Na pressão

panela
Ilustração: Paulo Masserani

Não tenho medo de solidão.

Não tenho medo de cair no banheiro, bater a cabeça no tento de mármore do box e só me encontrarem quando eu já tiver escorrido pelo ralo e não restar nem o esqueleto, porque os cachorros terão levado os ossos para a sala e tudo que restará de mim será um fêmur meio roído, na boca do Tião.

Não.

Eu tenho medo é de panela de pressão.

A panela de pressão é uma esfinge. Uma bomba-relógio. Um campo minado.

Meu pai, homem intimorato, daqueles de andar com duas armas – uma na canela, outra embaixo do sovaco – só foi derrotado pelo câncer e pela panela de pressão (não nessa ordem, obviamente).

Ele entrava na cozinha apenas para perguntar por que é que o almoço ainda não estava pronto. Ele almoçava às 11 horas em ponto, para poder estar no Fórum pontualmente ao meio-dia. Por volta de 10h45, começava o inferno astral da minha mãe:

– Conceição, já são quase 11 horas. Cadê o almoço, Conceição?

Minha mãe suspirava resignada, e cozinhava, de modo que às 10h59 a primeira travessa chegasse à mesa, onde meu pai já a esperava, de garfo e faca na mão.

Um dia – morávamos em Visconde do Rio Branco – meu pai extrapolou sua jurisdição.

Invadiu a cozinha e resolveu pular os intermediários e pressionar diretamente a panela de pressão.

A panela, claro, não tinha a paciência infinita da minha mãe.

Seguiu-se uma explosão. Quando cheguei em casa não entendi o que havia acontecido, ou de onde surgira aquele teto cravejado de feijão.

Ninguém se feriu, e, tirando o feijão e o teto, salvaram-se todos. Meu pai deve ter entendido que ninguém está acima das leis da física. Que tudo neste mundo tem seu tempo, cada coisa tem sua ocasião.

O feijão com arroz, aquele dia, foi só arroz, quebrando – ao que eu saiba, pela primeira e única vez – uma milenar tradição.   Minha mãe saboreou, grão por grão, essa vitória, obtida por interposta panela.

Fim do flexibeque.

Um lar só é um lar quando tem tapetinho na porta e panela de pressão. O tapetinho eu não tenho, mas comprei a panela, há alguns anos. Trouxe-a para casa como quem abre os portões para um cavalo de Tróia, sabendo o que ele guarda na barriga.

Usei-a poucas vezes, durante as faringites – quando uma sopa descia bem melhor que um sanduíche. Mas sempre o fiz com respeito, quase com reverência.

Levanto a válvula com a ponta dos dedos e espero que a panela desabafe, se acalme, sinta que está entre amigos. Depois, dou-lhe uma ducha de água fria, para aquietar-lhe os ânimos. Ela ainda resmunga um pouco, solta algum vapor pelas ventas, e só quando parece pacificada é que dou um passo para trás e destravo a tampa.

Tem funcionado.

Hoje, vencendo um trauma de décadas, cozinhei feijão. Escapamos incólumes: eu, a panela, o teto, o fogão.

Mais algumas experiências bem sucedidas com essa criatura explosiva e já me sentirei capaz de arriscar alguma coisa com uma mulher de Escorpião.

Era uma vez

Sidney

Sempre fui uma negação para guardar nomes.

Para compensar, sou péssimo fisionomista.

Quando dava aulas, era comum ser abordado.

– Tudo bom, professor? E a minha nota?

O máximo que eu conseguia saber era que o jovem ou a jovem (ainda não existiam xs jovxns naquela época) era de alguma das turmas para as quais eu lecionava. E eram muitas.

Na hora da chamada, tentava fazer o cara-crachá para ver se, de tanto repetir, associava os nomes às pessoas.  Em vão.

Conseguia gravar, no máximo, os melhores e os piores de cada sala. Os da fila da frente e os do fundão. O que significa que 90% permaneciam um mistério para mim durante todo o ano letivo.

Não era pouco caso. Era déficit meu mesmo.

Eu também trabalhava no Banco do Brasil.  E volta e meia me aparecia alguém perguntando:

– E o meu negócio, como é que está?

Eu não fazia ideia de quem fosse a pessoa, que dirá como estava o negócio dela. Que poderia ser uma renovação de cheque especial, uma aplicaçãozinha do saldo disponível em conta ou um empréstimo para comprar 200 vacas girolandas.

– Me veja um documento, por favor, só para eu confirmar se seus dados saíram certinhos.

– Estou sem a identidade aqui…

– Serve conta de luz, qualquer coisa que tenha seu nome.

– Estou sem nada.

– Então assina aqui só para eu aproveitar e conferir a assinatura.

E lá ia eu, torcendo para que a assinatura fosse legível, ou teria que consultar milhares de cartões de autógrafo – ou perguntar, discretamente, a alguém de confiança, “quem é aquele ali na minha mesa?”.

Na rua, cidade do interior, era batata:

– Transfere 50 mil da minha poupança pra conta, que vai cair um cheque amanhã. Depois eu passo lá e assino.

Eram tempos pré aplicativos via celular. O celular, inclusive, ainda era ficção científica.  Eu tinha que chegar ao banco e avisar que, se aparecesse um cheque em torno de 50 mil sem saldo na conta, era para falar comigo antes de devolver. Só assim eu saberia quem era o cliente. Ou ex-cliente, por minha culpa, minha máxima culpa.

Para facilitar as coisas, tenho nome duplo. Minha mãe queria Eduardo. Meu pai concordou até a véspera, mas, sem combinar nada com ela, incluiu Sidney na certidão. Ela, magoada, nunca me chamou de Sidney. Ele, talvez por arrependimento, talvez de pirraça, também não. Só fiquei sabendo que, além de Eduardo, era Sidney quando entrei na escola, e tinha que dizer que eu, Eduardo, estava presente quando a professora chamasse o tal de Sidney.

Então em casa eu era Eduardo, na escola era Sidney. Nas apresentações formais, Sidney; nas relações mais íntimas, Eduardo. Eduardo na Psicologia; na Arquitetura, Sidney.

Num sem número de vezes, me peguei ao final de uma carta ou com o dedo no botão de um interfone sem saber quem estava lá, o Sidney ou o Eduardo. Tinha que refazer mentalmente toda a história, lembrar de onde nos conhecíamos, pensar na pessoa falando meu nome para ver qual soava mais familiar na sua boca – e só aí assinava ou dizia quem era.

Mas, como nem tudo é desgraça na vida de um cristão, eu era tímido. E, como Deus é justo, e dá o frio conforme o cobertor, também gago. O que me tornava ansioso nas relações interpessoais – mas apenas em dois tipos de situação: quando tinha que falar com alguém presencialmente (porque a timidez me dava um branco) ou quando tinha que falar com alguém por telefone (porque a gagueira me dava um nó).

Venci ambas as limitações falando o mais depressa possível, tanto para não gaguejar quanto para acabar logo com aquilo. E fugindo do telefone como um carioca, no verão, foge da conta de luz.

Por isso comecei a escrever.

Escrevendo, não gaguejava. Podia usar à vontade palavras começadas com B. E as pessoas tinham o nome que eu quisesse. E eu era sempre Eduardo, nunca Sidney.

Nunca vi a escrita como uma escolha ou um dom, mas como uma espécie de salvação.

Mentiras que os donos de cachorro contam

mentiras

A mentira 1 que os donos de cachorro contam é que são donos de cachorros.

Ninguém é dono de ninguém, muito menos de um cachorro.

Cachorros são seres insólitos. Têm um ranço nato dos gatos, criaturas que os ignoram e cujos olhos felinos lhes dedicam, no máximo, uma mirada de indulgência. Têm inexplicável interesse por porcos espinhos, animais cujo leiaute é um cartão de visitas claríssimo: não mexa comigo. Têm fetiche por pneus, entidades que perseguem com afinco, como se cravar os dentes numa roda de borracha lhes fosse descortinar o sentido da vida.

E se afeiçoam justamente a seres humanos.

Qualquer organismo inteligente se afeiçoaria aos gatos, não aos seres humanos. Qualquer indivíduo sensato manteria dos humanos e dos porcos espinhos uma prudente distância. Qualquer entidade racional saberia que humanos e pneus não levam (metaforicamente, pelo menos) a lugar nenhum.

Pois os cachorros resolveram se afeiçoar aos seres humanos. Ignorar os alertas de perigo que os humanos emitem em cada gesto. E vivem correndo atrás de nós, seja abanando o rabo, seja cravando os dentes, como se para isso tivessem nascido.

Os “donos de cachorro” se encantam com esses paradoxos. Veem no cachorro um avatar peludo e arfante, uma versão melhorada de si mesmos. E deles se apropriam, oferecendo-lhes vacina coleira ração tosa e dois passeios diários em troca do amor maior que há no mundo (mãe perde) – da mesma forma como os exploradores trocavam miçangas espelhos e quinquilharias por ouro prata terras sem fim.

Donos de cachorro mentem (mentira 2) quando dizem que vão levar os cachorros para passear.

Cachorros não passeiam. Cachorros mijam e cheiram. O passeio é um meio, o instrumento do qual o cachorro tem que lançar mão (no caso, lançar pata) para poder mijar em vários lugares e cheirar tudo que estiver no raio de alcance da guia presa à sua coleira.

O passeio é uma mentira social que o suposto “dono de cachorro” inventa para não ter que assumir que apenas se presta a viabilizar as mijadas necessárias à comunicação olfativa do cachorro.

Claro que tem também o cocô, mas o cachorro está cagando e andando para isso. O cocô não tem relevância na sua visão de mundo (no caso, no seu olfato de mundo).  O “dono” é que ritualiza a coisa (humanos adoram rituais). Enfia a mão num saco plástico, recolhe os dejetos, amarra e caminha – desconfortabilíssimo –  duas quadras até depositar aquilo na lixeira mais próxima (“lixeira mais próxima” é um oximoro: nada é mais distante de um cocô de cachorro que uma lixeira).

A mentira número 3 é a de que o cachorro é educado e só faz cocô na rua. Isso não é educação: é chantagem. Uma forma que o cachorro encontra de constranger seu humano a levá-lo para mijar e cheirar em locais onde essas atividades sejam mais estimulantes que na área de serviço ou na varanda.

E cachorro não faz cocô na rua: faz na calçada. De preferência, nas saídas de garagem ou diante de aglomerações, de modo que o ritual de enluvar a mão no saco plástico, se agachar e catar o cocô sejam devidamente apreciados por quem estiver saindo de casa ou esperando o ônibus.  É que o cachorro gosta de exibir o adestramento do seu “dono”, fazê-lo demonstrar suas habilidades (“Estão vendo o meu “dono”? Olhem os truques que ensinei a ele: Luvinha! Agachado! Catando caca! Carinha de nojo! Nozinho no plástico! Isso! Bom garoto!”).

Mentira 4:  tratamos cachorros como filhos. Jamais. Filhos são filhos, cachorros são cachorros. Filhos saem sozinhos; cachorros, não – do cachorro a gente cuida direito e não permite que corram riscos desnecessários. Filhos um dia se casam e vão cuidar da própria vida –  cachorros ficam para sempre.

Cachorros envelhecem conosco. Morrem nos nossos braços. Quando se vão, nos deixam de herança um pote vazio e uma coleira adormecida que são a própria Dor em forma de vasilha, o Desalento em fivela e fita.

A mentira 5 é a maior de todas:  a do “nunca mais”. Todos dizemos “Nunca mais quero passar por isso”. “Outro cachorro, nem pensar”. E daí a pouco lá estamos nós desviando o olhar na Feira de Adoção (desviando o olhar, não o coração). E um minuto depois fazendo contato visual com um filhote, um adulto sem rabo, um ancião de focinho grisalho.

Aí lá vamos nós de novo. De novo “donos” – do Tião, da Duda, da Luna, que não são mais que novas manifestações da Bené, do Negão, do Bento, do Luke e de todas essas versões melhoradas de nós mesmos – só que com pulga e soltando pelo, que ninguém é perfeito.

[Levei Cacau para ser sacrificada. Despedimo-nos longamente. Fiz uma foto dela –a última – na maca.

Saí da clínica repetindo o mantra da mentira 5, a do “nunca mais”. Mas não custava fazer mais uma tentativa, e Cacau reagiu à medicação. Dois dias depois, fui buscá-la, e me recebeu andando com dificuldade, mas andando – ela que chegara no meu colo. O mesmo olhar, a mesma respiração ofegante, o mesmo jeito de abanar o rabo como se não houvesse amanhã. Houve amanhã.

Substituí a mentira 5 pela 1, e voltei a mentir para mim mesmo que sou “o dono da Cacau”, como um dia fui dos seus pais, Negão e Benedita.

Cachorros são seres estranhos. Ao contrário dos seus “donos”, que os levam “para passear”, “fazer cocô na rua” e os tratam “como filhos”, eles não precisam mentir. Jamais.]

Coração vagabundo

Coracao

Meus amigos, eu tentei, mas não vai dar para agradecer a um por um pelas mensagens recebidas durante o meu piripaque cardíaco.  E olha que nenhum comentário mereceria mais uma resposta do que aqueles.

O diagnóstico é “flutter e fibrilação atrial” – o que, em língua de gente, significa que o tique-tique-taque do meu coração atravessou o samba, que o meu coração traiçoeiro passou a bater mais que o bongô, a tremer mais que as maracas – e não era descompassado de amor.

Aí a pressão despencou e eu despenquei junto. Estava desidratado (pelo meu peso, preciso tomar uns dez copos d’água por dia – e minha média é de um copo a cada dois dias (devo ter sido cacto em outra encarnação, o que explica também esse jeito espinhoso de ser).

Já tinha desmaiado em casa, no sábado, mas não dei bola. Na quarta recomeçaram as tonturas e de repente entrou em cartaz o que parecia ser o tal filme a que a gente assiste, em sessão privada, na hora da morte. Foi quando descobri que minha vida era em preto e branco, sem nada digno de nota e sem nada branco. Simplesmente escureceu tudo e fui.

Fui para a emergência, com direito a cadeira de rodas e a furar fila. Pressão 8 x 6 – eu que sou 12 x 8 desde criancinha. Rodaram um eletro (sempre soube que faziam eletro – mas lá eles rodavam eletro) e o enfermeiro informou que teria que raspar meu peito.  Devo ter feito uma cara feia, porque ele entendeu, caprichou um pouco mais no gel e escapei da tosa. Coletaram sangue (e deixaram o acesso no meu braço, o que é sempre um mau sinal) e me botaram para ser hidratado, numa sala de clima glacial.

Éramos oito: eu, um outro cara e seis mulheres. As seis de agasalho e, a pedido, cobertas com uma manta. O cara, de camiseta e bermuda; eu em manga de camisa, ambos dotados daquele isolamento térmico que só a masculinidade tóxica provê. As meninas (tirando a que estava ao meu lado, eram todas bem jovens) batiam queixo, o cara mexia no celular, alheio ao frio, e eu me perguntava até quando iria aguentar aquele atmosfera curitibana (todos se ignorando, ninguém puxando assunto com ninguém e a temperatura em queda livre).

As pontas dos meus dedos já estavam adquirindo um belo tom azulado quando o cara foi liberado e eu pude me liberar também da minha obrigação de manter a pose e pedi a manta. Liberdade pode ser uma calça velha, azul e desbotada, mas felicidade é uma manta quentinha.

Novo eletro, e nova ameaça de depilação, também contornada. Já devia ser meia-noite, e lá ia eu para a tomografia.  Esperando pelo elevador, dou de cara com a placa “Análizes clínicas”. Parece que o Weintraub andou fazendo bico de comunicação visual antes de ser ministro.

Me injetam o contraste e tenho uma palinha do que deve ser uma experiência lisérgica, porque tomo consciência de todas as veias do meu corpo. Volto ao consultório e vem a notícia: não só não vou embora como vou é pra UTI.

Assim como as testemunhas de Jeová não aceitam transfusão e os esquerdistas não aceitam a realidade, eu não aceito uma série de procedimentos: ser entubado, amputado, transplantado, fazer quimioterapia e… ir para UTI.  Tento explicar isso à médica, sem muito sucesso. Cadê meu testamento vital, que eu devia carregar no bolso, junto com a identidade, a carteirinha do plano de saúde e o dinheiro do ladrão?

Chegam mais enfermeiros, me injetam um troço na barriga (para afinar o sangue), me coletam mais sangue (pelo outro braço, não pelo que já está com acesso, porque esse será para os medicamentos) e voltam com a história de raspar o peito para rodar outro eletro. Explico que é o terceiro eletro do dia e que os outros foram feitos sem nenhum procedimento depilatório.

– Mas você é um tonirramos – diz um dos enfermeiros, em tom que me soou libidinoso, mas pode ter sido impressão minha, efeito da pressão baixa ou do contraste ainda circulando no organismo.

Chega a cardiologista e me convence a ir para a UTI com um argumento matador: posso ter uma trombose ou um AVC.  Assim como capitulei à manta quentinha na sala gelada, capitulo diante dessa perspectiva nada auspiciosa.  Não há vaga na UTI, e vou ter que passar a noite na emergência – com luz acesa, macas entrando e saindo, gente falando como se estivesse num pregão da bolsa de valores e monitores apitando. Por um momento, tenho saudade da vizinha de cima. Mas passa logo.

Preciso tirar a roupa e vestir um daqueles aventais ridículos, que deixam a gente com a bunda de fora. Ainda vou entender esse fetiche que os médicos têm em ver os pacientes com a bunda de fora. Não posso ficar com nada, exceto os óculos. Explico que tenho que entregar um artigo pro jornal no dia seguinte, e que preciso do celular tanto para terminar o texto quanto para enviá-lo.  Já que não vai dar para dormir mesmo, tempo não vai me faltar.  Posso, inclusive, escrever outro texto sobre a brutal diferença entre hospitais públicos e privados, porque tinha estado no Miguel Couto alguns dias antes.

– Sobre o que é o texto? – pergunta a médica.

– Sexo – respondo, vagamente.

– Pode escrever sobre o coração.

– Pelo menos agora sei que tenho um. E como estou sendo cuidado por uma cardiologista, não por uma geóloga, é sinal que não é de pedra.

Ela me deixa ficar com o celular e eu fico na UTI por dois dias, pensando que com meus plugues de cera para o ouvido e uma daquelas máscaras de cobrir os olhos que a gente ganhava no avião (acho que a minha ainda é da PanAm), até que a experiência não é tão ruim.

De novo: obrigado a todo mundo que se preocupou, que desejou melhoras. Já estou bem (bem lento, meio em câmera lenta, mas estou). E fiquei pensando: no domingo, lá estava eu visitando a Claudinha Telles no hospital, preocupado com seu coração dilatado, e fazendo planos para um livro com as histórias da sua carreira, sem saber que o meu coração desafinava aqui do lado esquerdo do peito.  Três dias depois, estávamos ambos na UTI.

O que preciso agora é aprender a beber água. E, desde que possa levar os protetores auriculares, a máscara e o celular, vou tirar do meu testamento vital a menção à UTI.  E incluir a tricotomia entre os procedimentos inaceitáveis. Porque da depilação para a tatuagem e o piercing, é um pulo.

E vamos torcer para que a Claudinha possa logo vir contar os causos da sua internação. Já vi o vídeo em que ela canta para os outros pacientes. O coração dela não é só maior – é também mais afinado que o meu.

 

 

Sob o signo de câncer

Cancer

O primeiro câncer a gente nunca esquece.

Eu tinha 27 anos e a solução era relativamente simples: extirpar o testículo afetado e substituí-lo por uma prótese de silicone.  Ninguém precisava saber, ninguém notaria a diferença.

A fertilidade não ficaria comprometida, nem a produção de testosterona. Esse é o bônus dos órgãos duplos: um segura a onda quando o outro pisa na bola.

Não me opus à remoção, mas resolvi que não iria me submeter a qualquer tratamento agressivo posterior, como quimioterapia.

Avisei à família, mudei os beneficiários do seguro de vida, rasguei os textos que não prestavam (vai que a família resolve fazer uma edição póstuma e fico pagando mico perante a posteridade). E, apenas por desencargo de consciência, consultei outro profissional.

Este achou melhor não cortar o mal pela raiz sem antes fazer uma biópsia – e no final era apenas um cisto, que foi devidamente removido sem causar maiores danos aos “testemunhos da virilidade”.

O lado bom foi ter descoberto que era infértil – e todas as suspeitas de gravidez que ocorreram depois desse evento foram recebidas com a fleuma de um monge tibetano viciado em maracujina.

O segundo câncer a gente acaba esquecendo.

Demora mais um pouco, porque aconteceu há um mês.

O diagnóstico já não vem cheio de meias palavras: é na lata. Porque, de tanto uso, a palavra “câncer” foi esvaziada.

O dermatologista olhou minha cabeça e, se teve alguma dúvida, esta durou segundos: “É câncer. Tem que tirar o quanto antes.”

Um câncer no testículo (assim como o de mama) pode ser detectado na hora do banho, ou– não recomendo – na hora do sexo.  Um de pele, no topo da cabeça, só é descoberto pelo barbeiro ou por alguém que esteja catando piolho (delícia a que não faço jus desde os 10 anos de idade).

Devia estar lá há bastante tempo, incógnito, com suas celulazinhas surtadas se multiplicando fora do alcance das vistas, inacessível ao espelho.

Como da primeira vez, consultei um segundo profissional – agora um oncologista. O diagnóstico também levou segundos – o que me fez crer que, ou a coisa tava braba ou era um câncer com legenda.

Um terceiro médico atestou – e mandou remover aquilo de imediato.

Em 10 dias, lá estava eu nu (por que se tem que ficar nu para tirar uma mancha no cocuruto?), de camisolão, no centro cirúrgico. Não vi nada, não senti nada. Olhei para a anestesista, que disse que ia começar a me sedar e a frase seguinte já era a do cirurgião dizendo que o procedimento tinha sido um sucesso.

Dois cm2 de pele retirados, parte do couro cabeludo descolado do crânio para poder ser espichado e tampar o buraco sem necessidade de enxerto.  Passada a anestesia, me senti uma Elza Soares, todo repuxado (eu ria, e o crânio sorria comigo; piscava, e o crânio parecia piscar junto).

Ontem, às 10 da noite, o resultado: carcinoma basocelular. Um câncer de segunda linha, que talvez merecesse título menos pomposo.

Desta vez não alterei os beneficiários do seguro, não rasguei escrito nenhum (até porque não dá pra rasgar arquivos do Word), mas reiterei o que está no testamento vital: nada de terapias agressivas, entubamentos, reanimação, transplante, UTI. A vida está de boa; a sobrevida eu dispenso.

A única sequela é parte da cabeça raspada e o restante com máquina 2.  É bom mudar o visual de vez em quando. E descobrir que, se for preciso catar piolhos (metafóricos), posso contar com alguns bons amigos.

 

Agosto

agosto

31 DE AGOSTO, 1960

– Você vai à parada do dia 7 tocando bumbo – garantiu o obstetra à minha mãe.

Não deu.

E ela gostava tanto de setembro.

Casou-se em setembro.

Um de seus filmes favoritos – ao lado de “As neves do Kilimanjaro” e “Candelabro italiano” – era “Quanto setembro vier”.

Quando setembro viesse, viria o segundo filho. De preferência, uma filha.

Esperara um ano antes pela Rita de Cássia, e vim eu. Desta vez, em setembro, Rita de Cássia haveria de vir.

Mas no dia 31 do mês do agouro, dos ventos e dos cachorros loucos, sentiu que o tempo virava – lá fora e dentro de si.

Entrou em trabalho de parto enquanto o céu começava a desabar – ou o céu desabou quando ela começou a sentir as dores, não é mais possível saber, e não faz diferença, pois não há relação de causa e efeito. Ou há?

Imaginemos que à primeira contração correspondeu um relâmpago, à segunda um trovão, às seguintes as janelas fechadas às pressas, e então as telhas voaram, e a água desceu pelas paredes, pelo bocal da lâmpada, até que se pôde ver o céu faiscando por entre as frestas do forro de madeira, e o quarto foi inundado.

Minha vó acudiu com rezas e panos. Meu avô abriu um guarda-chuva sobre a cama, para proteger a parturiente – avô, avó, cama, todos com água já pelas canelas.

Minha mãe queria que tudo acabasse logo – o vendaval, as dores – mas queria também que desse logo meia-noite e fosse setembro. E nem setembro chegava, nem o temporal se ia.

Às 11 e tanto, ainda sob a tempestade e o guarda-chuva,  envolvida pelas ave-marias e salve-rainhas que tentavam subir aos céus se esgueirando por entre os raios e trovões, foi mãe de novo.

No quarto inundado, fez ela mesma o batismo com o resto de água benta guardada no armário, antes que o teto viesse a desabar, e o bebê morresse pagão.

E o batizou de novo, para o caso de os estrondos terem abafado sua voz; e uma terceira vez, por garantia, e talvez porque ainda tivesse forças e houvesse água benta – ou quem sabe já fosse água da bica.

Sobreviveram todos – ela, o bebê, meus avós, os móveis, eu (possivelmente aos berros no colo de alguém), as tesouras do telhado, parte das telhas, o teto.

Ela queria tanto uma menina, que viria quando setembro viesse.

Foi mais um menino.

E ainda era agosto.

Quem sou eu

asma

Volta e meia tenho que escrever “uns dois parágrafos” a meu respeito, e embatuco.

Minha biografia não chega a tanto.

Mineiro, arquiteto e…. e é isso.

Há quem, nessas situações, coloque – meio à brinca, meio à vera – o signo, o ascendente e uma Lua em Escorpião para indicar que tem pegada.

Eu me contento com ser mineiro (é algo que me define, esses oitenta por cento de ferro na alma), arquiteto (é a profissão que escolhi, e com a qual me mantenho) e recuo antes de incluir “asmático”.

Asmático, não soasse como vitimização, deveria vir antes de arquiteto e junto com mineiro, porque nasci assim, e a todo o resto veio bem depois.

Ser mineiro moldou meu modo de falar, de pensar. Ser asmático, o jeito com que me afogo no ar que respiro, e que acaba por afetar como falo e penso.

Junto com a asma veio a ansiedade. E com a ansiedade, o pânico.

Esse aperto no peito pela manhã, à noite – é asma ou angústia?

Esse chiado, como se houvesse um gato asfixiado na garganta – é ar demais ou de menos?

E essa palpitação, essa vontade de fugir, de estar em qualquer outro lugar que não aqui, porque aqui o ar é irrespirável?

Asma e pânico são formas distintas de sufocamento. Uma é afogar-se no ar; a outra, no mundo.

Talvez nem todo asmático seja ansioso. Isso pode ter a ver com Touro, com a ascendência em Áries, com a Lua (sabe-se lá onde) prateando a solidão.

Aquela solidão de não poder correr na hora do recreio. Não poder sair no sereno. Ter que usar agasalho, frequentar curandeiros, tomar poções de mel e ervas, ser benzido junto à gameleira. Dormir quase sentado, com emplastro fumegante sobre o peito.

E, para aproveitar o fôlego, falar depressa demais. Por não poder correr, andar depressa demais. E respirar pela boca e pelo nariz em quantidade que nunca é demais para os pulmões.

Asma não tem cura. Ansiedade e pânico, talvez.

Na próxima vez que tiver que escrever “dois parágrafos” a meu respeito, talvez parafraseie Drummond:
“Quando nasci, um anjo aflito
desses de asas e retinas fatigadas
disse: Vai, Eduardo! ser ofegante na vida.”

Ter uma Lua em Escorpião ajudaria. Mesmo que fosse minguante. Mesmo que só para enfeitar a biografia.