Dark lá, sombrio aqui

Quem disser que entendeu “Dark”, a série alemã cuja última temporada estreou semana passada na Netflix, certamente estará mentindo. Porque o grande mérito da trama, que envolve viagens no tempo e entre mundos alternativos, é colocar Tico e Teco em pânico.

Nos acostumamos às novelas, em que tudo é reiterado, regurgitado, concebido de modo que se possa brincar com o gato no sofá ou levantar para pegar água na geladeira, sem perder o fio de meada. Em “Dark” todos os fios permanecem, até o último minuto, soltos – e desencapados. Piscou, perdeu. Não piscou, perdeu do mesmo jeito.

Mais ou menos como o Brasil.

Em que ano estamos? Depende. Tem hora que é 2020, tem hora que é 1964 ou 1968. Por vezes é 2018, ainda no auge da campanha eleitoral – ou nos vemos confinados em um perpétuo 1984, só que no universo paralelo do Orwell.

(…)

Em “Dark” o presente influencia o passado. Exatamente como acontece no Brasil, onde descobrimos que o nazifascismo é agora, e temos que rever o que houve na Alemanha dos anos 30 e 40. Vivemos num apartheid e até o Valter Hugo Mãe embarcou na narrativa do genocídio tupiniquim, o que exige reavaliação imediata das tragédias da África do Sul, da Armênia, do Camboja, de Ruanda.
Se na série é difícil saber quem são Mikkel, Mads e Magnus, aqui temos Weintraub, Wajngarten e Wassef, que não ficam atrás. Se lá o paradoxo é uma personagem ser avó de si mesma (ih, esqueci de avisar que tinha espóiler!), aqui a questão é se seria Chauí um Olavo de franja, ou Olavo uma Chauí de cachimbo.

(…)

“Ele não quer salvar o mundo do mal. Ele é o Mal”, diz alguém em “Dark”. É ou não é puro Brasil isso daí?
“O bem e o mal são uma questão de perspectiva”, filosofa Mikkel – ou seria algum pregador do “ódio do bem” nas redes sociais?
“Não é estranho sentirmos aversão às pessoas que são mais parecidas conosco?”, indaga-se o enigmático Adam – assumindo o que se passa na mente dos que negam peremptoriamente qualquer simetria entre o que temos hoje e o que tínhamos até alguns anos atrás.

Na política, como em “Dark”, o ontem e o hoje (e, presumivelmente, o amanhã e o depois de amanhã) não se sucedem, mas estão conectados em um círculo infinito. O eterno retorno do populismo, do fascínio pelo autoritarismo e – desgraça pouca é bobagem – do Centrão.

~

Porque hoje é sexta, n’O GLOBO.

https://oglobo.globo.com/opiniao/dark-la-sombrio-aqui-24512525

Bueiro

– Se já estão todas, todos e todes aí, podemos dar início a esta reunião extraordinária do Patrimônio Histórico e Cultural para decidir sobre os monumentos que merecem permanecer nos espaços públicos, os que vão para a reserva técnica dos museus e os que podem ser fundidos para fabricação de tampa de bueiro.  Deixa eu ver minha lista aqui. Hmmm… estátua equestre de Pedro I, na praça Tiradentes.

– Misógino, macho tóxico e abandonou afetivamente os filhos.

– Bueiro?

– Bueiro. Mas podemos deixar o cavalo.

– Ok, a estátua equestre vira uma estátua equina.  Estátua de Pedro II, na Quinta da Boa Vista.

– Escravocrata, gordofóbico…

– Gordofóbico?

– Já viu fotos da imperatriz, que ele trocou pela esbelta Condessa de Barral? Gordofobia raiz.

– Bueiro?

– Bueiro.

– Já que estamos na família imperial, temos a Princesa Isabel na avenida dela mesma. Essa fica, não é? Afinal, é mulher e…

– Sem chance. Vivia cercada de mucamas e se referia a uma de suas escravas, chamada Marta, como “negrinha de quarto”. Bueiro. E na Abolição, para aprender.

– Ok. Tiradentes, na Primeiro de Março, em frente ao palácio dele mesmo.

– Escravocrata. Perguntem pro Laurentino Gomes. Bueiro.

– Será que não vai escapar nem o Machado de Assis, ali em frente da Academia Brasileira de Letras?

– Nem pensar. Machado nunca assumiu sua negritude. Seus protagonistas são todos brancos. Capitu era quilombola? Brás Cubas era afrodescendente? Ele só tinha olhos para a burguesia da Rua do Ouvidor. Bueiro, e bem longe do Cosme Velho.

– Gente, vai faltar bueiro nesta cidade para tanta tampa! Para poupar tempo, melhor mandar fundir todas as estátuas de personalidades do século 19 para trás, não acham?

– Claro que não. Tem Zumbi dos Palmares, ali na Presidente Vargas. Essa fica.

– Mas Zumbi não tinha escravos? O Leandro Narloch levanta essa questão e….

– Nossa, quase quatro da tarde! Desculpe, mas marquei manicure e com essa demanda represada da pandemia, não posso me atrasar. Semana que vem a gente retoma, tá? E podemos começar pelo Drummond, ali no calçadão de Copacabana.

– Ah, tão bom passar pela orla e encontrá-lo ali, no meio do caminho…

– Esquece. Ele colaborou com o Estado Novo. Fascista.

– Bueiro?

-Bueiro. Fui!

Números

Noêmia se preparava para sair do cemitério, amparada pelos filhos, quando Moacirzinho a puxou pelo braço.

– Mãe, tá ouvindo?

Soluçando e fungando, Noêmia não ouvia nada.

– Mãe, escuta.

Todos pararam. Zirlene, que não tinha largado o celular um minuto durante todo o sepultamento, tirou o fone do ouvido e também ouviu.

– O barulho. Lá embaixo.

Havia mesmo um tum tum tum abafado, vindo debaixo do montinho de terra fofa.

Tudo bem que não tinha havido velório, que Moacir fora entregue envelopado e ninguém pudera ver o corpo, mas…

Começou o corre-corre, o escava-escava. O coveiro com a pá, Moacirzinho e o os primos e tios, com as mãos.  O tum tum tum cada vez mais forte, até que chegaram ao caixão, abriram-no, puxaram o fechecler do saco plástico e lá estava Moacir, de olhão arregalado.

Noêmia não sabia se desmaiava de emoção ou de pavor.

– Papai! – contra todas as recomendações médicas, era Moacirzinho que se jogava sobre o corpo do pai, dando no reencontro o abraço que não pudera dar na despedida.

Içaram Moacir enquanto Noêmia recuperava os sentidos.

Claro que estavam todos perplexos e felizes, mas era nítido que havia algo errado com Moacir.

Ele não respirava.

– Pai, você tá bem?

Moacir não respondeu.

Valdemar apalpou o irmão e declarou:

– Ele está duro.

– Rigor mortis – pontificou o coveiro, gastando o único latim que sabia.

Zirlene, de celular em punho, decifrou o mistério.

– Foi o governo. Papai não está mais morto. Ele e mais 352 foram ressuscitados na recontagem.

Ficaram todos imóveis – Moacir mais imóvel que os outros.  Quiseram levá-lo para casa, mas ele não andava.

– Rigor mortis, eu falei – repetiu o coveiro. As juntas não dobram.

Carregaram-no até o Uno, mas logo viram que iam precisar de uma Kombi ou, quem sabe tivessem que levá-lo em pé, de ônibus.

Moacir não só não respirava como não piscava, e só parava em pé porque Valdemar e Moacirzinho o seguravam.

Noêmia pensava num jeito de desmaiar de novo e acordar apenas quando tudo aquilo tivesse acabado.

– Gente – falou Zirlene, ainda mexendo no celular – parece que o Globo, a Folha e o Estadão estão fazendo uma contagem paralela dos óbitos e…

No meio da frase, Moacir caiu para trás. Mais duro do que antes.

O manifesto dos bichos

A jararaca e o abutre estavam deixando a fazenda em pânico.

A escolha entre morrer de picada ou de bicada não parecia muito animadora para a fauna local.

– Jararaca só pica pra se defender! – proclamavam os jararaquistas.

– Abutre só bica quem já morreu! – protestavam os abutristas.

Mas não faltavam casos de coelhinhos estrebuchando sob efeito de veneno (logo coelhinhos, que não atacam ninguém) e gatinhos ainda miando ao ser devorados (logo eles, que têm sete vidas).

Reuniu-se a bicharada, que deliberou por um manifesto supraespecista  (ou supraespeciário, ou supraespecial – ou seja, acima das diferenças de espécie). Contra o abutre.

– Contra o abutre? Mas e a jararaca?

– Primeiro a gente tira o abutre. Depois a gente se entende com a jararaca.

– Como assim, “a gente se entende com a jararaca”?

– Modo de dizer. Depois a gente dá um jeito na jararaca.

– Não era melhor a gente fazer também um manifesto antijararaca? Com a rexitegue #jararacanão?

– A jararaca está escondida na toca de um amigo. Quem está nos sobrevoando é o abutre.

(Nessa hora o abutre deu um rasante. Ele sempre dava um jeito de confirmar as piores previsões a seu respeito.)

– Viu, não falei? Somos 70% contra o abutre.

– Mas também somos 70% contra a jararaca.

– Que tal um movimento juntando os dois 70%? Seria um “Somos 140% contra o abutre e a jararaca” – exclamou um burro de humanas.

– Isso está matematicamente incorreto – resmungou um bode de exatas.

–  Vamos fazer então um “Juntos somos 100% e basta!”

– Ótimo.

– Perfeito.

– Joia.

– Deixa que eu redijo então: “Au au…”

– Como assim “Au au”?  Tem que começar com “Bééé”.

– Por que “Bééé”?  Escreve aí “Múúúú…”

– Dizem que sapo de fora não chia, mas tem que ser “Coach, coach”.

– Eu não ia dar um pio, mas se não for “Piu piu piu”, eu estou fora.

– Oinc! Oinc!

– Quac quac!

Enquanto isso a jararaca armava o bote e o abutre partia para mais um rasante.

Levanta e anda!

Bolsonaro operou um milagre: ressuscitou o PT.

A prova – prontinha para ser apresentada ao Vaticano – foi termos ontem, no Jornal Nacional, o Zeduardo Cardozo (lembram dele? poizé, o próprio) dando lições de como deve se comportar um ministro da Justiça.

Logo depois (ou pouco antes, não me lembro agora), veio um longo discurso, praticamente cinco minutos de horário eleitoral gratuito, de uma deputada do PSOL, dizendo coisas lógicas e lúcidas.

Quando um discurso do PSOL soa lógico e/ou lúcido é porque deu um tilt na Matrix.

Quais eram as chances de os petistas e os não-sou-petista-mas se rearticularem e voltarem à cena política sem fazer nenhuma autocrítica, nenhum errei-sim-manchei-o-teu-nome dirigido à esquerda, nenhum mea culpa – ou, pelo menos, um foi-mal-aê – dirigido ao país? -273,15º Celsius, zero absoluto. E no entanto…

Neste ritmo, logo teremos José Dirceu no Roda Viva defendendo a ética na política. Lulinha dando côutchim de comportamento para filhos de presidente. Gleisi e Maria do Rosário ministrando na Socila curso de etiqueta para militância feminina. O povo que acampava em frente à PF de Curitiba fazendo uorquixope de civilidade para o povo que acampa no curralzinho montado em frente ao Palácio da Alvorada.

Adriana Ancelmo fará laives com dicas de campláiãs para primeiras-damas do Rio de Janeiro. E Lula e Dilma, em pessoa, explanarão sobre os limites da eficácia de palavrões, perdigotos, ameaças e murros na mesa como técnicas de persuasão e oratória.

O PT, que já tinha cogitado de tirar o vermelho da sua bandeira, pode ser mais sutil e apenas trocar a estrelinha branca por uma fênix.

Mais um milagre desses e Bolsonaro se habilitará a ser canonizado em vida.  

P.S. Aproveito para propor a substituição do hino nacional por um samba canção do Lupicínio:

“Foi assim
Troquei essa pessoa que eu morava
Por essa criatura que eu julgava
Pudesse compreender todo meu eu
Mas no fim
Fiquei na mesma coisa em que estava
Porque a criatura que eu sonhava
Não faz aquilo que me prometeu
(…)
Se deixo de alguém
Por falta de carinho
Por brigas e outras coisas mais
Quem aparece no meu caminho
Tem os defeitos iguais.”

Critérios

Limpando as gavetas (metaforicamente falando, claro: estava fazendo faxina no computador, descartando textos inservíveis), dei de cara com isto, escrito em 31 de janeiro de 2017 e deixado pra lá.

Na ocasião, o então presidente Temer definia os critérios que norteariam a escolha do substituto de Teori Zavascki no STF.

Imaginei a conversa do presidente com um senador hipotético:

– Quero tranquilizá-lo quanto ao novo ministro do Supremo, já que, evidentemente, indicá-lo-ei com base em critérios eminentemente técnicos. Eminentemente técnicos.

– Técnico, mas comprometido com o fim dessa aberração de prisão após condenação em segunda instância, já que nós podemos recorrer indefinidamente, e não é justo ir pra cadeia só porque dois juizecos nos condenaram.

– Evidentemente, senador, evidentemente. Com critérios técnicos e contra a prisão na condenação em segunda instância.

– E contra o aborto, Presidente. Basta termos que conviver com essa ignomínia que é o divórcio.

– Perfeitamente, senador, perfeitamente. Critérios técnicos, contra a prisão em segunda instância e contra, radicalmente contra o aborto.

– E alinhado com a reforma da Previdência…

– Indubitavelmente, indubitavelmente. Técnico, segunda instância, aborto e previdência. Acho que já temos um perfil.

– … e a reforma trabalhista.

– Indiscutivelmente, indiscutivelmente. Esse aspecto, não esquecê-lo-ia jamais. Estava na minha mente, alhures.

– E, já que estamos apenas entre nós, podemos ser claros: deve ser, da boca pra fora, defensor intransigente da Lava-Jato. Mas na prática…

– Na prática, exatamente o oposto. Isso já estava anotado aqui, logo embaixo de “maior de 35 anos” e “notório saber jurídico”.

– E deve respeitar os senadores e não se meter onde não é chamado.

– Perfeitamente, senador, perfeitamente. Deve ser contra a prisão em segunda instância, contra o aborto, a favor das reformas trabalhista e da previdência, defensor da Lava Jato da boca pra fora, detonador da Lava Jato na prática, respeitador dos senadores e… esqueci alguma coisa?

– Eminentemente técnico.

– Sim, claro, como podê-lo-ia ter esquecido? Eminentemente técnico.

~

Pensei em atualizar o texto, diante da perspectiva da indicação de um ministro para a vaga a ser aberta com a aposentadoria do ministro Celso de Mello. Começaria assim.

– Vou enfiar lá a porra de um ministro terrivelmente evangélico.

O resto eu deixo por conta de vocês.

Pai dos Burros

Para que haja harmonia entre os poderes da República, é preciso que eles falem a mesma língua.

No intuito de facilitar essa comunicação, Pai Dudu criou um Pequeno Dicionário Bilíngue Jairano / Celsodemellês e o Descomunal Dicionário Celsodemellês / Jairano, que em breve (assim que acabar a pandemia) estarão à venda nas melhores livrarias (se ainda houver livrarias após a pandemia).

Os dicionários virão em três volumes, já que haverá também um traduzindo ambos os idiomas para o português.

Hoje mais essencial que o Aurélio, o Houaiss, o Michaelis e o álcool em gel, todos juntos, segue uma amostra do PBPD (Pai dos Burros do Pai Dudu):

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PEQUENO DICIONÁRIO JAIRANO / CELSODEMELLÊS

Bosta = s.m.Excelentíssimo senhor governador do estado de São Paulo

Estrume = s.m. Excelentíssimo senhor governador do estado do Rio de Janeiro

Fudido = v.i. Infelicitado, desditoso, mofino.

Hemorroida = s.f. Furículo, ilhó, forame

Putaria = s.f. Concupiscência, lubricidade

Putaquipariu = interj. Cáspite! Homessa!

Trozoba = s.m. Partes pudendas

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DESCOMUNAL DICIONÁRIO CELSODEMELLÊS / JAIRANO


, = porra!

. = porra!

! = porra!

? = porra!

… = porra!

Conquanto = porra!

Inobstante = porra!

Malgrado = porra!

Entrementes = porra!

Despiciendo = porra nenhuma!

Sodalício = a porra da milícia!

Contumelioso = a porra do caralho!

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Quem comprar o dicionário, ganha, inteiramente grátis e sem nenhum custo adicional, uma gramática de ambos os idiomas, com exercícios de fixação.

1. Traduza do jairano para o celsodemellês:

“Se não colocar a porra da arma na mão da porra dos brasileiros, vão tocar a porra da trozoba na porra da nossa hemorroida.”

2. Traduza para do celsodemellês para o jairano:

“Esse futre e espurco dendroclasta, misólogo nóxio, peralvilho soez, abantesma zoantropo, está a ustular numa aravia mesta, como grazina a engodar, cainhando num estorcegar não mais homiziado, mas achavascado, a ensejar um acoimar com acrimônia no intuito de coarctar a compunção desse descoco sem pejo, porém percuciente e perengue, sem pospor, mas precatando o prélio que antevejo rutilar sem safa, no plenilúnio da vesânia de um valdedino valetudinárico, useiro e vezeiro no vilipêndio do calão.”

Não, não vem com gabarito. Esse é pago à parte.

Sufixos

A língua brasileira é paupérrima em sufixos.

Os portugueses, sim, têm um monte deles. Por isso conseguem criar, com o sufixo “ano”, a partir da palavra Itália, a palavra italiano. A partir de Índia, indiano. De Coreia, coreano. De Alentejo, alentejano.  

Têm o sufixo “ense”, que faz belenense, belmontense, catarinense, maranhense.

Têm o “ês”, que formou português, francês, inglês, galês, chinês.

O “ão”, que lhes deu bretão, alemão, afegão, catalão, parmesão – e aldeão, vilão, cidadão.

Têm o “eta” de lisboeta.

O “ita” de vietnamita, moscovita.

O “oto” do minhoto.

O “ino” de latino, londrino, bizantino, nova iorquino.

O “ista” de sulista, nortista, paulista.

O “enho”, que dá panamenho, hondurenho, porto-riquenho.

Têm até o “eiro”, que é de formar profissão, mas serve para brasileiro, mineiro, campineiro.

Nós, falantes da língua brasileira, não dispomos desses recursos e temos que importar – com o dólar no patamar em que está! – um sufixo estrangeiro, o “er”.

Tudo começou em São Paulo, com os “farialimers”, os mauricinhos do condado da Faria Lima. Realmente, ficava mal chamar aqueles uorcarróliques, consumistas, fechionistas, conservadores e endinheirados de farialimeiros, fariamanos, farialimenses ou farialimões.

A coisa desandou quando se percebeu que os alternativos, bichos grilos, progressistas e mais quebrados que arroz de terceira de Santa Cecília eram os “santacecíliers”, e não santacelistas, santacecilenhos ou santacecilhotos.

Urge colocar uma barreira sanitária em Queluz para impedir que isso se propague até o Rio de Janeiro – antes que a garota de Ipanema vire uma carióquer, que o camelô da Saens Peña se torne um tijúquer e eu, aqui na Barra, me veja transfigurado num emergênter.

Teríamos os farmedeamoêders desfilando com suas bermudas de bainha dobrada e camisas floridas, os diasferrêirers pagando por um sushi o valor de um Gol 1.6, os lápers tomando litrão e corote com seus vestidos mariamijona e camisetas de Che Guevara. Os jardimpernambúquers, os altoleblôners e os baixogávers lançando tendências logo copiadas pelos sãocristóvers, vilaisabélers, bangúers, realênguers, cascadúrers e mesmo meritíers e belforrôxers.

Na política, agora temos os quarentêners, que, feito gases nobres, não se misturam, e os adeptos da C18H26ClN3, também conhecidos como cloroquiners.

Se a moda tivesse chegado antes, teríamos tido coxínhers e mortadélers – muito mais finos e requintados que os dessufixados coxinhas e mortadelas.

Pensando bem, a culpa não é dos rípsters paulísters, porque em 2016, ainda que não tivéssemos os ególpers, já tínhamos os foratêmers.

Sem fantasia

Fantasia

Clóvis Bornay e Evandro de Castro Lima não morreram.

Estão vivinhos da silva – um morando no Catete, outro na Glória. Vizinhos de metrô.

Evandro passou há pouco dos 100 anos; Bornay acabou de completar 104 em janeiro.

Ambos, claro, mentem a idade. Até porque aparentam menos. Uns 15 minutos menos.

São grandes amigos. Toda aquela rivalidade era coisa da mídia – ainda que realmente se odiassem.  Mas um ódio construído à base de uma inveja que era 90% admiração. Um “ódio do bem” do bem mesmo, como quem diz “ah, como eu te odeio!” enquanto abraça o outro carinhosamente e lhe ajeita o colarinho.

Todo ano eles combinam de voltar aos concursos de fantasia do Municipal e do Monte Líbano, mas os concursos de fantasia do Monte Líbano e do Municipal não voltam mais.

Ontem se falaram pelo zap.

– Evandro, este ano é o seu centenário. Tem que comemorar. Isso só acontece uma vez na vida!

– Sei não, Clóvis. Ando desanimado. Não tenho mais aquele vigor de 80 anos atrás.

– Larga de ser frouxo, homem! Bota aquela sua fantasia de “Esplendor e Glória do Xá da Pérsia Diante do Czar de Todas as Rússias  Numa Noite de Verão” e vamos pro Sírio e Libanês!

– Eu sou baiano, não posso me fantasiar de xá da Pérsia, porque é uma ofensa aos persas – que nem existem mais – aos aiatolás e, se bobear, a todos os russos. Sem contar que eu moro no Catete, e acho que não tenho lugar de lugar para me fantasiar de alguma coisa com Glória no nome. E vamos combinar que “Esplendor e Catete” não rola, né?

– É. Tá difícil. Eu ia de “Apogeu Sublime de um Faraó Egípcio na Suntuosa Corte da Rainha de Sabá” mas meu privilégio de branco não permite.

– Será que a gente não consegue uma fantasia aceitável? Sei lá, uma sem pena de pavão…

– Porque é apropriação plumária…

– … sem pedraria…

– Porque a mineração é predatória

– … sem paetês e lantejoulas…

– Porque são de plástico não biodegradável, e vão poluir o meio-ambiente por 400 anos.

– … sem miçangas…

– Porque evocam o colonialismo, já que eram usadas nas trocas assimétricas com as populações nativas subjugadas.

– Uma simplesinha, sabe? Tipo “Plenitude e Harmonia de Montezuma…

–  Asteca não pode.

– … na Majestosa Coroação do Marajá de Jaipur”.

– Marajá de Jaipur também não.

– Vem aqui em casa, então. A gente pede uma pizza, abre um espumante, e vê se tem alguma coisa com a Hedy Lamarr ou com o Ramón Novarro na Netflix.

– A gente tem feito isso todo Carnaval nos últimos 35 anos, Evandro. Nem era Netflix; era videolocadora mesmo. E ainda se podia chamar espumante de champanhe.

– Que nome será que tem o biscoito champanhe hoje em dia?

– Sabe que nunca mais vi biscoito champanhe? Vai ver, acabou, como os desfiles de fantasia, como os blocos de sujos, como o senso de ridículo. Como eu e você e a edição especial da Manchete e d’O Cruzeiro.

– Talvez. Mas ano que vem a gente tenta de novo. Até lá, vou ver se consigo pensar em alguma fantasia inofensiva. Que não promova nenhum genocídio, não perpetue nenhuma hostilidade.

– Tomara. Vou chamar a Wilza Carla. Mais alguém?

– Clóvis, e se eu for de “Esplendor Policromático de um Imperador Bizantino Politicamente Correto na Corte Empoderada de Versalhes”, ou de …

– Esquece, Evandro. A gente morreu, e não sabe.

– É, Clóvis. Não tem mais lugar para nós neste mundo.

– A gente sempre foi hors concours, querido.

– Sempre. Quando vier, passa na farmácia e me traz um alcacélcer, que acho que este Carnaval vai me dar azia.

– Vou levar logo três, um para cada. E um saquinho de confete.

– Confete não é apropriação cultural italiana?

– É.

– Então, só os alcacélcers. E traz logo 6 de uma vez.

~

In memoriam:

Clóvis Bornay, 1916 / 2005
Evandro de Castro Lima, 1920 / 1985
Wilza Carla, 1935 / 2011

Descobrimento em vertigem

Documentario 2

– Pessoal, conseguimos levantar o patrocínio e vamos fazer o documentário sobre o Descobrimento do Brasil!

– “Descobrimento”, não! Os nativos brasileiros já estavam aqui há muito tempo. Os portugueses invadiram o continente. Tem que se chamar “Invasão e colonização imperialista de Pindorama pelos brancos europeus”.

– Ok, depois a gente discute o título. O que precisamos agora é começar a pesquisa. Como um dos poucos documentos da época é a carta de Pero Vaz…

– Isso não é problema. Podemos criar novos documentos.

– Como assim “criar novos documentos”? Temos que nos basear nos elementos históricos – cartas, iconografia…

– Isso é um conceito arcaico, conservador. O documentário que vamos fazer é progressista. Podemos começar com as caravelas surgindo no horizonte com suas bandeiras piratas, disparando canhões, e, em seguida cortar para os índios sendo decapitados durante a Primeira Missa…

– Mas isso seria uma encenação – e não há nada que indique que índios tenham sido decapitados na Primeira Missa.

– Não é encenação. É a história real subjetiva. Milhares de nativos sul-americanos morreram no genocídio promovido pelos portugueses capitalistas. Os índios decapitados na Primeira Missa pelo padre alemão, que bebe o sangue deles, representam essas mortes e a apropriação cultural europeia.

– Mas então não é melhor chamar o filme de ficção?

–  Claro que não! É um documentário. E seguimos com Pedro Álvares Cabral violentando a filha mais nova do velho cacique moribundo e condenando o pajé trans da tribo a ser queimado na fogueira, por heresia.

– Mas será que houve autos-de-fé no Brasil? E pajés trans?

– Mesmo que não houvesse, ficaria havendo. O pajé LGBTQI+ queimado vivo enquanto os machos brancos europeus gargalham remete ao incêndio deliberado da Amazônia e à homofobia estrutural dos lusocristãos.

– Mas aí já fica uma coisa meio alegórica, não? A gente queria fazer um documentário, um lance histórico.

– História contada por quem? Pelos vencedores? Pero Vaz de Caminha, que era um lacaio do imperialismo. Temos que usar as cartas escritas pelos índios.

– Mas os índios não dominavam a escrita…

– Não dominavam porque eram dominados. Eram analfabetos porque Portugal não investiu aqui nem um centavo em educação antes de 1500. Então cabe a nós dar voz aos que foram amordaçados pelo neoliberalismo ibérico, pela elite tóxica da corte de Lisboa.

– Ok, então começamos com a decapitação dos índios, o estupro da filha do cacique, a incineração do pajé, quer dizer, dx pajx, aí são lidas as cartas dos índios…

– Quem lê são eles! Nós não temos lugar de leitura nessa história!

– E como é que eles vão ler se são analfabetos – ou pelo menos eram analfabetos em 1500?

– Você está sugerindo que algum portador do privilégio do letramento usurpe o protagonismo deles e leia as cartas?

– Ok, eles leem as cartas e então…

– Então entrevistamos alguns índios escolhidos a dedo, e gravamos a cena de uma índia idosa com um bebê no colo, se arrastando pelo Saara, ou pela Namíbia – ou, se a verba não der, por Atacama mesmo – e eu narro, com voz chorosa, que foram os golpes – golpes de machado, no caso – que destruíram o Brasil. Entra um pôr do sol bem vermelho e sobem os créditos ao som da Internacional Socialista em ritmo de kuarup.  Fim.

– Não entrevistamos nenhum português?

– Não precisa.

– E depois?

– Depois a gente arruma um agente, uma distribuidora, um canal de estrímim e inscreve no Oscar.

– Aquele prêmio da indústria hegemônica cultural estadunidense?

–  Essa parte não precisa problematizar. Bora fazer o doc?