Colocando os pingos nos jotas

iii

Colocar os pingos nos is é deixar as coisas bem claras. Isso todo mundo sabe.

O que eu desconhecia é que até o século 16 o i não tinha pingo. E quando na palavra havia dois is em seguida, o is sem pingo ficavam parecendo um u. Então, para saber quando eram dois is e quando era um u, colocavam-se pingos nos is.

Claro que aí deixavam de saber se eram dois is ou um ü (um com trema), mas não se pode resolver todos os problemas de uma vez só.

Meu pai achava pouco colocar pingos nos is, e os colocava também nos y. Não era um trema, mas dois pingos, um em cada galhada do y. Para quê? Jamais saberemos.

A vida inteira ele assinou o Sidney com um pingo no i e dois no y. E mais três pontinhos no final, por ser maçom. Seis pontos ao todo, um por letra. Eu, Sidney que sou (pelo menos no RG), também usei durante algum tempo, nos primeiros anos de escola. Até achar que aquilo era meio anacrônico, assim como os contos de réis que insistíamos em falar em casa, quando há muito a moeda já era o cruzeiro.

Lá em casa pingavam-se não só os is (literal e figuradamente) e o ipsilones, mas também o jota.

O jota tem essa peculiaridade: não tem pingo quando escrito à mão, mas o pingo jamais deixa de estar, sem qualquer justificativa, quando é digitado. E, a exemplo do i, somente na minúscula.

Se colocar os pingos nos is é não deixar margem de dúvida, a expressão “colocar os pingos nos jotas” também devia existir. E significar algo como ter aquele jeitão jurássico de pessoa entojada, enjoada, nojenta.

Quem coloca pingo em jota é capaz de tudo.

De escrever óptico, para distinguir de ótico (que tem a ver com o ouvido, não com a visão).

De corrigir quando alguém diz pilastra em vez de coluna. Como todo mundo que estudou Arquitetura por cinco anos está cansado de saber, a coluna é destacada da parede, e a pilastra é grudada.

Quem pinga jota não perdoa alguém dizer que teve sua carteira roubada, e, em vez de se solidarizar, aproveita a desgraça alheia para explicar a diferença entre furto e roubo.

Não perde a chance de dizer que que sorvete é uma coisa, sorbet é outra. Que corona é o vírus, e covid, a doença.

Quem pinga jota sabe quando usar infarto e quanto usar enfarte. Dirá que “fulano sentiu-se enfarte (cheio, farto) depois de traçar uma feijoada e teve um infarto (lesão nas artérias) do miocárdio”.

“Colocar os pingos nos jotas” implicaria corrigir quem diz “implica em” (isso implica aquilo, não naquilo). Puxar a orelha de quem nunca sabe se assistiu o filme ou ao filme e, na dúvida, prefere dizer que viu. Quem se enrola nos “vêm” e “veem”, dos verbos vir e ver. Nos porque, por que, porquê e por quê (por que será que existe essa frescura? Porque talvez, se procurarmos o porquê, descobriremos que não há por quê).

Os que pingam jota devem ser do tipo que ainda sofre com o óbito do trema. Talvez por terem amado, em algum lugar do passado, uma Thaïs que lia Madame de Staël e usava Anaïs Anaïs.

Além dos que põem os pingos nos jotas e nos ipsilones, há também os que cortam o Z. Mas aí já é caso de polícia.

Top

top

– Cara, olha como a língua portuguesa é rica: no Dicionário Aurélio constam 435 mil verbetes…

– Top!

– Eu podia dizer que são 435 mil palavras, mas existe uma palavra específica para essas definições que a gente encontra nos dicionários, que é verbete. Este é o termo correto. Verbete não é só a palavra, mas também suas definições, os vários sentidos que ela pode ter, os seus sinônimos…

– Top.

– E veja quantas opções existem para a palavra “palavra”: termo, vocábulo, expressão…

– Top…

– E cada uma com uma nuance.  Por mais que “palavra” e “vocábulo” sejam sinônimos, você nunca vai dizer “vocábulos românticos” ao ouvido de alguém.  Não é por serem sinônimos que podem ser usados, ou empregados, ou utilizados indistintamente.

– Top.

– Temos um vocabulário considerável. “Usar” pode ser o mesmo que “utilizar”, mas depende do contexto. “Usei uma ferramenta” ou “utilizei uma ferramenta”, tanto faz. Mas não há lojas de “roupas utilizadas”.  E ninguém “utiliza drogas” no sentido de “consumir drogas”, mas apenas quando, por exemplo, trabalha com drogas em laboratório.  Viu como é sutil?

– Top…

– E mesmo “sutil” pode ser algo quase imperceptível, ou elegante, sagaz, misterioso, delicado, tênue, fino, suave. Olha quanta sutileza.

– Top.

– O que eu estou querendo dizer é que nós dispomos de um léxico muito vasto – que é uma maneira mais elegante de falar que temos um vocabulário muito grande – para ficar nos valendo sempre dos mesmos termos, entende? Um filme pode ser incrível, ótimo, sensacional, maravilhoso, estupendo, formidável, extraordinário, fascinante, impressionante, magistral, sublime…

– …ou top.

–  … e cada um desses adjetivos… como assim, top?

– Top.

– Sexo quando é gratificante é o quê?

– Top.

– Um churrasco bem servido, com cerveja gelada?

– Top.

– Um aumento de salário? Exame de gravidez negativo? Férias em Noronha? Pênalti a favor no último minuto?

– Top. Top. Top. Top.

– Cara, você precisa desenvolver sua comunicação verbal. Tudo pra você é top. Topa incorporar uma nova palavra por dia? Só hoje você já vai dobrar o seu vocabulário!

– Show.

Sem querer & querendo

sem querer

“Oje, intregamos 120 ônibus iscolares a municípios de São Paulo. No ano paçado, mais de 1300 foram entregues em todo o Brasil. O Governo @jairbolsonaro já disponibilizou atas a estados e municípios para aquisição de mais de 6200 ônbus. Espero que dessa forma a notícia chegue a todos.”

O que o ministro da Educação fez neste tuíte foi, claro, uma jogada de márquetchim.

Seu domínio da língua escrita não é lá essas coisas. Entre usar um corretor ortográfico, contratar um revisor ou aprender ortografia, ele optou por carnavalizar de vez.

Pode dar serto. Pode ser um tiro no pé.

O ministro conseguiu duas façanhas memoráveis na sua gestão: fez um Enem desastroso e botou toda a imprensa de canetinha vermelha na mão, procurando erro de português.  Se por um lado os estudantes sofreram, por outro acabou aquela história de preconceito linguístico, opressão linguística, de ‘nós pega os peixe’. Nunca antes na história deste país se viu gente tão zelosa em relação à pureza do idioma.

A gota d’água para o ministro chutar o balde foi virem corrigi-lo por escrever “aonde” onde era para ser “onde”. Onde já se viu preciosismo desses?

“Onde” tem sentido estático, de lugar fixo.
“Aonde” (a + onde) tem noção de destino, de movimento.

“Onde você mora?”
“O lugar onde eu trabalho é pertinho daqui”,
“Não sei onde deixei o livro”.
(Tudo parado, reparou?)

“Você não tem como me levar aonde eu quero ir”.
“Aonde você pensa que vai a esta hora, Paulo Otávio?”
(Tudo em movimento – menos o Paulo Otávio, que estancou no ato.)

Onde por aonde é coisa simples, errinho de nada. Camões não estava nem aí para isso. Em outras circunstâncias, apenas D. Eurídice, professora aposentada em Minduri MG, teria reparado e feito muxoxo.  Mas com o histórico “imprecionante” de erros cometidos pelo ministro, a cada tuíte as redações ordenam a “paralização” das máquinas e a “suspenção” de todas as atividades até que a Brigada de Ortografia passe um detector de barbaridades (não confundir com barbarismo, que é outra coisa).

Mas como podemos garantir que o ministro tenha errado de propósito ao escrever “oje”, “iscolares”, “paçado” e “ônbus”? Ou que não tenha sido ele a redigir o tuíte, mas alguém do seu Comitê de Gestão de Crises Gramaticais? Elementar, caros watsons:

1.  Reparem em “Oje, intregamos…” e “No ano paçado, mais de…”. Essas vírgula separando o adjunto adverbial de tempo deslocado é sofisticação demais para um tuíte ministerial:

2. “Municípios” e “notícias”, paroxítonos terminados em ditongo crescente, estão corretamente acentuados.

3. “Aquisição” está com S e Ç, não com Z e SS, como seria de se esperar.

Tudo bem que faltou o ponto separando o milhar (1.300, 1.600), que “Governo” estava desnecessariamente em maiúscula e que o adjunto adverbial de modo (“dessa forma”), por estar intercalado, deveria ter vindo entre vírgulas. E que, por fim, era para ter usado “desta” em vez de “dessa”.

O ministro foi esperto. De agora em diante, sempre que errar, poderá dizer que foi de propósito. Mas a gente sabe quando o erro é sem querer e quando é querendo.

Esses “sem querer querendo” não enganam ninguém. Até porque bastaria o “chegue a todos” sem crase para entregar a farsa: o ministro da Educação teria craseado, sem pestanejar.

Pedantismo gramatical

books

Comecei a ler “Maria Claire” por causa de um problema médico.

Estava na sala de espera, o médico atrasou, eu já tinha folheado todas as “Caras” e só me restavam a “Marie Claire” ou olhar para o teto.

Fiz a escolha certa, depois de verificar que o teto era de gesso liso, sem sanca, rasgo, moldura ou tabica, com pintura látex PVA branco neve e luminárias de embutir.

Tenho TOC com erro de português – culpa do avô cruciverbalista, que me corrigia o vernáculo desde quando eu ainda era analfabeto. Com uma “Marie Claire” nas mãos, a pessoa que, como eu, padece de pedantismo gramatical morre de tudo, menos de tédio.

Quanto mais erros encontrava, mais interessante ficava a leitura. Deu dó largar a revista quando a recepcionista finalmente me chamou, meia hora e dezenas de erros depois.

Pensei em fazer uma assinatura, mas meu plano de saúde não tem limite de consultas, e saía mais em conta ir ao endócrino a cada 15 dias, fingindo ver se o colesterol tinha ou não entrado nos eixos. Descobri que posso ler algumas matérias pela internet, e agora me divirto em casa mesmo, sem a recepcionista achar que sou hipocondríaco.

Hoje, por exemplo, encontrei uma reportagem esclarecendo o caso dos “11 bacuraus” –treta que rolou no tuíter esta semana, envolvendo um jornalista que, supostamente, teria levado a mulher e as dez namoradas para ver o filme “Bacurau” (sem nenhuma delas saber da existência das demais).

“Esse número são as que a gente sabe, pois certeza que tem mais, as que nunca se pronunciaram e nem vão.”

Sim, quem escreveu isso foi uma jornalista. Fosse um jogo dos sete erros, faltariam dois – ou eu é que não procurei direito. Mas cinco – “esse número são”, “pois certeza”, “tem mais”, vírgula no lugar de ponto ou ponto e vírgula, “e nem” – até que não está nada mau.

“Durante a viagem, mantivemos contato durante a semana inteira.”

Dois “durantes” em nove palavras (incluindo artigos definidos). Podia ser pior.

“Não queria mais olhar para a cara dele, o questionei se haviam mais mulheres.”

Ponto e vírgula, por que nos abandonastes?
Até quando, pronome oblíquo, abusareis da nossa paciência?
Oh, se as gramáticas falassem, quantas vezes haviam de dizer que o verbo “haver”, no sentido de existir, é impessoal?

“O que ele não esperava é que íamos nos juntar”.

Subjuntivo, onde estás que não respondes?

“Algumas pessoas ficam me chama de corna.”

Sim, o pedantismo gramatical, quando em estágio avançado, inclui também erros de digitação.

“Foi nos tirado o direto de decidir.”

A única regra inteligível do hífen é a que diz que é usado para ligar o pronome oblíquo átono ao verbo – e nem essa a pessoa acerta.

“Descobri que era casado através de uma amiga.”

Como alguém se casa através de uma amiga? A amiga faz a intermediação, como nos casamentos arranjados?

“Nos agregamos uma nas outras.”

Sororidade é bom, mas tem limite.

Descontada a vontade de pegar uma caneta vermelha e ir sublinhando a tela do computador, o artigo valeu para esclarecer a história do don juan da esquerda. Posso retornar ao passatempo anterior: a biografia do Alexandre Frota. Já gastei duas bics sublinhando os erros – e ainda nem cheguei à página 130.

Em tempo: pedantismo gramatical não tem cura. A persistirem os sintomas, um livro dos sermões do Padre Vieira deverá ser consultado.

Malungo

Etimologia

Pode parecer maluquice – palavra de origem controversa: viria do latim “malus” = mal, ou dos malucos, habitantes das ilhas Molucas , que vendiam cravo e noz moscada a preços absurdos, e lutaram ferozmente contra os portugueses -, mas tenho um dicionário na mesa de cabeceira, e o leio como se lê romance.

Ali não faltam personagens extraordinários, enredos mirabolantes, viradas de roteiro, palavras cujo passado contém segredos que talvez jamais sejam revelados, outras que morreram, que ressuscitaram, que se reinventaram, que usam máscaras, mentiras, maquiagem pesada.

O dicionário é meu I-Ching. Abro-o ao acaso (hoje foi na letra M) e tenho revelações.

Maçaneta tem esse nome devido à semelhança com a maçã. No século 16, quando a palavra nasceu, possivelmente ainda não havia maçanetas de alavanca (alavanca é das que têm origem misteriosa).

Macabro vem dos macabeus, heróis bíblicos cujo culto estava relacionado com a morte, e que ganharam esse nome por causa de Judas Macabeu, – literalmente, Judas Martelo, aquele que golpeia o inimigo, aquele que persegue e procura exterminar um mal.

Em latim, martelo é malleus – de onde provém “maleável”, o que se dobra ao martelo.  Seria a morte maleável?

O calçamento de pedra britada, aglomerada com saibro e areia grossa e comprimida a rolo depois de molhada se chama macadame por causa do inventor dessa técnica, o engenheiro escocês John Mc Adam.  Não tem nada a ver com a noz macadâmia, que deve seu nome a outro John Mc Adam, só que naturalista e australiano.

Machete era uma pequena viola; depois – ah, as artimanhas do destino! – virou um sabre de dois gumes.

Maçom vem de “makón”, o ato de preparar a argila para a construção. Maçonaria era a arte dos pedreiros. Não à toa chamam Deus de Supremo Arquiteto…

Maconha vem do quimbundo, e quer dizer erva santa.
Macaxeira era um dos nomes do diabo entre os índios do Brasil.

Se fumar maconha comendo macaxeira, estará acendendo uma vela pra Deus e outra pro diabo – só que o diabo não é o que parece.

Madeixa, hoje apenas uma porção de cabelos, quer dizer “seda crua”.  Madeixas sedosas serão um pleonasmo.

Mago, que hoje significa mágico, feiticeiro, encantador, vem do grego “mágos” (sábio, sacerdote).  Os reis magos não seriam nem reis nem feiticeiros, mas homens sábios (e talvez nem fossem três, mas doze). Um dos presentes que levaram era a mirra, uma planta utilizada para secar feridas e embalsamar cadáveres.  Daí o verbo mirrar: ressequir, reduzir.

Malária é, literalmente, ar insalubre (mala + aria). Por isso não se pega malária em Buenos Aires.

Mancebo é o mesmo que moço, amante. Daí vêm tanto emancipar (libertar) quanto amancebar (prender-se a alguém, mas sem os vínculos do casamento).  Mancebos emancipados e amancebados vivem uma espécie de liberdade bipolar.

Manco é igual a coxo (aquele que tem uma perna mais curta). Mas vem do latim “mancus”, derivado de “manus” (mãos). É manco, etimologicamente, aquele a quem falta… mão.

De “manus” também vieram manha e manhoso, no sentido de habilidade manual. Para, por exemplo, fazer manobras de várias maneiras, manusear manuscritos e manipular manivelas.

Manicômio é onde se cura a mania (“manía” = loucura, demência).
Marechal era quem cuidava dos cavalos.

Margarida quer dizer pérola, e foi daí que veio margarina (combinação de ácido margárico e glicerina).
Marmita vem do francês “marmite”, que significa hipócrita (“por causa do conteúdo escondido do recipiente”).

Por fim, bate o sono – hora de devolver o livro das palavras à mesinha de cabeceira – e vem a melancolia, de “melanós” (a mesma origem de melanina, melanoma). Melancolia não é mais que a bílis, o fel negro, o veneno sombrio.

Abri o I-Ching com maçaneta. Fechei-o com melancolia.  E que ninguém venha me dizer que o dicionário etimológico não é um romance cheio de mistérios, intrigas, encontros, desencontros e sabedoria.

Palíndromo

arara

Palíndromo é a aquilo que tem o mesmo sentido quando lido da direita para a esquerda ou vice-versa. O difícil é um palíndromo que faça sentido, seja lá em que direção for.

“Ovo”, por exemplo, é um palíndromo. Bobo, mas é.

A maior palavra palíndromo em português é “omissíssimo” (superlativo de omisso).

Em finlandês há uma ainda mais comprida: “saippuakivikauppias”, que quer dizer “vendedor de soda cáustica”. Não tente pronunciar isso em casa.

A coisa complica quando se quer formar uma frase.

A lupa pula.
Oi, rato otário!
A miss é péssima.
Oto come mocotó.
O lobo ama o bolo.
A pateta ama até tapa.

Quanto maior a frase, pior fica.

Soluço-me sem óculos.
Lá vou eu em meu eu oval.
Acuda cadela da Leda caduca.
A dama admirou o rim da amada.
Seco de raiva, coloco no colo caviar e doces.
O duplo pó do trote torpe de potro meu que morto pede protetor todo polpudo.

E para que servem os palíndromos? Absolutamente nada. Mega bobagem. (“Mega bobagem” é palíndromo)

Ainda assim, não falta quem os estude ou se dedique a eles.

São classificados em 3 tipos:

Os explícitos, que trazem uma mensagem inteligível: “A cara rajada da jararaca“, “E até o Papa poeta é”, “Anotaram a data da maratona”, “Socorram-me, subi no ônibus em Marrocos”.

Os interpretáveis, que possuem coerência, mas exigem algum esforço intelectual: “Oh nossas luvas avulsas, sonho.”, “A Rita, sobre vovô, verbos atira.”

E os insensatos: “Olé! Maracujá, caju, caramelo.”

Há palindromistas famosos: Chico Buarque (““Até Reagan sibarita tira bisnaga ereta”), Millôr Fernandes (“A grama é amarga”), Laerte (“Rir, o breve verbo rir”), Gregório Duvivier (“Amar dá drama”).

Ótimo, só eu, que os omito. (Olhaí outro palíndromo – e real, porque minhas tentativas de palindromar nunca deram em nada). Mais talento teve o Ziro Roriz, palindromista curitibano de pseudônimo palindrômico, que escreveu:

“A sua pauta é a sua causa e o bobo é ele. Levíssimo é o vivo namoro da Regine, roda na cabana bacana da casa da tropa nada romana. Lê o novo vodu do vovô (no caso dono do casaco do anão bobo). E ria Nair a torta. Maíra gaga era. Se caga Cesária má. Mara viu; Ema ri; Vovó vê. A mamãe, o tio réu (que Clara leva). O Adão, Ana, e Leo, viajaram ao além a pé; e nós, de navio. Dario com Leno e Leonela tirana, esmagam-se. Mata-me, se a Leon a Mãe se opõe. Ane lê. Acir, assim Ana já via (com a moça Lea) Iraci falar: a Plácida Razera do azar é razão da reza. Por prazer a rica alemoa baba na mão. Vão, mas é do anão o linotipo. Dezoito moços no sol, Eno viu corado. Revele doida! Vovó vê Vera torta a trote. Viva ! Diva na ida vê ave além. Ari é da maloca. Irá sorrir Rosa e Ari é sacana. E assim Ana, com a moça, lê. A Iraci falará para lá: ficaria ela com a moça na missa ? É Ana caseira e a sorrir Rosa ri. A cola madeira mela. Eva é vadia na vida, vive torta a trotar e vê vovô vadio de leve rodar o cu. Ivonel o sonso; como tio Zé do pito. Nilo, o anão de Samoa, voa mana. Babão mela Acir a rezar pró-paz. Era do azar é razão da reza radical. Para lá ficaria ela, com a moça Iva, já na missa. Rica Elena é, opõe-se a Manoela e se matam. Esmagam-se Ana Rita, Leno e Leonel. Moço irado, Ivan Edson é, e Pâmela o amará já. Ivo (ele anão) Adão Avelar, Alceu quer. O Ito e a mamãe, vovó viram e uivaram. A Maíra se caga. Cesar e a gaga riam. A trotar ia Nair. É o bobo anão do casaco (dono do saco novo), vodu do vovô Noel ? A namorada na porta da sacada na bacana cabana do Reni gerado romano vivo e omissível. Ele é o bobo e a sua causa é a tua pausa.”

Leia de trás pra frente, se puder – e depois me diga se não parece tuíte do Carlucho.

Há dois romances palindrômicos em inglês: “Satire: Veritas”, de David Stephens com 58.795 letras, e “Dr Awkward & Olson in Oslo”, de Lawrence Levine, com 31,954 palavras. Ambos, suponho, intraduzíveis – e os espóileres são inevitáveis.

Por que esse assunto logo hoje? Porque ontem, 9/10/2019, foi um dia capicua (outro nome do palíndromo).

Pena que os gregos não tenham tido a ideia de batizar o palíndromo (literalmente, “fazer o caminho de volta”) com um nome que também se pudesse ler de trás pra frente. Ironicamente, o horror a palíndromos se chama aibofobia – e quem sofre disso sofre em dobro, porque essa palavra é um palíndromo.

Tentei criar palíndromos exclusivos para este texto, mas não saí do “arara ama arara” – que, convenhamos, não enriquece em nada a minha biografia. O jeito é apelar para os universitários:

Ajudem Edu já!

 

Acôrdo ortographico

acordo
(Ilustração: carnavalização de desenho de Bruno Carneiro, originalmente em preto e branco)

Uma comissão discute hoje na Câmara a revogação do Acordo Ortográfico de 1990 (esse que matou o trema, tirou o acento de ideia, fez as pazes com o K, o W e o Y, e nos tornou analfabetos em hífen).

Tudo bem que o acordo foi mal feito e que os portugueses se recusaram a adotá-lo (adoptá-lo) de fato (de facto). Em vez de unificar o idioma, o tiro ficou pior que o soneto e a emenda saiu pela culatra.

Mas se é para revogar por questões etimológicas ou por respeito a certas tradições, então revoga direito.

Podemos começar revogando a mudança feita em 1973, que aboliu unânimemente os acentos grave e circunflexo em palavras formadas pelo sufixo -mente e pelos sufixos iniciados por z.  Voltemos a escrever sòzinhos, sem corretor ortográfico por perto, como fazemos ùltimamente.

Depois a de 1971, quando caiu o acento diferencial.  Bora escrever que êste govêrno não tem pilôto (até porque – apertem os cintos! – não tem mesmo).

Em seguida, cancelamos a de 1945 e voltamos a escrever que êles teem sciencia de que a raínha ennegreceu o côco da Güiana.  Ok, ninguém nunca jamais escreveu isso, mas era assim que se escreveria até aquele anno.

Recuemos a 1943, quando respirávamos a athmosphera, caprichávamos na caligraphia, usávamos o telegrapho, desenhávamos polygonos, nos falávamos ao telephone (que então só falava, não tirava photoghraphia), e comíamos vegetaes. Nosso idioma era o portuguez e assim é que devíamos escrevel-o, fosse no Alentejo, fosse no Piauhy.

Anulemos também a de 1911, que levou Fernando Pessoa a declarar que sua pátria era a língua portuguesa (ops, portugueza), e que não se incommodaria se tomassem Portugal, mas sentia odio (sem acento) da pagina (também sem acento) mal escripta, não de quem não soubesse syntaxe ou escrevesse em orthographia simplificada.

Foi nessa epocha que o escriptor Teixeira de Pascoaes choramingou:

“Na palavra lagryma(…) a forma da y é lacrymal; estabelece (…) a harmonia entre a sua expressão graphica ou plastica e a sua expressão psychologica; substituindo-lhe o y pelo i é offender as regras da Esthetica. Na palavra abysmo, é a forma do y que lhe dá profundidade, escuridão, mysterio… Escrevel-a com i latino é fechar a boca do abysmo, é transformal-o numa superficie banal.”

E bora anular também a reforma de 1907, quando tiveram fim a deshonra e a inharmonia, bem como as palavras começadas por Ç. Foi também quando o idioma ficou orpham do K, do W e do Y (excepto no vocabulário de origem indígena, que manteve suas characterísticas originaes). Foi n’aquelle anno que o Brazil virou Brasil.

As reformas têm sido desde sempre um desacordo só. A de 1911 foi adoptada só por Portugal.  Houve um acôrdo em 1931, que não deu em nada. Este facto levou à convenção ortographica de 1943, que tampouco deu em alguma coisa – tanto que foi feita outra em 1945, com o mesmo triste fim.

Se é para unificar, melhor rebobinar a 1500, quando a língua chegou aqui, e encontrou homeës pardos todos nuus sem nenhuűa cousa que cobrisse suas vergonhas. traziam arcos nas maãos e suas see tas. vijnham todos Rijos pera o batel e nicolaao co elho lhes fez sinal que posessem os arcos, e eles os poseram. aly nom pode deles auer fala nem antë dimento que aproueitasse polo mar quebrar na costa. soomente deu;hes huum barete vermelho e huűa carapuça de linho que leuaua na cabeça e huűsombreiro preto. E huűdeles lhe deu huűsombreiro de penas daues compridas com huűa copezinha pequena de penas vermelhas e pardas coma de papagayo e outro lhe deu huűramal grande de comtinhas brancas meudas que querem pareçer daljaueira asquaes peças creo que o capitam manda a vossa alteza e com isto se volues aas naaos por seer tarde e nom poder deles auer mais fala por aazo do mar.

De lá pra cá, somos dois fados desencontrados, dois amantes desunidos. Eles lá, agarrados ao latim e ao grego; nós aqui, aos abraços e beijos com o tupi, o guarani, o quimbundo, o quicongo e o umbundo (sem contar os adultérios posteriores, com o francês e o inglês).

Vai dar certo trabalho aprender a falar como Camões, Cabral e Caminha. Mas não tendo hífen, é lucro.