Coração vagabundo

Coracao

Meus amigos, eu tentei, mas não vai dar para agradecer a um por um pelas mensagens recebidas durante o meu piripaque cardíaco.  E olha que nenhum comentário mereceria mais uma resposta do que aqueles.

O diagnóstico é “flutter e fibrilação atrial” – o que, em língua de gente, significa que o tique-tique-taque do meu coração atravessou o samba, que o meu coração traiçoeiro passou a bater mais que o bongô, a tremer mais que as maracas – e não era descompassado de amor.

Aí a pressão despencou e eu despenquei junto. Estava desidratado (pelo meu peso, preciso tomar uns dez copos d’água por dia – e minha média é de um copo a cada dois dias (devo ter sido cacto em outra encarnação, o que explica também esse jeito espinhoso de ser).

Já tinha desmaiado em casa, no sábado, mas não dei bola. Na quarta recomeçaram as tonturas e de repente entrou em cartaz o que parecia ser o tal filme a que a gente assiste, em sessão privada, na hora da morte. Foi quando descobri que minha vida era em preto e branco, sem nada digno de nota e sem nada branco. Simplesmente escureceu tudo e fui.

Fui para a emergência, com direito a cadeira de rodas e a furar fila. Pressão 8 x 6 – eu que sou 12 x 8 desde criancinha. Rodaram um eletro (sempre soube que faziam eletro – mas lá eles rodavam eletro) e o enfermeiro informou que teria que raspar meu peito.  Devo ter feito uma cara feia, porque ele entendeu, caprichou um pouco mais no gel e escapei da tosa. Coletaram sangue (e deixaram o acesso no meu braço, o que é sempre um mau sinal) e me botaram para ser hidratado, numa sala de clima glacial.

Éramos oito: eu, um outro cara e seis mulheres. As seis de agasalho e, a pedido, cobertas com uma manta. O cara, de camiseta e bermuda; eu em manga de camisa, ambos dotados daquele isolamento térmico que só a masculinidade tóxica provê. As meninas (tirando a que estava ao meu lado, eram todas bem jovens) batiam queixo, o cara mexia no celular, alheio ao frio, e eu me perguntava até quando iria aguentar aquele atmosfera curitibana (todos se ignorando, ninguém puxando assunto com ninguém e a temperatura em queda livre).

As pontas dos meus dedos já estavam adquirindo um belo tom azulado quando o cara foi liberado e eu pude me liberar também da minha obrigação de manter a pose e pedi a manta. Liberdade pode ser uma calça velha, azul e desbotada, mas felicidade é uma manta quentinha.

Novo eletro, e nova ameaça de depilação, também contornada. Já devia ser meia-noite, e lá ia eu para a tomografia.  Esperando pelo elevador, dou de cara com a placa “Análizes clínicas”. Parece que o Weintraub andou fazendo bico de comunicação visual antes de ser ministro.

Me injetam o contraste e tenho uma palinha do que deve ser uma experiência lisérgica, porque tomo consciência de todas as veias do meu corpo. Volto ao consultório e vem a notícia: não só não vou embora como vou é pra UTI.

Assim como as testemunhas de Jeová não aceitam transfusão e os esquerdistas não aceitam a realidade, eu não aceito uma série de procedimentos: ser entubado, amputado, transplantado, fazer quimioterapia e… ir para UTI.  Tento explicar isso à médica, sem muito sucesso. Cadê meu testamento vital, que eu devia carregar no bolso, junto com a identidade, a carteirinha do plano de saúde e o dinheiro do ladrão?

Chegam mais enfermeiros, me injetam um troço na barriga (para afinar o sangue), me coletam mais sangue (pelo outro braço, não pelo que já está com acesso, porque esse será para os medicamentos) e voltam com a história de raspar o peito para rodar outro eletro. Explico que é o terceiro eletro do dia e que os outros foram feitos sem nenhum procedimento depilatório.

– Mas você é um tonirramos – diz um dos enfermeiros, em tom que me soou libidinoso, mas pode ter sido impressão minha, efeito da pressão baixa ou do contraste ainda circulando no organismo.

Chega a cardiologista e me convence a ir para a UTI com um argumento matador: posso ter uma trombose ou um AVC.  Assim como capitulei à manta quentinha na sala gelada, capitulo diante dessa perspectiva nada auspiciosa.  Não há vaga na UTI, e vou ter que passar a noite na emergência – com luz acesa, macas entrando e saindo, gente falando como se estivesse num pregão da bolsa de valores e monitores apitando. Por um momento, tenho saudade da vizinha de cima. Mas passa logo.

Preciso tirar a roupa e vestir um daqueles aventais ridículos, que deixam a gente com a bunda de fora. Ainda vou entender esse fetiche que os médicos têm em ver os pacientes com a bunda de fora. Não posso ficar com nada, exceto os óculos. Explico que tenho que entregar um artigo pro jornal no dia seguinte, e que preciso do celular tanto para terminar o texto quanto para enviá-lo.  Já que não vai dar para dormir mesmo, tempo não vai me faltar.  Posso, inclusive, escrever outro texto sobre a brutal diferença entre hospitais públicos e privados, porque tinha estado no Miguel Couto alguns dias antes.

– Sobre o que é o texto? – pergunta a médica.

– Sexo – respondo, vagamente.

– Pode escrever sobre o coração.

– Pelo menos agora sei que tenho um. E como estou sendo cuidado por uma cardiologista, não por uma geóloga, é sinal que não é de pedra.

Ela me deixa ficar com o celular e eu fico na UTI por dois dias, pensando que com meus plugues de cera para o ouvido e uma daquelas máscaras de cobrir os olhos que a gente ganhava no avião (acho que a minha ainda é da PanAm), até que a experiência não é tão ruim.

De novo: obrigado a todo mundo que se preocupou, que desejou melhoras. Já estou bem (bem lento, meio em câmera lenta, mas estou). E fiquei pensando: no domingo, lá estava eu visitando a Claudinha Telles no hospital, preocupado com seu coração dilatado, e fazendo planos para um livro com as histórias da sua carreira, sem saber que o meu coração desafinava aqui do lado esquerdo do peito.  Três dias depois, estávamos ambos na UTI.

O que preciso agora é aprender a beber água. E, desde que possa levar os protetores auriculares, a máscara e o celular, vou tirar do meu testamento vital a menção à UTI.  E incluir a tricotomia entre os procedimentos inaceitáveis. Porque da depilação para a tatuagem e o piercing, é um pulo.

E vamos torcer para que a Claudinha possa logo vir contar os causos da sua internação. Já vi o vídeo em que ela canta para os outros pacientes. O coração dela não é só maior – é também mais afinado que o meu.

 

 

Cor de rosa

Rosa

A expressão “cor de pele” é racista, porque há vários tons de pele.
Ok.
A expressão “cor de rosa” é o quê, então? Cromatista?

Há rosas brancas, vermelhas, amarelas, negras – e por que, quando se pede à atendente da loja uma camiseta cor de rosa, ela, invariavelmente, traz uma cor-de-rosa?

Há vários tipos de vinho – branco, tinto, rosê. Mas peça uma gravata vinho para ver de que cor o vendedor vai trazer.

Quando o Ritchie cantava “o abajur cor de carne”, de que cor era o abajur? Carne vermelha, carne branca, carne seca, salmão?

Por que “azul marinho” é sempre escuro, se o mar (vejo aqui da janela) está azul clarinho? Por que chamar de “celeste” o azul clarinho, se o céu pode estar de uma infinidade de tons de azul – e inclusive laranja e violeta ao pôr do sol, e preto à noite?

Como saber a medida de um pé cúbico, de uma braça, uma polegada, se cada polegar tem um tamanho, cada braça um comprimento, cada pé calça um número?

Porque é uma convenção.
Convencionou-se assim porque sim.

A linguagem não se dá bem com a concretude de pensamento.

Ou alguma mulher já deixou de ser dona de casa por morar em apartamento?
Algum transatlântico se recusou a cruzar o Pacífico?
Algum alpinista foi impedido de escalar o Himalaia?

Ok, não vamos mais chamar o parapeito de parapeito, porque, dependendo da pessoa, ele pode ficar na altura do umbigo ou do queixo.

Ninguém poderá dizer que usa terno se não estiver com o colete – afinal, terno (do latim “ternus”) quer dizer “três”: calça, colete e paletó.

Setembro tem que ser o mês 7; outubro, o 8; novembro, o 9; dezembro, o 10 – julho e agosto que entrem no final da fila.

O elevador só pode subir; a fechadura só pode ser usada para fechar. No armário só se podem guardar armas. Na prateleira, só pratos. Lençol, só de linho. Do chuveiro tem que cair chuva, não água da CEDAE.

Sim, é preciso tirar o ranço racista e sexista do idioma.

Parar de chamar os encaixes de madeira de macho e fêmea, perpetuando papéis sexuais. Acabar com essa história de “língua materna”, que isenta o pai do dever de ensinar os filhos a falar.

Nunca mais mencionar, na alfabetização, o circunflexo como “o chapeuzinho do vovô” e o acento agudo como “o grampo da vovó”: a vovó usa o que quiser, e o vovô (se ainda não for careca) pode dar um ápe no visual com grampo, tiara, coque, e ninguém tem nada a ver com isso.

Teremos um idioma sem preconceito, e muito menos sujeito a mal entendidos, quando houver mais diálogos assim:

– Demerval! Que foi que você fez na parede da sala?
– Pintei como a senhora mandou.
– Mas eu mandei pintar de creme! E você pintou de verde!
– Creme de espinafre, madame…

Teste de mineiridade

mineiro

Nem farialimer nem lebloneur.
Quão minerim você é?

1) O que é um tendepá de cuia?
a) Prato típico do Jequitinhonha
b) Artesanato da Serra do Cipó
c) Confusão generalizada

2) Onde fica a cacunda?
a) No cafundó do Judas
b) Nas costa
c) No pirulito da Praça Sete

3) O que é o Pirulito da Praça Sete?
a) Uma guloseima
b) Um obelisco
c) Um palhaço

4) O que é xuxá?
a) Infiá
b) Pelejá
c) Tê um troço

5) O que é cubu?
a) Mulher feia
b) Doença
c) Um doce

6) O que é bobiça?
a) Bestagem
b) Uma hortaliça
c) Peça de carrinho de rolimã

7) O que é custoso?
a) Caro
b) Delicioso
c) Difícil pra dedéu

8) O que é disgrama?
a) Desgraceira
b) Exame laboratorial
c) Equipamento de jardinagem

9) O que é gastura?
a) Desperdício
b) Queimação
c) Nervoso

10) O que é manota?
a) Vexame
b) Alguém sem mão
c) Animal perissodáctilo da família Tapiridae

11) O que é levar manta?
a) Carregar um cobertor
b) Transportar carne de sol
c) Tomar prejuízo

12) ‘Tem base?” significa:
a) Você trabalha com cosmético?
b) Há fundamentos?
c) É sério?

13) ‘Mexer’ significa:
a) Mover
b) Provocar
c) Trabalhar com alguma coisa

14) Em qual das frases a palavra ‘joia” está corretamente empregada?
a) Comprei uma joia
b) Você é uma joia rara
c) Cê tá joia?

15) O que é ‘quimportamilá”?
a) Móvel de origem francesa, usado para guardar os trens
b) Um mucado de um tan de coisa
c) Faço pocaso diss

16) Para que servem as últimas sílabas das palavras?
a) Pra rendê um dediprosa, uai
b) Facideia. Cadiquê?
c) O que são “últimas sílabas das palavras”?

Gabarito:

(Se você precisa de um gabarito é porque não é minerim. Mas vamlá.)

– Dúvida em mais de 5 questões: Você é um minerim muito pros coco. Deve ser, no máximo, de Xistifora.
– Dúvida em menos de 5 questões: Aqui, fica de butuca que falta só um cadiquim pra panhá jeito.
– Dúvida nenhuma nas 15 questões: Ê lá em casa!

Aval intelectual

Livros

Meu próximo passo é ter um canal no iutube. Ou pelo menos postar umas laives.
 
Sobre o quê? Faço a menor ideia. O importante é que tenha uma estante ao fundo.
 
Estante ao fundo dá um ar acadêmico, agrega estofo intelectual. Cada volume ali no segundo plano é um viés de confirmação encadernado.
 
Sem contar que duvido que seja só eu que fique tentando ver o que está escrito nas lombadas e nem preste muita atenção ao que é dito, embasbacado com todo aquele bequigráunde cultural. Afinal, é pra isso que serve a estante ao fundo, não?
 
“Será que ele leu aquilo tudo?”. Claro que não. Ninguém leu todos os livros que tem na estante. Mas por que alguém teria aquele tanto de livro em casa? Porque a gente compra livro por impulso. Porque ganha livro de quem acha que a gente lê muito. Porque a gente pega emprestado e não devolve. E para fazer figuração numa laive.
 
Breve, as livrarias – que já têm seções de clássicos, autoajuda e de livros com palavrão no título – terão também um espaço reservado a títulos escolhidos a dedo para fundo de laive.
 
– Boa tarde, vou fazer uma laive sobre neoliberalismo quântico. O que você tem nessa área?
– Pró ou contra?
– Se falei “neoliberalismo” é porque é contra, né?
– Desculpe, é que essa sua barba feita me deixou em dúvida. Este último lançamento do Jessé Souza tem tido muita saída. Capa dura, cores firmes que garantem boa definição mesmo em laives feitas com celular de segunda linha.
– Queria algo mais disruptivo, entende?
– Contemporâneo, disruptivo e com lombada de cores que valorizam uma laive progressista nós temos o Felipe Neto. Vai bem com estantes de madeira escura, pintada de branco ou até aquelas de sebo, de chapa de ferro.
– Me vê um Felipe verde limão, um azul piscina, um rosa choque e, vá lá, um Jessé daqueles magentas ali.
 
~
 
Antigamente, a gente tirava foto fazendo pose ao telefone – lembra disso? Nas fotos feitas na sala de visitas, dava-se um jeito que aparecessem o cinzeiro de cristal na mesinha de centro, a estante com a Barsa ao fundo e, ao lado, a mesinha do telefone, com o dito cujo.
 
Foram-se o cinzeiro, a Barsa, a mesinha de telefone, o telefone. Resistindo bravamente ao kindle, ficou a estante.
 
A laive na frente da estante dando a entender que a gente lê muito é o novo retrato fingindo que fala ao telefone.
 
Uma estante cromática e ideologicamente equilibrada é tendência para 2020. Clássicos, sim, mas quando a falsa erudição é demais até o seguidor de laive desconfia. Aquelas coleções imensas, que ninguém nunca nem abriu, encadernadas em verde, com letra dourada, pode esquecer.
 
É de bom tom que os livros estejam arrumados, pero no mucho. A estante deve dar a impressão de que os volumes já foram consultados um dia. Cai bem um objeto de decoração, desses cuja procedência estrangeira seja claramente identificada. Um e outro livro na horizontal, displicentemente pousado sobre os demais – lembrando, sub-repticiamente, que é tanto livro que nem cabe mais em pé.
 
Já deve haver até personal-estanters, encarregados de customizar estantes para laives.
 
– Olha, Orwell e Clarice nunca saem de moda. Ficam bem tanto numa laive densa, daquelas com iluminação cênica, rosto meio na penumbra, quanto numa informal, de luz chapada, para fofoca de celebridade.
– Eu queria um casual chique, que valorizasse o Q.I. mas com pegada.
– É bom ter sempre um russo para agregar valor, um desses portugueses que insistem em escrever como antigamente – mas têm capas lindas -, um autor étnico para garantir a diversidade, um desconhecido que ganhou o Nobel e só por isso foi editado no Brasil, um da Rita Lobo – que dá leveza e gera empatia imediata – e pelo menos um dicionário de qualquer coisa.
– Que tal algum da lista dos mais vendidos, pra mostrar que sou antenado?
– A menos que seja uma laive sobre terraplanismo ou tutorial de bronzeador caseiro, jamais deixe um bestisséler à vista. E lembre-se: lombadas em tons de azul enfatizam a assertividade, em tons de laranja levantam o astral. Lombadas verdes, amarelas e vermelhas, só em casos específicos – e nunca misturadas.
 
Para não ficar monótono – e caso não se disponha de livro suficiente para três prateleiras -, pode-se fazer laives em livrarias e bibliotecas. Normalmente não estão muito cheias e têm livro à beça.
 
O problema de ir a bibliotecas ou livrarias é quererem te empurrar algum.
 
– Não quer pegar um Bagno, um Safatle, emprestado? Devolve quando puder, sem multa…
– Não, obrigado.
– Um Olavo, então? Temos vários Olavos. Pegando um Olavo emprestado, leva 3 Sinottis que nem precisa devolver.
– Não, não…
– Olha, temos esse combo: Karnal, Cortella e Pondé. Três em um. Ou um em três, tanto faz. Pode fazer testidraive, sem compromisso.
– Olha, eu só queria mesmo fazer uma laive com um fundo culte, entende?
– Ok, você venceu. Temos uma promoção imperdível: levando dois Marilena Chauí, vai de brinde a coleção completa da Márcia Tiburi, inteiramente grátis. Com papel de presente, cartãozinho, caneca customizada e Uber por nossa conta.
 
~
 
Uma opção é comprar papel de parede imitando estante. Sim, existe. Nem precisa forrar a parede toda. Um m2 basta. É só tomar cuidado para não aplicar no sentido errado. E nem precisa usar óculos. O charme de intelectual está garantido.

Criado mudo

pisando em ovos

Um dos problemas do Brasil é a piada pronta.

A gente tenta fazer graça com alguns absurdos, mas aí vem a realidade e pá! mostra que não há ironia, sarcasmo ou deboche que chegue aos seus pés.

Uma empresa vai tirar de linha o ‘criado mudo’, porque a expressão é racista.

Racista?

Os criados são uma raça? Há uma raça de mudos?

Aquele móvel onde você guarda remédios, lenços de papel, bombinha de asma, título de eleitor, cópia da chave do carro, e que serve de apoio para livros e luminária, alguma vez te lembrou um escravo calado, a noite inteira de pé ao lado da cama?

Bora rebatizar os móveis e acessórios opressores e perpetuadores de discriminação!

‘Olho mágico’ tem um quê de alucinógeno, não tem? Será preconceito contra usuários de substâncias ilícitas?

Por que essa falta de mobilidade social que prende a ‘mesinha de centro’ ao centro e a ‘mesinha de canto’ ao canto? Abaixo o comodocentrismo das mesinhas de centro! Liberdade para as mesinhas de canto assumirem o protagonismo!

Diga ‘não’ ao trabalho análogo à escravidão. Se o nome é ‘pano de prato’, ele deve receber hora extra quando for usado para enxugar talheres e panelas – e adicional de insalubridade quando, na falta de luvas, pegar caçarolas quentes no fogão. Que as lojas de artigos de cama e mesa mudem os nomes para ‘pano de garfo’, ‘pano de faca’, ‘pano de frigideira’ etc.

O mesmo vale para quem usa colher de sopa para medir açúcar, colher de chá para colocar pó de café no coador, forma de bolo para fazer pudim, tábua de carne para picar cebola…

Quer coisa mais estadocivilnormativa que ‘cama de solteiro’ e ‘cama de casal’. Não é cama que define o estado civil de ninguém. E como é que ficam os poliafetivos, os menagers, os suínguers, sendo o tempo todo lembrados que aquele móvel foi feito para um casal, não para práticas sexuais alternativas?

Também precisamos repensar o gênero quando se trata de sofá-cama. Porque ‘o’ sofá-cama, não ‘a’ sofá-cama? Sofá-cama é genderfluid – ora sofá, ora cama – portanto, nenhum gênero o/a define.

E a bicama? Por que expor assim a orientação sexual de um móvel? Se ela é bi, isso é questão de foro íntimo.

Desde quando sapato e mala são roupas? E onde é que a gente guarda? Na parte de baixo e lá na prateleira de cima do guarda-roupa. O nome ‘guarda roupa’ é discriminatório e não inclusivo. Doravante, refira-se a ele como ‘guarda lenço bolsa toalha sapato mala cinto e roupa’ (se preferir, use a sigla GLBTSMCR).

Como alguém pode, em sã consciência, almoçar na mesa de jantar?

Lavar pano (de prato, de talher, de panela, de chão) na lava-roupas?

Usar a escrivaninha para desenhar?

Meu ferro elétrico é quase todo de plástico, mas o plástico não tem representatividade – só o ferro. Pode isso?

É justo impedir a luminária de pé de se sentar? Chamar de corredor um lugar por onde a gente normalmente anda em baixa velocidade? Usar o computador para tudo, menos para computar? Apenas relaxar na espreguiçadeira? Fazer o número dois no urinol?

E, já que o criado-mudo é racista, o que dizer do machismo explícito de a cama king size ser maior que a queen?

 

 

 

Senhor

rabugento

Detesto que me chamem de “senhor”.
Acho falta de respeito.

Por acaso estou ficando com ruga, barba branca, bolsa nos olhos, careca, barrigudo e rabugento?
Ok, mas isso não quer dizer nada.

Se eu não fosse ateu, podia até resmungar que “Senhor é só Deus”, mas nem esse argumento eu tenho.
Sem contar que resmungar é coisa de velho, e eu só resmungo quando não tem ninguém mais novo que eu por perto.
O que, inclusive, é cada vez mais raro.

“Senhor” é tratamento devido a, sei lá, gente velha.
Quem já passou dos 40.
Quer dizer, dos 50.
Oops, dos 60.

E quanto mais velha é a pessoa que me chama de “senhor”, mais furibundo eu fico.

Furibundo não, porque furibundo é expressão de velho. Mais irado eu fico. Se bem que parece que “irado” não significa mais o que significava no meu tempo.

Aliás, é bom evitar dizer “no meu tempo”, que é sinal claro de que o tratamento “senhor” é mais que devido.

Diga “ainda há pouco, nos anos 70”, mas não diga “no meu tempo” ou “antigamente”.
Pode dar a impressão que você é saudosista.

E saudosismo é demodê.

A propósito, tem pouca coisa mais demodê que falar “demodê”.

~

Desde que começaram a me chamar de “senhor” (e já faz algum tempo), estabeleci umas regrinhas básicas para quem quer tentar envelhecer com dignidade:

1. Não usar tênis chamativos. Laranja, rosa-choque, verde limão, tudo bem. Mas daqueles de luzinha, nem pensar.

2. Não usar gíria. Gíria entrega a idade, bicho.

3. Não se envolver emocionalmente com quem tenha menos de um terço da sua idade. Primeiro porque as chances de alguém com um terço da sua idade querer se envolver com você são remotas. Segundo, eu esqueci qual era o segundo motivo. Mas eu lembro. Até o final do texto eu lembro.

4. Não se paramentar todo(a) para malhar da Bodytech. Fica muito boko moko. Prefira o bom e velho moleton pra ir malhar na praça, onde tem sempre uns aparelhos coloridos rodeados de viúvas e divorciadas (e um ou outro velhinho assanhado), com quem se pode entabular um colóquio supimpa sobre osteoporose e disfunção erétil.

5. Não usar nunca as palavras “entabular”, “colóquio” ou “supimpa”. Elas são anacrônicas. Aliás, a palavra “anacrônica” também é anacrônica, apesar de ser supimpa.

6. Sair do feicebuque. Nem pensar em ter tuíter, instagrã. Muito menos tínder, grinder ou par perfeito. Todos esses lugares fazem a gente se sentir muito mais velho do que já é. Sem contar que não dá pra decorar tanta senha.

7. Ah, sim, o segundo motivo para não se envolver com alguém com menos de um terço da sua idade é que isso faz a gente se sentir ainda mais velho. Principalmente quando esquece alguma coisa e tem que fazer aquelas pausas infinitas no meio de frase que fazem a gente parecer apresentador do Masterchef anunciando o eliminado da prova.

E se com um aspecto tão jovial quando o seu, com esse seu jeito jovem de espírito e prafrentex de ser, alguém ainda te chamar de “senhor” (ou “senhora”), não hesite: desça uma bengalada na cabeça dela para ela aprender a respeitar os mais velhos.

(publicado originalmente em novembro de 2016)

Receita de batata frita da Tia Rosa

batata

Batata frita é muito simples de fazer. Mas antes é fundamental lembrar que os sumérios não conheciam a batata, muito menos a batata frita. Não há qualquer registro de receita de batata frita em escrita cuneiforme. Tampouco os babilônios, na Mesopotâmia, nos legaram qualquer documento acerca dessa receita. Não há, entre os egípcios, seja nas tumbas, seja nos papiros, nenhum hieróglifo que signifique batata frita – ou french fries, como era chamada pelos pais fundadores dos Estados Unidos da América, entre eles John Adams, Benjamin Franklin, John Hancock, Samuel Tuntington, Thomas Jefferson, Artur Middleton, Richard Stockton, John Witherspoon e Charles Thomson.  Entretanto, mesmo povos anteriores, como os neandertais, deixaram gravadas inscrições rupestres retratando bisões, mastodontes e outros animais pré-históricos, mas nenhuma imagem que, à luz da moderna antropologia e da hermenêutica, possa ser identificada como batata frita.

Peço vênia para lembrar aqui que tampouco há registro de consumo de batata frita na cantina da saudosa Biblioteca de Alexandria, louvada pelo autor argentino Jorge Luís Borges, nascido em Buenos Aires, em 24 de agosto de 1899 e falecido em Genebra, em 14 de junho de 1986, e cujas cinzas jamais foram recuperadas – ressalto aqui que me refiro às cinzas da grande biblioteca, não as do escritor, que encontra-se sepultado no Cemitério de Plainpalais, na Suíça, tendo sua tumba uma inscrição em  inglês antigo, tirada do poema Battle of Maldon, que pode ser traduzida como “não tenhas medo de nada”.

É de vital importância apontar que Gengis Khan, nascido por volta de 1162 nas proximidades do rio Onon, perto do lago Baikal, na Mongólia, possivelmente jamais provou batata frita. E nisso ele se iguala, hermeneuticamente, a Alexandre o Grande, ou Alexandre III da Macedônia, que, nos curtos 33 anos de sua existência, tampouco provou esta iguaria, apesar de haver emprestado seu nome ao verso de 12 sílabas, formado de dois hemistíquios, tão caro aos parnasianos, como Théophile Gautier  Théodore de Banville e o saudoso Sully Prudhomme, autor do poema Le Zénith, publicado na Revue des deux mondes, em 1876.

Escavações em sítios arqueológicos nos revelaram ossadas quase completas de um Pukyongosauro na Coreia do Sul, de um Megalossauro bucklandii na Inglaterra e do Tropeognathus na bacia do Araripe, no nordeste brasileiro, e que se perdeu no lamentável incêndio do Museu Nacional, que ocupava o Paço Imperial Quinta de São Cristóvão, residência da família real desde a proclamação da independência do Brasil, em 1822, por Pedro de Alcântara Francisco António João Carlos Xavier de Paula Miguel Rafael Joaquim José Gonzaga Pascoal Cipriano Serafim de Bragança e Bourbon, Príncipe Real do Reino Unido de Portugal, Brasil e Algarves.  Mas nem um único fóssil de batata frita foi encontrado.

Nenhum dos filósofos gregos, de Aristóteles a Empédocles, de Anaximandro a Tales de Mileto, jamais colocou uma batatinha frita na boca. Mesma sorte tiveram Plutarco, Zenão de Eneia, Leucipo, Cleante de Assos, Teofasto, Alcmenao de Crotona e Aristóxenes, o que nos leva a crer – salvo melhor juízo – que a batata frita nada teve a ver com o apogeu do mundo helênico.

Não quero me estender demasiadamente, mas não posso deixar de lembrar que também nem os inuites, os bantos, os hunos e os txucarramãe sabiam o gosto da batata – e consequentemente, da batata frita – que é originária da Cordilheira dos Andes e só chegou ao resto do mundo após a descoberta da América pelo navegador genovês Cristóvão Colombo, cujo sobrenome significa “pombo”, uma ave columbiforme da família Columbidae. Dito isso, para não me alongar mais, pega a batata, descasca, pica e frita.  Essa é a minha receita.