Teimosia

Ali pelos 15, 16 anos, era mais difícil disfarçar a timidez e/ou a falta de traquejo no convívio social. As cantadas, então, estavam totalmente fora de cogitação. O jeito era deixar que outros dissessem por mim – e nisso a música romântica era imbatível.

Havia bailes; dançava-se de rosto colado; a respiração junto à orelha, a mão dedilhando a alça do sutiã ou descendo pelos quadris, a coxa roçando a coxa – tudo isso ajudava a verbalizar o que a voz não ousava.

E, se houvesse que haver uma voz, que fosse a do Paul McCartney dizendo “uô uô uô uô uô uô uô uô, my love does it good”, a do Elton John pedindo “fly away, skyline pigeon, fly” (eu jurava que era Skylab pigeon, mas isso é assunto para outro texto), ou Junior confessando que ”when you’re near, reality loses its hold and loneliness’ tears wet my soul”. Mas, tirando o uô uô uô uô uô uô uô do Paul, eu não entendia patavina.  O que ajudava bastante.

O problema era quando as letras eram em português.

Em princípio, isso era um facilitador. Bastava cantar junto (ou fingir que cantava, tipo segunda voz de dupla sertaneja) e o recado estava dado. Se colasse, colou. Se não colasse, eu estaria só cantando a música, sem quaisquer décimas oitavas intenções.

Uma das minhas favoritas – para o bem e para o mal – era “Minha teimosia, uma arma pra te conquistar”, do Jorge Ben (ainda não era Benjor).

Era uma cantada perfeita. Direta. Para dançar com direito a olhares de promessa e um arremedo de gingado que podia ajudar na conquista pelo caminho da comiseração – mas, naquela idade, quem liga?

O problema era o meu apego à gramática. Eu tentava cantar corrigindo a letra, o que me tirava totalmente o foco. E, claro, ferrava com a métrica.

“A minha teimosia é uma arma
pra te (2º do singular) conquistar.
Eu vou vencer pelo cansaço
Até você (3º do singular)
gostar de mim, mulher, mulher.
Mulher graciosa, alcança a honra.
Você (3º do singular) alcançou, mulher.
Minha amada, minha querida, minha formosa
Vem (2º do singular) e me fala (2º do singular)
que eu sou o seu (3º do singular) lírio
e você (3º do singular) é minha rosa.
Mostra-me (2º do singular) teu (2º do singular) rosto
Fazei-me (2º do plural!!) ouvir a tua (2º do singular) voz
Põe (2º do singular) estrelas em meus olhos
Músicas em meus ouvidos
Põe (2º do singular) alegria em meu corpo
Junto com amor de você (3º do singular)
Mulher, mulher
Lá, lá, lá, lá
Mulher, mulher.”

Eu tentava pôr tudo na segunda pessoa do singular – e não funcionava. Tudo na terceira pessoa do singular – e não dava certo. E (vejam o nível de desespero) até mesmo tudo na segunda do plural. Em vão. A minha teimosia com as pessoas gramaticais acabou se tornando uma arma para não conquistar ninguém. O jeito era vencer pelo cansaço – e ir de com força no lá lá lá lá do final para tentar apagar a má impressão do gingado.

Côutchim de finesse

Quer ser (ou, pelo menos, parecer) fino, descolado, sofisticado, sagaz? Veio ao lugar certo, ao meu Côutchim de Finesse.

Você será tão mais fino quanto mais omisso for ao falar.

Pronto. É só isso. Acabou. Pode passar no caixa e pagar o investimento.

Gente fina não precisa explicar, usar substantivo e adjetivo (ou substantivo e outro substantivo com função de adjetivo). Se o sujeito diz que tomou um ótimo vinho Merlot, saiba que está diante de um impostor. Quem entende de vinho nem fala a palavra “vinho” – diz apenas que tomou um Merlot, um Malbec, um Syrah. Você que se vire para saber se isso é vacina ou xarope.

Tenho recebido, por causa da pandemia, um monte de receitas, enviadas por almas caridosas que creem que eu seja mesmo capaz de preparar algo além de banana congelada batida no liquidificador.  Sei se a receita está à altura dos meus dotes culinários se vier explicadinha, tudo com nome e sobrenome, que nem receita de pobre.

Se tiver “ponha açúcar mascavo”, eu considero a possibilidade de experimentar. Falou “ponha mascavo”, já vi que não é pro meu bico.

Chegou outro dia uma que dizia “use demerara”. Como é que alguém diz uma temeridade dessas a uma criatura que até outro dia só conhecia açúcar pérola e açúcar cristal? “Use demerara” é coisa de hipnotizador, de filme de agente secreto, de livro do Dan Brown.

Pobre fala para ser entendido. Rico tem a necessidade de soar enigmático.

Pobre compra moto Honda, moto Yamaha. Rico compra uma Panigali.

Você nunca vai ouvir um rico dizendo que comprou uma moto Panigali, porque ele precisa deixar óbvio não apenas que tem grana suficiente para uma Panigali como que não se dignaria a dirigir a palavra a alguém que não saiba que Panigali é uma moto. Eu mesmo não sabia, até começar a escrever este texto e digitar no gúgol “moto mais cara”, e aparecer a Panigali V4 R, pela bagatela de 250 mil (valores de 2019).  Se eu tivesse algum amigo rico e ele me informasse que tinha uma Panigali, eu perguntaria se solta muito pelo e que ração ele dá para ela.

Sei que éramos pobres porque meu pai lia o jornal “O Estado de Minas” e assinava a revista Veja. Ele nunca quis correr o risco de alguém se enganar achando que a Veja fosse um jornal e “O Estado de Minas”, uma revista. Por isso, era didático. Pedia, no armazém, sabão Rinso e pasta de dente Kolynos, minimizando o risco de levar um esporro ao chegar em casa com pasta de dente Rinso ou sabão Kolynos.

Sei que éramos pobres de verdade porque meu pai enchia a boca para falar que lá em casa tinha uma mesinha de pedra mármore.  Quer coisa mais pobre que “pedra mármore”? Remediado falaria só “mármore”. E rico diria “carrara”, com aquela empáfia de quem quer ver nos olhos do interlocutor a dúvida sobre se carrara é um tipo de madeira ou o nome da loja.

Voltando ao côutchim de finesse: omita, sempre que puder, o máximo que der. Diga que comprou um pecorino, e deixe que a pessoa se vire pra saber se isso é desinfetante ou um modelo novo da Fiat.

Use balsâmico.
Basmati. 
Louboutin.

Chame as coisas pela marca.
Afete intimidade.

Eu, por exemplo, acabei de tomar um Pilão Extraforte e de comer um francês fresquinho.

Sim, pode gerar mal entendidos. Paciência. Quem manda dar papo pra pobre, pra quem tudo tem que ser bem explicadinho ou a pessoa entende o que não deve?

Aoristo, Pirahã

 

Os pirahãs são um povo amazônico que vive às margens do Rio Maici. Não creem em nada que não possam ver, não acreditam em nada que não possa ser provado. Logo, não têm religião nem mitos de origem. Não sabem o que é ficção.

Em sua vida, tudo está no presente: só existem o aqui e o agora. Consequentemente, em sua língua não há os tempos passado e futuro.

Não conhecem numerais – apenas “pouco” e “muito”.

Não há palavras para cores – apenas “claro” e “escuro”.

Um único termo designa “pai” e “mãe”. Não há nomes para nada além de avô e de neto.

Há um único verbo para “matar” e “morrer”.

Os pirahãs falam também por meio de assobios e zumbidos. Ignoram os sons das letras D, F, J, L, M, N, R, V, X, Z.  Apenas os homens usam o K.

Soube deles muitos anos atrás, quando quis aprender guarani (acabei optando pelo alemão, mais útil em Curitiba) e alguém me falou da língua em que é impossível mentir. Sim, também tem essa:  os pirahãs – que não fazem ideia do que não seja o real – não têm o conceito de mentira.

Talvez olhando na noite amazônica a Nuvem de Magalhães acesa no céu, alguém da tribo deseje ter uma palavra para “inefável”, um modo subjuntivo, um tempo verbal para o presente que já se foi e para o presente que está por vir. E intua que não seja possível filosofar em pirahã.

Também em português nos faltam alguns tempos verbais.  

Temos os pretéritos perfeito, imperfeito e mais que perfeito.  Eu fui, eu era, eu fora.  Os pirahãs só têm o “eu sou”.

Temos o mais que perfeito composto do indicativo, o mais que perfeito composto do subjuntivo: eu tinha sido, eu tivera sido.

Todos os passados possíveis estão aí? Ou há passado que, como aos pirahãs, nos escape?

Há. O passado que persiste, que já deixou de ser e continua sendo. Algo entre o “eu amei” e o “eu amo”, se estendendo talvez até o “amarei para sempre”.

Poderia se chamar “passado perpétuo”. Como quando a pessoa se vai, o sol se põe e a sombra permanece ao nosso lado. O côncavo ainda quente de um corpo impresso nas dobras do lençol, na cama já vazia. O endereço da casa demolida. O telefone do morto, ainda insepulto na agenda.

Era preciso um futuro que não virá, o “futuro quimérico”.  Antípoda do futuro do presente simples (“eu serei”), ali entre o futuro do pretérito composto (“eu terei sido”) e o condicional (“eu seria”). Para se conjugar o que jamais será e ainda assim se projeta para adiante, como a mesa posta para quem se sabe que não vem, o telefone que não vai tocar e isso não impede que eu espere e enquanto espero antecipe a voz que nunca se ouvirá do outro lado.  

Era fundamental haver um presente que não há mais, que só está por já ter sido. Um tempo verbal em que eu possa falar que minha mãe gosta de cantar. Dói usar o passado (ela está viva, e não deixou de gostar do que gostava, e ainda cantaria, se pudesse) e não cabe o presente (ela não gosta ou desgosta; vive no limbo da demência em que já não sabe mais o que é ter gostos). Um “presente intuído”, talvez. Talvez um “presente suposto”.

Crianças inventam tempos verbais porque entendem que entre o que passou e o que virá é tudo ilusório. Por isso dizem “agora eu era uma princesa” – sabem que o “agora” não espera a última sílaba ser dita para ser um tempo ido, e que a infância não é um eterno presente, mas um passado sem perdas.

Há uma forma verbal no grego antigo, no turco e no sânscrito que expressa a essência de uma ação, sem início, sem fim, sem duração. O verbo, nessa forma, é um ponto fora do tempo. Essa forma verbal (não é o infinitivo) é chamada aoristo (que, em grego, significa “sem limite”).

Não é preciso – nem possível – explicar aoristo aos pirahãs. Mas na sua linguagem rudimentar eles sentem perfeitamente isso que, para nós, é uma sofisticação.

Pode ser que precisemos de mais tempos verbais, ou de aboli-los todos. Viver em modo pirahã, “num eterno domingo” temporal.  Com tudo que tenha sido, esteja sendo e venha a ser, ao mesmo tempo. Os tempos todos, que são um tempo só.

Concorrência desleal

concorrencia

Muitas mulheres reclamam (com razão) da opressão dos padrões estéticos impostos pelo patriarcado.

Isso começa na infância, com as Barbies – cópias de seres possivelmente alienígenas, de proporções incompatíveis com a anatomia humana – e prossegue vida afora com as modelos, que não são modelo de nada, porque não há cristão que consiga sobreviver à base de rúcula e cigarro.

Musas fítines com barriga negativa, glúteos de granito e coxas de jatobá também já deviam ter sido banidas da mídia. Blogueirinhas de moda, em quem qualquer roupa cai bem, idem.

As mulheres normais querem ver, nas vogues, nas marriclér, nos telejornais, na novela das nove, outras mulheres normais – ou seja, com estria, culote, bigode chinês e pé de galinha. Se possível, também com papada, pelanca, cotovelo escamado, joanete, dedo do pé encavalado e canela ruça.

Como manter a autoestima sabendo que o marido (ou amante, ou namorado ou match no tinder) tem fantasias com as coelhinhas do pôster central da Playboy americana – criaturas de seios inefáveis, virilha aveludada, púbis de pelúcia, pele esfumada e sem um poro sequer no corpo inteiro? Ou com as russas e ucranianas com roupa de menos e fotoxope de mais que insistem em procurar amor verdadeiro em saites suspeitos?

Pois saibam que os homens também sofrem com a opressão dos padrões sociais – no caso, os padrões eróticos impostos pela indústria dos filmes adultos e das sexxopes. Se duvida, digite “Rocco” na Netflix. Vai ver como a natureza não é justa.

Mas pelo menos o Rocco é um ser humano – sujeito, portanto, à câimbra, à dor nas juntas, à fadiga, ao “isso nunca me aconteceu antes”. Agora, como concorrer com um vibrador de 16 velocidades, diâmetro regulável, cabeçote giroscópico, modelo Turbo, feito de liga de aço-carbono, que funciona em modo “pulsar” e, se lhe pudessem acoplar uma hélice, bateria claras em neve com um pé nas costas?

Diante de equipamentos assim – disponíveis em tamanhos inverossímeis, com bateria de lítio e carga para duas horas ininterruptas – a opressão da celulite e das gorduras localizadas é pinto.

Se as mulheres querem ver atrizes sem maquiagem e sem fotoxope, e ter modelos pluçaize nos editoriais de moda, os homens deviam exigir direitos similares.

Por exemplo, vibradores com, no máximo, 12 cm de comprimento e consistência de mariola, dotados de bateria de 15 minutos – e meia hora para recarga. Sujeitos a dar tela azul assim, do nada, e não voltar a apresentar vitais nem com São Judas Tadeu na causa.

Vibradores sujeitos a estresse. Com boletos vencendo na segunda. Sensíveis a gatilhos do tipo crianças dormindo no quarto ao lado, referências ao ex, dúvida se a camisinha foi colocada direito ou se não soltou lá dentro.

Se inventarem o vibrador que diz “eu te amo” e liga no dia seguinte, até o Rocco tá lascado.

Na pressão

panela
Ilustração: Paulo Masserani

Não tenho medo de solidão.

Não tenho medo de cair no banheiro, bater a cabeça no tento de mármore do box e só me encontrarem quando eu já tiver escorrido pelo ralo e não restar nem o esqueleto, porque os cachorros terão levado os ossos para a sala e tudo que restará de mim será um fêmur meio roído, na boca do Tião.

Não.

Eu tenho medo é de panela de pressão.

A panela de pressão é uma esfinge. Uma bomba-relógio. Um campo minado.

Meu pai, homem intimorato, daqueles de andar com duas armas – uma na canela, outra embaixo do sovaco – só foi derrotado pelo câncer e pela panela de pressão (não nessa ordem, obviamente).

Ele entrava na cozinha apenas para perguntar por que é que o almoço ainda não estava pronto. Ele almoçava às 11 horas em ponto, para poder estar no Fórum pontualmente ao meio-dia. Por volta de 10h45, começava o inferno astral da minha mãe:

– Conceição, já são quase 11 horas. Cadê o almoço, Conceição?

Minha mãe suspirava resignada, e cozinhava, de modo que às 10h59 a primeira travessa chegasse à mesa, onde meu pai já a esperava, de garfo e faca na mão.

Um dia – morávamos em Visconde do Rio Branco – meu pai extrapolou sua jurisdição.

Invadiu a cozinha e resolveu pular os intermediários e pressionar diretamente a panela de pressão.

A panela, claro, não tinha a paciência infinita da minha mãe.

Seguiu-se uma explosão. Quando cheguei em casa não entendi o que havia acontecido, ou de onde surgira aquele teto cravejado de feijão.

Ninguém se feriu, e, tirando o feijão e o teto, salvaram-se todos. Meu pai deve ter entendido que ninguém está acima das leis da física. Que tudo neste mundo tem seu tempo, cada coisa tem sua ocasião.

O feijão com arroz, aquele dia, foi só arroz, quebrando – ao que eu saiba, pela primeira e única vez – uma milenar tradição.   Minha mãe saboreou, grão por grão, essa vitória, obtida por interposta panela.

Fim do flexibeque.

Um lar só é um lar quando tem tapetinho na porta e panela de pressão. O tapetinho eu não tenho, mas comprei a panela, há alguns anos. Trouxe-a para casa como quem abre os portões para um cavalo de Tróia, sabendo o que ele guarda na barriga.

Usei-a poucas vezes, durante as faringites – quando uma sopa descia bem melhor que um sanduíche. Mas sempre o fiz com respeito, quase com reverência.

Levanto a válvula com a ponta dos dedos e espero que a panela desabafe, se acalme, sinta que está entre amigos. Depois, dou-lhe uma ducha de água fria, para aquietar-lhe os ânimos. Ela ainda resmunga um pouco, solta algum vapor pelas ventas, e só quando parece pacificada é que dou um passo para trás e destravo a tampa.

Tem funcionado.

Hoje, vencendo um trauma de décadas, cozinhei feijão. Escapamos incólumes: eu, a panela, o teto, o fogão.

Mais algumas experiências bem sucedidas com essa criatura explosiva e já me sentirei capaz de arriscar alguma coisa com uma mulher de Escorpião.

Yes, nós temos banana

banana

Lembra quando havia hiperinflação e a gente fazia compra do mês, pondo no carrinho primeiro o item mais caro, porque se deixasse para pegar no final o preço já era outro?

Compra do mês não era só comprar muita coisa de uma vez – havia ali ciência e arte. Um norráu que perdemos ao fazer comprinha picada.

Comprava-se para o mês apenas o que não fosse perecível. Ou o que, mesmo perecível, desse para congelar. Verduras e certas frutas tinham que ser compradas na feira, no dia a dia.

Eu tinha me esquecido disso. Na “compra de quarentena” (que achei que fosse ser só um mês), comprei, desavisadamente, um cacho enorme de banana – imaginando a cena de novela: passar pela fruteira, displicentemente pegar uma banana, descascá-la como quem despe uma camisola (ou um moletom, aí vai da fantasia de cada um) e ir comer na varanda, com a brisa soprando nos cabelos e a olhar, ao longe, o mar.

Só que banana é uma fruta muito burra. Em vez de amadurecer uma de cada vez, ordeiramente, elas amadurecem todas ao mesmo tempo.

Daí que ontem me vi com a cozinha tomada por um enxame de drosófilas e diante do desafio de ter que escolher entre uma overdose ou um desperdício de banana.

Mas lembram da Kelly Cristina, do texto de outro dia? Pois é, vou acabar acreditando nela. Adivinhem o que me chega via zap, naquele exato instante? Uma mensagem da Calu exibindo, orgulhosa, a gororoba que tinha acabado de fazer. (Sim, as pessoas fazem isso. Cozinham gororoba e mandam foto pros amigos taurinos.)

A gororoba, segundo ela, era doce de banana. (Pelo visto, faltou norráu de compra do mês lá na Urca também).

– Como é que faz? – perguntei, sabendo que ia desistir ao saber como é que fazia.

– Três colheres de açúcar, deixa começar a queimar, joga a banana picada e mexe até cozinhar.

Parecia mais fácil que fazer gelo na forminha. E era.

Descobri que podia ter comido doce de banana a vida inteira sem depender da bondade de estranhos.  E sem ter que tirar o cravo – porque, sim, ao contrário do que sempre me pareceu ser uma verdade absoluta, é possível fazer doce de banana sem cravo: é só não colocar o cravo, que ele não vai sozinho.

Claro que vou refinar a receita. Três colheres de açúcar foram um exagero (ou a Calu não comprou só um cacho, mas todo o carregamento do Ceasa).  E deve ser mais rápido se a banana for amassada, não picada. Um pouco de suco de limão deve cair bem, para dar acidez (a crocância fica para quando me ensinarem a fazer bráune de liquidificador).

E não pode mexer redondo. Doce não é samba, que balança de um lado pro outro. Tem que ser como jazz, que mexe pra frente e pra trás. E pra fazer basta ter talento culinário de menos e bananas demais.

Horóscopo do Pai Dudu

horoscopo

A opressão, o preconceito e a intolerância estão enraizados na nossa cultura, de tal forma que os praticamos “estruturalmente”, ou seja, no dia a dia, nas atitudes mais banais, sem nos dar conta.

No horóscopo, por exemplo.

– Qual o seu signo?

– Sou ariana.

Você tem noção de quanto sofrimento essa resposta causa a uma ameríndia, uma asiática, uma árabe, uma afrodescendente?

Signos não têm o direito de ser etnicamente abusivos. Nascidas, nascidos e nascides entre 21 março a 19 abril devem poder expressar livremente sua ancestralidade e responder que são abecazes, aborígenes, apaches, berberes, bororós, bretões.

Arianos são só os arianos – e mesmo assim era melhor que respondessem: “Sou indo-europeu – mas não é culpa minha”.

Eu, por exemplo, sou Touro. Vegetariano e, vejam só, obrigado a compactuar com a exploração animal implícita na atividade pecuária, por uma contingência zodiacal.

Se ao menos as mulheres taurinas tivessem a opção de dizer que são do signo de Vaca, as moças do signo de Novilha e as crianças do signo de Bezerro, mas o signo é especista, misógino e não respeita os direitos da infância e da juventude.

Por que não mudar para Minhoca, que também é de elemento Terra? Aliás, mais elemento Terra que minhoca, impossível. Imaginemos a voz de Zora Yonara, na Super Rádio Tupi, prognosticando:

– Anelídeo, meu filho, o dia de hoje é propício para ficar enfiado em casa, subindo pelas paredes.

Tudo a ver comigo e com este momento da minha vida.

Aí vem Gêmeos. Pense no gatilho que é essa palavra para quem não pode ter filhos. Quem sempre sonhou ter enjoo, inchaço nas pernas, desejo de comer chantili com taioba às três da madrugada, ficar oito horas em trabalho de parto, ter que fazer períneo (e não poder nem tossir por 15 dias), e com o bico do seio rachado na amamentação… e não teve essas alegrias.

Por que não mudar para Pet? Pet é mais inclusivo – vai de buldogue francês a tartaruga, passando por gato, camaleão e calopsita. Só não tem quem não quer – e tem feirinha de adoção em qualquer praça.

Onde a pessoa estava com a cabeça quando achou que Câncer era um bom nome para signo? Imagine o drama do paciente oncológico com remissão nascido entre 22 junho e 22 julho. Até Corona seria melhor. Se tinha que ter patologia no zodíaco, que fosse Caspa. Otite. Pneumoultramicroscopicossilicovulcanoconiose. Proponho que troquemos por Virose, muito mais democrática.

Leão. Com uma fauna nativa riquíssima como a nossa, vem alguém e batiza um signo de Leão, espécie exógena. Por que não Jaguatirica, Tamanduá, Capivara, Cutia?

– Sou Cutia com ascendente em Virose, e você.

– Galinha.

Sim, Galinha. Porque Virgem é machista no último. O hímen não define ninguém. Esse signo só perpetua o falocentrismo do patriarcado. Assumir-se Galinha será libertador.

Aí vem Libra, que só pode ser ironia, já que congrega os seres mais desequilibrados do planeta. Eu trocaria por Índice Bovespa, esse, sim, instável, imprevisível e só deve investir quem gosta de emoções fortes.

Ao contrário de Libra, tem hora que o signo antigo acerta em cheio. Escorpião define os que chegaram ao planeta entre 23 outubro e 21 novembro para atazanar a vida alheia. Se fossem do bem, o signo se chamaria Joaninha, Panda ou Porquinho da Índia. Esse nome eu manteria, como alerta. Ninguém pode dizer que não foi avisado.

Sagitário é representado por um centauro, metade homem, metade cavalo. Como uma das metas do novo horóscopo será o empoderamento e a representatividade, passa a ser Sereia. Mas sem gordofobia: será metade mulher, metade baleia.

Quem já foi traído sabe o quanto dói ouvir e ler qualquer coisa que lembre chifre. E o Capricórnio tem dois. Dos bons. Para redução de danos, troquemos por Unicórnio, e a sofrência cai pela metade.

Aquário é um nome tão cruel e claustrofóbico quanto Jaula ou Gaiola. O que uma cumbuca de vidro onde indefesos seres aquáticos são aprisionados tem a ver com pessoas excêntricas, rebeldes e sem noção? Para manter o conceito, por que não Quitinete?

Finalmente, Peixes. Claro que o encarregado de dar nomes aos signos já estava exausto e deixou por conta do estagiário. Peixes. Nem se deu ao trabalho de dizer de que espécie, como se não houvesse diferença entre bagre e salmão, tubarão e tainha. Se é pra generalizar, que seja logo Eucariontes.

Pronto, agora com o horóscopo devidamente desideologizado e desconstruído, é só relaxar e mentalizar a voz de Zora Yonara dizendo:

“Bom dia pra você, amiga galinácea. A semana lhe reserva uma grata surpresa com um amigo virtual de unicórnio e decepções com Índice Bovespa. Evite contato com Virose e mantenha-se afastada de qualquer Eucarionte. Sua melhor companhia neste momento é Quitinete, mas não descarte ter um Pet por perto. Sua cor é infravermelho, sua pedra é renal e seu número da sorte é pi radiano.”

Alguém pode achar estranho esse horóscopo sem bullying, mas vejam como tudo se encaixa: eu, ex-Touro, agora Minhoca, tenho como uma das minhas combinações elementares… Galinha! Não é perfeito?

Mentiras que os donos de cachorro contam

mentiras

A mentira 1 que os donos de cachorro contam é que são donos de cachorros.

Ninguém é dono de ninguém, muito menos de um cachorro.

Cachorros são seres insólitos. Têm um ranço nato dos gatos, criaturas que os ignoram e cujos olhos felinos lhes dedicam, no máximo, uma mirada de indulgência. Têm inexplicável interesse por porcos espinhos, animais cujo leiaute é um cartão de visitas claríssimo: não mexa comigo. Têm fetiche por pneus, entidades que perseguem com afinco, como se cravar os dentes numa roda de borracha lhes fosse descortinar o sentido da vida.

E se afeiçoam justamente a seres humanos.

Qualquer organismo inteligente se afeiçoaria aos gatos, não aos seres humanos. Qualquer indivíduo sensato manteria dos humanos e dos porcos espinhos uma prudente distância. Qualquer entidade racional saberia que humanos e pneus não levam (metaforicamente, pelo menos) a lugar nenhum.

Pois os cachorros resolveram se afeiçoar aos seres humanos. Ignorar os alertas de perigo que os humanos emitem em cada gesto. E vivem correndo atrás de nós, seja abanando o rabo, seja cravando os dentes, como se para isso tivessem nascido.

Os “donos de cachorro” se encantam com esses paradoxos. Veem no cachorro um avatar peludo e arfante, uma versão melhorada de si mesmos. E deles se apropriam, oferecendo-lhes vacina coleira ração tosa e dois passeios diários em troca do amor maior que há no mundo (mãe perde) – da mesma forma como os exploradores trocavam miçangas espelhos e quinquilharias por ouro prata terras sem fim.

Donos de cachorro mentem (mentira 2) quando dizem que vão levar os cachorros para passear.

Cachorros não passeiam. Cachorros mijam e cheiram. O passeio é um meio, o instrumento do qual o cachorro tem que lançar mão (no caso, lançar pata) para poder mijar em vários lugares e cheirar tudo que estiver no raio de alcance da guia presa à sua coleira.

O passeio é uma mentira social que o suposto “dono de cachorro” inventa para não ter que assumir que apenas se presta a viabilizar as mijadas necessárias à comunicação olfativa do cachorro.

Claro que tem também o cocô, mas o cachorro está cagando e andando para isso. O cocô não tem relevância na sua visão de mundo (no caso, no seu olfato de mundo).  O “dono” é que ritualiza a coisa (humanos adoram rituais). Enfia a mão num saco plástico, recolhe os dejetos, amarra e caminha – desconfortabilíssimo –  duas quadras até depositar aquilo na lixeira mais próxima (“lixeira mais próxima” é um oximoro: nada é mais distante de um cocô de cachorro que uma lixeira).

A mentira número 3 é a de que o cachorro é educado e só faz cocô na rua. Isso não é educação: é chantagem. Uma forma que o cachorro encontra de constranger seu humano a levá-lo para mijar e cheirar em locais onde essas atividades sejam mais estimulantes que na área de serviço ou na varanda.

E cachorro não faz cocô na rua: faz na calçada. De preferência, nas saídas de garagem ou diante de aglomerações, de modo que o ritual de enluvar a mão no saco plástico, se agachar e catar o cocô sejam devidamente apreciados por quem estiver saindo de casa ou esperando o ônibus.  É que o cachorro gosta de exibir o adestramento do seu “dono”, fazê-lo demonstrar suas habilidades (“Estão vendo o meu “dono”? Olhem os truques que ensinei a ele: Luvinha! Agachado! Catando caca! Carinha de nojo! Nozinho no plástico! Isso! Bom garoto!”).

Mentira 4:  tratamos cachorros como filhos. Jamais. Filhos são filhos, cachorros são cachorros. Filhos saem sozinhos; cachorros, não – do cachorro a gente cuida direito e não permite que corram riscos desnecessários. Filhos um dia se casam e vão cuidar da própria vida –  cachorros ficam para sempre.

Cachorros envelhecem conosco. Morrem nos nossos braços. Quando se vão, nos deixam de herança um pote vazio e uma coleira adormecida que são a própria Dor em forma de vasilha, o Desalento em fivela e fita.

A mentira 5 é a maior de todas:  a do “nunca mais”. Todos dizemos “Nunca mais quero passar por isso”. “Outro cachorro, nem pensar”. E daí a pouco lá estamos nós desviando o olhar na Feira de Adoção (desviando o olhar, não o coração). E um minuto depois fazendo contato visual com um filhote, um adulto sem rabo, um ancião de focinho grisalho.

Aí lá vamos nós de novo. De novo “donos” – do Tião, da Duda, da Luna, que não são mais que novas manifestações da Bené, do Negão, do Bento, do Luke e de todas essas versões melhoradas de nós mesmos – só que com pulga e soltando pelo, que ninguém é perfeito.

[Levei Cacau para ser sacrificada. Despedimo-nos longamente. Fiz uma foto dela –a última – na maca.

Saí da clínica repetindo o mantra da mentira 5, a do “nunca mais”. Mas não custava fazer mais uma tentativa, e Cacau reagiu à medicação. Dois dias depois, fui buscá-la, e me recebeu andando com dificuldade, mas andando – ela que chegara no meu colo. O mesmo olhar, a mesma respiração ofegante, o mesmo jeito de abanar o rabo como se não houvesse amanhã. Houve amanhã.

Substituí a mentira 5 pela 1, e voltei a mentir para mim mesmo que sou “o dono da Cacau”, como um dia fui dos seus pais, Negão e Benedita.

Cachorros são seres estranhos. Ao contrário dos seus “donos”, que os levam “para passear”, “fazer cocô na rua” e os tratam “como filhos”, eles não precisam mentir. Jamais.]

Pequi

Pequi

“Pesquisadores criam pequi sem espinhos.”

É o fim da picada. Quer dizer, da espetada. Na língua, nas bochechas, no céu da boca.

O pequi não é uma fruta: é um ouriço, um porco espinho, revestido com uma tênue polpa perigosamente comestível.

Pequi sem espinho faz tanto sentido quanto uma hemorragia sem sangue. Um quadrúpede de duas patas. Um ataque cardíaco no fígado.

Desprovido de sua essência, o pequi deixa de ser uma armadilha vegetal, uma mina terrestre da flora, para se tornar um fruto. Qual a graça disso?

Quem vai querer andar numa roda gigante em linha reta, parada no chão?  Num trem fantasma com as luzes acesas e sorridentes personagens da Disney acenando em cada curva? Para que serve um casamento sem ciúme, sem cobrança, sem passivo-agressividade, sem calcinha pendurada no box, sem o protocolar sexo conjugal das sextas-feiras, sem mensagens apagadas no celular?

Quem tirou o espinho do pequi roubou sua alma, sua razão de ser.

O que virá a seguir? A melancia sem semente? O abacaxi com casca de mexerica? A mini jaca de odor agradável? A tiririca fácil de arrancar?

Gente, esse pessoal da Emater está brincando de Deus, está extrapolando. Sua missão era criar milho híbrido e espécies resistentes a pragas. Pronto. Melhorar a produtividade, e só. Não era fazer reengenharia da natureza, retrofite no reino vegetal, criar monstros.

O pequi sem caroço arruína a educação infantil em grande parte do país.

Só há crianças obedientes em Goiás e no norte de Minas porque um dia ousaram não dar ouvidos à mãe, que disse, ao primeiro pequi: “Não morde que tem espinho”. E morderam. E sentiram na alma o poder da ira divina, e estiveram diante daquele olhar que iguala todas as mães, o do “Eu avisei, não avisei?”.

Sem o pequi, seríamos uma horda de vândalos, cravando os dentes em tudo que passasse pela frente, sem distinguir o Bem do Mal, o inócuo do letal, o que pode pôr na boca e o pequi.

O pequi é pedagógico. É um ritual de passagem. Está para a espécie humana como o primeiro voo está para as aves, a primeira caçada para um crocodilo, a primeira mentira para alguém de esquerda. Algo se quebra ali. Algo é revelado. O ser – seja periquito, predador ou petista – entra em contato com sua essência.  Seus poderes e seus limites. Ao morder de leve, só tangenciando os dentes na polpa (“Bom menino!”) ou cravar os dentes (“Eu não avisei?”), o ser humano sela sua sorte e encontra sua bússola moral.

O que tem de bom na invenção desse pequi transgênico e bobo é que, finalmente, as pessoas vão parar de dizer coisas absurdas, como “o espinho do pequi”.  O espinho “é” o pequi. Aqueles dois milímetros amarelos que circundam o gigantesco núcleo espinhoso são uma camuflagem, uma isca.

Temo pelas novas gerações que terão que aprender a obedecer à mãe e à avó através de métodos menos efetivos que o “Não morde que tem espinho”. Vão morder. Não vai ter espinho. Nunca mais vão mais acreditar em nada que as matriarcas – repositório de todo o saber da espécie – digam. Serão uns bárbaros, uns celerados, uns descrentes na sabedoria dos mais velhos. Vão ser todos de esquerda, porque não vão levar a sério quando a avó contar, à beira do fogão, que o socialismo nunca deu certo. Afinal, ela disse também para não morder o pequi, eles morderam e não aconteceu nada.

O petista infiltrado na Emater (só pode ter sido um petista) terá conseguido o que Gramsci tentou em vão através dos livros: destruir a civilização ocidental.

Era o pequi que nos fazia respeitar os conselhos dos nossos ancestrais, e temer o castigo divino.

Guardem esta data:  8 de fevereiro de 2020.  O dia em que milhares de anos de processo civilizatório foram por água abaixo. E, como no caso das duplas sertanejas, o epicentro dessa catástrofe terá sido Goiás. Se alastrando rapidamente pelo norte de Minas, pegando parte de São Paulo, Tocantins, Bahia, Ceará.

Quem diria que o anticristo era um pesquisador da Emater…

 

 

Principal e acessório

Kirk

O marido da Gisele Bündchen entrou na brincadeira de ser mais conhecido no Brasil como “o marido da Gisele Bündchen”, assumindo-se orgulhosamente como marido da Gisele Bündchen e pronto.

Coisa que o namorado da Fátima Bernardes ainda não fez e talvez jamais faça.

Fossem mineiros, tanto o marido da Gisele Bündchen quanto o namorado da Fátima Bernardes teriam tirado isso de letra. Lá em Minas, todo mundo é alguma coisa de alguém.

Minha mãe, antes de se casar, era Maria de Zizico. Casada, virou Maria de Sidney.

Meu pai, que era o Sidney de Custódio, virou Sidney da Conceição (nome de sambista, mas quis o destino que ele não tivesse ritmo nenhum e fosse advogado).

Fui, durante boa parte da minha vida, “o filho do juiz”.

Para quem não sabe, no interior, “filho do juiz” é um cargo honorífico, tipo “mulher do padre”.

Ser filho do juiz oferece duas alternativas: a) ser um mané consumado, pegando carona na autoridade paterna, ou b) despirocar de vez, seja se prevalecendo das costas quentes que o cargo de filho do juiz proporciona, seja para marcar posição e provar que ser filho do juiz não o tornou um mané consumado.

Eu optei pela letra a. Meus irmãos, livres desse encargo, gabaritaram marcando b.

É assim mesmo.  Tarcísio Filho sempre vai ser “filho do Tarcísio. Lulinha vai morrer sendo “filho do Lula”. Jesus Luz, o “ex da Madonna”. Aurora Miranda, a “irmã da Carmen”.

O Sorvete Alex vai ser sempre “atrás do Copacabana Palace” – o Copacabana Palace nunca vai ser “na frente do Sorvete Alex”. E olha que o sorvete do Alex é bom.

Quando quiserem lustrar a biografia do Alexandre Frota, vão dizer que ele foi casado com a Cláudia Raia. Quando quiserem alfinetar a Cláudia Raia, dirão que foi casada com o Alexandre Frota.

Não é uma questão de ser melhor ou pior. Mas do brilho de cada um. Do carisma. Daquele jenessequá que se nem os franceses conseguem definir, imagine eu.

Rosane é a ex do Collor – Collor nunca vai ser “o ex da Rosane”.

Marco Aurélio é o primo do Collor – Collor nunca vai ser “o primo do Marco Aurélio”.

Um dia, quando me julgava já liberto da sombra paterna, me tornei “o dono da Benedita”.

Faz parte.

Chamem o Brad Pitt de “ex da Jennifer Anniston”.

O Silvio Santos de “avô do Tiago Abravanel”.

A Princesa Diana de “sogra da Meghan”.

Agora, chamar o Kirk Douglas – morto ontem aos 103 anos –  de “pai do Michael Douglas”, aí é sacanagem.