Palíndromo

arara

Palíndromo é a aquilo que tem o mesmo sentido quando lido da direita para a esquerda ou vice-versa. O difícil é um palíndromo que faça sentido, seja lá em que direção for.

“Ovo”, por exemplo, é um palíndromo. Bobo, mas é.

A maior palavra palíndromo em português é “omissíssimo” (superlativo de omisso).

Em finlandês há uma ainda mais comprida: “saippuakivikauppias”, que quer dizer “vendedor de soda cáustica”. Não tente pronunciar isso em casa.

A coisa complica quando se quer formar uma frase.

A lupa pula.
Oi, rato otário!
A miss é péssima.
Oto come mocotó.
O lobo ama o bolo.
A pateta ama até tapa.

Quanto maior a frase, pior fica.

Soluço-me sem óculos.
Lá vou eu em meu eu oval.
Acuda cadela da Leda caduca.
A dama admirou o rim da amada.
Seco de raiva, coloco no colo caviar e doces.
O duplo pó do trote torpe de potro meu que morto pede protetor todo polpudo.

E para que servem os palíndromos? Absolutamente nada. Mega bobagem. (“Mega bobagem” é palíndromo)

Ainda assim, não falta quem os estude ou se dedique a eles.

São classificados em 3 tipos:

Os explícitos, que trazem uma mensagem inteligível: “A cara rajada da jararaca“, “E até o Papa poeta é”, “Anotaram a data da maratona”, “Socorram-me, subi no ônibus em Marrocos”.

Os interpretáveis, que possuem coerência, mas exigem algum esforço intelectual: “Oh nossas luvas avulsas, sonho.”, “A Rita, sobre vovô, verbos atira.”

E os insensatos: “Olé! Maracujá, caju, caramelo.”

Há palindromistas famosos: Chico Buarque (““Até Reagan sibarita tira bisnaga ereta”), Millôr Fernandes (“A grama é amarga”), Laerte (“Rir, o breve verbo rir”), Gregório Duvivier (“Amar dá drama”).

Ótimo, só eu, que os omito. (Olhaí outro palíndromo – e real, porque minhas tentativas de palindromar nunca deram em nada). Mais talento teve o Ziro Roriz, palindromista curitibano de pseudônimo palindrômico, que escreveu:

“A sua pauta é a sua causa e o bobo é ele. Levíssimo é o vivo namoro da Regine, roda na cabana bacana da casa da tropa nada romana. Lê o novo vodu do vovô (no caso dono do casaco do anão bobo). E ria Nair a torta. Maíra gaga era. Se caga Cesária má. Mara viu; Ema ri; Vovó vê. A mamãe, o tio réu (que Clara leva). O Adão, Ana, e Leo, viajaram ao além a pé; e nós, de navio. Dario com Leno e Leonela tirana, esmagam-se. Mata-me, se a Leon a Mãe se opõe. Ane lê. Acir, assim Ana já via (com a moça Lea) Iraci falar: a Plácida Razera do azar é razão da reza. Por prazer a rica alemoa baba na mão. Vão, mas é do anão o linotipo. Dezoito moços no sol, Eno viu corado. Revele doida! Vovó vê Vera torta a trote. Viva ! Diva na ida vê ave além. Ari é da maloca. Irá sorrir Rosa e Ari é sacana. E assim Ana, com a moça, lê. A Iraci falará para lá: ficaria ela com a moça na missa ? É Ana caseira e a sorrir Rosa ri. A cola madeira mela. Eva é vadia na vida, vive torta a trotar e vê vovô vadio de leve rodar o cu. Ivonel o sonso; como tio Zé do pito. Nilo, o anão de Samoa, voa mana. Babão mela Acir a rezar pró-paz. Era do azar é razão da reza radical. Para lá ficaria ela, com a moça Iva, já na missa. Rica Elena é, opõe-se a Manoela e se matam. Esmagam-se Ana Rita, Leno e Leonel. Moço irado, Ivan Edson é, e Pâmela o amará já. Ivo (ele anão) Adão Avelar, Alceu quer. O Ito e a mamãe, vovó viram e uivaram. A Maíra se caga. Cesar e a gaga riam. A trotar ia Nair. É o bobo anão do casaco (dono do saco novo), vodu do vovô Noel ? A namorada na porta da sacada na bacana cabana do Reni gerado romano vivo e omissível. Ele é o bobo e a sua causa é a tua pausa.”

Leia de trás pra frente, se puder – e depois me diga se não parece tuíte do Carlucho.

Há dois romances palindrômicos em inglês: “Satire: Veritas”, de David Stephens com 58.795 letras, e “Dr Awkward & Olson in Oslo”, de Lawrence Levine, com 31,954 palavras. Ambos, suponho, intraduzíveis – e os espóileres são inevitáveis.

Por que esse assunto logo hoje? Porque ontem, 9/10/2019, foi um dia capicua (outro nome do palíndromo).

Pena que os gregos não tenham tido a ideia de batizar o palíndromo (literalmente, “fazer o caminho de volta”) com um nome que também se pudesse ler de trás pra frente. Ironicamente, o horror a palíndromos se chama aibofobia – e quem sofre disso sofre em dobro, porque essa palavra é um palíndromo.

Tentei criar palíndromos exclusivos para este texto, mas não saí do “arara ama arara” – que, convenhamos, não enriquece em nada a minha biografia. O jeito é apelar para os universitários:

Ajudem Edu já!

 

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O Acre é um mistério

Acre

O Acre é um mistério.

Por vários motivos.

1.

Ninguém jamais passou pelo Acre.

Ou você vai ao Acre ou não vai.

O Acre não é passagem: é destino.

2.

O Acre tem suas idiossincrasias.

Uma delas é não aceitar a reforma ortográfica.

Não é o primeiro estado a fazer isso: segue o exemplo da Bahia, que se recusou a virar Baía quando o Piauhy, mais resignado, topou ser Piauí.

Brasileiro nascido no Acre, pelas normas vigentes, é acriano.

Acriano nascido no Acre é acreano mesmo.

Há muito os açoreanos aceitaram ser açorianos, mas a Academia Acreana de Letras bateu pé e garantiu que a população será acreana com “e” até morrer, digam o que disserem os lexicógrafos.

Se for fazer concurso público por lá, lembre-se disso na prova de português.

Duvido que eles abram mão dessa pegadinha.

3.

O Acre foi por 3 vezes uma república independente.

É o único estado que realmente pertence ao país, com escritura passada em cartório e tudo, porque foi comprado da Bolívia.

E não custou um cavalo, como diz a lenda, mas uma boa grana.

Sem contar que quase foi arrendado por um consórcio de capitalistas ingleses e americanos.

Por pouco, o Acre não estaria de malas prontas para o Brexit. Por pouco, o Trump não ia querer fazer um muro aqui também.

4.

Quem for ao dicionário procurando o significado de “acre” vai encontrar: ácido, afiado, agudo, áspero, avinagrado, azedo, cortante, mordaz, picante, queimante, sarcástico, ríspido, rude.

Nada a ver.

Acre é uma corruptela de “Aquiri”, que significa “rio dos jacarés” na língua dos apurinãs, que originalmente habitavam a região.

Mas, pensando bem, jacarés costumam ser ásperos ao toque, ríspidos no trato, ter dentes afiados e cortantes, algo rudes no convívio social, ter temperamento mordaz, lágrimas azedas e (repare bem) um sorriso sarcástico.

Os portugueses podiam ser ruins na fonética dos apurinãs, porém de psicologia de jacaré eles entendiam.

5.

Há 52 paulistas para cada acreano.

E quando você precisa de um João Donato, vai buscar onde? No Acre.

Foi de lá, da Amazônia, no sul da América, que veio a Glória Perez para nos ensinar o caminho dos índios e das índias (e eu prometo –  com o coração partido ao tomar essa decisão – que não vou cometer o pecado capital de buscar mencionar que clones têm dupla identidade, para não alugar a paciência de ninguém ou criar uma barriga neste texto).

Mas quando você tiver um desejo, daqueles de corpo e alma, tipo “explode, coração!” e nem o santo guerreiro Jorge te salvar do canto da sereia dessa força do querer, onde é que vai achar alguém que traduza esse seu furacão e o da sua diarista? No Acre.

6.

Imagine se um garoto de Roraima ia encher o quarto de mensagens criptografadas e abduzir a si mesmo? Se um bacuri do Amapá ia ensinar como ser gênio com pouco sono e nada de sexo? Se um curumim de Rondônia ia escrever um besticéler sobre a teoria da absorção do conhecimento, cheio de “não obstante”, “antemão”, “entrementes”, “outrossim”, “amiúde”? Quem mais faria isso senão um… menino do Acre?

7.

Minas tem fama de ser chocadeira de presidentes (7 eclodiram lá – o Itamar não entra na conta porque nasceu em alto mar).

Mas ultimamente ninguém tem tentado mais que os acreanos.

Enéas tentou em 89, 94 e 98. Marina, em 2010, 2014 e 2018.

Só escapamos da possibilidade de ter um presidente acreano em 2002 e 2006.

Perceberam do que o Acre teria nos livrado?

8.

Não me esqueci do Chico Mendes, não.  Nem do José Vasconcelos. Nem do Jarbas Passarinho. Ou do Armando Nogueira. E do Adib Jatene.

É que não sei como o Acre consegue ter menos de 0,5% da população e esse tanto de gente.

Deve ser por isso – por desafiar todas as probabilidades – que seu mapa parece que está rindo.

O Acre é inacreditável.

 

A invenção da linguagem

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Quando o primeiro ser humano descobriu que podia falar, antes de sair contando a novidade para todo mundo deve ter se dado conta da necessidade de dar nome às coisas – ou não teria nem como dizer que tinha adquirido o dom da fala.

Depois de milênios brincando de “imagem e ação” diante de qualquer evento – seja para dizer “eu te amo” ou “tem uma baratossaura pousada no seu ombro” – era um alívio poder simplesmente chegar e dizer “tem uma baratossaura pousada no seu ombro”, sem precisar levar os indicadores à testa imitando antenas, sacudir os cotovelos como se fosse levantar voo, e fazer cara de nojo.

Mas como dizer “tem uma baratossaura pousada no seu ombro” se nem o “ombro” nem a “baratossaura” tinham nomes, muito menos os verbos “pousar” ou “ter” (ainda mais no sentido de existir)?

O primeiro ser humano que descobriu que podia falar sentiu um peso maior sobre seus ombros ainda sem nome: nomear não só as coisas, mas também as ações, porque sem os verbos as palavras soltas não fariam muito sentido.

Vencida a etapa dos verbos e substantivos, o pobre ser humano deve ter entendido que havia a necessidade também dos adjetivos (era uma baratossaura pequenininha, de apenas dois palmos, ou uma daquelas que voam, e contra a qual não há tacape nem testosterona que deem jeito? Era um amor eterno e avassalador ou só um amorzinho legal agora à tarde enquanto os mamutes pastavam e os tigres dente de sabre faziam a sesta?). Vieram então os advérbios, as conjunções, os artigos definidos e indefinidos, o “que” relativo e todas aquelas malvadezas com as quais os professores de português nos torturaram.

Há de ter sido um desafio e tanto a nomeação do mundo. Olhar a baratossaura e pensar que nome sem muito valor para dar àquele bicho asqueroso. Olhar o ombro e imaginar um som que se ombreasse à beleza daquele patamar nascido da curva no final do pescoço e que iria morrer dali a pouco, em curva ainda mais bela, antes de virar braço. E criar palavras que se harmonizassem nessa sequência, fluindo sinuosamente – pescoço ombro braço.

Esse primeiro falante deve ter percebido que havia coisas demais no mundo, e que não daria conta sozinho. Aí chamou a família para ajudar (nascia a palavra “nepotismo”), e isso explica porque haja nomes tão esquisitos (dados pelo cunhado, talvez) e nomes esculpidos a cinzel (obra da cunhada); nomes tão límpidos (atribuídos pelo filho caçula), e outros tão obviamente equivocados (quem mandou chamar a sogra?).

Quem batizou a arara de “arara” deve ter sido uma criança. A mesma que nomeou o tatu, a cacatua, o jacaré, o pica-pau, o tico-tico e todos os bichos de nomes oxítonos ou onomatopaicos.

À filha teen coube dar nome ao beija-flor, ao bem-te-vi, à borboleta, ao arco-íris, à rosa dos ventos, ao bicho da seda, e às cores fúcsia, rosa-chá e off-white.

O cunhado denominou a fronha, a gonorreia, o ornitorrinco, o fluxo piroclástico e as placas tectônicas (placas tectônicas e fluxos piroclásticos eram bastante populares naquela época).

Ele mesmo, o hipotético homem das cavernas, nomeou as coisas práticas (dia, noite, vida, morte, sexo, cerveja, chave de fenda, moto de quinhentas cilindradas, pênalti, impedimento, juiz ladrão).

A mulher criou palavras como ciclo, lua, cólica, leite, castigo, chantagem emocional, refogado, dor de cabeça, tédio, evasê, dupla jornada, empoderamento.

São indubitavelmente obra da sogra os nomes dados à bertalha, à seriguela, à alcachofra, à rebimboca e a todas as geringonças (sendo sua, inclusive, a invenção da palavra “geringonça”).

Por não terem inventado uma palavra que sintetize essa ideia, “eu te amo” continua, até hoje, difícil de dizer.

O dia em que Carlos salvou o planeta

Planeta

– Krog, nossos computadores finalmente conseguiram decifrar parte da linguagem dos habitantes daquele planeta que vamos invadir.

– Aleluia! Já estamos há quase 5000 anos nisso, e o governo estava a ponto de cortar a verba.

– O problema é que… não dá para entender nada.

– Como assim, nós deciframos ou não deciframos?

– Decifrar é uma coisa. Entender é outro departamento.

– Mas você cruzou todos os dados, Grok?

– Sim. Veja essa mensagem: “O que se vê desde a época da transição é um “interesse” “crocodilal” em situações desnecessárias.”

– Hã?

– Sabemos o que é cada uma das palavras isoladamente (exceto crocodilal). Mas elas não fazem nenhum sentido. E ainda tem essas coisas voando em torno de algumas palavras, que eles chamam de aspas. Devem estar aqui por engano.

– Tem certeza que não é um código secreto?

– É nossa suspeita. Veja este outro: “Quando a única coisa que lhe resta é o último suspiro de vida, surgem estas pérolas que mostram muito mais do que palavras ao vento, mas algo que já acontece há muito. O quanto querer ser livre e independente parece ser a maior crueldade para alguns.”

– Não será um poema? Terráqueos fazem poemas.

– Analisamos dois milhões de poemas, e isso não pode ser classificado como tal.

– Música do Carinhos Brown? Papo de bêbado? Voto da Rosa Weber?

– Também não. O estilo não confere.

– A chave poderia ser esta, ó: “Jamais podemos deixar de lembrar deste fato, mesmo que a lacrosfera e a isentosfera digam que este assunto é passado e todo aquele mimimi proposital de prostituta perdedora!”

– Hein?

– Pois é. Tentamos o código da Vinci. Análise combinatória. Numerologia. Sexo tântrico. Nada. E há duas palavras que, de tão repetidas em outros textos podem ser uma pista: grobo e jean willians. Só que não constam de nenhum dicionário.

– E você tem certeza que esse é o Líder?

– Total. Esta semana ele cortou o tuíter do pai dele, e olha que isso, nessa civilização, é a suprema forma de poder..

– E se a gente ignorar as letras e prestar atenção só às aspas e exclamações, que parecem ser o mais importante?

– Aí vamos ter que reprogramar os computadores. Mais 5000 anos, no mínimo.

– Qual é o cargo dele mesmo?

– Vereador. Parece ser o topo da cadeia alimentar na política local. Abaixo dele vêm o presidente, os irmãos, o vice, os ministros, senadores, deputados, prefeito, youtubers e astrólogo. Não, acho que astrólogo fica noutro organograma.

– Já tentou decifrar o astrólogo?

– Quase. Falta decodificar cu, caraio, kant da vaquinha e carta capetal.

– Está pensando o mesmo que eu, Krog?

– Sim, Gork. Voltar a investir no Dilmês em portunhol. Era mais fácil.

– Tem também a linguagem telepática dos microorganismos do mar congelado de metano nas profundezas de Netuno. De repente…

– Afivela o cinto e retorna a poltrona à posição vertical, Gork. Netuno, aqui vamos nós!

 

(publicado originalmente em 25 de abril de 2019)

O hímen, esse desconhecido

himen

Não sei você, mas eu nunca estive cara a cara com um hímen. Certamente nos esbarramos ao longo da vida, mas terá sido um contato superficial e o afastamento foi amigável, sem motivo para rompimento.

Eu julgava mesmo que ele, assim como o teletrim e o professor de OSPB, já tivesse sido extinto. Ninguém fala mais dele, e sua presença, outrora tão requisitada, hoje soa como um anacronismo.

O hímen só voltou à minha mente por causa de um vídeo, visto um dia desses, em que uma simpática mocinha derruba certos mitos a respeito dessa (obsoleta) peculiaridade da anatomia feminina. Foi quando descobri que a total ignorância no assunto não era exclusividade minha.

Admito que o hímen atiçava minha curiosidade, ali por volta da pré-adolescência. Eu o imaginava como um daqueles bastidores que as bordadeiras usam, só que em vez de algodão, haveria uma membrana, tipo essas de bola de soprar. A membrana arrebentaria na noite de núpcias (sim, sou do tempo da noite de núpcias) e pronto, problema resolvido.

Isso, claro, se o hímen não fosse complacente. Esse era um conceito perturbador. E se a membrana fosse muito resistente, e se recusasse a ceder passagem, permanecendo ali, desafiadora, feito um escudo invisível? A simples ideia de vir a topar com um obstáculo que barrasse a entrada, como se eu fosse um penetra, um sócio com mensalidade vencida, me causava leve terror. Eu ouvira dizer que, por outro lado, o hímen podia se romper, por exemplo, pulando corda ou andando de bicicleta – então, uma calói e uns quatro metros de corda de bacalhau haveriam de fazer parte do meu kit lua de mel, just in case.

O hímen suscitava também questões práticas. Como as virgens urinavam? A única hipótese possível era a membrana ser porosa. Menos parecida com a da bola de soprar, um pouco como um coador de pano (sou do tempo do coador de pano). Mas basta olhar pra um coador de pano e perceber que a solução não era nada higiênica.

Talvez as virgens simplesmente não urinassem. Mas algo me dizia que ou essa teoria estava furada ou os bebês dos sexo feminino não nasciam virgens, mas se tornavam virgens (eu, apesar da pouca idade, tinha meus momentos de Simone de Beauvoir). Depois que se envirginavam, deixavam de urinar – até a fatídica noite de núpcias, a partir da qual recuperavam essa função. Sim, minha ignorância sobre o hímen se estendia também à uretra.

O que contava é que o hímen tinha o papel de lacre, de selo de segurança. Ele era a prova incontestável de que a virgindade feminina era uma virtude – em contraponto à masculina, que era um mico. O homem precisaria adquirir bastante prática para, na hora H, saber exatamente o que fazer ao se defrontar, lança em punho, com o dragão do hímen. O fracasso masculino não seria a impotência (fantasma que sequer me ocorria então), mas não conseguir derrotar o hímen de primeira. Para garantir o êxito é que talvez fossem necessárias as tais preliminares – possivelmente uma pedalada de 12 km ou meia hora pulando corda.

Eu imaginava se o hímen se romperia fazendo “ploc” (acho que não faz). Se sangraria a ponto de precisar bandeide e mertiolate (possivelmente, não). Se ficava no começo, no meio ou (o que seria um pesadelo) lá no fundo – um fundo talvez fora do alcance, além das minhas possibilidades. E, mais que tudo, eu me perguntava por que isso era tão importante, a ponto de haver exames médicos para detectá-lo intacto num pré-nupcial, e cirurgias para reconstituí-lo no caso de a moça ter merendado antes do recreio.

Todas essas questões estavam, até um dia desses, totalmente esquecidas, perdidas nas brumas dos meus 12, 13 anos, que foi quando descobri de onde vêm os bebês e como é que foram parar lá dentro. E também que passei a sentir uma estranha atração por meninas ciclistas ou que gostavam de pular corda.

Não era fácil ser pré-adolescente num tempo em que não havia gúgol pra gente se informar direito.

 

(publicado originalmente em 2015)

Herói da resistência

ferro

Houve um tempo em que telefone telefonava e máquina fotográfica fotografava.

As coisas eram unívocas, com jurisdições demarcadas, como que regidas por uma religião.

Em algum momento algo se rompeu, e telefones começaram a fazer contas, mandar cartas, tocar música, tirar fotos.

Por que o telefone, não o ferro elétrico? Jamais saberemos.

O ferro elétrico é de um tempo em que máquina de escrever escrevia, carteiro entregava cartas e computador computava.

Então, como se tivessem surtado, computadores começaram a escrever, enviar e entregar cartas, as máquinas de escrever silenciaram, os carteiros tiraram um peso dos ombros e um pouco da alegria dos cachorros.

Relógios marcavam as horas, não batimentos cardíacos.
Cinemas passavam filmes, não encenações de milagres evangélicos.
Impressoras imprimiam, copiadoras copiavam, aparelhos de fax enviavam fax – hoje, nestes tempos de transgêneros, uma multifuncional dá conta de tudo sozinha.

O micro-ondas já doura e gratina.
O liquidificador, que só liquidificava, mudou o nome para mixer e agora corta, amassa, mistura, processa, rala, pica, bate, tritura, e por pouco não chuleia, caseia e prega botão.

Só o ferro elétrico continua apenas passando roupa.

Ele resiste, solitário, à degeneração dos costumes.

Até os óculos enxergaram que o fim estava próximo, com as lentes descartáveis, e começaram a fotografar, filmar, ensinar o caminho, mandar e-mail.

Em vão.

Os óculos morrerão como morreram o monóculo, o pincenê, o telex, a antena interna, pager, disquete, fita k7, orelhão, ficha de orelhão, lâmpada incandescente, mimeógrafo, bala Soft, goma arábica, revólver de espoleta, anágua, bomba de flit, Emulsão de Scott, cinto de castidade.

Fogões não precisam mais de fogo.
Geladeiras degelam sozinhas.

Quando nada mais for o que era, nos restará o ferro elétrico como prova de fidelidade aos princípios, como exemplo de dedicação exclusiva, de fé inabalável no destino.

Pode soltar vapor pelas ventas, ter dezoito temperaturas, base de teflon, recipiente para amaciante, design aerodinâmico, funcionar com energia solar, não importa.

Não há ideologia de gênero que o faça tirar fotos.
Mandar mensagens de voz.
Pagar contas.
Curtir comentários.

Quando nenhum tecido amarrotar, ou quando roupa amarrotada virar moda, o ferro de passar cairá de pé.

Deixará o mundo pela porta da frente, de cabeça erguida e com a consciência tranquila de jamais ter se rendido.

 

(publicado originalmente em agosto de 2017)

Novaes

Novaes

Eu queria, como a Cecília Meirelles, escrever crônicas sobre o bem-te-vi moderno, que cantava só “te-vi”, e seu companheiro gago, que enchia a poeta-cronista de espanto ao trinar “bem-bem-bem ti-ti-ti vi-vi-vi”. Queria escrever assim, libérrimo e exato, sobre esses extraordinários fatos banais.

Sonhava ser um Veríssimo, e me travestir de velhinha de Taubaté, de D. Casemira (e seu cachorrinho existencialista, o Dudu), de detetive Ed. Mort, da ravissante Dora Avante, do analista de Bagé – coisas de que só um tímido incurável é capaz.

Mas o que eu queria mesmo ser era o Carlos Eduardo Novaes.

Como Millôr, ter para tudo uma frase definitiva. E tiradas geniais. Ser um Ivan Lessa, um Sérgio Augusto, e escrever no Pasquim – ai, pobre de mim, perdido nos confins de Minas Gerais.

Ir do trivial ao sublime, da poesia à prosa, feito Drummond, sem nunca soar prosaico, e sem deixar de ser poético jamais.

Como Quintana, saber que as coisas passarão, e eu passarinho. Como o Leminski, não fazer versinhos normais.

Mas o que eu queria mesmo ser era o Carlos Eduardo Novaes.

E ser muitos, ser todos, à la Fernando Pessoa. Como o sobrenatural Nelson Rodrigues, traduzir a vida como ela é. Ver o mundo com o lirismo do Paulo Mendes Campos. Produzir os biscoitos finos que Rubem Braga publicava nos jornais.

Ter a elegância do Art Buchwald, a sutileza da Clarice Lispector; a leveza da Danusa Leão. Não faltar ao encontro marcado com a inspiração, como Fernando Sabino. Viver feliz e morto de paixão, como Vinícius de Moraes.

Mas o que eu queria mesmo ser era o Carlos Eduardo Novaes.

Feliz 13 de agosto, do fã de desde sempre, e cada vez mais.