Agosto

agosto

31 DE AGOSTO, 1960

– Você vai à parada do dia 7 tocando bumbo – garantiu o obstetra à minha mãe.

Não deu.

E ela gostava tanto de setembro.

Casou-se em setembro.

Um de seus filmes favoritos – ao lado de “As neves do Kilimanjaro” e “Candelabro italiano” – era “Quanto setembro vier”.

Quando setembro viesse, viria o segundo filho. De preferência, uma filha.

Esperara um ano antes pela Rita de Cássia, e vim eu. Desta vez, em setembro, Rita de Cássia haveria de vir.

Mas no dia 31 do mês do agouro, dos ventos e dos cachorros loucos, sentiu que o tempo virava – lá fora e dentro de si.

Entrou em trabalho de parto enquanto o céu começava a desabar – ou o céu desabou quando ela começou a sentir as dores, não é mais possível saber, e não faz diferença, pois não há relação de causa e efeito. Ou há?

Imaginemos que à primeira contração correspondeu um relâmpago, à segunda um trovão, às seguintes as janelas fechadas às pressas, e então as telhas voaram, e a água desceu pelas paredes, pelo bocal da lâmpada, até que se pôde ver o céu faiscando por entre as frestas do forro de madeira, e o quarto foi inundado.

Minha vó acudiu com rezas e panos. Meu avô abriu um guarda-chuva sobre a cama, para proteger a parturiente – avô, avó, cama, todos com água já pelas canelas.

Minha mãe queria que tudo acabasse logo – o vendaval, as dores – mas queria também que desse logo meia-noite e fosse setembro. E nem setembro chegava, nem o temporal se ia.

Às 11 e tanto, ainda sob a tempestade e o guarda-chuva,  envolvida pelas ave-marias e salve-rainhas que tentavam subir aos céus se esgueirando por entre os raios e trovões, foi mãe de novo.

No quarto inundado, fez ela mesma o batismo com o resto de água benta guardada no armário, antes que o teto viesse a desabar, e o bebê morresse pagão.

E o batizou de novo, para o caso de os estrondos terem abafado sua voz; e uma terceira vez, por garantia, e talvez porque ainda tivesse forças e houvesse água benta – ou quem sabe já fosse água da bica.

Sobreviveram todos – ela, o bebê, meus avós, os móveis, eu (possivelmente aos berros no colo de alguém), as tesouras do telhado, parte das telhas, o teto.

Ela queria tanto uma menina, que viria quando setembro viesse.

Foi mais um menino.

E ainda era agosto.

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O peixinho que não sabia nadar

fish

Vinte e tantos anos atrás, quando começaram a me nascer sobrinhos por todos os lados, resolvi que ia escrever livros infantis para eles.

É que sempre achei livros infantis um tanto… infantis demais.
Já achava isso quando era criança.
Não me identificava com aquela prosa tatibitate, com as ilustrações toscas, que me tratavam como se eu fosse uma… criança.

Queria que meus sobrinhos tivessem algo além do que eu tive.
Não tiveram, porque dei com os burros n’água: literatura infantil não é pra principiante.

Agora que os sobrinhos já estão me arrumando sobrinhos-netos, volta a vontade de escrever para eles, e retomar o projeto.

Quem sabe não aparece um ilustrador, não me vêm novas ideias, e a coisa, finalmente, deslancha?

Fui atrás do que escrevi lá no início dos anos 90- e talvez algo ainda se aproveite. Como, por exemplo…

O PEIXINHO QUE NÃO SABIA NADAR

Era uma vez um peixinho
que não sabia nadar

Vivia junto da praia
e tinha medo do mar.

Usava boia, o peixinho,
para poder flutuar

Comprou até pé-de-pato
mas não tinha como usar.

Seus colegas de cardume
iam pra lá e pra cá

Entretanto, o tal peixinho
não saía do lugar.

Tinha medo de baleia
e até de estrela do mar

Só de pensar em mergulho
sentia falta de ar.

E então a maré subiu
a ponto de transbordar

E lá se foi o peixinho
numa onda, para o mar.

As barbatanas tremiam
como se fossem voar

De susto, bateu o rabinho
e deslizou devagar.

Viu os cascos de navios
tesouros do fundo do mar

Sereias, conchas, golfinhos
– e nadava sem parar.

Fez logo um monte de amigos
além de se apaixonar

E com um cavalo marinho
saía pra cavalgar.

Nunca mais ficou sozinho.

Nem parecia o peixinho
que um dia, pequenininho,
tivera medo do mar.

 

(publicado originalmente em 28 de julho de 2016)

Deu bode

maconaria

Meu pai era maçom. Nunca soube muito bem o que significava isso. Mas sabia que era como ser de capricórnio – algo que eu nunca seria.

Havia a lenda de que os maçons se reconheciam à distância, como os cachorros. Mas era só um toque de mão, um jeito de cumprimentar, de coçar a orelha, ou três pontinhos ao final da assinatura. Coisas assim, bem mais banais. Como as formigas, batendo as antenas. Abelhas dançando no ar.

Tinham segredos.
Montavam bodes.
Faziam pactos de sangue.
Adoravam o diabo.

Não conseguia ver meu pai fazendo nada disso, principalmente montar um bode. Então nunca levei essas crendices muito a sério.

Mas gostavam, sim, de símbolos.
E de roupas estranhas.
Aventais.
Babadores.
Anéis.

Não conseguia imaginar meu pai de avental, como minha mãe, e de babador, como meu irmão caçula.

Mas isso não queria dizer nada, porque eu tampouco conseguia imaginá-lo fazendo sexo com minha mãe – eu tinha doze anos, já tinham me contado tudo na rua, e, como éramos cinco filhos, eu sabia não apenas que já tinham feito, como que não fora uma vez só.

Mas entre acreditar e conseguir imaginar vai uma boa distância.

Eu via os maçons como uma espécie de templários genéricos, fora de época, sem armadura, sem cavalos, sem jerusaléns a conquistar.

Seu templo era, naquela época, uma série de valetas escavadas no terreno baldio em frente à nossa casa, onde seriam as fundações da sua Loja.

Brincávamos por ali, tentando adivinhar onde era a sala da caveira, o calabouço, a sala do bode.

Só quando começaram a subir a construção é que perceberam que havia um erro no projeto. O engenheiro rabiscara a planta apenas com linhas, sem considerar a espessura das paredes.

Com 50 cm perdidos nas alvenarias externas, mais 15 descontados aqui, 15 esquecidos ali e outros 15 acolá, as salas menores se tornaram corredores.

Alheios às sérias discussões dos adultos sobre como resolver o problema e salvar a Loja, brincávamos do mesmo jeito no corredor da caveira, no corredor do calabouço, no corredor do bode.

Nisso que dava acreditar num Supremo Arquiteto do Universo e contratar um engenheiro na hora de fazer o projeto.

19 de julho

Helder
Mãe e filho em 2014

 

Minha mãe me acordou.

– Vá chamar a parteira.

Com certeza já tínhamos telefone, talvez a parteira é que não tivesse.

Desci as escadas, dobrei à direita, passei pela praça, pela matriz, desci a Rua do Comércio, atravessei a linha, tomei o rumo do Bairro de Lourdes.

Daí a pouco voltávamos, eu e a parteira. Fui dormir de novo e só acordei de madrugada, com um choro de criança.

Minha mãe estava deitada, suada, com um bebê nos braços.

Não me lembro de ter sentido nada, de ter dito nada. Era só um bebê, ainda sem nome, que chorava. Um menino (mais um! e ela queria uma menina).

A parteira voltou para casa sozinha, ou chamou um táxi, ou dormiu por lá mesmo, não sei.

Meu pai, como nos quatro partos anteriores, não estava por perto. Não estava em casa, nem na mesma cidade.

Voltei a dormir e acordei com o dia já claro. Vi um dos meus irmãos, de 4 anos (até a véspera, o caçula), de pé no parapeito da varanda (nossa casa era imensa, e ocupávamos os quartos do segundo andar). Tinha uma toalha de banho amarrada no pescoço, como quando brincávamos de super-herói.

– Pula. Você voa – insistia meu outro irmão, um ano mais novo que eu.

E ele tinha medo de não voar, e não pulava.

– Pula!

E estava prestes a ser empurrado para o voo quando minha mãe surgiu na porta, arqueada como se tivesse 100 anos.

Agarrou pela toalha o que estava no parapeito e pelos cabelos o outro, o que o instigava a voar.

E bateu nos dois.

Até se cansar. Até não conseguir mais levantar a mão.

Então voltou para a cama, se apoiando nas paredes, abraçou o recém-nascido e chorou.

Chorou mais que todos.

Chorou pelo filho que ganhara horas antes e pelo que, por pouco, não perdera horas depois.

Chorou por estar sozinha, com 5 filhos em casa. (Talvez estivessem ainda ali a parteira, ou alguma das empregadas, não sei. Mas era o choro de quem estava visceralmente sozinha.)

Chorou por estar dolorida do parto. Chorou pela caminhada trôpega até a varanda. Chorou pelo esforço do salvamento e da surra.

Chorou porque sabia que não poderia morrer pelos próximos 20 anos, pelo menos, até o novo caçula, o temporão, estar “criado”.

Chorou por tudo que não tinha chorado e não tornaria a chorar – não creio jamais tê-la visto chorando, antes ou depois.

Chorou porque era uma mulher que não chorava.

Isso foi há 51 anos.
Num 19 de julho, como este de hoje.

(para o Hélder, o que nasceu; o Hubbley, o que não voou; e para minha mãe, que talvez tenha esgotado ali todas as lágrimas)

Direito e avesso

molde

O universo não se dividia, então, em luzes e sombras ou entre o Bem e o Mal, mas nos domínios do masculino e do feminino, representados pela máquina de escrever e a máquina de costura.

A primeira comandava o escritório do meu pai; a segunda, o quarto da minha mãe. Uma cercada de livros e silêncio; outra, de retalhos coloridos, música e risos.

Escrever, com os indicadores catando milho nas teclas da Remington, exigia concentração – ali, no âmbito das leis, não éramos bem-vindos. Nosso lugar era no chão, de tesoura da mão, recortando figuras das revistas de moda, aos pés da Singer.

Cada um desses mundos tinha seu vocabulário próprio, seu dialeto. Cerzir e sursis, corpetes e habeas corpus, evasês e evasões – palavras que se aproximavam, sem jamais se tocar.

Junto ao pedal da máquina de costura, imperava aquilo que mais tarde soube chamar-se francês: godê, plissê, cotelê, croqui. Nos raros momentos sob a escrivaninha, prevalecia o que desde sempre se chamou latim: animus, caput, data vênia, de cujus, pari passu, causa mortis, sine die.

Havia uma palpável hierarquia entre a matéria – o pano, a pence, o pesponto – e o espírito. Entre o braçal da carretilha, da agulha e do dedal, e o reino da autoridade intelectual, da retórica, da persuasão.

Essa divisão era ancestral: minha avó regia a roupa no varal, a labuta na cozinha, e meu avô, as conversas no salão, a posse do dicionário, as palavras cruzadas no jornal.

Um desses espaços era mais sentimental e mais lúdico: o do soutache, do ilhós, da passamanaria. Do cós, do viés, da sianinha, da lapela, do vivo, do gavião. Das revistas coloridas (o outro mundo não tinha figuras). Da tesoura que fazia ziguezague – da própria palavra ziguezague.

O outro mundo não oferecia grandes diversões além do perfurador, com o qual se podia fazer confete: não era permitido tocar a caneta-tinteiro, a carimbeira, o mata-borrão.

O mundo do papel manilha era melhor que o do papel almaço. A Burda, mais agradável de folhear que qualquer processo.

O quarto de costura era nosso quintal; o escritório, a sala de visita. Este, o território do não; aquele, o do sim. Um, o dos livros fora do alcance, na estante – o outro, o de sentar no chão, entre cortes de cambraia, retalhos de feltro, amostras de cetim.

Apesar de estar lá a cultura, de lá ficarem as letras, foi no lado de cá que se deu a descoberta de que cada palavra tem sua textura, seu caimento.

Assim o morim, a chita e o riscado, tão distantes da organza, do tafetá, do organdi – não só ao tato, mas também ao ouvido. Assim o linho e a flanela (ele, ríspido; ela, suave), o impecável poliéster e o suscetível algodão.

O mundo do Direito e o do avesso, o das Cortes e o da costura, o das Leis e o das linhas acabaram por se coser num só, este em que se pode chulear as frases, rematar sentenças e nelas ir alinhavando ideias e pregando as palavras como quem prega botão.

 

(publicado originalmente em 11 de abril de 2018)

Herança

Heranca
Minha mãe e meu irmão caçula.

Shakespeare se perguntava o que há num nome. E concluía não haver nada – mesmo o cheiro seria igual, fosse outro o nome da rosa. Mas e o sobrenome? O que é que faz um Orleans & Bragança e um Silva tão iguais, e tão distintos?

O nome é meu, o sobrenome é nosso. Vai além de mim, me vincula a uma linhagem, me inclui num clã. Me diz com quem me pareço, a que grupo pertenço, quem carrega meu sangue – e até com quem não devo me casar. O sobrenome é uma espécie de DNA, inventado antes de o DNA ser descoberto (ou descoberto antes de o DNA ser inventado, vá saber).

Gosto do meu Affonso. É denso, incomum, ainda mais com esse duplo F tão arcaico. É sonoro e masculino (as mulheres da família é que devem sofrer com esse acúmulo de testosterona pendurado no nome). Como uma espécie de “O gordo e o magro”, vem acoplado a um etéreo Alves, que dizem que vem de Álvares, e que tem mais de alvo que de avaro, e que combina tão bem com o Affonso que deviam vir algemados por um hífen, uma lua Alves gravitando a terra Affonso.

Não herdei, por machismo do meu pai e omissão de minha mãe, o belo Lopes de Faria que ela trouxe do berço. Lopes, sobrenome plural como Alves, deve vir de “lupus”, um lobo que teria tudo a ver com o Raposo que não herdei de minha avó paterna (também por machismo do meu avô, para quem o Alves Affonso bastaria aos filhos e netos). Perdi a chance de ter uma alcateia de lobos e raposos correndo junto do meu nome.

Com minha outra avó, a materna, morreu o Viana Leal, sobrenome que invejo nos primos de Pedra do Anta, que ainda o ostentam. Leal iria bem com o lupino Lopes, com o felpudo Raposo, e o Viana vindo dos confins de Minas teria sido o parceiro fonético perfeito para o Alves (Viana Alves, não soa bem? não lembra um vale entre montanhas, um som de violino?).

De outra bisavó, ficaram perdidos no caminho o Medeiros, o Magalhães. O Medeiros vindo (acho) da Madeira, uma ilha no meio do Atlântico, entre Cabo Verde e os Açores. Se não veio de lá, não importa – é de lá que o imagino vindo. Não o Magalhães, que não caberia – sobrenome gigante – numa mera ilhota. Magalhães vem de um estreito de gelo e fogo, de uma galáxia.

Na geografia que criei, ainda criança, para os sobrenomes que não chegaram até mim, mas que são meus, estão os vales dos Vianas, as florestas dos Lopes e os bosques dos Raposos, os fortes dos Leais, as ilhas dos Medeiros, as praias dos Farias, as nuvens de Magalhães. É lá que vivem os Alves e os Affonso, vizinhos de porta dos Ragone, dos Finamore, dos Andrade, dos Figueiredo, dos Gonçalves, dos Mendes, dos Carvalho e, indo à raiz da árvore genealógica, vizinhos de todos os sobrenomes do mundo – descendentes que somos do mesmo primata (ou do mesmo Adão). O que dá na mesma, porque, voltando a Shakespeare, quer o chamemos de Adão ou Elo Perdido, nosso ancestral teria o mesmo cheiro e o mesmo polegar opositor, desceria da mesma árvore, descobriria a fogo, inventaria a roda (ou seria o contrário?) e um dia acharia que o nome não basta (porque nos individualiza), e inventaria o sobrenome (que nos une).

 

(originalmente publicado em 9 de junho de 2013)