Progressistas do passado

smith

Fala-se tanto em inclusão, diversidade, representatividade, mas só pode ser gente que ainda não era nascida nos anos 60 e tem a impressão que o planeta sempre foi reacionário, quadrado e careta.

O Gordo e o Magro viviam juntos. Dormiam na mesma cama, inclusive. E era a coisa mais normal do mundo. Isso nos anos 40.

Acha pouco?

Moe, Joe e Larry não eram tão patetas quanto se imagina: também coabitavam e dividiam o leito, num esquema de poliafetividade que não escandalizava ninguém.

Como essa gente lacradora de hoje acha que Tony Curtis, um dos maiores galãs do seu tempo, conquistou Marilyn Monroe, a mulher mais cobiçada do cinema? Não foi exibindo os bíceps ou agarrando pelo cabelo, como fazem os machos opressores de hoje no Carnaval, mas usando vestido, peruca e maquiagem pesada. Jack Lemmon, heterossexual convicto, acaba encontrando o homem da sua vida, Joe Brown, também vestido de dregue quando as dregues nem sonhavam em ser queens.

O que dizer dos inseparáveis Zorro & Tonto e Mandrake & Lothar, que, ainda por cima, eram relacionamentos inter-raciais?

E Xena e Gabrielle?

Maga Patalójika e Madame Min?

Matracatrica e Fofoquinha?

Tom & Doug, que tinham não só um passado mas também um futuro, e viviam juntos para lá e para cá, no Túnel do Tempo?

Fred e Barney, com seus casamentos de fachada?

Recruta Zero e seu fetiche bondage com o Sargento Tainha?

E as novas configurações familiares dos personagens Disney, com sobrinhos invariavelmente criados pelos tios solteirões?

Emília, no Sítio do Pica Pau Amarelo, fazia de gato e sapato o Visconde de Sabugosa (“milhonário” macho, nobre, espigado). E ainda se casou com um porco, o Marquês de Rabicó – num tipo de relacionamento que nem o ministro Barroso aprovaria.

Nós, da década de 60 (eu nasci em 59, mas com sensação térmica de 1960) aplaudimos Simonal, Tony Tornado, Jair Rodrigues, Golden Boys, Trio Esperança, Elza Soares, Agostinho dos Santos, Evaldo Braga, Lady Zu, Miriam Makeba, Donna Summer, Tina Turner, Ray Charles, Bob Marley, Stevie Wonder, Jimi Hendrix, Michael Jackson (ele ainda era preto na ocasião) porque sabíamos que black is beautiful e que “no matter, no matter your color, you are still my brother”. E sem precisar ser chamados de palmito, de brancos opressores sem lugar de fala (ou, no caso, de escuta).

Um dos maiores mitos da nossa época era o Dr. Smith, a quem é impossível descrever de modo politicamente correto. Ele fez mais pelo movimento LGBTQ+ da época (que ainda não existia) do que qualquer parada gay. Era uma péssima influência para o pequeno Will Robinson (mau caráter no úrtimo!), e nem por isso o garoto desgrudava dele (com a anuência dos pais, John e Maureen Robinson, que ou eram muito ingênuos ou eram simpatizantes da causa e adeptos da ideologia de gênero).

Dr. Smith ainda por cima mantinha um relacionamento abusivo com uma criatura cibernética e não binária, o Robô. A quem, durante as frequentes D.R.s, chamava de “lata de sardinha enferrujada”. E não há evidências de que o pequeno Will ou a ingênua Penny Robinson tenham virado genderfluid ou se tornado de Humanas por causa disso.

Jeannie vivia com o Major Nélson sem serem formalmente casados – isso num tempo em que mulher amigada era vista como uma sirigaita, não como descolada.

A empoderada Agente 99 era muito mais esperta que o abilolado Agente 86. A tripulação do Star Trek era mais multiétnica que os anúncios da Benetton e da Natura ou aquela propaganda censurada do Banco do Brasil.

Sem contar que, bem antes das Marchas da Maconha, já lidávamos de boa com o uso de alucinógenos, como o pó de pirlimpimpim.

Do Zé Colmeia & Catatau e do Batman e Robin eu nem vou falar, porque ainda não consegui encontrar um jeito de aportuguesar “sugar daddy”.

Os fascistas e as tias do zap eram muito mais progressistas do que vocês imaginam.

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O barulho mora ao lado

vizinho

Ninguém se casa sem namorar.
Ninguém compra carro sem um testidraive.
Os mais esnobes até encenam aquela patacoada de chacoalhar a taça, cheirar e provar fazendo biquinho e fingindo entender de taninos e retrogosto, antes de autorizar que o vinho seja servido.

Para comprar um apartamento, não. A gente acha que basta visitar o imóvel, ver se o taco está firme, se os azulejos não estão estufados, se a maquiagem dos vazamentos está bem feita, a papelada em ordem, pedir um desconto de 10% e já se considera o proprietário de um novo lar, onde será feliz e livre do aluguel para sempre.

Esses compradores, pobres compradores, ah, se soubessem o que eu sei…

Antes de fechar negócio imobiliário, namore, chacoalhe, cheire e faça o testilive.

Não se deixe enganar pela vista, pela ampla varanda, pelo quarto bem arejado, a cozinha funcional, a sanca de gesso, a potência da água do chuveiro. Como diziam os filósofos Ortega e Gasset, o apartamento é o apartamento e sua vizinhança.

Ninguém se casa sem conhecer antes a sogra e o cunhado.
Conheça os vizinhos.

Procure se informar dos hábitos sexuais, etílicos e toxicológicos do vizinho de baixo.
Do gosto musical da vizinha do lado.
Do senso de humor do vizinho de frente.
E se a vizinha de cima tem hábitos noturnos e usa tamancos.

Peça as chaves emprestadas, pegue um colchonete, o pijama, a escova de dentes, e passe uma noite (de preferência a de sexta-feira) no local.
Se conseguir dormir, aí, sim, feche negócio.

Corretores adoram mostrar as maravilhas do condomínio.
A piscina.
A churrasqueira.
A quadra de tênis.
A quadra poliesportiva.

Veja tudo com atenção, repare na manutenção, pergunte sobre as regras de uso – e garanta que seu apartamento fique mais distante possível disso tudo.

Uma churrasqueira não significa que você vá dispor um local onde reunir os amigos para sua festa de aniversário – mas que terá que aguentar o baile fanque da festa de aniversário de todos os outros condôminos, todo sábado e domingo. Cinco ou seis horas contínuas de uma setiliste preparada pelo M.C. Satã em pessoa, tocada numa altura que, se o imóvel fosse na Suíça, a Inglaterra já teria pedido para sair da União Europeia faz tempo.

A quadra poliesportiva não é tudo que você precisava para, finalmente, abandonar o sedentarismo, e bater uma pelada de vez em quando, com uma cervejinha depois, socializando com os novos amigos. É apenas o lugar onde os adeptos da terapia do grito primal se reúnem no fim de tarde para vocalizar todos os sinônimos imagináveis do órgão genital masculino, propagar que a genitora do adversário exerce a profissão mais antiga do mundo, sugerir insistentemente que alguém deva copular consigo mesmo por via anal e outras amenidades de cunho escatológico. Para quem tem filhos pequenos, um apartamento de frente para a quadra poliesportiva é enriquecimento vocabular garantido.

Não deixe de verificar se o apartamento pega o sol da manhã (se for no Rio) ou o sol da tarde (se for em Curitiba).
Que a vaga da garagem não exija dons de contorcionista.
E vá a pelo menos uma reunião de condomínio.

Preste atenção no coronel reformado da PM que quer derrubar a síndica, e nas justificativas que a síndica dá para ter gasto todo o fundo de reserva na manutenção preventiva da decoração de Natal.

Procure saber até onde a água subiu na última enchente.
Leia o livro de reclamações: mais de 5 queixas diárias sobre o elevador, 3 sobre absorventes higiênicos jogados nas áreas comuns e 1 sobre alguém que mantenha 39 gatos em casa devem acender o sinal de alerta.

Pode ser que uma noite de sexta-feira só não baste.
Leve um sabonete, uma toalha, uma lanterna, um galão de água mineral, um pacote de Trakinas (ou Club Social) e acampe no apartamento por uns dias. Uma semana, quem sabe.

Se você tiver a impressão de que:

1. o tranca-rua da síndica não cruzou com o seu espírito de luz;

2. a Lei Maria da Penha precisa ser aplicada a alguns dos casais do prédio em frente;

3. o porteiro não dá a mínima quando você chega – mas te olha de cima a baixo só porque o encanador que você chamou para verificar as instalações desceu assobiando e de cabelo molhado;

repense a transação.

Se a pessoa beijou com boca dura ou de olho aberto, não case.
Se o carro seminovo tem um barulhinho estranho e o vendedor faz questão de falar o tempo todo e ligar o rádio, não compre.
Se a garrafa estava com a rolha ressecada e você sentiu notas de vinagre e retrogosto de dipirona, peça outra.

Não importa se o preço é de ocasião.
Se aceita financiamento da Caixa.
Se fica a duas quadras do metrô e tem farmácia na esquina.

Se no testlive você ficou convicto de que a vizinha de cima tem um rinoceronte de estimação e que ele faz cúper de madrugada, procure outro cafofo.

Paraíso

paraiso

Só vamos chegar a um estágio civilizatório minimamente aceitável quando médico atender na hora marcada. Nas minhas últimas consultas, o atraso nunca foi inferior a uma hora – com recorde de hora e meia na endocrinologista.

Não sei se há estatísticas confiáveis sobre o percentual de pacientes que marcam consulta e não aparecem, mas não deve ser superior a 75%, obrigando as pobres secretárias a partir para o overbuque e agendar 3 pacientes para cada horário. Isso quando não há encaixe, que é o overbuque do overbuque.

Só vamos nos descolar da barbárie quando nenhum ser humano tiver mais necessidade atávica de bloquear passagem na escada rolante. Com todas as suas carências emocionais supridas, as pessoas vão ficar serenamente do lado direito, deixando livre o esquerdo para quem estiver atrasado, com pressa, precisando exercitar as pernas ou simplesmente querendo exercer o direito constitucional de ir e vir (no caso, só de ir).

Faremos jus a estar no topo da cadeia alimentar quando, no transporte público, a pessoa mais lenta não fizer questão de ser a primeira a sair. Isso vale para ônibus, trem, metrô, velitê, navio, avião, espaçonave, charrete, pedalinho, elevador.

Quando o funcionário mais antissocial, aquele que é uma mistura do mal com atraso e pitadas de psicopatia, não for o escalado para atender o público nas repartições ou fazer a triagem no autoatendimento do Banco do Brasil.

Quando quem estiver de guarda-chuva não ocupar lugar embaixo da marquise.

Quando o/a vizinho/a de cima vencer a compulsão de arrastar móveis todas as noites.

Quando quem gostar de pagode, funk e sertanejo se tornar egoísta e quiser todos os 500 decibéis só para si.

Quando a atendente da Claro que tem uma oferta irrecusável entender que não é não.

Quando os clientes que pegam a fila para compras até 15 volumes descobrirem finalmente a utilidade daquelas aulas de matemática em que se aprendia que 20 > 15.

Quando o motorista que vem atrás interpretar sua seta para a esquerda como sinal de que você quer ultrapassar, não como “ultrapasse logo antes que eu consiga fazê-lo!”.

O nirvana chegará quando todo mundo permanecer sentado com cintos afivelados até que os sinais luminosos tenham sido apagados.

 

(originalmente publicado em 25 de março de 2019)

Figuras mitológicas e onde bebem

bromance

São Paulo tem um bar g0y.
Não sei como se pronuncia esse zero aí entre o G e o Y
Leio como se fosse gói, que é modo de os judeus se referirem aos não-judeus (ou gentios, que é o mais gentil dos pejorativos).

G0y é o sujeito que gosta de homem mas não é gay.
G0ys gostam de se pegar, mas na base da broderagem.

Rola muito em academia: o cara não aperta a mão do outro: vai logo no peitoral. E pega como se estivesse sovando pão, sabe como? Pega com pegada. Mas sem desejo.
Não é por se aproximar do Nirvana quando o suor da testa de um pinga na nuca do outro que vão trocar postagens fofas no dia 12 de junho. Não vão dormir de conchinha, ajustar reciprocamente os nós das respectivas gravatas, pedir para esfregar as costas na hora do banho, roçar joelhos no cinema.
Eca.

O g0y gosta de cachorro quente, mas sem a salsicha, se é que vocês entendem a sutileza da metáfora. É só pão e ketchup. A batata palha é opcional.

Existe também o h0mem (como nos captchas e nas malditas placas padrão Mercosul, isso aí é um zero perdido no meio das letras).

O h0mem, descobri esta semana, não pega na cintura da mulher ao lado na hora da foto. Pega no ombro. Porque abraçar pela cintura é uma espécie de abuso, quase estupro.

Isso não fui eu que inventei: está num blogue de uma feminista, cujo nome não vem ao caso porque não endossar tudo que uma feminista diga é coisa de macho nojento (o antípoda do h0mem).

O h0mem é a versão 2.0, revista e melhorada, do antigo macho opressor, só que agora sem macheza ou opressão.
É o macho escroto desconstruído, repaginado, desossado, descarnado, pasteurizado, lavado a seco e enxaguado com Comfort.

Ele ama as mulheres da mesma forma que um g0y ama outro: de igual pra igual e, se possível, sem sexo tal como o conhecemos.
Não me pergunte como é esse tal sexo sem papéis sexuais, porque eu sou modelo 1959 e não vim com esses opcionais de fábrica.

Esse novo h0mem também é chamado de homão da porra.
Ele lava, passa, cozinha, caseia, chuleia e prega botão.
Carrega o bebê amarrado ao corpo naquela tipoia (o nome técnico é sling) e usa vocabulárie neutre para combater e machisme estrutural de idiome.

Ele não precisa ser aquele macho estereotipado que conhecemos em casa, no trabalho. Nada a ver com seu pai, seu marido, seu irmão, você.
Ele pode passar hidratante no cotovelo, usar máscara facial de camomila, chorar em filme com a Jennifer Aniston e tomar sol de bruços sem que isso abale sua masculinidade.

Ele não acha mulher feia, porque é machismo, nem bonita, porque é objetificação.
Nem gorda, porque é gordofobia, nem magra, porque é submissão à ditadura da beleza.
Ele simplesmente não acha mulher, eu acho.

Breve abrirá (certamente em São Paulo) um bar para esse tipo de h0mem tomar cerveja sem álcool ou uísque artesanal (tem de maracujá com hortelã, de groselha e de gengibre) com os amigos depois do expediente – todos com os respectivos bebês envelopados junto ao corpo com o sling de fibras naturais sem tingimento e produzido sem exploração animal.

Tem também o esquerdist@, que acredita que o futuro da humanidade dependa da solidariedade entre os povos e do fim do capitalismo, mas não aceita ser confundido com petista, bolchevique, bolivariano e algum genocida do bem. Ele não tem preconceito de sexo (até porque sexo não existe, é gênero que chama), de raça (somos todos iguais, respeitada a escala Pantone na escalação de elenco para interpretar personagens da vida real) ou de origem social (trata a empregada como se fosse da família e cumprimenta o porteiro – o… o… como é mesmo o nome dele?).

Ao contrário do esquerdista, que apoia Lula cegamente, o esquerdist@ faz ressalvas ao PT, por ter andado naquelas más companhias. Não fosse isso, não teria havido mensalão, petrolão, lavajato, serjomoro, nenhum desses infortúnios. O esquerdist@ não entra no mérito se Lula é inocente ou culpado (o problema foram as más companhias, lembra?), mas enfatiza que não houve um julgamento justo e imparcial (tipo assim, feito pelo Gilmar, o Toffoli e o Lewandowski).

O esquerdist@ é crítico em relação à situação da Venezuela (nada disso estaria acontecendo se não fosse o bloqueio estadunidense, e tem gente que se joga na frente dos tanques só para depois postar no insta). Acha que o golpe de 2016 poderia ter sido evitado (o machismo estrutural é que não foi devidamente problematizado na época) e que é claro que não dá para comparar Bolsonaro a Hitler e Mussolini, porque não tinha whatsapp naquela época, e o whatsapp tornou o fascismo alemão e o nazismo italiano um rascunho desta arte final que estamos vivendo agora.

Nem todo esquerdist@ não performador da heteronormatividade é g0y (ele, inclusive, acha que o g0y é o isentão, o inocente inútil do movimento LGBTQ+). Mas certamente é h0mem, se for do gênero anteriormente conhecido como masculino.

O esquerdist@ acha justo linchar quem discorde dele, porque o ódio do bem é um conceito que suas vítimas não têm lugar de fala para contestar. Ele não em problemas com ironia – apenas acha que trata-se de uma espécie de argumento de autoridade disfarçado, e se recusa a compactuar com o senso de humor, que é o último refúgio da elite.

Qualquer hora dessas, o UOL vai informar que foi aberto (adivinha onde?) um bar em que h0mens g0ys esquerdist@s possam se encontrar, se saudar com socos no peitoral (tomando cuidado para não acertar a pequena Maria Frida, encapsulada em seu sling de fibra de cânhamo), tomar café descafeinado e discutir o socialismo democrático e novas estratégias para tirar Lula da cadeia, depois que nem ONU nem o papa nem o ráquer russo deram jeito.

Haverá na parede ao fundo, entre a foto da girafa sem pescoço e do unicórnio sem chifre, um alvo com a cara do Celso de Mello, para o jogo de dardos.

Auspícios

augurio

Os sinais de intolerância que temos tido não são nada auspiciosos.

Uma ameaça aqui, uma manipulação ali, um movimento suspeito acolá.

E os abutres nos sobrevoando, em círculos.

Auspício era, originalmente, isso: interpretar o que os deuses queriam nos dizer através do voo das aves.

Uma águia que pousasse no ombro da estátua de César, em Roma, não significava uma águia precisando tomar fôlego ou ir ao toalete: era claramente uma tuitada de Júpiter.

Para traduzir a mensagem divina, consultava-se o áuspice, o expert, o adivinho.

Não se iniciava uma guerra, ou se contratava um casamento – que também é uma atividade bélica – sem “tomar os auspícios”. Se desfavoráveis, guardavam-se as lanças e os bem-casados, e aguardava-se ocasião mais propícia.

A menos, claro, que você fosse um Júlio César, para quem não havia auspício ruim: ele criava uma narrativa que lhe fosse vantajosa e tanto fazia que a águia voasse para a esquerda ou para a direita, sozinha ou em bando, em estilo crawl ou cachorrinho, ele ia em frente. Foi assim que conquistou meio mundo.

Hoje, para saber o que nos reserva o futuro, consultamos os Antagonistas, os Catraca Livre, os Mídia Ninja, os MBL. Eles é que interpretam o significado de uma revoada de patos amarelos tomar a Avenida Paulista, um tucano abrir o bico, um defensor de arapongas ficar de bico fechado.

Auspícios nunca saíram de moda, mas acabaram perdendo mercado para uma nova ciência, a hepatoscopia.
Nela, os adivinhos (os arúspices) decodificavam a vontade divina pela análise do fígado de aves – e de touros, carneiros, cabritos.

Porque o fígado costuma falar mais alto que o coração.

Na aruspicia, coitado do mensageiro. Era estripado vivo – ou, no caso dos quadrúpedes, levava uma marretada, e até o lado para o qual pendesse tinha um significado específico. Mais ou menos como acontece hoje nas redes sociais quando se compartilha alguma coisa sem checar a fonte.

Um pouco menos invasivos (e dolorosos) eram os augúrios, que consistiam em decifrar o canto das aves – daí ainda falarmos em “aves de mau agouro”.

Um general, por exemplo, não pode dar um pio sem que os agourentos de agora prenunciem intervenção militar.
Uma presidente do Supremo afirma que todos estão sob as penas da lei, e ali está um sinal inequívoco de que não vá aguentar o tranco.

Não é porque acabei de acabar de ler o fabuloso “A vida dos doze Césares”, de Suetônio (de onde tirei toda essa cultura inútil) mas acho que os abutres que andam rondando cadáveres recentes – e mesmo cadáveres adiados – mereciam mais atenção dos áuspices, áugures e arúspices de plantão.

 

(publicado originalmente em 20 de março de 2018)

A linguagem das flores

flores

As rosas falam: botão de rosa branca é coração que não conhece o amor; de rosa de cem folhas, virgindade; de rosa de musgo, esperança receosa.

Rosa amarela, infidelidade.
Rosa branca, silêncio.
Uma rosa branca e uma vermelha, fogo no coração, sofrimentos de amor.

Não só as rosas falam: havia, no século 19, um código, uma linguagem das flores. Corte, declarações, muxoxos, amuos, pedidos de perdão, reconciliações, promessas, o rompimento, tudo era dito em pétalas, em flores avulsas, em ramalhetes, dispensando palavras.

O modo de entregar as flores era parte da gramática. O botão de rosa de musgo, com seus espinhos e folhas, informava “espero, mas receio”. Se entregue de cabeça para baixo, tinha o sentido invertido: “não há o que temer nem esperar”. O mesmo botão, sem as folhas, mas com os espinhos, alertava “há tudo a temer”.

O sujeito da frase era dado pela posição da flor. Virada para a direita, “eu”. Para a esquerda, “tu”. Em pé, referia-se a uma terceira pessoa. Flores duplicadas, “nós”.

O malmequer no cabelo: pena d’alma.
No coração, pena d’amor.
No seio, cruéis tormentos.
Na boca, não digo o que sinto.

Idiomas nascem, florescem, minguam – e morrem quando não há mais quem os fale, quando o que têm a dizer não diz nada a mais ninguém. Centenas de línguas se extinguem no mundo neste momento, uma dúzia delas no Brasil (amanayé, urupá, yuriti, xakriabá…), indo se juntar a outras centenas de línguas já mortas (omurano, amonita, acadiano, asvético, tupi).

A linguagem das flores morreu com o século 19, com a emancipação feminina, a industrialização. Morreu enquanto morria um mundo de coisas não ditas, apenas insinuadas. Morreu quando o velado se viu sem véus, quando o amor impossível, o lencinho deixado cair, os olhares lânguidos, os rubores e palpitações saíram de moda, tangidos por um século 20 sem lugar para sutilezas.

A quem, hoje em dia, ofertar perpétuas, flor de macieira, artemísia, se sequer sabemos o que querem dizer constância, primazia, ventura? A quem oferecer a acácia branca do meu amor platônico, o meu amor perfeito (existo só para ti), o botão de cravo roxo do meu amor humilde e desgraçado – se não para receber em troca a alfazema da desconfiança, os beribéris do azedume, o cravo amarelo do desdém?

Quem, neste mundo, teria a ingenuidade (violeta branca) e a modéstia (violeta roxa) de fazer uma declaração de amor (tulipa), expressando submissão (macela), encantamento (verbena) e fidelidade na desgraça (goivo)? Provocaria desconfiança (alfazema), causaria mexericos (folhas de limoeiro).

Hoje, uma mensagem no whatsapp substitui o alecrim (“quero falar-te”) e o botão de cravo branco (“espero resposta”). Deixar de seguir no tuíter é a nova hortênsia (“não me interessais”), mandar solicitação de amizade equivale à glicínia (“vossa amizade me é doce e agradável”), curtir a foto no perfil é malva rosa (“sois bela”). A mudança de status para “relacionamento sério” é um buquê de dálias (“meu reconhecimento excede vossos cuidados”) e resedás (“vossas qualidades excedem vossos encantos”). A cutucada é o miosótis (“lembrai-vos de mim”), eu que cultivo celestinas (“perigos imaginários”), refém de gerânios (“teus caprichos”), pobre flor de limoeiro (“vítima de ciúmes”) que sou.

Mas as línguas não morrem de todo. Hoje não há mais tupis, mas no português falado no Brasil preferimos o gerúndio (“estou falando”, em vez de “estou a falar”) e a próclise (“me dê”, em vez de “dê-me”) porque era assim no tupi, Tanto quanto o DNA do tupi no nosso falar brasileiro, a linguagem das flores ainda pode ser ouvida, quase um sussurro, nas flores de laranjeira (“castidade”) que enfeitam noivas, nas rosas vermelhas (“paixão”) do dia dos namorados, nos ramos de cipreste (“imortalidade”) que acompanham as coroas de flores nos enterros.

Pode parecer bico de grou (“tolice”), mas botão de rosa de jericó (“não posso”) me dar ao castanheiro da índia (“luxo”) de fazer desta crônica apenas columeia (“passatempo frívolo”) ou flores do campo (“divertimento”). Eu junquilho (“desejo”) que tenham labaça (“paciência”) e entendam meu lírio (“mensagem”), que é tirar essa linguagem da lunária (“esquecimento”) e trazê-la de novo à luzerna (“vida”).

Um forte cacho de flores brancas (“abraço”) a todos, com meus votos de oliveira (“paz”) e faia (“prosperidade”). Papoula raiada (“não duvides”) que alecrim do norte (“vossa presença aqui me reanima”).

 

(originalmente publicado em 25 de agosto de 2018)

Vade retro

diabo

Circulam por aí fotos da bicicleta do pregador Manoel, que ele customizou com cartazes onde lista tudo que considera “do demônio”.

Estão lá, lado a lado, sexo oral, sexo anal, luta de MMA, mal hálito [sic] e chulé dos pés [sic]. Uma pegada mais forte não deve ser seu fraco.

(Daqui pra frente não vou mais usar [sic] para dizer que foi exatamente assim que o Manoel escreveu, ou vai parecer que estou com crise de soluço.)

Manoel não esconde sua misoginia. Considera diabólicos mulher frentista do posto de gasolina, manekin das lojas, boneca namoradeira de Minas Gerais, batom boca loka (isso ainda existe?), salão de beleza, pincel da makiagem, os dois salto alto (só um pode?), grampo do cabelo, esmalte sintilante.

É crente raiz. Abomina mulher crente grávida com a barriga de fora, bermudão dos crente mentiroso, celular androids dos crentes, short das crentes, crente covarde, crente nervoso, desfile de moda cristã, moto táxi dos crentes, cantina das igrejas, pastora do diabo, puteiro do kero kero do dízimo, 1 de abril do dízimo, ti ti ti das igrejas, língua estranha da cobra jararaca, as igrejas da ladainha do dízimo. Pelo visto, passa longe de todas as neopentecostais.

Leva a sério a intolerância religiosa: islâmico do Maomé? É do cão. Rosário do terço dos padres? É do tinhoso. Igreja Messiânica é de belzebu, Buda do Japão é do canhoto. Checho Noie é do capiroto. Congregação Cristã, do sete-peles; Testemunha de Jeová, do anhangá. Oxalá, macumbeiro, vela de 7 dias e exu risadinha, então… esses são do Gilmar em pessoa.

Manoel tem apurado gosto musical. Vade retro os louvor das banda gospel do diabo, a música da garagem da visinha, os Mamonas Assassinas, Lulu Santos, rapper, as músicas do Raul Seixas, do Olodum, as música do Jessé, fundo musical das igrejas, as músicas do Wando.

É conservador. São obra do coisa-ruim, do seu ponto de vista, aborto, adultério, roupa unissex, tv acabo, as tatuagens do diabo, as praia do nudismo, movimento 100 terra, o cigarro e a maconha, cachimbo da pedra de crak, casamento da bicharada gay, 13 de maio, aposentadoria do Getúlio Varga.

Como qualquer ser humano, tem suas idiossincrasias. Coloca no mesmo balaio do satanismo pain ball (dizem que dói mesmo), bola do vôlei, bala dum dum, diabete crônico, BR 153, PX do rádio, ferradura no pé do cavalo, Fórmula 1, camisa do Flamengo, pet chop, lavagem celebral, ciúme, obesidade, dança da capoeira, kung fu, parabéns pra você, lan house, Whatsapp, Face Book e flor de sambanbaia.

Consumidor implacável, Manoel desdenha da moto Yamaha, do fumo Trevo, dos cigarros Derby, do pneu City Demom (isso existe?), do plano de saúde, da Samsung, dos cartões Visa, Elo e Mastercard, do latão da Skol, da pinga do Corote (que ele chama, com intimidade, de pinga do Corotinho), do relógio Cassio e do Fiat Marea. Além disso, não gosta, sabe-se lá por que motivo, de loja do mercado e do Center Chop Santa Catarina (ou talvez seja de qualquer center chop, e de Santa Catarina, seja ela a própria santa ou o estado).

Não consegui entender o que sejam o brechó do cão e os acidentes do cafuringa, mas concordo com o Manoel que são mesmo do rabo-de-seta o rodeio (maus tratos aos animais não são coisa do bem) e o humicidio (o respeito à vida humana – extensivo a todas as espécies animais – é mais importante até que o respeito à ortografia).

Se eu ainda tivesse a Efigênia, minha bicicleta, talvez me animasse a paramentá-la com um rol de abominações, e saísse pela ciclovia informando os transeuntes sobre meu ranço com pimentão, gergelim, atendimento da Net, máquina de recarga do Riocard, música da Ana Carolina, vizinhos de cima, captcha, sinal de trânsito em topo de ladeira, comemoração em churrasqueira com música, comemoração em churrasqueira mesmo sem música, celular no cinema, pimentão (já falei, mas é porque odeio mesmo), travesseiro alto, sujeito duplo, lavadora Enxuta (não tenho há mais de 20 anos, e o ranço permanece), mesa redonda de futebol, anúncio da Trivago e da Open English, rap (principalmente se for no metrô, tornando ainda mais interminável o trecho entre São Conrado e Jardim Oceânico), reality show (de capiqueique, de tatuagem, de coveiros, do que for), ter que provar que não sou robô, cravo em doce, fila do Detran, voz do Sérgio Moro (só a voz, o conteúdo tá ok), gente parada do lado esquerdo da escada rolante bloqueando a passagem, sistema de abertura da caixa de Omo, alinhamento de cartucho de impressora, endoscopia, textos em capisloques ou com maiúsculas aleatórias, benzetacil, lombada mal sinalizada, desodorante íntimo, ter que esperar o pudim de leite moça esfriar para poder comer.

Tudo isso também é coisa do capeta.