do vivo, do gavião. Das revistas coloridas (o outro mundo não tinha figuras). Da tesoura que fazia ziguezague – da própria palavra ziguezague.

O outro mundo não oferecia grandes diversões além do perfurador, com o qual se podia fazer confete: não era permitido tocar a caneta-tinteiro, a carimbeira, o mata-borrão.

O mundo do papel manilha era melhor que o do papel almaço. A Burda, mais agradável de folhear que qualquer processo.

O quarto de costura era nosso quintal; o escritório, a sala de visita. Este, o território do não; aquele, o do sim. Um, o dos livros fora do alcance, na estante – o outro, o de sentar no chão, entre cortes de cambraia, retalhos de feltro, amostras de cetim.

Apesar de estar lá a cultura, de lá ficarem as letras, foi no lado de cá que se deu a descoberta de que cada palavra tem sua textura, seu caimento.

Assim o morim, a chita e o riscado, tão distantes da organza, do tafetá, do organdi – não só ao tato, mas também ao ouvido. Assim o linho e a flanela (ele, ríspido; ela, suave), o impecável poliéster e o suscetível algodão.

O mundo do Direito e o do avesso, o das Cortes e o da costura, o das Leis e o das linhas acabaram por se coser num só, este em que se pode chulear as frases, rematar sentenças e nelas ir alinhavando ideias e pregando as palavras como quem prega botão.

 

(publicado originalmente em 11 de abril de 2018)

Gestalt

Gestalt

Era um curso de férias sobre Gestalt na UFRJ.

Depois de cada “vivência”, vinha a parte teórica (a sensação devia preceder o entendimento).

Um dos jogos consistia em relaxar, buscar as memórias mais antigas e escavá-las um pouco mais, numa espécie de arqueologia de si mesmo. Descalço, olhos fechados, deitado no chão, cada um ia rebobinando a própria fita (era um tempo em que se rebobinavam fitas) e resgatando cheiros, cenas, nomes.

Ao abrir os olhos, havia em volta dezenas de lápis de todas as cores, e folhas em branco. Era a hora de pegar qualquer lápis (que, obviamente, não era “qualquer” lápis) e desenhar qualquer coisa (que – logo se saberia – estaria longe de ser “qualquer coisa”).

Concluída a tarefa (melhor: esgotado o tempo para executá-la), sentavam-se todos formando um grande círculo e, um a um, os desenhos eram levados ao centro desse círculo. O autor devia então falar do desenho na primeira pessoa – não “isso é uma árvore”, mas “eu sou uma árvore”. E fazer o mesmo com relação às cores: “eu sou esse verde”, “eu sou esse azul”.

Eu era um peixe azul e verde. Um peixe dentro e fora da água. Um homem-peixe, me afogando onde os peixes respiram. Um peixe-homem, respirando onde os homens se afogam. Minha memória mais antiga era uma crise de asma, um estar afogado simultaneamente na falta e no excesso de ar.

Disputei silenciosamente com uma garota magrinha, quase transparente, a primazia de ser o último ir até o centro e falar. Perdi.

Ela fora a única a pegar um lápis branco, aquele que é sempre o último sobrevivente da caixa, o que permanece intocado quando os demais já se esbaldaram no apontador.

Seu outro lápis era vermelho – a cor que ela mais detestava. Não tinha sido exatamente uma escolha: foi o que sobrou, junto com os inúteis lápis brancos, dada a sua demora em retornar da expedição ao passado.

Seu desenho tinha sido feito em vermelho e recoberto de branco, até se tornar rosa pálido.

“Eu sou cor-de-rosa”, ela disse. “Eu não sou”.

Enquanto eu me debatia (homem submerso, peixe fora d’água) por ser ao mesmo tempo azul e verde, ela, sendo vermelho e branco, chegara a um meio termo, a uma solução de compromisso, e não era nem uma coisa nem outra. Seu cor-de-rosa não era uma decisão, mas uma diluição. Um ponto em que as forças se anulavam.

“Eu sou morna”.

Possivelmente a Gestalt não tenha hoje o mesmo apelo que tinha naquele final dos anos 70, início dos 80, nem garotos com asma e garotas diáfanas façam mais “vivências”, descalços e despidos de suas “couraças”, nos salões da velha Universidade do Brasil. Mas foi entre lápis verdes, azuis, vermelhos e brancos que a ânsia de ser tudo ao mesmo tempo e a tentação do neutro, do inerte, se defrontaram claramente pela primeira vez.

A garota cor-de-rosa não sabe o quanto este anfíbio lhe é grato.

 

(originalmente publicado em 27 de abril de 2018)