Tatu

tatu

Lu resolveu que precisava fazer uma nova tatuagem.

Já tinha um alienígena, uma rosa, uma frase feminista, quatro ideogramas, grafismos maoris e celtas, um leão (seu signo), uma medusa subindo pelo pescoço, uma fênix, uma coluna vertebral em 3D ao longo da coluna (nascendo em cima da palavra “like” de “A woman without a man is like a fish without a bicycle”, em letras góticas) e uma orquídea.

Tinha também um código de barras no antebraço esquerdo, a língua dos Rolling Stones na lateral do seio, uma alcachofra no ombro, uma mão de Fátima no dorso da mão, uma flor de lótus no dorso da outra, dentes de leão logo abaixo da axila, uma coruja na panturrilha (era para ser na omoplata, mas ali, além do leão, já havia uma carpa, um unicórnio, uma Betty Boop, um Om e uma inscrição em árabe – que o moço que vendia esfirra artesanal traduziu como “Imóvel à venda, tratar com Jamile na loja de ferragens”, mas preferiu não contar).

Num dos pulsos, tinha um zíper; no outro, um cacto, uma borboleta, um filtro dos sonhos e um bando da andorinhas. Nas pernas, um arco íris, um yin e um yang, um revólver atirando flores, uma Jéssica Rabbit, uma rosa dos ventos, uma equação de segundo grau, um jogo da velha e um Coringa (o do baralho).

E agora precisava (precisava muito!) fazer um Chapolin Colorado, mas… não encontrava mais lugar.

Na virilha, havia cerejas (lembra da orquídea? ficava de um lado e as cerejas do outro – e, quando a depilação estava em dia, era possível ver com mais clareza um escorpião, que era seu ascendente, e uma lua em Capricórnio).

Talvez pudesse fazer o Chapolin entre o elefante, o dragão, o número 7 e a salamandra, que ocupavam as costelas de um lado (do outro, estavam um sapo, uma smurfete, uma jangada feita por um argentino em Jericoacoara – com um símbolo esotérico ancestral na vela, que Lu depois descobriu ser o escudo do River Plate -, uma estrela cadente, uma terra plana, um colibri, uma calculadora Cassio – com 3,1614 no visor -, uma libélula e um pentagrama).

Logo abaixo das nádegas, vinham um girassol, um gato, duas mandalas, uma âncora, Naruto, Pinóquio, e=mc2, um parafuso, uma cornucópia, e XIIIII/VIIII/IIMMIIII (data da primeira menstruação, supostamente em algarismos romanos, feita por uma tatuadora holandesa em São Tomé das Letras).

Resumindo – não cabia mais nada – porque numa nádega havia uma baleia jubarte com o filhote e, na outra, Alice com o Chapeleiro Maluco e uma barra de Toblerone.

Mas como ficar sem o Chapolin?  Num dos seios, tatuara um vulcão (o mamilo era a cratera, de onde a lava escorria até perto do ferro elétrico e a tábua de passar, homenagens à sua mãe). O outro seio era coberto por uma teia de aranha, sendo a aréola o abdome da caranguejeira, em alto relevo. Do umbigo subiam delicadas volutas verdes até encontrar as frases “Carpe diem”, “Accept your destination” e algo em sânscrito, que o moço que vende esfirra artesanal não conseguiu traduzir, mas que o tatuador peruano de Morro de São Paulo afirmou ser “Amar, pode dar certo” – assim mesmo, com vírgula e tudo.

Lu postou seu desespero no insta. De joelhos (num deles havia uma fada e um manete da Nintendo; no outro, um dálmata, um apontador de lápis e uma Frida) ela perguntava como ia viver sem o Chapolin Colorado, já que a mãe a proibira de tatuar o rosto (só mesmo o olho egípcio nas pálpebras, e olhe lá).  Alguém sugeriu pedir emprestado espaço na pele de outra pessoa, mediante pagamento. Apareceu um rapaz que ainda tinha cerca de 5 cm2 disponíveis na nuca e morava em Senador Firmino, MG. Não era a localização ideal, mas ele se comprometeu a passar máquina zero uma vez por mês e mandar uma foto para comprovar que o Chapolin continuava bem visível.

Lu e o namorado sentiram que havia ali um filão e criaram o Tattoober, que agencia pele extra para quem já não tem mais espaço no próprio corpo. Você diz que tatuagem quer fazer e as pessoas dizem que partes do corpo ainda têm disponíveis. Se der match, é só pagar a taxa e chamar o tatuador (a fatura cai no cartão do tatuado virtual).

Além do Chapolin em Senador Firmino, MG, Lu tem um teletubie roxo num ombro em Camaçari, BA, e uma tribal marajoara numa panturrilha em Zamboanga, nas Filipinas.

Para evitar que alguém venda tatuagem e aplique henna, a Tattoober exige que o procedimento seja transmitido onlaine, enquanto o tatuado remoto recebe agulhadas sem tinta, só para criar um vínculo álgico (também conhecido como “aquela deliciosa dor desgraçada”) com o desenho que irá circular em outra parte do corpo, em outra parte do mundo.

Hoje, Lu acordou precisando muito (muito!) tatuar um louva-a-deus ou um filtro de linha – não definiu ainda. Viu que há um cóccix disponível em Paragominas, PA, e uma parte de trás da coxa em Cochabamba, na Bolívia. No Rio, o cm2 de pele virgem está uma fortuna, e mesmo assim só se encontra em freiras na clausura do Convento de Santa Teresa e numa comunidade neopentecostal de Brás de Pina.  Mas de que adianta uma tatuagem que ninguém vai ver, a não ser numa eventual autópsia?

Lu e Beto, o namorado, têm estudado formas de fazer tatuagens internas, por meio de videolaparoscopia. A Anvisa ainda não foi consultada, mas já há lista de espera para quem quer uma sereia no fígado, um coração flechado no pericárdio (olha que fofo!) e uma caveira mexicana no interior do crânio.

Mas esta semana uma digital influencer belga chocou a internet e foi parar nos trend topics ao tatuar 100% da superfície corporal no tom da sua pele original. Suas aparições em público sem nenhum rabisco têm provocado uma onda mundial de pasmo e indignação. Especialistas se dividem entre tratar-se de um caso de exibicionismo crônico ou de incapacidade de expressar os próprios sentimentos.

O julgamento da desgaratujofobia deve entrar na pauta do STF em 2020. A Ministra Rosa Weber já prepara um voto em que fala das pintura rupestres, dos petroglifos de Nazca, dos corações em casca de árvore, dos queloides, das assinaturas no gesso do braço quebrado, passando pelos bois marcados a ferro quente, o chicle de bola Ploc, a hermenêutica teratológica e os carimbos usados nas boates para indicar quem já pagou.

Lu nem dormiu esta noite pensando em tatuar a íntegra do voto. Mas para isso precisa da população da China, da Índia, da Indonésia, do Paquistão e da Nigéria, além de quem acha que o Papa deva ser enquadrado na Lei Maria da Penha por espancar aquela fiel na Praça de São Pedro. E, ainda tem que fazer um ajuste no Chapolin Colorado, que saiu com M, não com N.

Teste de mineiridade

mineiro

Nem farialimer nem lebloneur.
Quão minerim você é?

1) O que é um tendepá de cuia?
a) Prato típico do Jequitinhonha
b) Artesanato da Serra do Cipó
c) Confusão generalizada

2) Onde fica a cacunda?
a) No cafundó do Judas
b) Nas costa
c) No pirulito da Praça Sete

3) O que é o Pirulito da Praça Sete?
a) Uma guloseima
b) Um obelisco
c) Um palhaço

4) O que é xuxá?
a) Infiá
b) Pelejá
c) Tê um troço

5) O que é cubu?
a) Mulher feia
b) Doença
c) Um doce

6) O que é bobiça?
a) Bestagem
b) Uma hortaliça
c) Peça de carrinho de rolimã

7) O que é custoso?
a) Caro
b) Delicioso
c) Difícil pra dedéu

8) O que é disgrama?
a) Desgraceira
b) Exame laboratorial
c) Equipamento de jardinagem

9) O que é gastura?
a) Desperdício
b) Queimação
c) Nervoso

10) O que é manota?
a) Vexame
b) Alguém sem mão
c) Animal perissodáctilo da família Tapiridae

11) O que é levar manta?
a) Carregar um cobertor
b) Transportar carne de sol
c) Tomar prejuízo

12) ‘Tem base?” significa:
a) Você trabalha com cosmético?
b) Há fundamentos?
c) É sério?

13) ‘Mexer’ significa:
a) Mover
b) Provocar
c) Trabalhar com alguma coisa

14) Em qual das frases a palavra ‘joia” está corretamente empregada?
a) Comprei uma joia
b) Você é uma joia rara
c) Cê tá joia?

15) O que é ‘quimportamilá”?
a) Móvel de origem francesa, usado para guardar os trens
b) Um mucado de um tan de coisa
c) Faço pocaso diss

16) Para que servem as últimas sílabas das palavras?
a) Pra rendê um dediprosa, uai
b) Facideia. Cadiquê?
c) O que são “últimas sílabas das palavras”?

Gabarito:

(Se você precisa de um gabarito é porque não é minerim. Mas vamlá.)

– Dúvida em mais de 5 questões: Você é um minerim muito pros coco. Deve ser, no máximo, de Xistifora.
– Dúvida em menos de 5 questões: Aqui, fica de butuca que falta só um cadiquim pra panhá jeito.
– Dúvida nenhuma nas 15 questões: Ê lá em casa!

Aval intelectual

Livros

Meu próximo passo é ter um canal no iutube. Ou pelo menos postar umas laives.
 
Sobre o quê? Faço a menor ideia. O importante é que tenha uma estante ao fundo.
 
Estante ao fundo dá um ar acadêmico, agrega estofo intelectual. Cada volume ali no segundo plano é um viés de confirmação encadernado.
 
Sem contar que duvido que seja só eu que fique tentando ver o que está escrito nas lombadas e nem preste muita atenção ao que é dito, embasbacado com todo aquele bequigráunde cultural. Afinal, é pra isso que serve a estante ao fundo, não?
 
“Será que ele leu aquilo tudo?”. Claro que não. Ninguém leu todos os livros que tem na estante. Mas por que alguém teria aquele tanto de livro em casa? Porque a gente compra livro por impulso. Porque ganha livro de quem acha que a gente lê muito. Porque a gente pega emprestado e não devolve. E para fazer figuração numa laive.
 
Breve, as livrarias – que já têm seções de clássicos, autoajuda e de livros com palavrão no título – terão também um espaço reservado a títulos escolhidos a dedo para fundo de laive.
 
– Boa tarde, vou fazer uma laive sobre neoliberalismo quântico. O que você tem nessa área?
– Pró ou contra?
– Se falei “neoliberalismo” é porque é contra, né?
– Desculpe, é que essa sua barba feita me deixou em dúvida. Este último lançamento do Jessé Souza tem tido muita saída. Capa dura, cores firmes que garantem boa definição mesmo em laives feitas com celular de segunda linha.
– Queria algo mais disruptivo, entende?
– Contemporâneo, disruptivo e com lombada de cores que valorizam uma laive progressista nós temos o Felipe Neto. Vai bem com estantes de madeira escura, pintada de branco ou até aquelas de sebo, de chapa de ferro.
– Me vê um Felipe verde limão, um azul piscina, um rosa choque e, vá lá, um Jessé daqueles magentas ali.
 
~
 
Antigamente, a gente tirava foto fazendo pose ao telefone – lembra disso? Nas fotos feitas na sala de visitas, dava-se um jeito que aparecessem o cinzeiro de cristal na mesinha de centro, a estante com a Barsa ao fundo e, ao lado, a mesinha do telefone, com o dito cujo.
 
Foram-se o cinzeiro, a Barsa, a mesinha de telefone, o telefone. Resistindo bravamente ao kindle, ficou a estante.
 
A laive na frente da estante dando a entender que a gente lê muito é o novo retrato fingindo que fala ao telefone.
 
Uma estante cromática e ideologicamente equilibrada é tendência para 2020. Clássicos, sim, mas quando a falsa erudição é demais até o seguidor de laive desconfia. Aquelas coleções imensas, que ninguém nunca nem abriu, encadernadas em verde, com letra dourada, pode esquecer.
 
É de bom tom que os livros estejam arrumados, pero no mucho. A estante deve dar a impressão de que os volumes já foram consultados um dia. Cai bem um objeto de decoração, desses cuja procedência estrangeira seja claramente identificada. Um e outro livro na horizontal, displicentemente pousado sobre os demais – lembrando, sub-repticiamente, que é tanto livro que nem cabe mais em pé.
 
Já deve haver até personal-estanters, encarregados de customizar estantes para laives.
 
– Olha, Orwell e Clarice nunca saem de moda. Ficam bem tanto numa laive densa, daquelas com iluminação cênica, rosto meio na penumbra, quanto numa informal, de luz chapada, para fofoca de celebridade.
– Eu queria um casual chique, que valorizasse o Q.I. mas com pegada.
– É bom ter sempre um russo para agregar valor, um desses portugueses que insistem em escrever como antigamente – mas têm capas lindas -, um autor étnico para garantir a diversidade, um desconhecido que ganhou o Nobel e só por isso foi editado no Brasil, um da Rita Lobo – que dá leveza e gera empatia imediata – e pelo menos um dicionário de qualquer coisa.
– Que tal algum da lista dos mais vendidos, pra mostrar que sou antenado?
– A menos que seja uma laive sobre terraplanismo ou tutorial de bronzeador caseiro, jamais deixe um bestisséler à vista. E lembre-se: lombadas em tons de azul enfatizam a assertividade, em tons de laranja levantam o astral. Lombadas verdes, amarelas e vermelhas, só em casos específicos – e nunca misturadas.
 
Para não ficar monótono – e caso não se disponha de livro suficiente para três prateleiras -, pode-se fazer laives em livrarias e bibliotecas. Normalmente não estão muito cheias e têm livro à beça.
 
O problema de ir a bibliotecas ou livrarias é quererem te empurrar algum.
 
– Não quer pegar um Bagno, um Safatle, emprestado? Devolve quando puder, sem multa…
– Não, obrigado.
– Um Olavo, então? Temos vários Olavos. Pegando um Olavo emprestado, leva 3 Sinottis que nem precisa devolver.
– Não, não…
– Olha, temos esse combo: Karnal, Cortella e Pondé. Três em um. Ou um em três, tanto faz. Pode fazer testidraive, sem compromisso.
– Olha, eu só queria mesmo fazer uma laive com um fundo culte, entende?
– Ok, você venceu. Temos uma promoção imperdível: levando dois Marilena Chauí, vai de brinde a coleção completa da Márcia Tiburi, inteiramente grátis. Com papel de presente, cartãozinho, caneca customizada e Uber por nossa conta.
 
~
 
Uma opção é comprar papel de parede imitando estante. Sim, existe. Nem precisa forrar a parede toda. Um m2 basta. É só tomar cuidado para não aplicar no sentido errado. E nem precisa usar óculos. O charme de intelectual está garantido.

O sol nasceu pra todos

perineo 2

Eu podia estar escrevendo sobre rânquim do Pisa, que colocou o Brasil abaixo da Moldávia, da Jordânia, da Romênia e da Bielorrússia – mas, ainda assim, acima do Cazaquistão, da Albânia e – certamente – do Haiti, do Sudão do Sul e da Guiné Equatorial.

Podia falar que só resta ao Cruzeiro, depois da derrota para o Vasco (e para o CSA!), cortar três zeros e mudar o nome para Cruzado.

Podia conjecturar sobre que cargo irão ocupar no governo a Inês Brasil, o Inri Cristo, o ET Bilu e o Menino do Acre.

Mas o assunto que não quer calar é o bronzeamento do períneo.

Se o sol nasceu para todos, por que não para o períneo?

O períneo é uma daquelas regiões que pareciam fadadas a viver nas sombras. Uma espécie de eminência parda da anatomia. Um Uruguai, com inúmeros atrativos, mas espremido entre dois vizinhos muito mais poderosos.

A etimologia dá uma pista: o prefixo de περίνεος (períneos, para quem, como eu, não entende lhufas de grego), é o mesmo de periferia, peripécia, período, perímetro, periscópio. “Peri” = O que está à volta, ao redor, em torno de.

O períneo nasceu para vice. Para papagaio de pirata. Nem chega a coadjuvante: é só figuração.

Sabe aquela moça que passa lá atrás, em segundo plano, de sombrinha, nas novelas de época? Pois é, ela é o períneo da cena. Sem ela, a coisa ficaria meio falsa. Não é preciso haver uma rua de verdade, com gente de verdade passando, cada um protagonista da sua própria existência. Daria muito trabalho. Basta, para conferir certa credibilidade, uma moça anônima andando sem rumo, de sombrinha, indo do nada a lugar nenhum para fazer coisa nenhuma. A diferença é que, no corpo humano, essa moça de sombrinha tem nome: chama-se períneo.

E por que tomar sol no períneo?

Porque já esgotamos todas as outras possibilidades. Já inventamos o creme para cotovelo. A barba desenhada. A cirurgia para fazer covinha no rosto. A prótese de silicone para panturrilha. A depilação em forma de bigodinho nazista. O papel higiênico com sabor pêssego. E o períneo lá, feito um dois de paus, fazendo cara de paisagem.

Já houve uma peça chamada “Monólogos da vagina” e uma entrevista da Marcia Tiburi sobre o cu ser laico. E o períneo ali, calado, esperando a deixa que não vinha. Na boca do gol esperando o passe. Quase um Príncipe Charles, há 70 anos com o pé na embreagem esperando o sinal abrir para engatar a primeira. E nada.

Imagino que tenha havido uma reunião de pauta numa dessas empresas que detectam tendências e turbinam a internet, e depois de um chequiliste completo viram que não faltava problematizar mais nada no corpo humano.

– Baço já foi tendência?
– Já. No outono de 1987.
– O mesentério?
– Verão de 1941.
– As amídalas?
– Da década de 70, quando ainda nem se chamavam tonsilas.
– As trompas de falópio?
– Essas passaram por um branding e agora são tubas uterinas.
– Então acabou. Até o complexo de golgi já foi pauta. Vamos ter que dispensar todo mundo e mudar de ramo.
– Não péra! Como é que chama aquela parte ali entre o… o… e a… a..
– Onde, Aparecida?
– Lá.
– Desembucha, Aparecida.
– Lá, gente. Naquele São Conrado genital, entre o Leblon e a Barra…
– Aquilo tem nome?
– Acho que tem. É alguma coisa tipo pericarpo, peritônio, periodontista, perinatal…
– Períneo!
– Isso! Vamos jogar alguma luz ali?

E foi assim.

~

Disclêimer:
1. Esta é uma obra de ficção;
2. Contém ironia;
3. Não há qualquer intenção de ofender os súditos de Sua Majestade ou, mais especificamente, seu herdeiro ao trono;
4. Jamais me ocorreu magoar nenhum país vizinho com referências depreciativas à sua localização geográfica;
5. Os estudantes cazaques, albaneses, haitianos, sudaneses do sul ou guineenses equatoriais merecem todo o nosso respeito;
6. Esperamos que nenhum torcedor do valoroso CSA se sinta ultrajado;
7. O Cruzado foi uma moeda legítima como qualquer outra, em nada inferior ao Cruzeiro ou ao Conto de Réis (que será o nome do time quando cairmos para a terceira divisão);
8. Inês Brasil é uma artista talentosa, não compactuamos com nenhum tipo de intolerância religiosa ao inricristianismo, extraterrestrial lives matter, e eu tenho o maior xodó pelo Acre;
9. A categoria profissional dos figurantes tem papel fundamental na dramaturgia, e jamais poderá ser considerada mera coadjuvante;
10. Desenhar a barba é uma opção estética lícita e a diagramação do púbis é uma decisão de foro íntimo;
11. Papagaios são animais silvestres e não devem ser retirados no seu habitat para viver em gaiolas ou no ombro de bucaneiros;
12. Empresas de trêndim e brêndim, assim como as de côutchim, fazem parte da economia criativa, geram empregos, pagam impostos e não devem ser alvo de pilhérias;
13. São Conrado é um bairro nobre e paga um dos mais altos IPTUs do Rio, sendo injusta qualquer ilação sobre ser apenas um lugar de passagem;
14. Em nenhum momento me ocorreu insinuar que a Barra da Tijuca – que, inclusive, é meu lar – seja o orifício anal do Rio de Janeiro.
15. Nenhuma Aparecida sofreu maus tratos na redação deste texto.

(Ufa, acho que já me defendi de todas as possíveis acusações. A menos que algum barista grego com complexo de golgi apareça – mas acho que as chances de isso acontecer são remotas).

Por um bullying de café

Cafe

Barista não é o sujeito que entende de café.

É o sujeito que problematiza o café.

É o que procura (e acha) defeito no café, enquanto a gente, que gosta de café, bebe café e pronto.

O barista está para o café assim como certos homens estão para as mulheres. Tão bonita, mas tem estria. Não tem estria, mas o seio esquerdo é um centímetro mais baixo que o direito (não sei se você já reparou, mas o direito é normalmente um pouco mais firme e altaneiro, principalmente nas mulheres destras; eu nunca reparei).

O barista está para o café assim como certas mulheres estão para os homens. Bonito, mas tem pelo no ombro. Não tem pelo no ombro, mas é casado. Ou seja, qualquer pequeno defeito invalida todo o conjunto.

O barista não gosta de tomar café, mas de fazer café. Gosta do ritual.  Da liturgia. Da misancêne.

Não pó pô pó no melita e despejar água quente.

Não.

Água quente não serve, muito menos água fervente: tem que ser água entre 93ºC e 94ºC.

Logo, para fazer café você precisa de pó, filtro, água (entre 93ºC e 94ºC) e um termômetro.

O pó deve ser moído (de preferência, na hora) na granulometria correta – nem grosso, nem médio, nem fino, mas médio mais para fino. Sabe aquela cara de desprezo que o garçom faz quando você pede filé ao ponto, mais para mal passado? Pois é, prepare-se que ver essa expressão na cara da tia do cafezinho quando você se tornar um coffee snob.

Para coador de pano, a proporção é de 8% de café, ou 80 g de pó, por litro de água. Para filtros de papel, 1% a menos. Portanto, além do termômetro, leve também uma balança de precisão para a pia da cozinha.

Não é de qualquer jeito que se deve proceder ao milagre diário da transformação da água em café. Nada de jogar duas colheres de pó e ir despejando água. Se for usar filtro de papel, ele tem que ser previamente umedecido – ou melhor, escaldado. Com água, claro, entre 93ºC e 94ºC.

Escaldado o filtro (e descartada essa água), aí, sim, se depositam os 8% de pó (sem apertar!) e é adicionada a água, em fio, de forma lenta e constante. Não no centro do coador, mas pelas bordas, em movimentos circulares no sentido anti-horário (essa parte eu que inventei, mas não duvido que haja algum barista que garanta que o sabor do café coado no sentido horário seja outro). E não despeje toda a água de uma vez: regue um pouco e deixe hidratar. Só depois adicione o restante.

Em briga de homem e mulher a gente já mete a colher. Ao coar café, não. É cafecídio, crime inafiançável.

Depois desse sacrifício todo, nem pense em colocar açúcar e esconder as notas sensoriais do café. Você não vai querer perder aquele toque cítrico ou floral, de avelãs, noz moscada ou tabaco, vai?

Sim, pode levantar o dedinho na hora de segurar a xícara. Ninguém é de ferro.

 

 

 

 

Um conto de fadas moderno em 10 atos

Fada

1.
Drigo é um homão da porra.
Sensível.
Desconstruído.
Gosta de cozinhar.
Relaxa fazendo crochê.
Participou do curso de gestante, fez força no parto junto com a Nanda.
Tirou licença para cuidar dos bebês.
Faz trança, bota laço, ajeita a sapatilha e se emociona na apresentação de balé do Júnior.
Nanda é uma mulher forte.
Decidida.
Empoderada.
Trabalhada na sororidade.
Relaxa fazendo krav maga.
Abriu mão da licença maternidade para se dedicar a um projeto da empresa.
Leva a Manu no muay thai, no jiu jítsu e a fantasia de Frida no carnaval.
2.
Drigo começou depilando as axilas por achar mais higiênico.
Depois depilou o peito porque sentia que aquele tufo saindo pelo colarinho exalava masculinidade tóxica.
A turma com quem malhava glúteos achou estranha a depilação apenas do umbigo pra cima e aí ele tirou o resto.
Gostou do resultado.
Sobrancelha, só para acertar o desenho, porque tudo tem limite.
Nanda começou parando de depilar as axilas porque achava opressor.
Abandonou a depilação da virilha porque era uma sujeição aos padrões estéticos do patriarcado.
Acha que as mulheres devem se aceitar como a natureza as fez, e se exibe, orgulhosa, no instagram, com as canelas felpudas.
3.
Drigo não se sente à vontade para tomar a iniciativa no sexo. Acha que tem um quê de assédio, sei lá.
Tem se queixado com os amigos que a Nanda já não o procura mais como no início do relacionamento.
Nanda precisa que o secretário a lembre da data de aniversário do casamento.
Chega quase sempre cansada do trabalho. Com tanto problema na cabeça, não tem muito pique pra transar. Pelo menos não em casa.
4.
Júnior odeia balé, mas entendeu que um menino deve ser obediente.
Manu acha o muay thai muito chato, e preferia uma Barbie esquiadora à Frida artesanal.
Manu aprendeu granjetê com o Júnior. Tem deixado os coleguinhas do muay thai desconcertados – e com hematomas.
Júnior aprendeu chave de braço, joelhaço e faca de mão com a Manu. Ninguém mais se mete com ele quando o vê saindo de tutu.
5.
Drigo tem lido algumas revistas masculinas, que dão dicas para resolver o problema das unhas quebradiças e sugestões de como apimentar o relacionamento.
Nanda se cadastrou num aplicativo de encontros – com nome falso – e tem tido encontros casuais na hora do almoço.
6.
Júnior se assumiu hétero, parou de descolorir o cabelo e ouviu da mãe – após um longo suspiro inconformado – que, haja o que houver, ela estará lá para apoiá-lo, independentemente das suas opções.
Manu ainda está indecisa, como toda adolescente. Ouve pop coreano às escondidas e se tranca no banheiro para usar alguns dos cremes hidratantes do pai.
7.
Nanda tem sentido umas pontadas no peito e a sensação de que carrega o mundo nas costas, e ninguém reconhece isso.
Drigo luta contra a balança e passou a frequentar um grupo que se explora o conceito de broderidade.
8.
Nanda ficou ainda mais poderosa com look grisalho.
Drigo não consegue assumir os fios brancos.
9.
Manu gosta de um menino que conheceu no futebol, mas por enquanto prefere manter um namoro de fachada com uma colega de faculdade.
Júnior foi morar com a coreógrafa, e milita contra o matriarcado opressor.
10.
Drigo sabe que fez o melhor que pôde pelos filhos, mas imagina como tudo seria diferente se tivesse investido na carreira de engenheiro mecânico.
Nanda sabe que foi uma boa provedora, que não deixou faltar nada em casa, mas tem hora que… deixa pra lá. As crianças estão criadas, cada uma seguiu seu caminho – não o que ela esperava, mas fazer o quê? O que importa é que hoje tem Flamengo na final, e a cerveja está no ponto.

Xerebecanto

xerebecanto

Dom de línguas quem tem são os poliglotas. Esses que ralam na Aliança Francesa, no Goethe, no Duolingo, no Ciciêiêi, Os que falam (e entendem) inglês, francês, espanhol, alemão, russo – porque falar é fácil; entender é que são elas … Dom de línguas estranhas têm os que aprendem húngaro, basco, finlandês, vietnamita, português com a nova regra do hífen.

O que se ouve nas igrejas pentecostais tem outro nome: charlatanismo. Ou, em termos científicos, glossolalia.

Do grego “glóssa” [língua] + “laló” [falar], a glossolalia é um fenômeno que a psiquiatria e a linguística aplicam a situações em que um indivíduo, teoricamente tomado de fervor religioso, desanda a falar numa língua que nem ele (nem ninguém) conhece.

É diferente da Xenoglossia (do grego xeno [estrangeiro] + glosso [língua] que é quando alguém fala uma língua (existente) que nunca foi aprendida (meu sonho de consumo com o alemão).

Existe, ainda, a livre vocalização, que é mais ou menos o que fazem os bebês quando começam a balbuciar. Ou os compositores quando acaba a inspiração para a letra e completam a melodia com lalalá, lererê, chananá ou yeah yeah yeah.

Na Bíblia, em Pentecostes, teria acontecido o fenômeno de Xenoglossia. Tomados pelo Espírito Santo, os apóstolos – que eram pessoas simples, sem muita leitura – começaram a falar em diversas línguas. Com isso todos os presentes à festa puderam ouvir a palavra de Deus, cada um em seu próprio idioma.

Logo, esse “dom de línguas estranhas” não era exatamente o dom de línguas estapafúrdias, mas de línguas de outros povos.

Os pentecostais (cujo nome deriva, como já deu pra perceber, de Pentecostes) parece que não pegaram bem o espírito da coisa. Em vez de falar búlgaro, sânscrito, tupi ou tagalog, falam xerebecanto – que não é língua de ninguém e que ninguém entende. O seu sentido – como disse o filósofo e linguista búlgaro Tzvetan Todorov – é ser ininteligível.

Chico César é expert nesse idioma: “Ô amaradzáia zoê. Dzáia, dzáia A rin fingá do ran ran”. E o finado Skank complementa: “Deriráum daum daum, dererum dáu du dáum, deriraum daum daum”. E o João Bosco afirma que “dunga gaguiê gaguncê dagunci dungá gaguiê aibibuloba aidubuloba ai ai ai”. E o Carlinhos Brown completa: “Magamalabares acqua marã no parquinho oxaiê”.

Seria o xerebecanto uma linguagem poética, acessível apenas aos anjos e aos iluminados da MPB?

Há controvérsias. Primeiramente, porque o xerebecanto não é uma língua. Não possui estrutura sintática: é mera repetição de fonemas de língua-mãe do pastor (mesmo ritmo, mesmas pausas, mesmos padrões de consoantes e vogais).

Um pastor de Coxiporé do Norte falará fluentemente “Decanta labaxuria cantararamás”, mas jamais profetizará “zczęściewzględny chrząszczpszcz” ou “mézeskalácssütés viszontlátásra” – que pastores tchecos e húngaros, respectivamente, tirariam de letra.

Há teses de mestrado sobre o assunto. Sílabas vocalizadas aleatoriamente têm o mesmo grau de complexidade de “revelações” como “naconte merecanto nana naconderé, na conderemaná saconde conde que mené nem façá”,

“Ainda que eu falasse as línguas dos homens e dos anjos, e não tivesse amor, seria como o metal que soa ou como o sino que tine.” (1 Coríntios, 13). Ou seja, barulho, gugugu dadadá. Nhenhenhém, blábláblá.

Não mate seu anjo da guarda de vergonha alheia. Ao se dirigir a ele, faça-o em português ou em qualquer das línguas encontráveis no Gúgol Translêitor. Caso contrário, é capaz de ele não te atender, por achar que é só a Baby Consuelo chamando os filhos (“Nanashara, Sarashiva, Zabelê, Riroca!) pra janta.