Dialetos

– Amiga, cansei de sororidade.

– Eu também. Desapeguei.

– Ficou tão quarta-feira passada…

– Nem me fale. Quando comecei a usar, ninguém usava. Agora…

– Daqui a pouco está sendo usada até em novela bíblica da Record.

– Junto com empoderamento. Lembra do pré-lançamento?

– Lindo. Só para convidadas. Evento VIP, garçons étnicos, música autossustentável. Depois…

– Depois virou arroz de festa, que nem empatia.

– Comigo foi saberes.

– Você foi no lançamento de saberes?

– Fui, menina! Usei saberes quando só aparecia em tese de Humanas.

– Que luxo! Quando saberes chegou, eu já estava na fase da objetificação e achei que não ia combinar.

Objetificação tem que ter muito critério, ou fica over.

– Acho que cai bem com cultura do estupro e micromachismo, e olhe lá.

– Super cai bem!  E olha que micromachismo não é pra qualquer uma.

– Não mesmo. Tem que saber dosar. Tipo gaslighting.

Gasligting era tudo, né? Uma coisa de louco!

– Mas sabe que eu era mais o combo mansplaining, manspreading e manterrupting? Porque tinha uma leitura, dialogavam.

– Diferente de patriarcado e androcentrismo

– Totalmente. Androcentrismo pede, sei lá, uma atitude com mais conceito.

– Bem na vaibe da misoginia e do feminicídio.

– Isso. Se bem que eu fique mais à vontade na disparidade de gênero, sabe como? Uma coisa light, cool, fim de tarde, apperol.  Nessa linha.

– E qual é a tendência para hoje? Fiquei vendo laive da Katy Perry até de madrugada, acordei tarde e nem tive tempo de me atualizar.

Interseccionalidade.

– Jura? Amei!

– E dá pra usar com tudo.

– Amiga, só vou tirar essa máscara de avocado orgânico e começar a interseccionalizar agora mesmo.

– Mas interseccionaliza logo, porque acabei de ver que já estão usando no UOL. E quando isso acontece, já sabe, né?

– Sim. Daqui a pouco vira gratiluz.

– Vai lá. Beijo no coração, amiga! Gratiluz!

Gratiluz, amada!

Implicância

Cuidado com as suas implicâncias. Lenta e inexoravelmente, elas irão tomar conta de você e se tornar obsessões.

Minha mãe sempre implicou com edifícios sobre pilotis. Criada em casa de chão de terra batida, não sentia firmeza nas construções empoleiradas naquelas perninhas finas.  Resmungava cada vez que via um prédio desses – ou seja, resmungava sempre que ia à rua. 

Com a idade – e o Alzheimer – as vigas e pilares das construções nas encostas (trem mais comum em Minas que que chamar as coisas de trem) se tornaram uma ideia fixa. Um incômodo palpável. Era preciso distraí-la (“Olha que cor horrorosa aquela casa!”) sempre que seu olho se sentia atraído pelos monstrengos em pernas de pau encarapitados em cada aclive, declive, murundu ou pirambeira. Porque minha mãe também implicava com as cores das casas, mas os roxos, laranjas, vermelhões e verdes bandeira não eram páreo para as construções levantadas do chão.

Desde então venho pensando: qual será o meu piloti quando eu ficar velho (mais velho) e chato (mais chato)?

Tenho vários candidatos.

Os vícios de linguagem são os mais óbvios. São eles que me impedem de assistir à programação da CNN, porque minha cota diária de tolerância a barbarismos se esgota em cerca de 60 segundos.

Também tem a franja. Eu entendo a sombra verde, os óculos com correntinha, a sobrancelha imitando a logo da Nike, o pírcim no lábio – mas franja está além da minha compreensão.

Implico com gente falando alto ao celular em local público. Implico com gente falando alto. Ultimamente, dei para implicar com gente, mesmo calada, em local público – mas isso vai passar com a pandemia.

Implico com as rimas dos louvores evangélicos, sempre na base do luz / cruz / Jesus e glória / história / vitória. Tudo bem que não dê pra enfiar cuscuz, avestruz e arcabuz, nem rescisória, inflamatória e vibratória.  Mas no campo semântico de um louvor não há de faltar oportunidade para falar em belzebus e em nota promissória.

Implico com tatuagem. Com sotaque carioca em filme dublado. Com cachorro usando roupa. Com barba desenhada. Com locutor de supermercado.

Mas, correndo por fora e com grandes chances de chegar ao pódio, está a ombreira.

O que leva um ser humano do gênero macho a inflar artificialmente os ombros e ficar parecendo um jogador de futebol americano que botou um terno por cima do shoulder pad?

O Merval Pereira conta que, num voo, sentou-se ao seu lado um sujeito espaçoso, cheio de correntes de ouro e que não largava o celular, ignorando os pedidos da aeromoça para que desligasse o aparelho. Era o Wassef. Suponho que estivesse com o cabelo emplastado. E, possivelmente, com suas inseparáveis ombreiras – que o Merval não menciona, mas que não me escapariam.

A ombreira é o viagra do paletó.
A ombreira define o homem.
Diz-me se usas ombreira e eu te direi quem és.

Eu não reparo no cabelo do Guga Chacra. No olho de gatinha da Renata Vasconcelos. Na franja da Nina Lemos. Nunca reparei na peruca do Chico Xavier, nos anéis do Walter Mercado, no nariz do Juca Chaves, na boca da Cleo Pires, no busto (digamos assim) da Inês Brasil, no pescoço rabiscado do Fogaça.

A suposta participação do Wassef numa seita satânica pode dizer alguma coisa do seu caráter. Mas as ombreiras dizem tudo.

Transportadores e transportadoras

J.K.Rowling, a autora de Harry Potter, não sai por aí procurando encrenca. Em geral as encrencas é que vão ao encontro dela.

Ela está sendo acusada de transfobia por achar que um artigo intitulado “Criando um mundo mais igualitário pós-Covid-19 para pessoas que menstruam”, poderia ter sido chamado simplesmente de “Criando um mundo mais igualitário pós-Covid-19 para as mulheres”.

Rowling pode entender muito de animais fantásticos – e até saber onde habitam – mas ainda é do tempo em que menstruação era coisa de mulher.

Hoje há homens que menstruam, mulheres que ejaculam. Mulheres com disfunção erétil, homens com cisto no ovário. Homens que engravidam e amamentam; mulheres que fazem espermograma. E Rowling não se atualizou. Logo, é uma transfóbica, um daqueles seres abomináveis que ainda acreditam em sexo biológico. Praticamente um Voldemort de saias. Ops, a expressão “Voldemort de saias” pode ser transfóbica, porque associa o gênero feminino a saias, e tanto mulheres quanto homens quanto pessoas que menstruam quanto pessoas que ejaculam podem usar saias, calças, bermudas, o que bem entenderem, sem que isso defina seu sexo, seu gênero, sua orientação ou, no caso dos genderfluid, sua vaibe no momento.

Talvez os formulários retrógrados e transfóbicos em que a gente bota um X em F ou M devam ser modificados. Teremos PQM (Pessoa Que Menstrua) e PQE (Pessoa Que Ejacula).

Mas mulheres também ejaculam (dizem; eu mesmo nunca vi). E depois da menopausa não menstruam mais, assim como não menstruavam antes da menarca. Sem contar as pessoas que não menstruam porque fizeram um implante subcutâneo para não menstruar. PQM é um termo muito impreciso.

Que tal PPV (Pessoa Portadora de Vagina) e PPT (Pessoa Portadora de Testículo)? Não é mais inclusivo?

Claro que vamos precisar de um tempo para nos acostumar a ouvir a Renata Vasconcelos anunciar no Jornal Nacional que José Dirceu, pessoa portadora de testículo forte do governo Lula, declarou que uma chapa Rui Costa e Flávio Dino seria imbatível na disputa pelo governo federal em 2022.

Ou, na cerimônia à beira-mar, noivos e convidados de bermudas brancas e pés no chão, o padre Fábio de Mello perguntar:

– Brunnynho, aceita esta pessoa portadora de vagina, Camylla, como sua legítima esposa?

(Na fila dos padrinhos, Fellype, murmurará, de si para si: “E que vagina!”).

– Camylla, aceita esta pessoa portadora de testículos, Brunnynho, como seu legítimo esposo?

(De mãos dadas com Fellype, na fila das madrinhas, Victhorya suspirará: “E que testículos!”).

Para não sermos transfóbicos como Mrs. Rowling, que insiste na velha dicotomia “homem e mulher”, temos que fazer nossa parte e contribuir para o fim da invisibilidade trans. Porque não basta dizer homem trans e mulher trans. A palavra “mulher” é extremamente ofensiva; a palavra “homem”, nem se fala.

Resta a dúvida se devemos dizer “Pessoa Portadora de Testículo, Epidídimo, Ducto Deferente e Ejaculatório, Uretra e Glândulas Seminais Trans” (PPTTEDDEUGST) ou “Pessoa Trans Portadora de Testículo, Epidídimo, Ducto Deferente e Ejaculatório, Uretra e Glândulas Seminais” (PTPTEDDEUGS).  E “Pessoa Portadora De Lábios Menores, Lábios Maiores, Clitóris, Ovários, Tuba Uterina, Útero e Vagina Trans” (PPLMLMCOTUUVT) ou “Pessoa Trans Portadora de Lábios Menores, Lábios Maiores, Clitóris, Ovários, Tuba Uterina, Útero e Vagina” (PTPLMLMCOTUUV).


No próximo Harry Potter, em que finalmente Harry e Hermione assumem o relacionamento, havemos de ter diálogos assim:

– Harry, você é a PPTEDDEUGST da minha vida…
– Você disse PPT ou PTP, Hermione?
– PPT, Harry. T de testículo, não de trans. Não vá me dizer que…
– Não, Hermmy, é que no GST eu já não me lembrava mais do começo da sigla. E você é a PPLMLMCOTUUV mais mágica que já conheci.
– Own, Harry… Vamos colocar logo essa varinha de condão para funcionar!
– “Varinha”, Hermione? Você tem sempre que lembrar disso?
– Harry, não começa essa problematização de novo, por favor.
– Tá bom. Vamos apostar corrida de vassoura até aquela nuvem, e fazer amor ao luar?
– Own, Harry… vamos! E o último que chegar é PPLMLMCOTUUV do padre!

[Disclêimer 1: Nenhum transportador ou transportadora de qualquer sistema genital foi ferido na redação deste texto.]

[Disclêimer 2: Aos que forem compartilhar este texto em páginas de grupos democráticos (i.e, sem senso de humor e adeptos do pensamento único), com o fito de descer o pau no autor pelas costas, recomenda-se discrição, porque ainda não consegui sair de todos esses grupos e posso ter acesso aos comentários e, como sempre acontece nesses casos, ter também um acesso de riso em locais onde rir do risível é crime inafiançável).

Novo normal

Sabe quando você acorda depois de quase três meses em coma e percebe que o mundo está diferente? Nem eu nem você devemos saber, porque possivelmente não passamos por essa experiência, mas dá para imaginar, não dá?

Pois passei por isso na sexta-feira, quando fui a Nova Iguaçu, a trabalho.

Sou arquiteto, e arquiteto tem que ir aonde o terreno está. Como o terreno de um possível novo projeto estava em Nova Iguaçu, lá fui eu.

Tudo parecia do jeito que sempre foi.
Américas, Ayrton Senna, Abelardo Bueno e Transolímpica com tráfego intenso.
Avenida Brasil engarrafada.
Dutra com aquele trânsito pesado de sempre.

Nova Iguaçu de ruas lotadas.
Filas nas portas de bancos.
A mega-sena devia estar acumulada, porque havia aglomerações na frente de todas as lotéricas.
E também em todas as calçadas, em todos os sinais.

Tudo aparentemente normal, mas senti certa estranheza, e por uma coisa banal.

Pode ser uma nova moda, uma brincadeira tipo Pokemon, uma festividade local, mas… por que algumas pessoas, aqui e ali, usavam máscaras?
Não aquelas de Carnaval, cobrindo os olhos, mas coloridas, ora cobrindo só a boca, ora o queixo, ora pendurada na orelha.

Não deu para fazer uma estimativa confiável (eu estava dirigindo, tinha que me desviar dos pedestres, dos carros que entravam na preferencial, até de uma charrete), mas diria que cerca de 40% da pessoas usavam algo imitando máscaras, ou coisa que o valha.

Como podia ser alguma prescrição religiosa – e por acaso havia uma máscara no meu carro -, coloquei-a também.

Meus clientes não usavam máscara nenhuma. Me apertaram a mão efusivamente, o que também me deu uma sensação esquisita (nos quase três meses em coma metafórica, tive a impressão de não ter apertado a mão de ninguém, nem falado com ninguém a tão curta distância).

A experiência de ver aqui e acolá uma pessoa com um pano colorido na cara – ou no queixo, ou na orelha – me causou certo desassossego.

O resto estava normal.

Estranha e absolutamente normal.

Transição

Não estou cabeludo nem desgrenhado. Estou em transição capilar.

Uma transição entre sapiens e o neandertal, entre o apresentável e o melhor fazer de conta que não viu.

Sabe aquelas camadas geológicas através das quais os cientistas descobrem (ou inventam) quando ocorreu determinado evento? Pois está assim: dá pra ver exatamente a data do início do confinamento. Se o cientista for de Harvard, não de Rárvarde, é possível saber até a hora.

O cabelo vem liso, reto, de boa, até a altura da orelha – que é onde estava em março de 2020.  Nesse ponto, baixa um erê, sobe uma coisa esquisita e ele perde a linha.

Lembra da noviça voadora, uma que usava chapéu de aba, e levantava voo do Convento de San Tanco? Estou que nem. Só que com a ponta da aba para cima, feito as winglets dos aviões (não vou escrever uinguilete ou nem eu entenderia). Se bater um sudoeste, eu decolo.

Acontece a mesma coisa na nuca. O cabelo (pouco, mas meu) desce em ordem unida a partir da clareira do cocuruto. Um pouco antes da altura do lóbulo, é como se o chefe do pelotão gritasse “Pelotão, disper-SAR!” e dispara cada um pra um lado, fazendo cacho, pirueta, voluta, espiral, helicoidal, redemoinho. O que era uma disciplina militar vira quartelada, baderna na caserna, motim, sublevação.  Em vez do estilo Príncipe Danilo da minha infância, o corte agora é do tipo de daria corte marcial.

A barba, por sua vez, está em transição entre indivíduo em situação de rua para náufrago. Numa laive, supostos amigos sugeriram que eu conseguiria bom faturamento atuando no segmento da mendicância. Mas a intenção é fazer ho-ho-ho nos shoppings – se eles reabrirem até o Natal.

As sobrancelhas lançam gavinhas sobre as pálpebras, levando o fantasma de Leonel Brizola a me assombrar cada vez que me vejo no espelho. Mais uma semana e será Darcy Ribeiro em pessoa quem arregalará os olhos para mim toda manhã, na hora em que eu entrar no banheiro.

Das orelhas, nem falo nada, ou vão descobrir que reassumi, a contragosto, minha porção chupacabra.  

Se me perguntarem qual a primeira coisa que quero fazer quando a vida real for retomada, não será sexo, praia, livraria, chope, nada disso, mas depenar a orelha.

Sei que vai ter fila, senha, briga na porta da clínica de depilação. Que mulheres vão argumentar, aos gritos, que orelha não é parte da anatomia voltada para serviços essenciais. Mas estarei lá, acampado, esperando o momento de minha orelha poder retornar ao convívio social.

Na próxima pandemia,  tenho que me lembrar: esquece o álcool gel e o papel higiênico, e foca na cera quente.

Sufixos

A língua brasileira é paupérrima em sufixos.

Os portugueses, sim, têm um monte deles. Por isso conseguem criar, com o sufixo “ano”, a partir da palavra Itália, a palavra italiano. A partir de Índia, indiano. De Coreia, coreano. De Alentejo, alentejano.  

Têm o sufixo “ense”, que faz belenense, belmontense, catarinense, maranhense.

Têm o “ês”, que formou português, francês, inglês, galês, chinês.

O “ão”, que lhes deu bretão, alemão, afegão, catalão, parmesão – e aldeão, vilão, cidadão.

Têm o “eta” de lisboeta.

O “ita” de vietnamita, moscovita.

O “oto” do minhoto.

O “ino” de latino, londrino, bizantino, nova iorquino.

O “ista” de sulista, nortista, paulista.

O “enho”, que dá panamenho, hondurenho, porto-riquenho.

Têm até o “eiro”, que é de formar profissão, mas serve para brasileiro, mineiro, campineiro.

Nós, falantes da língua brasileira, não dispomos desses recursos e temos que importar – com o dólar no patamar em que está! – um sufixo estrangeiro, o “er”.

Tudo começou em São Paulo, com os “farialimers”, os mauricinhos do condado da Faria Lima. Realmente, ficava mal chamar aqueles uorcarróliques, consumistas, fechionistas, conservadores e endinheirados de farialimeiros, fariamanos, farialimenses ou farialimões.

A coisa desandou quando se percebeu que os alternativos, bichos grilos, progressistas e mais quebrados que arroz de terceira de Santa Cecília eram os “santacecíliers”, e não santacelistas, santacecilenhos ou santacecilhotos.

Urge colocar uma barreira sanitária em Queluz para impedir que isso se propague até o Rio de Janeiro – antes que a garota de Ipanema vire uma carióquer, que o camelô da Saens Peña se torne um tijúquer e eu, aqui na Barra, me veja transfigurado num emergênter.

Teríamos os farmedeamoêders desfilando com suas bermudas de bainha dobrada e camisas floridas, os diasferrêirers pagando por um sushi o valor de um Gol 1.6, os lápers tomando litrão e corote com seus vestidos mariamijona e camisetas de Che Guevara. Os jardimpernambúquers, os altoleblôners e os baixogávers lançando tendências logo copiadas pelos sãocristóvers, vilaisabélers, bangúers, realênguers, cascadúrers e mesmo meritíers e belforrôxers.

Na política, agora temos os quarentêners, que, feito gases nobres, não se misturam, e os adeptos da C18H26ClN3, também conhecidos como cloroquiners.

Se a moda tivesse chegado antes, teríamos tido coxínhers e mortadélers – muito mais finos e requintados que os dessufixados coxinhas e mortadelas.

Pensando bem, a culpa não é dos rípsters paulísters, porque em 2016, ainda que não tivéssemos os ególpers, já tínhamos os foratêmers.

Porque ontem foi sábado

Lembram quando diziam que sábado era dia de tomar banho? Pois sábado agora é dia de tomar banho mesmo. Aquele de corpo e alma, de lavar atrás da orelha, esfregar com bucha e sabonete onde quer que haja pele, e não só “nas partes”, e deixar a água levar a espuma e o cansaço. Sem desperdício, mas com fartura. Até porque sábado também é dia de dar banho nos cachorros e haja água para limpar tanto pelo.

Cada sábado tenho faxinado um canto da casa. Depois, encharcado do suor da faxina, vem o tal banho purificador.

Houve o sábado do armário da cozinha. Tirei tudo, lavei tudo, passei álcool em todas as prateleiras. Canecas que não viam a luz do dia há muitos anos esfregavam os olhinhos com as asas, atônitas com a luminosidade deste maio sem poluição. Revi louça que julgava desencarnada há tempos, xicrinhas de quando eu tomava café em doses não letais, cumbucas do tempo em que cumbuca ainda não tinha virado bowl. Uma coleção de copinhos de vodca – e eu não bebo vodca, então deve ser herança de algum casamento que não deixou nem ressaca.

Descobri que todos os meus potes têm tampa e todas as minhas tampas têm pote. Faltava apenas fazer a audiência de conciliação.

Foi nesse sábado que resolvi deixar de fora apenas um casal de cada talher, um prato raso e um fundo, duas panelas (a inofensiva e a de pressão), duas frigideiras (na esperança de uma hora dessas aprender a fazer banana frita), o saca-rolha e um artefato de vidro de socar limão para caipirinha (tirando o ferro elétrico, ninguém é de ferro). (Aliás nem o ferro elétrico é de ferro: o meu é 90% de plástico).

No sábado de arrumar o guarda-roupa, reencontrei o ferro elétrico. O tempo para ele não passa: continua o mesmo de quando nos vimos pela última vez, há cerca de um ano. Ou dois, não sei.

Apesar de ter saído de casa aos 15 anos para morar sozinho, quase meio século depois eu ainda dependo de alguém para passar minha roupa. Quer dizer, dependia. Não dependo mais. Agora ando de roupa amarrotada, com a maior desenvoltura.

Separei as camisas, bermudas, meias e cuecas de que preciso e me dei conta de que meu guarda-roupa poderia ser do tamanho de uma caixa de sapato. Gandhi precisava de mais roupa que eu. A propósito da caixa de sapato, limpei os sapatos e me peguei pensando nas coisas estranhas que fizemos juntos, como ir a livrarias, a reuniões de trabalho, a restaurantes… Não rolou nenhuma furtiva lágrima, mas quase.

Houve o sábado do armário do banheiro. Tenho remédio para abastecer os Médicos Sem Fronteiras por um trimestre. Pena que esteja tudo vencido. É que não vendem comprimidos por unidade, mas por caixa, por frasco, de 20, de 30, de 50. E eu paro de tomar tão logo cessem os sintomas. Logo, sempre sobram 10, 20, 40.  Como nunca sei quando vou ter outra virose, outra faringite, outra broncopneumonia (ano passado, foram duas) ou outro início de AVC (já foram três), vou guardando.  Não, não tinha cloroquina, porque o máximo de esoterismo que eu me permito é chá de carqueja e homeopatia.

Ontem limpei atrás da geladeira. Vocês fazem ideia do que tem atrás de uma geladeira? Nuvens de pó. Pelo de cachorro em quantidade suficiente para encher várias almofadas. Moedas, Uma colher. Insetos mumificados. Não foi uma faxina, mas uma expedição arqueológica.

Lá em casa (casa dos meus pais), a geladeira morava na copa e sua retaguarda servia para secar tênis, uniforme, pano de prato. Era um eletrodoméstico móvel e arejado. Aqui não: fica engastado num armário, onde também estão incrustrados o fogão, o micro-ondas, a máquina de lavar. Entrou ali, é pro resto da vida. Ou, pelo menos, até surgir uma pandemia e a gente resolver investigar se a Marleide fazia o serviço direito.

Já houve o sábado da estante da sala e o sábado da varanda. Mais 15 dias de quarentena e vou começar a oferecer meus serviços de personal clíner. O prazer do crosfite doméstico com escova, esponja, álcool 70 e lisoforme, seguido de um banho de alegria, num mundo de água quente, ninguém me tira. Marleide só volta agora se reabilitarem a moda da roupa passada.

Contatinho

Sou uma pessoa que procura se atualizar. Demoro um pouco para entender como funcionam certos aplicativos (ainda não sei salvar laives), mas acho joia aprender novas gírias e estar em dia com o papo firme dessa patota batuta e supimpa de agora.

Para isso, nada melhor que ler as colunas de Comportamento dos portais progressistas. São bem prafrentex e é graças a elas que não pago de boko moko nas questões de sexualidade, por exemplo.

Descobri que tem gente furando a quarentena – e não é para fazer churrasco ou andar de jetisqui, mas para transar. Quem diria, não?

Gente como “Rogério, 35” que, “com o endurecimento do isolamento social em Recife” (no pun intended), “passou a fazer home office, adaptou os treinos de crossfit na sala” e, uma vez por semana “recebe pessoas em casa para transar”. 

Repare que ele não recebe mulheres ou homens – recebe “pessoas”. Uma coisa bem genderfluid, morou? Mas não o faz “sem antes pedir para o convidado tomar um banho” (aí o “pessoas” já ficou só no masculino, mas a vida do “Rogério, 35, do Recife” não é da minha conta – eu que achava que tomar um banho junto, antes, era mais velho que o arco da velha…).

Prossegue a matéria: “Recentemente, até a Anitta entrou no radar, após aparecer com um “contatinho” nos Stories”

Já sei quem é Anitta (a vizinha de cima passou horas, uma noite dessas, gritando “Vai, malandra!”). Sei o que são os “stories” (ainda que não haja o que me faça entender sua serventia). Mas o que será um “contatinho”?

Antes que tenha tempo de investigar, leio que “Enquanto muitos cinemas pornôs e bares de sexo se encontram fechados, nos grupos de internet, praticantes de swing, dogging e uma infinidade de outras modalidades sexuais ainda marcam encontros em segredo”. Bares de sexo? Dogging? Infinidade de outras modalidades sexuais? Me sinto um Estácio de Sá acordando no Aterro do Flamengo depois de uma soneca de 450 anos..

Em seguida, o artigo revela que “o Departamento de Saúde de Nova York orientou os moradores da cidade a abusarem da masturbação e dos brinquedos sexuais”. “Você é o seu parceiro sexual mais seguro”, diz a campanha. Mas isso não causava espinha, olheira, pelo na mão? Não era passaporte carimbado para o inferno? Não havia uma encíclica papal a respeito, e uma penitência de três pais-nossos e quatro ave-marias para quem “levasse lá a mão”?

“Ophélia, 30, furou a quarentena ainda em março. Convidou um “contatinho” com quem estava se relacionando antes da pandemia a passar alguns dias em sua casa. “Porque, se fosse para só vir, transar e logo sair, a gente pensava que seria pouco para se colocar em risco”, explica.

Morei no lance. “Contatinho” deve ser um apideite do peguete. Um caso, um rolo, uma treta. Um lanchinho da madrugada. Um amigo de virilha, um/a P.A., um flerte, um cacho, um afér.

“Por mais que eu tenha trocado nudes com vários caras, é como se não resolvesse a vontade. Na semana passada, por exemplo, eu tava bem na pilha de furar a quarentena para transar, mas como não tinha ninguém disponível — ou não podiam, ou não queriam, ou estavam longe —, acabei não furando mesmo. Chega num ponto em que você até perde o tesão, sabe?”

Sei, Ophelia. Como sei!

Susana, 48, de São Paulo, há dois meses de quarentena, confidencia que “tem vontade de furar o confinamento para fazer sexo”. Ela busca respostas para explicar a vontade: “sensação de poder morrer sem ter aproveitado a vida”, diz.

Fure o confinamento, Susana. Troque nudes e convide o contatinho, Ophélia. Fure a quarentena, Rogério, tendo o cuidado de pedir às “pessoas” para tomar um banho antes. Porque, de uma forma ou de outra, vamos morrer sem ter aproveitado a vida. E o que é um orgasmo senão uma crise respiratória aguda por livre e espontânea vontade, né não?

Pena que a matéria não informe onde a gente descola o contatinho. Se é no Orkut, no ICQ, no MySpace, no Linkedin. Se dá pra escolher o gênero ou tem que estar preparado para o que vier, seja um broto ou um pão, um gato ou uma mina, uma mona ou um bofe. Pode ser que haja alguma pista nos stories da Annita.

Aliás, hoje tem laive dela de novo. Vai que ela não só aparece com o contatinho como ensina o caminho das pedras. Mas sou quadrado e careta demais pra isso. E quando a vizinha de cima – que, pelo jeito, também não tem contatinho nenhum – começar a pular e gritar “Vai, malandra!”, eu boto tampão de cera no ouvido e sussurro pra mim mesmo “vai, mané!”.

Assim, do nada

A teoria da geração espontânea foi abandonada no século 19. Uma pena. Só ela era capaz de explicar certos fenômenos.

Ponha toda a roupa na máquina para lavar. Toda. Esvazie a cesta de roupa suja, cate no chão do banheiro, pegue o que estiver jogado em cima do sofá, da cama, das cadeiras. Passe um pente fino pela casa. Assim que tiver fechado a tampa da máquina e acionado o “Iniciar”, um par de meias brotará de dentro de um pé de sapato.

A comprovação científica da geração espontânea das meias é simples. Instale câmeras sobre todos os pares de sapato e confirme, in loco, que não há meia alguma lá dentro. Dê printe das telas, por garantia. Feche a tampa da máquina, aperte o “Iniciar” e plum!  um par de meias (sujas) surgirá, do nada, num dos sapatos. Ou tênis. Ou crocs. Há registros de ter surgido até dentro de sandálias havaianas – mas só no Paraná, e no inverno.

Lave a louça da pia. A louça que ficou na mesa, depois do almoço. As canecas esquecidas sobre os aparadores. O copo que dorme sobre a mesinha de cabeceira para o caso de você acordar com sede ou de um rivotril só não ter sido suficiente para te fazer pegar no sono. Lavou tudo? Limpou o tampo da pia, deixou tudo brilhando? Um prato (sujo) nascerá, de geração espontânea, em algum lugar da casa. Em cima da máquina de lavar roupa, por exemplo – certamente esquecido no parágrafo anterior, enquanto você se preocupava com as meias.

Como a natureza é sábia, é preciso uma contrapartida para esse surgimento inexorável e irrefreável de meias, cuecas, camisetas, pratos e talheres – todos sujos. É por isso que meias somem (dentro da máquina, de preferência). Que camisetas que você jurava que tinha evaporam das gavetas. E que pratos aparecem trincados, guardadinhos no armário, prontos para ser jogados no lixo. Não, não é culpa da Celeste, que tem mão pesada e costuma ir embora carregando uma sacola de um jeito meio suspeito. É o equilíbrio ecológico, para impedir que o planeta saia da órbita, soterrado por meias usadas e louça suja, geradas espontaneamente.

Problemas, boletos e gente sem noção também surgem do nada. Você dirá que problemas e boletos não são organismos. Ingenuidade sua. Eles têm DNA, ribossomo, mitocôndria, citoplasma. Se reproduzem por partenogênese, por esporulação, brotamento, cissiparidade. (Eu sabia que ainda ia usar esse vocabulário algum dia. Que aquelas milhares de inúteis aulas de Biologia que me roubaram parte da adolescência e do prazer de viver tinham que servir para alguma coisa. Pronto, serviram. Obrigado, d. Sonia.  Obrigado, prof.  Haroldo).

Petistas cuja existência você ignorava brotam na sua página para soltar os cachorros em cima de você a cada postagem sua que blasfeme contra a divindade que eles cultuam.  Bolsomínions que você nunca viu mais gordos desabrocham em comentários iracundos – basta que você ouse desmitificar o seu mito. Os mais céticos dirão que são robôs, que são feiques, que há seres supostamente humanos por trás deles. Que gente sem noção não irrompe assim, feito cogumelo em pau podre depois da chuva.

Lamarck, que acreditava que a girafa, de tanto esticar o pescoço para pegar as folhas mais altas, foi ficando pescoçuda e gerando filhotes pescoçudinhos, também devia ser reabilitado. Lombroso é outro que merecia uma segunda chance.  Mas prometi a mim mesmo não falar de política por uma semana, então não vou desenvolver o tema.

Inventando moda

Não entendo nada de moda. Até certa idade usei a roupa que minha mãe comprava e a usava até até minha mãe não aguentar mais me ver usando aquilo e jogar fora.

Depois que minha mãe parou de comprar e de jogar fora minhas roupas, minha grife preferida sempre foi a Promoção (às vezes, pra ostentar, compro na Sale) e uso até acabar. Depois que acabam, uso para dormir (se forem camisetas) ou para ficar em casa, ir para o sítio. Está pra ser inventada roupa mais gostosa que aquela que já deu o que tinha que dar.

Como o Drummond, faz tempo que deixei de ser moderno para tentar ser eterno. Ou, pelo menos, atemporal. Por isso, tirando umas calças de nesga nos anos 70, não tenho muito do que me envergonhar do meu figurino nas fotografias.

Ok, tive uma camisa de anarruga. Se você não sabe o que é anarruga, sorte sua. Se sabe, não é preciso dizer o que uma camisa de anarruga representa no currículo de uma pessoa.

Tive também sapato cavalo de aço, bicolor. E camisa estampada, com colarinho em bico vindo até quase o bico do peito. Tive macacão Staroup. Tive calça Fiorucci paraguaia, com aquele corte perfeito – a gente só sabe que lado é pra frente porque tem um fecheclér e o de trás porque tem o bolso, mas não faz a menor diferença.

Mas tirando isso e um jaquetão de 3 botões com ombreira que usei muito nos anos 90, em Curitiba, não há nada que deslustre minha biografia.
Sim, claro, teve a fase da pochete e da meia branca com sapato preto, também em Curitiba, também nos anos 90 (tive o azar de morar em Curitiba em plenos anos 90, quando além do jaquetão de ombreira e das meias coloridas – daquelas de causar inveja ao Justin Trudeau – eu ainda por cima usava gel).

Mas descontando isso e o cinto de lona com fivela militar e a ponta caída para a frente, não há nada do que me penitenciar. A não ser, talvez, a gravata com estampa do coelhinho Pernalonga – que não uso há décadas, mas deve estar em alguma gaveta.

Esse mea culpa todo – que não inclui a calça branca com All Star vermelho que eu usava muito quando trabalhava no Banco do Brasil, e uma camisa abóbora que caí na asneira de usar, inconscientemente, num evento ligado ao Partido Novo – bem, tudo isso é para falar que não ligo para moda. Até parei de combinar calça cáqui com camisa azul quando descobri que era coisa de paulista, e uma única vez usei terno com tênis (quando? anos 90; em Curitiba, onde mais?).

Em estatística, moda é o valor mais frequente num conjunto de dados (sei disso porque já fui professor de estatística). Na rua, moda não é necessariamente o mais frequente, mas o que chama mais a atenção.

Quando é só um maluco que usa, é extravagância; quando vários malucos usam, é moda.

Foi assim com a blusa transparente e o sutiã aparecendo. Foi assim com a calça no meio da bunda, e a cueca de fora (ou a calça no meio da cueca e a bunda de fora). Foi assim com o meião branco por cima do colã nas academias de ginástica.

A última moda é a máscara no queixo. Voltei agora da padaria e, no caminho, passei por umas dez pessoas usando máscara assim, cobrindo o gogó, escondendo a papada. Deve ser uma releitura do boné com a aba para trás.

Pra essa gente, talvez a moda da máscara no queixo seja a última mesmo.