Na pressão

panela
Ilustração: Paulo Masserani

Não tenho medo de solidão.

Não tenho medo de cair no banheiro, bater a cabeça no tento de mármore do box e só me encontrarem quando eu já tiver escorrido pelo ralo e não restar nem o esqueleto, porque os cachorros terão levado os ossos para a sala e tudo que restará de mim será um fêmur meio roído, na boca do Tião.

Não.

Eu tenho medo é de panela de pressão.

A panela de pressão é uma esfinge. Uma bomba-relógio. Um campo minado.

Meu pai, homem intimorato, daqueles de andar com duas armas – uma na canela, outra embaixo do sovaco – só foi derrotado pelo câncer e pela panela de pressão (não nessa ordem, obviamente).

Ele entrava na cozinha apenas para perguntar por que é que o almoço ainda não estava pronto. Ele almoçava às 11 horas em ponto, para poder estar no Fórum pontualmente ao meio-dia. Por volta de 10h45, começava o inferno astral da minha mãe:

– Conceição, já são quase 11 horas. Cadê o almoço, Conceição?

Minha mãe suspirava resignada, e cozinhava, de modo que às 10h59 a primeira travessa chegasse à mesa, onde meu pai já a esperava, de garfo e faca na mão.

Um dia – morávamos em Visconde do Rio Branco – meu pai extrapolou sua jurisdição.

Invadiu a cozinha e resolveu pular os intermediários e pressionar diretamente a panela de pressão.

A panela, claro, não tinha a paciência infinita da minha mãe.

Seguiu-se uma explosão. Quando cheguei em casa não entendi o que havia acontecido, ou de onde surgira aquele teto cravejado de feijão.

Ninguém se feriu, e, tirando o feijão e o teto, salvaram-se todos. Meu pai deve ter entendido que ninguém está acima das leis da física. Que tudo neste mundo tem seu tempo, cada coisa tem sua ocasião.

O feijão com arroz, aquele dia, foi só arroz, quebrando – ao que eu saiba, pela primeira e única vez – uma milenar tradição.   Minha mãe saboreou, grão por grão, essa vitória, obtida por interposta panela.

Fim do flexibeque.

Um lar só é um lar quando tem tapetinho na porta e panela de pressão. O tapetinho eu não tenho, mas comprei a panela, há alguns anos. Trouxe-a para casa como quem abre os portões para um cavalo de Tróia, sabendo o que ele guarda na barriga.

Usei-a poucas vezes, durante as faringites – quando uma sopa descia bem melhor que um sanduíche. Mas sempre o fiz com respeito, quase com reverência.

Levanto a válvula com a ponta dos dedos e espero que a panela desabafe, se acalme, sinta que está entre amigos. Depois, dou-lhe uma ducha de água fria, para aquietar-lhe os ânimos. Ela ainda resmunga um pouco, solta algum vapor pelas ventas, e só quando parece pacificada é que dou um passo para trás e destravo a tampa.

Tem funcionado.

Hoje, vencendo um trauma de décadas, cozinhei feijão. Escapamos incólumes: eu, a panela, o teto, o fogão.

Mais algumas experiências bem sucedidas com essa criatura explosiva e já me sentirei capaz de arriscar alguma coisa com uma mulher de Escorpião.

Era uma vez

Sidney

Sempre fui uma negação para guardar nomes.

Para compensar, sou péssimo fisionomista.

Quando dava aulas, era comum ser abordado.

– Tudo bom, professor? E a minha nota?

O máximo que eu conseguia saber era que o jovem ou a jovem (ainda não existiam xs jovxns naquela época) era de alguma das turmas para as quais eu lecionava. E eram muitas.

Na hora da chamada, tentava fazer o cara-crachá para ver se, de tanto repetir, associava os nomes às pessoas.  Em vão.

Conseguia gravar, no máximo, os melhores e os piores de cada sala. Os da fila da frente e os do fundão. O que significa que 90% permaneciam um mistério para mim durante todo o ano letivo.

Não era pouco caso. Era déficit meu mesmo.

Eu também trabalhava no Banco do Brasil.  E volta e meia me aparecia alguém perguntando:

– E o meu negócio, como é que está?

Eu não fazia ideia de quem fosse a pessoa, que dirá como estava o negócio dela. Que poderia ser uma renovação de cheque especial, uma aplicaçãozinha do saldo disponível em conta ou um empréstimo para comprar 200 vacas girolandas.

– Me veja um documento, por favor, só para eu confirmar se seus dados saíram certinhos.

– Estou sem a identidade aqui…

– Serve conta de luz, qualquer coisa que tenha seu nome.

– Estou sem nada.

– Então assina aqui só para eu aproveitar e conferir a assinatura.

E lá ia eu, torcendo para que a assinatura fosse legível, ou teria que consultar milhares de cartões de autógrafo – ou perguntar, discretamente, a alguém de confiança, “quem é aquele ali na minha mesa?”.

Na rua, cidade do interior, era batata:

– Transfere 50 mil da minha poupança pra conta, que vai cair um cheque amanhã. Depois eu passo lá e assino.

Eram tempos pré aplicativos via celular. O celular, inclusive, ainda era ficção científica.  Eu tinha que chegar ao banco e avisar que, se aparecesse um cheque em torno de 50 mil sem saldo na conta, era para falar comigo antes de devolver. Só assim eu saberia quem era o cliente. Ou ex-cliente, por minha culpa, minha máxima culpa.

Para facilitar as coisas, tenho nome duplo. Minha mãe queria Eduardo. Meu pai concordou até a véspera, mas, sem combinar nada com ela, incluiu Sidney na certidão. Ela, magoada, nunca me chamou de Sidney. Ele, talvez por arrependimento, talvez de pirraça, também não. Só fiquei sabendo que, além de Eduardo, era Sidney quando entrei na escola, e tinha que dizer que eu, Eduardo, estava presente quando a professora chamasse o tal de Sidney.

Então em casa eu era Eduardo, na escola era Sidney. Nas apresentações formais, Sidney; nas relações mais íntimas, Eduardo. Eduardo na Psicologia; na Arquitetura, Sidney.

Num sem número de vezes, me peguei ao final de uma carta ou com o dedo no botão de um interfone sem saber quem estava lá, o Sidney ou o Eduardo. Tinha que refazer mentalmente toda a história, lembrar de onde nos conhecíamos, pensar na pessoa falando meu nome para ver qual soava mais familiar na sua boca – e só aí assinava ou dizia quem era.

Mas, como nem tudo é desgraça na vida de um cristão, eu era tímido. E, como Deus é justo, e dá o frio conforme o cobertor, também gago. O que me tornava ansioso nas relações interpessoais – mas apenas em dois tipos de situação: quando tinha que falar com alguém presencialmente (porque a timidez me dava um branco) ou quando tinha que falar com alguém por telefone (porque a gagueira me dava um nó).

Venci ambas as limitações falando o mais depressa possível, tanto para não gaguejar quanto para acabar logo com aquilo. E fugindo do telefone como um carioca, no verão, foge da conta de luz.

Por isso comecei a escrever.

Escrevendo, não gaguejava. Podia usar à vontade palavras começadas com B. E as pessoas tinham o nome que eu quisesse. E eu era sempre Eduardo, nunca Sidney.

Nunca vi a escrita como uma escolha ou um dom, mas como uma espécie de salvação.

Quanto mais complicado melhor

tomara que caia

Tem coisa que eu não entendo.

Futebol americano, por exemplo. Por mais que já tenha assistido, não consigo vislumbrar regra alguma. É uma espécie de vale tudo com uma bola que não é bola (bola naquele formato, pra mim, é um oximoro) e um monte de marmanjos sem amor aos próprios ossos e cartilagens.

Eleição americana é outra coisa ininteligível. No mundo incivilizado, os partidos escolhem seus candidatos, os eleitores votam naquele que, a seu ver, mente com mais naturalidade e quem tiver mais voto está eleito. Já no país mais rico da Via Láctea, os partidos fazem disputas internas em que os postulantes gastam fortunas se estapeando entre si para no final – milhões de dólares mais pobres e todos um pote até aqui de mágoa – esquecerem as barbaridades que disseram uns dos outros e se unir contra o adversário de verdade.

E aí tem eleição? Não. Aí começa um processo hermético, enigmático e kafkiano em que pequenos eleitores elegem grande eleitores que votam num candidato que pode ser eleito mesmo tendo menos votos.

Não entendo a regra do impedimento. Ou até entendo, só não entendo por que ela exista.  E por que envolva tanta subjetividade por parte dos comentaristas esportivos.

Não entendo a regra do hífen. Ou, como na do impedimento, entendo, mas não me conformo. A regra, a bem da verdade, é clara: tem hífen onde a regra diz que tem que ter, mesmo que não precise, e não tem hífen onde a regra diz que não tem, mesmo que ali ele faça falta.

A regra do hífen deve ter sido criada pela mãe de alguém, com base na inquestionável sabedoria do “é porque sim” ou do “o dia em que você inventar sua língua você faz do jeito que quiser; mas enquanto você estiver na minha casa, usando a língua materna, é assim que vai ser”.

Há muito mais coisas que não entendo.

Não entendo por que as assessoras da Damares, da Regina e da Michelle não criaram um grupo no zap na véspera da posse para evitar que elas ficassem parecendo três galinhas d’angola na cerimônia. Ou por que uma alma caridosa não informou ao Jair que não era uma boa ideia (era uma péssima ideia, pra falar a verdade) bancar o ventríloquo com um humorista num encontro com a imprensa. E logo no dia de explicar o pibinho – que era o dobro do pibinho do FHC no primeiro ano do segundo mandato, o mesmo pibinho do Lula no primeiro ano do primeiro mandato, muito maior que o pibinho negativo do Lula no penúltimo ano do segundo mandato e muitíssimo melhor que os pibaços negativos dos dois anos do funesto segundo mandato da Dilma.

Qualquer outro teria aproveitado o momento para dizer que o país foi tão bem, mas tão bem, que nem com o presidente criando crise atrás de crise, treta em cima de treta, espalhando casca de banana para si mesmo o tempo todo (as bananas ele deu à imprensa) o pib conseguiu baixar a níveis dílmicos.

Tem mais coisa que não entendo. Como é que pode o valor de mercado do meu apartamento cair e o IPTU ficar mais caro. Por que o Ronaldinho Gaúcho usaria um passaporte paraguaio – e falso, ainda por cima. Se não saía mais em conta a Hering colocar uma alça reforçada em todos os tomara que caia do planeta em vez de bancar essa campanha milionária para a gente passar a chamar o tomara que caia de blusa sem alça.

Tomara que caia a regra do hífen. Tomara que o presidente caia em si para que o pib pare de cair. Tomara que a Regina não caia de novo nessa conversa de “pode ir sem medo , que ninguém mais vai estar usando bolinha”. Tomara que o Ronaldinho não caia no golpe do “la garantia del passaporte soy yo”. E tomara que o tomara que caia (com ou sem hífen?) sobreviva a essa malice sem alça, que há de querer acabar também com o assédio do pega rapaz, o tabagismo da calça cigarrette, a homofobia da camiseta mamãe sou gay, a pirataria da calça corsário, o falocentrismo da regata machão, a subversão dos valores familiares do maiô engana mamãe, a apologia ao crime do bolso faca e ao especismo da saia rabo de peixe e do macacão.

Porque eu não entendo essa vocação americana para complicar tudo, tanto quanto jamais entenderei essa nossa para a problematização e para a concretude.  O que, no fundo, dá na mesma.

Talvez, com certeza

talvez

Resolver as coisas com ela é sempre um desafio.
– Você prefere comer em casa ou pedir pizza?
– Prefiro.
– Qual das duas coisas?
– Pode ser.
Viaja, já devia ter chegado. Ligo para saber se houve algum problema.
– Onde você está?
– Voltando.
– Mas está onde, em que altura?
– Na estrada.
Ninguém consegue ser tão vaga com tanta precisão.
– Estou te esperando. Demora?
– Ok.
– Está onde, para eu saber se já posso descer ou não?
– Américas.
(Ela está numa ponta da Américas; eu, na outra. Não há como ela estar em outro lugar que não seja da Américas. )
– Mas antes ou depois do Barrashopping?
– Pista da lateral. A do meio está parada.
A culpa é minha, que tenho a mania de fazer perguntas abertas.
– Oi, estou indo pra casa. Precisa de alguma coisa do mercado?
– Precisa de um monte de coisas.
– O quê, por exemplo.
– Tem muita coisa faltando.
– E o que é que falta?
– Tenho que ver.
– Pode ver e me dizer?
– Compra só o que acabou. O resto ainda tem.
Ligo do mercado.
– Açúcar mascavo ou refinado?
– Um quilo.
Da farmácia.
– Como é que chamava mesmo aquele remédio para sinusite?
– Gotas.
Se eu fizer duas perguntas, ela responderá uma delas e ignorará a outra. E nunca saberei qual foi a respondida.
Se eu fizer uma pergunta só, esta é a que será ignorada.
Ou respondida com outra pergunta.
– Por que você é assim?
– Assim como?
– Não responde o que eu pergunto.
– Não respondo?
– Não. Você nunca responde o que eu pergunto.
– É?
– É. Ou responde com uma pergunta.
– Eu faço isso?
Claro que gosto dela. Menos quando quero saber alguma coisa.
– Você me ama?
– Claro.
– Que sim ou que não?
– Aham.
Deduzo que “aham” seja “sim”. Que prefira a pizza. Que já esteja no pedágio, ou na entrada do condomínio. Que só esteja faltando açúcar. O mascavo. E que eu talvez deva perguntar menos.

Sem fantasia

Fantasia

Clóvis Bornay e Evandro de Castro Lima não morreram.

Estão vivinhos da silva – um morando no Catete, outro na Glória. Vizinhos de metrô.

Evandro passou há pouco dos 100 anos; Bornay acabou de completar 104 em janeiro.

Ambos, claro, mentem a idade. Até porque aparentam menos. Uns 15 minutos menos.

São grandes amigos. Toda aquela rivalidade era coisa da mídia – ainda que realmente se odiassem.  Mas um ódio construído à base de uma inveja que era 90% admiração. Um “ódio do bem” do bem mesmo, como quem diz “ah, como eu te odeio!” enquanto abraça o outro carinhosamente e lhe ajeita o colarinho.

Todo ano eles combinam de voltar aos concursos de fantasia do Municipal e do Monte Líbano, mas os concursos de fantasia do Monte Líbano e do Municipal não voltam mais.

Ontem se falaram pelo zap.

– Evandro, este ano é o seu centenário. Tem que comemorar. Isso só acontece uma vez na vida!

– Sei não, Clóvis. Ando desanimado. Não tenho mais aquele vigor de 80 anos atrás.

– Larga de ser frouxo, homem! Bota aquela sua fantasia de “Esplendor e Glória do Xá da Pérsia Diante do Czar de Todas as Rússias  Numa Noite de Verão” e vamos pro Sírio e Libanês!

– Eu sou baiano, não posso me fantasiar de xá da Pérsia, porque é uma ofensa aos persas – que nem existem mais – aos aiatolás e, se bobear, a todos os russos. Sem contar que eu moro no Catete, e acho que não tenho lugar de lugar para me fantasiar de alguma coisa com Glória no nome. E vamos combinar que “Esplendor e Catete” não rola, né?

– É. Tá difícil. Eu ia de “Apogeu Sublime de um Faraó Egípcio na Suntuosa Corte da Rainha de Sabá” mas meu privilégio de branco não permite.

– Será que a gente não consegue uma fantasia aceitável? Sei lá, uma sem pena de pavão…

– Porque é apropriação plumária…

– … sem pedraria…

– Porque a mineração é predatória

– … sem paetês e lantejoulas…

– Porque são de plástico não biodegradável, e vão poluir o meio-ambiente por 400 anos.

– … sem miçangas…

– Porque evocam o colonialismo, já que eram usadas nas trocas assimétricas com as populações nativas subjugadas.

– Uma simplesinha, sabe? Tipo “Plenitude e Harmonia de Montezuma…

–  Asteca não pode.

– … na Majestosa Coroação do Marajá de Jaipur”.

– Marajá de Jaipur também não.

– Vem aqui em casa, então. A gente pede uma pizza, abre um espumante, e vê se tem alguma coisa com a Hedy Lamarr ou com o Ramón Novarro na Netflix.

– A gente tem feito isso todo Carnaval nos últimos 35 anos, Evandro. Nem era Netflix; era videolocadora mesmo. E ainda se podia chamar espumante de champanhe.

– Que nome será que tem o biscoito champanhe hoje em dia?

– Sabe que nunca mais vi biscoito champanhe? Vai ver, acabou, como os desfiles de fantasia, como os blocos de sujos, como o senso de ridículo. Como eu e você e a edição especial da Manchete e d’O Cruzeiro.

– Talvez. Mas ano que vem a gente tenta de novo. Até lá, vou ver se consigo pensar em alguma fantasia inofensiva. Que não promova nenhum genocídio, não perpetue nenhuma hostilidade.

– Tomara. Vou chamar a Wilza Carla. Mais alguém?

– Clóvis, e se eu for de “Esplendor Policromático de um Imperador Bizantino Politicamente Correto na Corte Empoderada de Versalhes”, ou de …

– Esquece, Evandro. A gente morreu, e não sabe.

– É, Clóvis. Não tem mais lugar para nós neste mundo.

– A gente sempre foi hors concours, querido.

– Sempre. Quando vier, passa na farmácia e me traz um alcacélcer, que acho que este Carnaval vai me dar azia.

– Vou levar logo três, um para cada. E um saquinho de confete.

– Confete não é apropriação cultural italiana?

– É.

– Então, só os alcacélcers. E traz logo 6 de uma vez.

~

In memoriam:

Clóvis Bornay, 1916 / 2005
Evandro de Castro Lima, 1920 / 1985
Wilza Carla, 1935 / 2011

Sem querer & querendo

sem querer

“Oje, intregamos 120 ônibus iscolares a municípios de São Paulo. No ano paçado, mais de 1300 foram entregues em todo o Brasil. O Governo @jairbolsonaro já disponibilizou atas a estados e municípios para aquisição de mais de 6200 ônbus. Espero que dessa forma a notícia chegue a todos.”

O que o ministro da Educação fez neste tuíte foi, claro, uma jogada de márquetchim.

Seu domínio da língua escrita não é lá essas coisas. Entre usar um corretor ortográfico, contratar um revisor ou aprender ortografia, ele optou por carnavalizar de vez.

Pode dar serto. Pode ser um tiro no pé.

O ministro conseguiu duas façanhas memoráveis na sua gestão: fez um Enem desastroso e botou toda a imprensa de canetinha vermelha na mão, procurando erro de português.  Se por um lado os estudantes sofreram, por outro acabou aquela história de preconceito linguístico, opressão linguística, de ‘nós pega os peixe’. Nunca antes na história deste país se viu gente tão zelosa em relação à pureza do idioma.

A gota d’água para o ministro chutar o balde foi virem corrigi-lo por escrever “aonde” onde era para ser “onde”. Onde já se viu preciosismo desses?

“Onde” tem sentido estático, de lugar fixo.
“Aonde” (a + onde) tem noção de destino, de movimento.

“Onde você mora?”
“O lugar onde eu trabalho é pertinho daqui”,
“Não sei onde deixei o livro”.
(Tudo parado, reparou?)

“Você não tem como me levar aonde eu quero ir”.
“Aonde você pensa que vai a esta hora, Paulo Otávio?”
(Tudo em movimento – menos o Paulo Otávio, que estancou no ato.)

Onde por aonde é coisa simples, errinho de nada. Camões não estava nem aí para isso. Em outras circunstâncias, apenas D. Eurídice, professora aposentada em Minduri MG, teria reparado e feito muxoxo.  Mas com o histórico “imprecionante” de erros cometidos pelo ministro, a cada tuíte as redações ordenam a “paralização” das máquinas e a “suspenção” de todas as atividades até que a Brigada de Ortografia passe um detector de barbaridades (não confundir com barbarismo, que é outra coisa).

Mas como podemos garantir que o ministro tenha errado de propósito ao escrever “oje”, “iscolares”, “paçado” e “ônbus”? Ou que não tenha sido ele a redigir o tuíte, mas alguém do seu Comitê de Gestão de Crises Gramaticais? Elementar, caros watsons:

1.  Reparem em “Oje, intregamos…” e “No ano paçado, mais de…”. Essas vírgula separando o adjunto adverbial de tempo deslocado é sofisticação demais para um tuíte ministerial:

2. “Municípios” e “notícias”, paroxítonos terminados em ditongo crescente, estão corretamente acentuados.

3. “Aquisição” está com S e Ç, não com Z e SS, como seria de se esperar.

Tudo bem que faltou o ponto separando o milhar (1.300, 1.600), que “Governo” estava desnecessariamente em maiúscula e que o adjunto adverbial de modo (“dessa forma”), por estar intercalado, deveria ter vindo entre vírgulas. E que, por fim, era para ter usado “desta” em vez de “dessa”.

O ministro foi esperto. De agora em diante, sempre que errar, poderá dizer que foi de propósito. Mas a gente sabe quando o erro é sem querer e quando é querendo.

Esses “sem querer querendo” não enganam ninguém. Até porque bastaria o “chegue a todos” sem crase para entregar a farsa: o ministro da Educação teria craseado, sem pestanejar.

Raudério

rauderio
Fonte wacandido.blogspot.com.br

 

Já tivemos a Geração Perdida, cuja adolescência foi afetada pela I Guerra, entrou de cabeça nos Loucos Anos 20 e na vida adulta sofreu o impacto da Grande Depressão.

“Perdida” é modo de dizer, porque nos legou o jazz, Hemingway, Pound, Eliot, Joyce.

Em seguida, meio misturadas, a geração Grandiosa e a Silenciosa – gente nascida ou já criança na Grande Depressão, e que viveu (ou morreu) durante a II Guerra.  Pertencem a ela Marlon Brando, Kennedy, Lennon, Marilyn Monroe e minha mãe.

Depois os Baby Boomers, os da explosão demográfica da segunda metade da década de 40 (logo depois da II Guerra, até o início dos anos 60). Foi a geração que passou pela polarização da Guerra Fria, e criou a contracultura.

Veio então a Geração Coca Cola, a partir anos 60, influenciada pelo rock, pela cultura americana, e que (pelo menos no Brasil) assistiu às guerras só pela televisão.

Aí acabou a imaginação para dar nome às gerações e passaram a usar letras – X, Y, Z -, ou, no máximo, a obviedade de um “Millenials” para quem estava na casa dos 20 durante a virada do milênio.

Aqui estamos nós, entrando nos Malucos Anos 20 do século 21 e nos deparando – 100 anos depois do jazz, do Hemingway, da ardecô, do cinema falado, do voto universal, da penicilina – com uma nova geração dando as caras. A Geração Raudério.

É a geração que viveu a guerra contra escovar os dentes depois do Nescau. Contra só seis horas de televisão por dia. Contra ter que arrumar a cama e colocar a roupa suja no cesto.

Minha geração (a Coca Cola, apesar de eu preferir Matte Couro), foi a mentora intelectual disso daí.  Nós é que começamos a exigir (“Cadê a minha Calói?”, “Compre Baton, compre Baton, compre Baton!”) em vez de pedir. Nós usamos sapatos cavalo de aço e calça de nesga – sem que ninguém nos obrigasse a isso. Dançamos imitando movimentos de kung fu, fumamos escondidos no banheiro (eu não: eu só vigiava na porta, para ver se vinha alguém).  Inocentes, achávamos que ‘camisinha’ e ‘rachadinha’ eram palavrões.

Reprimidos, consumistas, sem noção de estética, resolvemos dar aos filhos tudo que não tivemos: videogueime, celular, televisão no quarto, quarto com chave na porta e até o direito de se trancar com coleguinha no quarto.

Deu nisso.

– Raudério entrar no meu quarto sem bater na porta?

– Raudério colocar bêicon na farofa, cebola no vinagrete, açúcar no café?

– Raudério votar de acordo com as suas convicções, não com as minhas?

Uma ditadura raudéria não seria muito melhor que aquela do Conto da Aia, que tanto indignou os raudérios quanto os fez suspirar, sonhadores.

O rauderismo também pode vir a ser conhecido como a Geração Barulhenta, da indignação seletiva. Talvez por lhe faltar uma guerra de verdade como a Guerra Civil Espanhola, a da Coreia, a do Vietnã, a de Biafra.

Fascistas e comunistas queimaram livros – os raudérios querem queimar palavras. Implementar a Novilíngua. Viver um cosplêi de membro da Resistência Francesa, mas sem a boina e com um cigarro mais alternativo no canto dos lábios.

Raudérios, o tio aqui foi censurado, aos 11 anos, por fazer na escola um cartaz de Dias das Mães com uma foto da Leila Diniz grávida e de biquíni.  Era 1970, governo Médici, ouviram falar?

O tio aqui comprava o jornal assim que a banca abria para não correr o risco de chegar lá e o “Opinião” e o “Movimento” terem sido recolhidos. O tio aqui carregou faixa em manifestação pela Anistia, participou dos comícios das Diretas. O tio não é fascista. O tio, inclusive, sabe o que é fascismo (porque estudou), o que é ditadura (porque passou toda a infância, adolescência e parte da vida adulta sob uma), o que é censura (porque viu “Laranja Mecânica” com bolinha preta saltitando na tela para cobrir os pentelhos dos artistas).

Ditadura não é nada disso que vocês estão pensando. Podem acreditar em mim: o tio tem lugar de fala.

Nossa geração sobreviveu ao óleo de fígado de bacalhau, às aulas de OSPB, ao fusca sem ar condicionado nem cinto de segurança, ao cursilho, ao xampu que ardia nos olhos, ao quissuco de framboesa, ao avião com assentos para fumantes, à Lei Falcão, à mãe limpando nosso ouvido com grampo de cabelo, às balas Soft.

Não adianta vir nos fuzilar com o olhar:  crescemos acompanhando fuzilamentos muito mais concretos, os dos dissidentes cubanos no Paredón e dos que tentavam cruzar o Muro de Berlim.  O mundo hoje é muito mais seguro, justo e próspero do que era 50 anos atrás.

E você ainda quer que eu estude História – até essa que eu vivi e da qual você só ouviu falar.

Raudério?