Enquanto isso, na ONU…

pacita

DISCURSO 1

– Capitão, está pronto o discurso que o senhor lerá na ONU.

– Tá do jeito que eu pedi isso daí, né?

– Sim, senhor.

– Não tem parocita nisso daí, tem?

– Parocita?

– Parocita. Palavra difícil.

– Ah, proparoxítona! Não, não tem. Tiramos todas.

– Nem palavra com muita siba.

– Siba?

– Siba. Si-ba.

– Não, não. São todas com, no máximo três sílabas.

– A única que pode com mais que três é cor-ru-pi-ção.

– Fique tranquilo. Corrupção tem três.

– Ininterrups tem quantas?

– Cinco. Mas podemos trocar por “contínuo”, que tem só quatro.

– Eu sei contar, tá? Contino tem três!  Deixa ininterrups mesmo, que contino parece que é ofisbói. E que palavra é essa daqui?

– Cônjuge.

– O quê queísso daí?

– Marido, mulher, companheiro…

– Ah, conge.  Escreve direito, poha!

– Pronto, corrigido. Conge. Depois eu vejo se é com G ou com J.

– Falou dos trezens milhões que a gente pagou por agens cubanos?

– Falei.

– É muito importante falar isso daí lá pra ONU. E também do ganho de protividade.

– A produtividade, quer dizer, a protividade está mencionada.

– E tem que falar no nome do Trampe.

– Sim, incluímos o nome do Trump.

– Trampe. Tá errado isso daí. Tá escrito Trump. O nome dele é Trampe.

– Sorry, capitão.

– Cadê o nióbio? Discurso meu sem nióbio não existe. Tem que ter nióbio nisso daí.

– Tem.

– E tem que ter qüestão.  É uma qüestão de estilo. O Lula tinha “cumpanhêros e cumpanhêras”. A Dilma tinha o “no que se refere”. Eu tenho a qüestão.

– Tem qüestão e qüestionar, para evitar qualquer qüestionamento.

– Cadê a parte que fala do Batistí?

– Quem?

– O Batistí, aquele bandido que eu queria prender, mas quem prendeu foi a Bolívia.

– Ah, o Battisti…  Tá aqui o nome dele, logo antes da parte em que fala do Moro.

– Ficou bem claro que o Moro é o ATUAL ministro? Se falar que ele é só ministro vai parecer que pode ficar até o fim. Bota ATUAL ministro, pra ele sabe que é um dia de cada vez.

– Mais claro, impossível.

– Tem que falar também da ideologia, que só os outros é que têm (eu não). E da celamáter.

– Quem?

– Como é que você pode ser do Itamarati e não saber o que é a celamáter? A família, poha!

– Ah, a célula mater…. Sim, vamos falar dela.

– Dá pra falar também do Zero Um, do Zero Dois e do Zero Três?

– Não, capitão. Aí também é demais.

 

DISCURSO 2

– Treinando o discurso, filha?

– Grrrrrrr!

– Ótimo. Mas ainda pode trincar um pouco mais os dentes.

– Grrrrrrrrrr!

– Bom, muito bom.  Se tremer mais as narinas e franzir as sobrancelhas…

– Grrrrrrrrrrrrr!

–  Isso. Um pouco mais de ódio no olhar, uma coisa meio Nazaré Tedesco, meio Perpétua, a irmã da Tieta.

– Grrrrrrrrrrrrrrrrr!

– Perfeito.  Boralá falar do seu amor pela Humanidade.

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Tudo passa, tudo sempre passará

trudeau

Fidel Castro disse que a História o absolverá.

Tolinho.

A História nos condenará a todos, sem exceção. É questão de tempo.

Condenou Monteiro Lobato por descrever o beiço da Tia Nastácia, serviçal da branca Dona Benta.

Condenou o príncipe dos contos de fadas por despertar a princesa com um beijo não consentido.

Condena o ultramegagigablasterhipster primeiro ministro do Canadá, Justin Trudeau, por ter feito blequifeice na década de 90 e em 2001.

Como é que Monteiro Lobato ia adivinhar que a caracterização de uma empregada preta seria uma abominação menos de um século depois?

Como é que os príncipes encantados iam saber que seu fetiche por donzelas narcotizadas, moçoilas de madeixas quilométricas e senhoritas de pezinhos atrofiados (espremidos em desconfortabilíssimos sapatinhos de cristal) seria símbolo de opressão? E que seriam psicanalisados por causa de sua fálica espada em riste, e demonizados por levar os dragões à extinção?

Quando é que passaria pela cabeça do corretíssimo e virtuosíssimo Trudeau que uma fantasia carnavalesca aos 20 anos de idade poderia vir a ser sua ruína eleitoral 27 anos depois?

Não se enganem os certinhos de hoje: o amanhã lhes fará cobranças inimagináveis.

A atriz que exibe exuberantes tatuagens multicores e orgulhosas axilas felpudas como sinais de empoderamento será execrada quando, no futuro, decidirem que uma fênix no cóccix, uma flor no cangote ou uma frida na virilha não passam de iscas para atrair olhares e objetificar o próprio corpo. E que o buço espesso e as canelas cabeludas não são mais que estratégias veladas para valorizar a testosterona.

O jornalista que faz questão de citar todos, todas e todes os brasileiros, brasileiras e brasileires terá seus textos, textas e textes revistos, revistas e revistes porque se limitou a variar apenas, apenos e apenes alguns pronomes, pronomos e pronomas, mantendo os verbos, as verbas e es verbes sem conjugar, conjuguer, conjuguir, conjugor e conjugur, de forma, formo e forme a não tornar, torner, tornir, tornor e tornur o idioma, a idiomo e e idiome completamente, completamento e completamenta inclusivo, inclusiva e inclusive.

Os pósteros (e as pósteras e os pôsteres) olharão para ginecologistas e obstetras que atendiam apenas mulheres (e especialistas em próstata que atendiam apenas homens) do mesmo modo que hoje lançamos nosso olhar de incredulidade sobre os cirurgiões-barbeiros que curavam tudo com sangrias e sanguessugas, enquanto aparavam bigode, cavanhaque e costeleta.

Festa de revelação do sexo do bebê um dia será contravenção prevista no Código Penal, com pena de 5 a 8 anos de reclusão – aumentada em até 1/3 caso sejam usadas cores rosa e azul.  Mas, décadas depois, pintar o quarto de verde e escolher nomes neutros é que se tornará crime inafiançável.

Garfo, colher e faca mostrarão que éramos incivilizados e anti-higiênicos à mesa – mais ou menos como no tempo em que nossos pais palitavam os dentes após as refeições e nossos avós mantinham escarradeiras a postos na sala de visitas. As pessoas do futuro comerão com hologramas, e terão nojo da nossa prataria – tanto quanto dos nossos faqueiros de inox com cabo de plástico colorido.

Blequifeice será visto como reverência. Sororidade será palavrão. Ceder o assento no metrô aos idosos, sinal de desrespeito. Sistema de cotas, um modo vil de discriminação. Monogamia será catalogada como tara. Usar pírcim, um tipo de mutilação.

(Abre parênteses: Monteiro Lobato empoderava Emília e relegava seu marido, o Marquês de Rabicó – literalmente, um porco – a ser pouco mais que figurante.  Numa das reviravoltas da História, Lobato será reabilitado e, nas edições do século 22, o Marquês de Rabicó será o protagonista absoluto. A boneca de pano, com sua torneirinha de asneiras, não será mais que um símbolo do matriarcado têxtil opressor. Quem viver verá. Fecha parênteses)

(Abre parênteses de novo: Quem viver mais ainda verá Monteiro Lobato ser re-re-re-reescrito, e Emília ter sua importância reavaliada. Rabicó vai cair em desgraça e virar pururuca, sendo comido com angu de fubá feito a partir da espiga de milho falante outrora conhecida como Visconde de Sabugosa. Tudo preparado pela mucama Dona Benta e seu souschef Pedrinho, ambos a serviço de Tia Nastácia, a virgem dos lábios de mel. Fecha parênteses outra vez).

Pois é, Fidel, você errou rude. Aliás, o uso da expressão “errar rude” será tomado como referência do momento em que a língua portuguesa colapsou no Brasil, ali pelo início do século 21 (alguns estudiosos discordarão, dizendo que isso ocorreu quando se começou a usar o verbo “colapsar”).

Bem mais sábio que Fidel é o Nelson Motta, que escreveu que tudo que se vê não é igual ao que a gente viu há um segundo. Não adianta fugir nem mentir pra si mesmo: o futuro existirá só para nos condenar.

 

 

White people problems

WPP

“White people problems” são os problemas dos outros – não importa a cor da pele.

Um preto que reclame que bateu o carro está tendo “white people problems”, porque pobrema mermo é pegá duas condução pra chegar no trabalho.

O que, por sua vez, é “white people problem” pra quem teve que fazer baldeação na Central vindo de trem do ramal Japeri, e vai a pé até a Praça 15 pegar a barca pra tentar arrumar emprego em São Gonçalo.

Qualquer perrengue que a gente conte no FB é “white people problem” (doravante chamado apenas de WPP) para alguém que teve um perrengue ainda maior. Ou menos divertido.

Meu WPP de hoje foi um exame de risco cirúrgico. Um dos exames, porque é uma bateria, cada um feito num lugar diferente – WPP dos bons, já que o plano cobre (de má vontade, mas cobre), e problema mesmo seria ir para a fila do SUS.

7h30 da manhã no Arpoador, depois de engarrafamento em São Conrado (WPP dos brabos!).

– Bom dia, tenho um eletro agendado para agora, 7h30 (era para chegar meia hora antes, mas não deu).

– Seu nome?

– Sidney Affonso (tenho que usar o primeiro nome, fazer o quê?)

– A médica não veio.

– Então está cancelado o exame? (levantei às 5h30, tomei café no galope, saí sem escovar os dentes, peguei engarrafamento e ninguém manda nem um zap pra avisar que a médica não apareceu? Bom, problema mesmo seria ter passado a noite em claro, o pó de café ter acabado, não ter dentes e o celular estar sem crédito até para receber zap).

– É.

– Não tem outra médica?

– Vou ver.

Consulta o terminal, disca para alguns ramais que não atendem, por fim se levanta e vai ver pessoalmente.

– Não, é só ela que faz eco.

– Mas eu não vim fazer eco. Vim fazer eletro.

– O senhor falou eco.

– Não, eu falei eletro.

– Falou eco, sim, sr. Sílvio!

(Respiro fundo. Mentalizo um palavrão. Na verdade, uma expressão envolvendo uma prestadora de serviços sexuais remunerados que deu à luz. Expiro.)

– Eu não me chamo Silvio, e não vim fazer um eco. Vamos começar tudo de novo. Bom dia. Meu nome é Sidney, e eu vim fazer um eletro. (O eletro não vai prestar, porque, apesar de eu falar pau sa da men te, o coração está acelerado).

Ela consulta o terminal, e está lá o Sidney e o agendamento do eletro.

– Ok, a carteirinha do convênio, a identidade e a requisição do médico, por favor. (Pelo tom de voz, e pela dureza do “por favor”, ela ainda tem certeza de que eu disse que era Silvio e queria fazer um eco).

Entrego a requisição – e é a de outro exame, para outro dia, em outra clínica.

Pelo menos estava uma manhã linda no Arpoador. E, mesmo sem ter direito, passei na recepção e filei um capuccino com bolo de chocolate.

 

Gênesis revisitado

Genesis

No princípio criou Deus o céu e as terras (uma esférica e uma plana – esta última, para ser usada até o século 6 a.C e depois só no século 21).

E disse Deus: Haja luz; e houve luz.
Deus viu que era boa a luz e instituiu as bandeiras tarifárias verde, amarela e vermelha.

Então Deus separou a luz das trevas – instituindo o divórcio – e as águas das terras secas – as águas, que deviam ter o melhor advogado, ficaram com 75% de tudo. Criou as espécies vegetais e animais, e as estrelas do firmamento.

Tudo isso em 5 dias, sem hora-extra.

E então no sexto dia criou Deus o ser humano à sua imagem; homem e mulher os criou.

Preparava-se para descansar no sábado quando viu que tinham ficado faltando os transgêneros.

E os FTM (Feminino para Masculino)

E as MTF (Masculino para Feminino)

Então, ao sétimo dia os criou.

No oitavo dia, se deu conta de que tinha esquecido os intergênero.

E o andrógino.

E o agênero.

E o terceiro gênero.

E os não binários.

O descanso ficou para o nono dia, quando, ao acordar, percebeu que Sua obra permanecia inconclusa.

E criou o pangênero.

E o epiceno.

E o travesti e a travesti.

E o crossdresser.

Deu os trâmites por findos, mas ao décimo dia Lhe ocorreu que precisava esquematizar melhor a coisa.

Definiu que haveria o sexo biológico (masculino, feminino e intersexo), a expressão de gênero (homem, mulher e não binário), a identidade de gênero (cisgênero e transgênero) e a orientação sexual (heterossexual, homossexual, bissexual, pansexual e assexual).

Ao décimo primeiro dia, percebeu que isso funcionava bem na teoria, com a combinação, permutação e arranjo de sexo biológico, expressão de gênero, identidade de gênero e orientação sexual dando origem a um número elevado, porém finito, de possibilidades.

Mas havia os genderfluid, que transitavam pelos gêneros ao sabor do momento.

E os genderqueer, que não são nem 100% homens, nem 100% mulheres e que agem contra as normas de gênero.

E as drag queens, que não necessariamente eram travestis nem crossdressers. E, se bobear, nem mesmo gays.

E as transformistas, que eram as drag queens que apareciam no programa do Silvio Santos antes de as drag queens serem inventadas.

Então, ao décimo segundo dia Deus concluiu de que era questão de tempo para aparecerem os metrossexuais, os incels, as fisiculturistas, os estudantes de Ciências Sociais, as neopentecostais de saia jeans na altura da canela, as bandas de pop coreano, os bi curiosos, as agentes da Imigração americana, os narcisistas, as feministas radicais, os fiscais da sexualidade alheia, as nadadoras da finada Alemanha Oriental, a Laerte e o Marco Feliciano.

Deus lavou as mãos e foi criar um universo paralelo.

Ele não, ele sim

Ele nao 3

Lúcia Helena e Regina Célia se cansaram da vida de solteira. E dos bares de solteiros. Dos bingos, antes mesmo que fechassem. Das aulas de dança de salão, onde tinham que fazer par uma com a outra. Das peças de teatro infantil, já que o cerco aos homens divorciados passando o fim de semana com os filhos era ferrenho. Acabaram no Tinder.  Gêmeas, houveram por bem fazer um perfil só.

– Botaí, Celinha: homem, entre 40 e 50 anos, até 10 km de distância pra gente poder ir de táxi.

– Não é melhor colocar logo até 60? A gente já tá com 65…

– Nossa idade não precisa aparecer.

– Precisa, menina, taqui no cadastro.

– Então muda o cadastro!

– Não pode, é o do feicebuque.

– Muda no feicebuque, ora!

– Pronto, já estamos com 42. Dependendo da foto que a gente escolher, 42 passa, né?

– Bota aquela de quando a gente tinha 35. Aquela em Araxá.

– Aquela com o Maverick do papai ao fundo? Acho que vão desconfiar. Essa aqui no Píer de Ipanema está melhor.

– Essa tá ótima. Mas corta a Estela Maris, ali no canto, que ela está com o Evandro Mesquita no colo. Ela era babá dele, lembra?

Estela Maris era a irmã caçula, já casada.

– Como agora aparecemos mais jovenzinhas, deixa eu mudar a configuração: homem, entre 30 e, vá lá, 60 anos, até 20 km de distância, porque aí pega toda a Zona Sul, e a gente pode ir de 99.  Pronto. Agora é só começar a deslizar.

– Olha esse, que simpático. Arlindo. 55. Bairro Peixoto, pertinho.

– Essa camisa polo pra dentro da bermuda rosa. Aquele forrinho de crochê na diagonal em cima do aparador. O gato angorá lá atrás.  Desliza pra esquerda. Ele não.

– Ok. Ó, Eurico, 42, mora em Niterói, professor, #democracia #resistencia  #vazajato #familicia #cadeoqueiroz Me chama pra um litrão,

– Litrão? O quê que é isso?

– Pode ser uma dessas práticas sexuais modernas, tipo mind setting e golden shower. Sei não.

– Tirando a barba, o coque e esse cigarro estranho na mão, até que ele, sim. Vou deslizar pra direita.

– Melhor não arriscar. Olha a camiseta das FARC e a tatuagem do Maduro. Desliza pra esquerda. Ele não.

– Tá bom. Elizeu, 57, empresário romântico pisciano amante de um bom vinho e afim de compromisso.

– Afim, assim, tudo junto?  E Pisciano?

– Nem vem, que você também não sabia que “paralisar” era com S, e nós duas somos de Peixes, qual o problema?

– Ser de Peixes é uma coisa, mas botar “pisciano”, e com esse cabelo cor de cutia? Aposto que mora com a mãe e mente a idade.  E eu não confio em homem que fala “um bom vinho”, como se alguém gostasse de vinho ruim. Desliza pra esquerda. Ele não.

– Mais um. Kawan, 18, gamer, nerd, 46 km de distância.  Sugar baby.

– Quem pediu isso? Essa idade? Essa distância?

– Ninguém. Apareceu aqui. Mas não é de se jogar fora.

– Tá maluca, Celinha? O menino podia ser seu neto! E essas asinhas de anjo? E esse focinho de cachorro? Pela distância deve ser depois de Realengo.

– Vai que dá match, Lúcia Helena. E a gente gosta da mesma música.

– Como é que você sabe?

– Tá aqui: Sugar baby. Um garoto de 18 anos que conhece hits dos anos 70!

– Celinha, você também achou que fosse de eletricistas aquela comunidade do Orkut “Homens que gostam de fio terra”.  E de marceneiros a comunidade “Pé de mesa”.  E de delegados de polícia a “Adoro uma DP”. Foram 6 meses para se recuperar de cada encontro com o pessoal dessas comunidades.

– Deu match, Lúcia Helena! Deu match!

– Você que sabe. Eu ainda acho que é roubada deslizar pra direita nesses casos. É um tiro no escuro.

– Isso é inveja sua. Vou tomar um banho e enquanto isso vá chamando o Uber. “Sugar baby love ♫, sugar baby love ♫, I didn’t mean to make you blue ♫.”

– Ok, mas depois não diz que eu não avisei, porque na volta, se for tarifa dinâmica, você tá lascada.

Sequestrando a narrativa

sequestro

O governador Marcelo Freixo chegou por volta das 9h à Ponte Rio-Niterói, a bordo de um veleiro movido a energia solar – que demorou mais que o previsto porque o dia estava nublado e sem vento. Sua assessoria divulgou que o deslocamento gerou crédito de carbono.

Mais cedo, a Light (agora incorporada à Secretaria de Segurança Pública) havia espalhado postes por toda a Ponte, para evitar novos sequestros.

Agentes se posicionaram em pontos estratégicos com livros de filosofia e história. Como os atiradores de elite foram dispensados no início do governo, seus substitutos, os atiradores das classes marginalizadas, acabaram acionados para a eventualidade de uma ação mais delicada, sendo municiados com teses da UFF sobre ideologia de gênero e surubas em banheiros públicos de supermercados.

Uma ciranda foi organizada em torno do ônibus, com todas, todos e todes de mãos dadas e pés descalços, cantando “Imagine”, abraçando o coletivo e pedindo Lula Livre e soltando pombas brancas.

Uma deputada do PSOL sugeriu que o sequestrador não usasse gasolina, mas etanol, que é mais sustentável, e que os reféns não tivessem as mãos atadas com lacres sintéticos, levam séculos para se degradar e podem poluir os oceanos com microplásticos. Em troca, ofereceu cordas de fibra de cânhamo produzidas artesanalmente numa comunidade da Praça São Salvador.

Numa plenária, realizada na praça do pedágio, os comitês de Cidadania, Historicidade, Horizontalidade de Gestão, Inclusão Trans e Anticanabisfobia deliberou que as ações de resgate, se necessárias, deveriam ser pautadas pelas diretrizes de gênero, etnicidade, empoderamento lésbico (com ênfase na não performação da feminilidade) e participação em ovulários de sororidade e encontros de detox da masculinidade.

Um comitê elaborou uma pesquisa (patrocinada pela Capes) para definição da escala pantone dos cidadãos em situação de ônibus e do marginalizado em situação de máscara e garrafas pet supostamente inflamáveis. Esse estudo permitiria fornecer subsídios à equipe de negociadores para determinação da prioridade daquilo que a extrema imprensa burguesa insistia em chamar de “libertação de reféns”.

Foram feitas propostas de que os veganos deveriam deixar a condição de ônbus para a condição de ponte antes dos demais, gerando intenso debate com os que lembravam que o pagamento da dívida histórica com os afrodescendentes deveria ter precedência. Trabalhadores em situação de informalidade, mulheres oprimidas pelos padrões estéticos da sociedade e pela balança, e minorias sexuais também foram pontuadas, até que o próprio governador lembrou que a verdadeira vítima era o afrodescendente portador de máscara, que se levantara às 5 da manhã, possivelmente sem um desjejum como aquele do Copacabana Palace que ele mesmo havia acabado de tomar.

Foi organizado no vão central um show de solidariedade à vítima da sociedade branca opressora que mantinha o controle do ônibus, com participação de Zélia Duncan, Maria Gadú, Anavitória, Tico Santa Cruz, apresentação de Tatá Werneck e Bruno Gagliasso, e performances das axilas de Bruna Linzmayer, com fundos revertidos para a ONG SVS (Sequestradores Vítimas da Sociedade) e transmissão ao vivo pela GloboNews.

Após 14 horas de negociação, com fornecimento de quentinhas veganas ao sequestrador, entrevistas exclusivas à Mônica Bérgamo e à Carta Capital, os cidadãos reclusos no coletivo se amotinaram, tomaram a chave, deram um cavalo de pau e retornaram a São Gonçalo, sob saraivadas de livros da Márcia Tiburi, Foucault, Boff, Gramsci, Nina Lemos, Althusser, Judith Butler, Bagno, Habermas, Chauí, Sartre e Kéfera.

Um dos líderes do motim a bordo declarou pelo zap que ninguém aguentava mais ouvir o Programa da Fátima Bernardes (no ar das 7 da manhã às 7 da noite na tevê de bordo) e que, por unanimidade, preferiam se jogar no mar. Antes de despencar pela mureta, libertaram o sequestrador – que foi recebido com soquinhos no ar pelo Governador Freixo e convidado a jantar no Fasano.

A direita problematizou a comemoração do governador e achou falta de decoro os soquinhos no ar. Em Nota Oficial, o Palácio Guanabara declarou que a missão foi um sucesso, com o salvamento do sequestrador e que manda condolências à empresa que perdeu um ônibus.

Newspeak

gratidao

A epidemia de “gratidão” ainda não passou – e o gráfico do Google Trends prova isso.
É o Newspeak – a Novilíngua – em ação.

Mas, se é pra fazer, vamos fazer direito.

Se trocou o “Obrigado” por “Gratidão”, tem que mudar o “De nada” para Por tudo”.

E, de agora em diante, nada de “Por favor”.
“Favor” pode ser um proveito, uma vantagem.
Prostitutas prestam favores sexuais. Políticos trocam favores.
Usemos “Por gentileza”, que é mais gentil.

Esqueçamos o “Com licença”.
“Licença” lembra licenciamento de veículo no Detran, licença médica, licença ambiental.
007 tinha licença para matar.
Licença é uma permissão (que lembra permissividade), uma autorização (que lembra autoritarismo).
Doravante, por um mundo melhor, pediremos “Com consentimento”, que é uma expressão com … sentimento.

Sim, há sentimentos ruins. Mas, neste caso, mentalize sentimentos bons, e pronto.

“Desculpe” traz embutida a palavra “culpa”.
Esqueça.
Peça “Perdão”.

“Que pena!” tem um subtexto de penalidade, de penitência.
Diga “Compaixão”.

“Ô dó!” tem algo de dor.
Dá um pouco mais de trabalho, mas opte por “Sinto-me consternado(a)”.

“Lamento muito” parece lamúria. Se um abraço ou um tapinha nas costas não resolverem, faça um coraçãozinho com a mão, expressando ternura.

“Adeus”, nunca mais.
É ofensivo aos ateus e discrimina os politeístas, para quem teria que ser dito “adeuses”.
Ofende também os cristãos, ao invocar um santo nome em vão.
“Até” tá de bom tamanho. E não dá aquela impressão de que a separação seja para sempre.

Chega de expressões negativas!
“Como tem passado?” evoca o que já passou, e o que importa é o futuro.
“E aí, chefia?” traz implícita uma inferioridade hierárquica, uma normalização das relações de poder.
“Sempre às ordens”, então, nem se fala.

“Nos vemos qualquer hora dessas” agride os portadores de deficiência visual.
“Sou todo ouvidos”, os deficientes auditivos.
“Que tudo corra bem”, os com mobilidade reduzida.
“E aí, beleza?”, os que não atendem as expectativas estéticas da sociedade.
“E aí, tranquilo?”, os dependentes de gardenal.
“Muito prazer”, as frígidas.
“A gente se esbarra”, os estabanados.

Nesses casos, é melhor não falar nada.
Sorria – sem mostrar os dentes. E saia de fininho, mas com a certeza de ter transformado o mundo à sua volta num lugar melhor.