O dilema das rodas

Estou pensando em fazer um documentário em que ex-executivos da Volkswagen, da Fiat, da Ford, da Toyota e, por que não, da Gurgel, se penitenciam diante das câmeras por terem desenvolvido automóveis.

– Eles provocam desastres – lamenta X, desviando o olhar após uma pausa dramática.

– Nós sabíamos dos riscos e, ainda assim, colocamos aceleradores – diz, enxugando uma furtiva lágrima, o engenheiro Y.

Os herdeiros de Daimler e de Benz falarão da inveja causada pelas Mercedes inventadas por seus antepassados.

– Já havia ressentimento demais no planeta. Mas vovô foi insensível e… – não conseguirá terminar o depoimento.

Sim, a indústria automobilística é perversa. Mauzona, maldosa e malvada.

– Fui alto executivo da Ferrari. Por mim, teríamos produzido apenas ambulâncias. E carros do Corpo de Bombeiros. Mas havia pessoas gananciosas e o que poderia ser um lindo projeto acabou se perdendo.

No cenário frio (este documentário pede cenários frios), com pequenos trechos do meiquinhofe (este documentário pede maquiadores tirando o brilho da pele de um, reristáilistes ajustando as mechas de outra), um a um os ex-ciiôus lavarão roupa suja, a centrifugarão e farão enxague completo com amaciante e Lysoform.

– Claro que estava nos planos, desde o início, que ladrões usariam nossos carros nas fugas – confessará K (inicial fictícia), engenheiro de produção da Nissan.

– E que agroboys tunariam nossos produtos, incluindo uma potente aparelhagem de som para ouvir dupla sertaneja no volume máximo, com o porta-malas aberto, no domingo, no Parque Barigui – continuará W (inicial mais fictícia ainda), gerente de projetos da Jeep.

– Devíamos ter resistido e abortado o Ford Bigode enquanto era tempo, mas… fomos fracos.

O documentário levantará questões sobre segurança (“Os erbegues não foram instalados nos calhambeques para não atrapalhar a estética. Eles teriam salvo a vida de milhares de melindrosas inocentes”), sobre liberdade (“Sim, o cinto de três pontos foi pensado como forma de manter as pessoas mais tempo presas dentro dos veículos, ouvindo propaganda no rádio. A JB FM e a Super Rádio Tupi injetaram muita grana nesse projeto”) e sobre manipulação (“O viagra foi adiado por décadas para que pudéssemos continuar vendendo Simca Chambords, Mavericks e Camaros amarelos”).

Alguém lembrará que carros também servem para transportar hortifrútis para o Ceasa, levar as crianças à escola, visitar a avó em Taubaté, ver corrida de submarino na Niemeyer. Será um contraponto necessário – afinal, há de ser um documentário isento, neutro e imparcial.

Se fizer sucesso, já tenho engatilhado aqui um sobre a indústria do papel (“Sabíamos que iam imprimir livros de autoajuda, e continuamos produzindo celulose assim mesmo”) e sobre a indústria fonográfica (“Larguei tudo e decidi virar monge tibetano quando saiu aquele disco da Ana Carolina e do Seu Jorge. Isso foi há 15 anos, e até hoje pratico a autoflagelação, para tentar expiar minha culpa.”).

Alguém aí tem algum contato na Netflix pra me passar?

~

[Disclêimeres: Este texto contém provocação. Sim, eu sei que a questão não é tão simples assim. Claro, o assunto é muito mais complexo. Lógico, não dá pra tratar esse tipo de coisa tão levianamente. Evidente que é impossível comparar uma coisa com a outra. Concordo que você entendeu tudo e eu não entendi nada. Fascista é a mãe!]

Conflito de gerações

– Maria Eduarda, eu seu pai precisamos ter uma conversa com você.

– Já sei. Vão começar tudo de novo.

– Não, Maria Eduarda, não vamos começar tudo de novo. Vamos continuar a conversa que vimos tentando ter com você faz tempo, mas você é rebelde, não quer conversar nem ouvir seus pais.

– …

– Quando é que você vai parar com essa teimosia? Até onde vai seguir com essa vontade de ser “diferente”?

 – Mãe, eu sou diferente!

– Não, Maria Eduarda, não é. Você é uma menina de 17 anos, igual a todas as meninas de 17 anos, com os mesmos anseios de toda menina de 17 anos. Não faz sentido você continuar se recusando a fazer uma tatuagem! Todas as suas amigas estão tatuadas da cabeça aos pés, e você aí… com a pele intacta. Até onde você vai querer ir com isso, Maria Eduarda?

– Mãe, eu não gosto. Eu acho feio. Só isso.

– Maria Eduarda, que mal faz uma mandala? Um ying e yang? Uma caveira?

– Mãe…

– Uma borboleta na nuca não mata ninguém, Maria Eduarda! Um dragão, uma fênix, qualquer coisa, mas… acho horrível ver você assim, com a pele toda… toda…

– Mãe, não começa a chorar, por favor!

– Choro, sim, Maria Eduarda. Choro de vergonha. Onde foi que eu errei na sua criação? Todas as filhas de todas as minhas amigas estão completamente rabiscadas e você aí, com a pele… virgem.

– Mas eu não sou mais virgem, tá, mãe?

– Nem sei como alguém conseguiu se interessar por você, com a pele imaculada desse jeito. No mínimo foi um daqueles rapazes esquisitos que querem ser dentistas ou – deusmilivre – engenheiros civis. Desse jeito que você anda, de cabelo castanho, com roupa sem um rasgão ou um pircinzinho que seja, você nunca vai arrumar um grafiteiro, um uebidizáiner, um crosfiteiro. Ou um confeiteiro.

– Mãe, fica tranquila…

– Como eu posso ficar tranquila sabendo que você não vai ao tatuador uma vez por semana, nem que seja para fumar narguilê? Que não tem uma serpente subindo pelo pescoço, uma flor de lótus na virilha, uma frase em latim no omoplata, nada!

– Mãe…

– Faz pelo menos uma tribal no tornozelo, filha!

– Mãe, eu…

– Um infinito no pulso, uma âncora no antebraço, qualquer coisa…

– Mãe, eu acho que…

– Você não sabe a vergonha que eu passo na frente das minhas amigas na yoga. Todas têm filhas tatuadas. A Gislaine tem uma filha que fechou o braço. Fechou o braço, sabe o que é isso? A filha da Marta tatuou toda a fauna do cerrado, em protesto pelos incêndios no Pantanal. Ela não é boa em Geografia, eu sei, mas o tatuador fez uma jaritataca linda no ombro dela, e um teiú que sobe pelas costelas e vai até o seio. Quando ela colocar implante, o teiú vai ficar com uma cara enorme, linda. Você vai colocar implante, não vai?

– Não, mãe, não vou.

– Maria Eduarda! Sem tatuagem aos 17 e sem implante antes dos 20! O que você quer da vida, minha filha? Sabe como as pessoas vão te olhar? Como uma aberração!

– Mãe, eu…

– Tatua nem que seja um “Fellyppe, amor eterno” no cóccix, por favor!

– Eu não conheço nenhum Fellyppe, mãe.

– Não interessa. Tatua só para arrepender e tatuar alguma coisa por cima. Aposto que todas as suas amigas já se arrependeram de uma tatuagem dessas e tatuaram outra maior por cima.

– Sim, todas fizeram isso. Aos prantos.

– Viu? Custa fazer? Escolhe um nome qualquer, porque vai fazer outra por cima mesmo. Bernnardho, Artthur, Karollayne, qualquer coisa. Mas tatua, exibe, chora dizendo que se arrependeu e faz uma de rosas vermelhas, ou de uma onça, em cima. Pronto. É só isso que estou te pedindo. Para eu não ser a mãe da menina esquisita que não tem tatuagem. Faz isso por mim, Maria Eduarda. Pelo seu pai, que vem fazendo uma poupança para essas tatuagens desde que você tinha 15 anos.

– Mãe…

– Um código de barras na coxa, filha… O que é que custa? Um ideograma, uma logomarca, um pacote de miojo, qualquer coisa…  Você quer chegar à velhice como sua avó, sem parecer um muro de periferia? Sem lembrar uma obra do Dali, com relógios derretendo porque o peito caiu?

– Tá, mãe, semana que vem eu faço.

– Promete, Maria Eduarda?

– Vou pigmentar aquela manchinha branca que eu tenho no peito do pé, aí fica da cor da pele.

– Faz uma caranguejeira, filha! Fica lindo uma caranguejeira bem realista subindo pelo peito do pé!

– Não, mãe. No máximo, uma joaninha.

– Bem colorida?

– Ok, mãe, uma joaninha bem colorida. Já posso voltar a estudar?

– Pode. Te amo, Maria Eduarda. Mesmo você sendo estranha desse jeito, mamãe te ama. Mas por que você não aproveita que vai fazer a joaninha e coloca um pírcim no umbigo?

Chá de revelação

Os amigos vão chegando. Alguns, avessos a modismos, não escondem o desconforto.

– Mas precisava mesmo fazer chá de revelação? Antigamente não tinha nada disso.

– Não tinha, tia Cotinha. Agora tem. Os tempos são outros.

Grupinhos se formam pelos cantos, sem ninguém se aproximar muito da mesa de comidas, em cujo centro há uma caixa envolta em celofane. Pelo protocolo – a coisa podia ser novidade, mas já tinha protocolo – comidas e bebidas só serão servidas depois do estouro do balão.

– E tem chá mesmo, ou é só modo de dizer?

– Só modo de dizer, tia. Não é porque é chá que tem chá. Igual chá de cadeira, chá de sumiço.

– Pelo menos uns biscoitinhos eles podiam adiantar, né?

Tia Cotinha estava de dieta, e não tinha interesse em revelação nenhuma. Só e tão somente em poder comer sem moderação, fosse o que fosse, enquanto as atenções estivessem voltadas para outra coisa.

– Sabe que cores vão usar?

– Não faço ideia. Pelo jeito, melhor não esperar nada convencional.

– Convencional é a última coisa que espero aqui.

– Só falta ser bege e dourado, e a gente que adivinhe o que cada cor quer dizer.

Alguém se aproxima da mesa dos salgados, pede silêncio, desembrulha a caixa, e dela salta um balão bege preso por uma fita dourada.

– Não falei que ia ter bege e dourado?

– Já pode pegar os salgadinhos?

– Não, tia, precisa estourar o balão primeiro.

Sobe a música. É “My way”, em ritmo cigano.

– E eu achando que o dourado era o pior que podia acontecer…

– Essa música é enorme e ainda repete. Tem mesmo que esperar até o fim pra pegar a comida?

Como se Deus ouvisse os apelos da tia Cotinha, a música é interrompida ainda na primeira parte, bem no “The record shows, I took the blows / But I did it my way” e uma voz anuncia:

– Dona Cotinha, sendo a senhora a tia favorita, queremos convidá-la a estourar o balão e…

Tia Cotinha não se faz se rogada. Com agilidade inusitada, toma a agulha das mãos do mestre de cerimônias, posiciona-se o mais perto possível dos pães de queijo, se inclina em direção ao balão, e puff! voam quadradinhos cor de chumbo por sobre a mesa de salgados.

Ecoam discretos aplausos e alguém aumenta de novo o som do celular – os Gipsy Kings agora na parte do “I ate it up and spit it out / I faced it all and I stood tall”.

Tia Cotinha se apossa da bandeja antes que outro parente mais afoito o faça.

– Papelzinho cinza significa o quê? – pergunta, com um pão de queijo pela metade, ao moço de terno preto que comanda o evento.

– Cremação. Se fosse enterro seriam papeizinhos roxos.

– Ah, tá.

A sobrinha, prima do morto, só percebe quando o segundo pão de queijo já foi devorado e o resto da travessa está bem embiocado no fundo da bolsa.

– Tia Cotinha!

– Vamos embora, Maria Alice. E no meu, por favor, contrata um bufê melhorzinho, que o pão de queijo tá borrachudo. E nada de cinza e roxo, pelamordideus! Quero púrpura e prata. Púrpura, tá entendendo, Maria Alice? Púrpura!

Inclusive

Muita gente criticou um vídeo sobre linguagem inclusiva, com as novas regras para a neutralização do idioma.

Machistas estruturais, homofóbicos crônicos, transfóbicos empedernidos, todos profundos desconhecedores do mistérios da linguagem e da neurolinguística, sentiriam que estariam sendo privados desse instrumento de opressão que é a língua de Camões, Vieira, Machado, Dilma e Carluxo.

Serenados os ânimos, apaziguados os espíritos, todos já devem ter compreendido que a linguagem neutra só trará benefícios, pondo fim à violência lexical e à polarização verbal.

Quem antes passava pela Glória, pela Avenida Atlântica e pela Praça do Ó, abria o vidro do carro e gritava “Traveco filho da puta!”, agora poderá abrir o vidro do carro e gritar “Traveque filhe de pute” – e isso não constituirá mais nenhuma ofensa, porque todo o caráter insultuoso terá sido neutralizado. Em vez de lhe erguer o dedo médio, as profissionais do sexo acenarão felizes, como misses na passarela, sentindo-se acolhidas na sua diversidade.

Quem poderá se sentir agredido/a/e ao ser chamado/a/e de “arrombade”? De “canalhe”, “escrote” ou “babaque”?  Toda a carga negativa, advinda do caráter sexista da língua, terá sido zerada, reduzida a pó.

Ao fim das manifestações contra e pró Freixo ou Crivella, Lula ou Bolsonaro, Fefito ou Giromini, a turma de vermelho e a turma de amarelo poderão se reunir para um chope na orla ou uma catuaba selvagem na Praça São Salvador, se tratando cordial e neutralmente de “petiste corrupte” e “bolsomínie fasciste”. Não haverá briga nem na hora de rachar a conta, porque o “garçom de merde” admitirá que houve um pequeno equívoco naqueles dois zeros a mais na quantidade de pedidos, pedirá desculpas em nome daquele “corne do caixa” e todos cantarão, com cantos e contracantos, o hino nacional e a internacional socialista.

Chame-o de “escrote”, e o guardinha não multará seu carro estacionado irregularmente.

Diga que ele é um “babaque”, e o segurança te deixará entrar (“Mas só desta vez, hein?”) sem máscara no shopping.

Explique que não curte “gorde”, e a moça não ficará magoada – e tampouco você se sentirá humilhado se ela fizer comentários sobre seu “mau hálite”, “falta de pegade” e “pau pequene”.

Por tudo isso, seu idiote, volte lá no vídeo e retire tudo o que disse. Graças àquele troca-troca de vogais, teremos finalmente a serenidade, o entendimento e o respeito de que precisamos para conviver civilizadamente. Tá esperando o quê, caralhe?

 #paz

#passarpanonão

Agilizando as próximas lacrações:

“Odeio a expressão “BATER AS BOTAS”, considero militarista,  autoritarista e fascista. Bater as botas é encostar o coturno direito no coturno esquerdo, o que é uma opressão ao proletariado, e quem é que historicamente anda descalço?  O homem negro, a mulher negra e a trans negra. É associar o pé no chão a algo menor. Reflitam! #baterasbotasnao

Odeio a expressão “ESTAR DANDO SOPA”, considero capitalista, gurmetista e racista. Dar sopa é uma atividade filantrópica, e quem é que historicamente recebe ajuda de um prato de sopa? As mulheres negras. É associar a fome com a vontade de comer, numa dieta com menos calorias. Reflitam! #estardandosopanao

Odeio a expressão “LAVAR ROUPA SUJA”, considero higienista, elitista e racista. Lavar roupa suja é uma atividade doméstica, e quem é historicamente a lavadeira? As mulheres negras. É associar a sujeira a algo que tem que molhar, esfregar, torcer, centrifugar, enxaguar, botar pra quarar e pendurar pra secar. Reflitam! #lavarroupasujanao

Odeio a expressão “PERDER A LINHA”, considero carretelista, elitista e racista. Perder a linha é uma atividade de corte e costura, uma das tarefas de quem cerze, caseia, chuleia e prega botão, e quem é historicamente que não dá ponto sem nó? As mulheres negras. É associar a agulha, linha, retrós, alfinete, carretilha, ilhós, sianinha e overloque a algo remendado. Reflitam! #perderalinhaonao

Odeio a expressão “VOLTAR À VACA FRIA”, considero sexista, especista e racista. Voltar à vaca fria é uma atividade rural, uma das tarefas da pecuária, e quem é historicamente que volta à vaca fria? O boi insaciável, que não entende o “não é não” da vaca, e depois parte para o cowlighting de não apenas chamar a fêmea da espécie de vaca como dizer que ela é fria. E essa vaca eventualmente é preta, feita com sorvete de creme e Malzbier. É associar a vaca ao vácuo. Reflitam! #voltaràvacafrianao

Odeio a expressão “VIAJAR NA MAIONESE”, considero xenofobista, elitista e racista. Viajar é uma atividade de rico, e fascista não gosta de ver pobre andando de avião, e uma das tarefas dos atendentes do McDonalds é entregar sachê de maionese, e quem é historicamente a atendente do McDonalds? As mulheres negras. É associar dois hambúrgueres, alface, queijo, molho especial, cebola, picles num pão com gergelim, a algo muito menor do que aparece na imagem meramente ilustrativa. Reflitam! #viajar namaionesenao

“Odeio a expressão “ARMAR UM BARRACO”, considero armamentista, antifavelista e racista. Armar um barraco é colocar uma escopeta dentro de uma habitação de baixa renda, que é historicamente um lugar onde moram os operários. E quem é operário? O filho, ou marido, ou vizinho das mulheres negras. É associar comunidade e violência. Reflitam! #armarumbarraconao

… and the Oscar returns from…

O Comitê de Desatribuição do Oscar se reúne para decidir que estatuetas serão tomadas de volta por descumprir, retroativamente, as regras artísticas de concessão da maior honraria do cinema.

– Vamos lá. “Rain Man”.

– Fica com a estatueta. 50% dos dois protagonistas são autistas, grupo sub-representado.

– Mas ambos são machos brancos héteros. E não consta aqui que as figuras principais dos bastidores sejam mulheres, LGBTQs ou pessoas com deficiência.

– Ok, tira a estatueta.

– “Conduzindo Miss Daisy”.

– Fica, total. Protagonistas são uma mulher e um afroamericano! 100% de protagonismo para grupos sub-representados!

– Uma mulher hétero, da oligarquia dominante e um afroamericano em situação de desvantagem social, em posição subalterna. Sem chance.

– Ok, tira a estatueta.

– “O silêncio dos inocentes”. Psicopata é grupo historicamente desfavorecido, não?

– Sim, e mulher no FBI também.

– Mas o psicopata faz bullying da agente Starling, e a caipirofobia deve ser combatida.

– Sem contar que o vice-psicopata arrancava, literalmente, o couro das mulheres.

– Toma a estatueta de volta e ainda paga multa.

– “Lista de Schindler”. Até que enfim uma que fica!

– Um alemão, sem lugar de fala, que rouba o protagonismo dos judeus? Nem que a vaca cacareje em iídiche!

– “Forrest Gump”. Vamos deixar “Forrest Gump”, por favor.

– Filme dirigido por macho, com roteiro de macho, baseado em livro de macho, estrelado por macho. Preciso dizer mais alguma coisa?

– “Coração Valente”. Ops, foi maus. Tem Mel Gibson. Nem se todo o elenco de apoio fosse de aborígenes albinos canhotos com sobrepeso daria para salvar. Temos que tomar a estatueta, a caixa e a flanelinha. Pulemos para “Titanic”. Caso complexo…

– É um filme do bem. Representa o naufrágio do capitalismo. Traz à tona a luta de classes. E o macho morre no final.

– Mas a mocinha sobreviver agarrada a um pedaço de pau… Sei não. Achei uma metáfora muito infeliz. Teria sido lindo todas as passageiras sobrevivendo de mãos dadas, numa ciranda aquática sob a Aurora Boreal.

– Sem contar que a mocinha era uma aristocrata entediada. A joia que ela jogou ao mar, com o risco de ser engolida por uma leoa marinha, poderia ter sido usada para angariar fundos para o #metoo. Sororidade zero.

– “Gladiador”…

– Devolve.

– “Amadeus”..

– Devolve.

– “Rocky, um lutador”…

– Tu tá de sacanagem comigo, né?

– Sorry. “O poderoso chefão”.

– Máfia é minoria?

– Na Alerj, não.

– Estamos falando em Hollywood. Porque aqui a gente tem que ponderar. São imigrantes, e imigrante conta ponto.

– Mas imigrante macho e branco.

– Macho, branco e pobre.

– Que ficou rico…

– Mas o Dom Corleone tinha uma deficiência física na bochecha, lembra?

– E o Al Pacino era baixinho. Galã baixinho é minoria.

– Vamos deixar “O poderoso chefão” em análise.

– “West side story”. Minorias étnicas e working class desafiando os padrões impostos pela sociedade burguesa estadunidense!  

– O casal principal era hétero.

– Mas a mocinha era latina!

– E foi se interessar por um branco? Palmiteiras não passarão!

– “Asas”, será que passa?

– “Asas”?

– Oscar de 1929. Primeira edição. Estrelado pela Clara Bow. Tem superação no roteiro. Ela é motorista de ambulância. Imagine, em 1929, uma mulher com carteira de motorista!

– E ela fala coisas importantes sobre a condição da mulher, discute o machismo, a estrutura falocêntrica do patriarcado?

– Não, até porque é um filme mudo.

– Mulher calada? Sem voz? Manda buscar a estatueta de volta. Now!

Por uma linguagem inclusiva

Há movimentos para tirar de circulação termos e expressões ofensivos a minorias.

É uma questão de civilidade.

“Fazer baianada”, “serviço de preto”, “coisa de mulherzinha”, “programa de índio” não vão fazer falta nem deixar saudades.

Por outro lado, há os exageros. Coisa de gente que perdeu a mão (e não vai aí nenhuma hostilidade aos amputados), o foco (não, não vejo com maus olhos os portadores de presbiopia, astigmatismo, catarata), o rumo (longe de mim querer alcançar as vítimas de desorientação amnéstica), o eixo (sem inclinação desfavorável aos que sofrem de labirintite).

“Caixa preta”, “sorriso amarelo” e “entrar no vermelho” não têm conotação racial. Mas, no ritmo em que as coisas vão (sem ofensa ao portadores de arritmia cardíaca!), não será surpresa se a lista de expressões que devemos banir do idioma para torná-lo mais inclusivo incluir:

– Terça-feira gorda.
> Ofende os dias da semana não adiposamente privilegiados;

– Apressado come cru.
> Busca ridicularizar os adeptos da dieta crudívora;

– A carne é fraca.
> Favorece, sub-repticiamente, a dieta vegetariana ou lactovegana;

– Gordura trans.
> Associa os pluçaize e as pessoas cuja identidade de gênero difere daquela designada no nascimento a algo prejudicial à saúde;

– Quem vê cara não vê coração.
> Privilegia os cirurgiões cardiovasculares em detrimento dos cirurgiões plásticos;

– Tempos de vacas magras.
> Ofende as anoréxicas, correlacionando magreza e miséria;

– O trem tá feio.
> Insulta o já combalido sistema de transporte ferroviário e, simultaneamente, os mineiros e mineiras em desconformidade com os padrões estéticos da sociedade;

– Alto lá!
> Estigmatiza e afasta os esbeltamente avantajados;

– O que vem de baixo não me atinge.
> Ultraja os de estatura comprimida;

– Pimenta nos olhos dos outros é refresco
> Perpetua estereótipos contra as pimentas, ignorando o grupo minoritário das pimentas biquinho, que não ardem;

– Deus escreve certo por linhas tortas.
> Fomenta a opressão gramaticoteísta em relação às pessoas diferentemente dotadas de destreza manual;

– Um dia é da caça, outro é do caçador.
> Ignora a pesca, fonte de subsistência das populações ribeirinhas;

– Uma andorinha só não faz verão.
> Discrimina os celibatários (voluntários e involuntários), os nerdes e os sologâmicos;

– Não julgue o livro pela capa.
> Institucionaliza o menosprezo aos dizáiners gráficos, cuja profissão sequer é reconhecida;

– É dando que se recebe.
> Estimula a prática não ortodoxa do troca-troca;

– Cada cabeça, uma sentença
> Deprecia as decisões colegiadas do STF;

– Roupa suja se lava em casa.
> Propaga subliminarmente o boicote ao empreendedorismo na área das lavanderias;

– Quem com ferro fere, com ferro será ferido.
> Nega a teoria de que racismo reverso não seja racismo;

– Quem tem boca vai a Roma.
> Faz apologia do tráfico de drogas, insinuando que traficantes sejam bem sucedidos, o que lhes permite viajar ao exterior;

– Preto emagrece.
> Não precisa nem comentar, precisa?

New kid on the bloque

Quando adquiri o FB, veio junto uma caixa de ferramentas.

Gostei de algumas logo de cara – o “Compartilhar”, por exemplo. Talvez por ser fácil de usar e não requerer prática nem tampouco habilidade.  E ainda permitir que eu dissesse um monte de coisas sem ter que escrever nada – ou que “gerar conteúdo”, como se diz nesse meio.

Gostei do “laique”. Que não é bem um “laique”, mas um polegarzinho para cima, que não quer dizer que gostei, mas que tá ok. É mais um “tudo bem”, “de boa”. Fosse um aplicativo burocrata, seria uma espécie de “Nada a opor”.

Com mais parcimônia usei o coraçãozinho. “Amei”? Não, não é muito a minha praia. Não que eu não ame, mas não amo assim, tão à primeira vista. Amo homeopaticamente, porque amor não dá em penca, não é vendido à dúzia. Amei na vida menos do que devia, e não seria num aplicativo de rede social que iria tirar o atraso.

Rio de vez em quando. Muito de vez em quando. Mas quando rio é porque gargalhei mesmo.

Os botões de surpresa e de mandar força ainda devem estar na embalagem, assim como o Grr. O da furtiva lágrima, sim, usei – duas ou três vezes, porque acho triste me valer de lágrima alheia para chorar por mim. O bonequinho carpideiro está na categoria do vestido de noiva – usado uma vez só, e olhe lá.

A ferramenta mais difícil foi a do bloque. Essa exigia a leitura do manual de instruções, o que não é do meu feitio. Sou do tipo que aperta todos os botões da cafeteira até que um a faça dar à luz um café ou, por engano, um cappuccino. Aperto um a um os botões do controle remoto, do monitor, da impressora. Uma hora rola a cópia, melhora o brilho, aparece a legenda.  Prezo esse meu jeito intuitivo e antitecnológico de ser. 

(Não sei se já contei aqui que mantive um vídeo cassete – um de 4 cabeças! – encaixotado por seis meses, por bloqueio instalativo. Que tomei banho frio – em Curitiba! – por não me animar a instalar o novo chuveiro elétrico.  Dizem que isso é coisa de taurino. Confirmo a hipótese se um dia passar a acreditar em horóscopo.)

Aprendi, na marra, o uso do bloque.

O bloque é o “Não é não” do FB. É a placa de “O ambiente exige respeito” desta gafieira virtual. É a linha do impedimento. É o “Meu corpo, minhas regras”, o “A página de um homem é seu castelo”, o “Respeita Januário” do forró do padim Zucka. É o “Este saloon é pequeno demais para nós dois, forasteiro” do faroeste em que se transformaram as redes sociais.

Meus primeiros bloques foram do tipo “Você passou dos limites, colega”. Algo como “uma pisada na bola eu entendo, duas canelas quebradas eu relevo, três meses na UTI é demais”.  Eu deixava acontecer para não me sentir culpado de cometer alguma injustiça – e depois ia atrás do plano de saúde para cobrir os danos. E, ainda assim, acabava como o vilão da história.

Num segundo momento, os bloques passaram a ser “Você está brincando com fogo, camarada”. Mas eu já estava chamuscado. Apagava o incêndio, e ficava como vilão da história do mesmo jeito.

A fase 3 – na qual me encontro agora – é a da proatividade. Do jogador de xadrez que antecipa os lances. A fase do “Isso não tem como acabar bem, e é melhor extirpar antes que vire metástase”. É o bloque profilático. O cordão sanitário.

Até pela crescente dificuldade de regeneração óssea, não posso mais me dar ao desfrute de ter os ossos esmigalhados por quem ignora a bola e entra com as traves da chuteira na minha canela. Até porque dói pra caramba. Até porque fica uma cicatriz. E, principalmente, porque não é pra isso que entrei em campo.

O ar aqui ficou mais respirável depois que comecei a bloquear quem agride, quem ofende, quem não vem pra conversar, mas para criar caso. Depois que incluí no pacote quem dá suporte a essas atitudes. Quem tem esse comportamento com as pessoas de quem gosto. Porque não me iludo com a crença de que quem é calhorda com um amigo meu há de ser leal comigo.

Minha página (de textos sobre língua portuguesa), meu instagram e meu uotiçape estão cheios de mensagens desaforadas de gente que se sentia no direito de exercitar sua incivilidade aqui no meu quintal. Impedida, agora xinga do outro lado do muro.

Rêiters will be rêiters. Ou, em bom português, não peça a um pé de jaca que dê manga.

Ainda vou ler o Manual de Instruções do FB e procurar no fundo da caixa para ver se há outras ferramentas que, por preguiça, não utilizei. Tipo um filtro de gente autoritária, um sensor de quem é movido a inveja e amargura, uma arapuca para pegar boçal, um mata-burro que mantenha as récuas (sempre quis usar essa palavra!) longe das pastagens que cultivo aqui (para deleite visual, não para alimentação).  Um repelente de não devotos de Nossa Senhora da Interpretação de Texto.

Bloque não é vida, mas uma forma de se ter uma vida virtual mais saudável. De não permitir, na minha sala, gente com o pé em cima da mesinha de fórmica, jogando bituca no vaso de avencas, derramando Dolly Citrus no tapete, assoando o nariz na cortina ou puxando o rabo dos meus cachorros.

Não faço isso na casa de ninguém. A Gerência agradece se não vierem fazer na minha.

Caro Zucka,

Caro Zucka,

É com emoção que pego do teclado para traçar essas mal digitadas linhas, esperando que esta postagem o encontre gozando de boa saúde junto aos seus.

O motivo desta missiva é que, pela segunda vez, o senhor me obriga a mudar para o novo feicebuque, exatamente como fazia minha mãe, que me enfiava goela abaixo duas colheradas de Emulsão de Scott ou Óleo de Fígado de Bacalhau com o argumento de que aquilo era melhor para mim. Não era. E eu tinha que engolir (literalmente) de bico calado, ou o chinelo cantava e o couro comia.

Não vejo vantagem nenhuma no novo feicebuque. Ok, as letras ficaram maiores – mas isso eu podia fazer com o Control +. O álbuns de fotos ficaram mais difíceis de organizar.  É mais provável mencionar um governador do Rio de Janeiro que preste que achar o caminho para agendar postagens.

Mas celavi. O aplicativo é de graça, a gente está aqui porque quer, os desconsolados que se mudem para o Xuleice, o Relôu, o Miuí, o Tiquetoque.

Então, já que vai dar uma trabalheira danada levar para essas outras plataformas todas as postagens, amigos, bloques e laiques, a gente vai ficando. Mas queria sugerir alguns aprimoramentos. Coisa pouca, mas que ajudaria – como um copo de quissuco de framboesa – a engolir o Óleo de Rícino que nos espera a partir deste mês.

  1. LAIQUE QUE NÃO É LAIQUE. Andei desfazendo amizade com gente que deu laique em postagens nas quais eu era chamado de fascista, nazista, comunista, isentão, bobo, feio, pé grande e moralonge. Pois bem. Os ex-amigos – um pote até aqui de mágoa –  vieram se explicar que não é que tenham curtido: só curtiram. Não estavam de acordo. Nem leram. Mas sabe quando você vê uma postagem, não é a favor nem contra, mas tem uma comichão para clicar num botãozinho? “Fulano é um canalha”: laique.  “Quero que Sicrana morra com um furúnculo na virilha e um panarício no sovaco”: laique.  E a pessoa não acha fulano um canalha, não deseja mal à sicrana e nem sabe o que é panarício. Que tal criar um botãozinho de “Oi, sumido! Passei por aqui e resolvei dar um alô. Tutupom?”.  Assim não se compromete, não perde os amigos nem desperdiça a oportunidade de clicar por clicar em algo que nem leu. E não fica dando moral para os rêiters.
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  2. “NÃO SEI SE RIO OU SE CHORO”. Se eu ganhasse R$ 1,00 por comentário assim, o Jeff Bezos já era o vice na lista da Forbes. Bora poupar as pessoas e criar um ícone que sintetize esse sentimento tão comum à nossa brava gente que ri quando deve chorar, e não vive, apenas aguenta?
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  3. “QUERIA DAR MIL LAIQUES”. Um iconezinho de mil laiques não custa nada, custa? Depois é só colocar esse ícone elevado à segunda potência, terceira potência e a pessoa dará quantos laiques quiser.
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  4. PALANQUE. Tem gente que usa a seção de comentários para fazer discurso. Se fizer na própria página, ninguém lê. Então pega um banquinho, um megafone, e vem arengar na postagem da gente. Ali do ladinho de “Curtir”, “Comentar” e “Compartilhar”, podia ter o “Discursar”, onde a pessoa usaria todos os capisloques e exclamações que quisesse, sem prejudicar a sequência de comentários. Quem quisesse ir lá, iria por sua conta e risco.
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  5. BLOQUE. Bloque é vida, bloque é saúde, como já pontificou a Cora. Mas tem bug. A gente bloqueia o cristão no nosso perfil, achando que conseguiu um livramento, e lá vem a criatura tomar satisfação com a gente na página. Banir alguém da página é tão simples quanto conseguir que a Leilane Neubarth faça anúncio de ivermectina.  Quando a gente finalmente logra êxito e bane da página, adivinha quem aparece no insta contando desaforo?  Zucka, viabilize um bloque amplo, geral e irrestrito. Tipo medida protetiva, sabe como? Com tornozeleira eletrônica virtual e tudo. Gratidão.

É isso.
Espero ter contribuído para o aprimoramento do seu ganha pão, do qual sou grande entusiasta.

Sendo o que se apresenta para o momento, subscrevemo-nos, reafirmando os nossos protestos de elevada estima e consideração.

E.A.