Adictos aí anônimos

Entao

(Gilson entra na Sala 1)
– Boa noite, meu nome aí é Gilson.

– Boa noite, Gilson! (em uníssono)

– Eu sou um jornalista aí, adicto aí em advérbio de lugar.

– Desculpe, Gilson, mas este grupo ele não é de jornalistas adictos em advérbio de lugar. Os adictos em advérbio de lugar eles se reúnem às quartas. Hoje é terça e a terça ela é nossa, dos jornalistas adictos em sujeito duplo.

– Mas já que vim aqui aí, não posso ficar aí de ouvinte?

– As coisas elas não funcionam assim, Gilson. Há o risco de o seu vício ele contaminar os que estão se livrando do sujeito duplo. O grupo de adictos em recuperação do gerundismo ele vai estar se reunindo logo em seguida, e esse grupo ele já está bem vazio.

– Mas eu já superei aí o gerundismo. Posso estar tendo aí uma recaída se for lá.

– Bem, amigo, este grupo ele não vai poder te ajudar. A sala ao lado ela tem um grupo funcionando agora. Quem sabe as pessoas que estão lá elas possam te dar uma força.

– Obrigado, vou lá aí então.

 

(Gilson vai para a sala 2)

 

– Boa noite. Meu nome aí é Gilson.

– Então, boa noite, Gilson! (em uníssono).

– Eu sou um jornalista aí, adicto aí em advérbio de lugar.

– Então, Gilson, este é um grupo de jornalistas adictos em começar todas as frases com “então”.

– Mas então eu posso participar aí deste grupo?

– Então, acho que não.

– Mas eu aprendi aí essa palavra ainda criança, e a uso aí desde então…

– Então,  mas você usa “então” como advérbio de tempo e de modo.

– Não posso aí ficar então aí aqui?

– Então, este grupo aqui é só para jornalista que usa “então” sem nenhum motivo, de modo totalmente sem noção.

– Então não é aí o meu caso. Vou procurar aí outra sala.

 

 (Gilson vai para a sala 3)

 

– Boa noite. Meu nome aí é Gilson.

– Boa noite, Gilson.  Você tem aí…

– Ih, desculpe aí, entrei aí numa sala da Globo News de novo.

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Abuse com moderação

abuso

– Bom dia, cidadão! Eu sou o Super-PL7596/17-Projeto-de-lei-que-dispõe-sobre-os-crimes-de-abuso-de-autoridade, e estou aqui para salvá-lo das autoridades abusivas!

– Obrigado, Super-PL7596/17, você é o meu herói. Seria desabusado da minha parte chamá-lo de Super-Abuso?

– Imagina! Vim para protegê-lo de juízes, promotores, procuradores, agentes policiais e profissionais de segurança pública. Use e abuse!

– Bom saber que alguém pensa em nós, pacatos cidadãos, que já estamos cansados das arbitrariedades dos corruptos e outros criminosos.

– Olha, cidadão, isto está fora do meu escopo. Meus superpoderes são para livrá-lo de eventuais abusos no combate ao crime, não do crime em si.

– Ah, sim. Isso é muito bom. Ninguém quer autoridades abusivas. É que pensei que você viesse me socorrer dos abusos de parlamentares corruptos, de políticos criminosos, que também são autoridades.

– Isso é com os juízes, promotores, procuradores, agentes policiais e profissionais de segurança pública – de quem eu estou te protegendo.

– Eles podem combater o crime; só não podem abusar, certo?

– Certo.

– E quem define o que é abusivo e o que é legal?

– A lei. Eles têm que fazer exatamente o que está na lei. Nem uma vírgula a mais.

– Podem interpretar a lei, pelo menos?

– A lei é lei e ponto. Pão pão, queijo queijo.

– Mas se é assim, não era melhor usar um aplicativo? Não precisava haver juízes, promotores, procuradores…

– Sim, mas sabe como é, né? A lei não é uma ciência exata; tem nuances, agravantes, atenuantes, zonas cinzentas…

– E…

– E se a lei for interpretada contra os corruptos e corruptores, é só me chamar que eu vou lá e cráu.

– E se for interpretada a favor dos corruptos?

– Bem, aí eu não posso fazer nada, porque está dentro da lei.

– Então você não está aqui para me proteger, Super-Abuso. Você, em última instância, está acobertando os…

– Desculpe, cidadão, mas tenho que salvar um investigado por falcatruas que está sendo vítima de uma atroz e vexatória condução coercitiva, com movimentação ostensiva e desproporcional de veículos e armamentos. Queira Deus que não haja algemas!

– Espere um pouco! Tirando os óculos, você me lembra uma velha conhecida minha, a Lei de Controle Social da Mídia, cuja louvável intenção era me defender dos abusos da liberdade de imprensa, e no entanto…

– Impressão sua, cidadão. Impressão sua. Fui!

Incidente diplomático

Chapa

– Sr. Modesto Araújo, quero te apresentar aqui o novo chapeiro.

– Mas, seu Jaílson, esse não é o…

– Ele mesmo, o Ednardo. Meu filho.

– Ele tem experiência com chapa, fritura, essas coisas?

– Ele é diplomata. Fez Instituto Rio Branco. Foi embaixador na China. E já comeu pastel frito, não comeu, Ednardo?

(Ednardo concorda com a cabeça)

– Pois é, já comeu. E comeu na China, onde fritam muito pastel. É o chapeiro ideal para a JB Lanches.

– É que pastel não é feito na chapa…

– Modesto Araújo, você não está entendendo. Ele é meu filho. Portanto, está mais que qualificado para o posto de chapeiro.

– É que o fato de ele ser um diplomata, será que não vai atrasar um pouco o serviço? Ele pode querer negociar o hambúrguer bem passado por um ao ponto, não chegar nunca a um acordo com o cliente se o ketchup tem precedência sobre o alface, e aí a fila não anda…

– Com meu filho de chapeiro aqui, quando o presidente da França vier comer uma esfirra, vai falar direto com ele, sem nem fazer o pedido no caixa. Se for um sheik saudita, ele frita a coxinha de acordo com os preceitos do Alcorão. De protocolo ele entende. E de cerimonial. Ele sabe que o canudo fica à direita do copo de refrigerante e os sachês de mostarda vêm hierarquicamente embaixo dos de maionese.

– O senhor é que manda, seu Jaílson. Eu sou só o gerente desta franquia da JB Lanches. Se o senhor diz que o seu filho embaixador vai ser um bom chapeiro…

– Ele fala “quibe” e “esfirra” em vários idiomas Sr. Modesto Araújo. Fala aí “quibe” e “esfirra” em árabe, Ednardo, pro Modesto ver que você é a pessoa mais capacitada para o cargo.

(Ednardo tosse, coça a cabeça e começa a balbuciar alguma coisa.)

– Viu como ele fala? Vai lá, meu filho, que a chapa é tua. E se o pessoal do RH criar algum problema, é você quem vai pra chapa, Modesto, e ele fica de gerente.

(Modesto Araújo abaixa a cabeça, resignado. Gritos atrás do balcão. Era o pessoal do RH com o Bepantol na mão tentando – tarde demais – explicar pro embaixador Ednardo que a chapa é quente).

Loop, segundo tempo

Loop 2

Com o empate no tempo regulamentar e na prorrogação, o jogo entre Lula F.C. e o Clube de Regatas L.J. vai para a disputa nos pênaltis.

O goleiro Sérgio Fernando, titular absoluto da L.J. se posiciona. Quem vai bater é Cristiano.

Lá vem Cristiano e… Fora! Cristiano chuta para fora, senhores!

Cristiano reclama com o juiz, diz que o apito tirou sua concentração e pede para bater de novo.

O juiz concede, e lá vai Cristiano – agora sem o apito.

Sérgio Fernando esfrega as mãos, Cristiano corre, dá uma paradinha e… bola na trave!

A torcida da L.J. comemora, mas a comissão técnica do L.F.C. exige que a cobrança seja feita novamente, porque a paradinha de Cristiano atrapalhou sua performance.

O árbitro acata, e lá vai Cristiano em sua terceira tentativa. Toma distância, dá uma bicuda e… Sérgio Fernando espalma com categoria.

Parece que… não, Cristiano exige bater outra vez porque Sérgio Fernando teria adivinhado o ângulo e defendido por pura sorte. Exige uma melhor de três.

O juiz informa que essa já foi a terceira cobrança perdida, mas Cristiano e a torcida da L.F.C. não se dão por vencidos. Apesar de ser uma partida do campeonato local, ameaçam recorrer à à Conmebol e à Fifa.

Nova cobrança é autorizada. Cristiano toma distância, enche o pé, mas Sérgio Fernando é um muro no gol e agarra.

Fim de jogo, amigos do esporte! L.J. é a camp… Não, ainda não. A L.F.C. exige que o árbitro consulte o VAR, porque Sérgio Fernando teria dado um passo para trás e a bola teria ultrapassado a linha.

O árbitro consulta o vídeo. Vamos aguardar seu veredito.

Volta o árbitro, e informa que apenas o calcanhar do goleiro Sérgio Fenando tocou a linha. A bola não entrou.

Cristiano e a comissão técnica cercam o juiz, argumentando que o árbitro de vídeo foi parcial, que a tecnologia não é confiável, que todo o campeonato deve ser anulado e o goleiro Sérgio Fernando suspenso.

Muita tensão no estádio, senhores, com a torcida do L.F.C. subindo no alambrado e ameaçando invadir o gramado.

A proposta apresentada pelos dirigentes do L.F.C. é que Cristiano continue batendo pênaltis indefinidamente, até a bola entrar. Enquanto isso não acontecer, a cobrança não terá validade.

Há um confronto generalizado nas arquibancadas, com as duas torcidas se engalfinhando. A PM se protege no fosso e pede reforços.

O técnico do L.F.C. tenta impugnar a bola, a grama, o tom de branco das linhas de marcação da grande área, a iluminação, a acústica e a localização do estádio, além de apresentar nudes do goleiro Sérgio Fernando, feitos com uma cam escondida no vestiário.

Sérgio Fernando aguarda o desenrolar dos acontecimentos encostado na trave e parece murmurar algo como “Om Mani Padme Hum” – ou “PQP MQGCDC”, segundo nossos especialistas em leitura labial.

Vão ser retomadas as cobranças. E, segundo as regras impostas pelo L.F.C, enquanto a bola não entrar, não vale.

Pode isso, Arnaldo?

Loop

loop

Eles venceram.

Moro extrapolou, as conversas eram mais impróprias que os filmes do Alexandre Frota e a Lava-Jato deve ser anulada. De ponta a ponta.

Agora o desafio é arcar com as consequências dessa irresponsabilidade que foi tentar investigar e punir a corrupção no Brasil.

Logo após a soltura de Lula, o prédio da Polícia Federal em Curitiba deverá ser implodido para que se erga no lugar um Memorial à Maracutaia. A contratação da obra será feita mediante licitação fraudulenta da qual participarão apenas empresas que já tenham combinado seus preços e garantido 10% para o caixa 2 das próximas eleições.

Lula terá que ser indenizado. Não pelo tempo que passou preso, mas pelos livros que foi obrigado a ler para obter redução da pena, e pela abstinência etílica forçada. Os artistas que foram em romaria reverenciá-lo e os jornalistas que se viram obrigados a se deslocar até Curitiba para as entrevistas terão suas despesas ressarcidas pelo erário. Mais os danos morais.

Todo o dinheiro devolvido à Petrobras e aos cofres públicos terá que ser reembolsado aos que o desviaram. Com juros e correção – e sem descontar a tarifa do TED.

As eleições de 2018 serão anuladas. Lula assumirá automaticamente, já que a Lava-Jato (como se comprovou com as gravações interceptadas) só foi criada para impedir sua vitória estrondosa nas urnas.

O Brasil repatriará todos os imigrantes venezuelanos que vieram para Roraima atraídos pela ditadura do Bolsonaro, e fornecerá tanques para ajudar a combater a miséria que o bloqueio estadunidense causou ao país vizinho. Poderá criar também uma moeda única com a Venezuela, o Bolívar Realmente Soberano, trazendo Maduro de volta ao Mercosul, e firmando um acordo de livre comércio com a Rússia.

As armas não serão liberadas, e o país voltará a ter índice de criminalidade zero, como era nos governos do PT.

Será providenciada a importação de milhares de desneuralizadores, aquelas máquinas acionadas pelos Homens de Preto para apagar a memória. Assim, será possível voltar a viver como em 2018, sem ter a menor ideia de quem venham a ser Damares, Vélez, Weintraub, Ernesto Araújo, 01, 02 e 03. E que seja possível comer pão com leite moça.

Jorrará petróleo do pré-sal em volume suficiente para encher os canais da transposição do São Francisco (era para isso que estavam sendo construídos, por isso a água não foi desviada para lá). Tudo será refinado em Pasadena, produzindo gasolina aditivada com ferrugem, a ser exportada para o Irã através do porto de Mariel, em Cuba, gerando divisas suficientes para pagar os adevogados e bancar os militantes virtuais.

Jean Wyllys retornará do exílio (afinal, o Brasil deixará de ser uma ditadura fascista), se tornará líder do governo na Câmara. Consequentemente, o marido do Greenwald perderá o mandato. Greenwald ficará muito puto com isso e admitirá que foi tudo uma armação (em desabafo no zap, raqueado pelo Antagonista).

Com o escândalo do Vaza-Glenn, a Lava-Jato ressuscita, implodem o Memorial da Maracutaia, reconstroem a Polícia Federal de Curitiba, Lula volta pra cadeia e o Brasil retorna à programação normal, exatamente do ponto onde parou.

A não ser que o Greenwald resolva processar o Antagonista por ter violado seu sigilo telefônico, e aí a gente implode de novo a PF, reergue o Memorial da Maracutaia (com superfaturamento) e continua andando em círculos, em moto perpétuo.

Quando acabar a paciência – ou o PIB, o que vier primeiro – a gente decide nos pênaltis.

Margens plácidxs

margens

– “Ouviram do Ipiranga as mar…

– Não, Joaquim Osório. Definitivamente, não. Com esse “ouviram”, você exclui as pessoas com deficiência auditiva. Vamos mudar para “Aconteceu às do Ipiranga plácidas margens…”

– Acho que a métrica e o ritmo perdem um pouco, Francisco Manoel.

– Cuide da letra, que da música cuido eu. Continue.

– “De um povo heroico o brado retumbante”.

– Você e essa sua obsessão auditiva!

– Mas é que houve um grito do Ipiranga, não um perfume do Ipiranga, um toque do Ipiranga, um gostinho do Ipiranga…

– Não importa. O hino tem que ser inclusivo. Não é só dos que têm ouvido absoluto.

– Mas depois eu falo que “O sol da liberdade, em raios fúlgidos, brilhou no céu da pátr… “

– Aí você exclui, de uma tacada só, as pessoas com deficiência visual e aquelas com transtorno de fluência, que terão dificuldade com tanta proparoxítona.

– Quer dizer que não dá pra usar fúlgido, vívido, límpido, esplêndido, símbolo, flâmula?

– Sem chance. Proparoxítona é instrumento de opressão, é preconceito linguístico e elitismo no úrtimo.

– Mas o Chico Buarque…

– O Chico Buarque nem nasceu, e quando ele escrever uma música cheia de proparoxítonas, os seguidores dele criam uma narrativa e justificam tudo. Tira as proparoxítonas.

– Tá bom. Aí vem “Conseguimos conquistar com braço forte…”

– Que #$%@* é essa, Joaquim Osório? “Braço forte”. Eu, hein!

– Calma, que depois eu compenso com “Em teu seio, ó liberdade…”

– Aí deixa de ser homoafetivo pra ser bissexual. Braço forte também pode soar ofensivo a quem tem distrofia muscular ou não frequenta academia. E o lance do seio vai pegar super mal com quem teve que se submeter a mastectomia ou botou um implante de silicone industrial.

– Não menciono nenhum sentido, nenhuma parte do corpo, então?

– Melhor não. Sem contar que falar em bíceps e mamas pode dar uma conotação sexual, e temos que pensar nos atletas de Cristo, nos que escolheram esperar, nas pessoas com disfunção erétil ou do desejo sexual, e nos que não conseguem pegar ninguém.

– Aí vem um trecho bonito, ó: “Em teu formoso céu, risonho e límpido, a imagem do cruzeiro resplandece”.

– Por que valorizar o formoso, depreciando o esteticamente desfavorecido? Para quê enaltecer o risonho, em detrimento dos odontologicamente deficitários? E que bairrismo futebolístico é esse de falar só do Cruzeiro?

– Mais adiante eu falo do “florão d’América”.

– Mas continua discriminando os torcedores do Atlético Mineiro. Tínhamos combinado que não era para misturar hino e futebol, Joaquim. Corta. Essa parte do “Gigante pela própria natureza” discrimina as pessoas verticalmente prejudicadas (ou os não muito bem dotados). Corta. O “és belo” reforça a ditadura da beleza. Corta. Esse “és forte”… Putz, isso aqui é o hino nacional, não uma competição de halterofilismo ou o show dos leopardos! C-o-r-t-a.

– Bom, Francisco Manuel, se as alterações são só essas…

– E a segunda parte?

– Mas Chico…

– Me dá essa letra aqui. Hmmm… “Berço esplêndido” é elitista, e marginaliza os que têm que colocar o filho para dormir na cama do casal por não dispor de verba para adquirir nem um bebê conforto. Corta. Voltou a falar em “Ao som do mar e à luz do céu profundo”, sem consideração pelas pessoas privadas da audição e da visão. Corta. Esse adjetivo “límpido”, não bastasse ser proparoxítona, segrega os de hábitos higiênicos diferenciados. Corta.

– Chico…

– “Amor eterno” é bullying com os que levaram um pé-na-bunda. Corta.

– Deixa pelo menos o refrão, ou vou ter que refazer tudo. Esse não tem nada pra corrigir: “Dos filhos…

– … e filhas.

– “… deste solo…”

– … e desta terra.

– “…és mãe…”

– … biológica ou adotiva.

– “… gentil…”

– … mas podendo expressar democraticamente sua agressividade.

– “…pátria amada…”

– … pátria e mátria, amada, amado e amadx.

– “…Brasil!”

– Ótimo. O “Brasil” ficou bom. Essa parte pode deixar. Mas o resto você conserta, por favor. A gente nunca sabe que revertério pode dar neste país, no futuro, e não quero ninguém criticando o nosso trabalho.

 

(publicado originalmente em 26 de abril de 2018)

Intercept-ação

intercept

– Alô.

– Bom dia, o senhor…. Affonso, por favor.

– Sou eu. Quem fala?

– Aqui é o ráquer da Intercept, uma premiada agência de notícias dedicada à responsabilização dos poderosos por meio de um jornalismo destemido e combativo, com investigações aprofundadas e análises implacáveis, que tem por objetivo expor a corrupção e a injustiça onde quer que as encontrem, tudo bem com o senhor?

– Sim.

– Então, eu estive raqueando seus aparelhos celulares, lepitopes, o servidor do seu escritório, seus agadês externos, os pendraives que o senhor guarda na gaveta de cima do aparador e os disquetes que estão encaixotados junto com as fitas cassete porque o senhor esqueceu de salvar o conteúdo deles em CD e nem tem mais equipamento para abri-los, mas guarda assim mesmo, e eu queria tirar algumas dúvidas com o senhor.

– Como assim?

– Outro dia no zap o senhor comentou, no grupo de família: “o problema é que moro num condomínio muito barulhento”. O que o senhor quis dizer foi que o ministro Moro faz muito barulho por nada, é isso?

– Não, era “moro” do verbo morar, e eu me referia ao baile fanque que rola na churrasqueira e à vizinha que arrasta móveis.

– Pena. Mas tem uma postagem sua no feicebuque, em 2012, em que o senhor menciona a emoção de ter passado “em frente à casa do Dalton, o vampiro de Curitiba”. O senhor se referia ao Deltan, o procurador vampiro da Lava Jato, certo?

– Não, era ao Dalton Trevisan mesmo. Já conhecia a casa dele de fotografia, e um dia, sem querer me vi diante dela e a reconheci, e aí…

– Ok, ok, esquece. Num comentário no Orkut, em 2005, na comunidade “Mi español es fueda” o senhor escreveu “Jo atcho una vesteyra ussar deçodorante varato porqué la ñaca solo bay ficar peor”, o senhor aludia a algum conluio da República de Curitiba para, em sua sanha punitivista, tirar a liberdade de inocentes como o Marcos Valério, Delúbio, Genoíno e Dirceu, né?

– Aquilo era só uma vrincadera, quer dizer, uma brincadeira.

– Droga! Outrossim, vale ressaltar que eu preciso alertá-lo para um super like que o senhor recebeu agora há pouco no Tinder.

– Mas eu não tenho Tinder.

– Tem sim, que eu sei.

– Quer dizer, eu tinha, mas desativei. Foi um momento de fraqueza no 12 de junho de 2014, quando eu…

– Não precisa se explicar. Apenas ignore, tá? Fui eu que dei o super like por engano. Quando vi a foto, achei que era o Freixo.