Greve

Greve

– Vamos lá, gravando!

– Hoje, 13 de agosto, é o dia da Greve Nacional do Lula Livr…, quer dizer, da Educação.

– Continue…

– Vamos lutar contra a prisão do Lul…, quer dizer, contra o projeto de desmonte e privatização do ensino público de nível superior. E contra a condenação em segunda inst…, quer dizer, contra o corte de verbas para os ministérios da Educação e da Cidadania.

Nossa luta é para soltar o Lul.., quer dizer, pelo fim dos ataques aos direitos adquiridos, como na reforma da Previdência. O maior problema que temos hoje é o Lula na cad…, quer dizer, o aumento da inflação e do desemprego, a estagnação da economia e a falta de liberdade do Lul…, quer dizer, a falta de perspectiva da juventude.

– Termina, que depois a gente edita.

– Professoras, professores e professorxs, queremos Lula livr…, quer dizer, que todas as instituições de ensino, da educação básica à educação superior, possam libertar o Lul…, quer dizer, paralisar suas atividades neste dia para exigir, quer dizer, dialogar com a sociedade sobre a soltura do Lul…, quer dizer, sobre o papel social que as universidades públicas e as escolas públicas em geral cumprem na sociedade socialista, quer dizer, na sociedade, na produção de um conhecimento referenciado e chamar a militância, quer dizer, a população a defender este patrimônio que é o Lula… Droga!… que é a educação pública.

– Esta já é a décima terceira tentativa, mas acho melhor gravar de novo….

– Pois é. Não dá. É mais forte que eu. Quando vejo, já falei.

– Mas você consegue. É só se concentrar. Pense em todos que continuam dando seu sangue, seu suor e suas lágrimas pelos pobres. A Manu lá na Escócia. A Marcinha em Paris. O Jean em Berlim. O Freixo na piscina do Copa.

– Ok, agora vai.

– Bora. Gravando!

– Hoje, 13 de agosto, é o dia da Greve Nacional da Educação. Vamos lutar contra a Lava Jat…

– Corta!

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Já não se faz mais pornô como antigamente

chanchada

Foi ontem a entrega do Oscar do pornô brasileiro, promoção de um canal de tevê a cabo cuja equipe de produção é composta majoritariamente por mulheres e do qual também elas são a maioria dos assinantes.

Pensei logo (olha o machismo estrutural aí) que fosse algo mais light, tipo filme erótico cheio de cenas em câmera lenta, com lente esfumada, velas acesas, preliminares intermináveis e clímax com mãos agarrando lençóis de seda e dedos do pé retorcidos em êxtase, enquanto a câmera desliza suavemente para a lareira.

Acho que preciso me atualizar a respeito. Os filmes concorrentes tinham títulos como “Loira voraz 2”, “Amarradas e dominadas”, “Violadas ao extremo” e “Elisa, campeã anal”.

Nada mais distante daqueles tempos em que ainda existiam pelos pubianos, e tínhamos carteirinha de estudante falsificada para assistir “Aluga-se moças”, “Histórias que nossas babás não contavam”, “A superfêmea”, “Nos tempos da vaselina” ou o clássico “Um pistoleiro chamado Papaco”.

Aparentemente, ainda tem gente da velha guarda encarregada de batizar as obras: “Massagem excitante”, “Triângulo sexual”, “Tentação tropical”, “Amor e traição”, “A hóspede desejada”, “Show de vizinha”, “La casa de Raquel” (paródias eram um filão inesgotável), “Boas entradas” (duplos sentidos, idem).

Há, claro, os sinais dos novos tempos (“Start up da louras”, “App”, “Bound up”) e coisas indecifráveis (“Promessa é dívida”, “O que trazes para mim”, “Diga sim para a yoga”).

As categorias são um tanto óbvias: Melhor atriz / ator hétero, atriz / ator revelação hétero / LGBT, melhor atriz trans (melhor ator, não), melhor atriz homo (melhor ator, não), melhor direção, melhor filme hétero (LGBT não), melhor cena de oral / anal / fetiche / ménage / dp / orgia / trans.

Como assim, não há “Melhor cena de sedução de jardineiro / encanador / entregador de pizza”? “Melhor cena de banho de chuveiro com a porta aberta”? “Melhor cena de beibidol”?

“Melhor cena inútil de carro subindo pela rua até estacionar na porta de casa”? “Melhor cena de professora intelectual de óculos, cabelo preso e minissaia, desabotoando a blusa”? “Melhor diálogo daqueles de matar a plateia de vergonha alheia”?

Será que os pornôs de agora ainda têm um fiapo de enredo, ou são só sexo, sem aviso prévio? Seria um avanço, porque não há nada pior que pornô sem história. Exceto pornô com história.

Diz a matéria do G1 que teve discurso contra “a caretice tosca” e a transfobia. Mas, pelo visto, faltou protesto pela inclusão de “Melhor cena não binária genderfluid”, “melhor orgia solossexual” (solossexual é quem só se sente atraído por si mesmo), “melhor ator / atriz sapiossexual” (sapiossexual é quem se sente atraído sexualmente pela inteligência de uma pessoa, independentemente do sexo biológico ou identidade de gênero) e uma categoria para os assexuais (filão atualmente monopolizado pelo feicebuque).

Consta que Elisa Sanches agradeceu de olhos emocionados o prêmio de “Melhor cena de sexo anal”. Imagine se tivesse ganho o de “Melhor cena de voyeurismo”.

 

Seres fictícios

Seres ficticios

“Pela invasão do meu celular e pelas mensagens enviadas, imaginei que se tratasse de alguma armadilha montada por meus adversários políticos. Por isso, apesar de ser jornalista e por estar apta a produzir matérias com sigilo de fonte, repassei ao invasor do meu celular o contato do reconhecido e renomado jornalista investigativo Glenn Greenwald. ” (Manuela D’Ávila, ex-deputada pelo PC do B e ex-candidata a vice-presidente da república)

Eu também sou assim.
Quando meu telefone é invadido, eu repasso ao invasor o contato de algum reconhecido e renomado jornalista investigativo, em vez de avisar à polícia e à operadora.

E se eu fosse um reconhecido e renomado jornalista investigativo, divulgaria de forma seletiva apenas aquilo que pudesse ser do interesse do meu partido, sem questionar se a informação fora obtida por meios lícitos e, claro, sem oferecer nada em troca, além do anonimato – e da cortina de fumaça de a fonte ter sido um “whistle blower” (é impossível aportuguesar isto, por enquanto).

O araponga de Araraquara raqueou por esporte o ministro do STF Alexandre de Moraes, o ministro Sergio Moro, os ex presidentes Lula e Dilma, o ex-governador Pezão, o ex Procurador-Geral da República Rodrigo Janot, o procurador Deltan Dallagnol e outros menos votados (mais ou menos umas mil pessoas). E repassou, graciosamente, as conversas que considerou “de interesse público” – que eram (vejam só!) só as da tchurma da Lava-Jato.

Eu também, se fosse um sujeito sem ocupação definida, com seis processos na Justiça por crimes de estelionato, furto qualificado, apropriação indébita e tráfico de drogas (com duas condenações) e tivesse em mãos um material desses, entregaria as informações em nome do interesse público, sem pedir nada em troca.

Afinal, mesmo para quem vive de golpes, o dinheiro não é tudo. Onde é que ficam o altruísmo, o idealismo, o senso de dever cívico?

Não sei como alguém consegue ver algo de errado nisso tudo.

Deve ser porque não estamos acostumados a ráquers golpistas patriotas, deputadas sensatas e gentis, e jornalistas investigativos escrupulosos.

Loop

loop

Eles venceram.

Moro extrapolou, as conversas eram mais impróprias que os filmes do Alexandre Frota e a Lava-Jato deve ser anulada. De ponta a ponta.

Agora o desafio é arcar com as consequências dessa irresponsabilidade que foi tentar investigar e punir a corrupção no Brasil.

Logo após a soltura de Lula, o prédio da Polícia Federal em Curitiba deverá ser implodido para que se erga no lugar um Memorial à Maracutaia. A contratação da obra será feita mediante licitação fraudulenta da qual participarão apenas empresas que já tenham combinado seus preços e garantido 10% para o caixa 2 das próximas eleições.

Lula terá que ser indenizado. Não pelo tempo que passou preso, mas pelos livros que foi obrigado a ler para obter redução da pena, e pela abstinência etílica forçada. Os artistas que foram em romaria reverenciá-lo e os jornalistas que se viram obrigados a se deslocar até Curitiba para as entrevistas terão suas despesas ressarcidas pelo erário. Mais os danos morais.

Todo o dinheiro devolvido à Petrobras e aos cofres públicos terá que ser reembolsado aos que o desviaram. Com juros e correção – e sem descontar a tarifa do TED.

As eleições de 2018 serão anuladas. Lula assumirá automaticamente, já que a Lava-Jato (como se comprovou com as gravações interceptadas) só foi criada para impedir sua vitória estrondosa nas urnas.

O Brasil repatriará todos os imigrantes venezuelanos que vieram para Roraima atraídos pela ditadura do Bolsonaro, e fornecerá tanques para ajudar a combater a miséria que o bloqueio estadunidense causou ao país vizinho. Poderá criar também uma moeda única com a Venezuela, o Bolívar Realmente Soberano, trazendo Maduro de volta ao Mercosul, e firmando um acordo de livre comércio com a Rússia.

As armas não serão liberadas, e o país voltará a ter índice de criminalidade zero, como era nos governos do PT.

Será providenciada a importação de milhares de desneuralizadores, aquelas máquinas acionadas pelos Homens de Preto para apagar a memória. Assim, será possível voltar a viver como em 2018, sem ter a menor ideia de quem venham a ser Damares, Vélez, Weintraub, Ernesto Araújo, 01, 02 e 03. E que seja possível comer pão com leite moça.

Jorrará petróleo do pré-sal em volume suficiente para encher os canais da transposição do São Francisco (era para isso que estavam sendo construídos, por isso a água não foi desviada para lá). Tudo será refinado em Pasadena, produzindo gasolina aditivada com ferrugem, a ser exportada para o Irã através do porto de Mariel, em Cuba, gerando divisas suficientes para pagar os adevogados e bancar os militantes virtuais.

Jean Wyllys retornará do exílio (afinal, o Brasil deixará de ser uma ditadura fascista), se tornará líder do governo na Câmara. Consequentemente, o marido do Greenwald perderá o mandato. Greenwald ficará muito puto com isso e admitirá que foi tudo uma armação (em desabafo no zap, raqueado pelo Antagonista).

Com o escândalo do Vaza-Glenn, a Lava-Jato ressuscita, implodem o Memorial da Maracutaia, reconstroem a Polícia Federal de Curitiba, Lula volta pra cadeia e o Brasil retorna à programação normal, exatamente do ponto onde parou.

A não ser que o Greenwald resolva processar o Antagonista por ter violado seu sigilo telefônico, e aí a gente implode de novo a PF, reergue o Memorial da Maracutaia (com superfaturamento) e continua andando em círculos, em moto perpétuo.

Quando acabar a paciência – ou o PIB, o que vier primeiro – a gente decide nos pênaltis.

B.A. – Bloqueados Anônimos

bloqueados

Salão da casa paroquial.
Segunda-feira,
Sete da noite.

As cadeiras estão em círculo, num canto há uma mesa com água, chá e biscoitos.

Alex toma a palavra.

– Boa noite, meu nome é Alex…

– Boa noite, Alex! (todos, em uníssono)

– … e eu sou um bloqueado em recuperação. Estava já há dezessete dias limpo, mas tive uma recaída na quarta passada, comentei no mural do Paulo Henrique Amorim e…

– Paulo Henrique Amorim? Você pegou pesado, Alex!

– Pois é, não sei o que me deu. Depois que levei o block do José de Abreu…

– … você se comprometeu a só comentar em postagem de gente civilizada, lembra?

– Pois é, vacilei. Mas o cara tinha escrito uma coisa tão, mas tão, mas tão sem noção, que eu não resisti.

– Lembra da primeira regra do grupo, Alex?

– Sim, só argumentar em postagem de quem tenha argumento.

– Exato. Leia a postagem da pessoa. Se for argumentativa, argumente. Se for dogmática…

– Respiro fundo, ergo os olhos aos céus, peço que tenham piedade dessa alma desgarrada no Dia do Perfeito Juízo Final e sigo adiante.

– Muito bem, Alex.

– O problema é que isso me impede de comentar em qualquer postagem petista ou bolsonariana. E que graça tem argumentar com quem pense igual a mim?

– Boa questão, Alex. Alguém saberia responder?

– Oi, pessoal, eu sou a Regina…

– Boa noite, Regina (todos, em uníssono).

– Sabe, Alex, eu sou vegetariana. O que você passa com os bolsomínions e os petistas, eu passo com os churrasqueiros e os veganos.

– Um aparte, Regina. Meu nome é Geraldo e…

– (Em uníssono) Boa noite, Geraldo!

– … eu sou carnívoro e passo o mesmo nas páginas dos veganos e dos vegetarianos. Esta semana fui bloqueado por oito vegetarianos porque perguntei por que chamavam proteína vegetal de “carne” e por dezenove veganos por falar que o abate ético é melhor que nada.

– Gente, desculpe interromper, meu nome é Dora…

– (Em uníssono) Boa noite, Dora!

– … eu sou ateia, e aprendi a me controlar diante de correntes milagrosas, mensagens de gente morta, simpatias para segurar marido e aparições de chupacabra. Nenhum block nos últimos quarenta e cinco dias!

– Parabéns, Dora! (todos em uníssono).

Alguém se levanta e tenta sair de fininho.

O coordenador do grupo intervém.

– O companheiro já vai? Não quer fazer uma partilha?

– Oi, meu nome é Arnaldo.

– (Em uníssono) Boa noite, Arnaldo!

– Eu sou irrecuperável. Levo centenas de blocks diários. Sete dias por semana. Estou aqui há quinze minutos sem levar um block e já começo a sofrer de síndrome de abstinência.

– O que você faz? Compartilha maus tratos de animais? Posta foto em HDR? Repercute Monica Iozzi? Apoia golpe militar? Marca 40 pessoas nas suas postagens?

– Não. Eu defendo o Gilmar Mendes.

(Silêncio total. Em uníssono.)

 

(originalmente publicado em 13 de junho de 2017)