Sem querer & querendo

sem querer

“Oje, intregamos 120 ônibus iscolares a municípios de São Paulo. No ano paçado, mais de 1300 foram entregues em todo o Brasil. O Governo @jairbolsonaro já disponibilizou atas a estados e municípios para aquisição de mais de 6200 ônbus. Espero que dessa forma a notícia chegue a todos.”

O que o ministro da Educação fez neste tuíte foi, claro, uma jogada de márquetchim.

Seu domínio da língua escrita não é lá essas coisas. Entre usar um corretor ortográfico, contratar um revisor ou aprender ortografia, ele optou por carnavalizar de vez.

Pode dar serto. Pode ser um tiro no pé.

O ministro conseguiu duas façanhas memoráveis na sua gestão: fez um Enem desastroso e botou toda a imprensa de canetinha vermelha na mão, procurando erro de português.  Se por um lado os estudantes sofreram, por outro acabou aquela história de preconceito linguístico, opressão linguística, de ‘nós pega os peixe’. Nunca antes na história deste país se viu gente tão zelosa em relação à pureza do idioma.

A gota d’água para o ministro chutar o balde foi virem corrigi-lo por escrever “aonde” onde era para ser “onde”. Onde já se viu preciosismo desses?

“Onde” tem sentido estático, de lugar fixo.
“Aonde” (a + onde) tem noção de destino, de movimento.

“Onde você mora?”
“O lugar onde eu trabalho é pertinho daqui”,
“Não sei onde deixei o livro”.
(Tudo parado, reparou?)

“Você não tem como me levar aonde eu quero ir”.
“Aonde você pensa que vai a esta hora, Paulo Otávio?”
(Tudo em movimento – menos o Paulo Otávio, que estancou no ato.)

Onde por aonde é coisa simples, errinho de nada. Camões não estava nem aí para isso. Em outras circunstâncias, apenas D. Eurídice, professora aposentada em Minduri MG, teria reparado e feito muxoxo.  Mas com o histórico “imprecionante” de erros cometidos pelo ministro, a cada tuíte as redações ordenam a “paralização” das máquinas e a “suspenção” de todas as atividades até que a Brigada de Ortografia passe um detector de barbaridades (não confundir com barbarismo, que é outra coisa).

Mas como podemos garantir que o ministro tenha errado de propósito ao escrever “oje”, “iscolares”, “paçado” e “ônbus”? Ou que não tenha sido ele a redigir o tuíte, mas alguém do seu Comitê de Gestão de Crises Gramaticais? Elementar, caros watsons:

1.  Reparem em “Oje, intregamos…” e “No ano paçado, mais de…”. Essas vírgula separando o adjunto adverbial de tempo deslocado é sofisticação demais para um tuíte ministerial:

2. “Municípios” e “notícias”, paroxítonos terminados em ditongo crescente, estão corretamente acentuados.

3. “Aquisição” está com S e Ç, não com Z e SS, como seria de se esperar.

Tudo bem que faltou o ponto separando o milhar (1.300, 1.600), que “Governo” estava desnecessariamente em maiúscula e que o adjunto adverbial de modo (“dessa forma”), por estar intercalado, deveria ter vindo entre vírgulas. E que, por fim, era para ter usado “desta” em vez de “dessa”.

O ministro foi esperto. De agora em diante, sempre que errar, poderá dizer que foi de propósito. Mas a gente sabe quando o erro é sem querer e quando é querendo.

Esses “sem querer querendo” não enganam ninguém. Até porque bastaria o “chegue a todos” sem crase para entregar a farsa: o ministro da Educação teria craseado, sem pestanejar.

Discurso

discurso

Recicladores de papel de Los Angeles encontraram isto num A4 amassado numa lixeira, na saída do Dolby Theater. Pedem ajuda a quem puder traduzir e esclarecer do que se trata.

“Dear friends, deara friendas and dearx friendxs,

Brazilian democracy is under attack since Pocket went to the Palace of the Higland. He and Zero One, Zero Two, Zero Three, plus Giveseas, who saw Jesus on a guava tree and now wants us not to fuck. And Live, that judgeco from Curitiba. And Guedes who say we are “Parasite”. Along with the astronaut, they took the power in a blow against the brave heart woman and put Squid in jail.

The world must know what really happens in our country, which is not what reality says. But we know. Queiroz is an orange. Zero One had many oranges, too. Alvim is a nazi and Regina needed gays to hide her fat and paint her gray hair. Tati can’t celebrate holidays with her dad because he is a nazist. 56 million nazi fascists in Brazil don’t want to see golden shower on top of newsstands nor little monkeys sticking their fingers inside the little monkey’s ass in front of them. And there is the molotov because of the gay Jesus in the Backdoor Christmas video. That’s censorship!

The secretary of education in Rondonia state wanted to recover classics of our literature, such as “My ass is not a magnet”, by Mario de Andrade. Indian lands are to be turned into new Naked Saws. Not to mention the fake stab, the old man of Havan and the zap aunties.

We need international help – from the Oscar Academy, the United Nations, the Intercept and the Pope – to remove Pocket and bring Squid back.

I want to dedicate this statue to my father and my mother and Andrade Gutierrez, for their emotional support.

Moved with one, moved with all! Nobody releases nobody’s hands! If it affects my existence, I will be the resistor! It’s blow! He not! ”

O papel amassado foi encaminhado ao FBI e à CIA, pois suspeita-se que a linguagem cifrada esconda alguma conspiração. Ainda mais que estava em fonte Comic Sans, e papel timbrado da Ursal.

Traição

traicao

– Tem certeza que o local é seguro?
– Claro que tenho.
– Discreto?
– Discretíssimo.
– Ninguém vai ver a gente entrar nem sair?
– Não, não vai.
– Tem que ser no sigilo.
– Será.
– Não tem câmera de segurança na rua?
– Não, não tem.
– Pode ser lá, então.

(Meia hora depois)

– Fecha bem as cortinas. Vai que alguém…
– Pronto. Fechei.
– Já fez varredura pra ver se não tem cam ou microfone escondido no teto, na tevê, na jacuze?
– Não leva a mal, mas você está parecendo paranoica…
– Fez ou não fez a varredura?
– Fiz.
– Desliga o celular, então.
– O quê? Você acha que eu… ?
– Eu sou uma pessoa conhecida, Paulo Roberto. Se isso vaza, minha vida está arruinada, minha carreira acabou.
– Ok, desliguei o celular.
– Tira a bateria.
– Tirar a bateria?
– Recebi um zap outro dia dizendo que o celular, mesmo desligado, continua ouvindo tudo, rastreando tudo.
– Olha, isso está ficando muito estranho. Melhor a gente deixar pra lá…
– Não, não. Eu quero muito. Eu preciso tanto! E sei que você não vai sair contando pra todo mundo, espalhando pros seus amigos.
– Pode confiar em mim.
– Posso mesmo? Olha como eu estou tremendo… Ai, meu Deus, meu marido jamais imaginou que eu fosse capaz disso, meus filhos nem sonham, e meus amigos… o que meus amigos iriam dizer?
– Não temos a tarde toda, Ana Lúcia. Vai, você é uma mulher adulta, independente. Tira essa culpa dos ombros, solta essas amarras. Liberte-se desses dogmas que te oprimem, dessa pressão da sociedade. Não tenha medo do que vão pensar. Diz pra mim, vai. Quero ouvir da sua boca…
– Trancou a porta?
– Tranquei.
– Deu duas voltas na chave?
– Dei.
– Apaga a luz.

A luz é apagada.

Na penumbra, Ana Lúcia respira profundamente. Semicerra os olhos. Passa a língua pelos lábios. Engole em seco. Do fundo da garganta, com a voz entrecortada, quase um sussurro, ela confessa:

– Paulo Roberto, eu apoio a Regina Duarte.

Enquanto isso, num planeta retrógrado…

terrabolismo

– Ô, Marcos, tô precisando que você dá uma declaração aí pra mim.

– Pois não, presidente. Estamos no governo para ajudar.

– Você que foi lá em cima, quero que você desmente aí esse negócio que a Terra é redonda, talquei?

– Mas presidente…

– Tem gente que acredita aí nessas palhaçadas de terrabolismo, e tão zoando lá o presidente da Fuzarca.

– Da Funarte…

– Se tem arte, é Fuzarca. A parte do rock satânico eu vou pedir pro Feliciano confirmar – essa coisa de Satã é com ele mesmo. Mas você que é astrólogo…

– Astronauta…

– Você não é astrólogo? Foi fazer o quê na Lua, então?

– Presidente, o astrólogo é outro. Eu sou ministro da Ciência, Tecnologia, Inovações e Comunicações. E não fica bem um ministro de uma pasta como esta se envolver com certas teorias, digamos, heterodoxas.

– Como não? Se é hétero é porque é bom. Mas eu jurava que você era astrólogo, que nem o…

– Não, presidente.  Entendo um pouco de astronomia, que é outro departamento.

– Bom, eu nomeei uma roteirista de televisão pra um reálitixou chamado “A Casa da Rui Barbosa” e lá vai ter astrologia. Você devia se inscrever.

– Ahn, bem, é que… a Casa de Rui Barbosa não é bem um reálitixou. É uma fundação que cuida da obra do Rui Barbosa, e de outras personalidades da história do Brasil.

– Não é uma casa igual à do BBB, d’A Fazenda, do “De férias com o ex”, só que a dona é aquela ruivinha?

– É Casa “de” Rui Barbosa, não “da Ruy Barbosa.

– E o que é que uma apresentadora de televisão está fazendo lá com aula de astrologia?

– É o que eu também me pergunto, presidente. Aliás, é o que todo mundo se pergunta…

– Depois eu falo pra um dos meninos verificar isso daí.  O que eu preciso mesmo é da sua declaração de que esse negócio de Terra redonda rodando aí no céu em volta do Sol, sem domo de acrílico, só pode ser piada.

– Não é.

– Não é o quê?

– Piada. Eu vi. A Terra é redonda. Eu não consegui lugar na janelinha – fiquei sentado no corredor – mas deu pra ver que é redonda, sim.

– Vai ver aquilo não era janela, era um olho mágico. No olho mágico todo mundo fica redondo.

– Não era olho mágico, presidente.  Era uma escotilha.

– Quer que eu acredito que tá todo mundo errado – o meu astrólogo, o presidente da Fuzarca, esses vídeos do iutube – e só você é que tá certo?

– Pergunta pro Guedes, pro Moro, pro Mourão…

– Talkey, vou consultar os especialistas.

(Marcos sai da sala, preocupado com a gravidade da situação.)

– Ô Vaingarte, chama aí o Ernesto, a Damares e o Vaintraube, que eu quero tirar uma dúvida com eles.

Encargos

encargos

Ando preocupado com a uberização do trabalho.

Com essa coisa de a pessoa não ter que bater ponto e poder fazer o próprio horário.

Perder o direito de ficar se comparando ao colega que faz corpo mole e tem o mesmo salário.

Ou não ir trabalhar sem precisar “estar de atestado”.

Aqui em frente ao meu prédio há sempre uma fila de ex-engenheiros, ex-lutadores de MMA, ex-encarregados de serviços gerais, todos aguardando corrida. E pela ciclovia, enquanto passeio os cachorros, passam dezenas de bicicletas com sua preciosa carga de pizzas, lasanhas, iaquissobas e cocas litro.

Como eu, muita gente lamenta a instabilidade desses subempregados, sem as garantias da CLT.

Mas isso tem jeito – e não depende de nenhuma mudança na legislação, de nenhum protesto com vidraça quebrada, ponto de ônibus depredado, pichação de bem tombado pelo Patrimônio Histórico ou pneu incendiado em via pública.

Pediu comida pelo Rappi?
Chamou o Uber?
Contratou um frila?
Na hora que tiver que pagar, pegue a calculadora e adicione:

+ 20% de INSS
+ 1,5% de SESI
+ 1,0% de SENAI
+ 0,2% de INCRA
+ 0,6% de SEBRAE
+ 2,5 de Salário Educação
+ 3,0% de Seguro contra acidentes de trabalho
+ 8,0% de Fundo de Garantia
+ 1,0% de SECONCI
+17,99% de repouso semanal remunerado
+ 4,8% de feriados
+ 0,92% de auxílio enfermidade
+ 10,82% de 13º salário
+ 0,07% de auxílio paternidade
+ 0,72% de faltas justificadas
+ 1,23% de dias de chuvas
+ 0,11% de auxílio acidente de trabalho
+ 7,69% de férias gozadas
+ 0,03% de salário maternidade
+ 4,93% de aviso prévio indenizado
+ 0,12% de aviso prévio trabalhado
+ 6,09% de férias indenizadas
+ 5,05% de depósito de rescisão sem justa causa
+ 0,41% de indenização adicional

Calcule 16,8% de reincidência de INSS, SESI, SENAI, INCRA, SEBRAE, salário educação, seguro contra acidente de trabalho, FGTS e SECONCI sobre o repouso remunerado, os feriados, os auxílios enfermidade e acidente de trabalho, o 13º, a licença paternidade, as faltas justificadas, os dias de chuva, as férias gozadas e o salário maternidade.

Isto feito, calcule 0,44% dessa reincidência sobre o aviso prévio trabalhado e do FGTS sobre o aviso prévio indenizado.

Pronto.

Para adiantar o seu lado, aí vai um espóiler: isso dá 116,09%. É quanto você deve adicionar ao custo da entrega do iaquissoba ou do percurso entre a estação do metrô e a sua casa no Voyage do Adilson, que perdeu o emprego numa estartape e virou motorista para pagar a pensão da filha e a faculdade particular (à distância).

Se o uber deu R$ 35,00, pague mais R$ 40,63 de encargos. No caso de não ter trocado, deixe como gorjeta, quando o aplicativo pedir para você avaliar a corrida, que vai acabar saindo por R$ 75,63.

Fazendo isso, você desprecariza o trabalho sem precisar vandalizar nada nem atrapalhar a vida de ninguém.

Notas de rodapé:

1) Estes percentuais de encargos sociais sobre mão de obra referem-se ao Rio de Janeiro, setembro/2019, horista, sem desoneração. Para outros estados, mensalista ou com desoneração, outra tabela do SINAPI deverá ser consultada;

2) Sim, a empresa fica com uma parte do valor pago ao motorista. Se souber quanto é, é só descontar e fazer o cálculo apenas sobre o que o Adilson ou o moço do Rappi realmente recebem;

3) Não, o combustível, a manutenção do Voyage, o IPVA, nada disso é mão-de-obra. Nem a troca de pneu da bike. Pode descontar também;

4) Sim, o Brasil tem 30% de neoliberais insensíveis e 40% de isentões bundamole que não vão querer arcar com os encargos sociais. Fique à vontade para pagar a parte deles (defender grandes impostos trabalhistas exige grandes responsasbilidades…) ;

5) Tá, eu sei que com a Uberbras, a Rappibras e a Frilabras (estatais, com Presidente, Conselho de Administração, Diretoria Executiva, Conselho Fiscal, Departamento de Governança Corporativa e Compliance – cargos de confiança indicados pelo Centrão em troca de apoio na Câmara e no Senado) e o SindiUber, o SindiRappi e o Sindifrila (ligados à CUT) nada disso estaria acontecendo. Mas enquanto o verdadeiro petismo não chega ao poder – esse petismo que saiu não era o petismo verdadeiro, ele foi contaminado pelo acordo espúrio com o Centrão -, faça a sua parte.

5) Claro que a coisa não é simples assim, é mais complexa do que isso, patati patatá, mas você entendeu o espírito da coisa. Se é contra essa precarização do trabalho, que leva o Adilson a passar o dia no trânsito, levando desconhecidos pra lá e pra cá, e, com isso, conseguir pagar a pensão da Manuela (lembrei o nome da filha dele) e o EAD na Estácio, é só pegar o valor da corrida e multiplicar por 2, 16. Porque é isso que você faz com qualquer outro serviço – do segurança do metrô à moça do caixa no restaurante de comida a quilo.

Custa um pouquinho mais caro e é bem menos divertido que botar máscara, estilhaçar vidraça do Itaú, depredar lixeira e botar fogo em ônibus – mas faça sua cota de sacrifício. De vândalo, aqui no Rio, chega o prefeito.

Xerebecanto

xerebecanto

Dom de línguas quem tem são os poliglotas. Esses que ralam na Aliança Francesa, no Goethe, no Duolingo, no Ciciêiêi, Os que falam (e entendem) inglês, francês, espanhol, alemão, russo – porque falar é fácil; entender é que são elas … Dom de línguas estranhas têm os que aprendem húngaro, basco, finlandês, vietnamita, português com a nova regra do hífen.

O que se ouve nas igrejas pentecostais tem outro nome: charlatanismo. Ou, em termos científicos, glossolalia.

Do grego “glóssa” [língua] + “laló” [falar], a glossolalia é um fenômeno que a psiquiatria e a linguística aplicam a situações em que um indivíduo, teoricamente tomado de fervor religioso, desanda a falar numa língua que nem ele (nem ninguém) conhece.

É diferente da Xenoglossia (do grego xeno [estrangeiro] + glosso [língua] que é quando alguém fala uma língua (existente) que nunca foi aprendida (meu sonho de consumo com o alemão).

Existe, ainda, a livre vocalização, que é mais ou menos o que fazem os bebês quando começam a balbuciar. Ou os compositores quando acaba a inspiração para a letra e completam a melodia com lalalá, lererê, chananá ou yeah yeah yeah.

Na Bíblia, em Pentecostes, teria acontecido o fenômeno de Xenoglossia. Tomados pelo Espírito Santo, os apóstolos – que eram pessoas simples, sem muita leitura – começaram a falar em diversas línguas. Com isso todos os presentes à festa puderam ouvir a palavra de Deus, cada um em seu próprio idioma.

Logo, esse “dom de línguas estranhas” não era exatamente o dom de línguas estapafúrdias, mas de línguas de outros povos.

Os pentecostais (cujo nome deriva, como já deu pra perceber, de Pentecostes) parece que não pegaram bem o espírito da coisa. Em vez de falar búlgaro, sânscrito, tupi ou tagalog, falam xerebecanto – que não é língua de ninguém e que ninguém entende. O seu sentido – como disse o filósofo e linguista búlgaro Tzvetan Todorov – é ser ininteligível.

Chico César é expert nesse idioma: “Ô amaradzáia zoê. Dzáia, dzáia A rin fingá do ran ran”. E o finado Skank complementa: “Deriráum daum daum, dererum dáu du dáum, deriraum daum daum”. E o João Bosco afirma que “dunga gaguiê gaguncê dagunci dungá gaguiê aibibuloba aidubuloba ai ai ai”. E o Carlinhos Brown completa: “Magamalabares acqua marã no parquinho oxaiê”.

Seria o xerebecanto uma linguagem poética, acessível apenas aos anjos e aos iluminados da MPB?

Há controvérsias. Primeiramente, porque o xerebecanto não é uma língua. Não possui estrutura sintática: é mera repetição de fonemas de língua-mãe do pastor (mesmo ritmo, mesmas pausas, mesmos padrões de consoantes e vogais).

Um pastor de Coxiporé do Norte falará fluentemente “Decanta labaxuria cantararamás”, mas jamais profetizará “zczęściewzględny chrząszczpszcz” ou “mézeskalácssütés viszontlátásra” – que pastores tchecos e húngaros, respectivamente, tirariam de letra.

Há teses de mestrado sobre o assunto. Sílabas vocalizadas aleatoriamente têm o mesmo grau de complexidade de “revelações” como “naconte merecanto nana naconderé, na conderemaná saconde conde que mené nem façá”,

“Ainda que eu falasse as línguas dos homens e dos anjos, e não tivesse amor, seria como o metal que soa ou como o sino que tine.” (1 Coríntios, 13). Ou seja, barulho, gugugu dadadá. Nhenhenhém, blábláblá.

Não mate seu anjo da guarda de vergonha alheia. Ao se dirigir a ele, faça-o em português ou em qualquer das línguas encontráveis no Gúgol Translêitor. Caso contrário, é capaz de ele não te atender, por achar que é só a Baby Consuelo chamando os filhos (“Nanashara, Sarashiva, Zabelê, Riroca!) pra janta.

Receita de batata frita da Tia Rosa

batata

Batata frita é muito simples de fazer. Mas antes é fundamental lembrar que os sumérios não conheciam a batata, muito menos a batata frita. Não há qualquer registro de receita de batata frita em escrita cuneiforme. Tampouco os babilônios, na Mesopotâmia, nos legaram qualquer documento acerca dessa receita. Não há, entre os egípcios, seja nas tumbas, seja nos papiros, nenhum hieróglifo que signifique batata frita – ou french fries, como era chamada pelos pais fundadores dos Estados Unidos da América, entre eles John Adams, Benjamin Franklin, John Hancock, Samuel Tuntington, Thomas Jefferson, Artur Middleton, Richard Stockton, John Witherspoon e Charles Thomson.  Entretanto, mesmo povos anteriores, como os neandertais, deixaram gravadas inscrições rupestres retratando bisões, mastodontes e outros animais pré-históricos, mas nenhuma imagem que, à luz da moderna antropologia e da hermenêutica, possa ser identificada como batata frita.

Peço vênia para lembrar aqui que tampouco há registro de consumo de batata frita na cantina da saudosa Biblioteca de Alexandria, louvada pelo autor argentino Jorge Luís Borges, nascido em Buenos Aires, em 24 de agosto de 1899 e falecido em Genebra, em 14 de junho de 1986, e cujas cinzas jamais foram recuperadas – ressalto aqui que me refiro às cinzas da grande biblioteca, não as do escritor, que encontra-se sepultado no Cemitério de Plainpalais, na Suíça, tendo sua tumba uma inscrição em  inglês antigo, tirada do poema Battle of Maldon, que pode ser traduzida como “não tenhas medo de nada”.

É de vital importância apontar que Gengis Khan, nascido por volta de 1162 nas proximidades do rio Onon, perto do lago Baikal, na Mongólia, possivelmente jamais provou batata frita. E nisso ele se iguala, hermeneuticamente, a Alexandre o Grande, ou Alexandre III da Macedônia, que, nos curtos 33 anos de sua existência, tampouco provou esta iguaria, apesar de haver emprestado seu nome ao verso de 12 sílabas, formado de dois hemistíquios, tão caro aos parnasianos, como Théophile Gautier  Théodore de Banville e o saudoso Sully Prudhomme, autor do poema Le Zénith, publicado na Revue des deux mondes, em 1876.

Escavações em sítios arqueológicos nos revelaram ossadas quase completas de um Pukyongosauro na Coreia do Sul, de um Megalossauro bucklandii na Inglaterra e do Tropeognathus na bacia do Araripe, no nordeste brasileiro, e que se perdeu no lamentável incêndio do Museu Nacional, que ocupava o Paço Imperial Quinta de São Cristóvão, residência da família real desde a proclamação da independência do Brasil, em 1822, por Pedro de Alcântara Francisco António João Carlos Xavier de Paula Miguel Rafael Joaquim José Gonzaga Pascoal Cipriano Serafim de Bragança e Bourbon, Príncipe Real do Reino Unido de Portugal, Brasil e Algarves.  Mas nem um único fóssil de batata frita foi encontrado.

Nenhum dos filósofos gregos, de Aristóteles a Empédocles, de Anaximandro a Tales de Mileto, jamais colocou uma batatinha frita na boca. Mesma sorte tiveram Plutarco, Zenão de Eneia, Leucipo, Cleante de Assos, Teofasto, Alcmenao de Crotona e Aristóxenes, o que nos leva a crer – salvo melhor juízo – que a batata frita nada teve a ver com o apogeu do mundo helênico.

Não quero me estender demasiadamente, mas não posso deixar de lembrar que também nem os inuites, os bantos, os hunos e os txucarramãe sabiam o gosto da batata – e consequentemente, da batata frita – que é originária da Cordilheira dos Andes e só chegou ao resto do mundo após a descoberta da América pelo navegador genovês Cristóvão Colombo, cujo sobrenome significa “pombo”, uma ave columbiforme da família Columbidae. Dito isso, para não me alongar mais, pega a batata, descasca, pica e frita.  Essa é a minha receita.