Coração vagabundo

Coracao

Meus amigos, eu tentei, mas não vai dar para agradecer a um por um pelas mensagens recebidas durante o meu piripaque cardíaco.  E olha que nenhum comentário mereceria mais uma resposta do que aqueles.

O diagnóstico é “flutter e fibrilação atrial” – o que, em língua de gente, significa que o tique-tique-taque do meu coração atravessou o samba, que o meu coração traiçoeiro passou a bater mais que o bongô, a tremer mais que as maracas – e não era descompassado de amor.

Aí a pressão despencou e eu despenquei junto. Estava desidratado (pelo meu peso, preciso tomar uns dez copos d’água por dia – e minha média é de um copo a cada dois dias (devo ter sido cacto em outra encarnação, o que explica também esse jeito espinhoso de ser).

Já tinha desmaiado em casa, no sábado, mas não dei bola. Na quarta recomeçaram as tonturas e de repente entrou em cartaz o que parecia ser o tal filme a que a gente assiste, em sessão privada, na hora da morte. Foi quando descobri que minha vida era em preto e branco, sem nada digno de nota e sem nada branco. Simplesmente escureceu tudo e fui.

Fui para a emergência, com direito a cadeira de rodas e a furar fila. Pressão 8 x 6 – eu que sou 12 x 8 desde criancinha. Rodaram um eletro (sempre soube que faziam eletro – mas lá eles rodavam eletro) e o enfermeiro informou que teria que raspar meu peito.  Devo ter feito uma cara feia, porque ele entendeu, caprichou um pouco mais no gel e escapei da tosa. Coletaram sangue (e deixaram o acesso no meu braço, o que é sempre um mau sinal) e me botaram para ser hidratado, numa sala de clima glacial.

Éramos oito: eu, um outro cara e seis mulheres. As seis de agasalho e, a pedido, cobertas com uma manta. O cara, de camiseta e bermuda; eu em manga de camisa, ambos dotados daquele isolamento térmico que só a masculinidade tóxica provê. As meninas (tirando a que estava ao meu lado, eram todas bem jovens) batiam queixo, o cara mexia no celular, alheio ao frio, e eu me perguntava até quando iria aguentar aquele atmosfera curitibana (todos se ignorando, ninguém puxando assunto com ninguém e a temperatura em queda livre).

As pontas dos meus dedos já estavam adquirindo um belo tom azulado quando o cara foi liberado e eu pude me liberar também da minha obrigação de manter a pose e pedi a manta. Liberdade pode ser uma calça velha, azul e desbotada, mas felicidade é uma manta quentinha.

Novo eletro, e nova ameaça de depilação, também contornada. Já devia ser meia-noite, e lá ia eu para a tomografia.  Esperando pelo elevador, dou de cara com a placa “Análizes clínicas”. Parece que o Weintraub andou fazendo bico de comunicação visual antes de ser ministro.

Me injetam o contraste e tenho uma palinha do que deve ser uma experiência lisérgica, porque tomo consciência de todas as veias do meu corpo. Volto ao consultório e vem a notícia: não só não vou embora como vou é pra UTI.

Assim como as testemunhas de Jeová não aceitam transfusão e os esquerdistas não aceitam a realidade, eu não aceito uma série de procedimentos: ser entubado, amputado, transplantado, fazer quimioterapia e… ir para UTI.  Tento explicar isso à médica, sem muito sucesso. Cadê meu testamento vital, que eu devia carregar no bolso, junto com a identidade, a carteirinha do plano de saúde e o dinheiro do ladrão?

Chegam mais enfermeiros, me injetam um troço na barriga (para afinar o sangue), me coletam mais sangue (pelo outro braço, não pelo que já está com acesso, porque esse será para os medicamentos) e voltam com a história de raspar o peito para rodar outro eletro. Explico que é o terceiro eletro do dia e que os outros foram feitos sem nenhum procedimento depilatório.

– Mas você é um tonirramos – diz um dos enfermeiros, em tom que me soou libidinoso, mas pode ter sido impressão minha, efeito da pressão baixa ou do contraste ainda circulando no organismo.

Chega a cardiologista e me convence a ir para a UTI com um argumento matador: posso ter uma trombose ou um AVC.  Assim como capitulei à manta quentinha na sala gelada, capitulo diante dessa perspectiva nada auspiciosa.  Não há vaga na UTI, e vou ter que passar a noite na emergência – com luz acesa, macas entrando e saindo, gente falando como se estivesse num pregão da bolsa de valores e monitores apitando. Por um momento, tenho saudade da vizinha de cima. Mas passa logo.

Preciso tirar a roupa e vestir um daqueles aventais ridículos, que deixam a gente com a bunda de fora. Ainda vou entender esse fetiche que os médicos têm em ver os pacientes com a bunda de fora. Não posso ficar com nada, exceto os óculos. Explico que tenho que entregar um artigo pro jornal no dia seguinte, e que preciso do celular tanto para terminar o texto quanto para enviá-lo.  Já que não vai dar para dormir mesmo, tempo não vai me faltar.  Posso, inclusive, escrever outro texto sobre a brutal diferença entre hospitais públicos e privados, porque tinha estado no Miguel Couto alguns dias antes.

– Sobre o que é o texto? – pergunta a médica.

– Sexo – respondo, vagamente.

– Pode escrever sobre o coração.

– Pelo menos agora sei que tenho um. E como estou sendo cuidado por uma cardiologista, não por uma geóloga, é sinal que não é de pedra.

Ela me deixa ficar com o celular e eu fico na UTI por dois dias, pensando que com meus plugues de cera para o ouvido e uma daquelas máscaras de cobrir os olhos que a gente ganhava no avião (acho que a minha ainda é da PanAm), até que a experiência não é tão ruim.

De novo: obrigado a todo mundo que se preocupou, que desejou melhoras. Já estou bem (bem lento, meio em câmera lenta, mas estou). E fiquei pensando: no domingo, lá estava eu visitando a Claudinha Telles no hospital, preocupado com seu coração dilatado, e fazendo planos para um livro com as histórias da sua carreira, sem saber que o meu coração desafinava aqui do lado esquerdo do peito.  Três dias depois, estávamos ambos na UTI.

O que preciso agora é aprender a beber água. E, desde que possa levar os protetores auriculares, a máscara e o celular, vou tirar do meu testamento vital a menção à UTI.  E incluir a tricotomia entre os procedimentos inaceitáveis. Porque da depilação para a tatuagem e o piercing, é um pulo.

E vamos torcer para que a Claudinha possa logo vir contar os causos da sua internação. Já vi o vídeo em que ela canta para os outros pacientes. O coração dela não é só maior – é também mais afinado que o meu.

 

 

Baseado em fatos reais

rainha

– Alô.

– Oi, vó. Sou eu.

– William, já não te falei para não me ligar me chamando de vó no horário de expediente?  Das 7h às 22h é Your Majesty.

– Não, vó. Sou eu.

– Que foi desta vez? O George inventou de fazer mais um doutorado e você quer que eu ligue pra Oxford? Ele já tem 35 anos, 8 doutorados, acho que chega, né? Ele faz qualquer coisa para não casar, mas vai que um dia precisamos de um herdeiro ao trono…

– Não, vó. Eu.

– É a Charlotte, então? O que foi que as pestes das filhas dela aprontaram desta vez, William? Na semana passada rabiscaram um bigode no retrato da great-great-great-great-grandma Vitória e botaram fogo na sacristia de Westminster. Eu avisei que se fizessem isso mais uma vez eu deserdava as duas!

– Vó…

– Não vai me dizer que o Louis engravidou a namorada! William, é a terceira vez que o Louis engravida uma namorada este semestre. E nem é a mesma namorada! Desse jeito, a minha linha sucessória vai virar um novelo.

– Vó, sou eu, o Harry.

– Quem?

– Harry.

– Aquele ruivo? [Bota a mão no bocal do telefone e faz uma ligação pelo celular] Kate, é a Lilibeth. Como é que chamava aquele seu cunhado, irmão do Will, um ruivo, filho da Diana?

– Vó…

– Just a minute, please. [Cobre de novo o bocal com a mão] Um ruivo, Kate, de cabelo encaracolado, que não parecia com ninguém da família desde Henrique VIII.  Você e a mulher dele não se davam, lembra? Isso faz tempo, foi antes de você ter o Edward, o Philip, a Mary, o Richard, o James, a Alexandra, a Vic e os trigêmeos.

– Vó.

– Teiquirize, young man.   Já falo com você.  [Volta ao celular] O Charles ainda era vivo. Era Harry que se chamava, não era? Tem alguém aqui na linha com esse nome querendo falar comigo. Como é que será que ele conseguiu meu telefone?

– Vó…

– Olá, Harold. Desculpe, a ligação estava picotando. Há quanto tempo…

– Harry. Pois é, vó. Trinta anos, já.

– Time flies…

– Eu queria que a senhora soubesse que todos esses anos eu só pensei em voltar, mas a Meg…

–  Sei como é. O Philip e eu brigamos hoje cedo e desde então ele está tentando voltar, mas deve estar perdido em algum corredor, não acha o caminho…. rá rá rá.. E a Inglaterra quer voltar para a Europa desde 2020, e também não consegue. É a vida, né?

– Eu era jovem, ingênuo, vó. Mas agora eu dou valor. Eu levava uma vida de príncipe e…

– … abriu mão dela, right? Tio Dick também fez isso, e também por uma divorciada americana. Eu não sei o que os homens desta família veem em divorciadas americanas, mas, enfim.  Como é que está o…. o….  Flipper?

– Arquibaldo, vó.

– Eu sabia que era um nome de golfinho. O Arquibaldo, como vai?

– Vai bem. Trabalha como vendedor de seguros de dia, e de noite é barman num pub aqui de Toronto.  A Meg voltou pra casa da mãe dela, e o Archie preferiu ficar comigo, porque não queria ir pros Estados Unidos e correr o risco de ter que lutar na guerra de Dubai.

– Não era guerra do Qatar?

– Essa foi semana passada, depois da guerra da Arábia Saudita, e antes da guerra de Abu Dhabi.

– Mas assim que acabar o petróleo todo, não vai ter mais guerra lá, e ele pode voltar pros Estados Unidos sossegado.

– A gente estava pensando em voltar era para a Inglaterra, fazer as pazes com o Will, com a Kate, com as corridas de cavalos, com os bailes de gala, a pensão da família real…. Eu nem conheço todos os meus 11 sobrinhos…

– Estão lindos. E são 17, se não me engano. Pelo menos eram, até a última contagem que mandei fazer. O mais velho, o George, ainda não casou – mas mais vale um celibato que outra divorciada americana. Charlotte tem as duas meninas, Marge e Beth, umas encapetadas, que puxaram sua tia avó, a Margarete. Se o George não casar, quem talvez vá para o trono algum dia seja a Marge – e aí seja o que Santa Thatcher quiser. Louis puxou a família da avó, os Spencer, e é da pá virada. Mas enquanto eu aguentar apertar a mão dos primeiros ministros, e fingir que estou interessada no papo, vou levando.

– Então, vó, eu…

– Liga para o protocolo real, vê como está a agenda para 2050 e a gente marca um chá das 5 qualquer hora dessas. Se a Scotland Yard conseguir localizar o Philip até lá, ele participa também.

– Mas, vó, tem a passagem…

– Ah, sim, claro, a passagem. A passagem do Charles foi muito triste. A da Camilla nem tanto. Mas ele já estava com quase 90 anos, ela já tinha passado dos 100. Todos nós sentimos muito, principalmente os caricaturistas dos tabloides. Agora eles se divertem é com a careca do Will. E com a filharada dele e da Kate. A passagem da Anne, do Andrew, do Edward e do Winston também foi triste.

– Winston?

– O corgi. Sobreviveu à Maggie, ao John, ao Tony, ao Gordon, ao David, à Teresa, ao Bóris e aos outros 20 pets que vieram depois. Mas engasgou com um Yorkshire pudding. Quer dizer, ele achou que era um Yorkshire pudding, e era só um yorkshire. Poor Winston.

– Vó, se eu voltar, eu volto para a linha de sucessão, né?

– Quando você abriu mão de tudo, a fila andou e acho que sua posição agora deve ser logo depois do Keith Richards.

– O Keith Richards está vivo?

– Vivíssimo de Windsor! Vem inclusive tocar na minha festa de aniversário. Na dos 120 anos ele não pôde, porque estava numa rehab, mas agora na de 125 ai dele se faltar.

– Tá, vó. A Meg levou tudo, mas eu e o Archie damos um jeito e voltamos. Miss you!

– Só avise seis meses antes, que eu tenho que ir para a Austrália, a África do Sul, a Índia, o Quênia, as Malvinas, na comemoração dos 100 anos de reinado.

– Não vai passar pelo Canadá? Podia me dar uma carona…

– Vou, mas não dá. O iate vai estar lotado. Todos os filhos da Kate irão. Estamos até providenciando uns botes extras, para o caso de nascer mais algum durante a viagem. Beijo, Harold. Vovó adorou falar com você.

– É Harry, vó. E será que a senhora não podia passar um doc… Vó? Vó?

Partiu exit

exit

O Reino Unido parece chocado com o Megxit, a saída da duquesa de Sussex, Meghan Markle, da Casa Real. E levando a reboque o marido, que acumula as funções de neto da rainha, filho do provável futuro rei (se a rainha, eventualmente, resolver vir a falecer algum dia), irmão do rei seguinte e tio do reizinho que virá a seguir.

O casal ex-real quer partir para novos desafios, adquirir independência financeira e levar uma vida de gente normal, do tipo que compra a crediário, cerze meia e aproveita o aniversário do Guanabara para abastecer a despensa.

Já pensou se a moda pega, e temos aqui no Brasil o Flavioxit, o Duduxit e o Carluxexit?

No Flavioxit, o moço assume o mandato de senador e, nas horas vagas, vai vender chocolate. Arruma um partido (atualmente, não tem nenhum), arruma um bom advogado (atualmente, precisa muito de um) e resolve a relação com o Queiroz.

No Duduxit, o moço assume o mandato de deputado, abre uma hamburgueria numa academia de tiro (ou uma academia de tiro com hamburgueria anexa) e usa o próprio exemplo de superação de trauma (imagina perder a chance de fazer selfie no Salão Oval com o dedo no botão que dispara mísseis!) para dar uma moral no consultório de côutchim da patroa.

O Carluxexit seria mais complicado, porque cortar o cordão umbilical pode demandar anestesia. Mas o moço assumiria o mandato de vereador (é preciso passar o endereço da Câmara para ele, e ter alguém de receptivo na porta, com o nome dele numa plaquinha e um mapa do gabinete, para ele não se perder). Com o primo, pode abrir uma agência de viagens ou de relações públicas, usando sua expertise em redes sociais.

O PT deve sonhar com o Janjexit, e a nova senhora Lula da Silva deixando de controlar a agenda do namorado.

O PC do B comemoraria o foicexit, ensaiado no Movimento 65 (campanha de filiação ao partido sem mencionar que o partido é comunista e com a foice longe das vistas dos incautos).

O PODEMOS lidará super bem com o Felicianexit. O PSL, com o todomundexit. A Globo, com o Gagliassexit. A primeira divisão, com o Cruzeirexit.

As duplas sertanejas poderiam aderir ao segundavozexit. As gravações ficariam exatamente iguais e ninguém precisaria dividir o cachê. O problema é a segunda voz partir para a carreira solo, o que dobraria o número de artistas sertanejos. Melhor não.

O Gentilli e o Fachel só teriam a ganhar com o canecaexit, tirando da mesa aquela caneca inútil que só serve para lembrar que estão imitando tolquixôus americanos.

E o Rio, com o Crivelexit – se bem que se o prefeito deixar suas funções é capaz de ninguém notar a diferença.

Tatu

tatu

Lu resolveu que precisava fazer uma nova tatuagem.

Já tinha um alienígena, uma rosa, uma frase feminista, quatro ideogramas, grafismos maoris e celtas, um leão (seu signo), uma medusa subindo pelo pescoço, uma fênix, uma coluna vertebral em 3D ao longo da coluna (nascendo em cima da palavra “like” de “A woman without a man is like a fish without a bicycle”, em letras góticas) e uma orquídea.

Tinha também um código de barras no antebraço esquerdo, a língua dos Rolling Stones na lateral do seio, uma alcachofra no ombro, uma mão de Fátima no dorso da mão, uma flor de lótus no dorso da outra, dentes de leão logo abaixo da axila, uma coruja na panturrilha (era para ser na omoplata, mas ali, além do leão, já havia uma carpa, um unicórnio, uma Betty Boop, um Om e uma inscrição em árabe – que o moço que vendia esfirra artesanal traduziu como “Imóvel à venda, tratar com Jamile na loja de ferragens”, mas preferiu não contar).

Num dos pulsos, tinha um zíper; no outro, um cacto, uma borboleta, um filtro dos sonhos e um bando da andorinhas. Nas pernas, um arco íris, um yin e um yang, um revólver atirando flores, uma Jéssica Rabbit, uma rosa dos ventos, uma equação de segundo grau, um jogo da velha e um Coringa (o do baralho).

E agora precisava (precisava muito!) fazer um Chapolin Colorado, mas… não encontrava mais lugar.

Na virilha, havia cerejas (lembra da orquídea? ficava de um lado e as cerejas do outro – e, quando a depilação estava em dia, era possível ver com mais clareza um escorpião, que era seu ascendente, e uma lua em Capricórnio).

Talvez pudesse fazer o Chapolin entre o elefante, o dragão, o número 7 e a salamandra, que ocupavam as costelas de um lado (do outro, estavam um sapo, uma smurfete, uma jangada feita por um argentino em Jericoacoara – com um símbolo esotérico ancestral na vela, que Lu depois descobriu ser o escudo do River Plate -, uma estrela cadente, uma terra plana, um colibri, uma calculadora Cassio – com 3,1614 no visor -, uma libélula e um pentagrama).

Logo abaixo das nádegas, vinham um girassol, um gato, duas mandalas, uma âncora, Naruto, Pinóquio, e=mc2, um parafuso, uma cornucópia, e XIIIII/VIIII/IIMMIIII (data da primeira menstruação, supostamente em algarismos romanos, feita por uma tatuadora holandesa em São Tomé das Letras).

Resumindo – não cabia mais nada – porque numa nádega havia uma baleia jubarte com o filhote e, na outra, Alice com o Chapeleiro Maluco e uma barra de Toblerone.

Mas como ficar sem o Chapolin?  Num dos seios, tatuara um vulcão (o mamilo era a cratera, de onde a lava escorria até perto do ferro elétrico e a tábua de passar, homenagens à sua mãe). O outro seio era coberto por uma teia de aranha, sendo a aréola o abdome da caranguejeira, em alto relevo. Do umbigo subiam delicadas volutas verdes até encontrar as frases “Carpe diem”, “Accept your destination” e algo em sânscrito, que o moço que vende esfirra artesanal não conseguiu traduzir, mas que o tatuador peruano de Morro de São Paulo afirmou ser “Amar, pode dar certo” – assim mesmo, com vírgula e tudo.

Lu postou seu desespero no insta. De joelhos (num deles havia uma fada e um manete da Nintendo; no outro, um dálmata, um apontador de lápis e uma Frida) ela perguntava como ia viver sem o Chapolin Colorado, já que a mãe a proibira de tatuar o rosto (só mesmo o olho egípcio nas pálpebras, e olhe lá).  Alguém sugeriu pedir emprestado espaço na pele de outra pessoa, mediante pagamento. Apareceu um rapaz que ainda tinha cerca de 5 cm2 disponíveis na nuca e morava em Senador Firmino, MG. Não era a localização ideal, mas ele se comprometeu a passar máquina zero uma vez por mês e mandar uma foto para comprovar que o Chapolin continuava bem visível.

Lu e o namorado sentiram que havia ali um filão e criaram o Tattoober, que agencia pele extra para quem já não tem mais espaço no próprio corpo. Você diz que tatuagem quer fazer e as pessoas dizem que partes do corpo ainda têm disponíveis. Se der match, é só pagar a taxa e chamar o tatuador (a fatura cai no cartão do tatuado virtual).

Além do Chapolin em Senador Firmino, MG, Lu tem um teletubie roxo num ombro em Camaçari, BA, e uma tribal marajoara numa panturrilha em Zamboanga, nas Filipinas.

Para evitar que alguém venda tatuagem e aplique henna, a Tattoober exige que o procedimento seja transmitido onlaine, enquanto o tatuado remoto recebe agulhadas sem tinta, só para criar um vínculo álgico (também conhecido como “aquela deliciosa dor desgraçada”) com o desenho que irá circular em outra parte do corpo, em outra parte do mundo.

Hoje, Lu acordou precisando muito (muito!) tatuar um louva-a-deus ou um filtro de linha – não definiu ainda. Viu que há um cóccix disponível em Paragominas, PA, e uma parte de trás da coxa em Cochabamba, na Bolívia. No Rio, o cm2 de pele virgem está uma fortuna, e mesmo assim só se encontra em freiras na clausura do Convento de Santa Teresa e numa comunidade neopentecostal de Brás de Pina.  Mas de que adianta uma tatuagem que ninguém vai ver, a não ser numa eventual autópsia?

Lu e Beto, o namorado, têm estudado formas de fazer tatuagens internas, por meio de videolaparoscopia. A Anvisa ainda não foi consultada, mas já há lista de espera para quem quer uma sereia no fígado, um coração flechado no pericárdio (olha que fofo!) e uma caveira mexicana no interior do crânio.

Mas esta semana uma digital influencer belga chocou a internet e foi parar nos trend topics ao tatuar 100% da superfície corporal no tom da sua pele original. Suas aparições em público sem nenhum rabisco têm provocado uma onda mundial de pasmo e indignação. Especialistas se dividem entre tratar-se de um caso de exibicionismo crônico ou de incapacidade de expressar os próprios sentimentos.

O julgamento da desgaratujofobia deve entrar na pauta do STF em 2020. A Ministra Rosa Weber já prepara um voto em que fala das pintura rupestres, dos petroglifos de Nazca, dos corações em casca de árvore, dos queloides, das assinaturas no gesso do braço quebrado, passando pelos bois marcados a ferro quente, o chicle de bola Ploc, a hermenêutica teratológica e os carimbos usados nas boates para indicar quem já pagou.

Lu nem dormiu esta noite pensando em tatuar a íntegra do voto. Mas para isso precisa da população da China, da Índia, da Indonésia, do Paquistão e da Nigéria, além de quem acha que o Papa deva ser enquadrado na Lei Maria da Penha por espancar aquela fiel na Praça de São Pedro. E, ainda tem que fazer um ajuste no Chapolin Colorado, que saiu com M, não com N.

Pedantismo gramatical

books

Comecei a ler “Maria Claire” por causa de um problema médico.

Estava na sala de espera, o médico atrasou, eu já tinha folheado todas as “Caras” e só me restavam a “Marie Claire” ou olhar para o teto.

Fiz a escolha certa, depois de verificar que o teto era de gesso liso, sem sanca, rasgo, moldura ou tabica, com pintura látex PVA branco neve e luminárias de embutir.

Tenho TOC com erro de português – culpa do avô cruciverbalista, que me corrigia o vernáculo desde quando eu ainda era analfabeto. Com uma “Marie Claire” nas mãos, a pessoa que, como eu, padece de pedantismo gramatical morre de tudo, menos de tédio.

Quanto mais erros encontrava, mais interessante ficava a leitura. Deu dó largar a revista quando a recepcionista finalmente me chamou, meia hora e dezenas de erros depois.

Pensei em fazer uma assinatura, mas meu plano de saúde não tem limite de consultas, e saía mais em conta ir ao endócrino a cada 15 dias, fingindo ver se o colesterol tinha ou não entrado nos eixos. Descobri que posso ler algumas matérias pela internet, e agora me divirto em casa mesmo, sem a recepcionista achar que sou hipocondríaco.

Hoje, por exemplo, encontrei uma reportagem esclarecendo o caso dos “11 bacuraus” –treta que rolou no tuíter esta semana, envolvendo um jornalista que, supostamente, teria levado a mulher e as dez namoradas para ver o filme “Bacurau” (sem nenhuma delas saber da existência das demais).

“Esse número são as que a gente sabe, pois certeza que tem mais, as que nunca se pronunciaram e nem vão.”

Sim, quem escreveu isso foi uma jornalista. Fosse um jogo dos sete erros, faltariam dois – ou eu é que não procurei direito. Mas cinco – “esse número são”, “pois certeza”, “tem mais”, vírgula no lugar de ponto ou ponto e vírgula, “e nem” – até que não está nada mau.

“Durante a viagem, mantivemos contato durante a semana inteira.”

Dois “durantes” em nove palavras (incluindo artigos definidos). Podia ser pior.

“Não queria mais olhar para a cara dele, o questionei se haviam mais mulheres.”

Ponto e vírgula, por que nos abandonastes?
Até quando, pronome oblíquo, abusareis da nossa paciência?
Oh, se as gramáticas falassem, quantas vezes haviam de dizer que o verbo “haver”, no sentido de existir, é impessoal?

“O que ele não esperava é que íamos nos juntar”.

Subjuntivo, onde estás que não respondes?

“Algumas pessoas ficam me chama de corna.”

Sim, o pedantismo gramatical, quando em estágio avançado, inclui também erros de digitação.

“Foi nos tirado o direto de decidir.”

A única regra inteligível do hífen é a que diz que é usado para ligar o pronome oblíquo átono ao verbo – e nem essa a pessoa acerta.

“Descobri que era casado através de uma amiga.”

Como alguém se casa através de uma amiga? A amiga faz a intermediação, como nos casamentos arranjados?

“Nos agregamos uma nas outras.”

Sororidade é bom, mas tem limite.

Descontada a vontade de pegar uma caneta vermelha e ir sublinhando a tela do computador, o artigo valeu para esclarecer a história do don juan da esquerda. Posso retornar ao passatempo anterior: a biografia do Alexandre Frota. Já gastei duas bics sublinhando os erros – e ainda nem cheguei à página 130.

Em tempo: pedantismo gramatical não tem cura. A persistirem os sintomas, um livro dos sermões do Padre Vieira deverá ser consultado.

Preparando o terreno para a terraplanagem

terra plana

O terraplanismo, quando comprovado, implicará muito mais mudanças do que se imagina. É bom a gente já ir se preparando.

Expressões consagradas, como “o mundo dá voltas”, terão que ser abolidas: o mundo não dá voltas. Ele fica parado. Teremos que arrumar outra metáfora para as voltas que o mundo dá.

“O mundo gira e a Lusitana roda” também terá que ser trocado – talvez por “O mundo fica estático, mas a Lusitana eppur si muove”, ou algo assim.

Estar redondamente enganado passará a ser estar certo. Errado pra valer será quem estiver planamente enganado.

As imagens de Nossa Senhora ficarão mais seguras pisando numa superfície horizontal, em vez de se equilibrar em cima de um globo.

Os japoneses não serão mais nossos antípodas, porque estaremos todos do mesmo lado do planeta – o único lado, por sinal.

Livros serão reescritos. “Viagem ao centro da Terra”, do Júlio Verne, será lobatizado: Axel, Hans e o professor Otto viajarão até “um pouco abaixo da superfície da Terra”, e olhe lá. Se avançarem mais, caem no vácuo.

As novas edições de “Mensagem”, do Fernando Pessoa trarão “E viu-se a Terra inteira, de repente / surgir, plana, do azul profundo”. Perde-se em métrica, mas ganha-se em rigor científico.

A Rede Globo mudará o nome fantasia para Rede Plana. Atores planais darão declarações ao jornal O Plano contra a planalização e o aquecimento planal.

Empresas de terraplanagem irão à falência, porque seus serviços não serão mais necessários.

Haverá demissões em massa na NASA, enfim desmascarada. Em compensação, os estúdios Disney poderão contratar excelentes profissionais de computação gráfica e efeitos especiais. Sem contar que o desemprego vai cair, porque hão de surgir vagas para vigia da borda (aquele pessoal que fica no topo das geleiras, não deixando ninguém se aproximar) e para equipe de manutenção do domo (alguém tem que tirar o mofo que, com certeza, dá nesta estufa, bem como lubrificar as roldanas que fazem girar o sol e a lua).

Acabará essa lorota de fuso horário. Não haverá mais aquele privilégio de “Já é 2020 na Austrália” enquanto aqui a gente ainda tá procurando a cueca vermelha que vai usar no reveiôn. Com a Terra plana, 2020 chega junto pra todo mundo.

Não vai haver mais jetilegue, essa frescura de gente rica que chega do exterior reclamando (de barriga cheia e mala abarrotada de tralha de frixope) que está “com o relógio biológico atrasado / adiantado”. Se a Terra é plana, não dá pra ser dia num lugar e noite em outro, nem sair às 6, viajar 8 horas e chegar às 7. Vamos ter que aprender aritmética, talquêi?

E a melhor parte é que nas próximas eleições o TSE não terá mais a desculpa esfarrapada de esperar encerrar a votação no Acre para começar a contar os votos. Quando derem seis da tarde aqui, também serão seis da tarde lá. Aí para tudo e seja o que Deus quiser.

Perdoai-nos, pai

familia

Confira a coluna de hoje n’O Globo:

Perdoai-nos, pai


 

TB: “Nesse Natal agora eu vou ter que perdoar muita gente, porque metade da minha família votou no Bolsonaro e… queria ouvir de vocês dicas de como perdoar o meu pai, por exemplo, que não só votou como está achando que está um ano maravilhoso aí, tudo dando certo, né?”

LK: “Eu acho, Tati, que o exercício do perdão, que é uma proposta de muitas religiões, ele é também um exercício de poder. Se eu preciso perdoar, pertence a mim o poder, o múnus, a potência. Você está numa posição inferior, que merece o perdão. Claro que seu pai pode estar em casa pensando “como eu vou perdoar a Tati, por estar me expondo, ou porque votou em outro que eu não veria”. Sempre alguém está bem com o governo. Quer dizer, não há Luis XIV que não satisfaça pelo menos uma parte de Versailles. Isso é um princípio: sempre haverá alguém bem. Então seu pai tem razão. Está um ano maravilhoso, talvez na experiência dele, pode não estar para outras pessoas. Mas acho que eu pensaria mais assim, como seu personal côutch agora, se vocês vão se encontrar pro Natal, Bolsonaro não é o melhor tema, talvez. E se não há um outro tema, a culpa não é da política. Não é a política que está provocando esse enfrentamento.”

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“Perdão foi feito pra gente pedir.” (Ataulfo Alves e Mário Lago)
“Te perdoo por te trair.” (Chico Buarque)