Duda Mind Control

Meus (meus? ok, meus) cachorros foram “adotados”, tirados da “situação de rua”.

Duda, mais morta que viva. Chico, um bebê que cabia na palma da mão, desnutrido e tomado por carrapatos. Tião, magrelo e com o pelo duro, largado num monte de brita, numa obra.

Hoje dormem em cama (comeram as caminhas que comprei para eles), se esparramam no sofá (onde, às vezes, sobra algum espaço pra mim), tomam banho de chuveiro (com um xampu mais caro que o meu). Mas continuam “de rua”. Rueiros que só.

Têm um relógio biológico que não conhece horário de verão, data de entrega de projeto, elevador em manutenção ou vendaval. Deu a hora de ir pra rua, cessa tudo que a antiga musa canta que outro valor mais alto (e com unhas afiadas) se alevanta.

É uma espécie de volta às origens. Aos postes. Aos cheiros de xixi de centenas de outros cachorros. Ao paraíso perdido.

Duda é a fêmea alfa. É ela quem puxa a matilha, quem escolhe o roteiro. Tem dia em que encasqueta de ir para a esquerda, tem dia em que nada a demove de seguir pela direita. Há de ter seus motivos – que acato, por não serem ideológicos, mas possivelmente estarem ligados ao olfato apurado. Se algo não cheirar bem, é pra lá mesmo que ela vai. Pensando bem, tem ideologia aí, sim.

O problema é que nenhum passeio é longo o suficiente para ela. Sua meta é se afastar de casa indefinidamente. Se depender dela, pegamos a Américas, a Linha Amarela, a Washington Luís, a 040 e não paramos antes do km 2000 da Belém-Brasília.

Ao mais leve indício de que eu possa estar iniciando um procedimento de retorno, ela trava. Crava as patas no chão e ergue aqueles olhos súplices de “Mas já?” – estejamos andando há 15 minutos ou há hora e meia, debaixo de chuva ou de sol implacável.

Não sei que GPS ela usa, mas é infalível. Independentemente do caminho – e eu vario sempre o caminho – basta embicar num sentido que lhe evoque a sensação de “volta” e ela liga a seta na direção contrária. Não adianta tentar a manobra da curva suave à esquerda fingindo rumar para o parcão, ou o artifício de uma falsa guinada na direção da praça, ainda fechada por causa da pandemia, onde ela gostava de correr na areia.

Ela me conhece. A alma humana, para ela, não é nenhum abismo: é óbvia como um comprimido “disfarçado” na comida, um cafuné a caminho do banheiro onde ela já farejou o maldito xampu no box.

Não pode ser só instinto ou psicologia aplicada. Suponho que haja telepatia envolvida.

Desejo

Eu desejo que morra o jornalista que escreveu que deseja que morra o presidente que deu a entender não se importar que pessoas morram. “

Confuso, incoerente? Nem tanto.

O desejo de morte manifestado pelos outros é do mal; o meu desejo de morte é do bem.

Eu desejo uma cova para o Covas (kkkkk). Mas os meus kkkkkk morrem se a cova for para o meu Messias. E vice-versa.

Só que desejo de morte não mata. Assim como desejo de comida não enche barriga.

Uma advogada recolhe printes de desejos de morte do presidente para encaminhá-los (os printes, não os desejos) ao STF.

Lamento informar, mas desejar a morte de alguém pode ser cruel, mas não é crime. Não deixa órfãos, não cria viúvos, não dá direito a obituário (se o morto presuntivo for famoso) ou a mudança da foto no FB por uma lágrima em preto e branco (se for pobre o defunto).

Eu desejo a Michelle Pfeiffer (ou o Alain Delon – uma versão 40 anos mais jovem do Alain Delon). Desejo o Renegade na vitrine da concessionária (ou o Bulgari na prateleira da perfumaria) e isso não lhes desabotoa a blusa, não lhes abre o zíper, não lhes muda a quilometragem, não faz com que exalem uma nota aromática que seja.

Sou desejoso por natureza: “O que não tenho e desejo / é o que melhor me enriquece” (Manuel Bandeira).

Meu desejo não me dá poderes sobrenaturais, talvez por eu ter me esquecido de esfregar a lâmpada dentro da qual cochilava há milênios um gênio com sobrepeso, de pantufas e turbante.

Desejo que haja paz na Terra, que a internet não caia justo agora, que o presidente se recupere, que o vizinho se dane, que o avião atrase porque estou atrasado, que ele não repare nas minhas estrias, que ela não note que pinto o cabelo – e permanecem as guerras, a Net não termina o diabo da manutenção, nem o vizinho sua musculação na sala. Ele repara nas minhas estrias, na virilha com a depilação vencida; ela repara na tinta no canto do bigode, na marca mal disfarçada que a aliança deixou no dedo ao migrar para o bolso, na tentativa desesperada de uma fantasia que me salve da perda do desejo.

Eu desejo que meu pai sobreviva, e a doença o vence.  Que minha mãe se cure, e a doença avança. Que o salário caia hoje na conta, que ainda haja sorvete no pote. Desejo que não chova, porque a estrada é de chão, mas a zona de convergência do Atlântico Sul tem outros planos. E o mundo, eppur, non si muove: não dá a mínima para o meu desejo.

 [– Fala, Zé Firmino! Veio fazer outra fezinha hoje?
– Não. Vim buscar o prêmio da mega sena que eu ganhei.
–  Ganhou não. Acumulou de novo
, Zé.
– Mas eu desejei ganhar. Pode me dar os 200 milhões em nota de 50, que pras de 100 o povo nunca tem troco.]

É horrível desejar a morte de alguém, mas disso não passa: de ser horrível.

Quando estive internado numa UTI, alguém comentou numa postagem minha “tomara que morra”. Não morri. E se melhorei tampouco foi porque dezenas tenham me desejado melhoras. O pensamento mágico é só pensamento, não ação; só mágico, sem lastro no real.

Quantas vidas teriam sido salvas com a morte prematura de Stálin, Pol Pot, Maníaco do Parque, Leopoldo II da Bélgica, Jack o Estripador? Quanta corrupção teria sido evitada com o passamento precoce de Lula, Papa Doc, Mugabe, Bokassa, Somoza – e quantas mortes decorrentes dessa corrupção? Quantos milhares não lhes desejaram a morte ou a prisão (ou a morte na prisão)?

É pena que alguém deseje a morte – não a redenção, não a recuperação. É pena que alguém prefira antagonizar com um cadáver. Que se faça todo um contorcionismo teórico quanto à relação custo x benefício de um exício (como diria o Celso de Mello). Que se considere a morte sob o ângulo da redução de danos (matar o atirador para que ele não atire na multidão).

Tão deplorável quanto desejar a morte é desejar controlar o desejo. (Ninguém controla o desejo – o próprio, muito menos o alheio).  

O desejo, como o pensamento – por mais terrível que seja – é livre.

Teimosia

Ali pelos 15, 16 anos, era mais difícil disfarçar a timidez e/ou a falta de traquejo no convívio social. As cantadas, então, estavam totalmente fora de cogitação. O jeito era deixar que outros dissessem por mim – e nisso a música romântica era imbatível.

Havia bailes; dançava-se de rosto colado; a respiração junto à orelha, a mão dedilhando a alça do sutiã ou descendo pelos quadris, a coxa roçando a coxa – tudo isso ajudava a verbalizar o que a voz não ousava.

E, se houvesse que haver uma voz, que fosse a do Paul McCartney dizendo “uô uô uô uô uô uô uô uô, my love does it good”, a do Elton John pedindo “fly away, skyline pigeon, fly” (eu jurava que era Skylab pigeon, mas isso é assunto para outro texto), ou Junior confessando que ”when you’re near, reality loses its hold and loneliness’ tears wet my soul”. Mas, tirando o uô uô uô uô uô uô uô do Paul, eu não entendia patavina.  O que ajudava bastante.

O problema era quando as letras eram em português.

Em princípio, isso era um facilitador. Bastava cantar junto (ou fingir que cantava, tipo segunda voz de dupla sertaneja) e o recado estava dado. Se colasse, colou. Se não colasse, eu estaria só cantando a música, sem quaisquer décimas oitavas intenções.

Uma das minhas favoritas – para o bem e para o mal – era “Minha teimosia, uma arma pra te conquistar”, do Jorge Ben (ainda não era Benjor).

Era uma cantada perfeita. Direta. Para dançar com direito a olhares de promessa e um arremedo de gingado que podia ajudar na conquista pelo caminho da comiseração – mas, naquela idade, quem liga?

O problema era o meu apego à gramática. Eu tentava cantar corrigindo a letra, o que me tirava totalmente o foco. E, claro, ferrava com a métrica.

“A minha teimosia é uma arma
pra te (2º do singular) conquistar.
Eu vou vencer pelo cansaço
Até você (3º do singular)
gostar de mim, mulher, mulher.
Mulher graciosa, alcança a honra.
Você (3º do singular) alcançou, mulher.
Minha amada, minha querida, minha formosa
Vem (2º do singular) e me fala (2º do singular)
que eu sou o seu (3º do singular) lírio
e você (3º do singular) é minha rosa.
Mostra-me (2º do singular) teu (2º do singular) rosto
Fazei-me (2º do plural!!) ouvir a tua (2º do singular) voz
Põe (2º do singular) estrelas em meus olhos
Músicas em meus ouvidos
Põe (2º do singular) alegria em meu corpo
Junto com amor de você (3º do singular)
Mulher, mulher
Lá, lá, lá, lá
Mulher, mulher.”

Eu tentava pôr tudo na segunda pessoa do singular – e não funcionava. Tudo na terceira pessoa do singular – e não dava certo. E (vejam o nível de desespero) até mesmo tudo na segunda do plural. Em vão. A minha teimosia com as pessoas gramaticais acabou se tornando uma arma para não conquistar ninguém. O jeito era vencer pelo cansaço – e ir de com força no lá lá lá lá do final para tentar apagar a má impressão do gingado.

Implicância

Cuidado com as suas implicâncias. Lenta e inexoravelmente, elas irão tomar conta de você e se tornar obsessões.

Minha mãe sempre implicou com edifícios sobre pilotis. Criada em casa de chão de terra batida, não sentia firmeza nas construções empoleiradas naquelas perninhas finas.  Resmungava cada vez que via um prédio desses – ou seja, resmungava sempre que ia à rua. 

Com a idade – e o Alzheimer – as vigas e pilares das construções nas encostas (trem mais comum em Minas que que chamar as coisas de trem) se tornaram uma ideia fixa. Um incômodo palpável. Era preciso distraí-la (“Olha que cor horrorosa aquela casa!”) sempre que seu olho se sentia atraído pelos monstrengos em pernas de pau encarapitados em cada aclive, declive, murundu ou pirambeira. Porque minha mãe também implicava com as cores das casas, mas os roxos, laranjas, vermelhões e verdes bandeira não eram páreo para as construções levantadas do chão.

Desde então venho pensando: qual será o meu piloti quando eu ficar velho (mais velho) e chato (mais chato)?

Tenho vários candidatos.

Os vícios de linguagem são os mais óbvios. São eles que me impedem de assistir à programação da CNN, porque minha cota diária de tolerância a barbarismos se esgota em cerca de 60 segundos.

Também tem a franja. Eu entendo a sombra verde, os óculos com correntinha, a sobrancelha imitando a logo da Nike, o pírcim no lábio – mas franja está além da minha compreensão.

Implico com gente falando alto ao celular em local público. Implico com gente falando alto. Ultimamente, dei para implicar com gente, mesmo calada, em local público – mas isso vai passar com a pandemia.

Implico com as rimas dos louvores evangélicos, sempre na base do luz / cruz / Jesus e glória / história / vitória. Tudo bem que não dê pra enfiar cuscuz, avestruz e arcabuz, nem rescisória, inflamatória e vibratória.  Mas no campo semântico de um louvor não há de faltar oportunidade para falar em belzebus e em nota promissória.

Implico com tatuagem. Com sotaque carioca em filme dublado. Com cachorro usando roupa. Com barba desenhada. Com locutor de supermercado.

Mas, correndo por fora e com grandes chances de chegar ao pódio, está a ombreira.

O que leva um ser humano do gênero macho a inflar artificialmente os ombros e ficar parecendo um jogador de futebol americano que botou um terno por cima do shoulder pad?

O Merval Pereira conta que, num voo, sentou-se ao seu lado um sujeito espaçoso, cheio de correntes de ouro e que não largava o celular, ignorando os pedidos da aeromoça para que desligasse o aparelho. Era o Wassef. Suponho que estivesse com o cabelo emplastado. E, possivelmente, com suas inseparáveis ombreiras – que o Merval não menciona, mas que não me escapariam.

A ombreira é o viagra do paletó.
A ombreira define o homem.
Diz-me se usas ombreira e eu te direi quem és.

Eu não reparo no cabelo do Guga Chacra. No olho de gatinha da Renata Vasconcelos. Na franja da Nina Lemos. Nunca reparei na peruca do Chico Xavier, nos anéis do Walter Mercado, no nariz do Juca Chaves, na boca da Cleo Pires, no busto (digamos assim) da Inês Brasil, no pescoço rabiscado do Fogaça.

A suposta participação do Wassef numa seita satânica pode dizer alguma coisa do seu caráter. Mas as ombreiras dizem tudo.

Love is in the air

Dia dos namorados, muita gente sem namorado/a/x querendo se arrumar, muita gente namorando e querendo dar um apigreide, respirar novos ares ou, quem sabe, apenas trocar de encosto.

Do alto das minhas seis décadas – boa parte delas passando o dia dos namorados chupando dedo – me sinto no direito de dar alguns conselhos a quem queira desencalhar até a meia-noite:

💔 Não tente ser sexy.

Quem é sexy é sexy até palitando os dentes. Quem não é pode esquecer aquela história de morder os lábios, murchar a barriga, forçar uma lordose, chacoalhar os cabelos como se estivesse num caraoquê dos Engenheiros do Hawaii.

Seja você mesmo/a/x, por mais que isso reduza suas chances. Bancar o/a/x sexy vai é acabar de vez com as poucas chances que lhe restam.

💔 Não tente parecer mais inteligente do que é.

Se o namoro engatar, a verdade virá à tona antes de a ciência viabilizar o transplante de cérebro – e muito antes que o seu plano de saúde cubra esse tipo de procedimento.

Não use palavras cujo significado você desconheça, ou vai ser um equinócio daqueles.

Não diga que viu os filmes do Foucault, que adorou os romances do Tchaikovsky – principalmente se não souber soletrar tchaicosque ou pronunciar fucô.

Assumir a ignorância e demonstrar interesse contam muito mais que qualquer falsa erudição.

💔. Não fale do/a/x ex.

Piadas de fanho, doenças infecciosas na família e histórias do/a/x ex são abortivos naturais de relacionamentos.

Pesquise no gúgol: há bilhões de coisas sobre as quais você pode falar. Ex, definitivamente, não é uma delas.

Seu/sua/sux pretendente/a/x não está nem um pouco interessado/a/x nas pessoas/pessoos/pessoxs com quem você andou se pegando.

Fale de si ou (melhor ainda!) queira saber dele/a/x.

Se ex merecesse ser mencionado/a/x, não teria virado ex.

❤️ O primeiro passo para arrumar alguém é não precisar desesperadamente de ninguém.

Estar bem sem ninguém é condição fundamental para se tornar interessante aos olhos do outro. Se você não aguenta ficar na sua própria companhia, por que outra pessoa te aguentaria?

Daí a dar uma de autossuficiente vai uma enorme distância. Você não precisa do outro para ser feliz, mas estando com o outro a felicidade é mais plena. Ou, pelo menos, a vida sexual diversifica um pouco.

❤️ O namoro vem – não precisa forçar.

Conheça, converse, convide, aceite o convite, vá para a cama – ou para o banco de trás -, ensaboe as costas dele/a/x, faça massagem nos pés, descubra interesses em comum (e interesses incomuns).

Se tudo isso for bom (principalmente a massagem nos pés), e se os interesses incomuns não forem muito bizarros, aí, sim, considere a possibilidade de transformar isso em namoro.

Boas amizades ou transas maravilhosas podem ir a pique se você tentar, por carência e/ou ansiedade, fazer delas o que elas não são.

❤️ Ache seu nicho de mercado.

Por que alguém escolheria você e não outro/a/x?

Porque você tem um diferencial. Você lava mais branco, tem tração nas quatro rodas, forno autolimpante, lactobacilos vivos. Tem mais vitaminas, proteínas e sais minerais, não tem gordura trans, não amarrota nem perde o vinco. Você não desbota, não solta as tiras, funciona 24 horas, é satisfação garantida ou o dinheiro de volta. Você tem enxague em quatro velocidades, frost free, o maior porta-malas da categoria. Você tem energia de dá gosto, é tudo que o dinheiro não pode comprar, o fino que satisfaz, vale por um bifinho e tem mil e uma utilidades. Você desce redondo, é impossível comer um/a/x só.

Sabe o que isso significa, não? Seja único/a/x. Elogie as sobrancelhas, em vez da bunda ou do peitoral. Sugira Ibitipoca em vez de Búzios. Cite Barthes (se você realmente conhecer Barthes, souber como se escreve Barthes e conseguir pronunciar Barthes) em vez de frases de autoajuda (feiques) da Clarice Lispector.

💞 Goste de “coisas de homem” (se for mulher) ou de “coisas de mulher” (se for homem) – e de coisas de homem e de mulher se for trans ou se quiser mesmo ser uma pessoa interessante.

Fuja do óbvio, do estereótipo. Atitude é isso – e não, como muita gente imagina, fazer selfie com decote e duck face, ou andar com metade da cueca aparecendo.

💘 Agora, se, mesmo assim, continuar sozinho/a/x, não tente se iludir com aquele papo de que é porque você é seletivo/a/x.

Conforme-se.

Seletivos, no caso, são os outros.

Quem não tem cão…

Duda está ficando cega. Sobre o olhinho direito começa a baixar uma névoa.

Descobri quando passou a ter medo de andar por lugares onde sempre transitava lepidamente. O que os lugares tinham em comum era o piso escuro.

Ela não tem medo do escuro. Tem medo, possivelmente, do abismo que vê – ou pressente – diante de si.

Damos uma volta na garagem para evitar o piso de ardósia, diante do qual ela trava.  Ao descer pela escada de incêndio, esperamos que vença a hesitação diante do primeiro degrau de cada lance.

Tião foi o primeiro a se adaptar à nova rotina. Ele enxerga perfeitamente, mas intui o que a Duda não vê, e faz o caminho que ela faria. Ele seria um bom cão guia.

Tião vê o que os outros não veem.

Ele assiste televisão. Acompanha, atento, a disparada do leão no encalço da gazela. Segue, ziguezagueando com a cabeça, a tentativa desesperada de fuga. Posso quase intuir que torça pelo caçador, nunca pela caça, porque relaxa quando a presa é finalmente abatida.

Tião vê filmes de terror comigo. Duda e Chico apenas se aninham no sofá, ao meu lado – seja o lado direito, o lado esquerdo ou, no mais das vezes, o lado de cima mesmo. Não dão à tevê mais atenção do que ao fogão ou à geladeira. Tião percebe que a tela é um portal para outra dimensão, onde acontecem coisas não tão gostosas quanto no forno ou na gaveta das frutas, mas muito mais excitantes.

Ele se assusta quando o assassino salta das sombras. Se contrai nas facadas. Às vezes somos pegos, ambos, de surpresa, e sempre rio dos sustos que ele leva.  Por vezes, late, para afugentar alguém, para alertar do perigo.

Chico dorme. Durante o filme, durante o documentário sobre vida selvagem, durante o que for. Ainda não entendeu – talvez jamais entenda – que há caminhos por onde Duda prefira não ir. Que aquelas manchas se movimentando no retângulo que tem diante de si sejam um drama de vida e morte.

Chico não é Tião, que não é Duda. São três personalidades distintas. Com níveis distintos de percepção, com diferentes capacidades de compreensão.


Tião é carente, pede colo, lambe lambe lambe. Duda é não pede nada: exige. Seu relógio biológico sabe a hora exata do passeio, e qualquer atraso a deixa intratável.  Chico aguarda. Aceita carinho, mas não o procura. Ao contrário do Tião e da Duda, que sonham placidamente, Chico tem pesadelos. Talvez pressinta vazios sob seus pés, como a Duda; talvez seja ele a presa numa caçada onírica, ou a vítima do psicopata. Vá entender o inconsciente de um cachorro…

Cada um tem seu pote de comida, proporcional ao tamanho. Mas a ração do pote ao lado parece sempre mais gostosa – ainda que seja a mesma.  Houve um tempo em que Chico comia ração de adulto e Duda, a de filhote. Quem teve irmão caçula (eu tive quatro!) sabe que a comida do filhote é sempre mais gostosa, e Chico pegou gosto pelo pote pequeno da Duda, onde mal cabe seu focinho. Depois foi a vez da Duda migrar para a ração de adultos, e ser do Tião a de filhote. E havia que protegê-lo para que os mais velhos não lhe tomassem a comida.

Tião chegou por último, sabe seu lugar na hierarquia, e cede sempre. Duda foi a segunda a chegar, mas isso não a impediu de ser a alfa da matilha. É ela, a menor dos três, quem fica sempre com a melhor parte. Chico, macho desconstruído, não se importa.

Com a mesma comida em todos os potes, Duda ora prefere o pote vermelho do Tião, ora o enorme pote amarelo do Chico – nunca seu potinho grená. Tião e Chico se afastam quando ela vem farejar o cardápio. Brigam, os dois machos, pelas bolinhas de borracha, pelo canto no sofá, mas vão procurar outra coisa, outro lugar, se ela resolver que é hora de sofá, que quer bolinha.

Chico tem pelo mais comprido, e precisa ser escovado quase que diariamente, ou a casa vira uma nuvem de fiapos pretos. Duda tem pelo mais curto e não aprecia muito o processo fazer escova. Tião, o de pelo curtíssimo, e que não precisa ser escovado, entra assim mesmo na fila, e aguarda, impaciente, sua vez de ganhar aquilo que ele deve achar ser uma forma superior de carinho. Escovo-o, sem que saia um fio, para que fique feliz. E ele fica.

Foi ele o primeiro a entender a logística da limpeza das patas ao voltar do passeio. O primeiro a levantar voluntariamente a patinha dianteira quando me vê pegar a esponja. Duda o seguiu, a contragosto. Chico ainda prefere que eu lhe levante cada uma das patas pesadas. 

Com dois meses de quarentena, Tião já ergue as patinhas – inclusive as traseiras! – sempre na mesma ordem. Duda ainda prefere levantar as patas traseiras apenas para o xixi (cercada por machos, nunca fez xixi agachada).  Chico… bem, o grandão deve achar que essa coisa de pandemia e limpeza de patas vá passar logo, e não vale a pena incorporar o procedimento à sua rotina.

Quem não convive com cachorros jamais vai entender por que os chamamos de filhos. Por que conversamos com eles. Por que nos curvamos a algumas das suas vontades – o lado da cama, a posse do sofá, a hora exata do passeio.  

Quem não convive com cachorros há de pensar que projetamos neles nossa personalidade. Se for assim, devo ter transtorno dissociativo de identidade, porque convivo com três criaturas absolutamente únicas, que só têm em comum uma história de abandono.

Talvez não estivessem mais vivos se meu caminho não tivesse se cruzado com o deles – na Cidade de Deus, no Catete, em Jacarepaguá. Eu certamente seria menos feliz, e um pouco mais morto, se o caminho deles não tivesse se cruzado com o meu.

Transportadores e transportadoras

J.K.Rowling, a autora de Harry Potter, não sai por aí procurando encrenca. Em geral as encrencas é que vão ao encontro dela.

Ela está sendo acusada de transfobia por achar que um artigo intitulado “Criando um mundo mais igualitário pós-Covid-19 para pessoas que menstruam”, poderia ter sido chamado simplesmente de “Criando um mundo mais igualitário pós-Covid-19 para as mulheres”.

Rowling pode entender muito de animais fantásticos – e até saber onde habitam – mas ainda é do tempo em que menstruação era coisa de mulher.

Hoje há homens que menstruam, mulheres que ejaculam. Mulheres com disfunção erétil, homens com cisto no ovário. Homens que engravidam e amamentam; mulheres que fazem espermograma. E Rowling não se atualizou. Logo, é uma transfóbica, um daqueles seres abomináveis que ainda acreditam em sexo biológico. Praticamente um Voldemort de saias. Ops, a expressão “Voldemort de saias” pode ser transfóbica, porque associa o gênero feminino a saias, e tanto mulheres quanto homens quanto pessoas que menstruam quanto pessoas que ejaculam podem usar saias, calças, bermudas, o que bem entenderem, sem que isso defina seu sexo, seu gênero, sua orientação ou, no caso dos genderfluid, sua vaibe no momento.

Talvez os formulários retrógrados e transfóbicos em que a gente bota um X em F ou M devam ser modificados. Teremos PQM (Pessoa Que Menstrua) e PQE (Pessoa Que Ejacula).

Mas mulheres também ejaculam (dizem; eu mesmo nunca vi). E depois da menopausa não menstruam mais, assim como não menstruavam antes da menarca. Sem contar as pessoas que não menstruam porque fizeram um implante subcutâneo para não menstruar. PQM é um termo muito impreciso.

Que tal PPV (Pessoa Portadora de Vagina) e PPT (Pessoa Portadora de Testículo)? Não é mais inclusivo?

Claro que vamos precisar de um tempo para nos acostumar a ouvir a Renata Vasconcelos anunciar no Jornal Nacional que José Dirceu, pessoa portadora de testículo forte do governo Lula, declarou que uma chapa Rui Costa e Flávio Dino seria imbatível na disputa pelo governo federal em 2022.

Ou, na cerimônia à beira-mar, noivos e convidados de bermudas brancas e pés no chão, o padre Fábio de Mello perguntar:

– Brunnynho, aceita esta pessoa portadora de vagina, Camylla, como sua legítima esposa?

(Na fila dos padrinhos, Fellype, murmurará, de si para si: “E que vagina!”).

– Camylla, aceita esta pessoa portadora de testículos, Brunnynho, como seu legítimo esposo?

(De mãos dadas com Fellype, na fila das madrinhas, Victhorya suspirará: “E que testículos!”).

Para não sermos transfóbicos como Mrs. Rowling, que insiste na velha dicotomia “homem e mulher”, temos que fazer nossa parte e contribuir para o fim da invisibilidade trans. Porque não basta dizer homem trans e mulher trans. A palavra “mulher” é extremamente ofensiva; a palavra “homem”, nem se fala.

Resta a dúvida se devemos dizer “Pessoa Portadora de Testículo, Epidídimo, Ducto Deferente e Ejaculatório, Uretra e Glândulas Seminais Trans” (PPTTEDDEUGST) ou “Pessoa Trans Portadora de Testículo, Epidídimo, Ducto Deferente e Ejaculatório, Uretra e Glândulas Seminais” (PTPTEDDEUGS).  E “Pessoa Portadora De Lábios Menores, Lábios Maiores, Clitóris, Ovários, Tuba Uterina, Útero e Vagina Trans” (PPLMLMCOTUUVT) ou “Pessoa Trans Portadora de Lábios Menores, Lábios Maiores, Clitóris, Ovários, Tuba Uterina, Útero e Vagina” (PTPLMLMCOTUUV).


No próximo Harry Potter, em que finalmente Harry e Hermione assumem o relacionamento, havemos de ter diálogos assim:

– Harry, você é a PPTEDDEUGST da minha vida…
– Você disse PPT ou PTP, Hermione?
– PPT, Harry. T de testículo, não de trans. Não vá me dizer que…
– Não, Hermmy, é que no GST eu já não me lembrava mais do começo da sigla. E você é a PPLMLMCOTUUV mais mágica que já conheci.
– Own, Harry… Vamos colocar logo essa varinha de condão para funcionar!
– “Varinha”, Hermione? Você tem sempre que lembrar disso?
– Harry, não começa essa problematização de novo, por favor.
– Tá bom. Vamos apostar corrida de vassoura até aquela nuvem, e fazer amor ao luar?
– Own, Harry… vamos! E o último que chegar é PPLMLMCOTUUV do padre!

[Disclêimer 1: Nenhum transportador ou transportadora de qualquer sistema genital foi ferido na redação deste texto.]

[Disclêimer 2: Aos que forem compartilhar este texto em páginas de grupos democráticos (i.e, sem senso de humor e adeptos do pensamento único), com o fito de descer o pau no autor pelas costas, recomenda-se discrição, porque ainda não consegui sair de todos esses grupos e posso ter acesso aos comentários e, como sempre acontece nesses casos, ter também um acesso de riso em locais onde rir do risível é crime inafiançável).

Novo normal

Sabe quando você acorda depois de quase três meses em coma e percebe que o mundo está diferente? Nem eu nem você devemos saber, porque possivelmente não passamos por essa experiência, mas dá para imaginar, não dá?

Pois passei por isso na sexta-feira, quando fui a Nova Iguaçu, a trabalho.

Sou arquiteto, e arquiteto tem que ir aonde o terreno está. Como o terreno de um possível novo projeto estava em Nova Iguaçu, lá fui eu.

Tudo parecia do jeito que sempre foi.
Américas, Ayrton Senna, Abelardo Bueno e Transolímpica com tráfego intenso.
Avenida Brasil engarrafada.
Dutra com aquele trânsito pesado de sempre.

Nova Iguaçu de ruas lotadas.
Filas nas portas de bancos.
A mega-sena devia estar acumulada, porque havia aglomerações na frente de todas as lotéricas.
E também em todas as calçadas, em todos os sinais.

Tudo aparentemente normal, mas senti certa estranheza, e por uma coisa banal.

Pode ser uma nova moda, uma brincadeira tipo Pokemon, uma festividade local, mas… por que algumas pessoas, aqui e ali, usavam máscaras?
Não aquelas de Carnaval, cobrindo os olhos, mas coloridas, ora cobrindo só a boca, ora o queixo, ora pendurada na orelha.

Não deu para fazer uma estimativa confiável (eu estava dirigindo, tinha que me desviar dos pedestres, dos carros que entravam na preferencial, até de uma charrete), mas diria que cerca de 40% da pessoas usavam algo imitando máscaras, ou coisa que o valha.

Como podia ser alguma prescrição religiosa – e por acaso havia uma máscara no meu carro -, coloquei-a também.

Meus clientes não usavam máscara nenhuma. Me apertaram a mão efusivamente, o que também me deu uma sensação esquisita (nos quase três meses em coma metafórica, tive a impressão de não ter apertado a mão de ninguém, nem falado com ninguém a tão curta distância).

A experiência de ver aqui e acolá uma pessoa com um pano colorido na cara – ou no queixo, ou na orelha – me causou certo desassossego.

O resto estava normal.

Estranha e absolutamente normal.

Transição

Não estou cabeludo nem desgrenhado. Estou em transição capilar.

Uma transição entre sapiens e o neandertal, entre o apresentável e o melhor fazer de conta que não viu.

Sabe aquelas camadas geológicas através das quais os cientistas descobrem (ou inventam) quando ocorreu determinado evento? Pois está assim: dá pra ver exatamente a data do início do confinamento. Se o cientista for de Harvard, não de Rárvarde, é possível saber até a hora.

O cabelo vem liso, reto, de boa, até a altura da orelha – que é onde estava em março de 2020.  Nesse ponto, baixa um erê, sobe uma coisa esquisita e ele perde a linha.

Lembra da noviça voadora, uma que usava chapéu de aba, e levantava voo do Convento de San Tanco? Estou que nem. Só que com a ponta da aba para cima, feito as winglets dos aviões (não vou escrever uinguilete ou nem eu entenderia). Se bater um sudoeste, eu decolo.

Acontece a mesma coisa na nuca. O cabelo (pouco, mas meu) desce em ordem unida a partir da clareira do cocuruto. Um pouco antes da altura do lóbulo, é como se o chefe do pelotão gritasse “Pelotão, disper-SAR!” e dispara cada um pra um lado, fazendo cacho, pirueta, voluta, espiral, helicoidal, redemoinho. O que era uma disciplina militar vira quartelada, baderna na caserna, motim, sublevação.  Em vez do estilo Príncipe Danilo da minha infância, o corte agora é do tipo de daria corte marcial.

A barba, por sua vez, está em transição entre indivíduo em situação de rua para náufrago. Numa laive, supostos amigos sugeriram que eu conseguiria bom faturamento atuando no segmento da mendicância. Mas a intenção é fazer ho-ho-ho nos shoppings – se eles reabrirem até o Natal.

As sobrancelhas lançam gavinhas sobre as pálpebras, levando o fantasma de Leonel Brizola a me assombrar cada vez que me vejo no espelho. Mais uma semana e será Darcy Ribeiro em pessoa quem arregalará os olhos para mim toda manhã, na hora em que eu entrar no banheiro.

Das orelhas, nem falo nada, ou vão descobrir que reassumi, a contragosto, minha porção chupacabra.  

Se me perguntarem qual a primeira coisa que quero fazer quando a vida real for retomada, não será sexo, praia, livraria, chope, nada disso, mas depenar a orelha.

Sei que vai ter fila, senha, briga na porta da clínica de depilação. Que mulheres vão argumentar, aos gritos, que orelha não é parte da anatomia voltada para serviços essenciais. Mas estarei lá, acampado, esperando o momento de minha orelha poder retornar ao convívio social.

Na próxima pandemia,  tenho que me lembrar: esquece o álcool gel e o papel higiênico, e foca na cera quente.

Féchion quae sera tamen

Eu sabia que um dia estaria na moda. Nem que demorasse meio século, mas estaria.

É que minha mãe era costureira e avessa a desperdício. Costurava no capricho, mas aproveitando cada centímetro quadrado de tecido.  Seus bolsos eram invisíveis – melhor dizendo, camuflados, seguindo o mesmo alinhamento da estampa do resto da camisa.  E olha que os anos 60 e 70 foram pródigos em estamparias lisérgicas. Pois minha mãe ia lá e fazia os bolsos, as palas, os punhos em perfeita sincronia com o resto.

Claro que sobrava pano. Se fosse pouquíssimo, servia para forrar botões (tínhamos uma máquina de forrar botão que também servia para esmagar dedo de irmão mais novo). Se fosse pouco pano, virava colcha de retalho. Uma sobra maior virava camisa pros filhos, vestido pra filha.

Nem sempre o que sobrava era suficiente para uma camisa inteira. Mas – e aí é que entra o primeiro parágrafo – nada que não pudesse ser resolvido com duas ou três sobras diferentes.

Felizmente minha mãe tinha bom gosto, e me fazia camisas com as costas lisas e a frente estampada. Toda lisa, com bolsos, mangas e colarinho em composê. Inventava modelos, cortes, recortes e firulas que, quem visse, jamais diria (pelo menos não na frente dela) que aquilo era a própria sustentabilidade aplicada à costura, muito antes de a sustentabilidade vir ao mundo.

A partir de certa idade passei a ter vergonha das minhas camisas-colagens. Queria camisas sem liberdades poéticas, camisas puro sangue, monocromáticas, homogêneas. Não adiantava virem me dizer que a gola combinava com o bolso: eu queria tudo chapado, azul de fio a pavio, verde de cabo a rabo, sem o risco de, na missa, minha manga reconhecer sua família biológica no vestido da senhora do banco à frente.

Nas fotos da minha infância, vejo hoje uma pobreza que então eu não percebia: uma parede descascada, uma cerca de bambu meio descaída, um móvel velho, uma telha vã. Não éramos pobres – ou melhor, até éramos, mas não a ponto de não poder comprar um corte de fazenda. Mas por que desperdiçar retalhos?

Quando nasci, meu pai não trabalhava:  era estudante secundarista. Meu avô bancava filho, nora e neto. Melhor dizer netos, no plural, porque logo em seguida veio o segundo, quando meu pai ainda não trabalhava: estudava para o vestibular. E veio o terceiro– uma menina – e meu pai continuava não trabalhando: era universitário. Veio o quarto, com meu pai finalmente indo botar a mão na massa, ao se formar em Direito. Durante todo esse tempo, meu avô proveu casa e comida. Mas minha mãe pagava, com a costura, todas as outras contas. Não eram tempos de se jogar nada fora.

(Parênteses para uma madeleine: nossa melhor comida de domingo era uma travessa de macarronada decorada com ovos em rodelas e sardinhas. Minha mãe distribuía simetricamente as rodelas maiores e menores, e mesmo as das pontas, só claras, entremeando-as com metades de sardinha. Mas estas não iam diretamente da lata para a mesa: minha mãe as descamava com o dorso da faca, abria, retirava as vísceras, a espinha, a barbatana, e a sardinha seguia limpinha e faceira para a mesa.  Meu avô resmungava: “Pobre e limpando sardinha!” e eu não entendia. Hoje entendo: éramos pobres, e nem por isso deixávamos de ter o refinamento possível do bolso na diagonal, caso não houvesse tecido para o bolso alinhado; não íamos além do macarrão aos domingos, mas nem por isso comeríamos escamas e vértebras de sardinhas. Fecham-se os parênteses).

Enquanto minha irmã crescia, seu vestido ganhava novas barras, quem sabe um babado, um artifício qualquer que o fizesse crescer junto.  Nossas calças, quando passamos a ter calças compridas, ganhavam novas bainhas.  O irmão nascido logo depois de mim herdou todas as minhas roupas – usava não só retalhos, mas retalhos de segunda mão.

Hoje vi o anúncio com essas camisas meio mussarela meio calabresa. Minha mãe jamais faria isso, porque tudo tem limite. Mas era mais ou menos isso o que ela fazia: inventava moda. Uma moda que levaria décadas para ser reconhecida: a do listrado combinando com bolinha, do xadrez dialogando com o grafismo, do floral de florzona harmonizando com o floral de florzinha.

Deu vergonha de ter tido vergonha das minhas camisas Frankenstein. Se eu as tivesse guardado – e não tivesse crescido nem engordado nos últimos 50 anos – estaria na última moda.