Coroa de programa

coroa

Se o PSL não conseguir reaquecer a economia – ainda mais com essa nova investida dos partidos de oposição (PT, PSOL, PC, PC do B, PFB [Programa da Fátima Bernardes], OAB e Intercept), e o mercado de trabalho para arquitetos continuar nesta pasmaceira, o jeito vai ser virar coroa de programa.

Há de haver clientela interessada em algo mais que um corpinho sarado e cheio de tatuagens, com vocabulário limitado a sete ou oito gírias. Uma freguesia que se iluda com a falsa maturidade de uma barba grisalha e caia no conto de alguém que use crase até quando fala, cite Barthes e Lobo Antunes, elabore metáforas e, em casos extremos (valor sob consulta) encaixe uma e outra mesóclise.

As diferenças entre um garoto de programa (GP) e um coroa de programa (CP) são muitas – e até justificam o cachê mais elevado.

Em vez de dar duas ou três, o coroa de programa só dá uma – mas começando na sexta à noite e terminando no domingo à tarde. Aí incluídos um jantar à luz de led (serei um CP moderno), um “Begin the beguine” de rosto colado (com pleilistes variadas, de Cole Porter a Amado Batista), uma caminhada ao luar pela praia (de mãos dadas tem adicional de 10%), e longos papos sobre viagens, livros, cachorros (ou séries, games e gatos – um CP tem que ser versátil).

Ao contrário do GP, o CP não tem pressa. Até porque ele precisa tomar fôlego. Daí as pausas estudadas, a atenção aos detalhes, os circunlóquios, os negaceios, as firulas, os meandros, os rodeios.

O coroa não chega às coxas sem antes tecer loas à canela e fazer uma parada estratégica para recuperar as energias antes da ode aos joelhos. Perde-se em mil digressões no decote, no colo, nas doces curvas da clavícula, até chegar aos seios. Os mamilos podem ouvir tranquilamente os 22 volumes da “Aquarela Brasileira”, do Emílio Santiago – ou assistir a uma maratona dos 236 episódios de “Friends” – até chegar sua vez.

Além da massagem tântrica de praxe, o CP faz drenagem linfática, massoterapia, shiatsu para aliviar a dor no ciático e aquela massagem que cura dor de corno e dor de cotovelo, que é a massagem no ego.

O que lhe falta em vigor, o CP compensa com olhares penetrantes, dedos entrelaçados e um tom de voz entre o baixo e o barítono (algo que lembre vagamente o Cid Moreira com faringite).

E CP não perde tempo tateando no escuro em busca do ponto G. Por que essa ênfase numa letrinha só, tendo o alfabeto inteiro a explorar? Na hora H, o CP põe os pingos nos Is e te coloca em contato com seu lado B, além de mostrar que há “n” maneiras de abordar o X da questão.

O CP há de fazer do Dia dos Namorados o seu dia D.

Só não pode querer fazer tudo, de A a Z, para não acabar a noite na UTI.

Anúncios

Efolução

grayscale photography of human skull
Foto por ahmed adly em Pexels.com

Um estudo publicado na Science levanta a hipótese de uma mudança na dieta ter sido a responsável por nossa capacidade de pronunciar as consonantes “f” e “v”.

Se você vir num filme ambientado na pré-história um chef neandertal dizendo ao sous chef

– Flávio, faça o favor de ferver as favas.

esqueça. É caô.

Se houvesse um sous chef troglodita chamado Flávio, pode ter certeza de que logo lhe arrumariam um apelido. E outro emprego, porque trogloditas não apenas não ferviam favas para lhes dar textura e crocância como, se tivessem que batizá-las, mandariam às favas a palavra “fava” (e o próprio sous chef Flávio) e escolheriam para eles outro nome qualquer, com muito GRRR e MMMM.

Não que fossem agressivos ou mimizentos: é que a dieta os impedia de levar o dente ao lábio e articular as consonantes labiodentais.

A agricultura, com alimentos menos duros que a carne crua de mastodonte, é que teria introduzido mais vegetais no nosso cardápio, alterando nossa dentição e a capacidade de articular novos sons.

Nessa linha de raciocínio, ouso inferir que deva ser a falta de sucrilhos e manteiga de amendoim no café da manhã que me impede de dizer da forma distinta “coffee” e “cough”. Com café com pão e manteiga, vira tudo “cof”, e cabe ao interlocutor, pelo contexto, deduzir se estou tossindo ou pedindo um espresso caramelo macchiato.

Com marshmellows e tortas de maçã (daquelas que a vovó Donalda colocava para esfriar no parapeito da janela) eu até seria capaz de pronunciar “thought”, “through” e, quem sabe, se a torta tivesse aquele reticulado de massa em cima – “throughout”.

Só com arroz, feijão preto, angu e couve no menu, sem chance.

A teoria abre imensas perspectivas para os linguistas. Seria o excesso de variedades de queijos que impediria os franceses de usar paroxítonas? O volume de massas no cardápio e o sabor do molho da Nonna manteria os italianos sempre de boca cheia, obrigando-os a falar com as mãos? Haverá correlação entre o excesso de quetichupe no biguemeque e a inapetência dos americanos para falar qualquer palavra terminada em “ão”?

Com a abertura dessa nova linha de pesquisa, talvez milhões de alunos de Letras das universidades federais se sintam desestimulados de concluir seus TCCs sobre opressão linguística, suas teses de mestrado sobre a ideologia de gênero nos substantivos epicenos e seus pós-docs no exterior sobre pautas identitárias aplicadas às fricativas palatais.

Se investirem neste novo filão, logo descobriremos se é o Biscoito Globo que faz o carioca chiar, se o sabor sublime do pão de queijo é o que faz os mineiros engolirem junto os finais das palavras, se é a pimenta que leva os baianos a falar mais devagar para dar tempo de passar a ardência, e se o leite condensado no pão é ou não responsável por fazer a pessoa insistir em falar “cüestão”, e usar “talquei” como ponto final.

(A pesquisa original é séria e foi feita na Universidade de Zurique. Eu, que sou linguista de orelhada, sempre soube que ou você come farofa ou fala a palavra “farofa”. As duas coisas ao mesmo tempo, não dá. Experimente fazê-lo, de preferência na frente das visitas, e depois me conte o vexame. No pacotinho de farinha de mandioca devia vir um alerta: “Farofa faz mal para a labiodental “F”).

 

(originalmente publicado em 17 de março de 2019)

Veritas liberate vos

Veritas

“O problema das citações na internet é que é difícil verificar sua autenticidade” (William Shakespeare).

Não é preciso ter lido tudo do Fernando Pessoa para saber que ele nunca escreveu

“Meus amigos são todos assim: metade bobeira, metade seriedade. (…) Quero amigos sérios, daqueles que fazem da realidade sua fonte de aprendizagem, mas lutam para que a fantasia não desapareça. Não quero amigos adultos, nem chatos.”

Tampouco cometeu

“Deus costuma usar a solidão
para nos ensinar sobre a convivência.
Às vezes, usa a raiva, para que possamos compreender
o infinito valor da paz.”

Pessoa jamais escreveria uma paulocoelhice dessas.

Aliás, o texto é mesmo do Paulo Coelho.

Pessoa escreveu, sim,

“Ninguém sabe que coisa quer. Ninguém conhece que alma tem”.

Quem já leu o Jabor sabe que ele tem inteligência suficiente para não perpetrar algo como

“Tenho horror a mulher perfeitinha. Odeio qualquer uma que fique maravilhosa num biquíni. Sabe aquele tipo que faz escova toda manhã, está sempre na moda e é tão sorridente que parece garota propaganda de processo de clareamento dentário? E, só pra piorar, tem a bunda dura feito pão francês com mais de uma semana? Pois então, mulheres assim são um porre. E digo mais: são broxantes.”

Jabor escreveu, sim, que

“amor é prosa, sexo é poesia”.

Niemeyer nunca escreveu

“Projetar Brasília para os políticos que vocês colocaram lá, foi como criar um lindo vaso de flores para vocês usarem como pinico. Hoje eu vejo, tristemente, que Brasília nunca deveria ter sido projetada em forma de avião e sim de camburão…”.

Você consegue mesmo imaginar o elegante Oscar falando em “lindo vaso de flores” e escrevendo “pinico”?

Niemeyer escreveu, sim,

“Não é o ângulo reto que me atrai. Nem a linha reta, dura, inflexível, criada pelo homem. O que me atrai é a curva livre e sensual. A curva que encontro nas montanhas do meu país, no curso sinuoso dos seus rios, nas nuvens do céu, no corpo da mulher amada. De curvas é feito todo o universo. O universo curvo de Einstein.”

Desconfie de todos os poemas da Clarice Lispector, pelo simples fato de que ela nunca escreveu poema algum. E desconfie, também, de todas as frases fáceis atribuídas à Clarice Lispector.

Não, Clarice nunca escreveu

“Abra e feche as gavetas
e portas com a mão esquerda.
Durma no outro lado da cama.
Viva outros romances!”.

Clarice escreveu, sim,

“Não se preocupe em entender. Viver ultrapassa qualquer entendimento.”

Sentiu a diferença?

Não, o Veríssimo jamais escreveu

“Fazer amor é lindo, é sublime, é encantador, é esplêndido, mas dar é bom pra cacete.”

O Veríssimo também não escreveu sobre o dia em que sua mulher filmou seu exame de próstata.

Para quem não conhece, o Veríssimo é mestre do humor e da sutileza.

Não, o Drummond nunca escreveu

“A dor é definitiva
O sofrimento é opcional”.

Drummond, nem em sonho, escreveu poesia de autoajuda.

Escreveu, sim,

“A tarde talvez fosse azul,
não houvesse tantos desejos”.

Herbert Vianna nunca escreveu

“Gordura é pecado mortal. Ruga é contravenção. Roubar pode, envelhecer, não. Estria é caso de polícia. Celulite é falta de educação. Filho da puta bem sucedido é exemplo de sucesso. A máxima moderna é uma só: pagando bem, que mal tem?”.

Herbert Vianna escreveu que

“se tudo tem que terminar assim
que pelo menos seja até o fim
pra gente não ter nunca mais que terminar”.

Como é que sei tudo isso?
Não sei.

É como uma voz de criança ao telefone dizer que quem está falando é síndico. Como ouvir um miado e ter certeza que não é de um cachorro. Ou intuir que o funk das popozudas (que não sei de quem é) não seja do Beethoven.

Para isso, não é preciso conhecer toda a obra de Beethoven, já ter falado com o síndico ou ser especialista em funk ou vozes animais.

Ao contrário do Shakespeare, não creio que o problema das citações na internet seja verificar a sua autenticidade – até porque esta frase (ainda mais por estar em português) tem tudo para ser do Camões, não dele.

O problema é que é mais fácil enganar as pessoas do que convencê-las de que elas foram enganadas.

(Esta é do Mark Twain. E o título deste texto – “A verdade vos libertará”, em latim – é de João 8:32. Se virem isso atribuído a Jojo Toddynho ou Marcia Tiburi, desconfiem).

 

(publicado originalmente em 2 de abril de 2019)

Preconceito linguístico

Preconceito linguistico

Você já sofreu preconceito linguístico e não sabe.

Quando sua avó disse (você nem vai se lembrar porque devia ter uns 4 anos de idade) “não é ‘eu fazi’, meu lindo, é ‘eu fiz”, a véia estava sendo linguisticamente preconceituosa.

Quando d. Terezinha, sua professora do primeiro ano, corrigiu sua redação “Minhas férias”, na qual você caprichosamente escreveu “Eu fui na caza da vovo. A caza da vovo é bonita. A caza da vovo e azul”, ela estava te oprimindo linguisticamente. A casa com S, a vovó com acento, tudo isso é imposição da elite dominante, que não aceita variedades linguísticas das classes mais baixas (você deveria ter, no máximo, 90 cm de altura).

O preconceito linguístico parte do pressuposto “eu sei, você não sabe”. Logo, não se trata de uma questão linguística, mas social. Praticamente uma luta de classes, um caso clássico de intolerância.

A língua é parte da sua identidade. Ao fazer tsk tsk tsk para o seu “eu truce menas caixas de iorgute; é pra mim ir buscá as que falta?”, o opressor linguístico está rejeitando você – não sua sintaxe – e excluindo-o da comunidade.

Para disfarçar o preconceito e fazer a egípcia na opressão, usa-se a grande falácia chamada “erro de português” – que consiste em desqualificar os usos não previstos nas gramáticas e nos dicionários.

Ora, ora, quem escreve gramáticas e dicionários é a elite. É ela que define o que é certo e errado, olhando o mundo do alto da pirâmide social, enquanto você se esfalfa lá embaixo no deserto da ortografia, suando em bicas sob o sol inclemente das concordâncias, queimando a sola do pé na areia quente das regências, sedento feito um camelo disléxico, sem entender o que seja um subjuntivo, um vocativo ou para que diabos sirva o ponto e vírgula.

Este preâmbulo (preâmbulo é o mesmo que enrolation, só que mais opressor) é para falar de uma treta que rolou ontem na minha taimilaine, envolvendo uma Mestra e Doutora e este cronista anêmico de títulos acadêmicos.

Só que a moça – Mestra e Doutora – fez todas as suas críticas cometendo uma dúzia de erros de português. Não acentuava proparoxítona (logo as proparoxítonas, que são meu xodó) nem oxítona terminada em A. Separava o sujeito do predicado com vírgula (e depois faltava vírgula para isolar um aposto). Desconhecia a razão de ser das maiúsculas e minúsculas, e achava que “porque” junto e “por que” separado eram a mesma coisa.

Não gosto de corrigir ninguém (mentira: gosto, mas evito), porém ela estava pedindo. E apontei esses desvios da norma padrão, mais dois outros – que são, por sinal, a razão deste texto.

Segundo ela, tudo que eu queria era causar reboliço.

Eu gosto da palavra reboliço, que vem de “rebolo” e me lembra bolo de rolo, aquela delícia pernambucana que é uma bomba calórica – mas nada que 6 meses ininterruptos de esteira não neutralizem.

Reboliço é isso: algo arredondado, de formato cilíndrico. E também algo que rebola, que remelexe.

O bolo de rolo é um reboliço. E, se não for em quantidade suficiente, pode causar um rebuliço – que é uma confusão, um tumulto, um fuzuê, um bafafá – e vem do verbo “bulir”, de “bulício”.

Eu bem que gostaria de ser capaz de causar reboliços (como os rocamboles) mas só causei rebuliço (ao apontar a diferença à Doutora).

Argumentei que sempre usava de humor nos meus textos e que, se ela tivesse lido algum outro, teria entendido a ironia. A resposta foi que uma das grandes sortes da sua vida era jamais ter lido nada escrito por mim, e que se eu quisesse bloqueá-la, que o fizesse, porque ela jamais bloqueava quem discordava com ela.

Tomei fôlego. Contei até 0,5.

Será que valia a pena informar que não se “discorda com”? Discordar é divergir – literalmente, ter os corações separados. Discorda-se de, concorda-se com.

Para a douta professora, minhas críticas a certa produção acadêmica na área de Humanas não passariam de recalque por eu ser um velho sem Lattes.

Pois é, a esquerda é só amor, a esquerda não larga a mão de ninguém, a esquerda é inclusiva, é contra os preconceitos de cor, de classe, de gênero – mas a gente sabe como são os desvãos da alma humana (chamar de gordo é ofensa: de velho, não; sentir-se superior a quem é pobre é elitismo: a quem tem menos currículo, de jeito nenhum).

E terminou afirmando que podia ser agefóbica, sim (agefobia é um neologismo: horror a quem tem mais idade) já que eu era um opressor linguístico.

Os 7 primeiros parágrafos deste texto são, obviamente, uma piada. Opressão linguística – ou preconceito linguístico – é se julgar superior a alguém por conseguir se expressar conforme a língua culta, não reconhecendo as variações existentes no idioma.

Não há opressão em se corrigir a manchete do jornal onde se lê que “A liminar foi caçada” ou o tuíte do ministro que “insitaria a violência”.

Jornalistas, ministros e doutores frequentaram escolas, leram (ou deveriam ter lido) vários livros e espera-se que dominem as regras da língua culta. Opressão é humilhar quem não teve acesso à educação formal, quem utiliza formas dialetais, quem enriquece o idioma com novas formas de expressão.

Enfim, a Doutora foi bloqueada e cometeu mais alguns erros no texto em que se vangloriou de ter batido boca com um mínion sem currículo Lattes e vencido a batalha.

E eu é que sou o opressor, causador de reboliço por que bloqueio quem não concorda de mim…

 

(originalmente publicado em 21 de maio de 2019)

Ideologia

lupa

ENQUANTO ISSO, NA ÚLTIMA LOJA DE CDs DA CIDADE

– Nossa, essa música que está tocando… Que coisa!… De quem é?

– Não sei, mas vou verificar.

– Preciso saber!

– Gostou tanto assim?

– Não, eu preciso saber de quem é justamente para decidir se posso gostar ou não. Vai que o compositor não votou no mesmo candidato que eu e…

– Mas, afinal, a música te agradou ou não?

– Como é que eu vou saber se me agradou se não tenho a folha corrida ideológica do compositor?

– É uma canção de amor!

– Importa-me lá que seja de amor, que eu tenha ficado arrepiada, que tenha engolido em seco no refrão e que tenha caído um cisco no meu olho aqui na rima final. O autor é de esquerda ou de direita?

– Vou ver aqui no gúgol.

– Aproveita e verifica também o cantor. Não adianta nada se o cantor não for politicamente afinado comigo.

– Não vai querer que eu veja toda a ficha técnica, vai?

– Claro que vou! O violoncelista (deusducéu, o que era aquele solo de violoncelo!) pode não estar no arco de alianças que sustenta o meu partido.

– Bem, puxei aqui toda a ficha técnica. Autores da letra, da música, cantor, arranjador, seção de cordas, solista do violoncelo, spalla, sopros, percussão – com o partido que cada um apoiou no primeiro e no segundo turnos, de acordo com suas postagens nas redes sociais, já que o voto é secreto.

– Ok, Enquanto eu analiso, veja aí o pessoal da mixagem, corte, masterização, técnico de som, essas coisas. E não só nas últimas eleições, mas desde 2002, por favor. Inclusive no orkut e ICQ, que acho que tuíter e insta ainda não existiam naquela época.

– Quer que eu deixe rodando o resto do CD enquanto isso?

– De jeito nenhum. Tire antes que eu me apaixone. Vai que alguma dessas backing vocals maravilhosas é isentona e aí ferrou tudo.

 

(originalmente publicado em 29 de maio de 2019)

Sologamia

sologamia

 

Uma conterrânea minha, bela loura de 38 anos, casou-se esta semana consigo mesma.

Beagá tem esse “problema”: mais mulheres (quase 200 mil a mais) que homens. Arrumar marido lá deve ser quase tão difícil quanto conseguir um “bom dia” em Curitiba.

A sologamia feminina poderia ser uma forma de equilibrar as contas e minimizar a solteirice congênita que afeta tantas meninas de Minas. Mas ninguém garante que algum homem belo-horizontino também não venha a contrair matrimônio com si próprio, e o déficit permanece igual ao da Previdência – crônico, inexorável, vitalício.

Sem contar que a sologamia – em que pese a economia de uma aliança e um bonequinho em cima do bolo – tem seus senões.

Pode-se pensar que ela signifique solidão, mas é o contrário. Aí é que você não vai ficar sozinho/a de jeito nenhum. Seu/sua parceiro/a vai grudar em você, sempre estará onde você estiver – e não adianta nem se trancar no banheiro para ter um minuto de paz.

Aliás, o banheiro é outro problema. Não há relacionamento que sobreviva à visão do/a parceiro/a absorto/a em questões escatológicas aboletado/a no vaso sanitário. E isso não só de vez em quando, ou por acaso, mas todo dia.
Dia após dia.
Até o fim dos dias.

Nas DRs não dará pra fazer de conta que você está prestando atenção, ou fingir que concorda só encerrar logo o assunto. A coisa só vai acabar quando você se cansar de falar, não quando se cansar de ouvir.

Se você brigar consigo mesmo/a (quem nunca?), fizer as malas e voltar pra a casa da sua mãe, vai parar é na casa da sua sogra.

E não vai poder dormir de conchinha.
Não vai ter quem tire cravos das suas costas.
Não vai ter quem passe protetor solar nas suas costas.
Quem te ajude a fechar o fecheclér (se você for mulher).
Quem te lembre a data do aniversário do casamento (se você for homem).

Nunca vai chegar em casa e encontrar um jantarzinho surpresa.
Nunca vai ter com quem dividir a quantidade de louça suja decorrente do jantarzinho surpresa.

E vai ter que ser fiel na marra.

Tem que ser muito esperto/a para pular a cerca sem que nem você perceba, e muito sonso/a para não perceber que você mesmo/a pulou a cerca – o que é um paradoxo.

No sexo conjugal, então, vai ser uma tristeza. Porque o auto-engano é uma arte, mas tem seus limites.

Não vai dar para fingir orgasmo, nem inventar que está com dor de cabeça ou vir com aquele papinho de que “isso nunca me aconteceu antes”.

Nunca vai poder transar pensando em outra pessoa sem ser flagrado/a cometendo adultério em pensamento. E se pensar em si mesmo/a, é narcisismo. E quem aguenta ir pra cama pelo resto da vida com um/a parceiro/a que ou é narcísico/a ou traíra?

Suas fantasias sexuais sempre serão previsíveis – e você saberá de antemão aonde quer chegar com aquela conversa mole de “não vai doer, eu faço com jeitinho”.

Prepare-se para se sentir culpado/a em 100% das vezes. Você não poderá colocar a culpa na outra pessoa por não conseguir localizar o bendito Ponto G. Nem se a outra pessoa gozar rápido demais, e te deixar na mão.

Não adiantará mentir quando perguntar a si mesmo/a “foi bom pra você?” Nem fazer de conta que está dormindo para não ter que passar por aquilo tudo de novo. Ou por saber que uma segunda, logo em seguida, não rola nem a pau.

Mas tem um lado bom.

A cama é toda sua.
O controle remoto é todo seu.

A tampa do vaso estará sempre abaixada.
Ou sempre levantada.

Não haverá calcinhas penduradas no box.
Ou não haverá alguém reclamando das calcinhas penduradas no box.

Não haverá drama se esquecer de tomar a pílula ou de comprar camisinha.

E na divisão dos bens, em caso de divórcio, por mais litigioso que seja, tudo vai acabar ficando pra você.

Complicada mesmo é a pensão por viuvez – que você não vai receber nem morto/a.

(originalmente publicado em 30 de maio de 2019)

Barba, cabelo e bigode

hirsuto

É praxe, ao final do corte de cabelo, o barbeiro trazer um espelho para que o cliente confira como ficou a nuca (ou “o pé”, que é como barbeiro gosta de chamar base da nuca, uma catacrese que nunca vou entender).

De um tempo para cá, dei para não prestar a menor atenção ao pé – se batido, redondo, quadrado. Meu interesse está um pouco mais acima, no cocuruto.

Abriu-se ali uma clareira, uma voçoroca, quase uma tonsura, daquelas que os franciscanos desenham caprichosamente com gilete e, no meu caso, apareceu de oferecida, sem ser chamada.

Levantando um pouco mais o espelho, percebe-se que o corte é sempre no estilo Caribe, aquele em que, olhando de cima, dá pra ver o fundo.

Calvície nunca foi um drama para mim. Meu avô era calvo. Meu pai já era calvo quando eu nasci (e ele tinha só 25 anos na época). Se ainda preciso comprar xampu e ter um pente na gaveta, devo isso à linhagem materna, de homens hirsutos, de sobrancelhas espessas e narizes que chegam aos compromissos meia hora antes do restante do corpo.

Já fui muito cabeludo, com as madeixas batendo no ombro (infelizmente, há fotos para comprovar este fato). Para onde foi toda aquela pujança capilar?

Lavoisier explica: “Na natureza nada se cria, nada se perde, tudo se transforma.”. O que minguou no alto da cabeça floresce agora nas orelhas. Até há pouco eram só uns fiapinhos, que viraram tufos e se converteram em moitas, dando-me um ar de lobisomem que há de ter um certo charme, mas com certeza não o charme certo.

Há mais ou menos um ano, depois de mais um corte de cabelo, a verificação do “pé” da nuca e a espanada geral do que sempre cai na camisa, o barbeiro perguntou se eu não queria aparar também a orelha. Era sinal de que até a barba estava sendo ofuscada pelas pilosidades auriculares.

Sugeriu que, em vez de aparar, eu tirasse aquilo. “Vai ficar bem melhor”, garantiu. Concordei sem me dar conta de que “tirar aquilo” fosse arrancar o mal pela raiz.

Chamou uma mocinha simpática e falou “Faz a orelha do moço”.

Em coisa de minutos eu, que tinha ido apenas aparar o cabelo, me vi deitado numa maca com as orelhas besuntadas de cera quente e submetido a uma espécie de tortura medieval. E aí me dei conta de que era assim que acontecia: o Destino arma suas trapaças e um dia que começa como outro qualquer de repente dá uma reviravolta e te coloca frente a frente com a Indesejada, a Ineludível, a Insidiosa depilação.

Saí de lá com orelhas civilizadas, e queimando. Na rua, todos me olhavam como se eu carregasse um cartaz onde se lia “Eu depilo as orelhas”. Um cartaz e um megafone, para que também os deficientes visuais soubessem do evento.

Capinados o lóbulo, o trago, a concha, a hélice – e talvez até o tímpano! – a próxima ida ao barbeiro, três meses depois, não teria como oferecer novas surpresas. Qual o quê.

Aparadas a franja e as laterais (mais não há o que aparar), feito o “pé” e acertado aquele trecho em que costeleta vira barba, o barbeiro perguntou: “Posso aparar a sobrancelha?”.

Antes que eu respondesse, ele passou o pente por essas marquises felpudas que nos protegem os olhos e demonstrou que o cabelo que um dia cobrira o cocuruto e que tinha se homiziado nas orelhas agora florescia ali.

Sim, o espelho não mente jamais: eu tinha adquirido, sem ter me dado conta, sobrancelhas de Leonel Brizola, com indomáveis fiapos de uns 10 cm de comprimento aqui e acolá.

Sem que eu consentisse, e tampouco me opusesse, o barbeiro deu um jeito naquilo como se eu fosse um poodle abandonado há anos na Suipa e ele o próprio Edward Mãos de Tesoura.

Saí de lá me sentindo um Cristiano Ronaldo. Na rua, todos me olhavam como se eu gritasse com um megafone “Eu faço a sobrancelha”. Um megafone e um cartaz, para que também os deficientes auditivos tomassem conhecimento do evento.

Nunca mais fiz uma coisa nem outra – um pouco por vergonha, um pouco por acreditar que, depois disso, o cabelo voltaria ao lugar de onde nunca deveria ter saído, que é o cocuruto.

Ontem, passando pelo shopping, vi a clínica de depilação e cocei disfarçadamente a orelha. Sim, a touceira estava lá.

É um shopping discreto, com pouquíssimas chances de haver algum conhecido por perto.

Entrei e, antes que a atendente levantasse qualquer hipótese mais constrangedora, disse, com voz firme: “Quero fazer a orelha”.

Em questão de minutos, lá estava eu de novo deitado numa maca com as orelhas besuntadas de cera quente e submetido à já conhecida tortura medieval.

A mocinha simpática era outra, e a orelha devia estar uma mata de difícil acesso porque ela perguntou “O senhor nunca fez isso antes, não é?”.

“Não”, menti.

“Dá pra ver. Devia fazer também o nariz;”

“Como assim?”

“É, vai ficar muito melhor.” – e me deu um espelhinho, daqueles de aumento, que fazem um poro parecer uma cratera.

Minhas narinas eram as de um dragão soltando chumaços pelas ventas.

“Posso fazer?”.

Não, não pôde. A orelha tinha sido quase sem querer – e lá estava eu, repetindo voluntariamente. A desbrizolização da sobrancelha eu faço em casa mesmo. Mas se deixar depilar a narina, um limite perigoso pode ser ultrapassado e… o que virá depois?

Na saída, a moça do caixa perguntou se eu tinha sido bem atendido e se tinha sido mesmo só a orelha. Disse que sim, apesar de a funcionária ter achado que eu devia fazer também as narinas (esse par de narinas ímpares, herdadas do cromossomo materno).

Uma senhora que fazia sei lá o quê na sala de espera houve por bem se meter na conversa:

“Meu marido sempre faz orelha e nariz. Se fizer só a orelha, fica exatamente assim, parecendo um chupacabra”.

Paguei, e vim embora pensando se não é preferível assumir o chupacabra que habita em mim a desafiar a nova lei de Lavoisier – “O pelo não some, ele só deixa de nascer onde você precisa e passa a brotar onde não deve”.

Vai que, expulso das orelhas, das sobrancelhas e das narinas, me comece a crescer cabelo em regiões que demandem um shopping ainda mais discreto e uma depiladora capaz de levar segredos para o túmulo?

Doravante, só dou atenção ao pé da nuca e olhe lá.