Aval intelectual

Livros

Meu próximo passo é ter um canal no iutube. Ou pelo menos postar umas laives.
 
Sobre o quê? Faço a menor ideia. O importante é que tenha uma estante ao fundo.
 
Estante ao fundo dá um ar acadêmico, agrega estofo intelectual. Cada volume ali no segundo plano é um viés de confirmação encadernado.
 
Sem contar que duvido que seja só eu que fique tentando ver o que está escrito nas lombadas e nem preste muita atenção ao que é dito, embasbacado com todo aquele bequigráunde cultural. Afinal, é pra isso que serve a estante ao fundo, não?
 
“Será que ele leu aquilo tudo?”. Claro que não. Ninguém leu todos os livros que tem na estante. Mas por que alguém teria aquele tanto de livro em casa? Porque a gente compra livro por impulso. Porque ganha livro de quem acha que a gente lê muito. Porque a gente pega emprestado e não devolve. E para fazer figuração numa laive.
 
Breve, as livrarias – que já têm seções de clássicos, autoajuda e de livros com palavrão no título – terão também um espaço reservado a títulos escolhidos a dedo para fundo de laive.
 
– Boa tarde, vou fazer uma laive sobre neoliberalismo quântico. O que você tem nessa área?
– Pró ou contra?
– Se falei “neoliberalismo” é porque é contra, né?
– Desculpe, é que essa sua barba feita me deixou em dúvida. Este último lançamento do Jessé Souza tem tido muita saída. Capa dura, cores firmes que garantem boa definição mesmo em laives feitas com celular de segunda linha.
– Queria algo mais disruptivo, entende?
– Contemporâneo, disruptivo e com lombada de cores que valorizam uma laive progressista nós temos o Felipe Neto. Vai bem com estantes de madeira escura, pintada de branco ou até aquelas de sebo, de chapa de ferro.
– Me vê um Felipe verde limão, um azul piscina, um rosa choque e, vá lá, um Jessé daqueles magentas ali.
 
~
 
Antigamente, a gente tirava foto fazendo pose ao telefone – lembra disso? Nas fotos feitas na sala de visitas, dava-se um jeito que aparecessem o cinzeiro de cristal na mesinha de centro, a estante com a Barsa ao fundo e, ao lado, a mesinha do telefone, com o dito cujo.
 
Foram-se o cinzeiro, a Barsa, a mesinha de telefone, o telefone. Resistindo bravamente ao kindle, ficou a estante.
 
A laive na frente da estante dando a entender que a gente lê muito é o novo retrato fingindo que fala ao telefone.
 
Uma estante cromática e ideologicamente equilibrada é tendência para 2020. Clássicos, sim, mas quando a falsa erudição é demais até o seguidor de laive desconfia. Aquelas coleções imensas, que ninguém nunca nem abriu, encadernadas em verde, com letra dourada, pode esquecer.
 
É de bom tom que os livros estejam arrumados, pero no mucho. A estante deve dar a impressão de que os volumes já foram consultados um dia. Cai bem um objeto de decoração, desses cuja procedência estrangeira seja claramente identificada. Um e outro livro na horizontal, displicentemente pousado sobre os demais – lembrando, sub-repticiamente, que é tanto livro que nem cabe mais em pé.
 
Já deve haver até personal-estanters, encarregados de customizar estantes para laives.
 
– Olha, Orwell e Clarice nunca saem de moda. Ficam bem tanto numa laive densa, daquelas com iluminação cênica, rosto meio na penumbra, quanto numa informal, de luz chapada, para fofoca de celebridade.
– Eu queria um casual chique, que valorizasse o Q.I. mas com pegada.
– É bom ter sempre um russo para agregar valor, um desses portugueses que insistem em escrever como antigamente – mas têm capas lindas -, um autor étnico para garantir a diversidade, um desconhecido que ganhou o Nobel e só por isso foi editado no Brasil, um da Rita Lobo – que dá leveza e gera empatia imediata – e pelo menos um dicionário de qualquer coisa.
– Que tal algum da lista dos mais vendidos, pra mostrar que sou antenado?
– A menos que seja uma laive sobre terraplanismo ou tutorial de bronzeador caseiro, jamais deixe um bestisséler à vista. E lembre-se: lombadas em tons de azul enfatizam a assertividade, em tons de laranja levantam o astral. Lombadas verdes, amarelas e vermelhas, só em casos específicos – e nunca misturadas.
 
Para não ficar monótono – e caso não se disponha de livro suficiente para três prateleiras -, pode-se fazer laives em livrarias e bibliotecas. Normalmente não estão muito cheias e têm livro à beça.
 
O problema de ir a bibliotecas ou livrarias é quererem te empurrar algum.
 
– Não quer pegar um Bagno, um Safatle, emprestado? Devolve quando puder, sem multa…
– Não, obrigado.
– Um Olavo, então? Temos vários Olavos. Pegando um Olavo emprestado, leva 3 Sinottis que nem precisa devolver.
– Não, não…
– Olha, temos esse combo: Karnal, Cortella e Pondé. Três em um. Ou um em três, tanto faz. Pode fazer testidraive, sem compromisso.
– Olha, eu só queria mesmo fazer uma laive com um fundo culte, entende?
– Ok, você venceu. Temos uma promoção imperdível: levando dois Marilena Chauí, vai de brinde a coleção completa da Márcia Tiburi, inteiramente grátis. Com papel de presente, cartãozinho, caneca customizada e Uber por nossa conta.
 
~
 
Uma opção é comprar papel de parede imitando estante. Sim, existe. Nem precisa forrar a parede toda. Um m2 basta. É só tomar cuidado para não aplicar no sentido errado. E nem precisa usar óculos. O charme de intelectual está garantido.

O sol nasceu pra todos

perineo 2

Eu podia estar escrevendo sobre rânquim do Pisa, que colocou o Brasil abaixo da Moldávia, da Jordânia, da Romênia e da Bielorrússia – mas, ainda assim, acima do Cazaquistão, da Albânia e – certamente – do Haiti, do Sudão do Sul e da Guiné Equatorial.

Podia falar que só resta ao Cruzeiro, depois da derrota para o Vasco (e para o CSA!), cortar três zeros e mudar o nome para Cruzado.

Podia conjecturar sobre que cargo irão ocupar no governo a Inês Brasil, o Inri Cristo, o ET Bilu e o Menino do Acre.

Mas o assunto que não quer calar é o bronzeamento do períneo.

Se o sol nasceu para todos, por que não para o períneo?

O períneo é uma daquelas regiões que pareciam fadadas a viver nas sombras. Uma espécie de eminência parda da anatomia. Um Uruguai, com inúmeros atrativos, mas espremido entre dois vizinhos muito mais poderosos.

A etimologia dá uma pista: o prefixo de περίνεος (períneos, para quem, como eu, não entende lhufas de grego), é o mesmo de periferia, peripécia, período, perímetro, periscópio. “Peri” = O que está à volta, ao redor, em torno de.

O períneo nasceu para vice. Para papagaio de pirata. Nem chega a coadjuvante: é só figuração.

Sabe aquela moça que passa lá atrás, em segundo plano, de sombrinha, nas novelas de época? Pois é, ela é o períneo da cena. Sem ela, a coisa ficaria meio falsa. Não é preciso haver uma rua de verdade, com gente de verdade passando, cada um protagonista da sua própria existência. Daria muito trabalho. Basta, para conferir certa credibilidade, uma moça anônima andando sem rumo, de sombrinha, indo do nada a lugar nenhum para fazer coisa nenhuma. A diferença é que, no corpo humano, essa moça de sombrinha tem nome: chama-se períneo.

E por que tomar sol no períneo?

Porque já esgotamos todas as outras possibilidades. Já inventamos o creme para cotovelo. A barba desenhada. A cirurgia para fazer covinha no rosto. A prótese de silicone para panturrilha. A depilação em forma de bigodinho nazista. O papel higiênico com sabor pêssego. E o períneo lá, feito um dois de paus, fazendo cara de paisagem.

Já houve uma peça chamada “Monólogos da vagina” e uma entrevista da Marcia Tiburi sobre o cu ser laico. E o períneo ali, calado, esperando a deixa que não vinha. Na boca do gol esperando o passe. Quase um Príncipe Charles, há 70 anos com o pé na embreagem esperando o sinal abrir para engatar a primeira. E nada.

Imagino que tenha havido uma reunião de pauta numa dessas empresas que detectam tendências e turbinam a internet, e depois de um chequiliste completo viram que não faltava problematizar mais nada no corpo humano.

– Baço já foi tendência?
– Já. No outono de 1987.
– O mesentério?
– Verão de 1941.
– As amídalas?
– Da década de 70, quando ainda nem se chamavam tonsilas.
– As trompas de falópio?
– Essas passaram por um branding e agora são tubas uterinas.
– Então acabou. Até o complexo de golgi já foi pauta. Vamos ter que dispensar todo mundo e mudar de ramo.
– Não péra! Como é que chama aquela parte ali entre o… o… e a… a..
– Onde, Aparecida?
– Lá.
– Desembucha, Aparecida.
– Lá, gente. Naquele São Conrado genital, entre o Leblon e a Barra…
– Aquilo tem nome?
– Acho que tem. É alguma coisa tipo pericarpo, peritônio, periodontista, perinatal…
– Períneo!
– Isso! Vamos jogar alguma luz ali?

E foi assim.

~

Disclêimer:
1. Esta é uma obra de ficção;
2. Contém ironia;
3. Não há qualquer intenção de ofender os súditos de Sua Majestade ou, mais especificamente, seu herdeiro ao trono;
4. Jamais me ocorreu magoar nenhum país vizinho com referências depreciativas à sua localização geográfica;
5. Os estudantes cazaques, albaneses, haitianos, sudaneses do sul ou guineenses equatoriais merecem todo o nosso respeito;
6. Esperamos que nenhum torcedor do valoroso CSA se sinta ultrajado;
7. O Cruzado foi uma moeda legítima como qualquer outra, em nada inferior ao Cruzeiro ou ao Conto de Réis (que será o nome do time quando cairmos para a terceira divisão);
8. Inês Brasil é uma artista talentosa, não compactuamos com nenhum tipo de intolerância religiosa ao inricristianismo, extraterrestrial lives matter, e eu tenho o maior xodó pelo Acre;
9. A categoria profissional dos figurantes tem papel fundamental na dramaturgia, e jamais poderá ser considerada mera coadjuvante;
10. Desenhar a barba é uma opção estética lícita e a diagramação do púbis é uma decisão de foro íntimo;
11. Papagaios são animais silvestres e não devem ser retirados no seu habitat para viver em gaiolas ou no ombro de bucaneiros;
12. Empresas de trêndim e brêndim, assim como as de côutchim, fazem parte da economia criativa, geram empregos, pagam impostos e não devem ser alvo de pilhérias;
13. São Conrado é um bairro nobre e paga um dos mais altos IPTUs do Rio, sendo injusta qualquer ilação sobre ser apenas um lugar de passagem;
14. Em nenhum momento me ocorreu insinuar que a Barra da Tijuca – que, inclusive, é meu lar – seja o orifício anal do Rio de Janeiro.
15. Nenhuma Aparecida sofreu maus tratos na redação deste texto.

(Ufa, acho que já me defendi de todas as possíveis acusações. A menos que algum barista grego com complexo de golgi apareça – mas acho que as chances de isso acontecer são remotas).

Criado mudo

pisando em ovos

Um dos problemas do Brasil é a piada pronta.

A gente tenta fazer graça com alguns absurdos, mas aí vem a realidade e pá! mostra que não há ironia, sarcasmo ou deboche que chegue aos seus pés.

Uma empresa vai tirar de linha o ‘criado mudo’, porque a expressão é racista.

Racista?

Os criados são uma raça? Há uma raça de mudos?

Aquele móvel onde você guarda remédios, lenços de papel, bombinha de asma, título de eleitor, cópia da chave do carro, e que serve de apoio para livros e luminária, alguma vez te lembrou um escravo calado, a noite inteira de pé ao lado da cama?

Bora rebatizar os móveis e acessórios opressores e perpetuadores de discriminação!

‘Olho mágico’ tem um quê de alucinógeno, não tem? Será preconceito contra usuários de substâncias ilícitas?

Por que essa falta de mobilidade social que prende a ‘mesinha de centro’ ao centro e a ‘mesinha de canto’ ao canto? Abaixo o comodocentrismo das mesinhas de centro! Liberdade para as mesinhas de canto assumirem o protagonismo!

Diga ‘não’ ao trabalho análogo à escravidão. Se o nome é ‘pano de prato’, ele deve receber hora extra quando for usado para enxugar talheres e panelas – e adicional de insalubridade quando, na falta de luvas, pegar caçarolas quentes no fogão. Que as lojas de artigos de cama e mesa mudem os nomes para ‘pano de garfo’, ‘pano de faca’, ‘pano de frigideira’ etc.

O mesmo vale para quem usa colher de sopa para medir açúcar, colher de chá para colocar pó de café no coador, forma de bolo para fazer pudim, tábua de carne para picar cebola…

Quer coisa mais estadocivilnormativa que ‘cama de solteiro’ e ‘cama de casal’. Não é cama que define o estado civil de ninguém. E como é que ficam os poliafetivos, os menagers, os suínguers, sendo o tempo todo lembrados que aquele móvel foi feito para um casal, não para práticas sexuais alternativas?

Também precisamos repensar o gênero quando se trata de sofá-cama. Porque ‘o’ sofá-cama, não ‘a’ sofá-cama? Sofá-cama é genderfluid – ora sofá, ora cama – portanto, nenhum gênero o/a define.

E a bicama? Por que expor assim a orientação sexual de um móvel? Se ela é bi, isso é questão de foro íntimo.

Desde quando sapato e mala são roupas? E onde é que a gente guarda? Na parte de baixo e lá na prateleira de cima do guarda-roupa. O nome ‘guarda roupa’ é discriminatório e não inclusivo. Doravante, refira-se a ele como ‘guarda lenço bolsa toalha sapato mala cinto e roupa’ (se preferir, use a sigla GLBTSMCR).

Como alguém pode, em sã consciência, almoçar na mesa de jantar?

Lavar pano (de prato, de talher, de panela, de chão) na lava-roupas?

Usar a escrivaninha para desenhar?

Meu ferro elétrico é quase todo de plástico, mas o plástico não tem representatividade – só o ferro. Pode isso?

É justo impedir a luminária de pé de se sentar? Chamar de corredor um lugar por onde a gente normalmente anda em baixa velocidade? Usar o computador para tudo, menos para computar? Apenas relaxar na espreguiçadeira? Fazer o número dois no urinol?

E, já que o criado-mudo é racista, o que dizer do machismo explícito de a cama king size ser maior que a queen?

 

 

 

Faxina linguística

PC

Há movimentos para tirar de circulação termos e expressões ofensivos a minorias.

É uma questão de civilidade.

“Fazer baianada”, “serviço de preto”, “coisa de mulherzinha”, “programa de índio” não vão fazer falta nem deixar saudades.

Por outro lado, há os exageros. Coisa de gente que perdeu a mão (e não vai aí nenhuma hostilidade aos amputados), o foco (não, não vejo com maus olhos os portadores de presbiopia, astigmatismo, catarata), o rumo (longe de mim querer alcançar as vítimas de desorientação amnéstica), o eixo (sem inclinação desfavorável aos que sofrem de labirintite).

“Caixa preta”, “sorriso amarelo” e “entrar no vermelho” não têm conotação racial. Mas, no ritmo em que as coisas vão (e continuam indo!), não será surpresa se a lista de expressões que devemos banir do idioma para torná-lo mais inclusivo incluir:

– Terça-feira gorda
> Ofende os dias da semana não adiposamente privilegiados;

– Apressado come cru.
> Busca ridicularizar os adeptos da dieta crudívora.

– A carne é fraca.
> Busca favorecer, sub-repticiamente, a dieta vegetariana.

– Gordura trans
> Associa os pluçaize e as pessoas cuja identidade de gênero difere daquela designada no nascimento a algo prejudicial à saúde;

– Quem vê cara não vê coração.
> Privilegia os cirurgiões cardiovasculares em detrimento dos cirurgiões plásticos.

– Tempos de vacas magras:
> Ofende as anoréxicas, correlacionando magreza e miséria;

– O trem tá feio:
> Insulta o já combalido sistema de transporte ferroviário e, simultaneamente, os indivíduos (mineiros ou não) em desconformidade com os padrões estéticos da sociedade

– Alto lá!
> Estigmatiza os esbeltamente avantajados;

– O que vem de baixo não me atinge.
> Ultraja os de estatura comprimida;

– Pimenta nos olhos dos outros é refresco
> Perpetua estereótipos contra as pimentas, ignorando o grupo minoritário das pimentas biquinho, que não ardem;

– Deus escreve certo por linhas tortas
> Fomenta a opressão gramatico-teísta em relação às pessoas diferentemente dotadas de destreza manual;

– Um dia é da caça, outro é do caçador
> Ignora a pesca, fonte de subsistência das populações ribeirinhas;

– Uma andorinha só não faz verão
> Discrimina os celibatários (voluntários e involuntários), os nerdes e os sologâmicos;

– Não julgue o livro pela capa
> Institucionaliza o menosprezo aos designers gráficos, cuja profissão sequer é reconhecida;

– É dando que se recebe
> Estimula práticas sexuais não ortodoxas entre parceiros do mesmo sexo, vinculando a entrega física a posterior recompensa;

– Cada cabeça, uma sentença
> Deprecia o STF.

– Roupa suja se lava em casa
> Propaga subliminarmente o boicote ao empreendedorismo na área das lavanderias;

– Quem com ferro fere, com ferro será ferido.
> Nega a teoria de que racismo reverso não seja racismo.

– Quem tem boca vai a Roma
> Faz apologia do tráfico de drogas, insinuando que traficantes sejam bem sucedidos, o que lhes permite viajar ao exterior;

– Preto emagrece.
> Essa não precisa nem comentar, precisa?

EstartAPPS do futuro

apps

Se eu tivesse dinheiro, aplicaria em um aplicativo.
Claro que para cada aplicativo que dá certo há milhares de aplicativos que dão errado.
É possível saber qual é um, quais são os outros? Não, não é.
Como é que a gente ia adivinhar que táxi pirata podia virar um negócio bilionário?
Que alugar vaga em casa de família ia transformar alguém em magnata?
A vida (e a grana) é curta demais para investir em algo muito bem pensado, com um mega modelo de negócios e uma baita estratégia de márquetchim.
O negócio é partir para estartapes mais pé no chão, daquelas em quem ninguém leva fé.
Tipo jogar 1-2-3-4-5-6 na Mega-Sena. É claro que você nunca vai ganhar. Mas se ganhar, ganha sozinho.
Andei pensando em algumas estartapes bem disruptivas, que têm tudo para botar o Uber pra correr e desalojar o AirBnB do topo do rânquim.
Acompanhem comigo.
Todo mundo tem meia desemparelhada. Todo mundo, menos eu, que compro logo 10 pares do mesmo modelo e assim uma pode acasalar com essa num dia e com outra no dia seguinte, como se minha gaveta fosse uma filial do mundo artístico.
Pois bem. Fotografe suas meias avulsas, faça uma breve descrição (“Marrom, canelada, calcanhar levemente esgarçado, furo imperceptível na altura do canto esquerdo do dedão – ou do direito do mindinho” e poste no MeiApp®, o aplicativo de emparelhamento de meias. Você pode optar por comprar o pé que te falta, vender o seu pé que sobra ou fazer escambo (um preto por um marrom, quatro azuis por um preto, nove lilases com carinhas de palhaço daqueles do Justin Trudeau por qualquer pé de meia de homem etc).
Eu, ou quem investir comigo, fica com 20% do valor da transação (no caso do escambo, aceitam-se pés de meia bege como pagamento), mais o frete.
Baseado no mesmo conceito, tem t-App-oé®, o aplicativo de troca de tapoés sem tampa por tampas de tapoé. Só que com uma segunda marca , voltada para as classes C, D, E, F e G, incluindo potes de margarina, de sorvete etc.
Por fim, um aplicativo menos mercantilista e mais socialmente engajado, a ser utilizado para dividir contas com base em critérios progressistas de dívida histórica.
Você sai com amigos, pede uma pizza em 8 fatias e uma coca litro. São dois casais à mesa, cada pessoa come duas fatias e toma dois copos (caso bem hipotético, porque tem sempre um que come mais). Como dividir?
“Por quatro”, diria um fascista.
“Por dois”, diria um machista (os homens racham a conta enquanto as mulheres vão ao banheiro).
“Deixa que eu pago”, diria quem convidou, esperando que ninguém aceite a proposta.
Tudo errado. Uma calculadora ou uma caneta + pedaço de guardanapo – se um dos quatro tiver frequentado a escola depois de 2003 – não dão conta da complexidade da operação.
E o rateio da dívida histórica, como é que fica?
Mulheres só tiveram direito a voto no século 19. Ganham, em média, 20% a menos que os homens. Têm cólica, estria, dão à luz, pintam o cabelo, precisam usar sutiã, salto alto, depilar virilha, carregar bolsa… Não, não é justo que paguem o mesmo preço que os homens.
Tem também a cor da pele. A orientação sexual. O coeficiente de gordura corporal.
Como dividir uma conta entre um homem branco gay, uma mulher hétero pluçaize, um não binário preto e uma trans oriental?
Lembra da brincadeira do “papel tesoura pedra”, em que a pedra amassa a tesoura que corta o papel que embrulha a pedra? O aplicativo PapelTesouraPedrApp® resolve o imbroglio da divisão da conta sem quebra-quebra ou acusações mútuas de misoginia, xenofobia, gordofobia e afins.
Branco paga mais que preto, que paga menos que oriental, que paga mais que árabe.
Homem paga mais que mulher, e não binário paga menos ainda.
Hétero paga mais que gay, e bi paga a média dos dois.
Crossdresser paga mais que trans,
Agênero paga o mesmo que genderfluid, dependendo de para que lado o genderfluid estiver fluindo no momento.
Mas paga-se quanto mais, ou quanto menos? Aí é que a porca torce o rabo e entra o pulo do gato. O aplicativo, valendo-se de um algoritmo justiceiro, leva em conta todas as variáveis e evita que amizades sejam rompidas por causa de uma meio calabresa meio quatro queijos.
– Por que estou pagando mais que você, se sou bi e você insiste nessa heterossexualidade tóxica?
– Nem vem. Eu sei que você só é bi quando fuma maconha e, mesmo assim, nem beija direito, fica só broderagem.
– Ah, é? E você, que tira o buço? Tirou o buço e separou a monocelha, perde direito ao desconto.
– Olha só quem fala! Entrou na Federal fora do sistema de cotas e quer lacrar. Pra cima de mim, não! E nem pense que me engana com esse sobrepeso: sei que isso são apenas ossos largos…
O PapelTesouraPedrApp® utiliza tecnologia de reconhecimento facial e análise de postagens no feicebuque. Quem votou Haddad paga menos que quem votou Bolsonaro, que paga mais que quem votou em branco, que paga 75% de quem anulou e justificou o voto. Defesa da Amazônia tem desconto maior que indignação por óleo nas praias. Vegano paga a metade do vegetariano, que paga um terço de um carnívoro. Menos na pizza marguerita, claro, porque aí era sacanagem.
Se você perdeu o bonde do IFood, da Netflix e do PTinder, o MeiApp®, o t-App-oé® e o PapelTesouraPedrApp® são sua chance de tirar o atraso e o pé da lama.
Invista djá!

Um conto de fadas moderno em 10 atos

Fada

1.
Drigo é um homão da porra.
Sensível.
Desconstruído.
Gosta de cozinhar.
Relaxa fazendo crochê.
Participou do curso de gestante, fez força no parto junto com a Nanda.
Tirou licença para cuidar dos bebês.
Faz trança, bota laço, ajeita a sapatilha e se emociona na apresentação de balé do Júnior.
Nanda é uma mulher forte.
Decidida.
Empoderada.
Trabalhada na sororidade.
Relaxa fazendo krav maga.
Abriu mão da licença maternidade para se dedicar a um projeto da empresa.
Leva a Manu no muay thai, no jiu jítsu e a fantasia de Frida no carnaval.
2.
Drigo começou depilando as axilas por achar mais higiênico.
Depois depilou o peito porque sentia que aquele tufo saindo pelo colarinho exalava masculinidade tóxica.
A turma com quem malhava glúteos achou estranha a depilação apenas do umbigo pra cima e aí ele tirou o resto.
Gostou do resultado.
Sobrancelha, só para acertar o desenho, porque tudo tem limite.
Nanda começou parando de depilar as axilas porque achava opressor.
Abandonou a depilação da virilha porque era uma sujeição aos padrões estéticos do patriarcado.
Acha que as mulheres devem se aceitar como a natureza as fez, e se exibe, orgulhosa, no instagram, com as canelas felpudas.
3.
Drigo não se sente à vontade para tomar a iniciativa no sexo. Acha que tem um quê de assédio, sei lá.
Tem se queixado com os amigos que a Nanda já não o procura mais como no início do relacionamento.
Nanda precisa que o secretário a lembre da data de aniversário do casamento.
Chega quase sempre cansada do trabalho. Com tanto problema na cabeça, não tem muito pique pra transar. Pelo menos não em casa.
4.
Júnior odeia balé, mas entendeu que um menino deve ser obediente.
Manu acha o muay thai muito chato, e preferia uma Barbie esquiadora à Frida artesanal.
Manu aprendeu granjetê com o Júnior. Tem deixado os coleguinhas do muay thai desconcertados – e com hematomas.
Júnior aprendeu chave de braço, joelhaço e faca de mão com a Manu. Ninguém mais se mete com ele quando o vê saindo de tutu.
5.
Drigo tem lido algumas revistas masculinas, que dão dicas para resolver o problema das unhas quebradiças e sugestões de como apimentar o relacionamento.
Nanda se cadastrou num aplicativo de encontros – com nome falso – e tem tido encontros casuais na hora do almoço.
6.
Júnior se assumiu hétero, parou de descolorir o cabelo e ouviu da mãe – após um longo suspiro inconformado – que, haja o que houver, ela estará lá para apoiá-lo, independentemente das suas opções.
Manu ainda está indecisa, como toda adolescente. Ouve pop coreano às escondidas e se tranca no banheiro para usar alguns dos cremes hidratantes do pai.
7.
Nanda tem sentido umas pontadas no peito e a sensação de que carrega o mundo nas costas, e ninguém reconhece isso.
Drigo luta contra a balança e passou a frequentar um grupo que se explora o conceito de broderidade.
8.
Nanda ficou ainda mais poderosa com look grisalho.
Drigo não consegue assumir os fios brancos.
9.
Manu gosta de um menino que conheceu no futebol, mas por enquanto prefere manter um namoro de fachada com uma colega de faculdade.
Júnior foi morar com a coreógrafa, e milita contra o matriarcado opressor.
10.
Drigo sabe que fez o melhor que pôde pelos filhos, mas imagina como tudo seria diferente se tivesse investido na carreira de engenheiro mecânico.
Nanda sabe que foi uma boa provedora, que não deixou faltar nada em casa, mas tem hora que… deixa pra lá. As crianças estão criadas, cada uma seguiu seu caminho – não o que ela esperava, mas fazer o quê? O que importa é que hoje tem Flamengo na final, e a cerveja está no ponto.

Xerebecanto

xerebecanto

Dom de línguas quem tem são os poliglotas. Esses que ralam na Aliança Francesa, no Goethe, no Duolingo, no Ciciêiêi, Os que falam (e entendem) inglês, francês, espanhol, alemão, russo – porque falar é fácil; entender é que são elas … Dom de línguas estranhas têm os que aprendem húngaro, basco, finlandês, vietnamita, português com a nova regra do hífen.

O que se ouve nas igrejas pentecostais tem outro nome: charlatanismo. Ou, em termos científicos, glossolalia.

Do grego “glóssa” [língua] + “laló” [falar], a glossolalia é um fenômeno que a psiquiatria e a linguística aplicam a situações em que um indivíduo, teoricamente tomado de fervor religioso, desanda a falar numa língua que nem ele (nem ninguém) conhece.

É diferente da Xenoglossia (do grego xeno [estrangeiro] + glosso [língua] que é quando alguém fala uma língua (existente) que nunca foi aprendida (meu sonho de consumo com o alemão).

Existe, ainda, a livre vocalização, que é mais ou menos o que fazem os bebês quando começam a balbuciar. Ou os compositores quando acaba a inspiração para a letra e completam a melodia com lalalá, lererê, chananá ou yeah yeah yeah.

Na Bíblia, em Pentecostes, teria acontecido o fenômeno de Xenoglossia. Tomados pelo Espírito Santo, os apóstolos – que eram pessoas simples, sem muita leitura – começaram a falar em diversas línguas. Com isso todos os presentes à festa puderam ouvir a palavra de Deus, cada um em seu próprio idioma.

Logo, esse “dom de línguas estranhas” não era exatamente o dom de línguas estapafúrdias, mas de línguas de outros povos.

Os pentecostais (cujo nome deriva, como já deu pra perceber, de Pentecostes) parece que não pegaram bem o espírito da coisa. Em vez de falar búlgaro, sânscrito, tupi ou tagalog, falam xerebecanto – que não é língua de ninguém e que ninguém entende. O seu sentido – como disse o filósofo e linguista búlgaro Tzvetan Todorov – é ser ininteligível.

Chico César é expert nesse idioma: “Ô amaradzáia zoê. Dzáia, dzáia A rin fingá do ran ran”. E o finado Skank complementa: “Deriráum daum daum, dererum dáu du dáum, deriraum daum daum”. E o João Bosco afirma que “dunga gaguiê gaguncê dagunci dungá gaguiê aibibuloba aidubuloba ai ai ai”. E o Carlinhos Brown completa: “Magamalabares acqua marã no parquinho oxaiê”.

Seria o xerebecanto uma linguagem poética, acessível apenas aos anjos e aos iluminados da MPB?

Há controvérsias. Primeiramente, porque o xerebecanto não é uma língua. Não possui estrutura sintática: é mera repetição de fonemas de língua-mãe do pastor (mesmo ritmo, mesmas pausas, mesmos padrões de consoantes e vogais).

Um pastor de Coxiporé do Norte falará fluentemente “Decanta labaxuria cantararamás”, mas jamais profetizará “zczęściewzględny chrząszczpszcz” ou “mézeskalácssütés viszontlátásra” – que pastores tchecos e húngaros, respectivamente, tirariam de letra.

Há teses de mestrado sobre o assunto. Sílabas vocalizadas aleatoriamente têm o mesmo grau de complexidade de “revelações” como “naconte merecanto nana naconderé, na conderemaná saconde conde que mené nem façá”,

“Ainda que eu falasse as línguas dos homens e dos anjos, e não tivesse amor, seria como o metal que soa ou como o sino que tine.” (1 Coríntios, 13). Ou seja, barulho, gugugu dadadá. Nhenhenhém, blábláblá.

Não mate seu anjo da guarda de vergonha alheia. Ao se dirigir a ele, faça-o em português ou em qualquer das línguas encontráveis no Gúgol Translêitor. Caso contrário, é capaz de ele não te atender, por achar que é só a Baby Consuelo chamando os filhos (“Nanashara, Sarashiva, Zabelê, Riroca!) pra janta.