Étimo, que vem do Grego ‘etymon’, “sentido verdadeiro”

Ele desaba para um lado, com o suor escorrendo na testa.
Ela toma fôlego, e murmura, ainda arfante.

– Uau! Você foi formidável…

– Sério? Tão ruim assim?

– Não. Foi formidável. Sensacional.

– Ah, tá. É que “formidável” vem do latim “formidabilis, e significa “o que causa medo, terrível”.

– É? Não sabia. O que eu quis dizer é que você foi bárbaro.

– Desculpe. Não quis ser grosseiro com você.

– Mas não foi!

– Você disse que fui bárbaro. E bárbaro, do grego “barbaros”, quer dizer “estrangeiro, estranho, ignorante”.

– Imagina! Eu te achei ótimo. Um homem com pegada, porém intelectualmente sofisticado…

– Como assim? Eu não sou falso!

– Não falei que você é falso!

– Falou. Disse que sou sofisticado, e “sofisticado” vem de “sophisticare”, que é o mesmo que “alterar, adulterar, modificar com má intenção”, e de onde, inclusive, vem a palavra “sofisma”.

– Não! Eu quis dizer é que você é um homem ao mesmo tempo viril e fino (no bom sentido, claro!), do tipo que a gente não pode deixar escapar.

– Mas eu não estou usando capa.

– Hã?

– “Escapar” vem do latimexcappare”, de “ex” (movimento para fora) + “cappa” (capa) e o sufixo “are” (que indica ser um verbo). Ou seja, escapar é livrar-se da capa. A menos que você se refira à camisinha…

– Não, não. Já estou até arrependida de ter pedido para você pegar essa famigerada dessa camisinha.

– Mas famigerada – que é uma palavra latina, composta de “fama” + “gerere” – quer dizer algo afamado, que goza de boa reputação. E saiba que achei você muito esquisita

– Esquisita? Eu? (Cata as roupas no chão). Tô fora!

~ Espere! “Esquisito” tem origem no latim “exquisitus“, “procurado com atenção”, portanto, “de escolha especial, coisa muito boa” e… (ela bate a porta). Droga, de novo!

~

Moral da história: nunca vá para a cama com um etimologista. Ele sempre dará um jeito de explicar a origem das palavras – e acaba por complicar tudo. Aliás, “complicar” e “explicar” têm a mesma raiz, do latim “plicare” (ato de dobrar um papel), com os prefixos “com” (em companhia de) ou “ex”(para fora de), e é de onde também vieram suplicar, duplicar, explicitar e até de “cúmplice”, no sentido de… ok, deixa pra lá.

Enquanto isso, no cafezinho de uma corte suprema…

– Excelência…

– Bom dia, ilustríssimo.

– Um cafezinho, por favor. Vossa Senhoria soltou hoje o preso que eu mandei prender ontem?

– Sim, Vossa Magnificência, mandei. Dois, por favor.

– Alicerçado em que jurisprudência, Eminência? O meu sem açúcar.

– Adoçante para mim. Eu me basto jurisprudencialmente, Vossa Reverendíssima.

– Vossa Santidade acha mesmo que pode fazer isso? Me vê um biscoitinho desses de nata.

– Posso, e não há nada que Vossa Alteza possa fazer. Um amanteigado pra mim.

– Vossa Majestade Imperial sabe que seu comportamento é teratológico – mais um, por favor – e exordialmente, incabível?

– Uma delícia esse amanteigado! Embrulha um pacotinho para eu levar para minha digníssima consorte. Vossa Mercê está equivocado, 

– Vossa Graça exorbita. Um pacote para mim também, e pode misturar os de nata com uns de chocolate.

– Vossa Alteza Senhoril, summum jus, summa injuria. Ubi non est justitia, ibi non potest esse jus.

– Salus populi suprema lex esto, mas Vossa Onipotência se acha o próprio Onipotente!

– Ora ora, vejam quem fala! O egrégio Meritíssimo que quer para si todos os méritos!

– Passar bem, insigne Sumidade!

– Passar bem, supremo e excelso indígete togado!

(Os dois, em uníssono)

–  Pendura a conta, Onofre!

Sequestro

– Sargento, chegou o pedido de resgate!

– Já não era sem tempo. Quanto a esquerda quer para devolver as pautas sociais sequestradas?

– Um bilhão, em cédulas de R$ 50,00 não sequenciais, carro com vidros escuros para a fuga, fora Bolsonaro, os dois anos que tomaram da Dilma e mais quatro para Lula, renováveis automaticamente. E exige que a Lava Jato fique fora disso.

– Eles não podem manter os direitos humanos em seu poder indefinidamente. Mais cedo ou mais tarde, terão que ceder.

– Precisamos libertar imediatamente essas pautas reféns, sargento. Antes que a síndrome de Estocolmo as ataque…

– Para o feminismo e a luta antirracismo pode ser tarde demais. Viu aquele cartaz “I love cativeiro”?

– Sim, alguns dos reféns aderiram aos sequestradores. Precisamos de reforços, porque os estudantes e os sem teto estão prestes a desistir de estudar e de ter uma casa

– Um negociador liberal poderia tentar uma troca. A direita entrega a economia em ordem, e eles libertam o meio-ambiente e o direito de ouvir Chico Buarque.

– E a descriminalização das drogas e do aborto?

– Estão blefando. Essas pautas não estão em poder deles. Foram abandonadas no caminho, há muito tempo. Nós as encontramos, à míngua – e colocamos num freezer, já que a direita também não quer saber delas.

– Ainda há esperança de resgatar, com vida, a liberdade de expressão?

– Pouca, mas há. O caso mais grave parece ser o da ideologia de gênero.

– Somos liberais, senhor, não sabemos como lidar com ideologia de gênero. Aliás, com ideologia de gênero nenhum…

– Engano seu, pequeno padawan. Nada do que é humano nos é estranho. Exceto, talvez, o cabelo do Guga Chacra e olho de gatinho da Renata Vasconcelos.

– Sargento, acaba de chegar uma mensagem do Quartel General. A direita capturou  a moral e os bons costumes. Mandou dizer que abre mão das reformas econômicas e da redução do tamanho do Estado, que logo serão abandonadas em algum terreno baldio. E, para deixar claras suas intenções, o combate à corrupção já foi libertado. Está bastante debilitado, e apresenta escoriações generalizadas, pois foi jogado do carro em movimento.

– Vai ser difícil negociar com essas duas quadrilhas simultaneamente…

– O pior o senhor não sabe, sargento: ambas as facções declararam guerra para ver quem é que vai se apossar do populismo.

Dialetos

– Amiga, cansei de sororidade.

– Eu também. Desapeguei.

– Ficou tão quarta-feira passada…

– Nem me fale. Quando comecei a usar, ninguém usava. Agora…

– Daqui a pouco está sendo usada até em novela bíblica da Record.

– Junto com empoderamento. Lembra do pré-lançamento?

– Lindo. Só para convidadas. Evento VIP, garçons étnicos, música autossustentável. Depois…

– Depois virou arroz de festa, que nem empatia.

– Comigo foi saberes.

– Você foi no lançamento de saberes?

– Fui, menina! Usei saberes quando só aparecia em tese de Humanas.

– Que luxo! Quando saberes chegou, eu já estava na fase da objetificação e achei que não ia combinar.

Objetificação tem que ter muito critério, ou fica over.

– Acho que cai bem com cultura do estupro e micromachismo, e olhe lá.

– Super cai bem!  E olha que micromachismo não é pra qualquer uma.

– Não mesmo. Tem que saber dosar. Tipo gaslighting.

Gasligting era tudo, né? Uma coisa de louco!

– Mas sabe que eu era mais o combo mansplaining, manspreading e manterrupting? Porque tinha uma leitura, dialogavam.

– Diferente de patriarcado e androcentrismo

– Totalmente. Androcentrismo pede, sei lá, uma atitude com mais conceito.

– Bem na vaibe da misoginia e do feminicídio.

– Isso. Se bem que eu fique mais à vontade na disparidade de gênero, sabe como? Uma coisa light, cool, fim de tarde, apperol.  Nessa linha.

– E qual é a tendência para hoje? Fiquei vendo laive da Katy Perry até de madrugada, acordei tarde e nem tive tempo de me atualizar.

Interseccionalidade.

– Jura? Amei!

– E dá pra usar com tudo.

– Amiga, só vou tirar essa máscara de avocado orgânico e começar a interseccionalizar agora mesmo.

– Mas interseccionaliza logo, porque acabei de ver que já estão usando no UOL. E quando isso acontece, já sabe, né?

– Sim. Daqui a pouco vira gratiluz.

– Vai lá. Beijo no coração, amiga! Gratiluz!

Gratiluz, amada!

Bueiro

– Se já estão todas, todos e todes aí, podemos dar início a esta reunião extraordinária do Patrimônio Histórico e Cultural para decidir sobre os monumentos que merecem permanecer nos espaços públicos, os que vão para a reserva técnica dos museus e os que podem ser fundidos para fabricação de tampa de bueiro.  Deixa eu ver minha lista aqui. Hmmm… estátua equestre de Pedro I, na praça Tiradentes.

– Misógino, macho tóxico e abandonou afetivamente os filhos.

– Bueiro?

– Bueiro. Mas podemos deixar o cavalo.

– Ok, a estátua equestre vira uma estátua equina.  Estátua de Pedro II, na Quinta da Boa Vista.

– Escravocrata, gordofóbico…

– Gordofóbico?

– Já viu fotos da imperatriz, que ele trocou pela esbelta Condessa de Barral? Gordofobia raiz.

– Bueiro?

– Bueiro.

– Já que estamos na família imperial, temos a Princesa Isabel na avenida dela mesma. Essa fica, não é? Afinal, é mulher e…

– Sem chance. Vivia cercada de mucamas e se referia a uma de suas escravas, chamada Marta, como “negrinha de quarto”. Bueiro. E na Abolição, para aprender.

– Ok. Tiradentes, na Primeiro de Março, em frente ao palácio dele mesmo.

– Escravocrata. Perguntem pro Laurentino Gomes. Bueiro.

– Será que não vai escapar nem o Machado de Assis, ali em frente da Academia Brasileira de Letras?

– Nem pensar. Machado nunca assumiu sua negritude. Seus protagonistas são todos brancos. Capitu era quilombola? Brás Cubas era afrodescendente? Ele só tinha olhos para a burguesia da Rua do Ouvidor. Bueiro, e bem longe do Cosme Velho.

– Gente, vai faltar bueiro nesta cidade para tanta tampa! Para poupar tempo, melhor mandar fundir todas as estátuas de personalidades do século 19 para trás, não acham?

– Claro que não. Tem Zumbi dos Palmares, ali na Presidente Vargas. Essa fica.

– Mas Zumbi não tinha escravos? O Leandro Narloch levanta essa questão e….

– Nossa, quase quatro da tarde! Desculpe, mas marquei manicure e com essa demanda represada da pandemia, não posso me atrasar. Semana que vem a gente retoma, tá? E podemos começar pelo Drummond, ali no calçadão de Copacabana.

– Ah, tão bom passar pela orla e encontrá-lo ali, no meio do caminho…

– Esquece. Ele colaborou com o Estado Novo. Fascista.

– Bueiro?

-Bueiro. Fui!

O manifesto dos bichos

A jararaca e o abutre estavam deixando a fazenda em pânico.

A escolha entre morrer de picada ou de bicada não parecia muito animadora para a fauna local.

– Jararaca só pica pra se defender! – proclamavam os jararaquistas.

– Abutre só bica quem já morreu! – protestavam os abutristas.

Mas não faltavam casos de coelhinhos estrebuchando sob efeito de veneno (logo coelhinhos, que não atacam ninguém) e gatinhos ainda miando ao ser devorados (logo eles, que têm sete vidas).

Reuniu-se a bicharada, que deliberou por um manifesto supraespecista  (ou supraespeciário, ou supraespecial – ou seja, acima das diferenças de espécie). Contra o abutre.

– Contra o abutre? Mas e a jararaca?

– Primeiro a gente tira o abutre. Depois a gente se entende com a jararaca.

– Como assim, “a gente se entende com a jararaca”?

– Modo de dizer. Depois a gente dá um jeito na jararaca.

– Não era melhor a gente fazer também um manifesto antijararaca? Com a rexitegue #jararacanão?

– A jararaca está escondida na toca de um amigo. Quem está nos sobrevoando é o abutre.

(Nessa hora o abutre deu um rasante. Ele sempre dava um jeito de confirmar as piores previsões a seu respeito.)

– Viu, não falei? Somos 70% contra o abutre.

– Mas também somos 70% contra a jararaca.

– Que tal um movimento juntando os dois 70%? Seria um “Somos 140% contra o abutre e a jararaca” – exclamou um burro de humanas.

– Isso está matematicamente incorreto – resmungou um bode de exatas.

–  Vamos fazer então um “Juntos somos 100% e basta!”

– Ótimo.

– Perfeito.

– Joia.

– Deixa que eu redijo então: “Au au…”

– Como assim “Au au”?  Tem que começar com “Bééé”.

– Por que “Bééé”?  Escreve aí “Múúúú…”

– Dizem que sapo de fora não chia, mas tem que ser “Coach, coach”.

– Eu não ia dar um pio, mas se não for “Piu piu piu”, eu estou fora.

– Oinc! Oinc!

– Quac quac!

Enquanto isso a jararaca armava o bote e o abutre partia para mais um rasante.

Critérios

Limpando as gavetas (metaforicamente falando, claro: estava fazendo faxina no computador, descartando textos inservíveis), dei de cara com isto, escrito em 31 de janeiro de 2017 e deixado pra lá.

Na ocasião, o então presidente Temer definia os critérios que norteariam a escolha do substituto de Teori Zavascki no STF.

Imaginei a conversa do presidente com um senador hipotético:

– Quero tranquilizá-lo quanto ao novo ministro do Supremo, já que, evidentemente, indicá-lo-ei com base em critérios eminentemente técnicos. Eminentemente técnicos.

– Técnico, mas comprometido com o fim dessa aberração de prisão após condenação em segunda instância, já que nós podemos recorrer indefinidamente, e não é justo ir pra cadeia só porque dois juizecos nos condenaram.

– Evidentemente, senador, evidentemente. Com critérios técnicos e contra a prisão na condenação em segunda instância.

– E contra o aborto, Presidente. Basta termos que conviver com essa ignomínia que é o divórcio.

– Perfeitamente, senador, perfeitamente. Critérios técnicos, contra a prisão em segunda instância e contra, radicalmente contra o aborto.

– E alinhado com a reforma da Previdência…

– Indubitavelmente, indubitavelmente. Técnico, segunda instância, aborto e previdência. Acho que já temos um perfil.

– … e a reforma trabalhista.

– Indiscutivelmente, indiscutivelmente. Esse aspecto, não esquecê-lo-ia jamais. Estava na minha mente, alhures.

– E, já que estamos apenas entre nós, podemos ser claros: deve ser, da boca pra fora, defensor intransigente da Lava-Jato. Mas na prática…

– Na prática, exatamente o oposto. Isso já estava anotado aqui, logo embaixo de “maior de 35 anos” e “notório saber jurídico”.

– E deve respeitar os senadores e não se meter onde não é chamado.

– Perfeitamente, senador, perfeitamente. Deve ser contra a prisão em segunda instância, contra o aborto, a favor das reformas trabalhista e da previdência, defensor da Lava Jato da boca pra fora, detonador da Lava Jato na prática, respeitador dos senadores e… esqueci alguma coisa?

– Eminentemente técnico.

– Sim, claro, como podê-lo-ia ter esquecido? Eminentemente técnico.

~

Pensei em atualizar o texto, diante da perspectiva da indicação de um ministro para a vaga a ser aberta com a aposentadoria do ministro Celso de Mello. Começaria assim.

– Vou enfiar lá a porra de um ministro terrivelmente evangélico.

O resto eu deixo por conta de vocês.

Apertem os cintos

– Torre de controle, aqui é o capitão.

– Torre de controle na escuta, capitão. Prossiga.

– Quero trocar o engenheiro de voo, talquei?

– Durante o voo, capitão?

– Agora mesmo.

– Mas capitão…

– Eu sou o capitão, não sou? Quero colocar no lugar dele, hmmm, deixa eu ver, o comissário Éverton.

– O comissário Éverton tem conhecimentos para ser o engenheiro de voo?

– Ele trabalha no avião, porra. Conhece o avião. Já andou de avião. Quero o comissário Émerson como engenheiro de voo e pronto. O engenheiro antigo está demitido.

– Capitão, o senhor falou comissário Éverton ou comissário Émerson?

– Sei lá, porra. Um comissário aí.

– Está bem, capitão. O senhor está no comando, há de saber o que é melhor para a condução da aeronave até o seu destino.

– Eu andei pensando em mudar também o destino disso daí.

– O senhor quer mudar o plano de voo em pleno voo, capitão?

– Se os passageiros quiserem… E eu sei que os passageiros não estão satisfeitos de ser obrigados a viajar com o cinto afivelado, mesinha travada, não poder fumar… Tem muita gente insatisfeita com isso daí.

– Capitão, esses são procedimentos normais. É para a segurança dos passageiros e da tripulação.

– Falando em tripulação, eu não quero mais aquela aeromoça como chefe de cabine. Minha sobrinha, que está na poltrona 7F, é a nova chefe de cabine.

– Capitão, sua sobrinha trabalha na empresa? Tem os cursos?

– Contrata agora, porra. Contrato temporário. É que eu preciso de alguém de confiança na cabine enquanto eu vou lá fora trocar as turbinas.

– O senhor vai… trocar as turbinas?

– Vou. Elas estão me incomodando ali na asa. Não gosto de turbina zumbindo no meu ouvido.

–  O senhor não prefere pousar primeiro para depois trocar as turbinas?

– Não. E quero as turbinas ali na parte de baixo. Naquele lugar ali, como é que chama? Aquele com pneu. Trem de pouso. Isso, quero as turbinas no lugar do trem de pouso.

– Capitão, vai ser difícil pousar sem os trens de pouso. Troque apenas a aeromoça e…

– Droga, tem uma luzinha vermelha acendendo aqui no painel. Ô da torre, como é que eu apago essa luzinha?

Obrigratidão

rotulos

– Obrigratidão.

– Como é que é?  Você disse…

– Obrigratidão. Obrigado pra quem é de obrigado, gratidão pra quem é de gratidão.

– E isso funciona?

– Não. Os que são de gratidão acham que estou sendo sarcástico e os de obrigado acham ainda mais ridículo que gratidão.

– E por que você usa?

– Para irritar quem acha que o outro tem que ser grato do jeito dele. Eu sou grato do jeito que eu quiser. Dependendo do caso, posso até usar obrigratiluz.

– Deve ser difícil…

– Não tanto quanto ser transcis.

– Quem?

– Transcis. Me identifico com meu gênero biológico e com o gênero biológico oposto.

– Genderfluid, então.

– Não. Eu não fico oscilando. Não tenho que deixar de ser uma coisa para ser outra.  Não entro nessa dicotomia reducionista de ter que escolher entre ser cis ou trans.

– E a reação é…

–  Sofro bullying dos cis por ser trans e sou visto com desconfiança pelos trans por ser cis. Sem falar nos genderfluid, que me acham um farsante.

– Tenso.

– Tiro de letra, porque sou mulato. Os brancos não me acham branco, e os pretos que me acham preto não me acham preto o suficiente. Vivo num limbo identitário, porque meu mulatismo militante é visto como pelos brancos como oportunismo afrodescendentista só para pegar cota, e pelos pretos como embranquecedor e negacionista da negritude.

– Uau! Olha, foi muito bom conversar com você.  É interessante ver alguém que busca se manter longe dos rótulos e…

– Mas eu não fujo dos rótulos. Eu acho os rótulos uma coisa muito pequena. Eu já estou na fase dos letreiros, dos autidórs. Eu sou fofoda.

– Fofoda?

– Fofo e foda.

– Nossa, é raro encontrar pessoas assim, tão dialéticas. Não é todo mundo que consegue elaborar os paradoxos.

– Se quiser, podemos tomar um chopperol, que é um chopp com aperol…

– Não, agora não dá. Outro dia, quem sabe? É que sou atriz, feminista e tenho que ir posar pelada contra a objetificação da mulher. Acho que temos muito em comum…

Talvez, com certeza

talvez

Resolver as coisas com ela é sempre um desafio.
– Você prefere comer em casa ou pedir pizza?
– Prefiro.
– Qual das duas coisas?
– Pode ser.
Viaja, já devia ter chegado. Ligo para saber se houve algum problema.
– Onde você está?
– Voltando.
– Mas está onde, em que altura?
– Na estrada.
Ninguém consegue ser tão vaga com tanta precisão.
– Estou te esperando. Demora?
– Ok.
– Está onde, para eu saber se já posso descer ou não?
– Américas.
(Ela está numa ponta da Américas; eu, na outra. Não há como ela estar em outro lugar que não seja da Américas. )
– Mas antes ou depois do Barrashopping?
– Pista da lateral. A do meio está parada.
A culpa é minha, que tenho a mania de fazer perguntas abertas.
– Oi, estou indo pra casa. Precisa de alguma coisa do mercado?
– Precisa de um monte de coisas.
– O quê, por exemplo.
– Tem muita coisa faltando.
– E o que é que falta?
– Tenho que ver.
– Pode ver e me dizer?
– Compra só o que acabou. O resto ainda tem.
Ligo do mercado.
– Açúcar mascavo ou refinado?
– Um quilo.
Da farmácia.
– Como é que chamava mesmo aquele remédio para sinusite?
– Gotas.
Se eu fizer duas perguntas, ela responderá uma delas e ignorará a outra. E nunca saberei qual foi a respondida.
Se eu fizer uma pergunta só, esta é a que será ignorada.
Ou respondida com outra pergunta.
– Por que você é assim?
– Assim como?
– Não responde o que eu pergunto.
– Não respondo?
– Não. Você nunca responde o que eu pergunto.
– É?
– É. Ou responde com uma pergunta.
– Eu faço isso?
Claro que gosto dela. Menos quando quero saber alguma coisa.
– Você me ama?
– Claro.
– Que sim ou que não?
– Aham.
Deduzo que “aham” seja “sim”. Que prefira a pizza. Que já esteja no pedágio, ou na entrada do condomínio. Que só esteja faltando açúcar. O mascavo. E que eu talvez deva perguntar menos.