Étimo, que vem do Grego ‘etymon’, “sentido verdadeiro”

Ele desaba para um lado, com o suor escorrendo na testa.
Ela toma fôlego, e murmura, ainda arfante.

– Uau! Você foi formidável…

– Sério? Tão ruim assim?

– Não. Foi formidável. Sensacional.

– Ah, tá. É que “formidável” vem do latim “formidabilis, e significa “o que causa medo, terrível”.

– É? Não sabia. O que eu quis dizer é que você foi bárbaro.

– Desculpe. Não quis ser grosseiro com você.

– Mas não foi!

– Você disse que fui bárbaro. E bárbaro, do grego “barbaros”, quer dizer “estrangeiro, estranho, ignorante”.

– Imagina! Eu te achei ótimo. Um homem com pegada, porém intelectualmente sofisticado…

– Como assim? Eu não sou falso!

– Não falei que você é falso!

– Falou. Disse que sou sofisticado, e “sofisticado” vem de “sophisticare”, que é o mesmo que “alterar, adulterar, modificar com má intenção”, e de onde, inclusive, vem a palavra “sofisma”.

– Não! Eu quis dizer é que você é um homem ao mesmo tempo viril e fino (no bom sentido, claro!), do tipo que a gente não pode deixar escapar.

– Mas eu não estou usando capa.

– Hã?

– “Escapar” vem do latimexcappare”, de “ex” (movimento para fora) + “cappa” (capa) e o sufixo “are” (que indica ser um verbo). Ou seja, escapar é livrar-se da capa. A menos que você se refira à camisinha…

– Não, não. Já estou até arrependida de ter pedido para você pegar essa famigerada dessa camisinha.

– Mas famigerada – que é uma palavra latina, composta de “fama” + “gerere” – quer dizer algo afamado, que goza de boa reputação. E saiba que achei você muito esquisita

– Esquisita? Eu? (Cata as roupas no chão). Tô fora!

~ Espere! “Esquisito” tem origem no latim “exquisitus“, “procurado com atenção”, portanto, “de escolha especial, coisa muito boa” e… (ela bate a porta). Droga, de novo!

~

Moral da história: nunca vá para a cama com um etimologista. Ele sempre dará um jeito de explicar a origem das palavras – e acaba por complicar tudo. Aliás, “complicar” e “explicar” têm a mesma raiz, do latim “plicare” (ato de dobrar um papel), com os prefixos “com” (em companhia de) ou “ex”(para fora de), e é de onde também vieram suplicar, duplicar, explicitar e até de “cúmplice”, no sentido de… ok, deixa pra lá.

Por uma linguagem inclusiva

Há movimentos para tirar de circulação termos e expressões ofensivos a minorias.

É uma questão de civilidade.

“Fazer baianada”, “serviço de preto”, “coisa de mulherzinha”, “programa de índio” não vão fazer falta nem deixar saudades.

Por outro lado, há os exageros. Coisa de gente que perdeu a mão (e não vai aí nenhuma hostilidade aos amputados), o foco (não, não vejo com maus olhos os portadores de presbiopia, astigmatismo, catarata), o rumo (longe de mim querer alcançar as vítimas de desorientação amnéstica), o eixo (sem inclinação desfavorável aos que sofrem de labirintite).

“Caixa preta”, “sorriso amarelo” e “entrar no vermelho” não têm conotação racial. Mas, no ritmo em que as coisas vão (sem ofensa ao portadores de arritmia cardíaca!), não será surpresa se a lista de expressões que devemos banir do idioma para torná-lo mais inclusivo incluir:

– Terça-feira gorda.
> Ofende os dias da semana não adiposamente privilegiados;

– Apressado come cru.
> Busca ridicularizar os adeptos da dieta crudívora;

– A carne é fraca.
> Favorece, sub-repticiamente, a dieta vegetariana ou lactovegana;

– Gordura trans.
> Associa os pluçaize e as pessoas cuja identidade de gênero difere daquela designada no nascimento a algo prejudicial à saúde;

– Quem vê cara não vê coração.
> Privilegia os cirurgiões cardiovasculares em detrimento dos cirurgiões plásticos;

– Tempos de vacas magras.
> Ofende as anoréxicas, correlacionando magreza e miséria;

– O trem tá feio.
> Insulta o já combalido sistema de transporte ferroviário e, simultaneamente, os mineiros e mineiras em desconformidade com os padrões estéticos da sociedade;

– Alto lá!
> Estigmatiza e afasta os esbeltamente avantajados;

– O que vem de baixo não me atinge.
> Ultraja os de estatura comprimida;

– Pimenta nos olhos dos outros é refresco
> Perpetua estereótipos contra as pimentas, ignorando o grupo minoritário das pimentas biquinho, que não ardem;

– Deus escreve certo por linhas tortas.
> Fomenta a opressão gramaticoteísta em relação às pessoas diferentemente dotadas de destreza manual;

– Um dia é da caça, outro é do caçador.
> Ignora a pesca, fonte de subsistência das populações ribeirinhas;

– Uma andorinha só não faz verão.
> Discrimina os celibatários (voluntários e involuntários), os nerdes e os sologâmicos;

– Não julgue o livro pela capa.
> Institucionaliza o menosprezo aos dizáiners gráficos, cuja profissão sequer é reconhecida;

– É dando que se recebe.
> Estimula a prática não ortodoxa do troca-troca;

– Cada cabeça, uma sentença
> Deprecia as decisões colegiadas do STF;

– Roupa suja se lava em casa.
> Propaga subliminarmente o boicote ao empreendedorismo na área das lavanderias;

– Quem com ferro fere, com ferro será ferido.
> Nega a teoria de que racismo reverso não seja racismo;

– Quem tem boca vai a Roma.
> Faz apologia do tráfico de drogas, insinuando que traficantes sejam bem sucedidos, o que lhes permite viajar ao exterior;

– Preto emagrece.
> Não precisa nem comentar, precisa?

Morfeu

Deus se espreguiçou, esfregou os olhos e verificou a hora no rádio-relógio: caramba! Tinha tirado uma soneca ao sétimo dia, depois de uma maratona extenuante, e acordava agora, 7h57 da manhã, quase 14 bilhões de anos depois.

Lavou o rosto, preparou um café bem forte para acompanhar o maná, o leite e o mel, ajustou os óculos e foi dar uma espiada nos portais de notícia.

Flordelis. Não, não era do seu tempo, definitivamente. Cristã, 55 filhos (“Essa levou a sério o ‘crescei e multiplicai’!”), uma peruca suspeitíssima e… peralá: matou o marido porque a lei de Deus não permite a separação.

– Eu disse isso? Mata, mas não separa?

Tinha mais. O marido era um dos filhos. Ex-genro. Frequentavam casa de suingue. Amante de uma das suas filhas-irmãs. Sobreviveu a quatro tentativas de envenenamento pela própria esposa-mãe-sogra-sócia. Uma filha-irmã pesquisara no gúgol “Assassino onde achar”. Não achou (o Uber Kills ainda não está em funcionamento). Acabou abatido a tiros numa operação que envolveu 6 dos filhos-irmãos.e um neto-sobrinho.

Flordelis, mandante do assassinato do marido-filho-genro e cafetina de uma das filhas, não queria “escandalizar o nome de Deus”.

Claro que há outros deuses, milhares deles. Mas esse Deus com maiúscula, mencionado por uma evangélica, só podia ser Ele.

– Meu Eu mesmo, o que é que está acontecendo?

Rolou a tela. Padre Robson. Cara de subsíndico. Responsável pela Romaria do Pai Eterno (“Eu!”), com 3 milhões de participantes por ano. E também responsável por apropriação indébita, falsificação de documentos, sonegação fiscal, associação criminosa e lavagem de dinheiro.

Movimentou mais de R$ 2 bilhões, desviou pelo menos R$ 120 milhões, comprou uma fazenda, uma casa de praia e gastou quase R$ 3 milhões pagando o chantagista que tinha sido seu amante.

Deus coçou o triângulo que flutuava sobre seu cocuruto. Pensou em mandar um zap para Alá, mas o Misericordioso tinha desativado as notificações depois de saber da Al Qaeda, do Talibã e do Boko Haram. Passava os dias sentado, com o olhar perdido na direção de Meca, sem sequer olhar para o celular.

Quem sabe um call pelo Zoom com Tupã, Oxóssi e Elvis, mas já sabia o que ia ouvir. Brahma e Izanami com certeza reclamariam por causa do fuso horário. Talvez uma ida a um centro espírita celestial para se consultar com Zeus, Odin, Enki, Osíris e Quetzalcóatl, mas…

Ocorreu-lhe uma solução. Já tinha feito algo parecido antes, um rebute, um Format C: – mas desta vez não daria espóiler a nenhum humano, nem disponibilizaria tutorial de como construir arca nenhuma..

Olhou de novo para os lábios carnudos de Flordelis, para o olhar oblíquo e dissimulado do padre Robson. Onisciente, lembrou-se de João de Deus, do Malafaia, do arcebispo de Boston, do Apóstolo Valdemiro.

O café tinha esfriado na caneca e as formigas celestiais acabavam de descobrir o mel e o maná e batiam as antenas freneticamente, em êxtase quase místico.

Deus pensou nas calotas polares. Se acelerasse o derretimento… Pensou na imensa quantidade de vírus ainda isolados nos seus nichos. Nas queimadas. No politicamente correto. Nas novas safras de duplas sertanejas. Arrancou da tomada o computador, sem sequer fechar os programas abertos. Voltou para o quarto, pegou o vidrinho na mesa de cabeceira, pingou na língua 15 gotinhas de rivotril, murmurou “Comigo me deito, comigo me levanto…” e não chegou a terminar a oração.  Mais 14 bilhões de anos sem aborrecimentos estavam garantidos.

Superlativinho, diminutivíssimo

Tem coisas que só a língua portuguesa faz por você.
Ou principalmente a língua portuguesa do Brasil, sei lá.

O diminutivo não ser pouco, mas muito.

Ficar pertinho é ficar muito perto.
Ficar quietinho é ficar muito quieto.

O diminutivo não ser só pra diminuir, mas pra tornar intenso.

O superlativo ser mais que um grau mais elevado: tornar-se um grau épico.

Na concessionária, há o carro novo, o seminovo e o seminovíssimo.

Em que outro idioma um carro conseguiria ser meio novo – logo, meio velho – (o prefixo latino “semi” quer dizer “metade”), e, ainda assim, novíssimo?

O seminovíssimo é a metade que alcança a plenitude. O meio cheio e meio vazio que transborda.  

Nas imobiliárias, há o imóvel “na quadra da praia”. Isso quer dizer que pelo menos um dos lados da quadra é de frente para o mar.

Um apartamento “na quadra da praia” nunca é de frente para o mar, ou seria “apartamento de frente para o mar”.

Há apartamentos, entretanto, que não chegam a estar cara a cara com o oceano, mas tampouco estão num lugar qualquer. Eles estão na quadríssima.

A quadríssima não é uma quadra como as outras. É “a” quadra – seja isso lá o que for.

Ela pertence à variação linguística falada no Rio de Janeiro.  Não há notícia de quadríssimas em Belo Horizonte – até porque lá seria quarteirãozíssimo, e belo-horizontino algum conseguiria pronunciar isso.

Nos anúncios classificados, oferecem-se os serviços das profissionais do gozo. Há as ninfetas, as ninfetas completas, as ninfetas completinhas e as ninfetas completíssimas.

O que faltará às ninfetas básicas para atingir a completude? Como o diminutivo de intensidade conseguirá completar o já completo? E, uma vez completas e completinhas, qual será o plus, o dom, o dote que as levará ao grau superlativo de “completíssima”?

Tem coisas que só a língua portuguesa faz por você.
Ou só a publicidade, sei lá.

Dasdores

O problema da inteligência artificial, pelo menos dessa que está ao meu alcance, é que ela é burra.

Pesquisei outro dia sobre aparelhos de celular. O meu estava do meio-dia pra tarde há algum tempo. Mal se aguentava por 12 horas, falhava nos momentos críticos e já não tinha memória para nada. Igualzinho ao dono.

Comparei modelos, escolhi um que me atendia e estava a preço promocional, comprei onlaine e fui buscar na loja física.  Pois desde então o FB e todos os portais de notícia me bombardeiam com anúncios do modelo de celular que agora tenho em mãos.

Como é que pode a internet ser tão inteligente e deduzir que eu estava procurando telefone (afinal, pesquisei no gúgol) e tão burra a ponto de não ter percebido que efetuei a compra?

Uma inteligência artificial que fosse pelo menos esforçada me perguntaria:

– E aí, Edu, tudo joia? Comprou o samsuguezinho?

(Uma inteligência artificial mediana trataria de ser amigável – daí me chamar de Edu, não de sr. Affonso – e teria coletado informações básicas a meu respeito – o que explicaria o “tudo joia”, expressão que, extinta em 1970, só sobrevive em Minas).

– Oi, I.A., tá boa, fia? Comprei, sim. Popará com os anúncios.

– Que bom. Vi que você comprou um aparelho vermelho. Era isso mesmo? Não foi errado e prefere comprar outro, de uma cor mais compatível com sua faixa etária? Azul ou cinza, por exemplo?

– Comprei sem me dar conta de que o da promoção era vermelho, mas não tenho preconceito de cor. E, antes que você inunde todas as páginas da internet com modelos de capas de celular, informo que já comprei uma. Preta.

– Joia. Vou voltar com as propagandas de camisas coloridas e pizza, então.

– Não, pelamordideus. Só pesquisei camisas coloridas para ilustrar um texto – jamais compraria aquilo. E a pizza foi um ato isolado, num momento de fraqueza. Era uma gigante por preço de média, e demorou tanto pra eu conseguir dar cabo dela que mais uns dias ela podia pedir usucapião da prateleira de baixo da geladeira.

– Beleza. Precisando de alguma coisa, estou por aqui. É só digitar no gúgol que eu apareço, tá?

– Obrigado, I.A.

– Pode me chamar de Dasdores.

– Vaicundeus, Dasdores.

Será tão difícil desenvolver um aplicativo assim? Que identificasse meu dialeto, minhas necessidades, que usasse um nome personalizado levando em conta meu bequigráunde cultural? Que me ajudasse a encontrar o que me falta, mas entendesse que ninguém precisa continuar correndo atrás da condução depois que já a pegou? Que tivesse realmente o desejo de facilitar minha vida?

“A emulação máxima da inteligência humana (que também serve ao Desejo) seria a soma do Desejo com a Consciência. Só não estou seguro de que isso seja… desejável. Uma I.A. desejante poderia tornar reais os pesadelos da ficção científica e querer dominar o mundo.” (F.D.)

Eu não me importaria que a I.A, quer dizer, a Dasdores, dominasse o mundo. Desde que parasse de encher minhas telas com celulares da Samsung. Ainda mais esses maiores, melhores e mais baratos que o que comprei. E, ainda por cima, azuis.

Colocando os pingos nos YY:

“Despiorar” existe.

É verbo transitivo e intransitivo, e significa tornar ou ficar menos mau (ou menos mal). É o mesmo que melhorar.

“Desmelhorar” também existe.

É transitivo quando no sentido de impedir o melhoramento, intransitivo na acepção de tornar pior.

Quando uma coisa piora menos do que vinha piorando, há quem diga que começou a melhorar. E quem prefira dizer que está despiorando. Questão de copo meio cheio ou meio vazio.

Existe também “desconcordar”, que é quando você apenas não concorda, sem, entretanto, discordar. Lamentavelmente, “desdiscordar” não existe – ou você dá o braço a torcer ou fica quieto.

O antônimo de “amor” pode não ser ódio ou indiferença, mas “desamor”. Desamor é uma indiferença magoada, levemente ressentida, sem ânimo para ser ódio. Não chega a ser desprezo; é só uma desafeição. Um destesão.

É para isso que o prefixo “des” existe: para para indicar ação contrária. Mentir, desmentir. Fazer, desfazer. Carregar, descarregar. É bonito usá-lo porque (filósofos me ajudem nesta hora!) é uma negação que traz a afirmação dentro de si.

Desconhecer não é o mesmo que ignorar. Desiludir não é o mesmo que frustrar.

Nos dicionários até pode ser. Mas isso só para quem acredita em sinônimos.

Sinônimo quer dizer semelhante, não idêntico.

Mas nada é idêntico. “Só nós somos iguais a nós próprios”, escreveu o Fernando Pessoa, que era tão dessemelhante de si mesmo a ponto de se estilhaçar em tantos eus.

Taí outra palavra linda: “dessemelhante”. Tão bonita quanto “díspar” (sem par), e a gente a usa tão pouco.

Triste Bahia! Ó quão dessemelhante
Estás e estou do nosso antigo estado!
Pobre te vejo a ti, tu a mi empenhado,
Rica te vi eu já, tu a mi abundante.


Esse era o Gregório de Matos, mas lá no século 17, quando o barroco pedia mais e mais antíteses, dualidades, contradições e paradoxos (como uma palavra trazer dentro da barriga aquela que pretendia matar).

Para entender “despiora”, pode-se também lembrar que “desinfeliz” não é alegre: é mais que infeliz. “Desinquieto” é bem mais que inquieto, não o inerte.

“Despiora” – intuo –  pode ser uma melhora a contragosto. Uma melhora indigna da sua etimologia (“melhor” quer dizer “mais forte”, o que é diferente de “menos fraco”).

Essa talvez não seja uma questão linguística, mas filosófica. Ou só acessível por meio da poesia.

Sugiro começar com Camões:

“Amor com brandas mostras aparece:
Tudo possível faz, tudo assegura;
Mas logo no melhor desaparece.

Estranho mal! Estranha desventura!
Por um pequeno bem, que desfalece,
Um bem aventurar, que sempre dura!


Ou, sem as dicotomias do aparece / desaparece, bem aventurar e desventura,  com Aldir Blanc: “Pior que a morte é desviver”.

Quando começar a desmelhorar, a gente retoma o tema.

Sob o signo de Leão

Para algumas mulheres, a beleza pode ser uma maldição. Em especial aquelas dotadas de uma perfeição paralisante, que monopoliza a visão e oblitera os demais sentidos de quem se vê (ou melhor, se cega) diante dela. Catherine Deneuve, Tônia Carrero, Bruna Lombardi devem ter padecido desse mal.

Há mulheres igualmente belas, mas de outro tipo: as donas de uma elegância que mobiliza, que instiga. Na sua presença (física ou virtual) se apura a audição, a atenção é redobrada. Essa classe de beleza é uma bênção, porque não compete com nenhum outro dom. Danuza Leão poderia ser a musa dessa categoria. Não consigo pensar em ninguém mais solar, mais dominical.

Talvez porque domingo fosse dia de ler Danuza, de ver o mundo pelos olhos (e que olhos!) da Danuza. De acompanhar sua prosa sem papas na língua, um papo reto sobre o que quer que fosse. No seu texto, o luxo era tratado com desconcertante simplicidade e o simples era sempre luxuoso. Coisa que quem conheceu o grand monde e não perdeu a sensibilidade para as grandezas do ínfimo.

Ler Danuza era bom também porque havia na sua escrita um exercício pleno da liberdade. Um destemor que saiu de moda com o advento das patrulhas do politicamente correto. Quem mais, além dela, escreveria que toda mulher deveria ser assediada pelo menos três vezes por semana para ser feliz, sem ter que explicar a que tipo de assédio se referia, sem pedir perdão aos que se arvoram em donos dos significados das palavras e das intenções dos autores?

Os que não conseguem ir além da superfície que fiquem no raso: Danuza sabia exatamente o que queria dizer, e disse. Quem viu na sua fala uma defesa do abuso é porque nunca leu Danuza. “‘Namorai-vos uns aos outros’; deveria ser um lema, o amai-vos a gente deixa para depois.” (…) Esse namoro, ou charme, ou flirt, não tem nada a ver com beleza, idade, posição social. É só pelo prazer, e pobres dos que são imunes a isso, não sabem o que perdem. Namora-se crianças de berço, gatos, cachorros, o macaco do Jardim Zoológico e, quando se começa, sempre há um retorno: faça a experiência e depois me diga.” 

Então eu digo: faz tempo que namoro a Danuza Leão. De longe, como costumam ser os melhores namoros — e os mais duradouros. Eu, lá no interiorzão de Minas; ela, na televisão, nas capas das revistas, nas páginas dos jornais. E quase a pedi em casamento (palavra que, segundo ela, não pode ser pronunciada) no dia em que li um texto seu sobre praça de touros, ou algo assim. Eu, que acho tourada uma das coisas mais estúpidas do mundo, consegui abstrair da crueldade e ver o que ela via. Porque era de outra coisa que ela falava, e as coisas têm muitas camadas.  

Danuza não é desse mundo careta e covarde. Pode-se discordar dela, achá-la “elitista” (como se isso fosse um defeito!), mas não deixar de admirar sua leveza, seu charme suave. “O Rio é uma cidade incrível, sobretudo no verão. E mais incrível ainda porque é verão, praticamente, o ano todo.” Danuza parece falar de si mesma, ela que costumava fazer de qualquer dia um domingo — tão solar quanto ela – para seus leitores. Um domingo assim, como este 26 de julho, em que o inverno acorda se achando verão, a gente namora (de longe…) o mar e, ainda que não haja Danuza nos jornais falando dos pequenos e maravilhosos prazeres da vida, há esse pequeno e maravilhoso prazer de dizer “feliz aniversário, Danuza”, a musa dos domingos, do signo de Leão.

Teimosia

Ali pelos 15, 16 anos, era mais difícil disfarçar a timidez e/ou a falta de traquejo no convívio social. As cantadas, então, estavam totalmente fora de cogitação. O jeito era deixar que outros dissessem por mim – e nisso a música romântica era imbatível.

Havia bailes; dançava-se de rosto colado; a respiração junto à orelha, a mão dedilhando a alça do sutiã ou descendo pelos quadris, a coxa roçando a coxa – tudo isso ajudava a verbalizar o que a voz não ousava.

E, se houvesse que haver uma voz, que fosse a do Paul McCartney dizendo “uô uô uô uô uô uô uô uô, my love does it good”, a do Elton John pedindo “fly away, skyline pigeon, fly” (eu jurava que era Skylab pigeon, mas isso é assunto para outro texto), ou Junior confessando que ”when you’re near, reality loses its hold and loneliness’ tears wet my soul”. Mas, tirando o uô uô uô uô uô uô uô do Paul, eu não entendia patavina.  O que ajudava bastante.

O problema era quando as letras eram em português.

Em princípio, isso era um facilitador. Bastava cantar junto (ou fingir que cantava, tipo segunda voz de dupla sertaneja) e o recado estava dado. Se colasse, colou. Se não colasse, eu estaria só cantando a música, sem quaisquer décimas oitavas intenções.

Uma das minhas favoritas – para o bem e para o mal – era “Minha teimosia, uma arma pra te conquistar”, do Jorge Ben (ainda não era Benjor).

Era uma cantada perfeita. Direta. Para dançar com direito a olhares de promessa e um arremedo de gingado que podia ajudar na conquista pelo caminho da comiseração – mas, naquela idade, quem liga?

O problema era o meu apego à gramática. Eu tentava cantar corrigindo a letra, o que me tirava totalmente o foco. E, claro, ferrava com a métrica.

“A minha teimosia é uma arma
pra te (2º do singular) conquistar.
Eu vou vencer pelo cansaço
Até você (3º do singular)
gostar de mim, mulher, mulher.
Mulher graciosa, alcança a honra.
Você (3º do singular) alcançou, mulher.
Minha amada, minha querida, minha formosa
Vem (2º do singular) e me fala (2º do singular)
que eu sou o seu (3º do singular) lírio
e você (3º do singular) é minha rosa.
Mostra-me (2º do singular) teu (2º do singular) rosto
Fazei-me (2º do plural!!) ouvir a tua (2º do singular) voz
Põe (2º do singular) estrelas em meus olhos
Músicas em meus ouvidos
Põe (2º do singular) alegria em meu corpo
Junto com amor de você (3º do singular)
Mulher, mulher
Lá, lá, lá, lá
Mulher, mulher.”

Eu tentava pôr tudo na segunda pessoa do singular – e não funcionava. Tudo na terceira pessoa do singular – e não dava certo. E (vejam o nível de desespero) até mesmo tudo na segunda do plural. Em vão. A minha teimosia com as pessoas gramaticais acabou se tornando uma arma para não conquistar ninguém. O jeito era vencer pelo cansaço – e ir de com força no lá lá lá lá do final para tentar apagar a má impressão do gingado.

Côutchim de finesse

Quer ser (ou, pelo menos, parecer) fino, descolado, sofisticado, sagaz? Veio ao lugar certo, ao meu Côutchim de Finesse.

Você será tão mais fino quanto mais omisso for ao falar.

Pronto. É só isso. Acabou. Pode passar no caixa e pagar o investimento.

Gente fina não precisa explicar, usar substantivo e adjetivo (ou substantivo e outro substantivo com função de adjetivo). Se o sujeito diz que tomou um ótimo vinho Merlot, saiba que está diante de um impostor. Quem entende de vinho nem fala a palavra “vinho” – diz apenas que tomou um Merlot, um Malbec, um Syrah. Você que se vire para saber se isso é vacina ou xarope.

Tenho recebido, por causa da pandemia, um monte de receitas, enviadas por almas caridosas que creem que eu seja mesmo capaz de preparar algo além de banana congelada batida no liquidificador.  Sei se a receita está à altura dos meus dotes culinários se vier explicadinha, tudo com nome e sobrenome, que nem receita de pobre.

Se tiver “ponha açúcar mascavo”, eu considero a possibilidade de experimentar. Falou “ponha mascavo”, já vi que não é pro meu bico.

Chegou outro dia uma que dizia “use demerara”. Como é que alguém diz uma temeridade dessas a uma criatura que até outro dia só conhecia açúcar pérola e açúcar cristal? “Use demerara” é coisa de hipnotizador, de filme de agente secreto, de livro do Dan Brown.

Pobre fala para ser entendido. Rico tem a necessidade de soar enigmático.

Pobre compra moto Honda, moto Yamaha. Rico compra uma Panigali.

Você nunca vai ouvir um rico dizendo que comprou uma moto Panigali, porque ele precisa deixar óbvio não apenas que tem grana suficiente para uma Panigali como que não se dignaria a dirigir a palavra a alguém que não saiba que Panigali é uma moto. Eu mesmo não sabia, até começar a escrever este texto e digitar no gúgol “moto mais cara”, e aparecer a Panigali V4 R, pela bagatela de 250 mil (valores de 2019).  Se eu tivesse algum amigo rico e ele me informasse que tinha uma Panigali, eu perguntaria se solta muito pelo e que ração ele dá para ela.

Sei que éramos pobres porque meu pai lia o jornal “O Estado de Minas” e assinava a revista Veja. Ele nunca quis correr o risco de alguém se enganar achando que a Veja fosse um jornal e “O Estado de Minas”, uma revista. Por isso, era didático. Pedia, no armazém, sabão Rinso e pasta de dente Kolynos, minimizando o risco de levar um esporro ao chegar em casa com pasta de dente Rinso ou sabão Kolynos.

Sei que éramos pobres de verdade porque meu pai enchia a boca para falar que lá em casa tinha uma mesinha de pedra mármore.  Quer coisa mais pobre que “pedra mármore”? Remediado falaria só “mármore”. E rico diria “carrara”, com aquela empáfia de quem quer ver nos olhos do interlocutor a dúvida sobre se carrara é um tipo de madeira ou o nome da loja.

Voltando ao côutchim de finesse: omita, sempre que puder, o máximo que der. Diga que comprou um pecorino, e deixe que a pessoa se vire pra saber se isso é desinfetante ou um modelo novo da Fiat.

Use balsâmico.
Basmati. 
Louboutin.

Chame as coisas pela marca.
Afete intimidade.

Eu, por exemplo, acabei de tomar um Pilão Extraforte e de comer um francês fresquinho.

Sim, pode gerar mal entendidos. Paciência. Quem manda dar papo pra pobre, pra quem tudo tem que ser bem explicadinho ou a pessoa entende o que não deve?

Aoristo, Pirahã

 

Os pirahãs são um povo amazônico que vive às margens do Rio Maici. Não creem em nada que não possam ver, não acreditam em nada que não possa ser provado. Logo, não têm religião nem mitos de origem. Não sabem o que é ficção.

Em sua vida, tudo está no presente: só existem o aqui e o agora. Consequentemente, em sua língua não há os tempos passado e futuro.

Não conhecem numerais – apenas “pouco” e “muito”.

Não há palavras para cores – apenas “claro” e “escuro”.

Um único termo designa “pai” e “mãe”. Não há nomes para nada além de avô e de neto.

Há um único verbo para “matar” e “morrer”.

Os pirahãs falam também por meio de assobios e zumbidos. Ignoram os sons das letras D, F, J, L, M, N, R, V, X, Z.  Apenas os homens usam o K.

Soube deles muitos anos atrás, quando quis aprender guarani (acabei optando pelo alemão, mais útil em Curitiba) e alguém me falou da língua em que é impossível mentir. Sim, também tem essa:  os pirahãs – que não fazem ideia do que não seja o real – não têm o conceito de mentira.

Talvez olhando na noite amazônica a Nuvem de Magalhães acesa no céu, alguém da tribo deseje ter uma palavra para “inefável”, um modo subjuntivo, um tempo verbal para o presente que já se foi e para o presente que está por vir. E intua que não seja possível filosofar em pirahã.

Também em português nos faltam alguns tempos verbais.  

Temos os pretéritos perfeito, imperfeito e mais que perfeito.  Eu fui, eu era, eu fora.  Os pirahãs só têm o “eu sou”.

Temos o mais que perfeito composto do indicativo, o mais que perfeito composto do subjuntivo: eu tinha sido, eu tivera sido.

Todos os passados possíveis estão aí? Ou há passado que, como aos pirahãs, nos escape?

Há. O passado que persiste, que já deixou de ser e continua sendo. Algo entre o “eu amei” e o “eu amo”, se estendendo talvez até o “amarei para sempre”.

Poderia se chamar “passado perpétuo”. Como quando a pessoa se vai, o sol se põe e a sombra permanece ao nosso lado. O côncavo ainda quente de um corpo impresso nas dobras do lençol, na cama já vazia. O endereço da casa demolida. O telefone do morto, ainda insepulto na agenda.

Era preciso um futuro que não virá, o “futuro quimérico”.  Antípoda do futuro do presente simples (“eu serei”), ali entre o futuro do pretérito composto (“eu terei sido”) e o condicional (“eu seria”). Para se conjugar o que jamais será e ainda assim se projeta para adiante, como a mesa posta para quem se sabe que não vem, o telefone que não vai tocar e isso não impede que eu espere e enquanto espero antecipe a voz que nunca se ouvirá do outro lado.  

Era fundamental haver um presente que não há mais, que só está por já ter sido. Um tempo verbal em que eu possa falar que minha mãe gosta de cantar. Dói usar o passado (ela está viva, e não deixou de gostar do que gostava, e ainda cantaria, se pudesse) e não cabe o presente (ela não gosta ou desgosta; vive no limbo da demência em que já não sabe mais o que é ter gostos). Um “presente intuído”, talvez. Talvez um “presente suposto”.

Crianças inventam tempos verbais porque entendem que entre o que passou e o que virá é tudo ilusório. Por isso dizem “agora eu era uma princesa” – sabem que o “agora” não espera a última sílaba ser dita para ser um tempo ido, e que a infância não é um eterno presente, mas um passado sem perdas.

Há uma forma verbal no grego antigo, no turco e no sânscrito que expressa a essência de uma ação, sem início, sem fim, sem duração. O verbo, nessa forma, é um ponto fora do tempo. Essa forma verbal (não é o infinitivo) é chamada aoristo (que, em grego, significa “sem limite”).

Não é preciso – nem possível – explicar aoristo aos pirahãs. Mas na sua linguagem rudimentar eles sentem perfeitamente isso que, para nós, é uma sofisticação.

Pode ser que precisemos de mais tempos verbais, ou de aboli-los todos. Viver em modo pirahã, “num eterno domingo” temporal.  Com tudo que tenha sido, esteja sendo e venha a ser, ao mesmo tempo. Os tempos todos, que são um tempo só.