Percepções

Flávio acordou e cutucou a mulher.

– Amor, estou sentindo uma coisa esquisita.

– Eu falei que aquela maionese do jantar não estava com uma cara muito boa – murmurou ela, sem tirar a cabeça do travesseiro.

– Não, amor. Estou me sentindo honesto.

A mulher se virou e o encarou, agora apoiada no cotovelo.

– Para com isso, Flávio. Brincadeira tem hora. Que honestidade é essa de que você está falando? Você, honesto?

– A honestidade é uma percepção minha.

Pegou o celular na cabeceira e fez uma ligação, ansioso.

– Luís, me desculpe te acordar a esta hora, mas é que…

– Eu já tava acordado. Tive um pesadelo e não consegui dormir de novo, com uma sensação esquisita.

– De honestidade?

– Não. De inocência. Acordei com percepção de inocência!

– Já falou com o Zanin?

– Na hora! Liguei pra ele e perguntei se não podia usar isso como argumento de defesa. Ele falou que sim, que tava pensando justamente nessa hipótese, porque ele também tinha acordado com uma percepção de eficiência, uma percepção de que ganha todas as causas.

– Será que…

– Não sei. Deixa eu ligar pra cumpanhêra Dilma.

Dilma já estava de pé, de taiê vermelho e tudo, escovando os dentes.

– Companheiro, acordei perplecta. Com uma percepção, no que se refere ao golpe, de que o golpe não colou, e que eu ainda mando nesta joça. Chamei o Bessias, pedi a limusine, mandei prender as emas e estou indo para o Alvorada. Espero que não seja só uma percepção minha, porque não tive nem tempo de chamar o Kamura, passar o taiê e não sei onde guardei a cópia da faixa.

O fenômeno era planetário. Nalgum ponto de Hollywood, Adam Sandler tivera uma percepção de que era engraçado e a família já chamara o médico. Na Suíça, Paulo Coelho era atendido na emergência, onde repetia “Ich bin talentosisch, Ich habe diese Perzeptizionen”.

Embaixo do chuveiro, Alexandre de Moraes, com a percepção de ter cabelos secos e quebradiços, reclamava do xampu da mulher, para cabelos oleosos. Maju se olhou no espelho, horrorizada com a percepção de ter que perder 20kg para caber em qualquer dos 125 tubinhos que tinha no closet.

O caos se instalara.

– Mas, seu guarda, é uma percepção minha de que a velocidade máxima nesta rua é de 180 km/h!

– Amor, me diz que não é só uma percepção minha, e que você teve mesmo orgasmos múltiplos mortais carpados com essa rapidinha de agora de manhã…

– Como assim tá faltando? É uma percepção minha que a pitaia tá a R$ 4,99 o quilo!

A ONU convocou o Conselho de Segurança. Trump tinha acabado de fazer um pronunciamento oficial afirmando que a vitória era uma percepção dele e que não precisavam nem contar os votos. Queiróz teve a percepção de que era um limão.

Propostas afins

Amigues,

Vocês já se divertiram à beça com a proposta estapafúrdia de se implantar uma linguagem neutra que, trocando um “O” por um “E”, acabaria com todes es problemes de machisme, misoginie, homofobie, transfobie etcétere.

Mas a ideia, em si, não é ruim. O que estraga é ser pouco abrangente e se limitar à questão de gênero. Há várias outras formas de opressão linguística – e a maior delas é… a opressão linguística.  Eu aproveitaria que todos os livros terão que ser reescritos e mandaria ver numa linguagem realmente inclusiva.

Muita gente não entende, por exemplo, a diferença entre “mau” e “mal”. E deve se sentir muito mau contando a história do lobo mal para os filhos, sem saber quando está usando um adjetivo ou um advérbio.

Solução: uniformizamos a grafia, e daqui pra frente será “mao”. Tanto fará ser bom ou mao, andar bem ou mao acompanhado. Isso no singular, porque no plural continuará havendo males que vêm para o bem, e os bons acabarão pagando pelos maus.

De uma penada só, lá se vão 25% dos erros de português.

“Mas” e “mais” são outra desgraça que pode estar com os dias contados se adotarmos a grafia única “maes”.

O corretor ortográfico vai criar caso nos primeiros dias, maes nunca maes teremos dúvidas se é para usar a conjunção adversativa ou o advérbio de intensidade.

Outros 25% de erros eliminados.

“Menos” ou “menas”? Menes.

“Meio” ou “meia”? Meie, seja adjetivo, advérbio, numeral ou substantivo.

“Há” ou “a”? Ah!, seja artigo, verbo, preposição ou interjeição – e ah crase vai fazer companhia ao trema, ah fita para máquina de escrever e ao estado civil de “desquitada” no limbo das coisas que perderam ah razão de existir ah muito tempo.

Ah menes que você seja uma pessoa meie lenta, já terá percebido que ah inúmeras vantagens nessas alterações – ah maior delas sendo outros 25% de correções a menes ah fazer nas provas do Enem, nas matérias dos jornais, nos tuítes de ministros da Educação.

Finalmente, a pergunta que não quer calar: por que o português tem que ser tão complicado? Deve haver um porquê. Talvez porque um monte de filólogos mortos tenha decidido assim – mas por quê?

Não importa. Na reforma contra o preconceito linguístico tudo vai virar “pq”.

Pq? Pq sim. Não tem que ter pq.

E lá se vão os 25% de erros restantes.

Por isso, pensem duas vezes antes de criticar seus amigues progressistes e as fórmulas mirabolantes que eles inventaram para resolver os problemas do mundo com uma canetada. Eles podem ser çem noção mas não estão çem por cento errados. (O “ç” também é uma mão na roda, né não?)

A etimologia nossa de cada dia

Cu” vem de “culus”, que não é especificamente o ânus, mas inclui a região carnuda a ele adjacente, as nádegas. E “eco” é o mesmo de “ecologia”, “ecossistema”: o habitat, o domicílio.  Logo, cueca é, literalmente, “a casa do cu”.

“Cu”, nesse sentido de “o traseiro”, deu também origem a “recuar” (retroceder, andar para trás), “acuar” (encurralar), “cueiro” (pano que envolve o bebê da cintura para baixo) e “culatra” (o fundo do cano da arma de fogo). Lembrando que “encurralar” não tem nada a ver com o isso: deriva de “curral” (que tanto pode ser o lugar de guardar o gado quanto os carros – no caso, as bigas romanas).

Bunda” não vem do latim, mas do quimbundo “mbunda” (ou “muna”) e quer dizer bunda mesmo (e também quadris). Não tem nenhuma relação com “abundância”, que vem do latim “abundare” (“ab” = fora + “unda” = onda), ou seja o que transborda, que existe em grande quantidade, como as ondas no mar.

Nádega” é que vem do latim “natica”, mas não significa nada além de nádega mesmo.

Poupança” tem origem mais interessante, a mesma de “apalpar”: o latim “palpare”. Para saber se podia gastar, a pessoa apalpava a bolsa de moedas – daí “poupar” no sentido de “economizar”, “gastar com moderação”.

Propina” é de origem grega, formada por “pro” = a favor + “pinein” = beber. Ou seja, a boa e velha “cervejinha”, um trocado para se beber alguma coisa. (“Gorjeta” tem origem parecida: vem de “gurguis” = garganta, que também deu origem a gárgula, gargarejo, gargalo, gargalhada; gorjeta era uma propina para “molhar a garganta”). “Suborno” tem a ver com o ato de, furtivamente (“sub”), enfeitar (“ornar”) alguém, presenteando disfarçadamente.

“Corrupção” vem do latim  “corrumpere“ (destruir, estragar), que, por sua vez, deriva de “rumpere” (romper, quebrar, arrebentar).

Centrão” vem de “centro” – do latim “centrum” (a ponta seca do compasso), que, por sua vez, tinha vindo do grego “kentron” (ferrão, objeto pontiagudo”).

Supõe-se que “Chico” venha do latim “ciccus”, a membrana entre os grãos da romã”, uma coisa pequena, sem valor. Em espanhol, “chico” quer dizer “pequeno” (e, por extensão, “menino, criança”). No Brasil, “Chico” é o hipocorístico (apelido carinhoso) para Francisco – possivelmente tendo se originado desse “cisco” no final do nome, o que nos leva de volta ao “ciccus” do latim.

Já “Rodrigues” é um patronímico (literalmente, “nome do pai”), significando “filho de Rodrigo” (assim como Fernandes é “filho de Fernando”, Gonçalves é “filho de Gonçalo” etc). Rodrigo, por sua vez, tem origem germânica – e em todos os saites de nomes de bebês (ou seja, fontes não muito confiáveis) consta que signifique “príncipe poderoso”.

Dinheiro” tem sua raiz na expressão latina “denarius nummus”, depois abreviada para “denarius” (a moeda de prata que valia dez moedas de cobre, chamadas “asses”).  “Ass”, em inglês, quer dizer “burro” (o animal e/ou a pessoa burra), mas também o traseiro, o cu – e aí voltamos ao início deste texto sem pé nem cabeça que tentou juntar coisas nada a ver umas com as outras: cueca, propina, dinheiro, bunda, Chico, Rodrigues, corrupção cu e centrão.

Faltou a palavra “fezes”, do latim “faex” = excremento.  Mas aí era ir muito fundo no tema.

Enquanto isso, no cafezinho de uma corte suprema…

– Excelência…

– Bom dia, ilustríssimo.

– Um cafezinho, por favor. Vossa Senhoria soltou hoje o preso que eu mandei prender ontem?

– Sim, Vossa Magnificência, mandei. Dois, por favor.

– Alicerçado em que jurisprudência, Eminência? O meu sem açúcar.

– Adoçante para mim. Eu me basto jurisprudencialmente, Vossa Reverendíssima.

– Vossa Santidade acha mesmo que pode fazer isso? Me vê um biscoitinho desses de nata.

– Posso, e não há nada que Vossa Alteza possa fazer. Um amanteigado pra mim.

– Vossa Majestade Imperial sabe que seu comportamento é teratológico – mais um, por favor – e exordialmente, incabível?

– Uma delícia esse amanteigado! Embrulha um pacotinho para eu levar para minha digníssima consorte. Vossa Mercê está equivocado, 

– Vossa Graça exorbita. Um pacote para mim também, e pode misturar os de nata com uns de chocolate.

– Vossa Alteza Senhoril, summum jus, summa injuria. Ubi non est justitia, ibi non potest esse jus.

– Salus populi suprema lex esto, mas Vossa Onipotência se acha o próprio Onipotente!

– Ora ora, vejam quem fala! O egrégio Meritíssimo que quer para si todos os méritos!

– Passar bem, insigne Sumidade!

– Passar bem, supremo e excelso indígete togado!

(Os dois, em uníssono)

–  Pendura a conta, Onofre!

Sequestro

– Sargento, chegou o pedido de resgate!

– Já não era sem tempo. Quanto a esquerda quer para devolver as pautas sociais sequestradas?

– Um bilhão, em cédulas de R$ 50,00 não sequenciais, carro com vidros escuros para a fuga, fora Bolsonaro, os dois anos que tomaram da Dilma e mais quatro para Lula, renováveis automaticamente. E exige que a Lava Jato fique fora disso.

– Eles não podem manter os direitos humanos em seu poder indefinidamente. Mais cedo ou mais tarde, terão que ceder.

– Precisamos libertar imediatamente essas pautas reféns, sargento. Antes que a síndrome de Estocolmo as ataque…

– Para o feminismo e a luta antirracismo pode ser tarde demais. Viu aquele cartaz “I love cativeiro”?

– Sim, alguns dos reféns aderiram aos sequestradores. Precisamos de reforços, porque os estudantes e os sem teto estão prestes a desistir de estudar e de ter uma casa

– Um negociador liberal poderia tentar uma troca. A direita entrega a economia em ordem, e eles libertam o meio-ambiente e o direito de ouvir Chico Buarque.

– E a descriminalização das drogas e do aborto?

– Estão blefando. Essas pautas não estão em poder deles. Foram abandonadas no caminho, há muito tempo. Nós as encontramos, à míngua – e colocamos num freezer, já que a direita também não quer saber delas.

– Ainda há esperança de resgatar, com vida, a liberdade de expressão?

– Pouca, mas há. O caso mais grave parece ser o da ideologia de gênero.

– Somos liberais, senhor, não sabemos como lidar com ideologia de gênero. Aliás, com ideologia de gênero nenhum…

– Engano seu, pequeno padawan. Nada do que é humano nos é estranho. Exceto, talvez, o cabelo do Guga Chacra e olho de gatinho da Renata Vasconcelos.

– Sargento, acaba de chegar uma mensagem do Quartel General. A direita capturou  a moral e os bons costumes. Mandou dizer que abre mão das reformas econômicas e da redução do tamanho do Estado, que logo serão abandonadas em algum terreno baldio. E, para deixar claras suas intenções, o combate à corrupção já foi libertado. Está bastante debilitado, e apresenta escoriações generalizadas, pois foi jogado do carro em movimento.

– Vai ser difícil negociar com essas duas quadrilhas simultaneamente…

– O pior o senhor não sabe, sargento: ambas as facções declararam guerra para ver quem é que vai se apossar do populismo.

Dark lá, sombrio aqui

Quem disser que entendeu “Dark”, a série alemã cuja última temporada estreou semana passada na Netflix, certamente estará mentindo. Porque o grande mérito da trama, que envolve viagens no tempo e entre mundos alternativos, é colocar Tico e Teco em pânico.

Nos acostumamos às novelas, em que tudo é reiterado, regurgitado, concebido de modo que se possa brincar com o gato no sofá ou levantar para pegar água na geladeira, sem perder o fio de meada. Em “Dark” todos os fios permanecem, até o último minuto, soltos – e desencapados. Piscou, perdeu. Não piscou, perdeu do mesmo jeito.

Mais ou menos como o Brasil.

Em que ano estamos? Depende. Tem hora que é 2020, tem hora que é 1964 ou 1968. Por vezes é 2018, ainda no auge da campanha eleitoral – ou nos vemos confinados em um perpétuo 1984, só que no universo paralelo do Orwell.

(…)

Em “Dark” o presente influencia o passado. Exatamente como acontece no Brasil, onde descobrimos que o nazifascismo é agora, e temos que rever o que houve na Alemanha dos anos 30 e 40. Vivemos num apartheid e até o Valter Hugo Mãe embarcou na narrativa do genocídio tupiniquim, o que exige reavaliação imediata das tragédias da África do Sul, da Armênia, do Camboja, de Ruanda.
Se na série é difícil saber quem são Mikkel, Mads e Magnus, aqui temos Weintraub, Wajngarten e Wassef, que não ficam atrás. Se lá o paradoxo é uma personagem ser avó de si mesma (ih, esqueci de avisar que tinha espóiler!), aqui a questão é se seria Chauí um Olavo de franja, ou Olavo uma Chauí de cachimbo.

(…)

“Ele não quer salvar o mundo do mal. Ele é o Mal”, diz alguém em “Dark”. É ou não é puro Brasil isso daí?
“O bem e o mal são uma questão de perspectiva”, filosofa Mikkel – ou seria algum pregador do “ódio do bem” nas redes sociais?
“Não é estranho sentirmos aversão às pessoas que são mais parecidas conosco?”, indaga-se o enigmático Adam – assumindo o que se passa na mente dos que negam peremptoriamente qualquer simetria entre o que temos hoje e o que tínhamos até alguns anos atrás.

Na política, como em “Dark”, o ontem e o hoje (e, presumivelmente, o amanhã e o depois de amanhã) não se sucedem, mas estão conectados em um círculo infinito. O eterno retorno do populismo, do fascínio pelo autoritarismo e – desgraça pouca é bobagem – do Centrão.

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Porque hoje é sexta, n’O GLOBO.

https://oglobo.globo.com/opiniao/dark-la-sombrio-aqui-24512525

Bueiro

– Se já estão todas, todos e todes aí, podemos dar início a esta reunião extraordinária do Patrimônio Histórico e Cultural para decidir sobre os monumentos que merecem permanecer nos espaços públicos, os que vão para a reserva técnica dos museus e os que podem ser fundidos para fabricação de tampa de bueiro.  Deixa eu ver minha lista aqui. Hmmm… estátua equestre de Pedro I, na praça Tiradentes.

– Misógino, macho tóxico e abandonou afetivamente os filhos.

– Bueiro?

– Bueiro. Mas podemos deixar o cavalo.

– Ok, a estátua equestre vira uma estátua equina.  Estátua de Pedro II, na Quinta da Boa Vista.

– Escravocrata, gordofóbico…

– Gordofóbico?

– Já viu fotos da imperatriz, que ele trocou pela esbelta Condessa de Barral? Gordofobia raiz.

– Bueiro?

– Bueiro.

– Já que estamos na família imperial, temos a Princesa Isabel na avenida dela mesma. Essa fica, não é? Afinal, é mulher e…

– Sem chance. Vivia cercada de mucamas e se referia a uma de suas escravas, chamada Marta, como “negrinha de quarto”. Bueiro. E na Abolição, para aprender.

– Ok. Tiradentes, na Primeiro de Março, em frente ao palácio dele mesmo.

– Escravocrata. Perguntem pro Laurentino Gomes. Bueiro.

– Será que não vai escapar nem o Machado de Assis, ali em frente da Academia Brasileira de Letras?

– Nem pensar. Machado nunca assumiu sua negritude. Seus protagonistas são todos brancos. Capitu era quilombola? Brás Cubas era afrodescendente? Ele só tinha olhos para a burguesia da Rua do Ouvidor. Bueiro, e bem longe do Cosme Velho.

– Gente, vai faltar bueiro nesta cidade para tanta tampa! Para poupar tempo, melhor mandar fundir todas as estátuas de personalidades do século 19 para trás, não acham?

– Claro que não. Tem Zumbi dos Palmares, ali na Presidente Vargas. Essa fica.

– Mas Zumbi não tinha escravos? O Leandro Narloch levanta essa questão e….

– Nossa, quase quatro da tarde! Desculpe, mas marquei manicure e com essa demanda represada da pandemia, não posso me atrasar. Semana que vem a gente retoma, tá? E podemos começar pelo Drummond, ali no calçadão de Copacabana.

– Ah, tão bom passar pela orla e encontrá-lo ali, no meio do caminho…

– Esquece. Ele colaborou com o Estado Novo. Fascista.

– Bueiro?

-Bueiro. Fui!

Números

Noêmia se preparava para sair do cemitério, amparada pelos filhos, quando Moacirzinho a puxou pelo braço.

– Mãe, tá ouvindo?

Soluçando e fungando, Noêmia não ouvia nada.

– Mãe, escuta.

Todos pararam. Zirlene, que não tinha largado o celular um minuto durante todo o sepultamento, tirou o fone do ouvido e também ouviu.

– O barulho. Lá embaixo.

Havia mesmo um tum tum tum abafado, vindo debaixo do montinho de terra fofa.

Tudo bem que não tinha havido velório, que Moacir fora entregue envelopado e ninguém pudera ver o corpo, mas…

Começou o corre-corre, o escava-escava. O coveiro com a pá, Moacirzinho e o os primos e tios, com as mãos.  O tum tum tum cada vez mais forte, até que chegaram ao caixão, abriram-no, puxaram o fechecler do saco plástico e lá estava Moacir, de olhão arregalado.

Noêmia não sabia se desmaiava de emoção ou de pavor.

– Papai! – contra todas as recomendações médicas, era Moacirzinho que se jogava sobre o corpo do pai, dando no reencontro o abraço que não pudera dar na despedida.

Içaram Moacir enquanto Noêmia recuperava os sentidos.

Claro que estavam todos perplexos e felizes, mas era nítido que havia algo errado com Moacir.

Ele não respirava.

– Pai, você tá bem?

Moacir não respondeu.

Valdemar apalpou o irmão e declarou:

– Ele está duro.

– Rigor mortis – pontificou o coveiro, gastando o único latim que sabia.

Zirlene, de celular em punho, decifrou o mistério.

– Foi o governo. Papai não está mais morto. Ele e mais 352 foram ressuscitados na recontagem.

Ficaram todos imóveis – Moacir mais imóvel que os outros.  Quiseram levá-lo para casa, mas ele não andava.

– Rigor mortis, eu falei – repetiu o coveiro. As juntas não dobram.

Carregaram-no até o Uno, mas logo viram que iam precisar de uma Kombi ou, quem sabe tivessem que levá-lo em pé, de ônibus.

Moacir não só não respirava como não piscava, e só parava em pé porque Valdemar e Moacirzinho o seguravam.

Noêmia pensava num jeito de desmaiar de novo e acordar apenas quando tudo aquilo tivesse acabado.

– Gente – falou Zirlene, ainda mexendo no celular – parece que o Globo, a Folha e o Estadão estão fazendo uma contagem paralela dos óbitos e…

No meio da frase, Moacir caiu para trás. Mais duro do que antes.

O manifesto dos bichos

A jararaca e o abutre estavam deixando a fazenda em pânico.

A escolha entre morrer de picada ou de bicada não parecia muito animadora para a fauna local.

– Jararaca só pica pra se defender! – proclamavam os jararaquistas.

– Abutre só bica quem já morreu! – protestavam os abutristas.

Mas não faltavam casos de coelhinhos estrebuchando sob efeito de veneno (logo coelhinhos, que não atacam ninguém) e gatinhos ainda miando ao ser devorados (logo eles, que têm sete vidas).

Reuniu-se a bicharada, que deliberou por um manifesto supraespecista  (ou supraespeciário, ou supraespecial – ou seja, acima das diferenças de espécie). Contra o abutre.

– Contra o abutre? Mas e a jararaca?

– Primeiro a gente tira o abutre. Depois a gente se entende com a jararaca.

– Como assim, “a gente se entende com a jararaca”?

– Modo de dizer. Depois a gente dá um jeito na jararaca.

– Não era melhor a gente fazer também um manifesto antijararaca? Com a rexitegue #jararacanão?

– A jararaca está escondida na toca de um amigo. Quem está nos sobrevoando é o abutre.

(Nessa hora o abutre deu um rasante. Ele sempre dava um jeito de confirmar as piores previsões a seu respeito.)

– Viu, não falei? Somos 70% contra o abutre.

– Mas também somos 70% contra a jararaca.

– Que tal um movimento juntando os dois 70%? Seria um “Somos 140% contra o abutre e a jararaca” – exclamou um burro de humanas.

– Isso está matematicamente incorreto – resmungou um bode de exatas.

–  Vamos fazer então um “Juntos somos 100% e basta!”

– Ótimo.

– Perfeito.

– Joia.

– Deixa que eu redijo então: “Au au…”

– Como assim “Au au”?  Tem que começar com “Bééé”.

– Por que “Bééé”?  Escreve aí “Múúúú…”

– Dizem que sapo de fora não chia, mas tem que ser “Coach, coach”.

– Eu não ia dar um pio, mas se não for “Piu piu piu”, eu estou fora.

– Oinc! Oinc!

– Quac quac!

Enquanto isso a jararaca armava o bote e o abutre partia para mais um rasante.

Levanta e anda!

Bolsonaro operou um milagre: ressuscitou o PT.

A prova – prontinha para ser apresentada ao Vaticano – foi termos ontem, no Jornal Nacional, o Zeduardo Cardozo (lembram dele? poizé, o próprio) dando lições de como deve se comportar um ministro da Justiça.

Logo depois (ou pouco antes, não me lembro agora), veio um longo discurso, praticamente cinco minutos de horário eleitoral gratuito, de uma deputada do PSOL, dizendo coisas lógicas e lúcidas.

Quando um discurso do PSOL soa lógico e/ou lúcido é porque deu um tilt na Matrix.

Quais eram as chances de os petistas e os não-sou-petista-mas se rearticularem e voltarem à cena política sem fazer nenhuma autocrítica, nenhum errei-sim-manchei-o-teu-nome dirigido à esquerda, nenhum mea culpa – ou, pelo menos, um foi-mal-aê – dirigido ao país? -273,15º Celsius, zero absoluto. E no entanto…

Neste ritmo, logo teremos José Dirceu no Roda Viva defendendo a ética na política. Lulinha dando côutchim de comportamento para filhos de presidente. Gleisi e Maria do Rosário ministrando na Socila curso de etiqueta para militância feminina. O povo que acampava em frente à PF de Curitiba fazendo uorquixope de civilidade para o povo que acampa no curralzinho montado em frente ao Palácio da Alvorada.

Adriana Ancelmo fará laives com dicas de campláiãs para primeiras-damas do Rio de Janeiro. E Lula e Dilma, em pessoa, explanarão sobre os limites da eficácia de palavrões, perdigotos, ameaças e murros na mesa como técnicas de persuasão e oratória.

O PT, que já tinha cogitado de tirar o vermelho da sua bandeira, pode ser mais sutil e apenas trocar a estrelinha branca por uma fênix.

Mais um milagre desses e Bolsonaro se habilitará a ser canonizado em vida.  

P.S. Aproveito para propor a substituição do hino nacional por um samba canção do Lupicínio:

“Foi assim
Troquei essa pessoa que eu morava
Por essa criatura que eu julgava
Pudesse compreender todo meu eu
Mas no fim
Fiquei na mesma coisa em que estava
Porque a criatura que eu sonhava
Não faz aquilo que me prometeu
(…)
Se deixo de alguém
Por falta de carinho
Por brigas e outras coisas mais
Quem aparece no meu caminho
Tem os defeitos iguais.”