Malungo

Etimologia

Pode parecer maluquice – palavra de origem controversa: viria do latim “malus” = mal, ou dos malucos, habitantes das ilhas Molucas , que vendiam cravo e noz moscada a preços absurdos, e lutaram ferozmente contra os portugueses -, mas tenho um dicionário na mesa de cabeceira, e o leio como se lê romance.

Ali não faltam personagens extraordinários, enredos mirabolantes, viradas de roteiro, palavras cujo passado contém segredos que talvez jamais sejam revelados, outras que morreram, que ressuscitaram, que se reinventaram, que usam máscaras, mentiras, maquiagem pesada.

O dicionário é meu I-Ching. Abro-o ao acaso (hoje foi na letra M) e tenho revelações.

Maçaneta tem esse nome devido à semelhança com a maçã. No século 16, quando a palavra nasceu, possivelmente ainda não havia maçanetas de alavanca (alavanca é das que têm origem misteriosa).

Macabro vem dos macabeus, heróis bíblicos cujo culto estava relacionado com a morte, e que ganharam esse nome por causa de Judas Macabeu, – literalmente, Judas Martelo, aquele que golpeia o inimigo, aquele que persegue e procura exterminar um mal.

Em latim, martelo é malleus – de onde provém “maleável”, o que se dobra ao martelo.  Seria a morte maleável?

O calçamento de pedra britada, aglomerada com saibro e areia grossa e comprimida a rolo depois de molhada se chama macadame por causa do inventor dessa técnica, o engenheiro escocês John Mc Adam.  Não tem nada a ver com a noz macadâmia, que deve seu nome a outro John Mc Adam, só que naturalista e australiano.

Machete era uma pequena viola; depois – ah, as artimanhas do destino! – virou um sabre de dois gumes.

Maçom vem de “makón”, o ato de preparar a argila para a construção. Maçonaria era a arte dos pedreiros. Não à toa chamam Deus de Supremo Arquiteto…

Maconha vem do quimbundo, e quer dizer erva santa.
Macaxeira era um dos nomes do diabo entre os índios do Brasil.

Se fumar maconha comendo macaxeira, estará acendendo uma vela pra Deus e outra pro diabo – só que o diabo não é o que parece.

Madeixa, hoje apenas uma porção de cabelos, quer dizer “seda crua”.  Madeixas sedosas serão um pleonasmo.

Mago, que hoje significa mágico, feiticeiro, encantador, vem do grego “mágos” (sábio, sacerdote).  Os reis magos não seriam nem reis nem feiticeiros, mas homens sábios (e talvez nem fossem três, mas doze). Um dos presentes que levaram era a mirra, uma planta utilizada para secar feridas e embalsamar cadáveres.  Daí o verbo mirrar: ressequir, reduzir.

Malária é, literalmente, ar insalubre (mala + aria). Por isso não se pega malária em Buenos Aires.

Mancebo é o mesmo que moço, amante. Daí vêm tanto emancipar (libertar) quanto amancebar (prender-se a alguém, mas sem os vínculos do casamento).  Mancebos emancipados e amancebados vivem uma espécie de liberdade bipolar.

Manco é igual a coxo (aquele que tem uma perna mais curta). Mas vem do latim “mancus”, derivado de “manus” (mãos). É manco, etimologicamente, aquele a quem falta… mão.

De “manus” também vieram manha e manhoso, no sentido de habilidade manual. Para, por exemplo, fazer manobras de várias maneiras, manusear manuscritos e manipular manivelas.

Manicômio é onde se cura a mania (“manía” = loucura, demência).
Marechal era quem cuidava dos cavalos.

Margarida quer dizer pérola, e foi daí que veio margarina (combinação de ácido margárico e glicerina).
Marmita vem do francês “marmite”, que significa hipócrita (“por causa do conteúdo escondido do recipiente”).

Por fim, bate o sono – hora de devolver o livro das palavras à mesinha de cabeceira – e vem a melancolia, de “melanós” (a mesma origem de melanina, melanoma). Melancolia não é mais que a bílis, o fel negro, o veneno sombrio.

Abri o I-Ching com maçaneta. Fechei-o com melancolia.  E que ninguém venha me dizer que o dicionário etimológico não é um romance cheio de mistérios, intrigas, encontros, desencontros e sabedoria.

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Palíndromo

arara

Palíndromo é a aquilo que tem o mesmo sentido quando lido da direita para a esquerda ou vice-versa. O difícil é um palíndromo que faça sentido, seja lá em que direção for.

“Ovo”, por exemplo, é um palíndromo. Bobo, mas é.

A maior palavra palíndromo em português é “omissíssimo” (superlativo de omisso).

Em finlandês há uma ainda mais comprida: “saippuakivikauppias”, que quer dizer “vendedor de soda cáustica”. Não tente pronunciar isso em casa.

A coisa complica quando se quer formar uma frase.

A lupa pula.
Oi, rato otário!
A miss é péssima.
Oto come mocotó.
O lobo ama o bolo.
A pateta ama até tapa.

Quanto maior a frase, pior fica.

Soluço-me sem óculos.
Lá vou eu em meu eu oval.
Acuda cadela da Leda caduca.
A dama admirou o rim da amada.
Seco de raiva, coloco no colo caviar e doces.
O duplo pó do trote torpe de potro meu que morto pede protetor todo polpudo.

E para que servem os palíndromos? Absolutamente nada. Mega bobagem. (“Mega bobagem” é palíndromo)

Ainda assim, não falta quem os estude ou se dedique a eles.

São classificados em 3 tipos:

Os explícitos, que trazem uma mensagem inteligível: “A cara rajada da jararaca“, “E até o Papa poeta é”, “Anotaram a data da maratona”, “Socorram-me, subi no ônibus em Marrocos”.

Os interpretáveis, que possuem coerência, mas exigem algum esforço intelectual: “Oh nossas luvas avulsas, sonho.”, “A Rita, sobre vovô, verbos atira.”

E os insensatos: “Olé! Maracujá, caju, caramelo.”

Há palindromistas famosos: Chico Buarque (““Até Reagan sibarita tira bisnaga ereta”), Millôr Fernandes (“A grama é amarga”), Laerte (“Rir, o breve verbo rir”), Gregório Duvivier (“Amar dá drama”).

Ótimo, só eu, que os omito. (Olhaí outro palíndromo – e real, porque minhas tentativas de palindromar nunca deram em nada). Mais talento teve o Ziro Roriz, palindromista curitibano de pseudônimo palindrômico, que escreveu:

“A sua pauta é a sua causa e o bobo é ele. Levíssimo é o vivo namoro da Regine, roda na cabana bacana da casa da tropa nada romana. Lê o novo vodu do vovô (no caso dono do casaco do anão bobo). E ria Nair a torta. Maíra gaga era. Se caga Cesária má. Mara viu; Ema ri; Vovó vê. A mamãe, o tio réu (que Clara leva). O Adão, Ana, e Leo, viajaram ao além a pé; e nós, de navio. Dario com Leno e Leonela tirana, esmagam-se. Mata-me, se a Leon a Mãe se opõe. Ane lê. Acir, assim Ana já via (com a moça Lea) Iraci falar: a Plácida Razera do azar é razão da reza. Por prazer a rica alemoa baba na mão. Vão, mas é do anão o linotipo. Dezoito moços no sol, Eno viu corado. Revele doida! Vovó vê Vera torta a trote. Viva ! Diva na ida vê ave além. Ari é da maloca. Irá sorrir Rosa e Ari é sacana. E assim Ana, com a moça, lê. A Iraci falará para lá: ficaria ela com a moça na missa ? É Ana caseira e a sorrir Rosa ri. A cola madeira mela. Eva é vadia na vida, vive torta a trotar e vê vovô vadio de leve rodar o cu. Ivonel o sonso; como tio Zé do pito. Nilo, o anão de Samoa, voa mana. Babão mela Acir a rezar pró-paz. Era do azar é razão da reza radical. Para lá ficaria ela, com a moça Iva, já na missa. Rica Elena é, opõe-se a Manoela e se matam. Esmagam-se Ana Rita, Leno e Leonel. Moço irado, Ivan Edson é, e Pâmela o amará já. Ivo (ele anão) Adão Avelar, Alceu quer. O Ito e a mamãe, vovó viram e uivaram. A Maíra se caga. Cesar e a gaga riam. A trotar ia Nair. É o bobo anão do casaco (dono do saco novo), vodu do vovô Noel ? A namorada na porta da sacada na bacana cabana do Reni gerado romano vivo e omissível. Ele é o bobo e a sua causa é a tua pausa.”

Leia de trás pra frente, se puder – e depois me diga se não parece tuíte do Carlucho.

Há dois romances palindrômicos em inglês: “Satire: Veritas”, de David Stephens com 58.795 letras, e “Dr Awkward & Olson in Oslo”, de Lawrence Levine, com 31,954 palavras. Ambos, suponho, intraduzíveis – e os espóileres são inevitáveis.

Por que esse assunto logo hoje? Porque ontem, 9/10/2019, foi um dia capicua (outro nome do palíndromo).

Pena que os gregos não tenham tido a ideia de batizar o palíndromo (literalmente, “fazer o caminho de volta”) com um nome que também se pudesse ler de trás pra frente. Ironicamente, o horror a palíndromos se chama aibofobia – e quem sofre disso sofre em dobro, porque essa palavra é um palíndromo.

Tentei criar palíndromos exclusivos para este texto, mas não saí do “arara ama arara” – que, convenhamos, não enriquece em nada a minha biografia. O jeito é apelar para os universitários:

Ajudem Edu já!

 

Acôrdo ortographico

acordo
(Ilustração: carnavalização de desenho de Bruno Carneiro, originalmente em preto e branco)

Uma comissão discute hoje na Câmara a revogação do Acordo Ortográfico de 1990 (esse que matou o trema, tirou o acento de ideia, fez as pazes com o K, o W e o Y, e nos tornou analfabetos em hífen).

Tudo bem que o acordo foi mal feito e que os portugueses se recusaram a adotá-lo (adoptá-lo) de fato (de facto). Em vez de unificar o idioma, o tiro ficou pior que o soneto e a emenda saiu pela culatra.

Mas se é para revogar por questões etimológicas ou por respeito a certas tradições, então revoga direito.

Podemos começar revogando a mudança feita em 1973, que aboliu unânimemente os acentos grave e circunflexo em palavras formadas pelo sufixo -mente e pelos sufixos iniciados por z.  Voltemos a escrever sòzinhos, sem corretor ortográfico por perto, como fazemos ùltimamente.

Depois a de 1971, quando caiu o acento diferencial.  Bora escrever que êste govêrno não tem pilôto (até porque – apertem os cintos! – não tem mesmo).

Em seguida, cancelamos a de 1945 e voltamos a escrever que êles teem sciencia de que a raínha ennegreceu o côco da Güiana.  Ok, ninguém nunca jamais escreveu isso, mas era assim que se escreveria até aquele anno.

Recuemos a 1943, quando respirávamos a athmosphera, caprichávamos na caligraphia, usávamos o telegrapho, desenhávamos polygonos, nos falávamos ao telephone (que então só falava, não tirava photoghraphia), e comíamos vegetaes. Nosso idioma era o portuguez e assim é que devíamos escrevel-o, fosse no Alentejo, fosse no Piauhy.

Anulemos também a de 1911, que levou Fernando Pessoa a declarar que sua pátria era a língua portuguesa (ops, portugueza), e que não se incommodaria se tomassem Portugal, mas sentia odio (sem acento) da pagina (também sem acento) mal escripta, não de quem não soubesse syntaxe ou escrevesse em orthographia simplificada.

Foi nessa epocha que o escriptor Teixeira de Pascoaes choramingou:

“Na palavra lagryma(…) a forma da y é lacrymal; estabelece (…) a harmonia entre a sua expressão graphica ou plastica e a sua expressão psychologica; substituindo-lhe o y pelo i é offender as regras da Esthetica. Na palavra abysmo, é a forma do y que lhe dá profundidade, escuridão, mysterio… Escrevel-a com i latino é fechar a boca do abysmo, é transformal-o numa superficie banal.”

E bora anular também a reforma de 1907, quando tiveram fim a deshonra e a inharmonia, bem como as palavras começadas por Ç. Foi também quando o idioma ficou orpham do K, do W e do Y (excepto no vocabulário de origem indígena, que manteve suas characterísticas originaes). Foi n’aquelle anno que o Brazil virou Brasil.

As reformas têm sido desde sempre um desacordo só. A de 1911 foi adoptada só por Portugal.  Houve um acôrdo em 1931, que não deu em nada. Este facto levou à convenção ortographica de 1943, que tampouco deu em alguma coisa – tanto que foi feita outra em 1945, com o mesmo triste fim.

Se é para unificar, melhor rebobinar a 1500, quando a língua chegou aqui, e encontrou homeës pardos todos nuus sem nenhuűa cousa que cobrisse suas vergonhas. traziam arcos nas maãos e suas see tas. vijnham todos Rijos pera o batel e nicolaao co elho lhes fez sinal que posessem os arcos, e eles os poseram. aly nom pode deles auer fala nem antë dimento que aproueitasse polo mar quebrar na costa. soomente deu;hes huum barete vermelho e huűa carapuça de linho que leuaua na cabeça e huűsombreiro preto. E huűdeles lhe deu huűsombreiro de penas daues compridas com huűa copezinha pequena de penas vermelhas e pardas coma de papagayo e outro lhe deu huűramal grande de comtinhas brancas meudas que querem pareçer daljaueira asquaes peças creo que o capitam manda a vossa alteza e com isto se volues aas naaos por seer tarde e nom poder deles auer mais fala por aazo do mar.

De lá pra cá, somos dois fados desencontrados, dois amantes desunidos. Eles lá, agarrados ao latim e ao grego; nós aqui, aos abraços e beijos com o tupi, o guarani, o quimbundo, o quicongo e o umbundo (sem contar os adultérios posteriores, com o francês e o inglês).

Vai dar certo trabalho aprender a falar como Camões, Cabral e Caminha. Mas não tendo hífen, é lucro.

 

A culpa é do estagiário

preguica

O sujeito que inventou a língua portuguesa deixou algumas partes a cargo do estagiário, e não fez o chequiliste das funcionalidades antes de colocar o produto no mercado.

Isso que temos aí para nos expressar é, claramente, uma versão beta.

Duvida?

“Fulano acabou de ser visto saindo do motel com sua mulher”.

Antes de ir tomar satisfações, a questão que se coloca é: esse “sua” é a sua mesmo (pessoa com que eu faço a intriga) ou a dele (pessoa em cuja vida eu não tinha nada que estar me metendo, já que a mulher é dele e eles vão aonde quiserem)?

São coisas bem distintas ir ao motel com a mulher alheia (falta de decoro) e com a própria mulher (falta de imaginação).

Imagine quantas D.R.s e crimes passionais poderiam ter sido evitados se o idioma fosse um pouco mais profissional. Como o inglês, por exemplo, em que “your” ou “his”/”her” esclarecem tudo.

Outro exemplo: “Temos que manter acesa a chama do amor em nossos corações”.

Como assim “nossos corações”? “Em nossos pulmões” (ou rins), tudo bem, porque temos dois. Mas coração a gente só tem um. Poucas pessoas – as que fizeram transplante, por exemplo – podem usar essa frase sem incorrer em dubiedade.

Por outro lado, dizer “em nosso coração” dá a impressão de termos um coração só, compartilhado.

Um estagiário além do 5º período teria pensado numa fórmula melhor para essas situações – algo como um plural só meu e um plural envolvendo mais gente.

Graças aos bombeiros, nossas vidas foram salvas”, poderiam dizer dois gatos (7 vidas cada um). Mas para duas pessoas, a coisa – mesmo para quem leva vida dupla – soa estranha.

Temos 5 vogais (mais o Y, que parece vogal mas é genderfluid) e 19 consoantes (mais o H, que é não binário). Dá pra fazer um sem número de combinações, permutações e arranjos. E, no entanto, a preguiça do estagiário fez com que tivéssemos uma penca de repetições.

“Vir” é tanto o infinitivo de um verbo (“Direito de ir e vir”) quanto o subjuntivo futuro do verbo “ver” (“Se eu vir você indo e vindo, você vai ver!”).

“Eu pulo” pode significar que estou polindo ou pulando. Mas se polir, não pule; se pular, não pula.

“Morto” é o particípio passado de “morrer” e de “matar”. É preciso uma análise jurídica e sintática para saber se se trata do réu ou da vítima.

Sem contar que o tal estagiário era adepto da lei do menor esforço. Só isso explica “em cima” e “encima”, “embaixo” e “em baixo”, “senão” e “se não”, “agente” e “a gente”, “acerca” e “a cerca”, “aparte” e “à parte”, “decerto” e “de certo”, “afim” e “a fim”, “haver” e “a ver”, “haja” e “aja”, “hora” e “ora”; e – aí era motivo para justa causa – “por que”, “por quê”, “porque” e “porquê”.

Eu, como qualquer falante do português, contrataria um profissional para revisar o idioma. E não ficar dependendo, como na sentença anterior, de uma vírgula para evitar mal entendidos.

 

 

 

 

O pior leitor é aquele que não quer ler

legere

Toda mulher quer ser amada, disse a Rita Lee.
Todo homem, também.

Ser amado é fácil. Basta encontrar alguém que não nos conheça a fundo.

Quem escreve quer mais que ser amado: quer ser compreendido.

Quer dizer “A” e ter a ilusão não apenas de que o leitor entenda “A”, mas que “A” signifique para quem lê algo parecido com o que significa para ele, que escreve.

Por isso é que, mais que inspiração e domínio do idioma, o escritor precisa de bons leitores.

Pode parecer uma paulocoelhice, mas o bom leitor é aquele que lê.

A maioria das pessoas não lê. Apenas foi alfabetizada – seja pelo método fonético do Ivo viu a uva ou pela pedagogia do oprimido, na qual é o patrão explorador de Ivo quem vê, vende ou devora a uva, e Ivo fica a ver navios.

O verbo “ler” vem de “legere”, que significava, originalmente, “colher, escolher”, selecionar os melhores frutos no pé, na parreira.

Ivo não só viu a uva. Ao ler a palavra “uva”, Ivo a colheu.

Assim como “cultura”, que era apenas o ato de cultivar plantas (cultura de café, cultura de cana de açúcar) e adquiriu depois o sentido de cultivar o intelecto (cultura artística, cultura geral), o verbo “ler” passou a designar o que se colhe com os olhos, o que se percebe através das letras, das palavras.

De uns tempos para cá, “ler” começou a ser uma colheita seletiva às avessas – não dos melhores frutos, mas dos bichados, bicados, imaturos, apodrecidos. Lê-se o que se quer ler, não o que se quis dizer ou o que está dito. Lê-se por meio de falácias, de silogismos. Nas entrelinhas, nas entreletras, pelo avesso.

Ler deveria ser uma forma de aprender (trazer para junto de si, levar para a memória), não de aprisionar.

Ambos – aprender e aprisionar – vêm do verbo “prehendere” (agarrar, prender), que também (como “ler” e “cultura”) tem origem rural: “prae” (à frente) + “hedera” (hera) = a trepadeira que se agarra às paredes para crescer.

Quem escreve quer ser lido (colhido), compreendido (acolhido) e amado (de “amare”, verbo que gerou amor, amigo, mãe). Talvez porque escrever (do latim “scribere”) seja, lá na sua gênese, o mesmo que cortar, fazer uma incisão.

Ao escrever, o escritor se abre. É preciso ter olhos amorosos (de mãe, de amigo, de amante) para ler (colher) os melhores frutos dessa vinha, dessa ferida.

Ler o que está fora de nós, e que o outro nos trouxe, é compreensão, aprendizado.

Ler no que o outro escreveu o que já trazemos dentro é uma forma de prisão.

Fama & prestígio

poder

Fama vem do grego “pheme”, que quer dizer simplesmente “notícia” – ou fala, rumor, reputação. O verbo “phánai” significava “espalhar pela palavra”.

Famoso é aquele (ou aquilo) de quem se fala – não necessariamente bem (para os mal falados se inventou a palavra “infame”).

Em Roma, o status de uma pessoa era definido não só pela fama, mas também pelo seu poder e seu prestígio.

Poder (do latim “potis”) quer dizer “ser capaz de” e deriva do grego “pótis” (“marido”) e “despotés” (“senhor, chefe da casa”, de onde se originou “déspota”). Sim, “poder” é uma palavra machista, mas fazer o quê, se as próprias feministas se apoderaram (!) dela quando resolveram se empoderar?

Prestígio é que é boa reputação. Mas não devia: vem de “praestigiae” (“truques, atos de destreza, de malabarismo”). Originalmente, era sinônimo de engano, ilusão, obra dos mágicos, dos prestidigitadores. Daí ter ganho o sentido de impressionar, ter influência sobre os outros.

Em Roma, era preciso o pacote completo (ser falado, obedecido e causar boa impressão), cercando pelos 3 lados. Hoje, basta um desses atributos e a pessoa já se acha uma celebridade (do latim “celebritas” = “multidão, muito repetido”).

A fama (o equivalente a “ser notícia”) às vezes depende de esforço. Outras, do acaso. Ou até da desgraça.

Quem tem mais de 60 se lembra de quando Penha e Pavuna eram famosas – uma, por causa de uma fera; outra, por uma noivinha.

Abadiânia de Goiás ficou famosa por fenômenos paranormais (ou apenas anormais). Varginha, por fatores extraterrestres.

Atibaia, pelo sítio de um amigo. Araraquara, por uns arapongas de araque.

A Ladeira do Sacopã deve sua fama a um crime. A Rua Tonelero, a um atentado. O Carandiru, a um massacre.

Taubaté, a uma grávida e uma velhinha. Bagé, a um analista. Ipanema, a uma garota.

Andy Warhol, na década de 60 (muito antes do insta e das selfies e dos digital influêncers) disse que “um dia, todos terão direito a 15 minutos de fama” (não necessariamente de poder e de prestígio).

Já morei em lugares famosos – sem precisar me mudar para Beverly Hills, Notting Hill ou Manhattan. Lugares que tiveram só seus 15 minutos mesmo.

Unaí poderia ser famosa pelo seu calor diabólico, seus flamboiãs e cajueiros, sua pamonha salgada, seu requeijão moreno, suas pelotas de cabrito. Mas chegou ao Jornal Nacional por uma chacina, quando o prefeito mandou matar 4 fiscais do Ministério do Trabalho.

Andrelândia merecia manchetes pelo frio do cão, o casario colonial, a procissão de Corpus Christi, o sítio arqueológico, os “veados” e “caranguejos” (um dia eu explico). Mas ganhou fama efêmera por uma seita que escravizava seus fiéis.

Esmeraldas tem a Folia de Reis, a Fazenda Santo Antônio, os mascarados no Carnaval, um dialeto próprio (ô bondade!), mas só se ouviu falar dela quando o goleiro Bruno a escolheu para cenário de um assassinato e o sumiço de um corpo.

Fama era também uma deusa romana, mensageira de Júpiter. Tinha asas enormes, com um olho em cada pena. E tantas bocas e orelhas quantos olhos, e voava sem descanso, espalhando mentiras e verdades, misturadas.

Essa fama eu queria. Nem que fosse para tornar mais sincrético meu altar doméstico, que já conta com Sf. Ioan cel Nou de la Suceava (São João de Suceava), Nossa Senhora de Luján, São Jorge e Iemanjá.

O poder só me interessaria se viesse junto com o amor – mas o amor e o poder parecem fora de cogitação, agora que a Rosana (apesar das dedicatórias apaixonadas de 10 anos atrás) nem se lembra mais de mim.

E queria prestígio também. Mas aquele com recheio de coco e cobertura de chocolate.

Vocábulos e palavras

Coisa

Numa coisa quase que temos que dar razão às feministas extremistas fundamentalistas radicais do politicamente correto: nossa língua parece machista.

As palavras no masculino têm sempre um peso maior, um significado mais importante.

Mentalize, por exemplo, ”o jantar”.

Mesa bem posta, talheres alinhados (mesmo que não tenhamos a menor ideia de como usá-los), guardanapos (de linho) dobrados, umas taças de cristal, quem sabe velas. E comida da boa. Normalmente pouca e cara, mas boa.

Agora pense em “a janta”.

Será invariavelmente algo requentado do almoço, pra se comer na cozinha, ou com o prato apoiado nos joelhos vendo novela bíblica da Record no sofá de napa, com talher de cabo de plástico e Tang no copo de massa de tomate.

Mesma coisa com a tesoura, pobre operária da costura, e o tesouro – que, obviamente, nunca trabalhou na vida.

Ou o chinelo, que vai se desgastando, perdendo as tiras e ganhando cheiro, até chegar ao nível mais degradado da sua existência, quando então muda de gênero e vira a chinela.

A lista vai longe.

O porto e a porta; ele se abrindo para os mares; ela, apenas para outro aposento.

O manto que cobre reis; a manta, as pernas dos plebeus.

Do poço, tira-se água potável; na poça, molham-se os pés na água suja.

No horto cultivam-se plantas ornamentais; na horta, couve, chicória, salsa e cebolinha.

O que as feministas fingem ignorar é que sexo é coisa biológica, e gênero, categoria gramatical.

Ao insistir no “todos e todas”, esquecem que o masculino é um gênero não marcado (é um presumível genérico: engloba seres de ambos os sexos), enquanto o feminino é exclusivo.

“Um homem prevenido vale por dois” refere-se a toda a humanidade, sem ser necessário especificar que a mulher prevenida também valha por duas. Já “com mulher de bigode nem o diabo pode” mostra que a recíproca nem sempre é verdadeira (vide o caso do Ned Flanders e do Seu Madruga).

Pense nisso na próxima vez em que ouvir “companheiros e companheiras”, “senhores ministros e senhoras ministras”, “nobres colegas e nobres colegas”.

Quando o vácuo toma conta do cérebro, a vaca vai pro brejo.

 

(publicado originalmente em 25 de abril de 2018)