Sofrimento, dor e compaixão

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Quando entraram em contato propondo que eu escrevesse uma coluna n’O Globo, fiz mentalmente uma lista dos assuntos que gostaria de abordar.

Claro que o noticiário me atropelou várias vezes. O Museu Nacional pegou fogo. Os médicos cubanos foram embora. A ministra viu Jesus na goiabeira. Gente famosa falou besteira. Gente muito famosa falou muita besteira.

Mas os temas que me são caros sempre estiveram em pauta.

A língua portuguesa, essa nossa outra pátria, sem sapatos e sem meias, tão pobrinha.
O politicamente correto, o lugar de fala e outras formas de censura.
O cinema.
A morte.

Ainda vou escrever sobre o poder da poesia. A arquitetura carioca. A depressão. O amor nos tempos da intolerância.

Ontem foi a vez de falar da empatia, da compaixão, num texto sobre os prazeres e dores da carne.

Minha irmã me disse uma vez: “Parei de comer carne porque é muito cara. O preço é a dor”.

Ela nem se lembra de ter dito isso. Mas a frase ficou ressoando aqui dentro. E anos depois, vendo uma série de documentários sobre pesca, granjas, abatedouros, tudo finalmente fez sentido.

É conveniente não saber o que se passa nos bastidores da indústria de alimentos (e na cozinha dos restaurantes). Ou fica difícil engolir o cachorro quente, o hambúrguer, a vitela, o empadão de frango, o foie gras, o sushi, o chester, o iogurte, a omelete.

Não sou contrário ao consumo da carne. Ela faz parte da dieta da nossa espécie. Mas será que são válidos todos os meios para obtê-la? Creio que não, ou comeríamos carne humana, que é tão nutritiva (e, dizem, tão saborosa) quanto a bovina ou a suína. E não o fazemos porque há uma questão moral.

Escrevi sobre os limites éticos da exploração animal. Não usei a palavra “compaixão” (nem todo mundo exercita esse sentimento), mas “dor” e “sofrimento” (que todo mundo sabe bem o que são). Não fiz apologia a nenhum tipo de dieta. A ideia (como em qualquer texto que eu tenha escrito, aqui ou lá) não era doutrinar ou dar lição, mas expor um ponto de vista.

A coluna n’O Globo fica na página 3, a de Opinião. O jornal tem excelentes analistas políticos – e não sou um analista político. Tem jornalistas especializados – em cultura, esporte, informática, economia… – e não sou jornalista. Sou um homem comum, com direito a 4000 caracteres quinzenais para dizer o que penso sobre o que me der na telha. Poderia escrever crônicas (o jornal tem ótimos cronistas), fazer humor (o jornal também tem ótimos humoristas – por vezes, involuntários, mas isso é outra história). Acabo fazendo um pouco de cada coisa, que é o que um homem comum faz.

Alguns temas repercutem mais; outros, menos. Alguns são controversos; outros, nem tanto. E há os que têm o dom de provocar curtos-circuitos mentais, dissociações cognitivas – principalmente quando não são lidos.

Uma coisa é ler e não entender (acontece comigo quando me deparo com Lacan ou Carluxo, com textos em dilmês ou em árabe). Outra é conhecer os caracteres, formar as sílabas, juntá-las em palavras, perceber uma sintaxe e, ainda assim, não ler. Vir com uma ideia preconcebida e dela não se afastar um milímetro. Ler cegamente, sem se abrir ao que outro diz.

E há, ainda, o não ler – literalmente. Sequer pôr os olhos no texto. E, mesmo assim, discordar dele. Algo como passar na frente do cinema, ver o letreiro “Um estranho no ninho” e dizer que odiou porque não faz sentido fazer filmes sobre pássaros.

Tão certo quanto após uma sexta-feira 13 vir um sábado 14 é escrever sobre direitos dos animais e alguém retrucar que alface também é um ser vivo. A gente respira fundo, pensa que a revolução cognitiva ocorrida há uns 70 mil anos ainda não teve tempo de atingir todos os homo sapiens, e segue em frente.

Somos parte de uma cadeia, na qual uma vida se alimenta de outras vidas. Logo, a questão não é a equivalência entre assassinar alfaces ou abater bezerros recém-nascidos, mas o nível de sofrimento que infligimos a outros seres desnecessariamente. Vegetais não possuem sistema nervoso central e não são capazes de experimentar dor tal como a concebemos.

“Brócolis também é um ser vivo, que é arrancado da terra para o seu prato. Sua coluna de hj é um horror, onde você destila pseudo cultura.”, escreve A. – que leu a coluna e pelo menos teve a originalidade de trocar o alface pelo brócolis.

101 entre 100 textos sobre ética animal recebem os mesmos comentários.

“Se não houvesse consumo de carne bovina certamente os bovinos estariam à beira de extinção”, escreve J., que não leu o artigo, mas comentou assim mesmo.

Isso é mais ou menos como dizer que a mão tem cinco dedos por causa da luva.

Somos nós que dependemos do bovinos para viver, não eles de nós. Há 24 espécies de bovinos, do boi ao bisonte, do búfalo ao iaque, passando pelos antílopes. Por incrível que pareça, bois e vacas não se extinguiriam se não os confinássemos, castrássemos, lhes déssemos sal e ração, os apartássemos de seus filhotes, exauríssemos seu leite e finalmente os abatêssemos a marretadas. Bisontes, búfalos, iaques e antílopes estão aí para provar.

“Nossos antepassados não inventaram o arco e flecha para caçar repolho”, afirma F. – também sem ter lido meu texto.

Não sei muito dos hábitos alimentares dos repolhos da Idade da Pedra, mas nunca tive dúvidas de que nossos antepassados tenham inventado arco, flecha e tacape para se defender de outros predadores (tigres de dente de sabre, por exemplo) ou para caçar mamutes, renas e outras presas mais ágeis que um repolho.

Como a Lei de Godwin não falha, não seria um texto sobre vegetarianismo a exceção:

“Os nazistas foram responsáveis pela primeira tentativa de criar uma legislação equiparando humanos e animais. É conhecido o fato de que Hitler não comia carne e a própria ideologia nazista valorizava a natureza, a ecologia e os animais. Essa visão exacerbada sobre os animais e a natureza não é algo à parte de sua ideologia genocida. Não é que o vegetarianismo seja em si nazista, mas supor que está em um lugar isento de ideologia é um erro”, me informa M. (que tampouco leu meu artigo).

Hitler falava alemão, logo… Hitler amava seu cachorro, portanto… Hitler tinha bigode, ouvia Wagner, gostava do ar puro das montanhas, consequentemente…

Passei décadas acreditando que a ideologia nazista estivesse intimamente ligada ao preconceito, ao genocídio, à barbárie – mas ela está intimamente ligada é à natureza, à ecologia, aos animais. Eu devia ter dado ouvidos aos petistas que me mandaram, durante anos, estudar História. Teria descoberto que eu – que falo algo de alemão, amo meus cachorros, tenho bigode, ouço Wagner, gosto do ar puro das montanhas, sou ligado em ecologia e direitos dos animais e não como carne – além de fascista sou também nazista.

“Não pude deixar de imaginar como seria a tutela dos direitos de zebras, cervos e salmões ante a voracidade de leões, tigres e ursos. Talvez fosse o caso de ajustarmos nossa hipocrisia disfarçada e nossa sensibilidade”, diz B. (outro que não leu o artigo, mas se sentiu habilitado a comentar assim mesmo).

Leões não prendem zebras em cubículos, sobre grades, impedindo-as de se movimentar por meses a fio. Ursos não mantêm salmões em cativeiro alimentando-os à força e à base de hormônios para acelerar seu metabolismo. Tigres não separam cervos dos seus filhotes logo após o nascimento, matam o recém-nascido e ordenham a mãe diariamente, até induzi-la a nova gravidez, e assim por diante, até que ela não possa mais reproduzir e seja sacrificada.

Leões, tigres e ursos apenas pegam, matam e comem. E só quando têm fome ou para alimentar suas crias, não para fazer reality shows de gastronomia ou socializar com os amigos ouvindo pagode em volta da churrasqueira.

“E os pernilongos? E as moscas? E o Aedes aegypti?”, perguntam mais uns 3, numa variação menos inteligente da Falácia do Alface.

Eu amo (sim, o verbo é esse) meus cachorros, e os cachorros em geral. E mataria, se fosse necessário, um cachorro que me atacasse. Ou qualquer ser humano, em legítima defesa. Por que não o faria com um inseto ou um vírus?

“Curiosa essa extensão da ética, criação que opera exclusivamente no domínio humano, ao reino animal, regido por outras leis, estas naturais. E, mais interessante ainda, o non sequitur expresso na ideia de que, para parar com a crueldade dos métodos de manejo dos animais, devemos parar de comer carne (e não mudar os métodos). Que tal o autor tentar filosofar sobre a questão com um lobo faminto, e ver o que lhe aguarda”, questiona N. (que, obviamente, tampouco leu meu artigo). Ou saberia que escrevi justamente que temos que mudar os métodos, já que parar de comer carne parece inviável.

Se há quem concorde com Marx sem tê-lo lido, por que não haveria quem discordasse de mim sem ler o que escrevi? Sim, é mais fácil argumentar com um lobo faminto.

“Comparar escravidão e tortura com o consumo de carne ou alegar falta de ética de quem consome carne mais prejudica do que ajuda a causa vegana. Uma soberba nível hard. Aliás típica de quem se acha superior a quem come carne”, pontifica M., admitindo que não leu o artigo.

Eu não acho veganos superiores a ninguém, não sei de onde ele possa ter tirado isso. Não comparo escravidão e tortura com o consumo de carne, e não sei de onde alguém possa deduzir tal coisa. Mas acho uma soberba nível hard julgar algo ou alguém sem sequer tomar conhecimento de quem seja a pessoa ou do que ela tenha dito ou escrito. É preciso se sentir muito superior para agir assim.

“Animais comem animais. Eles estão errados? O próximo passo é ensinar leões a comer alface? A morte é inevitável”, filosofa A.

Eu talvez devesse informá-la que animais não só comem outros animais, mas comem também vegetais. E que há vegetais que comem animais (sim, as plantas carnívoras não são coisa de filme trash). Que não é possível ensinar leões a comer capim, assim como não dá para doutrinar girafas para caçar coelhos.

Mas paro por aqui, com o choque dessa revelação feita pela leitora (que não leu o que escrevi). Eu jurava que a vida era eterna. Não só a minha como também a do leitão à pururuca que não comi hoje, e a do espinafre que comerei.

Enquanto os argumentos a favor da crueldade forem esses (e sempre esses, e nenhum além desses), não será preciso acionar qualquer neurônio extra para defender meu ponto de vista.

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White people problems

WPP

“White people problems” são os problemas dos outros – não importa a cor da pele.

Um preto que reclame que bateu o carro está tendo “white people problems”, porque pobrema mermo é pegá duas condução pra chegar no trabalho.

O que, por sua vez, é “white people problem” pra quem teve que fazer baldeação na Central vindo de trem do ramal Japeri, e vai a pé até a Praça 15 pegar a barca pra tentar arrumar emprego em São Gonçalo.

Qualquer perrengue que a gente conte no FB é “white people problem” (doravante chamado apenas de WPP) para alguém que teve um perrengue ainda maior. Ou menos divertido.

Meu WPP de hoje foi um exame de risco cirúrgico. Um dos exames, porque é uma bateria, cada um feito num lugar diferente – WPP dos bons, já que o plano cobre (de má vontade, mas cobre), e problema mesmo seria ir para a fila do SUS.

7h30 da manhã no Arpoador, depois de engarrafamento em São Conrado (WPP dos brabos!).

– Bom dia, tenho um eletro agendado para agora, 7h30 (era para chegar meia hora antes, mas não deu).

– Seu nome?

– Sidney Affonso (tenho que usar o primeiro nome, fazer o quê?)

– A médica não veio.

– Então está cancelado o exame? (levantei às 5h30, tomei café no galope, saí sem escovar os dentes, peguei engarrafamento e ninguém manda nem um zap pra avisar que a médica não apareceu? Bom, problema mesmo seria ter passado a noite em claro, o pó de café ter acabado, não ter dentes e o celular estar sem crédito até para receber zap).

– É.

– Não tem outra médica?

– Vou ver.

Consulta o terminal, disca para alguns ramais que não atendem, por fim se levanta e vai ver pessoalmente.

– Não, é só ela que faz eco.

– Mas eu não vim fazer eco. Vim fazer eletro.

– O senhor falou eco.

– Não, eu falei eletro.

– Falou eco, sim, sr. Sílvio!

(Respiro fundo. Mentalizo um palavrão. Na verdade, uma expressão envolvendo uma prestadora de serviços sexuais remunerados que deu à luz. Expiro.)

– Eu não me chamo Silvio, e não vim fazer um eco. Vamos começar tudo de novo. Bom dia. Meu nome é Sidney, e eu vim fazer um eletro. (O eletro não vai prestar, porque, apesar de eu falar pau sa da men te, o coração está acelerado).

Ela consulta o terminal, e está lá o Sidney e o agendamento do eletro.

– Ok, a carteirinha do convênio, a identidade e a requisição do médico, por favor. (Pelo tom de voz, e pela dureza do “por favor”, ela ainda tem certeza de que eu disse que era Silvio e queria fazer um eco).

Entrego a requisição – e é a de outro exame, para outro dia, em outra clínica.

Pelo menos estava uma manhã linda no Arpoador. E, mesmo sem ter direito, passei na recepção e filei um capuccino com bolo de chocolate.

 

O hímen, esse desconhecido

himen

Não sei você, mas eu nunca estive cara a cara com um hímen. Certamente nos esbarramos ao longo da vida, mas terá sido um contato superficial e o afastamento foi amigável, sem motivo para rompimento.

Eu julgava mesmo que ele, assim como o teletrim e o professor de OSPB, já tivesse sido extinto. Ninguém fala mais dele, e sua presença, outrora tão requisitada, hoje soa como um anacronismo.

O hímen só voltou à minha mente por causa de um vídeo, visto um dia desses, em que uma simpática mocinha derruba certos mitos a respeito dessa (obsoleta) peculiaridade da anatomia feminina. Foi quando descobri que a total ignorância no assunto não era exclusividade minha.

Admito que o hímen atiçava minha curiosidade, ali por volta da pré-adolescência. Eu o imaginava como um daqueles bastidores que as bordadeiras usam, só que em vez de algodão, haveria uma membrana, tipo essas de bola de soprar. A membrana arrebentaria na noite de núpcias (sim, sou do tempo da noite de núpcias) e pronto, problema resolvido.

Isso, claro, se o hímen não fosse complacente. Esse era um conceito perturbador. E se a membrana fosse muito resistente, e se recusasse a ceder passagem, permanecendo ali, desafiadora, feito um escudo invisível? A simples ideia de vir a topar com um obstáculo que barrasse a entrada, como se eu fosse um penetra, um sócio com mensalidade vencida, me causava leve terror. Eu ouvira dizer que, por outro lado, o hímen podia se romper, por exemplo, pulando corda ou andando de bicicleta – então, uma calói e uns quatro metros de corda de bacalhau haveriam de fazer parte do meu kit lua de mel, just in case.

O hímen suscitava também questões práticas. Como as virgens urinavam? A única hipótese possível era a membrana ser porosa. Menos parecida com a da bola de soprar, um pouco como um coador de pano (sou do tempo do coador de pano). Mas basta olhar pra um coador de pano e perceber que a solução não era nada higiênica.

Talvez as virgens simplesmente não urinassem. Mas algo me dizia que ou essa teoria estava furada ou os bebês dos sexo feminino não nasciam virgens, mas se tornavam virgens (eu, apesar da pouca idade, tinha meus momentos de Simone de Beauvoir). Depois que se envirginavam, deixavam de urinar – até a fatídica noite de núpcias, a partir da qual recuperavam essa função. Sim, minha ignorância sobre o hímen se estendia também à uretra.

O que contava é que o hímen tinha o papel de lacre, de selo de segurança. Ele era a prova incontestável de que a virgindade feminina era uma virtude – em contraponto à masculina, que era um mico. O homem precisaria adquirir bastante prática para, na hora H, saber exatamente o que fazer ao se defrontar, lança em punho, com o dragão do hímen. O fracasso masculino não seria a impotência (fantasma que sequer me ocorria então), mas não conseguir derrotar o hímen de primeira. Para garantir o êxito é que talvez fossem necessárias as tais preliminares – possivelmente uma pedalada de 12 km ou meia hora pulando corda.

Eu imaginava se o hímen se romperia fazendo “ploc” (acho que não faz). Se sangraria a ponto de precisar bandeide e mertiolate (possivelmente, não). Se ficava no começo, no meio ou (o que seria um pesadelo) lá no fundo – um fundo talvez fora do alcance, além das minhas possibilidades. E, mais que tudo, eu me perguntava por que isso era tão importante, a ponto de haver exames médicos para detectá-lo intacto num pré-nupcial, e cirurgias para reconstituí-lo no caso de a moça ter merendado antes do recreio.

Todas essas questões estavam, até um dia desses, totalmente esquecidas, perdidas nas brumas dos meus 12, 13 anos, que foi quando descobri de onde vêm os bebês e como é que foram parar lá dentro. E também que passei a sentir uma estranha atração por meninas ciclistas ou que gostavam de pular corda.

Não era fácil ser pré-adolescente num tempo em que não havia gúgol pra gente se informar direito.

 

(publicado originalmente em 2015)

Ele não, ele sim

Ele nao 3

Lúcia Helena e Regina Célia se cansaram da vida de solteira. E dos bares de solteiros. Dos bingos, antes mesmo que fechassem. Das aulas de dança de salão, onde tinham que fazer par uma com a outra. Das peças de teatro infantil, já que o cerco aos homens divorciados passando o fim de semana com os filhos era ferrenho. Acabaram no Tinder.  Gêmeas, houveram por bem fazer um perfil só.

– Botaí, Celinha: homem, entre 40 e 50 anos, até 10 km de distância pra gente poder ir de táxi.

– Não é melhor colocar logo até 60? A gente já tá com 65…

– Nossa idade não precisa aparecer.

– Precisa, menina, taqui no cadastro.

– Então muda o cadastro!

– Não pode, é o do feicebuque.

– Muda no feicebuque, ora!

– Pronto, já estamos com 42. Dependendo da foto que a gente escolher, 42 passa, né?

– Bota aquela de quando a gente tinha 35. Aquela em Araxá.

– Aquela com o Maverick do papai ao fundo? Acho que vão desconfiar. Essa aqui no Píer de Ipanema está melhor.

– Essa tá ótima. Mas corta a Estela Maris, ali no canto, que ela está com o Evandro Mesquita no colo. Ela era babá dele, lembra?

Estela Maris era a irmã caçula, já casada.

– Como agora aparecemos mais jovenzinhas, deixa eu mudar a configuração: homem, entre 30 e, vá lá, 60 anos, até 20 km de distância, porque aí pega toda a Zona Sul, e a gente pode ir de 99.  Pronto. Agora é só começar a deslizar.

– Olha esse, que simpático. Arlindo. 55. Bairro Peixoto, pertinho.

– Essa camisa polo pra dentro da bermuda rosa. Aquele forrinho de crochê na diagonal em cima do aparador. O gato angorá lá atrás.  Desliza pra esquerda. Ele não.

– Ok. Ó, Eurico, 42, mora em Niterói, professor, #democracia #resistencia  #vazajato #familicia #cadeoqueiroz Me chama pra um litrão,

– Litrão? O quê que é isso?

– Pode ser uma dessas práticas sexuais modernas, tipo mind setting e golden shower. Sei não.

– Tirando a barba, o coque e esse cigarro estranho na mão, até que ele, sim. Vou deslizar pra direita.

– Melhor não arriscar. Olha a camiseta das FARC e a tatuagem do Maduro. Desliza pra esquerda. Ele não.

– Tá bom. Elizeu, 57, empresário romântico pisciano amante de um bom vinho e afim de compromisso.

– Afim, assim, tudo junto?  E Pisciano?

– Nem vem, que você também não sabia que “paralisar” era com S, e nós duas somos de Peixes, qual o problema?

– Ser de Peixes é uma coisa, mas botar “pisciano”, e com esse cabelo cor de cutia? Aposto que mora com a mãe e mente a idade.  E eu não confio em homem que fala “um bom vinho”, como se alguém gostasse de vinho ruim. Desliza pra esquerda. Ele não.

– Mais um. Kawan, 18, gamer, nerd, 46 km de distância.  Sugar baby.

– Quem pediu isso? Essa idade? Essa distância?

– Ninguém. Apareceu aqui. Mas não é de se jogar fora.

– Tá maluca, Celinha? O menino podia ser seu neto! E essas asinhas de anjo? E esse focinho de cachorro? Pela distância deve ser depois de Realengo.

– Vai que dá match, Lúcia Helena. E a gente gosta da mesma música.

– Como é que você sabe?

– Tá aqui: Sugar baby. Um garoto de 18 anos que conhece hits dos anos 70!

– Celinha, você também achou que fosse de eletricistas aquela comunidade do Orkut “Homens que gostam de fio terra”.  E de marceneiros a comunidade “Pé de mesa”.  E de delegados de polícia a “Adoro uma DP”. Foram 6 meses para se recuperar de cada encontro com o pessoal dessas comunidades.

– Deu match, Lúcia Helena! Deu match!

– Você que sabe. Eu ainda acho que é roubada deslizar pra direita nesses casos. É um tiro no escuro.

– Isso é inveja sua. Vou tomar um banho e enquanto isso vá chamando o Uber. “Sugar baby love ♫, sugar baby love ♫, I didn’t mean to make you blue ♫.”

– Ok, mas depois não diz que eu não avisei, porque na volta, se for tarifa dinâmica, você tá lascada.

Negging

negging

“Você é linda, mas se emagrecesse cinco quilos ficaria mais gostosa”. Essas frases, muitas vezes ditas em tom de brincadeira ou que vêm acompanhadas de elogios seguidos de uma crítica, podem esconder uma tática de sedução perigosa: o negging, uma maneira de conquista que desqualifica a mulher, minando a sua autoestima.” (Universa, UOL, 1/9/19).

Pois é, mal a gente se recupera do mansplaining, do gaslighting e do manterrupting, eis que surge o negging.

“Na prática do negging o homem usa determinadas falas que têm o objetivo de diminuir alguma característica da companheira e valorizar a presença ou opinião dele. É um jogo de palavras para deixá-la confusa. Com um elogio, vem uma pequena negação do que ele exaltou primeiro, sugerindo que ela pudesse ser de outro jeito que mais o agradaria” (Vivyan Rodrigues Pereira, especializada em atendimento a mulheres vítimas de relacionamentos abusivos).

“Você não deveria cortar seu cabelo. Gosto assim comprido. Muito mais linda!” não é uma opinião: é negging.

“Por que você pinta esse cabelo de vermelho? Eu gosto tanto do seu cabelo natural!” não é um comentário: é negging.

(Os exemplos são da matéria “Negging: sedução que desqualifica mulher. Sabia identificar essa armadilha”, do site Universa).

Continuando a saga de expor comportamentos masculinos tóxicos e opressores, não deve demorar para aparecer:

– Tantofazing: “Você é linda de qualquer jeito, gorda ou magra, de cabelo curto ou comprido, loiro ou roxo.”  Atitude machista que objetifica a mulher a tal ponto que tanto faz ela estar assim ou assado;

– Iloveyouing: “Eu te amo, querida”. Atitude misógina de declarar amor a uma mulher, colocando os desejos masculinos em primeiro plano e retirando da parceira a iniciativa e o protagonismo;

– Vocêquessabing: “Se estiver bom pra você, está bom pra mim”. Atitude falocêntrica de colocar a responsabilidade das escolhas nas costas da mulher;

– Wifeing: “Quer casar comigo?”. Atitude sexista de propor a uma mulher que abra mão de seu status de solteira;

– Onlyyouing: “Você é a única mulher da minha vida”. Atitude porco-chauvinista de desprezar todas as outras mulheres em prol de uma só;

– Lightraystarmoonlighting: “Você é luz, é raio, estrela e luar”. Atitude egoísta de exaltar a mulher de forma exagerada, fazendo-a crer que ela é fogo e você é paixão – sendo que paixão é um sentimento e fogo é apenas um fenômeno que consiste no desprendimento de calor e luz produzidos pela combustão de um corpo;

– Goodmorning: “Bom dia, amor”. Atitude machonormativa de querer que o dia da mulher seja do jeito que ele quer, não do jeito que ela quiser que seja.

Para não esgotar o tema, vamos deixar o “beautifuling” (“Você é linda”, que reforça a sexualização do corpo feminino) e o “smarting” (“Nossa, como você é inteligente!”, que invisibiliza o corpo feminino), para uma próxima ocasião. Até porque tem também o “bugging” (“Nossa, como você é linda e inteligente”, que a princípio dá um bug mas, pensando bem, não é mais que uma atitude passivo-agressiva de chantagear emocionalmente uma mulher cercando-a por todos os lados).

 

 

Newspeak

gratidao

A epidemia de “gratidão” ainda não passou – e o gráfico do Google Trends prova isso.
É o Newspeak – a Novilíngua – em ação.

Mas, se é pra fazer, vamos fazer direito.

Se trocou o “Obrigado” por “Gratidão”, tem que mudar o “De nada” para Por tudo”.

E, de agora em diante, nada de “Por favor”.
“Favor” pode ser um proveito, uma vantagem.
Prostitutas prestam favores sexuais. Políticos trocam favores.
Usemos “Por gentileza”, que é mais gentil.

Esqueçamos o “Com licença”.
“Licença” lembra licenciamento de veículo no Detran, licença médica, licença ambiental.
007 tinha licença para matar.
Licença é uma permissão (que lembra permissividade), uma autorização (que lembra autoritarismo).
Doravante, por um mundo melhor, pediremos “Com consentimento”, que é uma expressão com … sentimento.

Sim, há sentimentos ruins. Mas, neste caso, mentalize sentimentos bons, e pronto.

“Desculpe” traz embutida a palavra “culpa”.
Esqueça.
Peça “Perdão”.

“Que pena!” tem um subtexto de penalidade, de penitência.
Diga “Compaixão”.

“Ô dó!” tem algo de dor.
Dá um pouco mais de trabalho, mas opte por “Sinto-me consternado(a)”.

“Lamento muito” parece lamúria. Se um abraço ou um tapinha nas costas não resolverem, faça um coraçãozinho com a mão, expressando ternura.

“Adeus”, nunca mais.
É ofensivo aos ateus e discrimina os politeístas, para quem teria que ser dito “adeuses”.
Ofende também os cristãos, ao invocar um santo nome em vão.
“Até” tá de bom tamanho. E não dá aquela impressão de que a separação seja para sempre.

Chega de expressões negativas!
“Como tem passado?” evoca o que já passou, e o que importa é o futuro.
“E aí, chefia?” traz implícita uma inferioridade hierárquica, uma normalização das relações de poder.
“Sempre às ordens”, então, nem se fala.

“Nos vemos qualquer hora dessas” agride os portadores de deficiência visual.
“Sou todo ouvidos”, os deficientes auditivos.
“Que tudo corra bem”, os com mobilidade reduzida.
“E aí, beleza?”, os que não atendem as expectativas estéticas da sociedade.
“E aí, tranquilo?”, os dependentes de gardenal.
“Muito prazer”, as frígidas.
“A gente se esbarra”, os estabanados.

Nesses casos, é melhor não falar nada.
Sorria – sem mostrar os dentes. E saia de fininho, mas com a certeza de ter transformado o mundo à sua volta num lugar melhor.

Uma breve introdução ao Revolucionário Método Affonsoquântico® de Autoajuda Linfática

autoajuda

Você não é rico o suficiente se não for capaz de perder milhões de dólares por causa da manipulação cambial da China. Nem pobre de verdade até a Susana Naspolini aparecer fazendo reportagem na sua rua.

Ficar pobre não requer prática nem tampouco habilidade. É só vacilar e, pimba!, lá está você fazendo selfie com a parede sem reboco ao fundo ou disputando salsicha a tapa na promoção de aniversário do Guanabara.

Não dá mais para ficar rico a esta altura da vida. A menos que a gente invente o clips, a Coca Cola, a Amazon ou o feicebuque – mas todos já foram inventados.

Uma maneira fácil, testada e aprovada, é tirar o dinheiro de quem já tem – ou, principalmente, de quem não tem. Mas o filão das igrejas neopentecostais parece estar se esgotando.

Você já perdeu a oportunidade de escrever livros de autoajuda, autoajudando as pessoas a ajudar a encher a sua conta bancária.

Deixou passar a onda da programação neurolinguística. Do esoterismo. Das pirâmides financeiras. Dos caixas 2 de campanha.

Agora com o côutchim talvez a coisa vá.

E tem que ir logo, porque já inventaram o côutchim quântico – e quando botam quântico no meio é porque já está chegando a hora da xepa.

Quântico é o novo holístico.
O novo integral.

Não demora, aparecem a meditação quântica, o whey quântico, o botox quântico, o Cheetos quântico.

Já existe o côutchim com reprogramação do DNA através da ativação de uma frequência vibracional, que é o quântico cromossômico com doutorado em Harvard.

Antes que os côutchers quânticos desoxirribonucleicos tomem todo o dinheiro dos incautos, talvez dê para lançar uma estartape de mêntorim mitocondrial, acionando através dos bósons de Higgs mentais as partículas citoplasmáticas do córtex frontal. A adenina faz tchã, a timina faz tchum e a guanina se une à citosina fazendo tchã tchã tchã tchã, o que atrai feito um buraco negro anímico todos os fluidos energéticos dos prótons que provocam as sinapses negativas.

Bora criar o côutchim tântrico. Côutchim com escudo invisível, tração nas 4 rodas, forno autolimpante e varanda gurmê. Côutchim cabalístico, biodegradável, sem gordura trans ou arcabouço teórico de origem animal.

Côutchim carismático, linfático, bioenergético, disruptivo. Côutchim dos chacras, com uso da termodinâmica nuclear. Côutchim macroeconômico através da nanotecnologia. Côutchim cognitivo lacaniano, anaeróbico, cardiovascular, fotossintético, hipotônico, homeostático, com mantras de nitroglicerina que, por meio dos cristais de serotonina, ajudam a combater as pontas duplas dos neurônios e dar um jeito no frizz do hipotálamo.

O empowerment côutchim, que gera sinergia através da quebra de paradigmas, agregando valor ao autisórcim molecular. O côutchim proativo focado no brêndim das comódites neurológicas, com interfeice numa plataforma de resiliência.

Em todos, o plano básico (você vai ficar apenas remediado financeiramente), vem acompanhado de 2 pais nossos e 20 ave marias. Os planos Golden, Premium e Platinum Plus (para você conseguir nunca mais olhar o preço no cardápio antes de pedir o prato) incluem roupa de couro, algema e salto agulha, atuando no Id por meio da capacitância eletromagnética a nível do complexo de Golgi, através de combinação, permutação e arranjo a laser dos radicais livres de carbono 14.

Se nada disso der certo, dá pra lançar a tendência do côutchim víntage, com vara de marmelo e joelho no milho. Se funcionava em Minas, há de funcionar no resto da galáxia.

E, qualquer que seja o método escolhido, Susana Naspolini batendo na sua porta ou selfie com telha de fibrocimento aparecendo, nunca mais.