Horóscopo do Pai Dudu

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A opressão, o preconceito e a intolerância estão enraizados na nossa cultura, de tal forma que os praticamos “estruturalmente”, ou seja, no dia a dia, nas atitudes mais banais, sem nos dar conta.

No horóscopo, por exemplo.

– Qual o seu signo?

– Sou ariana.

Você tem noção de quanto sofrimento essa resposta causa a uma ameríndia, uma asiática, uma árabe, uma afrodescendente?

Signos não têm o direito de ser etnicamente abusivos. Nascidas, nascidos e nascides entre 21 março a 19 abril devem poder expressar livremente sua ancestralidade e responder que são abecazes, aborígenes, apaches, berberes, bororós, bretões.

Arianos são só os arianos – e mesmo assim era melhor que respondessem: “Sou indo-europeu – mas não é culpa minha”.

Eu, por exemplo, sou Touro. Vegetariano e, vejam só, obrigado a compactuar com a exploração animal implícita na atividade pecuária, por uma contingência zodiacal.

Se ao menos as mulheres taurinas tivessem a opção de dizer que são do signo de Vaca, as moças do signo de Novilha e as crianças do signo de Bezerro, mas o signo é especista, misógino e não respeita os direitos da infância e da juventude.

Por que não mudar para Minhoca, que também é de elemento Terra? Aliás, mais elemento Terra que minhoca, impossível. Imaginemos a voz de Zora Yonara, na Super Rádio Tupi, prognosticando:

– Anelídeo, meu filho, o dia de hoje é propício para ficar enfiado em casa, subindo pelas paredes.

Tudo a ver comigo e com este momento da minha vida.

Aí vem Gêmeos. Pense no gatilho que é essa palavra para quem não pode ter filhos. Quem sempre sonhou ter enjoo, inchaço nas pernas, desejo de comer chantili com taioba às três da madrugada, ficar oito horas em trabalho de parto, ter que fazer períneo (e não poder nem tossir por 15 dias), e com o bico do seio rachado na amamentação… e não teve essas alegrias.

Por que não mudar para Pet? Pet é mais inclusivo – vai de buldogue francês a tartaruga, passando por gato, camaleão e calopsita. Só não tem quem não quer – e tem feirinha de adoção em qualquer praça.

Onde a pessoa estava com a cabeça quando achou que Câncer era um bom nome para signo? Imagine o drama do paciente oncológico com remissão nascido entre 22 junho e 22 julho. Até Corona seria melhor. Se tinha que ter patologia no zodíaco, que fosse Caspa. Otite. Pneumoultramicroscopicossilicovulcanoconiose. Proponho que troquemos por Virose, muito mais democrática.

Leão. Com uma fauna nativa riquíssima como a nossa, vem alguém e batiza um signo de Leão, espécie exógena. Por que não Jaguatirica, Tamanduá, Capivara, Cutia?

– Sou Cutia com ascendente em Virose, e você.

– Galinha.

Sim, Galinha. Porque Virgem é machista no último. O hímen não define ninguém. Esse signo só perpetua o falocentrismo do patriarcado. Assumir-se Galinha será libertador.

Aí vem Libra, que só pode ser ironia, já que congrega os seres mais desequilibrados do planeta. Eu trocaria por Índice Bovespa, esse, sim, instável, imprevisível e só deve investir quem gosta de emoções fortes.

Ao contrário de Libra, tem hora que o signo antigo acerta em cheio. Escorpião define os que chegaram ao planeta entre 23 outubro e 21 novembro para atazanar a vida alheia. Se fossem do bem, o signo se chamaria Joaninha, Panda ou Porquinho da Índia. Esse nome eu manteria, como alerta. Ninguém pode dizer que não foi avisado.

Sagitário é representado por um centauro, metade homem, metade cavalo. Como uma das metas do novo horóscopo será o empoderamento e a representatividade, passa a ser Sereia. Mas sem gordofobia: será metade mulher, metade baleia.

Quem já foi traído sabe o quanto dói ouvir e ler qualquer coisa que lembre chifre. E o Capricórnio tem dois. Dos bons. Para redução de danos, troquemos por Unicórnio, e a sofrência cai pela metade.

Aquário é um nome tão cruel e claustrofóbico quanto Jaula ou Gaiola. O que uma cumbuca de vidro onde indefesos seres aquáticos são aprisionados tem a ver com pessoas excêntricas, rebeldes e sem noção? Para manter o conceito, por que não Quitinete?

Finalmente, Peixes. Claro que o encarregado de dar nomes aos signos já estava exausto e deixou por conta do estagiário. Peixes. Nem se deu ao trabalho de dizer de que espécie, como se não houvesse diferença entre bagre e salmão, tubarão e tainha. Se é pra generalizar, que seja logo Eucariontes.

Pronto, agora com o horóscopo devidamente desideologizado e desconstruído, é só relaxar e mentalizar a voz de Zora Yonara dizendo:

“Bom dia pra você, amiga galinácea. A semana lhe reserva uma grata surpresa com um amigo virtual de unicórnio e decepções com Índice Bovespa. Evite contato com Virose e mantenha-se afastada de qualquer Eucarionte. Sua melhor companhia neste momento é Quitinete, mas não descarte ter um Pet por perto. Sua cor é infravermelho, sua pedra é renal e seu número da sorte é pi radiano.”

Alguém pode achar estranho esse horóscopo sem bullying, mas vejam como tudo se encaixa: eu, ex-Touro, agora Minhoca, tenho como uma das minhas combinações elementares… Galinha! Não é perfeito?

Raudério

rauderio
Fonte wacandido.blogspot.com.br

 

Já tivemos a Geração Perdida, cuja adolescência foi afetada pela I Guerra, entrou de cabeça nos Loucos Anos 20 e na vida adulta sofreu o impacto da Grande Depressão.

“Perdida” é modo de dizer, porque nos legou o jazz, Hemingway, Pound, Eliot, Joyce.

Em seguida, meio misturadas, a geração Grandiosa e a Silenciosa – gente nascida ou já criança na Grande Depressão, e que viveu (ou morreu) durante a II Guerra.  Pertencem a ela Marlon Brando, Kennedy, Lennon, Marilyn Monroe e minha mãe.

Depois os Baby Boomers, os da explosão demográfica da segunda metade da década de 40 (logo depois da II Guerra, até o início dos anos 60). Foi a geração que passou pela polarização da Guerra Fria, e criou a contracultura.

Veio então a Geração Coca Cola, a partir anos 60, influenciada pelo rock, pela cultura americana, e que (pelo menos no Brasil) assistiu às guerras só pela televisão.

Aí acabou a imaginação para dar nome às gerações e passaram a usar letras – X, Y, Z -, ou, no máximo, a obviedade de um “Millenials” para quem estava na casa dos 20 durante a virada do milênio.

Aqui estamos nós, entrando nos Malucos Anos 20 do século 21 e nos deparando – 100 anos depois do jazz, do Hemingway, da ardecô, do cinema falado, do voto universal, da penicilina – com uma nova geração dando as caras. A Geração Raudério.

É a geração que viveu a guerra contra escovar os dentes depois do Nescau. Contra só seis horas de televisão por dia. Contra ter que arrumar a cama e colocar a roupa suja no cesto.

Minha geração (a Coca Cola, apesar de eu preferir Matte Couro), foi a mentora intelectual disso daí.  Nós é que começamos a exigir (“Cadê a minha Calói?”, “Compre Baton, compre Baton, compre Baton!”) em vez de pedir. Nós usamos sapatos cavalo de aço e calça de nesga – sem que ninguém nos obrigasse a isso. Dançamos imitando movimentos de kung fu, fumamos escondidos no banheiro (eu não: eu só vigiava na porta, para ver se vinha alguém).  Inocentes, achávamos que ‘camisinha’ e ‘rachadinha’ eram palavrões.

Reprimidos, consumistas, sem noção de estética, resolvemos dar aos filhos tudo que não tivemos: videogueime, celular, televisão no quarto, quarto com chave na porta e até o direito de se trancar com coleguinha no quarto.

Deu nisso.

– Raudério entrar no meu quarto sem bater na porta?

– Raudério colocar bêicon na farofa, cebola no vinagrete, açúcar no café?

– Raudério votar de acordo com as suas convicções, não com as minhas?

Uma ditadura raudéria não seria muito melhor que aquela do Conto da Aia, que tanto indignou os raudérios quanto os fez suspirar, sonhadores.

O rauderismo também pode vir a ser conhecido como a Geração Barulhenta, da indignação seletiva. Talvez por lhe faltar uma guerra de verdade como a Guerra Civil Espanhola, a da Coreia, a do Vietnã, a de Biafra.

Fascistas e comunistas queimaram livros – os raudérios querem queimar palavras. Implementar a Novilíngua. Viver um cosplêi de membro da Resistência Francesa, mas sem a boina e com um cigarro mais alternativo no canto dos lábios.

Raudérios, o tio aqui foi censurado, aos 11 anos, por fazer na escola um cartaz de Dias das Mães com uma foto da Leila Diniz grávida e de biquíni.  Era 1970, governo Médici, ouviram falar?

O tio aqui comprava o jornal assim que a banca abria para não correr o risco de chegar lá e o “Opinião” e o “Movimento” terem sido recolhidos. O tio aqui carregou faixa em manifestação pela Anistia, participou dos comícios das Diretas. O tio não é fascista. O tio, inclusive, sabe o que é fascismo (porque estudou), o que é ditadura (porque passou toda a infância, adolescência e parte da vida adulta sob uma), o que é censura (porque viu “Laranja Mecânica” com bolinha preta saltitando na tela para cobrir os pentelhos dos artistas).

Ditadura não é nada disso que vocês estão pensando. Podem acreditar em mim: o tio tem lugar de fala.

Nossa geração sobreviveu ao óleo de fígado de bacalhau, às aulas de OSPB, ao fusca sem ar condicionado nem cinto de segurança, ao cursilho, ao xampu que ardia nos olhos, ao quissuco de framboesa, ao avião com assentos para fumantes, à Lei Falcão, à mãe limpando nosso ouvido com grampo de cabelo, às balas Soft.

Não adianta vir nos fuzilar com o olhar:  crescemos acompanhando fuzilamentos muito mais concretos, os dos dissidentes cubanos no Paredón e dos que tentavam cruzar o Muro de Berlim.  O mundo hoje é muito mais seguro, justo e próspero do que era 50 anos atrás.

E você ainda quer que eu estude História – até essa que eu vivi e da qual você só ouviu falar.

Raudério?

Principal e acessório

Kirk

O marido da Gisele Bündchen entrou na brincadeira de ser mais conhecido no Brasil como “o marido da Gisele Bündchen”, assumindo-se orgulhosamente como marido da Gisele Bündchen e pronto.

Coisa que o namorado da Fátima Bernardes ainda não fez e talvez jamais faça.

Fossem mineiros, tanto o marido da Gisele Bündchen quanto o namorado da Fátima Bernardes teriam tirado isso de letra. Lá em Minas, todo mundo é alguma coisa de alguém.

Minha mãe, antes de se casar, era Maria de Zizico. Casada, virou Maria de Sidney.

Meu pai, que era o Sidney de Custódio, virou Sidney da Conceição (nome de sambista, mas quis o destino que ele não tivesse ritmo nenhum e fosse advogado).

Fui, durante boa parte da minha vida, “o filho do juiz”.

Para quem não sabe, no interior, “filho do juiz” é um cargo honorífico, tipo “mulher do padre”.

Ser filho do juiz oferece duas alternativas: a) ser um mané consumado, pegando carona na autoridade paterna, ou b) despirocar de vez, seja se prevalecendo das costas quentes que o cargo de filho do juiz proporciona, seja para marcar posição e provar que ser filho do juiz não o tornou um mané consumado.

Eu optei pela letra a. Meus irmãos, livres desse encargo, gabaritaram marcando b.

É assim mesmo.  Tarcísio Filho sempre vai ser “filho do Tarcísio. Lulinha vai morrer sendo “filho do Lula”. Jesus Luz, o “ex da Madonna”. Aurora Miranda, a “irmã da Carmen”.

O Sorvete Alex vai ser sempre “atrás do Copacabana Palace” – o Copacabana Palace nunca vai ser “na frente do Sorvete Alex”. E olha que o sorvete do Alex é bom.

Quando quiserem lustrar a biografia do Alexandre Frota, vão dizer que ele foi casado com a Cláudia Raia. Quando quiserem alfinetar a Cláudia Raia, dirão que foi casada com o Alexandre Frota.

Não é uma questão de ser melhor ou pior. Mas do brilho de cada um. Do carisma. Daquele jenessequá que se nem os franceses conseguem definir, imagine eu.

Rosane é a ex do Collor – Collor nunca vai ser “o ex da Rosane”.

Marco Aurélio é o primo do Collor – Collor nunca vai ser “o primo do Marco Aurélio”.

Um dia, quando me julgava já liberto da sombra paterna, me tornei “o dono da Benedita”.

Faz parte.

Chamem o Brad Pitt de “ex da Jennifer Anniston”.

O Silvio Santos de “avô do Tiago Abravanel”.

A Princesa Diana de “sogra da Meghan”.

Agora, chamar o Kirk Douglas – morto ontem aos 103 anos –  de “pai do Michael Douglas”, aí é sacanagem.

O caminho das pedras

love hate

Há alguns dias, a Glória Perez me disse uma daquelas coisas que as pessoas dizem sem saber que vão provocar uma revelação, uma epifania:

– Prepare-se para o ódio.

Uma frase dita em meio a outras, entre uma fatia de pizza e um gole de coca cola (minha recaída depois de quase quatro anos longe dos refrigerantes). Uma frase sem pretensão. Sem vocação para ser premonitória. Algo como quem diz “coma antes que esfrie”.

É que preparamo-nos para ser amados. Ajeitamos o cabelo, o colarinho. Puxamos a saia um pouco mais para baixo. Um pouco mais para cima. Dizemos “eu te amo” na certeza do “eu também”. Esperamos o “eu te amo” para gaguejar alguma coisa – omitindo o verbo indizível, o que diz muito mais do que se o disséssemos.  Entregamos o presente e procuramos o brilho nos olhos de quem abre o embrulho. Revisamos o texto, trocando uma palavra que não muda nada, mas que muda tudo porque deixa claro para nós mesmos que todo cuidado é pouco quando se deseja ser amado.

Aprontamo-nos para o amor de quem amamos, para o amor de quem desconhecemos, para o amor de quem sequer sabemos se existe, até para o de quem nunca saberá que existimos. E nos esquecemos de que há uma fração da humanidade que é talhada para o ódio. E com a qual, fatalmente, haveremos de nos cruzar – os expectantes do amor, os caudatários do ódio.

“Prepare-se para o ódio” é mais ou menos a avó que nos pede que levemos agasalho (prepare-se para o frio, o sereno). O pai que nos lembra para ficar de olho na bagagem, não perder a baldeação, não aceitar nada de estranhos. A que nos sussurra “ligue quando chegar” como alerta velado de que há perigo na esquina. O que nos abraça e murmura, embaraçado, “te cuida, meu”, porque haverá momentos em que não poderá estar do lado, para nos cuidar.

Recebemos o tempo todo milhares de manifestações de amor – na forma de sorriso, bom dia, por favor, melhoras, coma antes que esfrie. Não vêm necessariamente de quem nos ame, mas, com muito mais frequência, de quem projeta em nós sua necessidade de amor, sob o manto de civilidade.

E vivemos, sem nos dar conta, a ilusão de que o ódio só existirá se o provocarmos. Mas ele independe de nós. Tem vida própria. Nós apenas nos prestamos, com maior ou menor eficiência, a ser alvo desse ódio. Há quem chame de inveja, de ciúme, despeito, ressentimento; não importa. O universo feito de matéria e antimatéria, amor e ódio. Tudo o mais é variação em torno desses temas.

Nem todo amor que recebemos se destina a nós: apenas estávamos lá, na hora certa, pare recebê-lo. E agradecemos (por vezes, até retribuímos!) como se tivéssemos algum mérito pelo amor alheio. Com o ódio, que é a contrapartida do amor, não haveria de ser diferente.

Ele virá. Queiramos ou não. Virá porque existe, não porque existimos. Apenas estaremos lá, na hora certa-errada, em lugar visível – ou, ainda que invisíveis, onde o acaso possa nos encontrar. Virá como a bala perdida – não somos o seu destinatário, não temos qualquer participação na cena, somos alheios à motivação.

Mas temos que estar preparados para ele, como estamos para o amor. Nem um nem outro nos dizem respeito (o amor e o ódio pertencem a quem ama e a quem odeia). Só nos deixamos, por vaidade, ser depositários do amor que não nos pertence – e, por estupidez, nos indignamos com o ódio que tampouco nos diz respeito.

– Prepare-se para o ódio.

A frase tinha tudo para ser banal. Nada no seu tom denunciava que fosse provocar uma revolução interna, um entendimento súbito. Uma compreensão de que, se queremos ser objeto de amor (e queremos), temos que aceitar sua contrapartida. Que o amor tem seu preço.

Dias depois de ouvir essa frase, uma mulher – de quem nunca tinha ouvido falar, cujo rosto nunca vi, cujo nome não diz nada – desejou que eu morresse do coração.  Em meio a uma avalanche de gente que insiste que eu tome água (ainda não estou tomando…), há uma pessoa (uma, entre milhares) que quer que eu morra.

Não porque eu lhe tenha feito mal, lhe ameace a existência ou seja indigno de viver. Para ela, eu sou “de esquerda” – e isso lhe faz mal. Ela preferia que eu não fosse – e pouco importa que eu não seja – e isso ameaça sua existência (ou a da sua crença no bolsonarismo). Por isso, é melhor que o meu coração pare de vez – o que morrerá será o Mal que represento, não eu.

Por que mil declarações de amor não provocaram a mesma reação que uma de ódio? O ódio não é assim tão maior, tão mais potente. Se o amor nos soa natural (“melhoras!”), por que nos haveria de soar estranho o ódio (“morra!”). São cara e coroa, o trem que chega e o trem da partida. É muita ingenuidade (por pouco não digo estupidez) achar que um existirá sem o outro.

As pessoas não se lembram de tudo que dizem, nem sabem das consequências das suas palavras. Mas nós sabemos quando ouvimos o que temos que ouvir.

Tenho que me preparar para o ódio, assim como venho me preparando para o amor. E vou comer – a pizza, o amor – antes que esfriem.

Para os criacionistas tomarem ciência

Criacionismo

Eu entendo os criacionistas – ou sua versão nutela, os adeptos do design inteligente.

A natureza é mesmo perfeita demais para ter sido obra do “acaso”, da “evolução”.

São inúmeros os exemplos de que haja uma intencionalidade, um desígnio por trás de cada coisa, e isso Darwin não explica.

Por exemplo, como pode a mão ter exatamente o mesmo formato da luva? A chuva vir de cima para baixo e deslizar perfeitamente pelo guarda-chuva?  Existirem orelhas na posição exata para os aros dos óculos se encaixarem e um nariz bem no meio, sobre o qual ele possa se apoiar?

Só não acredita no design inteligente quem não quer. Veja as asas das borboletas, o voo do colibri, o pôr do sol, a voz do Henry Cavill, os olhos da Bruna Linzmeyer. Tudo isso só pode ter sido meticulosamente planejado, com pós-produção no fotoxope e renderização em 3DMax.

Somos fruto de um projeto muito bem elaborado. Os joelhos, que nunca dão problemas, são a melhor prova disso.  A coluna, então, nem se fala. E essa sacada genial de termos o osso da canela desprotegido, na frente, e a batata da perna, a parte acolchoada, para trás? Não é coisa de gênio?

Outra ideia magistral do criacionismo foi vincular a reprodução ao sexo.  Se a falácia da evolução fizesse sentido, poderíamos ter eventualmente “evoluído” para seres que se reproduzissem através de outros meios. Imagine você e a patroa – ou você e o mozão – naquela lombeira boa pós orgasmo, concordando em ir juntos fazer uma colonoscopia – ou um tratamento de canal, ou – pior ainda – ouvir um CD da Ana Carolina – a fim de conceberem o Júnior e a Maria Eduarda.  Não fosse o design inteligente, que botou num único pacote os hormônios, o tesão, a ovulação, a ejaculação e a falta de juízo, Adão, Eva, a cobra e a maçã estariam até hoje jogando biriba no Éden, só os quatro, e a Humanidade, essa maravilha, jamais teria existido.

As constelações foram criadas para que pudéssemos ler o horóscopo antes de ir pro trabalho, fazer mapa astral e saber que devem ser evitados os homens de Touro e as mulheres de Escorpião (trans, sejam de que signo forem, não podem ser evitadxs, pois é transfobia).

A Terra foi feita sob medida para que que nela possamos viver e dela desfrutar. Daí os terremotos, vulcões, furacões, chuvas torrenciais, tsunamis, avalanches, deslizamentos, descargas elétricas, incêndios florestais. Sem esquecer os desertos – tanto os escaldantes quanto os congelados – que ocupam 20% da superfície do planeta e existem para… para… bem, existem para programas do Discovery.

Há também o fato de a espécie humana não viver sem água e só 3,5% da água do planeta serem próprios para consumo humano – 96,5% foram colocados aqui – neste planeta feito especialmente para nós –  para termos onde pescar, surfar, velejar, nos afogar e pular sete ondas no reveiôn (que, convenhamos, são coisas muito mais importantes que matar a sede).

A atmosfera foi desenhada com 120 km de altura, e 2,5% dessa altitude tem oxigênio em quantidade suficiente para a vida humana. 97,5% foram desenhados para que tivéssemos céus azuis para nossa selfies. É ou não é um toque de mestre? Sem contar que bastam dois minutos sem respirar para que a gente desmaie. Claro que há os mergulhadores profissionais, que aguentam dez vezes mais, mas você não é mergulhador/a profissional, é? Nem eu.

Somos o ápice da Criação. Os seres mais evoluídos, mais CDFs, e mais fodões. Tanto é que são poucas as outras criaturas capazes de nos matar. Apenas os leões, leopardos, linces, rinocerontes, hipopótamos, onças, elefantes, crocodilos, tubarões, cobras, escorpiões, aranhas, bactérias, vírus do ebola, HIV, marburg, hantavírus, coronavírus, H5N1, o da dengue, o da raiva, e alguns milhares de outros, bem como toxinas mis.

Claro que o tubarão tem dentes descartáveis e nós não. Panda digere bambu, e nós morreríamos intoxicados. Planárias, estrelas do mar, salamandras e lagartixas regeneram partes do corpo, e nós precisamos de próteses mecânicas. Ursos, minhocas, esquilos, lagartas, morcegos desaceleram o metabolismo, provocando uma queda radical da frequência cardíaca e da respiração e hibernam. Tirando um e outro faquir (você conhece algum?), nenhum de nós consegue fazer isso. Aliás, vagalume acende luz na bunda – coisa que você também não faz.

Mas ninguém até hoje provou a origem do protoplasma inicial – logo, foi o design inteligente. Nem o do sistema óptico, das asas com penas, do funcionamento das proteínas, da coagulação sanguínea ou do flagelo bacteriano. Logo, foi o design inteligente.

Também não havia, até pouco tempo atrás, explicação sobre como aconteciam as epidemias, o que vinham a ser os trovões, o que causava os terremotos – mas o design inteligente nos fez inteligentes o suficiente para descobrir a causa e concluir que não fora o design inteligente.

O design inteligente é tão, mas tão inteligente que conseguiu criar seres humanos capazes de acreditar nele.  Se isso não prova sua existência, nada mais provará.

Tatu

tatu

Lu resolveu que precisava fazer uma nova tatuagem.

Já tinha um alienígena, uma rosa, uma frase feminista, quatro ideogramas, grafismos maoris e celtas, um leão (seu signo), uma medusa subindo pelo pescoço, uma fênix, uma coluna vertebral em 3D ao longo da coluna (nascendo em cima da palavra “like” de “A woman without a man is like a fish without a bicycle”, em letras góticas) e uma orquídea.

Tinha também um código de barras no antebraço esquerdo, a língua dos Rolling Stones na lateral do seio, uma alcachofra no ombro, uma mão de Fátima no dorso da mão, uma flor de lótus no dorso da outra, dentes de leão logo abaixo da axila, uma coruja na panturrilha (era para ser na omoplata, mas ali, além do leão, já havia uma carpa, um unicórnio, uma Betty Boop, um Om e uma inscrição em árabe – que o moço que vendia esfirra artesanal traduziu como “Imóvel à venda, tratar com Jamile na loja de ferragens”, mas preferiu não contar).

Num dos pulsos, tinha um zíper; no outro, um cacto, uma borboleta, um filtro dos sonhos e um bando da andorinhas. Nas pernas, um arco íris, um yin e um yang, um revólver atirando flores, uma Jéssica Rabbit, uma rosa dos ventos, uma equação de segundo grau, um jogo da velha e um Coringa (o do baralho).

E agora precisava (precisava muito!) fazer um Chapolin Colorado, mas… não encontrava mais lugar.

Na virilha, havia cerejas (lembra da orquídea? ficava de um lado e as cerejas do outro – e, quando a depilação estava em dia, era possível ver com mais clareza um escorpião, que era seu ascendente, e uma lua em Capricórnio).

Talvez pudesse fazer o Chapolin entre o elefante, o dragão, o número 7 e a salamandra, que ocupavam as costelas de um lado (do outro, estavam um sapo, uma smurfete, uma jangada feita por um argentino em Jericoacoara – com um símbolo esotérico ancestral na vela, que Lu depois descobriu ser o escudo do River Plate -, uma estrela cadente, uma terra plana, um colibri, uma calculadora Cassio – com 3,1614 no visor -, uma libélula e um pentagrama).

Logo abaixo das nádegas, vinham um girassol, um gato, duas mandalas, uma âncora, Naruto, Pinóquio, e=mc2, um parafuso, uma cornucópia, e XIIIII/VIIII/IIMMIIII (data da primeira menstruação, supostamente em algarismos romanos, feita por uma tatuadora holandesa em São Tomé das Letras).

Resumindo – não cabia mais nada – porque numa nádega havia uma baleia jubarte com o filhote e, na outra, Alice com o Chapeleiro Maluco e uma barra de Toblerone.

Mas como ficar sem o Chapolin?  Num dos seios, tatuara um vulcão (o mamilo era a cratera, de onde a lava escorria até perto do ferro elétrico e a tábua de passar, homenagens à sua mãe). O outro seio era coberto por uma teia de aranha, sendo a aréola o abdome da caranguejeira, em alto relevo. Do umbigo subiam delicadas volutas verdes até encontrar as frases “Carpe diem”, “Accept your destination” e algo em sânscrito, que o moço que vende esfirra artesanal não conseguiu traduzir, mas que o tatuador peruano de Morro de São Paulo afirmou ser “Amar, pode dar certo” – assim mesmo, com vírgula e tudo.

Lu postou seu desespero no insta. De joelhos (num deles havia uma fada e um manete da Nintendo; no outro, um dálmata, um apontador de lápis e uma Frida) ela perguntava como ia viver sem o Chapolin Colorado, já que a mãe a proibira de tatuar o rosto (só mesmo o olho egípcio nas pálpebras, e olhe lá).  Alguém sugeriu pedir emprestado espaço na pele de outra pessoa, mediante pagamento. Apareceu um rapaz que ainda tinha cerca de 5 cm2 disponíveis na nuca e morava em Senador Firmino, MG. Não era a localização ideal, mas ele se comprometeu a passar máquina zero uma vez por mês e mandar uma foto para comprovar que o Chapolin continuava bem visível.

Lu e o namorado sentiram que havia ali um filão e criaram o Tattoober, que agencia pele extra para quem já não tem mais espaço no próprio corpo. Você diz que tatuagem quer fazer e as pessoas dizem que partes do corpo ainda têm disponíveis. Se der match, é só pagar a taxa e chamar o tatuador (a fatura cai no cartão do tatuado virtual).

Além do Chapolin em Senador Firmino, MG, Lu tem um teletubie roxo num ombro em Camaçari, BA, e uma tribal marajoara numa panturrilha em Zamboanga, nas Filipinas.

Para evitar que alguém venda tatuagem e aplique henna, a Tattoober exige que o procedimento seja transmitido onlaine, enquanto o tatuado remoto recebe agulhadas sem tinta, só para criar um vínculo álgico (também conhecido como “aquela deliciosa dor desgraçada”) com o desenho que irá circular em outra parte do corpo, em outra parte do mundo.

Hoje, Lu acordou precisando muito (muito!) tatuar um louva-a-deus ou um filtro de linha – não definiu ainda. Viu que há um cóccix disponível em Paragominas, PA, e uma parte de trás da coxa em Cochabamba, na Bolívia. No Rio, o cm2 de pele virgem está uma fortuna, e mesmo assim só se encontra em freiras na clausura do Convento de Santa Teresa e numa comunidade neopentecostal de Brás de Pina.  Mas de que adianta uma tatuagem que ninguém vai ver, a não ser numa eventual autópsia?

Lu e Beto, o namorado, têm estudado formas de fazer tatuagens internas, por meio de videolaparoscopia. A Anvisa ainda não foi consultada, mas já há lista de espera para quem quer uma sereia no fígado, um coração flechado no pericárdio (olha que fofo!) e uma caveira mexicana no interior do crânio.

Mas esta semana uma digital influencer belga chocou a internet e foi parar nos trend topics ao tatuar 100% da superfície corporal no tom da sua pele original. Suas aparições em público sem nenhum rabisco têm provocado uma onda mundial de pasmo e indignação. Especialistas se dividem entre tratar-se de um caso de exibicionismo crônico ou de incapacidade de expressar os próprios sentimentos.

O julgamento da desgaratujofobia deve entrar na pauta do STF em 2020. A Ministra Rosa Weber já prepara um voto em que fala das pintura rupestres, dos petroglifos de Nazca, dos corações em casca de árvore, dos queloides, das assinaturas no gesso do braço quebrado, passando pelos bois marcados a ferro quente, o chicle de bola Ploc, a hermenêutica teratológica e os carimbos usados nas boates para indicar quem já pagou.

Lu nem dormiu esta noite pensando em tatuar a íntegra do voto. Mas para isso precisa da população da China, da Índia, da Indonésia, do Paquistão e da Nigéria, além de quem acha que o Papa deva ser enquadrado na Lei Maria da Penha por espancar aquela fiel na Praça de São Pedro. E, ainda tem que fazer um ajuste no Chapolin Colorado, que saiu com M, não com N.

Enquanto isso, na ONU…

pacita

DISCURSO 1

– Capitão, está pronto o discurso que o senhor lerá na ONU.

– Tá do jeito que eu pedi isso daí, né?

– Sim, senhor.

– Não tem parocita nisso daí, tem?

– Parocita?

– Parocita. Palavra difícil.

– Ah, proparoxítona! Não, não tem. Tiramos todas.

– Nem palavra com muita siba.

– Siba?

– Siba. Si-ba.

– Não, não. São todas com, no máximo três sílabas.

– A única que pode com mais que três é cor-ru-pi-ção.

– Fique tranquilo. Corrupção tem três.

– Ininterrups tem quantas?

– Cinco. Mas podemos trocar por “contínuo”, que tem só quatro.

– Eu sei contar, tá? Contino tem três!  Deixa ininterrups mesmo, que contino parece que é ofisbói. E que palavra é essa daqui?

– Cônjuge.

– O quê queísso daí?

– Marido, mulher, companheiro…

– Ah, conge.  Escreve direito, poha!

– Pronto, corrigido. Conge. Depois eu vejo se é com G ou com J.

– Falou dos trezens milhões que a gente pagou por agens cubanos?

– Falei.

– É muito importante falar isso daí lá pra ONU. E também do ganho de protividade.

– A produtividade, quer dizer, a protividade está mencionada.

– E tem que falar no nome do Trampe.

– Sim, incluímos o nome do Trump.

– Trampe. Tá errado isso daí. Tá escrito Trump. O nome dele é Trampe.

– Sorry, capitão.

– Cadê o nióbio? Discurso meu sem nióbio não existe. Tem que ter nióbio nisso daí.

– Tem.

– E tem que ter qüestão.  É uma qüestão de estilo. O Lula tinha “cumpanhêros e cumpanhêras”. A Dilma tinha o “no que se refere”. Eu tenho a qüestão.

– Tem qüestão e qüestionar, para evitar qualquer qüestionamento.

– Cadê a parte que fala do Batistí?

– Quem?

– O Batistí, aquele bandido que eu queria prender, mas quem prendeu foi a Bolívia.

– Ah, o Battisti…  Tá aqui o nome dele, logo antes da parte em que fala do Moro.

– Ficou bem claro que o Moro é o ATUAL ministro? Se falar que ele é só ministro vai parecer que pode ficar até o fim. Bota ATUAL ministro, pra ele sabe que é um dia de cada vez.

– Mais claro, impossível.

– Tem que falar também da ideologia, que só os outros é que têm (eu não). E da celamáter.

– Quem?

– Como é que você pode ser do Itamarati e não saber o que é a celamáter? A família, poha!

– Ah, a célula mater…. Sim, vamos falar dela.

– Dá pra falar também do Zero Um, do Zero Dois e do Zero Três?

– Não, capitão. Aí também é demais.

 

DISCURSO 2

– Treinando o discurso, filha?

– Grrrrrrr!

– Ótimo. Mas ainda pode trincar um pouco mais os dentes.

– Grrrrrrrrrr!

– Bom, muito bom.  Se tremer mais as narinas e franzir as sobrancelhas…

– Grrrrrrrrrrrrr!

–  Isso. Um pouco mais de ódio no olhar, uma coisa meio Nazaré Tedesco, meio Perpétua, a irmã da Tieta.

– Grrrrrrrrrrrrrrrrr!

– Perfeito.  Boralá falar do seu amor pela Humanidade.