Dialetos

– Amiga, cansei de sororidade.

– Eu também. Desapeguei.

– Ficou tão quarta-feira passada…

– Nem me fale. Quando comecei a usar, ninguém usava. Agora…

– Daqui a pouco está sendo usada até em novela bíblica da Record.

– Junto com empoderamento. Lembra do pré-lançamento?

– Lindo. Só para convidadas. Evento VIP, garçons étnicos, música autossustentável. Depois…

– Depois virou arroz de festa, que nem empatia.

– Comigo foi saberes.

– Você foi no lançamento de saberes?

– Fui, menina! Usei saberes quando só aparecia em tese de Humanas.

– Que luxo! Quando saberes chegou, eu já estava na fase da objetificação e achei que não ia combinar.

Objetificação tem que ter muito critério, ou fica over.

– Acho que cai bem com cultura do estupro e micromachismo, e olhe lá.

– Super cai bem!  E olha que micromachismo não é pra qualquer uma.

– Não mesmo. Tem que saber dosar. Tipo gaslighting.

Gasligting era tudo, né? Uma coisa de louco!

– Mas sabe que eu era mais o combo mansplaining, manspreading e manterrupting? Porque tinha uma leitura, dialogavam.

– Diferente de patriarcado e androcentrismo

– Totalmente. Androcentrismo pede, sei lá, uma atitude com mais conceito.

– Bem na vaibe da misoginia e do feminicídio.

– Isso. Se bem que eu fique mais à vontade na disparidade de gênero, sabe como? Uma coisa light, cool, fim de tarde, apperol.  Nessa linha.

– E qual é a tendência para hoje? Fiquei vendo laive da Katy Perry até de madrugada, acordei tarde e nem tive tempo de me atualizar.

Interseccionalidade.

– Jura? Amei!

– E dá pra usar com tudo.

– Amiga, só vou tirar essa máscara de avocado orgânico e começar a interseccionalizar agora mesmo.

– Mas interseccionaliza logo, porque acabei de ver que já estão usando no UOL. E quando isso acontece, já sabe, né?

– Sim. Daqui a pouco vira gratiluz.

– Vai lá. Beijo no coração, amiga! Gratiluz!

Gratiluz, amada!

Bueiro

– Se já estão todas, todos e todes aí, podemos dar início a esta reunião extraordinária do Patrimônio Histórico e Cultural para decidir sobre os monumentos que merecem permanecer nos espaços públicos, os que vão para a reserva técnica dos museus e os que podem ser fundidos para fabricação de tampa de bueiro.  Deixa eu ver minha lista aqui. Hmmm… estátua equestre de Pedro I, na praça Tiradentes.

– Misógino, macho tóxico e abandonou afetivamente os filhos.

– Bueiro?

– Bueiro. Mas podemos deixar o cavalo.

– Ok, a estátua equestre vira uma estátua equina.  Estátua de Pedro II, na Quinta da Boa Vista.

– Escravocrata, gordofóbico…

– Gordofóbico?

– Já viu fotos da imperatriz, que ele trocou pela esbelta Condessa de Barral? Gordofobia raiz.

– Bueiro?

– Bueiro.

– Já que estamos na família imperial, temos a Princesa Isabel na avenida dela mesma. Essa fica, não é? Afinal, é mulher e…

– Sem chance. Vivia cercada de mucamas e se referia a uma de suas escravas, chamada Marta, como “negrinha de quarto”. Bueiro. E na Abolição, para aprender.

– Ok. Tiradentes, na Primeiro de Março, em frente ao palácio dele mesmo.

– Escravocrata. Perguntem pro Laurentino Gomes. Bueiro.

– Será que não vai escapar nem o Machado de Assis, ali em frente da Academia Brasileira de Letras?

– Nem pensar. Machado nunca assumiu sua negritude. Seus protagonistas são todos brancos. Capitu era quilombola? Brás Cubas era afrodescendente? Ele só tinha olhos para a burguesia da Rua do Ouvidor. Bueiro, e bem longe do Cosme Velho.

– Gente, vai faltar bueiro nesta cidade para tanta tampa! Para poupar tempo, melhor mandar fundir todas as estátuas de personalidades do século 19 para trás, não acham?

– Claro que não. Tem Zumbi dos Palmares, ali na Presidente Vargas. Essa fica.

– Mas Zumbi não tinha escravos? O Leandro Narloch levanta essa questão e….

– Nossa, quase quatro da tarde! Desculpe, mas marquei manicure e com essa demanda represada da pandemia, não posso me atrasar. Semana que vem a gente retoma, tá? E podemos começar pelo Drummond, ali no calçadão de Copacabana.

– Ah, tão bom passar pela orla e encontrá-lo ali, no meio do caminho…

– Esquece. Ele colaborou com o Estado Novo. Fascista.

– Bueiro?

-Bueiro. Fui!

O manifesto dos bichos

A jararaca e o abutre estavam deixando a fazenda em pânico.

A escolha entre morrer de picada ou de bicada não parecia muito animadora para a fauna local.

– Jararaca só pica pra se defender! – proclamavam os jararaquistas.

– Abutre só bica quem já morreu! – protestavam os abutristas.

Mas não faltavam casos de coelhinhos estrebuchando sob efeito de veneno (logo coelhinhos, que não atacam ninguém) e gatinhos ainda miando ao ser devorados (logo eles, que têm sete vidas).

Reuniu-se a bicharada, que deliberou por um manifesto supraespecista  (ou supraespeciário, ou supraespecial – ou seja, acima das diferenças de espécie). Contra o abutre.

– Contra o abutre? Mas e a jararaca?

– Primeiro a gente tira o abutre. Depois a gente se entende com a jararaca.

– Como assim, “a gente se entende com a jararaca”?

– Modo de dizer. Depois a gente dá um jeito na jararaca.

– Não era melhor a gente fazer também um manifesto antijararaca? Com a rexitegue #jararacanão?

– A jararaca está escondida na toca de um amigo. Quem está nos sobrevoando é o abutre.

(Nessa hora o abutre deu um rasante. Ele sempre dava um jeito de confirmar as piores previsões a seu respeito.)

– Viu, não falei? Somos 70% contra o abutre.

– Mas também somos 70% contra a jararaca.

– Que tal um movimento juntando os dois 70%? Seria um “Somos 140% contra o abutre e a jararaca” – exclamou um burro de humanas.

– Isso está matematicamente incorreto – resmungou um bode de exatas.

–  Vamos fazer então um “Juntos somos 100% e basta!”

– Ótimo.

– Perfeito.

– Joia.

– Deixa que eu redijo então: “Au au…”

– Como assim “Au au”?  Tem que começar com “Bééé”.

– Por que “Bééé”?  Escreve aí “Múúúú…”

– Dizem que sapo de fora não chia, mas tem que ser “Coach, coach”.

– Eu não ia dar um pio, mas se não for “Piu piu piu”, eu estou fora.

– Oinc! Oinc!

– Quac quac!

Enquanto isso a jararaca armava o bote e o abutre partia para mais um rasante.

Critérios

Limpando as gavetas (metaforicamente falando, claro: estava fazendo faxina no computador, descartando textos inservíveis), dei de cara com isto, escrito em 31 de janeiro de 2017 e deixado pra lá.

Na ocasião, o então presidente Temer definia os critérios que norteariam a escolha do substituto de Teori Zavascki no STF.

Imaginei a conversa do presidente com um senador hipotético:

– Quero tranquilizá-lo quanto ao novo ministro do Supremo, já que, evidentemente, indicá-lo-ei com base em critérios eminentemente técnicos. Eminentemente técnicos.

– Técnico, mas comprometido com o fim dessa aberração de prisão após condenação em segunda instância, já que nós podemos recorrer indefinidamente, e não é justo ir pra cadeia só porque dois juizecos nos condenaram.

– Evidentemente, senador, evidentemente. Com critérios técnicos e contra a prisão na condenação em segunda instância.

– E contra o aborto, Presidente. Basta termos que conviver com essa ignomínia que é o divórcio.

– Perfeitamente, senador, perfeitamente. Critérios técnicos, contra a prisão em segunda instância e contra, radicalmente contra o aborto.

– E alinhado com a reforma da Previdência…

– Indubitavelmente, indubitavelmente. Técnico, segunda instância, aborto e previdência. Acho que já temos um perfil.

– … e a reforma trabalhista.

– Indiscutivelmente, indiscutivelmente. Esse aspecto, não esquecê-lo-ia jamais. Estava na minha mente, alhures.

– E, já que estamos apenas entre nós, podemos ser claros: deve ser, da boca pra fora, defensor intransigente da Lava-Jato. Mas na prática…

– Na prática, exatamente o oposto. Isso já estava anotado aqui, logo embaixo de “maior de 35 anos” e “notório saber jurídico”.

– E deve respeitar os senadores e não se meter onde não é chamado.

– Perfeitamente, senador, perfeitamente. Deve ser contra a prisão em segunda instância, contra o aborto, a favor das reformas trabalhista e da previdência, defensor da Lava Jato da boca pra fora, detonador da Lava Jato na prática, respeitador dos senadores e… esqueci alguma coisa?

– Eminentemente técnico.

– Sim, claro, como podê-lo-ia ter esquecido? Eminentemente técnico.

~

Pensei em atualizar o texto, diante da perspectiva da indicação de um ministro para a vaga a ser aberta com a aposentadoria do ministro Celso de Mello. Começaria assim.

– Vou enfiar lá a porra de um ministro terrivelmente evangélico.

O resto eu deixo por conta de vocês.

Apertem os cintos

– Torre de controle, aqui é o capitão.

– Torre de controle na escuta, capitão. Prossiga.

– Quero trocar o engenheiro de voo, talquei?

– Durante o voo, capitão?

– Agora mesmo.

– Mas capitão…

– Eu sou o capitão, não sou? Quero colocar no lugar dele, hmmm, deixa eu ver, o comissário Éverton.

– O comissário Éverton tem conhecimentos para ser o engenheiro de voo?

– Ele trabalha no avião, porra. Conhece o avião. Já andou de avião. Quero o comissário Émerson como engenheiro de voo e pronto. O engenheiro antigo está demitido.

– Capitão, o senhor falou comissário Éverton ou comissário Émerson?

– Sei lá, porra. Um comissário aí.

– Está bem, capitão. O senhor está no comando, há de saber o que é melhor para a condução da aeronave até o seu destino.

– Eu andei pensando em mudar também o destino disso daí.

– O senhor quer mudar o plano de voo em pleno voo, capitão?

– Se os passageiros quiserem… E eu sei que os passageiros não estão satisfeitos de ser obrigados a viajar com o cinto afivelado, mesinha travada, não poder fumar… Tem muita gente insatisfeita com isso daí.

– Capitão, esses são procedimentos normais. É para a segurança dos passageiros e da tripulação.

– Falando em tripulação, eu não quero mais aquela aeromoça como chefe de cabine. Minha sobrinha, que está na poltrona 7F, é a nova chefe de cabine.

– Capitão, sua sobrinha trabalha na empresa? Tem os cursos?

– Contrata agora, porra. Contrato temporário. É que eu preciso de alguém de confiança na cabine enquanto eu vou lá fora trocar as turbinas.

– O senhor vai… trocar as turbinas?

– Vou. Elas estão me incomodando ali na asa. Não gosto de turbina zumbindo no meu ouvido.

–  O senhor não prefere pousar primeiro para depois trocar as turbinas?

– Não. E quero as turbinas ali na parte de baixo. Naquele lugar ali, como é que chama? Aquele com pneu. Trem de pouso. Isso, quero as turbinas no lugar do trem de pouso.

– Capitão, vai ser difícil pousar sem os trens de pouso. Troque apenas a aeromoça e…

– Droga, tem uma luzinha vermelha acendendo aqui no painel. Ô da torre, como é que eu apago essa luzinha?

Obrigratidão

rotulos

– Obrigratidão.

– Como é que é?  Você disse…

– Obrigratidão. Obrigado pra quem é de obrigado, gratidão pra quem é de gratidão.

– E isso funciona?

– Não. Os que são de gratidão acham que estou sendo sarcástico e os de obrigado acham ainda mais ridículo que gratidão.

– E por que você usa?

– Para irritar quem acha que o outro tem que ser grato do jeito dele. Eu sou grato do jeito que eu quiser. Dependendo do caso, posso até usar obrigratiluz.

– Deve ser difícil…

– Não tanto quanto ser transcis.

– Quem?

– Transcis. Me identifico com meu gênero biológico e com o gênero biológico oposto.

– Genderfluid, então.

– Não. Eu não fico oscilando. Não tenho que deixar de ser uma coisa para ser outra.  Não entro nessa dicotomia reducionista de ter que escolher entre ser cis ou trans.

– E a reação é…

–  Sofro bullying dos cis por ser trans e sou visto com desconfiança pelos trans por ser cis. Sem falar nos genderfluid, que me acham um farsante.

– Tenso.

– Tiro de letra, porque sou mulato. Os brancos não me acham branco, e os pretos que me acham preto não me acham preto o suficiente. Vivo num limbo identitário, porque meu mulatismo militante é visto como pelos brancos como oportunismo afrodescendentista só para pegar cota, e pelos pretos como embranquecedor e negacionista da negritude.

– Uau! Olha, foi muito bom conversar com você.  É interessante ver alguém que busca se manter longe dos rótulos e…

– Mas eu não fujo dos rótulos. Eu acho os rótulos uma coisa muito pequena. Eu já estou na fase dos letreiros, dos autidórs. Eu sou fofoda.

– Fofoda?

– Fofo e foda.

– Nossa, é raro encontrar pessoas assim, tão dialéticas. Não é todo mundo que consegue elaborar os paradoxos.

– Se quiser, podemos tomar um chopperol, que é um chopp com aperol…

– Não, agora não dá. Outro dia, quem sabe? É que sou atriz, feminista e tenho que ir posar pelada contra a objetificação da mulher. Acho que temos muito em comum…

Talvez, com certeza

talvez

Resolver as coisas com ela é sempre um desafio.
– Você prefere comer em casa ou pedir pizza?
– Prefiro.
– Qual das duas coisas?
– Pode ser.
Viaja, já devia ter chegado. Ligo para saber se houve algum problema.
– Onde você está?
– Voltando.
– Mas está onde, em que altura?
– Na estrada.
Ninguém consegue ser tão vaga com tanta precisão.
– Estou te esperando. Demora?
– Ok.
– Está onde, para eu saber se já posso descer ou não?
– Américas.
(Ela está numa ponta da Américas; eu, na outra. Não há como ela estar em outro lugar que não seja da Américas. )
– Mas antes ou depois do Barrashopping?
– Pista da lateral. A do meio está parada.
A culpa é minha, que tenho a mania de fazer perguntas abertas.
– Oi, estou indo pra casa. Precisa de alguma coisa do mercado?
– Precisa de um monte de coisas.
– O quê, por exemplo.
– Tem muita coisa faltando.
– E o que é que falta?
– Tenho que ver.
– Pode ver e me dizer?
– Compra só o que acabou. O resto ainda tem.
Ligo do mercado.
– Açúcar mascavo ou refinado?
– Um quilo.
Da farmácia.
– Como é que chamava mesmo aquele remédio para sinusite?
– Gotas.
Se eu fizer duas perguntas, ela responderá uma delas e ignorará a outra. E nunca saberei qual foi a respondida.
Se eu fizer uma pergunta só, esta é a que será ignorada.
Ou respondida com outra pergunta.
– Por que você é assim?
– Assim como?
– Não responde o que eu pergunto.
– Não respondo?
– Não. Você nunca responde o que eu pergunto.
– É?
– É. Ou responde com uma pergunta.
– Eu faço isso?
Claro que gosto dela. Menos quando quero saber alguma coisa.
– Você me ama?
– Claro.
– Que sim ou que não?
– Aham.
Deduzo que “aham” seja “sim”. Que prefira a pizza. Que já esteja no pedágio, ou na entrada do condomínio. Que só esteja faltando açúcar. O mascavo. E que eu talvez deva perguntar menos.

Top

top

– Cara, olha como a língua portuguesa é rica: no Dicionário Aurélio constam 435 mil verbetes…

– Top!

– Eu podia dizer que são 435 mil palavras, mas existe uma palavra específica para essas definições que a gente encontra nos dicionários, que é verbete. Este é o termo correto. Verbete não é só a palavra, mas também suas definições, os vários sentidos que ela pode ter, os seus sinônimos…

– Top.

– E veja quantas opções existem para a palavra “palavra”: termo, vocábulo, expressão…

– Top…

– E cada uma com uma nuance.  Por mais que “palavra” e “vocábulo” sejam sinônimos, você nunca vai dizer “vocábulos românticos” ao ouvido de alguém.  Não é por serem sinônimos que podem ser usados, ou empregados, ou utilizados indistintamente.

– Top.

– Temos um vocabulário considerável. “Usar” pode ser o mesmo que “utilizar”, mas depende do contexto. “Usei uma ferramenta” ou “utilizei uma ferramenta”, tanto faz. Mas não há lojas de “roupas utilizadas”.  E ninguém “utiliza drogas” no sentido de “consumir drogas”, mas apenas quando, por exemplo, trabalha com drogas em laboratório.  Viu como é sutil?

– Top…

– E mesmo “sutil” pode ser algo quase imperceptível, ou elegante, sagaz, misterioso, delicado, tênue, fino, suave. Olha quanta sutileza.

– Top.

– O que eu estou querendo dizer é que nós dispomos de um léxico muito vasto – que é uma maneira mais elegante de falar que temos um vocabulário muito grande – para ficar nos valendo sempre dos mesmos termos, entende? Um filme pode ser incrível, ótimo, sensacional, maravilhoso, estupendo, formidável, extraordinário, fascinante, impressionante, magistral, sublime…

– …ou top.

–  … e cada um desses adjetivos… como assim, top?

– Top.

– Sexo quando é gratificante é o quê?

– Top.

– Um churrasco bem servido, com cerveja gelada?

– Top.

– Um aumento de salário? Exame de gravidez negativo? Férias em Noronha? Pênalti a favor no último minuto?

– Top. Top. Top. Top.

– Cara, você precisa desenvolver sua comunicação verbal. Tudo pra você é top. Topa incorporar uma nova palavra por dia? Só hoje você já vai dobrar o seu vocabulário!

– Show.

Traição

traicao

– Tem certeza que o local é seguro?
– Claro que tenho.
– Discreto?
– Discretíssimo.
– Ninguém vai ver a gente entrar nem sair?
– Não, não vai.
– Tem que ser no sigilo.
– Será.
– Não tem câmera de segurança na rua?
– Não, não tem.
– Pode ser lá, então.

(Meia hora depois)

– Fecha bem as cortinas. Vai que alguém…
– Pronto. Fechei.
– Já fez varredura pra ver se não tem cam ou microfone escondido no teto, na tevê, na jacuze?
– Não leva a mal, mas você está parecendo paranoica…
– Fez ou não fez a varredura?
– Fiz.
– Desliga o celular, então.
– O quê? Você acha que eu… ?
– Eu sou uma pessoa conhecida, Paulo Roberto. Se isso vaza, minha vida está arruinada, minha carreira acabou.
– Ok, desliguei o celular.
– Tira a bateria.
– Tirar a bateria?
– Recebi um zap outro dia dizendo que o celular, mesmo desligado, continua ouvindo tudo, rastreando tudo.
– Olha, isso está ficando muito estranho. Melhor a gente deixar pra lá…
– Não, não. Eu quero muito. Eu preciso tanto! E sei que você não vai sair contando pra todo mundo, espalhando pros seus amigos.
– Pode confiar em mim.
– Posso mesmo? Olha como eu estou tremendo… Ai, meu Deus, meu marido jamais imaginou que eu fosse capaz disso, meus filhos nem sonham, e meus amigos… o que meus amigos iriam dizer?
– Não temos a tarde toda, Ana Lúcia. Vai, você é uma mulher adulta, independente. Tira essa culpa dos ombros, solta essas amarras. Liberte-se desses dogmas que te oprimem, dessa pressão da sociedade. Não tenha medo do que vão pensar. Diz pra mim, vai. Quero ouvir da sua boca…
– Trancou a porta?
– Tranquei.
– Deu duas voltas na chave?
– Dei.
– Apaga a luz.

A luz é apagada.

Na penumbra, Ana Lúcia respira profundamente. Semicerra os olhos. Passa a língua pelos lábios. Engole em seco. Do fundo da garganta, com a voz entrecortada, quase um sussurro, ela confessa:

– Paulo Roberto, eu apoio a Regina Duarte.

Baseado em fatos reais

rainha

– Alô.

– Oi, vó. Sou eu.

– William, já não te falei para não me ligar me chamando de vó no horário de expediente?  Das 7h às 22h é Your Majesty.

– Não, vó. Sou eu.

– Que foi desta vez? O George inventou de fazer mais um doutorado e você quer que eu ligue pra Oxford? Ele já tem 35 anos, 8 doutorados, acho que chega, né? Ele faz qualquer coisa para não casar, mas vai que um dia precisamos de um herdeiro ao trono…

– Não, vó. Eu.

– É a Charlotte, então? O que foi que as pestes das filhas dela aprontaram desta vez, William? Na semana passada rabiscaram um bigode no retrato da great-great-great-great-grandma Vitória e botaram fogo na sacristia de Westminster. Eu avisei que se fizessem isso mais uma vez eu deserdava as duas!

– Vó…

– Não vai me dizer que o Louis engravidou a namorada! William, é a terceira vez que o Louis engravida uma namorada este semestre. E nem é a mesma namorada! Desse jeito, a minha linha sucessória vai virar um novelo.

– Vó, sou eu, o Harry.

– Quem?

– Harry.

– Aquele ruivo? [Bota a mão no bocal do telefone e faz uma ligação pelo celular] Kate, é a Lilibeth. Como é que chamava aquele seu cunhado, irmão do Will, um ruivo, filho da Diana?

– Vó…

– Just a minute, please. [Cobre de novo o bocal com a mão] Um ruivo, Kate, de cabelo encaracolado, que não parecia com ninguém da família desde Henrique VIII.  Você e a mulher dele não se davam, lembra? Isso faz tempo, foi antes de você ter o Edward, o Philip, a Mary, o Richard, o James, a Alexandra, a Vic e os trigêmeos.

– Vó.

– Teiquirize, young man.   Já falo com você.  [Volta ao celular] O Charles ainda era vivo. Era Harry que se chamava, não era? Tem alguém aqui na linha com esse nome querendo falar comigo. Como é que será que ele conseguiu meu telefone?

– Vó…

– Olá, Harold. Desculpe, a ligação estava picotando. Há quanto tempo…

– Harry. Pois é, vó. Trinta anos, já.

– Time flies…

– Eu queria que a senhora soubesse que todos esses anos eu só pensei em voltar, mas a Meg…

–  Sei como é. O Philip e eu brigamos hoje cedo e desde então ele está tentando voltar, mas deve estar perdido em algum corredor, não acha o caminho…. rá rá rá.. E a Inglaterra quer voltar para a Europa desde 2020, e também não consegue. É a vida, né?

– Eu era jovem, ingênuo, vó. Mas agora eu dou valor. Eu levava uma vida de príncipe e…

– … abriu mão dela, right? Tio Dick também fez isso, e também por uma divorciada americana. Eu não sei o que os homens desta família veem em divorciadas americanas, mas, enfim.  Como é que está o…. o….  Flipper?

– Arquibaldo, vó.

– Eu sabia que era um nome de golfinho. O Arquibaldo, como vai?

– Vai bem. Trabalha como vendedor de seguros de dia, e de noite é barman num pub aqui de Toronto.  A Meg voltou pra casa da mãe dela, e o Archie preferiu ficar comigo, porque não queria ir pros Estados Unidos e correr o risco de ter que lutar na guerra de Dubai.

– Não era guerra do Qatar?

– Essa foi semana passada, depois da guerra da Arábia Saudita, e antes da guerra de Abu Dhabi.

– Mas assim que acabar o petróleo todo, não vai ter mais guerra lá, e ele pode voltar pros Estados Unidos sossegado.

– A gente estava pensando em voltar era para a Inglaterra, fazer as pazes com o Will, com a Kate, com as corridas de cavalos, com os bailes de gala, a pensão da família real…. Eu nem conheço todos os meus 11 sobrinhos…

– Estão lindos. E são 17, se não me engano. Pelo menos eram, até a última contagem que mandei fazer. O mais velho, o George, ainda não casou – mas mais vale um celibato que outra divorciada americana. Charlotte tem as duas meninas, Marge e Beth, umas encapetadas, que puxaram sua tia avó, a Margarete. Se o George não casar, quem talvez vá para o trono algum dia seja a Marge – e aí seja o que Santa Thatcher quiser. Louis puxou a família da avó, os Spencer, e é da pá virada. Mas enquanto eu aguentar apertar a mão dos primeiros ministros, e fingir que estou interessada no papo, vou levando.

– Então, vó, eu…

– Liga para o protocolo real, vê como está a agenda para 2050 e a gente marca um chá das 5 qualquer hora dessas. Se a Scotland Yard conseguir localizar o Philip até lá, ele participa também.

– Mas, vó, tem a passagem…

– Ah, sim, claro, a passagem. A passagem do Charles foi muito triste. A da Camilla nem tanto. Mas ele já estava com quase 90 anos, ela já tinha passado dos 100. Todos nós sentimos muito, principalmente os caricaturistas dos tabloides. Agora eles se divertem é com a careca do Will. E com a filharada dele e da Kate. A passagem da Anne, do Andrew, do Edward e do Winston também foi triste.

– Winston?

– O corgi. Sobreviveu à Maggie, ao John, ao Tony, ao Gordon, ao David, à Teresa, ao Bóris e aos outros 20 pets que vieram depois. Mas engasgou com um Yorkshire pudding. Quer dizer, ele achou que era um Yorkshire pudding, e era só um yorkshire. Poor Winston.

– Vó, se eu voltar, eu volto para a linha de sucessão, né?

– Quando você abriu mão de tudo, a fila andou e acho que sua posição agora deve ser logo depois do Keith Richards.

– O Keith Richards está vivo?

– Vivíssimo de Windsor! Vem inclusive tocar na minha festa de aniversário. Na dos 120 anos ele não pôde, porque estava numa rehab, mas agora na de 125 ai dele se faltar.

– Tá, vó. A Meg levou tudo, mas eu e o Archie damos um jeito e voltamos. Miss you!

– Só avise seis meses antes, que eu tenho que ir para a Austrália, a África do Sul, a Índia, o Quênia, as Malvinas, na comemoração dos 100 anos de reinado.

– Não vai passar pelo Canadá? Podia me dar uma carona…

– Vou, mas não dá. O iate vai estar lotado. Todos os filhos da Kate irão. Estamos até providenciando uns botes extras, para o caso de nascer mais algum durante a viagem. Beijo, Harold. Vovó adorou falar com você.

– É Harry, vó. E será que a senhora não podia passar um doc… Vó? Vó?