Encargos

encargos

Ando preocupado com a uberização do trabalho.

Com essa coisa de a pessoa não ter que bater ponto e poder fazer o próprio horário.

Perder o direito de ficar se comparando ao colega que faz corpo mole e tem o mesmo salário.

Ou não ir trabalhar sem precisar “estar de atestado”.

Aqui em frente ao meu prédio há sempre uma fila de ex-engenheiros, ex-lutadores de MMA, ex-encarregados de serviços gerais, todos aguardando corrida. E pela ciclovia, enquanto passeio os cachorros, passam dezenas de bicicletas com sua preciosa carga de pizzas, lasanhas, iaquissobas e cocas litro.

Como eu, muita gente lamenta a instabilidade desses subempregados, sem as garantias da CLT.

Mas isso tem jeito – e não depende de nenhuma mudança na legislação, de nenhum protesto com vidraça quebrada, ponto de ônibus depredado, pichação de bem tombado pelo Patrimônio Histórico ou pneu incendiado em via pública.

Pediu comida pelo Rappi?
Chamou o Uber?
Contratou um frila?
Na hora que tiver que pagar, pegue a calculadora e adicione:

+ 20% de INSS
+ 1,5% de SESI
+ 1,0% de SENAI
+ 0,2% de INCRA
+ 0,6% de SEBRAE
+ 2,5 de Salário Educação
+ 3,0% de Seguro contra acidentes de trabalho
+ 8,0% de Fundo de Garantia
+ 1,0% de SECONCI
+17,99% de repouso semanal remunerado
+ 4,8% de feriados
+ 0,92% de auxílio enfermidade
+ 10,82% de 13º salário
+ 0,07% de auxílio paternidade
+ 0,72% de faltas justificadas
+ 1,23% de dias de chuvas
+ 0,11% de auxílio acidente de trabalho
+ 7,69% de férias gozadas
+ 0,03% de salário maternidade
+ 4,93% de aviso prévio indenizado
+ 0,12% de aviso prévio trabalhado
+ 6,09% de férias indenizadas
+ 5,05% de depósito de rescisão sem justa causa
+ 0,41% de indenização adicional

Calcule 16,8% de reincidência de INSS, SESI, SENAI, INCRA, SEBRAE, salário educação, seguro contra acidente de trabalho, FGTS e SECONCI sobre o repouso remunerado, os feriados, os auxílios enfermidade e acidente de trabalho, o 13º, a licença paternidade, as faltas justificadas, os dias de chuva, as férias gozadas e o salário maternidade.

Isto feito, calcule 0,44% dessa reincidência sobre o aviso prévio trabalhado e do FGTS sobre o aviso prévio indenizado.

Pronto.

Para adiantar o seu lado, aí vai um espóiler: isso dá 116,09%. É quanto você deve adicionar ao custo da entrega do iaquissoba ou do percurso entre a estação do metrô e a sua casa no Voyage do Adilson, que perdeu o emprego numa estartape e virou motorista para pagar a pensão da filha e a faculdade particular (à distância).

Se o uber deu R$ 35,00, pague mais R$ 40,63 de encargos. No caso de não ter trocado, deixe como gorjeta, quando o aplicativo pedir para você avaliar a corrida, que vai acabar saindo por R$ 75,63.

Fazendo isso, você desprecariza o trabalho sem precisar vandalizar nada nem atrapalhar a vida de ninguém.

Notas de rodapé:

1) Estes percentuais de encargos sociais sobre mão de obra referem-se ao Rio de Janeiro, setembro/2019, horista, sem desoneração. Para outros estados, mensalista ou com desoneração, outra tabela do SINAPI deverá ser consultada;

2) Sim, a empresa fica com uma parte do valor pago ao motorista. Se souber quanto é, é só descontar e fazer o cálculo apenas sobre o que o Adilson ou o moço do Rappi realmente recebem;

3) Não, o combustível, a manutenção do Voyage, o IPVA, nada disso é mão-de-obra. Nem a troca de pneu da bike. Pode descontar também;

4) Sim, o Brasil tem 30% de neoliberais insensíveis e 40% de isentões bundamole que não vão querer arcar com os encargos sociais. Fique à vontade para pagar a parte deles (defender grandes impostos trabalhistas exige grandes responsasbilidades…) ;

5) Tá, eu sei que com a Uberbras, a Rappibras e a Frilabras (estatais, com Presidente, Conselho de Administração, Diretoria Executiva, Conselho Fiscal, Departamento de Governança Corporativa e Compliance – cargos de confiança indicados pelo Centrão em troca de apoio na Câmara e no Senado) e o SindiUber, o SindiRappi e o Sindifrila (ligados à CUT) nada disso estaria acontecendo. Mas enquanto o verdadeiro petismo não chega ao poder – esse petismo que saiu não era o petismo verdadeiro, ele foi contaminado pelo acordo espúrio com o Centrão -, faça a sua parte.

5) Claro que a coisa não é simples assim, é mais complexa do que isso, patati patatá, mas você entendeu o espírito da coisa. Se é contra essa precarização do trabalho, que leva o Adilson a passar o dia no trânsito, levando desconhecidos pra lá e pra cá, e, com isso, conseguir pagar a pensão da Manuela (lembrei o nome da filha dele) e o EAD na Estácio, é só pegar o valor da corrida e multiplicar por 2, 16. Porque é isso que você faz com qualquer outro serviço – do segurança do metrô à moça do caixa no restaurante de comida a quilo.

Custa um pouquinho mais caro e é bem menos divertido que botar máscara, estilhaçar vidraça do Itaú, depredar lixeira e botar fogo em ônibus – mas faça sua cota de sacrifício. De vândalo, aqui no Rio, chega o prefeito.

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Xerebecanto

xerebecanto

Dom de línguas quem tem são os poliglotas. Esses que ralam na Aliança Francesa, no Goethe, no Duolingo, no Ciciêiêi, Os que falam (e entendem) inglês, francês, espanhol, alemão, russo – porque falar é fácil; entender é que são elas … Dom de línguas estranhas têm os que aprendem húngaro, basco, finlandês, vietnamita, português com a nova regra do hífen.

O que se ouve nas igrejas pentecostais tem outro nome: charlatanismo. Ou, em termos científicos, glossolalia.

Do grego “glóssa” [língua] + “laló” [falar], a glossolalia é um fenômeno que a psiquiatria e a linguística aplicam a situações em que um indivíduo, teoricamente tomado de fervor religioso, desanda a falar numa língua que nem ele (nem ninguém) conhece.

É diferente da Xenoglossia (do grego xeno [estrangeiro] + glosso [língua] que é quando alguém fala uma língua (existente) que nunca foi aprendida (meu sonho de consumo com o alemão).

Existe, ainda, a livre vocalização, que é mais ou menos o que fazem os bebês quando começam a balbuciar. Ou os compositores quando acaba a inspiração para a letra e completam a melodia com lalalá, lererê, chananá ou yeah yeah yeah.

Na Bíblia, em Pentecostes, teria acontecido o fenômeno de Xenoglossia. Tomados pelo Espírito Santo, os apóstolos – que eram pessoas simples, sem muita leitura – começaram a falar em diversas línguas. Com isso todos os presentes à festa puderam ouvir a palavra de Deus, cada um em seu próprio idioma.

Logo, esse “dom de línguas estranhas” não era exatamente o dom de línguas estapafúrdias, mas de línguas de outros povos.

Os pentecostais (cujo nome deriva, como já deu pra perceber, de Pentecostes) parece que não pegaram bem o espírito da coisa. Em vez de falar búlgaro, sânscrito, tupi ou tagalog, falam xerebecanto – que não é língua de ninguém e que ninguém entende. O seu sentido – como disse o filósofo e linguista búlgaro Tzvetan Todorov – é ser ininteligível.

Chico César é expert nesse idioma: “Ô amaradzáia zoê. Dzáia, dzáia A rin fingá do ran ran”. E o finado Skank complementa: “Deriráum daum daum, dererum dáu du dáum, deriraum daum daum”. E o João Bosco afirma que “dunga gaguiê gaguncê dagunci dungá gaguiê aibibuloba aidubuloba ai ai ai”. E o Carlinhos Brown completa: “Magamalabares acqua marã no parquinho oxaiê”.

Seria o xerebecanto uma linguagem poética, acessível apenas aos anjos e aos iluminados da MPB?

Há controvérsias. Primeiramente, porque o xerebecanto não é uma língua. Não possui estrutura sintática: é mera repetição de fonemas de língua-mãe do pastor (mesmo ritmo, mesmas pausas, mesmos padrões de consoantes e vogais).

Um pastor de Coxiporé do Norte falará fluentemente “Decanta labaxuria cantararamás”, mas jamais profetizará “zczęściewzględny chrząszczpszcz” ou “mézeskalácssütés viszontlátásra” – que pastores tchecos e húngaros, respectivamente, tirariam de letra.

Há teses de mestrado sobre o assunto. Sílabas vocalizadas aleatoriamente têm o mesmo grau de complexidade de “revelações” como “naconte merecanto nana naconderé, na conderemaná saconde conde que mené nem façá”,

“Ainda que eu falasse as línguas dos homens e dos anjos, e não tivesse amor, seria como o metal que soa ou como o sino que tine.” (1 Coríntios, 13). Ou seja, barulho, gugugu dadadá. Nhenhenhém, blábláblá.

Não mate seu anjo da guarda de vergonha alheia. Ao se dirigir a ele, faça-o em português ou em qualquer das línguas encontráveis no Gúgol Translêitor. Caso contrário, é capaz de ele não te atender, por achar que é só a Baby Consuelo chamando os filhos (“Nanashara, Sarashiva, Zabelê, Riroca!) pra janta.

Receita de batata frita da Tia Rosa

batata

Batata frita é muito simples de fazer. Mas antes é fundamental lembrar que os sumérios não conheciam a batata, muito menos a batata frita. Não há qualquer registro de receita de batata frita em escrita cuneiforme. Tampouco os babilônios, na Mesopotâmia, nos legaram qualquer documento acerca dessa receita. Não há, entre os egípcios, seja nas tumbas, seja nos papiros, nenhum hieróglifo que signifique batata frita – ou french fries, como era chamada pelos pais fundadores dos Estados Unidos da América, entre eles John Adams, Benjamin Franklin, John Hancock, Samuel Tuntington, Thomas Jefferson, Artur Middleton, Richard Stockton, John Witherspoon e Charles Thomson.  Entretanto, mesmo povos anteriores, como os neandertais, deixaram gravadas inscrições rupestres retratando bisões, mastodontes e outros animais pré-históricos, mas nenhuma imagem que, à luz da moderna antropologia e da hermenêutica, possa ser identificada como batata frita.

Peço vênia para lembrar aqui que tampouco há registro de consumo de batata frita na cantina da saudosa Biblioteca de Alexandria, louvada pelo autor argentino Jorge Luís Borges, nascido em Buenos Aires, em 24 de agosto de 1899 e falecido em Genebra, em 14 de junho de 1986, e cujas cinzas jamais foram recuperadas – ressalto aqui que me refiro às cinzas da grande biblioteca, não as do escritor, que encontra-se sepultado no Cemitério de Plainpalais, na Suíça, tendo sua tumba uma inscrição em  inglês antigo, tirada do poema Battle of Maldon, que pode ser traduzida como “não tenhas medo de nada”.

É de vital importância apontar que Gengis Khan, nascido por volta de 1162 nas proximidades do rio Onon, perto do lago Baikal, na Mongólia, possivelmente jamais provou batata frita. E nisso ele se iguala, hermeneuticamente, a Alexandre o Grande, ou Alexandre III da Macedônia, que, nos curtos 33 anos de sua existência, tampouco provou esta iguaria, apesar de haver emprestado seu nome ao verso de 12 sílabas, formado de dois hemistíquios, tão caro aos parnasianos, como Théophile Gautier  Théodore de Banville e o saudoso Sully Prudhomme, autor do poema Le Zénith, publicado na Revue des deux mondes, em 1876.

Escavações em sítios arqueológicos nos revelaram ossadas quase completas de um Pukyongosauro na Coreia do Sul, de um Megalossauro bucklandii na Inglaterra e do Tropeognathus na bacia do Araripe, no nordeste brasileiro, e que se perdeu no lamentável incêndio do Museu Nacional, que ocupava o Paço Imperial Quinta de São Cristóvão, residência da família real desde a proclamação da independência do Brasil, em 1822, por Pedro de Alcântara Francisco António João Carlos Xavier de Paula Miguel Rafael Joaquim José Gonzaga Pascoal Cipriano Serafim de Bragança e Bourbon, Príncipe Real do Reino Unido de Portugal, Brasil e Algarves.  Mas nem um único fóssil de batata frita foi encontrado.

Nenhum dos filósofos gregos, de Aristóteles a Empédocles, de Anaximandro a Tales de Mileto, jamais colocou uma batatinha frita na boca. Mesma sorte tiveram Plutarco, Zenão de Eneia, Leucipo, Cleante de Assos, Teofasto, Alcmenao de Crotona e Aristóxenes, o que nos leva a crer – salvo melhor juízo – que a batata frita nada teve a ver com o apogeu do mundo helênico.

Não quero me estender demasiadamente, mas não posso deixar de lembrar que também nem os inuites, os bantos, os hunos e os txucarramãe sabiam o gosto da batata – e consequentemente, da batata frita – que é originária da Cordilheira dos Andes e só chegou ao resto do mundo após a descoberta da América pelo navegador genovês Cristóvão Colombo, cujo sobrenome significa “pombo”, uma ave columbiforme da família Columbidae. Dito isso, para não me alongar mais, pega a batata, descasca, pica e frita.  Essa é a minha receita.

 

 

Tensão pré-voto

rosa

Hoje é dia de tensão. Tem voto da Rosa Weber.

“Da cabeça de juiz, da barriga de grávida e da bunda de neném, nunca se sabe o que vai sair”, dizia-se antigamente, antes da invenção do ultrassom. Permaneceram enigmas a cabeça de juiz e a bunda do neném. Mas depende do juiz – e do neném.

Sem citar nomes, alguém tem dúvida de qual será o voto do Gilmar? Ou do Ricardo (nome fictício, para preservar a identidade do Lewandowski)?

Já o voto da Rosa é um mistério. Talvez até para ela mesma. É um voto que não nasce voto: torna-se voto. Vai sendo construído à la Ricky Martin: un pasito pa d’lante, un pasito pa trás.

O voto dela é um imenso prolegômeno. Um prefácio mais comprido que o livro. Uma transa na qual as preliminares duram tanto que você já acendeu o cigarro, já perguntou se foi bom, já ligou no dia seguinte, já inventou uma desculpa para não encontrar de novo e a pessoa ainda está lá, tentando abrir o fecheclér.

É sempre um voto embasado, consistente, equilibrado. Tão equilibrado que, até chamarem o VAR, não dá pra saber se foi w.o., nocaute ou impedimento.

Deve ser culpa do sobrenome. Rosa pensa em alemão, com aquelas frases imensas em que já foram usados todos os substantivos, adjetivos, advérbios, pronomes, conjunções aditivas, adversativas, concessivas, conformativas – e nada de chegar no verbo.

Rosa tem plena consciência de que é o fiel da balança. Que é a bendita ignição que sempre engasga no filme de terror – se ligar, a mocinha se safa; se falhar mais uma vez, o psicopata de machadinha ensanguentada na mão faz a festa. E até as luzes se acenderem e começarem varrer a pipoca do chão, a gente nunca sabe de que lado ela estava.

Votação no Supremo tinha que ser como no Programa Sílvio Santos: o juiz fica numa cabine à prova de som e o apresentador pergunta:

– Vossa excelência troca este lindo conjunto de jantar de fórmica vermelha por uma bala 7 belo de framboesa?

– Siiiiiiiiiim!

– E põe na rua centenas de estelionatários, trapaceiros, escroques, gatunos, vigaristas e facínoras para poder tirar um certo ex-presidente da prisão?

– Nãããããão!

Pronto. Em 5 minutos cada um dos 11 ministros já estaria desembrulhando sua 7 belo e conversando amenidades, enquanto o país voltava à programação normal.

Mas não. A partir das 2 da tarde de hoje, lá vamos nós prender a respiração. E não por causa do que possa sair do bumbum do bebê, mas da cabeça da juíza.

Juízo, Rosa. Juízo. E que São Rivotril nos ajude a esperar pelo final do voto.

 

Isentão

muro

– Aqui está a nossa carta de vinhos. Temos um excelente Château Petrus 2004, de R$ 16.120,00, e este Vinho Canção Suave, por R$ 12,90.

– Não têm nenhum Malbec argentino, um Concha y Toro, um Bolla Valpolicella, um Miolo Seleção?

Garçom, entre os dentes:

– Isentão….

Isentão é isso. O sujeito que, entre jogar dominó na praça e escalar o Himalaia de costas sem oxigênio e num pé só, prefere correr no calçadão. Ou dar umas braçadas. Ou fazer meia hora de esteira e três séries de 10 no supino.

Poderia ter tido outros nomes.

Sensatão.
Racionalzão.
Equilibradão.
Responsavelzão.

Mas o que pegou foi isentão, fazer o quê.

Isento quer dizer liberto, livre, desembaraçado, imune. Limpo, imparcial, justo, desapaixonado. Neutro, sensato.

– E aí, sensatão, quando é que tu vai sair de cima do muro?

(Não ia dar certo. Não como xingamento.)

– Quer dizer que nem James Joyce nem Paulo Coelho; você prefere Cortázar? Seu independentão de m… !

(Não, também não ia funcionar.)

– Sou contra as duas coisas: explodir mesquita e metralhar sinagoga. Acho que…
– Acha nada. De imparcialzão como você, o inferno tá cheio!

– E aí, vão querer a folha de rúcula com chia ou porção tripla de linguicinha com torresmo?
– Vê pra gente um salmão e um espaguete ao pesto, por favor.
– Olhaqui, meu ponderadão, o prato do dia é rúcula com chia ou linguicinha com torresmo. É o que tá pronto e sai na hora. Issaí que tu pediu vai demorá. Pode inclusive nem saí.

Há um círculo do inferno reservado aos moderadões.

No juízo final, os comedidões vão pagar por ter se omitido nas questões vitais, como biscoito ou bolacha (eles preferem bráune ou rosquinha de nata), feijão por cima ou por baixo do arroz (melhor mexidinho, com couve e ovo frito), Coca ou Pepsi (Mineirinho!), Heath Ledger ou Joaquin Phoenix (Cesar Romero), Feicebuque ou Instagram (vida real).

A Suíça é aquela droga de país porque é uma isentona. Bom mesmo é a Síria. Lá, sim, as pessoas têm posição definida.

O desapaixonadão entende que o que separa a anorexia da obesidade mórbida não seja um muro onde ficam encarapitados os irresolutões, vacilantões, ambiguões e titubeantões de índice de massa corporal entre 19 e 25, mais ou menos – mas que há, entre esses extremos, um vasto campo chamado vida saudável.

O isentão é um botafoguense que não tem por que se meter na porradaria de uma final de Fla x Flu.

Pode, no máximo, ligar pro 190 e acionar o SAMU.

O Acre é um mistério

Acre

O Acre é um mistério.

Por vários motivos.

1.

Ninguém jamais passou pelo Acre.

Ou você vai ao Acre ou não vai.

O Acre não é passagem: é destino.

2.

O Acre tem suas idiossincrasias.

Uma delas é não aceitar a reforma ortográfica.

Não é o primeiro estado a fazer isso: segue o exemplo da Bahia, que se recusou a virar Baía quando o Piauhy, mais resignado, topou ser Piauí.

Brasileiro nascido no Acre, pelas normas vigentes, é acriano.

Acriano nascido no Acre é acreano mesmo.

Há muito os açoreanos aceitaram ser açorianos, mas a Academia Acreana de Letras bateu pé e garantiu que a população será acreana com “e” até morrer, digam o que disserem os lexicógrafos.

Se for fazer concurso público por lá, lembre-se disso na prova de português.

Duvido que eles abram mão dessa pegadinha.

3.

O Acre foi por 3 vezes uma república independente.

É o único estado que realmente pertence ao país, com escritura passada em cartório e tudo, porque foi comprado da Bolívia.

E não custou um cavalo, como diz a lenda, mas uma boa grana.

Sem contar que quase foi arrendado por um consórcio de capitalistas ingleses e americanos.

Por pouco, o Acre não estaria de malas prontas para o Brexit. Por pouco, o Trump não ia querer fazer um muro aqui também.

4.

Quem for ao dicionário procurando o significado de “acre” vai encontrar: ácido, afiado, agudo, áspero, avinagrado, azedo, cortante, mordaz, picante, queimante, sarcástico, ríspido, rude.

Nada a ver.

Acre é uma corruptela de “Aquiri”, que significa “rio dos jacarés” na língua dos apurinãs, que originalmente habitavam a região.

Mas, pensando bem, jacarés costumam ser ásperos ao toque, ríspidos no trato, ter dentes afiados e cortantes, algo rudes no convívio social, ter temperamento mordaz, lágrimas azedas e (repare bem) um sorriso sarcástico.

Os portugueses podiam ser ruins na fonética dos apurinãs, porém de psicologia de jacaré eles entendiam.

5.

Há 52 paulistas para cada acreano.

E quando você precisa de um João Donato, vai buscar onde? No Acre.

Foi de lá, da Amazônia, no sul da América, que veio a Glória Perez para nos ensinar o caminho dos índios e das índias (e eu prometo –  com o coração partido ao tomar essa decisão – que não vou cometer o pecado capital de buscar mencionar que clones têm dupla identidade, para não alugar a paciência de ninguém ou criar uma barriga neste texto).

Mas quando você tiver um desejo, daqueles de corpo e alma, tipo “explode, coração!” e nem o santo guerreiro Jorge te salvar do canto da sereia dessa força do querer, onde é que vai achar alguém que traduza esse seu furacão e o da sua diarista? No Acre.

6.

Imagine se um garoto de Roraima ia encher o quarto de mensagens criptografadas e abduzir a si mesmo? Se um bacuri do Amapá ia ensinar como ser gênio com pouco sono e nada de sexo? Se um curumim de Rondônia ia escrever um besticéler sobre a teoria da absorção do conhecimento, cheio de “não obstante”, “antemão”, “entrementes”, “outrossim”, “amiúde”? Quem mais faria isso senão um… menino do Acre?

7.

Minas tem fama de ser chocadeira de presidentes (7 eclodiram lá – o Itamar não entra na conta porque nasceu em alto mar).

Mas ultimamente ninguém tem tentado mais que os acreanos.

Enéas tentou em 89, 94 e 98. Marina, em 2010, 2014 e 2018.

Só escapamos da possibilidade de ter um presidente acreano em 2002 e 2006.

Perceberam do que o Acre teria nos livrado?

8.

Não me esqueci do Chico Mendes, não.  Nem do José Vasconcelos. Nem do Jarbas Passarinho. Ou do Armando Nogueira. E do Adib Jatene.

É que não sei como o Acre consegue ter menos de 0,5% da população e esse tanto de gente.

Deve ser por isso – por desafiar todas as probabilidades – que seu mapa parece que está rindo.

O Acre é inacreditável.

 

Greve

Greve

– Vamos lá, gravando!

– Hoje, 13 de agosto, é o dia da Greve Nacional do Lula Livr…, quer dizer, da Educação.

– Continue…

– Vamos lutar contra a prisão do Lul…, quer dizer, contra o projeto de desmonte e privatização do ensino público de nível superior. E contra a condenação em segunda inst…, quer dizer, contra o corte de verbas para os ministérios da Educação e da Cidadania.

Nossa luta é para soltar o Lul.., quer dizer, pelo fim dos ataques aos direitos adquiridos, como na reforma da Previdência. O maior problema que temos hoje é o Lula na cad…, quer dizer, o aumento da inflação e do desemprego, a estagnação da economia e a falta de liberdade do Lul…, quer dizer, a falta de perspectiva da juventude.

– Termina, que depois a gente edita.

– Professoras, professores e professorxs, queremos Lula livr…, quer dizer, que todas as instituições de ensino, da educação básica à educação superior, possam libertar o Lul…, quer dizer, paralisar suas atividades neste dia para exigir, quer dizer, dialogar com a sociedade sobre a soltura do Lul…, quer dizer, sobre o papel social que as universidades públicas e as escolas públicas em geral cumprem na sociedade socialista, quer dizer, na sociedade, na produção de um conhecimento referenciado e chamar a militância, quer dizer, a população a defender este patrimônio que é o Lula… Droga!… que é a educação pública.

– Esta já é a décima terceira tentativa, mas acho melhor gravar de novo….

– Pois é. Não dá. É mais forte que eu. Quando vejo, já falei.

– Mas você consegue. É só se concentrar. Pense em todos que continuam dando seu sangue, seu suor e suas lágrimas pelos pobres. A Manu lá na Escócia. A Marcinha em Paris. O Jean em Berlim. O Freixo na piscina do Copa.

– Ok, agora vai.

– Bora. Gravando!

– Hoje, 13 de agosto, é o dia da Greve Nacional da Educação. Vamos lutar contra a Lava Jat…

– Corta!