Derrubando mitos

Picles

“Camisinha é um método contraceptivo.”

Não é.

O contraceptivo não é a camisinha, mas a embalagem da camisinha.

Ela foi desenhada para impedir – ou, pelo menos, retardar ao máximo – a consumação do ato sexual.

Quem já tentou abrir uma embalagem de camisinha com a mão toda melada sabe do que estou falando. Ela não abre nem a pau. Para-se tudo o que se estava fazendo – ou pretendendo fazer – para se dedicar exclusivamente a uma função que se revela inglória e frustrante. Perde-se o foco e o fogo. Quando finalmente se obtém êxito, muitos e muitos minutos depois, a sensação de fracasso já se instalou e é preciso recomeçar do zero. Ou do -1.

Quem tenta abrir com os dentes (98% dos consumidores, segundo especialistas) corre o risco de rasgar não só a embalagem como a própria camisinha.

E quem tentou abrir com a mão seca, definitivamente, está pondo o carro adiante dos bois e abrindo a embalagem cedo demais.

A embalagem tem as laterais lisas e os trechos superior e inferior levemente serrilhados.

Muito levemente serrilhados, justamente para que não se saiba (sem ter que acender a luz e colocar os óculos) que lado é o de cima, que lado é o de baixo e que lado é o do lado. Se abrir do lado levemente serrilhado já é difícil, imagine do lado do lado.

Se quisessem que fosse facilmente aberta, viria com um picote decente, um “Abra por aqui”, como nos pacotes de biscoito, e uma visível diferença entre as laterais e as partes superior e inferior.

Mas não. Tudo ali foi desenhado para que o usuário perca tempo, paciência e, principalmente, o ânimo. Quem inventou a embalagem da camisinha foi a mesma pessoa que criou a embalagem de plástico do CD e a tampa do pote de palmito, cuja abertura é sempre um pepino.

Embalagem de camisinha tinha que ser de velcro. Ou ter um fecheclér. Ou, sei lá, as camisinhas podiam vir num pote de vidro, já desembaladas, nadando em lubrificante.

Esta seria a solução ecológica (vidro é retornável e reciclável) e ainda ter o plus extra adicional a mais do lubrificante – efetivamente necessário depois de certa idade.

Uma vez que se consiga abrir a embalagem e tirar a camisinha, vem a segunda armadilha: desenrolar pelo lado certo.

Sim, como nos cabos USB, a camisinha tem o lado certo e o lado errado.

Provando que a lei das probabilidades é de Humanas, não de Exatas, em 100% dos casos, ela desenrola pelo lado errado.

Custava vir cada lado de uma cor? Um fosforescente e outro opaco? Ou um lado liso e outro corrugado, para o caso de deficientes visuais e para quando se está no escuro – e aí todos tornamo-nos deficientes visuais?

Não escolha a camisinha pelo tamanho (existem o normal, de 52 mm, que atende 98% da humanidade, e, só para matar de raiva de não pertencer aos 2% restantes, o extra large). Nem pelo comprimento (varia de 10 a 18 cm, e é melhor ser sincero nessa hora, para não ficar com aquele aspecto de quem está usando calça da Zara, ou, ao contrário, que o defunto era maior). Muito menos escolha pela sensibilidade (a “sensitive”, como o próprio nome indica, estoura por qualquer besteira; e a ultra resistente equivale a namorar de escafandro). Escolha pela embalagem.

Embalagem com picotes grandes é o ideal. Se não for uma emergência (emergências existem menos do que a gente gostaria, mas existem), faça você mesmo, previamente, um picote grande com uma tesoura.

Um, não: faça logo 4, um de cada lado. Aquela meia hora de luta com unhas e dentes (literalmente) para abrir o diabo da embalagem pode ser revertida para outras finalidades. Descobrir o lado certo pra desenrolar, por exemplo.

Porque é mais fácil o dentifrício voltar para o tubo do que rebobinar uma camisinha desenrolada pelo avesso.

E se lembrar, nessa hora, de quem falou essa história do dentifrício é que é o contraceptivo mais eficaz do planeta.

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Ardósia

ardosia

Que me perdoem o rubi, o diamante e o lápis-lazúli, mas pedra preciosa que se preze tinha que se chamar ardósia.

– Vendido para o cavalheiro da primeira fila o colar de pérolas por 20 mil dólares. E agora, a peça mais valiosa da coleção do marajá: este portentoso anel de ardósia verde, com lance inicial de 30 milhões de euros. Dou-lhe uma…

Berilo podia ser material de construção (“Tião, me vê aí dois sacos de cimento, um caminhão de brita e outro de berilo. Mas peneira bem antes, que o da semana passada tava todo empedrado.”).

Topázio, um osso da canela ou do dedinho do pé (“A radiografia mostra uma fratura no topázio. A senhora vai ter que ficar imobilizada por 15 dias. E prestar mais atenção nas turmalinas dos móveis daqui por diante.”).

Âmbar devia ser sabão.

Obsidiana, um tipo de passe em centro espírita.

Quartzo, divindade asteca do segundo escalão.

Ardósia, não. Quem inventou este nome tinha outros planos para ela. Ardósia nasceu para ofuscar na festa do Oscar, não para piso de churrasqueira em Irajá.

– Tia Ágata, o que o Ônix está fazendo aí?

– Fala mais alto, minha filha, que tem um gato grudado na minha orelha! A unha dele agarrou no meu brinco!

O brinco – herança mais cobiçada na família – era de ardósia, claro.

Ametista poderia ser uma especialidade médica. (“Esmeralda e eu preferíamos que a Jade tivesse feito pediatria, mas ela quis ser ametista, paciência. Sabe como são os jovens de hoje em dia, né? Fazem o que dá na malaquita.”). Ardósia jamais seria segunda opção.

Tudo poderia ser outra coisa. Porém menor.

Na padaria:

– Moço, esse pão contém sílica?

– Não, madame. É feito com mica orgânica, farinha de jaspe e água marinha.

– Me vê quatro. E uma opala de chocolate, essa grande aqui do canto, que eu estou turquesa de fome.

Entre quatro paredes:

– Vem cá, sua safira, que hoje eu vou te lapidar todinha…

– Sai pra lá, seu feldspato!

Só ardósia, se não fosse a pedra que é, seria maior. Poderia ser uma espécie de amor ardente (“Sinto uma ardósia a me queimar por dentro!”). Ou um animal mitológico (“E Zircônia surgiu, montada em sua ardósia alada”). Mas não deu, e ardósia veio ao mundo para batizar argila prensada.

Para isso, bauxita estava de bom tamanho.

 

(originalmente publicado em 14 de março de 2019)

Efolução

grayscale photography of human skull
Foto por ahmed adly em Pexels.com

Um estudo publicado na Science levanta a hipótese de uma mudança na dieta ter sido a responsável por nossa capacidade de pronunciar as consonantes “f” e “v”.

Se você vir num filme ambientado na pré-história um chef neandertal dizendo ao sous chef

– Flávio, faça o favor de ferver as favas.

esqueça. É caô.

Se houvesse um sous chef troglodita chamado Flávio, pode ter certeza de que logo lhe arrumariam um apelido. E outro emprego, porque trogloditas não apenas não ferviam favas para lhes dar textura e crocância como, se tivessem que batizá-las, mandariam às favas a palavra “fava” (e o próprio sous chef Flávio) e escolheriam para eles outro nome qualquer, com muito GRRR e MMMM.

Não que fossem agressivos ou mimizentos: é que a dieta os impedia de levar o dente ao lábio e articular as consonantes labiodentais.

A agricultura, com alimentos menos duros que a carne crua de mastodonte, é que teria introduzido mais vegetais no nosso cardápio, alterando nossa dentição e a capacidade de articular novos sons.

Nessa linha de raciocínio, ouso inferir que deva ser a falta de sucrilhos e manteiga de amendoim no café da manhã que me impede de dizer da forma distinta “coffee” e “cough”. Com café com pão e manteiga, vira tudo “cof”, e cabe ao interlocutor, pelo contexto, deduzir se estou tossindo ou pedindo um espresso caramelo macchiato.

Com marshmellows e tortas de maçã (daquelas que a vovó Donalda colocava para esfriar no parapeito da janela) eu até seria capaz de pronunciar “thought”, “through” e, quem sabe, se a torta tivesse aquele reticulado de massa em cima – “throughout”.

Só com arroz, feijão preto, angu e couve no menu, sem chance.

A teoria abre imensas perspectivas para os linguistas. Seria o excesso de variedades de queijos que impediria os franceses de usar paroxítonas? O volume de massas no cardápio e o sabor do molho da Nonna manteria os italianos sempre de boca cheia, obrigando-os a falar com as mãos? Haverá correlação entre o excesso de quetichupe no biguemeque e a inapetência dos americanos para falar qualquer palavra terminada em “ão”?

Com a abertura dessa nova linha de pesquisa, talvez milhões de alunos de Letras das universidades federais se sintam desestimulados de concluir seus TCCs sobre opressão linguística, suas teses de mestrado sobre a ideologia de gênero nos substantivos epicenos e seus pós-docs no exterior sobre pautas identitárias aplicadas às fricativas palatais.

Se investirem neste novo filão, logo descobriremos se é o Biscoito Globo que faz o carioca chiar, se o sabor sublime do pão de queijo é o que faz os mineiros engolirem junto os finais das palavras, se é a pimenta que leva os baianos a falar mais devagar para dar tempo de passar a ardência, e se o leite condensado no pão é ou não responsável por fazer a pessoa insistir em falar “cüestão”, e usar “talquei” como ponto final.

(A pesquisa original é séria e foi feita na Universidade de Zurique. Eu, que sou linguista de orelhada, sempre soube que ou você come farofa ou fala a palavra “farofa”. As duas coisas ao mesmo tempo, não dá. Experimente fazê-lo, de preferência na frente das visitas, e depois me conte o vexame. No pacotinho de farinha de mandioca devia vir um alerta: “Farofa faz mal para a labiodental “F”).

 

(originalmente publicado em 17 de março de 2019)

Beabá

cartilha

Fui alfabetizado oficialmente através da cartilha “Lalau, Lili e o lobo”. Em casa, o processo começara antes, pelas revistas de costura da minha mãe (“Burda” foi das primeiras e mais inúteis palavras que aprendi a soletrar). E tinha também um livrinho que consistia apenas no desenho de alguns bichos e seus nomes, em letras enormes.

Ali aprendi
A de passarinho (era para ser Águia)
B de peixe (era Baleia)
C de pato (era Cisne)
D de camelo (era Dromedário)
E de Eduardo (era de Elefante)

Vinte e poucos anos depois, quando começaram a pipocar os sobrinhos, tive a ideia de fazer um livro desses para eles, mas menos óbvio. Com alguns dos mesmos bichos, só que agora incluindo poemas para estimular a fantasia – e não gerar dúvidas.

Alice, Amanda, Augusto, Caio, Kaká, Teté, Julie, Juninho e Ed aprenderiam que “A” era de Anta.

Uma anta fitness que usava colã, cantava “Physical” e queria entrar em forma, ter cintura.

Senta, levanta,
Lá vai a anta.
Não come carne,
Não come massa
Só come planta.
Senta, levanta.
Almoça pouco,
Quase não janta.
Faz plástica,
Vai à ginástica.
Não adianta.
Senta, levanta.
O suor é muito,
A dor é tanta
Doem as juntas,
Seca a garganta.
Lá vai a anta
Quem vê se espanta.
Senta, levanta,
Senta, levanta.
E se hidrata, na moita,
Tomando Fanta.

B de baleia:

Era uma baleia
Que no mar vivia
Triste, amargurada
Ninguém a queria.

Um dia encontrou
Alguém que a quis.
Então se apaixonou
E morreu, de tão feliz.

A letra C trazia o “Soneto do caramujo”:

Encaracolado no seu caracol
Onde não batia nem raio de sol
Num jardim sem flores, triste, feio e sujo
Vivia um pobre e velho caramujo.

Era sozinho, sem nenhum parente,
Já quase cego, fraco e bem doente.
Até que um dia descobriu o amor:
Uma taturana em cima de uma flor.

Ficou vidrado, torto, apaixonado
Fez um poema e escreveu no muro
Na esperança de tê-la ao seu lado.

Pobre amor que não teve futuro.
A taturana era analfabeta
E ele voltou para o seu lar escuro.

Animais nunca dantes louvados em prosa e verso apareciam no livro:

Vivo em ti, dentro de ti
Como a dor no coração dos homens
Como sob a casca vive o jabuti.
Vivo em ti como em um nicho
De amor que nunca se acaba.
Me conténs, eu sou o bicho
Que em ti habita, ó goiaba.”

Na letra J vinha mais um injustiçado, o javali marinho:

O javali marinho é um bicho triste.
Só não é mais triste porque não existe.
Existem cavalo marinho, leão marinho,
Lobo marinho, até roberto marinho.
Mas, coitadinho, o javali marinho
Não existe.

Quando passa na tevê algum documentário
Sobre a vida no mar, no rio, no aquário
O javali marinho chora enquanto assiste
E teima, bate o pé, de dedo em riste.
Mas nunca fazem sobre ele nenhum comentário.
Porque ele não existe.

O livro, como o javali marinho e a reciprocidade da taturana, nunca chegou a existir. Virou uma pasta com dezenas de poemas soltos, versos decapitados, e sabe-se lá de quantos traumas de infância meus sobrinhos se livraram.

Agora, porém, há uma nova geração, a dos sobrinhos-netos. Eros, Júlia, João, Laura, Pedro.

Júlia e João escaparam por pouco (já estão imunes às más influências), mas ainda é tempo de tumultuar a cabecinha dos demais.

Antes que aprendam a soletrar “Olavo viu a uva” ou “Lalá libertou o Lula”, vou preparar para eles uma versão 2019 da minha cartilha de animaizinhos fofos.

A de ararajuba
B de baleia azul
C de caiarara
L de lobo guará
M de macaco prego
O de onça pintada
P de pinguim de Magalhães
R de rinoceronte de Java
T de tatu-bola

Para que, daqui a 50 anos, eles saibam que conviveram com animais reais tão incríveis quanto os tiranossauros que encantam o João, e os pássaros dodô, os lobos da Tasmânia de que ouvia falar na minha infância. Todos extintos.

Só não vou me meter a fazer versinhos problematizando (e antropormofizando) os animais. Serei mais responsável desta vez. Escreverei sobre a onça. E sobre o tatu.

Mas evitarei, enquanto puder, coisas como:

Paixão! Coisa engraçada
Depois que passa. Durante
Não há quem a voz levante
E possa escapar da laçada.

Caçava o tatu. Caía
A noite. O vento soprava.
A onça, faminta e brava
Por entre a mata corria.

“Que vejo?” (exclamou) “Oh
Um tatu! Tupã me atendeu.
Comê-lo-ei sem ter dó
Achei-o primeiro, ele é meu.”

Atreveu-se, e sua sorte
Essa noite foi selada.
Um olhar e, apaixonada,
A onça quedou sem norte.

O tatu (quem haveria
De dizer!) caiu sem fala
Numa paixão que avassala
E mata em lenta agonia.

Onça e tatu, loucos
Pelo amor que os consumia
Morreram de fome, roucos
Entre beijos. Fim da poesia.

 

(publicado originalmente em 18 de março de 2019)

Benvingut

catalan

Esta noite sonhei em catalão.

Não me lembro do sonho quase nada – uma casa pela metade, com a lateral toda de espelhos para que se tornasse uma casa inteira, um rio que passava rente, uma mulher que cantava enquanto descia o rio, um jardim com figueiras.

Todas as canções, todos os diálogos, eram em catalão.

E eu não falo catalão.

Pelo menos não em vigília. Pelo menos não conscientemente.

O catalão é, para mim, uma quimera. Tem garras de português, corpo de francês, cabeça de espanhol, e asas que não sei de onde lhes vieram os ossos, os músculos, as plumas.

A própria casa, absolutamente simétrica, de cômodos espelhados, era construída em catalão.

Numa porta se lia “Sortida”, que é uma forma de dizer ao mesmo tempo “sortie” e “saída” e poderia ser daí que eu deduzisse que o sonho fosse nessa língua na qual me meti, há muitos anos, a ler um romance.

Era o “Mecanoscrit del segon origen”, cujo primeiro capítulo (“Quadern de la destrucció”) começava com:

“L’Alba, una noia de catorze anys, verge i bruna, tornava de l’hort de casa seva amb un cistellet de figues negres, de coll de dama, quan s’aturà a avergonyir dos nois, que n’apallissaven un altre i el feien caure al toll de la resclosa, i els va dir:
—Què us ha fet?
I ells li van contestar:
—No el volem amb nosaltres,perquè és negre.”

Entendi sem perceber o que entendia, que é uma forma mais profunda de entendimento (como um koan, como uma iluminação).

Todos os sonhos devem ser uma espécie de catalão do inconsciente, com algo de lúcido (catorze anys, perquè és negre), algo de onírico (amb un cistellet, quan s’aturà a avergonyr, el felen caure al toll de la resclosa”).

Mas este sonho era catalão não só na estrutura, mas em cada gesto, em cada palavra. Sei disso porque minha voz era outra, e eu mudo de voz quando falo outro idioma. E minha voz tinha o timbre que eu talvez tivesse se falasse catalão (nunca falei, e esse timbre desconhecido também era uma pista).

Possivelmente sonhei num catalão inventado naquele momento a partir de palavras um dia lidas e esquecidas (si us plau, gràcies, benvingut, amic meu), a partir das quais se criou uma sintaxe, um vocabulário, um estilo de dispor as janelas em paredes curvas, e a sala se abrir diretamente sobre o rio pelo qual navega sem barco uma mulher a cantar uma canção que nunca foi escrita.

Ali pelos meus 9 anos, assisti uma novela chamada “O homem que sonhava colorido”, e a cada manhã buscava nas lembranças dos meus sonhos algum elemento de cor, algo que me assegurasse que eu não sonhava em preto e branco. E todas as lembranças eram inconclusivas.

Mas sei (não sei como, mas sei) que tanto quanto as conversas e os pensamentos, os espelhos eram catalães, porque só a casa se refletia neles, não os personagens, e eu transitava pelas duas metades dessa casa espelhada como se fossem uma coisa só.

E acordei com esta frase (“L’Alba, una noia de catorze anys, verge i bruna, tornava de l’hort de casa seva amb un cistellet de figues negres”), e havia mesmo figues negres no sonho, numa espécie de jardim quee invadia a casa.

A canção entoada pela mulher que descia o rio, sem barco, levada pelas águas, perdeu-se para sempre.

O sonho era colorido (sei pelas paredes da casa). E despertei cansado, com aquele cansaço de quando se chega de uma viagem a outra língua.

Caro xará

Eduardinho

Depois de ler a carta que o André Gabeh escreveu para o andregabehzinho de 5 anos, resolvi fazer o mesmo para o eduardinhoaffonso de cabelo gomalinado e camisa quadriculada de verde (a foto é em P&B, mas eu me lembro da camisa e da cor), lá em 1964.

~

Xará,

Isso aí que acabou de acontecer e seu pai chama de Revolução pode ser, na verdade, um golpe. Mas não se preocupe em tomar partido: vai ser golpe, revolução, revolução, golpe por mais 55 anos, pelo menos; e tudo isso ainda vai piorar – e muito.

Quando estiver no grupo escolar ou no ginásio, não perca seu tempo aprendendo regras e exceções de hifens e acentos. Tudo vai mudar. Se a Irmã Edwiges, d. Zolavy, d. Joanna d’Arc, d. Odete e d. Marízia te derem um 9 ou um 9,5 por causa de uma “ideia” sem acento, olhe-as de baixo acima e diga “O tempo me dará razão”. Um dia elas vão entender – e talvez te devolver o ponto ou meio ponto perdido.

Faça pirraça. Bonzinho só se ferra.

Aproveite cada minuto com seu vô Tote, sua vó Rosa, seu vô Zizico e sua vó Preta. Pergunte tudo e não se contente com a primeira resposta. Assim que se alfabetizar, anote cada sílaba que disserem, para que a história deles – com as dores, os dramas, as tragédias e a comédia dos grandes personagens que eles foram – não se perca.

Tenha mais paciência com sua mãe.
Não tenha tanta paciência com seu pai.

Essa asma passa, não se desespere.
Essa gagueira não vai passar, mas vai melhorar muito.
A essa timidez, que te leva a ser mais feliz sozinho ou conversando com um livro, é bom ir se acostumando – ela será sua companheira até o fim.

Não aceite que te chamem de Sidney na escola. Tudo bem que seja o seu primeiro nome, que a chamada seja por ordem alfabética, mas isso só vai te causar confusão vida afora. Peça para ser chamado de Eduardo, que é como seus pais e seus avós e seus irmãos e seus primos e suas babás te chamam, que é como você se chama. Edu, no máximo. Dudu, só em momentos muito íntimos, e mesmo assim se a entonação for de Duduzão, não de Duduzinho.

Peça que tirem mais fotos suas, dos seus pais, dos seus avós, dos seus irmãos. Aí em 1964 isso é caro, complicado, só existe em preto e branco, tem que mandar revelar em Belo Horizonte, leva tempo, mas vale o investimento. Fale com o seu padrinho Valdete, que é fotógrafo, para documentar tudo – o seu velocípede, a pimenteira, os seus tios Tão, Tatão, Gigi, Nhanhá, Neca, Bereco, Geralda, Agonia, que apertam suas bochechas, e dizem coisas que você não alcança. Sua vó Rosa fazendo chouriço na cozinha, seu vô Tote com o dicionário fazendo palavras cruzadas na mesa da sala, sua vó Preta e seu passo-preto de estimação voando solto pela casa de telha vã, seu vô Zizico enrolando na palha o cigarro de fumo de rolo que acabará por matá-lo, seus presentes te esperando impacientemente ao pé da árvore de natal. Não se iluda: nada disso é banal.

Guarde tudo que escrever. Todas as composições. Todas as redações. Todos os poemas. Até aqueles sonetos de quando você descobrir o que é um soneto e desandar a sonetear. Tudo que você escrever escondido, decorar para que ninguém jamais leia e queimar no quintal achando que a memória é um cofre – para depois esquecer completamente e descobrir que ela é uma peneira de malha cada vez mais grossa, até se tornar apenas um aro emoldurando o vazio. Esses milhares de escritos não hão de servir para nada – a não ser para você se reencontrar consigo mesmo um dia.

Ame muito uma pessoa chamada Benedita. E dê atenção especial quando fizer amigos chamados Renato, Ricardo, Leandro, Cíntia, Vicente, Luisa. Todos partirão muito antes de você, e só então você vai descobrir o significado do verbo “partir”.

Se até 11/05/2019 você não tiver conseguido realizar seus sonhos de ter sua própria banca de verduras, ser astronauta, padre da paróquia de Santa Rita de Cássia, diplomata ou cantor romântico, aposte estes números numa coisa ainda a ser inventada, chamada megassena: 23, 24, 26, 38, 42, 49. Mas não conte pra ninguém que eu te contei, ou a mágica não funcionará como deve.

E saiba que essa onda de tristeza sem fundamento que te já te engolfou algumas vezes nesses curtos 5 anos de vida (e há de te engolir outras tantas) tem nome – e tem cura.

Se cuide! E aproveite enquanto ainda tem tanto cabelo. Um dia você terá saudade disso.

 

(originalmente publicado em 28 de maio de 2019)

Tensão Pré Quinta

man old depressed headache
Foto por Gerd Altmann em Pexels.com

Não sei como é com a Cora, o Ricardo ou o Helinho, mas eu não consigo ter inspiração com hora marcada.

Aprendi a virar noite para entregar projeto no prazo (ou com pouco atraso), mas não a escrever assim, com agendamento.

Não ainda, pelo menos.

É só uma vez a cada 15 dias, mas quarta sim, quarta não, eu fico de TPQ. Tensão pré quinta. Que é o dia de mandar o texto pro jornal.

Escrevo diariamente – esse é o problema.

Toda hora rabisco alguma coisa. Tenho papel e caneta espalhados pela casa, para que o gilmarmendes ou o marcorélio do esquecimento não surjam de repente e permitam que as ideias escapem.

Anoto, dou uma burilada, mas sempre acho que vai surgir algo melhor para desenvolver. Até quarta uma boa idéia há de dar as caras. Enquanto isso, vou postando os rabiscos. E aí quarta chega e… cadê?

Olho aquele monte de postagens não mais inéditas e são atualizadas as definições de “bloqueio criativo”.

Quarta sim, quarta não, eu fico intratável.

Não com os outros: comigo mesmo. Por que não guardei aquele assunto, que acabou rendendo tanto? Mas como eu ia saber que o assunto rendia se não tivesse postado?

Burro.

(Não chamo ninguém de burro, porque é especismo, Aliás, ainda vou escrever sobre especismo. Mas a mim mesmo eu posso xingar de burro sempre que quiser – ou, pelo menos, quarta sim, quarta não – sem me sentir ofendendo os equídeos).

E não basta escrever. Tem que ter 4000 toques.

Não 3500 nem 4617.

Quatro mil.

Pense um textão. Um textão tem em torno disso.

E não é só o textão de 4000 toques. Tem que dar um título.

O título consiste em concentrar em 30 toques o que você ralou 4000 toques para dizer.

(A bem da verdade, são 3970 toques, porque os 30 do título também contam).

E ainda pode acontecer o impossível, que é o Nelson Motta, que escreve na mesma página, ter tido a mesma ideia e dado o mesmo título para o texto dele – e lá vou eu começar o trabalho de parto do título de novo.

Enfim.

Ontem foi quarta. Dia de escrever duas mil coisas e nenhumas.

(Nota mental: Preciso aprender quando é que os números são escritos em algarismos e por extenso. “2000 coisas”, “2 mil coisas” ou “duas mil coisas”? Tem uma regra, que nunca lembro qual é. Pode ser tema para uma postagem. Não para um artigo).

O texto finalmente ficou pronto, agora há pouco, em cima do laço.

E aí vem a pior parte (que não era ter a ideia, nem os 3970 toques nem o título de 30): dizer “ide em paz” e mandar para o editor.

Porque daqui a meia hora eu sei que vou conseguir um fecho melhor. Vai pousar na minha testa aquela palavra que esvoaçou, esvoaçou e não pude capturar. Vai dar vontade de inverter um parágrafo.

E não vai dar mais tempo. Ou, se der, vou levar bronca, porque o texto, a essa altura, já estará formatado.

Enfim, todo esse mimimi foi só um artifício para deixar o texto descansar uns minutos antes de eu o reler e despachar.

(Contei agora os toques: 4000, cravados, redondos. Claro que isso pode mudar, porque sempre tem um número por extenso que devia ser em algarismo, ou em algarismo que era para ser por extenso, e lá eles acertam).

Foi a última TPQ do ano. Que venham muitas outras. Ou me ensinem algum macete.