Lenha na fogueira

lenha

O Cristiano Ronaldo protesta contra as queimadas na Amazônia com foto do Rio Grande do Sul, em 2013 (governo Dilma Rousseff). Louis Hamilton curte.

O Jaden Smith (filho do Will Smith) protesta contra as queimadas na Amazônia com foto de 1989 (governo José Sarney). Bruna Marquezine curte.

Emmanuel Macron protesta contra queimadas na Amazônia com foto feita 1989 (governo Sarney) e requenta a lorota de que a região seja o pulmão do planeta (uma lenda urbana muito popular no tempo em que manga com leite ainda matava). Angela Merkel vai na onda.

Maquiadora gaúcha protesta contra queimadas na Amazônia pintando o colo com girafa fugindo do fogo (não sei quem governava o Brasil na época das girafas nativas). O Brasil inteiro compartilha.

Outro tuíte popular diz que a mídia não dá a mínima para a Amazônia porque essa região não fica em Paris (!) e produz oxigênio em vez de wi-fi (!!). O drama é ilustrado com imagens de um coelho chamuscado na Califórnia em 2018 (governo Trump), um animal (macaco?) correndo em Sertãozinho SP em 2011 (governo Dilma Rousseff), um tatu encontrado num canavial em Araras SP em 2018 (governo Temer) e um tamanduá (pelo menos me parece ser um tamanduá) vítima de uma queimada em outro canavial em Presidente Venceslau SP em 2011 (governo Dilma Rousseff).

A Amazônia, a Chapada Diamantina, a Chapada dos Guimarães, Chapada dos Veadeiros, a Serra do Cipó, ardem todos os anos. E nunca houve tantas queimadas quanto nos anos dos governos petistas. A diferença é que nem Lula nem Dilma faziam pouco caso da coisa, ou tinham projetos declarados de exploração predatória da região. Eles faziam cara de paisagem, não batiam boca com o INPE, não desdenhavam do aquecimento global. Apenas deixavam o circo pegar fogo, enquanto faziam seus malabarismos retóricos.

O número de focos de queimadas na Amazônia no primeiro semestre de 2019 é o maior desde 2016 (governos Dilma / Temer). É 35,6% maior que o do mesmo período do ano passado (governo Temer). Mas está apenas ligeiramente da média dos últimos 20 anos (governos FHC, Lula, Dilma e Temer), o que é menos alarmante que os 80% acima do mesmo período do ano passado. (Dados da Agência Lupa).

Bolsonaro não inventou as queimadas, mas suas declarações desastradas (e desastrosas) ajudam a botar lenha nessa fogueira. Afinal, ele é machista, homofóbico e, agora, piromaníaco.

Há todos os motivos para defender a educação – cujo orçamento sofreu cortes tanto no governo Bolsonaro quanto no governo Dilma (uma pesquisazinha rápida no gúgol fornece todos os dados). Motivos não faltam para defender a Amazônia – um ecossistema riquíssimo, ainda que não seja pulmão, fígado ou pâncreas do planeta.  A região sofre com queimadas espontâneas e com queimadas criminosas, principalmente no período da seca (agosto a dezembro).

Como já houve “pela educação”, haverá hoje, em todo o país, protestos “pela preservação da Amazônia” – inclusive da Amazônia gaúcha, das girafas amazônicas, do pulmão do planeta, dos coelhos da Califórnia, do tatu paulista, do tamanduá do canavial e por Lula Livre. Tudo com bandeiras vermelhas (em referência ao fogo, claro) e balões da CUT (para complementar o #prayforamazonia deve ter o #CUTthefire).

Não se espera nenhuma menção à Usina de Belo Monte – de imenso impacto ambiental – concebida no governo Figueiredo, gestada nos governos FHC e Lula e parida pela presidenta Dilma Rousseff. Afinal, o estrago já está feito.

A defesa da Amazônia seria mais eficaz se se baseasse em dados (os da NASA servem, os do Inpe também) e não em feiquenius. Se pressionasse o governo a adotar uma agenda ambiental responsável – que interessa também ao agronegócio. Se não fosse usada como cortina de fumaça para a queda de braço entre os partidários de quem deixou queimar antes e os de quem está se lixando para as queimadas de agora.

Todos devíamos participar desses protestos, para esvaziá-los do seu caráter eleitoral e trazer o foco para as questões que realmente interessam.

Sem querer usurpar o lugar de fala do Macron – e relevando as girafas da floresta tropical e os tatus do canavial – é a nossa casa que está, literalmente, pegando fogo.

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Melhor Amigo

Benedita

É comum ouvir críticas a quem trata cachorro como se fosse gente.

Concordo.

Plenamente.

Cachorro é cachorro, gente é gente.

Cachorro tem que ser tratado como cachorro – com respeito à sua fidelidade, ao seu caráter. Porque cachorro não trai. Não mente.

Cachorro te ama pelo que você é, seja lá quem você for: ministro do Supremo, senador petista ou indigente.

Cachorro não finge, não forja, não frauda. Cachorro só sabe o que sente.

Passa fome ao seu lado – e se não acha bonito não ter o que comer, pelo menos não te chama de traste inútil, perdedor ou incompetente. Nem te dá uma pata na bunda e te troca por alguém mais atraente.

Cachorro não faz jogo de cena. Não guarda mágoa. Cachorro é emocionalmente inteligente. Perdoa sem que você tenha que implorar perdão. E, uma vez perdoado, o perdão é permanente.

Por que haveríamos de tratar um ser assim como se fosse gente?

Gente a gente também não deve tratar como cachorro.

Porque não é qualquer um que merece carinho na barriga, cafuné na orelha, demonstração de amor sem motivo aparente.

Tirando o Mike Tyson, o Suárez e nós mesmos na hora do amor, gente não morde. Mas há outras formas de se cravar o dente.
No coração, no bolso, na alma. Por vezes com veneno de serpente.

Gente fofoca, inveja, calunia. Te beija enquanto te entrega, e te odeia, sorridente.

Cachorro obedece, respeita, se submete. Mas só gente é subserviente.

Gente ama com ressalvas, faz promessas que não cumpre.
Só cachorro (e uma ou outra mãe) é que ama incondicionalmente.

Por que tratar como cachorro – que fica ao seu lado até a morte – alguém que te abandona de repente?

Não, é totalmente sem noção e incoerente tratar gente como se fosse cachorro – e tratar cachorro como se fosse gente.

~

(para Benedita, Negão, Cacau, Catarina, Luke, Pretinha, Chico, Duda, Sírius, Olívia, Caio, Corina, Argos, Francelino, Kwai Chang, Tsuki e todos os que fizeram e fazem mais feliz a minha vida, e aos que ainda a farão daqui pra frente).