Sequestrando a narrativa

sequestro

O governador Marcelo Freixo chegou por volta das 9h à Ponte Rio-Niterói, a bordo de um veleiro movido a energia solar – que demorou mais que o previsto porque o dia estava nublado e sem vento. Sua assessoria divulgou que o deslocamento gerou crédito de carbono.

Mais cedo, a Light (agora incorporada à Secretaria de Segurança Pública) havia espalhado postes por toda a Ponte, para evitar novos sequestros.

Agentes se posicionaram em pontos estratégicos com livros de filosofia e história. Como os atiradores de elite foram dispensados no início do governo, seus substitutos, os atiradores das classes marginalizadas, acabaram acionados para a eventualidade de uma ação mais delicada, sendo municiados com teses da UFF sobre ideologia de gênero e surubas em banheiros públicos de supermercados.

Uma ciranda foi organizada em torno do ônibus, com todas, todos e todes de mãos dadas e pés descalços, cantando “Imagine”, abraçando o coletivo e pedindo Lula Livre e soltando pombas brancas.

Uma deputada do PSOL sugeriu que o sequestrador não usasse gasolina, mas etanol, que é mais sustentável, e que os reféns não tivessem as mãos atadas com lacres sintéticos, levam séculos para se degradar e podem poluir os oceanos com microplásticos. Em troca, ofereceu cordas de fibra de cânhamo produzidas artesanalmente numa comunidade da Praça São Salvador.

Numa plenária, realizada na praça do pedágio, os comitês de Cidadania, Historicidade, Horizontalidade de Gestão, Inclusão Trans e Anticanabisfobia deliberou que as ações de resgate, se necessárias, deveriam ser pautadas pelas diretrizes de gênero, etnicidade, empoderamento lésbico (com ênfase na não performação da feminilidade) e participação em ovulários de sororidade e encontros de detox da masculinidade.

Um comitê elaborou uma pesquisa (patrocinada pela Capes) para definição da escala pantone dos cidadãos em situação de ônibus e do marginalizado em situação de máscara e garrafas pet supostamente inflamáveis. Esse estudo permitiria fornecer subsídios à equipe de negociadores para determinação da prioridade daquilo que a extrema imprensa burguesa insistia em chamar de “libertação de reféns”.

Foram feitas propostas de que os veganos deveriam deixar a condição de ônbus para a condição de ponte antes dos demais, gerando intenso debate com os que lembravam que o pagamento da dívida histórica com os afrodescendentes deveria ter precedência. Trabalhadores em situação de informalidade, mulheres oprimidas pelos padrões estéticos da sociedade e pela balança, e minorias sexuais também foram pontuadas, até que o próprio governador lembrou que a verdadeira vítima era o afrodescendente portador de máscara, que se levantara às 5 da manhã, possivelmente sem um desjejum como aquele do Copacabana Palace que ele mesmo havia acabado de tomar.

Foi organizado no vão central um show de solidariedade à vítima da sociedade branca opressora que mantinha o controle do ônibus, com participação de Zélia Duncan, Maria Gadú, Anavitória, Tico Santa Cruz, apresentação de Tatá Werneck e Bruno Gagliasso, e performances das axilas de Bruna Linzmayer, com fundos revertidos para a ONG SVS (Sequestradores Vítimas da Sociedade) e transmissão ao vivo pela GloboNews.

Após 14 horas de negociação, com fornecimento de quentinhas veganas ao sequestrador, entrevistas exclusivas à Mônica Bérgamo e à Carta Capital, os cidadãos reclusos no coletivo se amotinaram, tomaram a chave, deram um cavalo de pau e retornaram a São Gonçalo, sob saraivadas de livros da Márcia Tiburi, Foucault, Boff, Gramsci, Nina Lemos, Althusser, Judith Butler, Bagno, Habermas, Chauí, Sartre e Kéfera.

Um dos líderes do motim a bordo declarou pelo zap que ninguém aguentava mais ouvir o Programa da Fátima Bernardes (no ar das 7 da manhã às 7 da noite na tevê de bordo) e que, por unanimidade, preferiam se jogar no mar. Antes de despencar pela mureta, libertaram o sequestrador – que foi recebido com soquinhos no ar pelo Governador Freixo e convidado a jantar no Fasano.

A direita problematizou a comemoração do governador e achou falta de decoro os soquinhos no ar. Em Nota Oficial, o Palácio Guanabara declarou que a missão foi um sucesso, com o salvamento do sequestrador e que manda condolências à empresa que perdeu um ônibus.

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Newspeak

gratidao

A epidemia de “gratidão” ainda não passou – e o gráfico do Google Trends prova isso.
É o Newspeak – a Novilíngua – em ação.

Mas, se é pra fazer, vamos fazer direito.

Se trocou o “Obrigado” por “Gratidão”, tem que mudar o “De nada” para Por tudo”.

E, de agora em diante, nada de “Por favor”.
“Favor” pode ser um proveito, uma vantagem.
Prostitutas prestam favores sexuais. Políticos trocam favores.
Usemos “Por gentileza”, que é mais gentil.

Esqueçamos o “Com licença”.
“Licença” lembra licenciamento de veículo no Detran, licença médica, licença ambiental.
007 tinha licença para matar.
Licença é uma permissão (que lembra permissividade), uma autorização (que lembra autoritarismo).
Doravante, por um mundo melhor, pediremos “Com consentimento”, que é uma expressão com … sentimento.

Sim, há sentimentos ruins. Mas, neste caso, mentalize sentimentos bons, e pronto.

“Desculpe” traz embutida a palavra “culpa”.
Esqueça.
Peça “Perdão”.

“Que pena!” tem um subtexto de penalidade, de penitência.
Diga “Compaixão”.

“Ô dó!” tem algo de dor.
Dá um pouco mais de trabalho, mas opte por “Sinto-me consternado(a)”.

“Lamento muito” parece lamúria. Se um abraço ou um tapinha nas costas não resolverem, faça um coraçãozinho com a mão, expressando ternura.

“Adeus”, nunca mais.
É ofensivo aos ateus e discrimina os politeístas, para quem teria que ser dito “adeuses”.
Ofende também os cristãos, ao invocar um santo nome em vão.
“Até” tá de bom tamanho. E não dá aquela impressão de que a separação seja para sempre.

Chega de expressões negativas!
“Como tem passado?” evoca o que já passou, e o que importa é o futuro.
“E aí, chefia?” traz implícita uma inferioridade hierárquica, uma normalização das relações de poder.
“Sempre às ordens”, então, nem se fala.

“Nos vemos qualquer hora dessas” agride os portadores de deficiência visual.
“Sou todo ouvidos”, os deficientes auditivos.
“Que tudo corra bem”, os com mobilidade reduzida.
“E aí, beleza?”, os que não atendem as expectativas estéticas da sociedade.
“E aí, tranquilo?”, os dependentes de gardenal.
“Muito prazer”, as frígidas.
“A gente se esbarra”, os estabanados.

Nesses casos, é melhor não falar nada.
Sorria – sem mostrar os dentes. E saia de fininho, mas com a certeza de ter transformado o mundo à sua volta num lugar melhor.

Revolução evolutiva

Tardis

Uma nave israelense pode ter, sem querer, iniciado a colonização da Lua. Não por humanos, mas por tardígrados, seres mais resistentes que o Gilmar Mendes em relação à Lava Jato.

Eles sobrevivem a um calor cuiabano de 150 graus Celsius e à friaca curitibana do zero absoluto. Quando desidratados, reduzem o metabolismo a 0,01% da taxa normal – e podem ficar assim por décadas, num estado de animação suspensa, se fazendo de mortos mas vivinhos da silva. Tipo assim a Graça Foster, o Aloízio Mercadante, o Mangabeira Unger, a Erenice Guerra.

Pode ser que, em algum momento, um meteorito contendo partículas de gelo resolva despencar perto de onde a nave israelense se acidentou, liberando um fiapo de umidade que os reidrate e ressuscite.

Eles vão se espreguiçar, assuntar o ambiente, procurar alguém para acasalar e em um milhão de anos, os tardígrados terão povoado a Lua. E evoluído.

Começarão a andar sobre quatro patas, liberando as outras quatro para fazer malabarismo e se comunicar através de mímica. Ganharão um mindinho opositor. Inventarão o fogo e descobrirão a roda (sim, a roda será descoberta nos fósseis da nave israelense ou nas marcas deixadas pelo trem de pouso da Apolo XI, e não precisará ser inventada, o que acelerará bastante a evolução).

Desenvolverão mitos sobre sua origem divina, escreverão em blocos de argila a história de seres extralunares e alienígenas do passado. Construirão pirâmides em forma de cone (geometria não será o forte deles), travarão guerras sangrentas (ou pelo menos gosmentas) por causa de deuses que eles mesmos inventaram. Construirão máquinas a vácuo (vapor, na lua, só nos papiros de ficção científica), que levarão a uma revolução industrial. Durante a corrida armamentista (tardígrados progressistas x tardígrados reacionários), disputarão para ver (“ver” é modo de dizer, porque eles não têm olhos) quem chega primeiro à Terra.

A nave tardígrada pousará num planeta deserto. Seus habitantes – que não acreditaram no aquecimento global, porque continuava fazendo frio no inverno – morreram esturricados. Os mares, lagos, rios – e até as piscinas de borda infinita dos novos-ricos – evaporaram, revelando, no fundo do oceano, as ruínas de Atlântida.

Foi lá que o primeiro astronauta invertebrado lunar cravou sua bandeira e declarou ser aquilo um microscópico passo para um tardígrado e um pulo de um centímetro para a tardigridade.

O retorno da missão Artrópode XI só não foi triunfal porque uma onda conservadora varria a Lua, provocando intensa polarização. De um lado, os “Make Moon great again” e os “Mar da Tranquilidade acima de tudo, deus dos onicóforos acima de todos”; do outro, os “#MeToo” e os “Ninguém solta a garra de ninguém”.

As tardígradas lacradoras passaram a não depilar mais as patas e a ter cintura fina, para não se submeter aos padrões estéticos impostos pela sociedade, que valorizava seres roliços e rechonchudos. Os machos da espécie, por sua vez, houveram por bem se vestir de cor de rosa, tatuar fênix no cóccix para superar um pé na bunda e se chamar de “companheire tardígrade”.

No outro polo (da Lua e da ideologia), tardígradas e tardígrados conservadores começaram a acreditar na teoria da Lua plana e a passar pano desesperadamente, além de atirar uns nos outros, o que os levou a desenvolver T.O.C., ter L.E.R. e receber certidão de óbito.

Ainda por cima, aderiram ao “gratidão” e ao côutchim quântico. Foi o fim da civilização lunar.

Enquanto isso, em Atlântida, um tardígrado mais resistente que o governo de Nicolás Maduro despertou de milênios de hibernação. Incinerado quando o último diretor do INPE pediu exoneração porque não havia mais nenhuma árvore na Amazônia e o planeta se ferrou de vez, ele fora atingido por uma gota de xixi de um dos astronautas lunares, que ficara muito apertado e fora se aliviar atrás de uma estátua de Netuno.

E aí começou tudo de novo.

Já não se faz mais pornô como antigamente

chanchada

Foi ontem a entrega do Oscar do pornô brasileiro, promoção de um canal de tevê a cabo cuja equipe de produção é composta majoritariamente por mulheres e do qual também elas são a maioria dos assinantes.

Pensei logo (olha o machismo estrutural aí) que fosse algo mais light, tipo filme erótico cheio de cenas em câmera lenta, com lente esfumada, velas acesas, preliminares intermináveis e clímax com mãos agarrando lençóis de seda e dedos do pé retorcidos em êxtase, enquanto a câmera desliza suavemente para a lareira.

Acho que preciso me atualizar a respeito. Os filmes concorrentes tinham títulos como “Loira voraz 2”, “Amarradas e dominadas”, “Violadas ao extremo” e “Elisa, campeã anal”.

Nada mais distante daqueles tempos em que ainda existiam pelos pubianos, e tínhamos carteirinha de estudante falsificada para assistir “Aluga-se moças”, “Histórias que nossas babás não contavam”, “A superfêmea”, “Nos tempos da vaselina” ou o clássico “Um pistoleiro chamado Papaco”.

Aparentemente, ainda tem gente da velha guarda encarregada de batizar as obras: “Massagem excitante”, “Triângulo sexual”, “Tentação tropical”, “Amor e traição”, “A hóspede desejada”, “Show de vizinha”, “La casa de Raquel” (paródias eram um filão inesgotável), “Boas entradas” (duplos sentidos, idem).

Há, claro, os sinais dos novos tempos (“Start up da louras”, “App”, “Bound up”) e coisas indecifráveis (“Promessa é dívida”, “O que trazes para mim”, “Diga sim para a yoga”).

As categorias são um tanto óbvias: Melhor atriz / ator hétero, atriz / ator revelação hétero / LGBT, melhor atriz trans (melhor ator, não), melhor atriz homo (melhor ator, não), melhor direção, melhor filme hétero (LGBT não), melhor cena de oral / anal / fetiche / ménage / dp / orgia / trans.

Como assim, não há “Melhor cena de sedução de jardineiro / encanador / entregador de pizza”? “Melhor cena de banho de chuveiro com a porta aberta”? “Melhor cena de beibidol”?

“Melhor cena inútil de carro subindo pela rua até estacionar na porta de casa”? “Melhor cena de professora intelectual de óculos, cabelo preso e minissaia, desabotoando a blusa”? “Melhor diálogo daqueles de matar a plateia de vergonha alheia”?

Será que os pornôs de agora ainda têm um fiapo de enredo, ou são só sexo, sem aviso prévio? Seria um avanço, porque não há nada pior que pornô sem história. Exceto pornô com história.

Diz a matéria do G1 que teve discurso contra “a caretice tosca” e a transfobia. Mas, pelo visto, faltou protesto pela inclusão de “Melhor cena não binária genderfluid”, “melhor orgia solossexual” (solossexual é quem só se sente atraído por si mesmo), “melhor ator / atriz sapiossexual” (sapiossexual é quem se sente atraído sexualmente pela inteligência de uma pessoa, independentemente do sexo biológico ou identidade de gênero) e uma categoria para os assexuais (filão atualmente monopolizado pelo feicebuque).

Consta que Elisa Sanches agradeceu de olhos emocionados o prêmio de “Melhor cena de sexo anal”. Imagine se tivesse ganho o de “Melhor cena de voyeurismo”.

 

Manhole

manhole

O que mais gosto no politicamente correto é o labirinto no qual ele mesmo se perde.

Devemos deixar de usar a palavra “homossexualismo”, que teria conotação de doença (reumatismo, raquitismo, sonambulismo) e passar a utilizar a neutra “homossexualidade” (como em privacidade, capacidade, honestidade).

“Homossexualite” talvez fosse injustificável, já que o sufixo “ite” indica doença, inflamação (bursite, labirintite, faringite, conjuntivite). Ou “homossexualose” (“ose” é sufixo indicador de doença não inflamatória: neurose, cirrose, mononucleose, lordose, tuberculose). Ou homossexopatia (“patia” se refere a processo mórbido: cardiopatia, encefalopatia, psicopatia ou até mesmo antipatia).

Ocorre que “ismo” não indica apenas condição patológica. Ou será que são doenças o feminismo, o lirismo, o iluminismo, o romantismo? E qual a parte boa e neutra da crueldade, da infidelidade, da infelicidade e de todas as calamidades?

Mudemos, então, o feminismo para feminidade – e o machismo para machite, machose ou machopatia (dependendo de considerar se a coisa é inflamatória, não inflamatória ou apenas doentia).

Palavras derivadas de “pênis” deveriam ser evitadas. Nada de ir de penetra numa festa, ou “penetrar surdamente no reino das palavras” (como sugeriu o Drummond), ou mesmo passear na península ibérica (ainda que “península”, por mais que seja um trecho de terra penetrando o mar não tenha nada a ver com pênis, mas com “pæne” (quase) e “insula” (“ilha”). Mas as feministas que querem abolir a palavra “península” não sabem disso.

“Vagina” seria outro termo a substituir. Sua origem é a mesma de bainha (não a da calça ou da saia, mas o recipiente onde se guardava a espada). Existiria não por si mesma, mas como receptora do órgão masculino. O politicamente correto é “vulva” (ainda que vulva e vagina sejam coisas distintas: a vagina é o tubo que liga a vulva ao cérvice e ao útero). Mal sabem que “vulva” vem de “volva” (aquele ou aquilo que envolve). Trocaram seis por meia dúzia.

Deveriam ser abolidas todas palavras carregadas de machismo estrutural. Alguns grupos feministas (ops, grupos femininadistas) já chamam seus encontros de “ovulários”, porque “seminário” deriva de sêmen (palavra seminalmente machista).

Mas “sêmen” vem do latim “semen”, que significava semente, o grão que se semeava; “óvulo” vem do mesmo idioma: “ovulum”, diminutivo de “ovum”, que significa “ovo”. O seminário é onde se semeiam ideias; um ovulário me soa ao lugar onde nascem ideias de chocadeira.

Já nos livramos (ainda bem) de expressões como “belo sexo” ou “sexo frágil”. Já ninguém se sente nas nuvens ao ser chamada de “rainha do lar” e ganhar um liquidificador ou um jogo de panelas no aniversário. Mas “abrir as pernas” ainda é sinônimo de se submeter, de não ter o controle de uma situação.

Falta muito para caírem em desuso as expressões sexistas (homem não chora, coisa de mulherzinha, falar grosso, mulher direita, seja homem, bom pra caralho). Essas, sim, são expressões que ajudam a perpetuar estereótipos.

Mas até que temos sorte, porque nos Estados Unidos se discute se não seria machismo haver a palavra “man” dentro da palavra “woman”; se “mankind” (humanidade) não deveria ser trocada para “peoplekind” (para não ser exclusividade dos “man”) e se quando uma mulher for gerente deva ser chamada de “womanager“ em vez de “manager”. Que mania (ou womania…) de ver machismo em tudo!

Em Berkeley (ver linque abaixo), tiraram o “man” de “craftsmen” (artesãos), para virar “craftspeople”. E “repairmen” (reparadores) virou “repairers”. Mas será que não teriam que tirar a palavra “pair” (par) para deixar de conter discriminação contra os solteiros?

A essa brava gente que, armada de sufixos e falsos cognatos, luta para criar um mundo mais justo, fica aqui minha sincera homenagem (e mulheragem).


Cidade dos EUA vai mudar palavras para que fiquem com neutralidade de gênero

Deepfake

Carey

Se vazarem nudes meus no zape, já sabem: é fotoxope.

Mesmo que seja eu, cuspido e escarrado, negarei até a morte (e enviarei postagens psicografadas do Além – caso haja Além, e uaifai no Além – negando até depois de morto).

Parece comigo, mas não sou eu. É montagem. Olha esses pneus, esse nariz idêntico ao meu, mas é o Al Pacino, é o Cyrano de Bergerac, é a Barbra Streisand. É, eu sei, a Barbra Streisand não tem essa monocelha e essas orelhas felpudas, mas quem garante que ela não fica assim nas sextas-feiras?

Qualquer imagem comprometedora que vazasse, a gente podia negar as aparências, disfarçar as evidências e viver fingindo que era tudo fotoxope. Não havia provas. Era gópi.

Mas e quando surgissem vídeos? Você e três travestis entrincheirados numa jacuze do Vip’s, sem que fosse possível distinguir o que era de quem – como apelar para o “não é nada disso que você está pensando” sem piorar ainda mais a situação?

Seus problemas acabaram!

Pode levar quem quiser para a jacuze (menos a do Vip’s, que fechou, e a do Holiday, que infelizmente continua em obras) e deixar filmar à vontade. Se a “ménage à trente trois” cair na rede, é só dizer que é dipifeique.

Para quem chegou agora ao planeta, dipifeique é um aplicativo que usa (e abusa) da inteligência artificial para trocar o rosto (e, em breve, outras partes da anatomia) em vídeos.

Mais ou menos o que foi feito na suposta suruba do Dória, só que na ocasião a trucagem ainda era tosca demais para ser levada a sério.

Agora, quem não gostou muito da performance do Schwarzenegger no “Exterminador do Futuro” pode confirmar que ficaria ainda pior com o Stallone (veja os linques abaixo). Quem achou que o Jack Nicholson era imbatível em “O iluminado” pode se surpreender ao descobrir que Jim Carrey até que daria um caldo ali.

A dipifeique está para o “vazou na internet” assim como a pílula esteve para a revolução sexual. Nada será como antes.

O Intercept poderá receber gratuitamente de algum ráquer imparcial e desinteressado um monte de vídeos da Dilma dizendo coisas compreensíveis – e até razoáveis. E de forma tão convincente que a próxima geração tenderá a achar que os feiques eram aqueles em que ela afirmava que o meio ambiente era uma ameaça ao desenvolvimento sustentável, que a autossuficiência do Brasil sempre foi insuficiente, que a inflação foi uma conquista do presidente Lula, que atrás da criança tem a figura de um cachorro etc.

O falso parecerá mais verdadeiro que a verdade. O simulacro será mais verossímil que o real. E ninguém (a não ser você e as trinta e três travestis) jamais saberá o que realmente se passou naquela noite em que você beijou na boca de quem não devia, pegou na mão (ou sabe-se lá em que outra extremidade) de quem não conhecia, dançou até o chão em traje de maiô – e nem por isso a sua reputação se acabou.

O dipifeique veio para mostrar que São Tomé, se ainda fosse vivo, além de velho pra caramba, ainda estaria lascado. Não é preciso mais ver para crer: é preciso descrer de tudo. Da imagem, da voz, da cena. Nossos sentidos nunca nos enganaram tanto.

E se algum velho timbira garantir “Meninos, eu vi”, duvide. Não era eu. Eu jamais faria aquilo. Não naquela posição. Minha coluna não aguenta. Eu não ia correr riscos desnecessários numa jacuze escorregadia como a do Vip’s. Ainda mais numa água fria daquele jeito e com os sais de banho que deixaram meu cabelo esverdeado por três dias.

Não era eu mesmo.
Era dipifeique.

Juro pela inocência do Lula como era.

 


 

Sylvester Stallone em Exterminador do futuro 2

Sylvester Stallone em Exterminador do futuro 2 – trecho 2

Jim Carrey em O iluminado

 

Fora de órbita

mapa-astral

Madame Zorah acordou com um mau pressentimento. O horóscopo que preparara para si mesma no dia anterior garantia uma noite de harmonia no lar e sem surpresas até o amanhecer. Mas, por volta da meia noite, Edgar, que não levantava a voz nem em pensamento, fora tomar água e dera o maior piti por causa das forminhas de gelo vazias. Ele, que só tomava água em temperatura ambiente. Edgarzinho, normalmente alheio a tudo que não fosse jogo de computador, inexplicavelmente tinha se deitado cedo e reclamara de ser acordado. Logo ele, que não deixava ninguém dormir.

A diarista chegou, pela primeira vez na vida, uma hora mais cedo (“para compensar o atraso de ontem, dona Zoraide”) e encontrou o gato no parapeito da área de serviço, acuado pelo periquito.

Antes que a lei da gravidade começasse a puxar as coisas para cima, Madame Zorah correu para sua mesinha de trabalho e começou a refazer os cálculos zodiacais.

Tudo ok com Netuno. Vênus estava onde sempre estivera. Saturno. idem. Plutão, Plutão… por Júpiter, onde tinha ido parar Plutão? Sua casa estava vazia. Respirou fundo. Plutão às vezes era mesmo difícil de encontrar, perdido nos cafundós do sistema em sua órbita maluca. Mas agora tinha era sumido de verdade.

Madame Zorah limpou os óculos, ajeitou a franja, puxou a alça do sutiã e repetiu “isto não aconteceu, isto não está acontecendo, isto não vai acontecer”.

Olhou de novo os mapas e deu de cara com Xena.

Xena? Quem é Xena?

Pois na casa ao lado da que fora de Plutão agora morava Xena. Netuno, o vizinho mais próximo, se comportava de maneira estranha, como se uma tempestade lhe agitasse as profundezas. Mesmo Urano, o chuchu dos planetas, mudara seu trânsito e se arriscava, temerário, em novas quadraturas. Madame Zorah tentou gritar, mas a voz não saiu.

A presença de Xena explicava o mau humor de Edgar – aquele banana – e a inesperada reentrada de Edgarzinho no mundo dos vivos. Mas e a inusitada pontualidade de Marinalva? A resposta acabava de aparecer. Menor que a lua, lá estava Ceres, uma formiguinha cósmica ao lado do paquidérmico Júpiter.

Marinalva não ligara o rádio nos louvores de sempre. Naquele exato momento enchia as forminhas de gelo com água da torneira, toda trabalhada no funk. Era Ceres mostrando a que vinha.

“Meu mundo caiu”, pensou Madame Zorah. Corrigiu: “Meus mundos caíram”. Olhou no jornal o horóscopo que escrevera na véspera, anterior à safra de novos planetas. Tudo errado. Quantos negócios fechados no “bom momento para fechar negócios” seriam agora fechados de verdade? Imaginou-se na porta do Procon, cercada de aldeões com tochas e ancinhos, acusada de charlatanismo. E por um erro literalmente astronômico.

Os pedidos de socorro de Sultão, o angorá, fizeram-na levantar os olhos dos mapas. Omar Cardoso, o periquito, se apossara do pote de Whiskas, da bolinha e da caixa de areia, e mantinha Sultão encurralado no basculante, a um miado da queda livre no poço de ventilação. Madame Zorah teria se precipitado para salvar o gato se não vislumbrasse, naquele instante, outra causa da reviravolta: Plutão ressurgia, timidamente, agora dividindo sua casa com Caronte. Sim, Plutão saíra do armário.

Madame Zorah olhou a pilha de livros esotéricos e de autoajuda, subitamente inúteis. Os disquetes com programas de computador, inapelavelmente obsoletos. Todas as previsões escritas para os próximos meses, peremptoriamente condenadas à lixeira.

Sentiu a cabeça girar numa órbita elíptica e um calor ascendente que a menopausa não explicava. Uma vontade de agarrar Edgar pelo pijama, encostá-lo num quadrante e entrar em conjunção com o elemento ali mesmo, até atingir o zênite, como não faziam desde o nascimento de Edgarzinho, durante o Plano Collor.

Olhou de novo o mapa e.. não! Eram Eris e Sedna que se instalavam no zodíaco, acabando de arrombar a festa.

Madame Zorah (nascida Zoraide Aparecida, sob o que um dia fora o signo de Capricórnio), desmaiou antes de se dar conta de que 2003EL61 e 2005FY9, que nem nome direito tinham, já botavam as manguinhas de fora no zodíaco.

Marinalva se trancara com Edgar e duas forminhas de gelo no quarto de empregada, e, assunto resolvido com Sultão, Omar Cardoso mantinha Edgarzinho como refém, ameaçando cortar a mangueira do botijão de gás com o bico.

Omar Cardoso, outrora um pacato periquito de Touro com lua em Aquário, agora era de Gêmeos. E com ascendente em Escorpião.

 

(Este texto é de 2006, quando Plutão deixou de ser considerado planeta. Na época, se argumentou que, se ele mantivesse o status, um bando de planetoides ((Ceres, Sedna, Eris, Haumea…) também deveria ter o mesmo direito. Como era de se esperar, os astrólogos não deram a mínima para a decisão dos astrônomos. Ou será que…).