Inclusive

Muita gente criticou um vídeo sobre linguagem inclusiva, com as novas regras para a neutralização do idioma.

Machistas estruturais, homofóbicos crônicos, transfóbicos empedernidos, todos profundos desconhecedores do mistérios da linguagem e da neurolinguística, sentiriam que estariam sendo privados desse instrumento de opressão que é a língua de Camões, Vieira, Machado, Dilma e Carluxo.

Serenados os ânimos, apaziguados os espíritos, todos já devem ter compreendido que a linguagem neutra só trará benefícios, pondo fim à violência lexical e à polarização verbal.

Quem antes passava pela Glória, pela Avenida Atlântica e pela Praça do Ó, abria o vidro do carro e gritava “Traveco filho da puta!”, agora poderá abrir o vidro do carro e gritar “Traveque filhe de pute” – e isso não constituirá mais nenhuma ofensa, porque todo o caráter insultuoso terá sido neutralizado. Em vez de lhe erguer o dedo médio, as profissionais do sexo acenarão felizes, como misses na passarela, sentindo-se acolhidas na sua diversidade.

Quem poderá se sentir agredido/a/e ao ser chamado/a/e de “arrombade”? De “canalhe”, “escrote” ou “babaque”?  Toda a carga negativa, advinda do caráter sexista da língua, terá sido zerada, reduzida a pó.

Ao fim das manifestações contra e pró Freixo ou Crivella, Lula ou Bolsonaro, Fefito ou Giromini, a turma de vermelho e a turma de amarelo poderão se reunir para um chope na orla ou uma catuaba selvagem na Praça São Salvador, se tratando cordial e neutralmente de “petiste corrupte” e “bolsomínie fasciste”. Não haverá briga nem na hora de rachar a conta, porque o “garçom de merde” admitirá que houve um pequeno equívoco naqueles dois zeros a mais na quantidade de pedidos, pedirá desculpas em nome daquele “corne do caixa” e todos cantarão, com cantos e contracantos, o hino nacional e a internacional socialista.

Chame-o de “escrote”, e o guardinha não multará seu carro estacionado irregularmente.

Diga que ele é um “babaque”, e o segurança te deixará entrar (“Mas só desta vez, hein?”) sem máscara no shopping.

Explique que não curte “gorde”, e a moça não ficará magoada – e tampouco você se sentirá humilhado se ela fizer comentários sobre seu “mau hálite”, “falta de pegade” e “pau pequene”.

Por tudo isso, seu idiote, volte lá no vídeo e retire tudo o que disse. Graças àquele troca-troca de vogais, teremos finalmente a serenidade, o entendimento e o respeito de que precisamos para conviver civilizadamente. Tá esperando o quê, caralhe?

 #paz

New kid on the bloque

Quando adquiri o FB, veio junto uma caixa de ferramentas.

Gostei de algumas logo de cara – o “Compartilhar”, por exemplo. Talvez por ser fácil de usar e não requerer prática nem tampouco habilidade.  E ainda permitir que eu dissesse um monte de coisas sem ter que escrever nada – ou que “gerar conteúdo”, como se diz nesse meio.

Gostei do “laique”. Que não é bem um “laique”, mas um polegarzinho para cima, que não quer dizer que gostei, mas que tá ok. É mais um “tudo bem”, “de boa”. Fosse um aplicativo burocrata, seria uma espécie de “Nada a opor”.

Com mais parcimônia usei o coraçãozinho. “Amei”? Não, não é muito a minha praia. Não que eu não ame, mas não amo assim, tão à primeira vista. Amo homeopaticamente, porque amor não dá em penca, não é vendido à dúzia. Amei na vida menos do que devia, e não seria num aplicativo de rede social que iria tirar o atraso.

Rio de vez em quando. Muito de vez em quando. Mas quando rio é porque gargalhei mesmo.

Os botões de surpresa e de mandar força ainda devem estar na embalagem, assim como o Grr. O da furtiva lágrima, sim, usei – duas ou três vezes, porque acho triste me valer de lágrima alheia para chorar por mim. O bonequinho carpideiro está na categoria do vestido de noiva – usado uma vez só, e olhe lá.

A ferramenta mais difícil foi a do bloque. Essa exigia a leitura do manual de instruções, o que não é do meu feitio. Sou do tipo que aperta todos os botões da cafeteira até que um a faça dar à luz um café ou, por engano, um cappuccino. Aperto um a um os botões do controle remoto, do monitor, da impressora. Uma hora rola a cópia, melhora o brilho, aparece a legenda.  Prezo esse meu jeito intuitivo e antitecnológico de ser. 

(Não sei se já contei aqui que mantive um vídeo cassete – um de 4 cabeças! – encaixotado por seis meses, por bloqueio instalativo. Que tomei banho frio – em Curitiba! – por não me animar a instalar o novo chuveiro elétrico.  Dizem que isso é coisa de taurino. Confirmo a hipótese se um dia passar a acreditar em horóscopo.)

Aprendi, na marra, o uso do bloque.

O bloque é o “Não é não” do FB. É a placa de “O ambiente exige respeito” desta gafieira virtual. É a linha do impedimento. É o “Meu corpo, minhas regras”, o “A página de um homem é seu castelo”, o “Respeita Januário” do forró do padim Zucka. É o “Este saloon é pequeno demais para nós dois, forasteiro” do faroeste em que se transformaram as redes sociais.

Meus primeiros bloques foram do tipo “Você passou dos limites, colega”. Algo como “uma pisada na bola eu entendo, duas canelas quebradas eu relevo, três meses na UTI é demais”.  Eu deixava acontecer para não me sentir culpado de cometer alguma injustiça – e depois ia atrás do plano de saúde para cobrir os danos. E, ainda assim, acabava como o vilão da história.

Num segundo momento, os bloques passaram a ser “Você está brincando com fogo, camarada”. Mas eu já estava chamuscado. Apagava o incêndio, e ficava como vilão da história do mesmo jeito.

A fase 3 – na qual me encontro agora – é a da proatividade. Do jogador de xadrez que antecipa os lances. A fase do “Isso não tem como acabar bem, e é melhor extirpar antes que vire metástase”. É o bloque profilático. O cordão sanitário.

Até pela crescente dificuldade de regeneração óssea, não posso mais me dar ao desfrute de ter os ossos esmigalhados por quem ignora a bola e entra com as traves da chuteira na minha canela. Até porque dói pra caramba. Até porque fica uma cicatriz. E, principalmente, porque não é pra isso que entrei em campo.

O ar aqui ficou mais respirável depois que comecei a bloquear quem agride, quem ofende, quem não vem pra conversar, mas para criar caso. Depois que incluí no pacote quem dá suporte a essas atitudes. Quem tem esse comportamento com as pessoas de quem gosto. Porque não me iludo com a crença de que quem é calhorda com um amigo meu há de ser leal comigo.

Minha página (de textos sobre língua portuguesa), meu instagram e meu uotiçape estão cheios de mensagens desaforadas de gente que se sentia no direito de exercitar sua incivilidade aqui no meu quintal. Impedida, agora xinga do outro lado do muro.

Rêiters will be rêiters. Ou, em bom português, não peça a um pé de jaca que dê manga.

Ainda vou ler o Manual de Instruções do FB e procurar no fundo da caixa para ver se há outras ferramentas que, por preguiça, não utilizei. Tipo um filtro de gente autoritária, um sensor de quem é movido a inveja e amargura, uma arapuca para pegar boçal, um mata-burro que mantenha as récuas (sempre quis usar essa palavra!) longe das pastagens que cultivo aqui (para deleite visual, não para alimentação).  Um repelente de não devotos de Nossa Senhora da Interpretação de Texto.

Bloque não é vida, mas uma forma de se ter uma vida virtual mais saudável. De não permitir, na minha sala, gente com o pé em cima da mesinha de fórmica, jogando bituca no vaso de avencas, derramando Dolly Citrus no tapete, assoando o nariz na cortina ou puxando o rabo dos meus cachorros.

Não faço isso na casa de ninguém. A Gerência agradece se não vierem fazer na minha.

Caro Zucka,

Caro Zucka,

É com emoção que pego do teclado para traçar essas mal digitadas linhas, esperando que esta postagem o encontre gozando de boa saúde junto aos seus.

O motivo desta missiva é que, pela segunda vez, o senhor me obriga a mudar para o novo feicebuque, exatamente como fazia minha mãe, que me enfiava goela abaixo duas colheradas de Emulsão de Scott ou Óleo de Fígado de Bacalhau com o argumento de que aquilo era melhor para mim. Não era. E eu tinha que engolir (literalmente) de bico calado, ou o chinelo cantava e o couro comia.

Não vejo vantagem nenhuma no novo feicebuque. Ok, as letras ficaram maiores – mas isso eu podia fazer com o Control +. O álbuns de fotos ficaram mais difíceis de organizar.  É mais provável mencionar um governador do Rio de Janeiro que preste que achar o caminho para agendar postagens.

Mas celavi. O aplicativo é de graça, a gente está aqui porque quer, os desconsolados que se mudem para o Xuleice, o Relôu, o Miuí, o Tiquetoque.

Então, já que vai dar uma trabalheira danada levar para essas outras plataformas todas as postagens, amigos, bloques e laiques, a gente vai ficando. Mas queria sugerir alguns aprimoramentos. Coisa pouca, mas que ajudaria – como um copo de quissuco de framboesa – a engolir o Óleo de Rícino que nos espera a partir deste mês.

  1. LAIQUE QUE NÃO É LAIQUE. Andei desfazendo amizade com gente que deu laique em postagens nas quais eu era chamado de fascista, nazista, comunista, isentão, bobo, feio, pé grande e moralonge. Pois bem. Os ex-amigos – um pote até aqui de mágoa –  vieram se explicar que não é que tenham curtido: só curtiram. Não estavam de acordo. Nem leram. Mas sabe quando você vê uma postagem, não é a favor nem contra, mas tem uma comichão para clicar num botãozinho? “Fulano é um canalha”: laique.  “Quero que Sicrana morra com um furúnculo na virilha e um panarício no sovaco”: laique.  E a pessoa não acha fulano um canalha, não deseja mal à sicrana e nem sabe o que é panarício. Que tal criar um botãozinho de “Oi, sumido! Passei por aqui e resolvei dar um alô. Tutupom?”.  Assim não se compromete, não perde os amigos nem desperdiça a oportunidade de clicar por clicar em algo que nem leu. E não fica dando moral para os rêiters.
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  2. “NÃO SEI SE RIO OU SE CHORO”. Se eu ganhasse R$ 1,00 por comentário assim, o Jeff Bezos já era o vice na lista da Forbes. Bora poupar as pessoas e criar um ícone que sintetize esse sentimento tão comum à nossa brava gente que ri quando deve chorar, e não vive, apenas aguenta?
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  3. “QUERIA DAR MIL LAIQUES”. Um iconezinho de mil laiques não custa nada, custa? Depois é só colocar esse ícone elevado à segunda potência, terceira potência e a pessoa dará quantos laiques quiser.
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  4. PALANQUE. Tem gente que usa a seção de comentários para fazer discurso. Se fizer na própria página, ninguém lê. Então pega um banquinho, um megafone, e vem arengar na postagem da gente. Ali do ladinho de “Curtir”, “Comentar” e “Compartilhar”, podia ter o “Discursar”, onde a pessoa usaria todos os capisloques e exclamações que quisesse, sem prejudicar a sequência de comentários. Quem quisesse ir lá, iria por sua conta e risco.
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  5. BLOQUE. Bloque é vida, bloque é saúde, como já pontificou a Cora. Mas tem bug. A gente bloqueia o cristão no nosso perfil, achando que conseguiu um livramento, e lá vem a criatura tomar satisfação com a gente na página. Banir alguém da página é tão simples quanto conseguir que a Leilane Neubarth faça anúncio de ivermectina.  Quando a gente finalmente logra êxito e bane da página, adivinha quem aparece no insta contando desaforo?  Zucka, viabilize um bloque amplo, geral e irrestrito. Tipo medida protetiva, sabe como? Com tornozeleira eletrônica virtual e tudo. Gratidão.

É isso.
Espero ter contribuído para o aprimoramento do seu ganha pão, do qual sou grande entusiasta.

Sendo o que se apresenta para o momento, subscrevemo-nos, reafirmando os nossos protestos de elevada estima e consideração.

E.A.

Morfeu

Deus se espreguiçou, esfregou os olhos e verificou a hora no rádio-relógio: caramba! Tinha tirado uma soneca ao sétimo dia, depois de uma maratona extenuante, e acordava agora, 7h57 da manhã, quase 14 bilhões de anos depois.

Lavou o rosto, preparou um café bem forte para acompanhar o maná, o leite e o mel, ajustou os óculos e foi dar uma espiada nos portais de notícia.

Flordelis. Não, não era do seu tempo, definitivamente. Cristã, 55 filhos (“Essa levou a sério o ‘crescei e multiplicai’!”), uma peruca suspeitíssima e… peralá: matou o marido porque a lei de Deus não permite a separação.

– Eu disse isso? Mata, mas não separa?

Tinha mais. O marido era um dos filhos. Ex-genro. Frequentavam casa de suingue. Amante de uma das suas filhas-irmãs. Sobreviveu a quatro tentativas de envenenamento pela própria esposa-mãe-sogra-sócia. Uma filha-irmã pesquisara no gúgol “Assassino onde achar”. Não achou (o Uber Kills ainda não está em funcionamento). Acabou abatido a tiros numa operação que envolveu 6 dos filhos-irmãos.e um neto-sobrinho.

Flordelis, mandante do assassinato do marido-filho-genro e cafetina de uma das filhas, não queria “escandalizar o nome de Deus”.

Claro que há outros deuses, milhares deles. Mas esse Deus com maiúscula, mencionado por uma evangélica, só podia ser Ele.

– Meu Eu mesmo, o que é que está acontecendo?

Rolou a tela. Padre Robson. Cara de subsíndico. Responsável pela Romaria do Pai Eterno (“Eu!”), com 3 milhões de participantes por ano. E também responsável por apropriação indébita, falsificação de documentos, sonegação fiscal, associação criminosa e lavagem de dinheiro.

Movimentou mais de R$ 2 bilhões, desviou pelo menos R$ 120 milhões, comprou uma fazenda, uma casa de praia e gastou quase R$ 3 milhões pagando o chantagista que tinha sido seu amante.

Deus coçou o triângulo que flutuava sobre seu cocuruto. Pensou em mandar um zap para Alá, mas o Misericordioso tinha desativado as notificações depois de saber da Al Qaeda, do Talibã e do Boko Haram. Passava os dias sentado, com o olhar perdido na direção de Meca, sem sequer olhar para o celular.

Quem sabe um call pelo Zoom com Tupã, Oxóssi e Elvis, mas já sabia o que ia ouvir. Brahma e Izanami com certeza reclamariam por causa do fuso horário. Talvez uma ida a um centro espírita celestial para se consultar com Zeus, Odin, Enki, Osíris e Quetzalcóatl, mas…

Ocorreu-lhe uma solução. Já tinha feito algo parecido antes, um rebute, um Format C: – mas desta vez não daria espóiler a nenhum humano, nem disponibilizaria tutorial de como construir arca nenhuma..

Olhou de novo para os lábios carnudos de Flordelis, para o olhar oblíquo e dissimulado do padre Robson. Onisciente, lembrou-se de João de Deus, do Malafaia, do arcebispo de Boston, do Apóstolo Valdemiro.

O café tinha esfriado na caneca e as formigas celestiais acabavam de descobrir o mel e o maná e batiam as antenas freneticamente, em êxtase quase místico.

Deus pensou nas calotas polares. Se acelerasse o derretimento… Pensou na imensa quantidade de vírus ainda isolados nos seus nichos. Nas queimadas. No politicamente correto. Nas novas safras de duplas sertanejas. Arrancou da tomada o computador, sem sequer fechar os programas abertos. Voltou para o quarto, pegou o vidrinho na mesa de cabeceira, pingou na língua 15 gotinhas de rivotril, murmurou “Comigo me deito, comigo me levanto…” e não chegou a terminar a oração.  Mais 14 bilhões de anos sem aborrecimentos estavam garantidos.

Receita de sorvete de banana de mixer de pandemia

– Compre um cacho de banana-ouro na descida da serra.

– O maior, de preferência.

– Prove a primeira banana, descubra que ela ainda está meio verde e deixe o cacho amadurecendo por alguns dias dentro de uma sacola de papel.

– Repare que há uma estranha proliferação de drosófilas na cozinha e aí se dê conta de que tem um cacho enorme embrulhado numa sacola de papel, há UMA SEMANA. É preciso que o embrulho seja tão mal feito que as drosófilas consigam entrar e sair ao seu bel prazer.

– Expulse as drosófilas com um pano de prato, desembrulhe o cacho e conclua que as bananas já estão a ponto de passar do ponto. E que não há tempo hábil para comer todas.

– Descasque as bananas, descartando as que já estiverem na melhor idade.

– Pique as bananas, ponha num tapoé e congele.

– Dias depois, abra a geladeira em busca de alguma coisa doce e descubra que só tem coisa salgada. Exclame um xingamento envolvendo uma profissional do sexo que deu à luz, e apele para as bananas congeladas.

– Retire o mixer da prateleira onde ele esteve guardado por uns dois meses e tente se lembrar como é que se monta aquela geringonça.

– Sim, você já fez isso antes, mas foi no início da pandemia, quando achou que iria adquirir norráu culinário, nem que fosse na marra.

– Não, essa peça tem que entrar primeiro, depois é que entra a outra. Isso.

– Ligue o mixer na tomada, despeje cuidadosamente as bananas no recipiente e gire o botão de velocidade.

– Pois é, não acontece nada. As bananas permanecem como suas sinapses, estáticas.

– Troque de tomada. É para isso que servem as duas tomadas na bancada da cozinha.

– Não, não era a tomada. Ajuste o recipiente até fazer o clique. Sim, era isso. O clique.

– Gire o botão e, de novo, nada. Não era o clique.

– Volte à prateleira e verifique se não ficou alguma peça perdida.

– Ficou. A tampa. Por motivo de segurança, as lâminas assassinas não giram se a tampa não estiver colocada, idiota.

– Coloque a tampa, confirme o clique e gire o botão.

– Eureka!

– Fique olhando embevecido as bananas– que até então te fitavam com indisfarçável superioridade moral – virarem uma maçaroca cor de burro quando foge.

– Quando seu desejo de vingança – em relação às bananas, ao mixer, à tecnologia e à falta de coisas doces na geladeira – tiver sido saciada, desligue o botão e transfira aquela coisa pastosa para um pote.

– Pode finalizar com mel, sucrilhos etc – se bem que se houvesse mel em casa não teria sido necessária toda essa epopeia para conseguir algo que adoçasse a boca.

– Repare que metade do sorvete ficará inevitavelmente desperdiçada no recipiente do mixer, na tampa, naquele pirulito central e nas lâminas assassinas.

– Independentemente de ser um cacho enorme, dá para uma porção, e olhe lá.

Dica do chef: Não tente fazer isso em casa.

Eduardo e Insônia

Eduardo abriu os olhos, mas não quis se levantar. Ficou deitado e viu que horas eram: 5 da madrugada.

Quando foi dormir, à 1h, o vizinho de baixo ainda tocava violão e cantava. Eu não sei parar de te olhar, não sei paraaaaaar de te olhar. Não bastasse ser 1h da madrugada, era Ana Carolina.

Eduardo precisava levantar cedo no dia seguinte para viajar. Mas às 8 da noite começara a festa no apartamento de baixo, e aí adeus, Corina. Tinha uma crônica para entregar no sábado, e não dava para escrever com uma festa estranha com gente esquisita bem abaixo dos seus pés, subindo pela varanda e entrando pela janela.

Às 10h abandonou a crônica sobre sonhos abandonados.

Às 11h, decidiu que não iria sublimar a irritação escrevendo sobre a etimologia dos palavrões que gostaria de proferir.

Às 11h30 ligou para a portaria e pediu a intervenção da administração do condomínio.

À meia noite ligou de novo, para ser informado de que nada podia ser feito porque o vizinho disse que ia continuar a festa, e pronto. It’s Barra da Tijuca, man.

À meia noite e meia, Eduardo chutou o pau da barraca e chamou a polícia.

À 1h da manhã, tomou um zolpidem, enfiou plugues de cera nos ouvidos, fechou portas e janelas, ligou o ar no máximo e se meteu embaixo das cobertas – sem ter escrito a crônica e sem que a patrulhinha desse sinal de vida.

Às 5 da madrugada, tocou o despertador. Foi quando Eduardo abriu os olhos etc. Mas não teve jeito, senão se levantar.

A festa tinha acabado em algum momento entre a 1h e as 5h, porém o efeito do zolpidem ainda não. O que significa que o estearato de magnésio, o amidoglicolato de sódio, o dióxido de silício coloidal e o opadry branco se recusavam a dar os trâmites por findos.

Eduardo se arrastou para debaixo do chuveiro a fim de ativar os neurônios. Fez um café bem forte, catou na geladeira um pedaço de bolo de banana, ligou o computador, releu os textos esboçados na véspera e, meio zonzo, só pensava em voltar pra cama – mas se não entregasse a crônica nem chegasse a tempo em Juiz de Fora ele ia se ferrar.

Mesmo com o universo conspirando contra, veio mesmo, de repente, uma vontade de escrever sobre algo que não tivesse nada a ver com insônia, importunação, incivilidade ou ímpeto de cometer vizinhicídio.

Precisava de um tema que o reconciliasse com a vontade de viver. Uma paixão, talvez. Mas aos 60 e lá vai fumo, já na prorrogação, a caminho dos pênaltis? Por que não? – pensou.  Bananeira que deu cacho ainda pode dar sombra. Uma sombra meia boca, mas pode.

Entupiu-se de cafeína e segurou legal mais essa barra pesada que lhe impuseram.

Não escreveu com o cérebro – onde a cafeína achou estranho, e melhor não comentar, mas tinha hemitartarato até no cerebelo. Escreveu fingindo ser outro – já sem sono, ainda com sonhos – e a crônica nasceu depois de uns goles de café a mais, mais ou menos quando os primeiros barulhos do dia vieram.

Escreveu como se acreditasse ser possível outro tipo de arritmia cardíaca. E quem um dia irá dizer que existe razão nas crônicas escritas pelo coração?

~

[Todos os personagens e situações reais são fictícios. Qualquer semelhança com cronistas homônimos e perrengues realmente acontecidos terá sido mera falta de imaginação.]

Vivendo em comunidade

Tenho sido muito injusto com meus vizinhos. Não devia me queixar deles, mas agradecer-lhes do fundo dos cafundós da minh’alma.

O vizinho de baixo deve saber que moro sozinho e tenta me enturmar fazendo festas na varanda, de modo que pareça haver 20 pessoas na minha sala.  No meu sofá. Abrindo minha geladeira e pegando minha última latinha de cerveja.

Deve saber que fico zapeando na Netflix sem achar quase nada interessante, então compartilha comigo as laives sertanejas. Se sacrifica, altruisticamente, ouvindo-as num volume que lhe há de avariar os tímpanos, só para que eu possa escutar tudo perfeitamente onde quer que eu esteja no meu apartamento.

A vizinha de cima deve saber que não malho, e faz o possível para me incentivar a abandonar o sedentarismo. Ela poderia se exercitar em qualquer lugar, mas prefere fazê-lo na varanda, logo de manhã cedo, de maneira que a música de academia (tum tum tum), os pesos caindo no chão (TUM TUM) e as batidas ritmadas na laje (piso dela, teto meu) não me deixem dúvidas de que eu tinha que estar queimando calorias, não tentando completar, a duras penas, as 8 horas de sono.

Ela deve intuir que eu viva em total solidão, e se apiedar deste ermitão desgarrado. Por isso toda noite, ali por volta das 23h, faz questão que eu saiba que não estou sozinho no mundo. Que há alguém por perto.

Outra mais abusada ligaria para dizer “boa noite, vizinho; se precisar de algum coisa, estou aqui”. Mas ela é educada demais para telefonar para um desconhecido a essa hora e, talvez, parecer incômoda. Então arrasta os móveis: cama, mesa, cadeiras, sofás, geladeira, cômoda.

Devo estar exagerando. Como o barulho é bem acima da minha cabeça, suponho que arraste só a cama, o armário embutido e a mesinha de cabeceira.

Pela manhã, depois da malhação, sabendo que não tenho amigos nem família, faz questão que eu participe de todas as suas ligações telefônicas. Jamais telefona da sala, do quarto ou – para dizer coisas mais íntimas – sentada no banheiro. Debruça-se na varanda, e me põe a par de todos os seus assuntos, por inteiro.

Os vizinhos do prédio em frente certamente estranham que eu não tenha gosto musical – já que nunca ouviram nenhum som a mais de 500 decibéis oriundo aqui do meu cafofo. Isso explica sua generosidade em dividir comigo, tão efusivamente e com tanto gosto, o gosto que têm. “Pé na areia, caipirinha, água de coco, cervejinha. Pé na areia, água de coco, beira do mar”, repetem – uma, dez, cem, cem mil vezes, todo fim de semana, talvez receosos de que eu ainda não tenha decorado a letra e por isso continue, silencioso, aqui no meu canto.

Supõem que eu não tenha dinheiro para comprar carne, e churrasqueiam não só nas churrasqueiras mas também nas varandas, repartindo comigo o cheirinho da sua proteína animal.

E eu, ingrato, ainda reclamo. Mas eles sabem que quando escrevo aqui e no livro de ocorrências para reclamar, é porque os amo. Quando digo que não quero mais essa muvuca, é porque eu quero. Eu tenho medo de abrir meu coração e confessar que estou em suas mãos, e não posso imaginar o que vai ser de mim se eu me mudar um dia.

Por isso, chega de mentiras, de negar o meu desejo. Eu quero mais que tudo ouvir – noite adentro –  funk, sofrência e sertanejo. Eu entrego a minha vida para os vizinhos (de baixo, de cima, da frente) fazerem o que quiserem de mim. Só espero que isso – assim como minha ingratidão – um dia tenha fim.

Vila do sossego

Alguém sugeriu – e eu encampei – a ideia de um condomínio para pessoas que queiram viver em paz.  Uma comunidade de ermitões, por assim dizer (pode parecer um paradoxo, mas a vida seria muito sem graça sem uns despropósitos aqui, uns oximoros acolá).

Dois lotes já estão reservados, um para mim e outro para a Chica da Silva. Por sermos os primeiros, teremos a prerrogativa de escolher. Ela deve ficar com o lote A; eu, para manter o distanciamento social, com o Z.  Como o loteamento é circular, acabaremos vizinhos de porta, que é como estava desde sempre destinado a ser.

Nosso empreendimento oferecerá uma fabulosa infraestrutura aos futuros moradores. NÃO terá quadras de esporte, NÃO terá piscina, NÃO terá cozinha gurmê. Nada de salão de festas, pleigráunde ou churrasqueira. Terá ar puro, silêncio e mato. Afinal, é um condomínio para pessoas de bom gosto, gente de fino trato.

As ruas – ou melhor, alamedas – terão árvores frutíferas, garantindo o café da manhã. Aqui e ali – porque a gente também come com os olhos – um ipê, uma quaresmeira, um flamboiã.

A taxa condominial será paga em serviços. Chica se dispõe a fazer faxina, eu me habilito a passear cachorro. Os candidatos aos lotes remanescentes não precisarão apresentar comprovante de renda, mas declaração de habilidades. Não haverá restrições de sexo, gênero, orientação, ideologia ou idade.

Tampouco será preciso nenhum talento excepcional, nem dotes paranormais ou superpoderes. Mas passar roupa será tão inútil quanto ser amolador de colheres. Ser cozinheiro de mão cheia vale mais que saber, como eu, descongelar comida pronta. Lavar roupa à moda antiga, com anil e quarador, contará mais que o saldo em conta.  

Os moradores poderão conversar com plantas e os animais, sem medo de serem vistos como malucos Até porque um pouco de maluquice é uma questão de higiene. Pede-se apenas que não falem muito alto nem entrem em tretas com as maritacas (como costuma fazer o Novaes, pretendente ao lote N).

O silêncio será permitido antes e depois das 22. Pensando bem, durante também, para não deixar brecha jurídica (vai que o Helinho, candidato ao lote H, resolva se mudar pra lá e venha com chicana para aprontar uma das suas).

O lote G é do Gomide, desde que não descuide do isolamento acústico, mantenha a adega liberada e tenha sempre alguma opção vegana no cardápio (pelo menos umas 20).  E, claro, se comprometa a terminar os saraus antes das 6 horas (do dia seguinte).

A Ana Zinger –que abarca todo o alfabeto – pode escolher o lote que quiser. E também como quer pagar a taxa do condomínio – se em aula de canto, de fotografia ou dividindo uma cerveja (duas, três, quatro…) ao cair do dia.

Com os lotes A e G já tomados, o André Gabeh poderá ficar com o C, de Carvalho – árvore à cuja sombra há de escrever, desenhar e cantar para que a gente o aplauda. E, sim, como não?, pode trazer dona Alda.

Como o lote N já tem dono, a Yara terá preferência para o Y, e o compromisso de cultivar ali uma nogueira (a quem chamaremos, com carinho, de Sylvinho).  Aninha Franco terá poderes plenipotenciários para estabelecer no lote F uma embaixada da República do Pelourinho.  Márcia Valle, seu ateliê de costura no lote V. A parceira Dina Tavares, para facilitar as parcerias, há de ocupar o D.

A Laïs pode ocupar o lote L, ali ao lado da Praça Claudinha Telles, para as oficinas de roteiro. A Cristiana Beltrão já tem alvará para uma filial do Bazzar no lote B, e não há de faltar candidato a aprendiz de cozinheiro.

O R é da Maria Roberto – ninguém ali precisará de contadora, mas, para o caso de falta de inspiração, é sempre bom ter uma musa por perto. 

Se as regras para o empreendimento estiverem muito complicadas, depois a gente simplifica. Mas algo me diz que tem tudo pra dar certo. Não concorda, Chica?

Duda Mind Control

Meus (meus? ok, meus) cachorros foram “adotados”, tirados da “situação de rua”.

Duda, mais morta que viva. Chico, um bebê que cabia na palma da mão, desnutrido e tomado por carrapatos. Tião, magrelo e com o pelo duro, largado num monte de brita, numa obra.

Hoje dormem em cama (comeram as caminhas que comprei para eles), se esparramam no sofá (onde, às vezes, sobra algum espaço pra mim), tomam banho de chuveiro (com um xampu mais caro que o meu). Mas continuam “de rua”. Rueiros que só.

Têm um relógio biológico que não conhece horário de verão, data de entrega de projeto, elevador em manutenção ou vendaval. Deu a hora de ir pra rua, cessa tudo que a antiga musa canta que outro valor mais alto (e com unhas afiadas) se alevanta.

É uma espécie de volta às origens. Aos postes. Aos cheiros de xixi de centenas de outros cachorros. Ao paraíso perdido.

Duda é a fêmea alfa. É ela quem puxa a matilha, quem escolhe o roteiro. Tem dia em que encasqueta de ir para a esquerda, tem dia em que nada a demove de seguir pela direita. Há de ter seus motivos – que acato, por não serem ideológicos, mas possivelmente estarem ligados ao olfato apurado. Se algo não cheirar bem, é pra lá mesmo que ela vai. Pensando bem, tem ideologia aí, sim.

O problema é que nenhum passeio é longo o suficiente para ela. Sua meta é se afastar de casa indefinidamente. Se depender dela, pegamos a Américas, a Linha Amarela, a Washington Luís, a 040 e não paramos antes do km 2000 da Belém-Brasília.

Ao mais leve indício de que eu possa estar iniciando um procedimento de retorno, ela trava. Crava as patas no chão e ergue aqueles olhos súplices de “Mas já?” – estejamos andando há 15 minutos ou há hora e meia, debaixo de chuva ou de sol implacável.

Não sei que GPS ela usa, mas é infalível. Independentemente do caminho – e eu vario sempre o caminho – basta embicar num sentido que lhe evoque a sensação de “volta” e ela liga a seta na direção contrária. Não adianta tentar a manobra da curva suave à esquerda fingindo rumar para o parcão, ou o artifício de uma falsa guinada na direção da praça, ainda fechada por causa da pandemia, onde ela gostava de correr na areia.

Ela me conhece. A alma humana, para ela, não é nenhum abismo: é óbvia como um comprimido “disfarçado” na comida, um cafuné a caminho do banheiro onde ela já farejou o maldito xampu no box.

Não pode ser só instinto ou psicologia aplicada. Suponho que haja telepatia envolvida.