Desejo

Eu desejo que morra o jornalista que escreveu que deseja que morra o presidente que deu a entender não se importar que pessoas morram. “

Confuso, incoerente? Nem tanto.

O desejo de morte manifestado pelos outros é do mal; o meu desejo de morte é do bem.

Eu desejo uma cova para o Covas (kkkkk). Mas os meus kkkkkk morrem se a cova for para o meu Messias. E vice-versa.

Só que desejo de morte não mata. Assim como desejo de comida não enche barriga.

Uma advogada recolhe printes de desejos de morte do presidente para encaminhá-los (os printes, não os desejos) ao STF.

Lamento informar, mas desejar a morte de alguém pode ser cruel, mas não é crime. Não deixa órfãos, não cria viúvos, não dá direito a obituário (se o morto presuntivo for famoso) ou a mudança da foto no FB por uma lágrima em preto e branco (se for pobre o defunto).

Eu desejo a Michelle Pfeiffer (ou o Alain Delon – uma versão 40 anos mais jovem do Alain Delon). Desejo o Renegade na vitrine da concessionária (ou o Bulgari na prateleira da perfumaria) e isso não lhes desabotoa a blusa, não lhes abre o zíper, não lhes muda a quilometragem, não faz com que exalem uma nota aromática que seja.

Sou desejoso por natureza: “O que não tenho e desejo / é o que melhor me enriquece” (Manuel Bandeira).

Meu desejo não me dá poderes sobrenaturais, talvez por eu ter me esquecido de esfregar a lâmpada dentro da qual cochilava há milênios um gênio com sobrepeso, de pantufas e turbante.

Desejo que haja paz na Terra, que a internet não caia justo agora, que o presidente se recupere, que o vizinho se dane, que o avião atrase porque estou atrasado, que ele não repare nas minhas estrias, que ela não note que pinto o cabelo – e permanecem as guerras, a Net não termina o diabo da manutenção, nem o vizinho sua musculação na sala. Ele repara nas minhas estrias, na virilha com a depilação vencida; ela repara na tinta no canto do bigode, na marca mal disfarçada que a aliança deixou no dedo ao migrar para o bolso, na tentativa desesperada de uma fantasia que me salve da perda do desejo.

Eu desejo que meu pai sobreviva, e a doença o vence.  Que minha mãe se cure, e a doença avança. Que o salário caia hoje na conta, que ainda haja sorvete no pote. Desejo que não chova, porque a estrada é de chão, mas a zona de convergência do Atlântico Sul tem outros planos. E o mundo, eppur, non si muove: não dá a mínima para o meu desejo.

 [– Fala, Zé Firmino! Veio fazer outra fezinha hoje?
– Não. Vim buscar o prêmio da mega sena que eu ganhei.
–  Ganhou não. Acumulou de novo
, Zé.
– Mas eu desejei ganhar. Pode me dar os 200 milhões em nota de 50, que pras de 100 o povo nunca tem troco.]

É horrível desejar a morte de alguém, mas disso não passa: de ser horrível.

Quando estive internado numa UTI, alguém comentou numa postagem minha “tomara que morra”. Não morri. E se melhorei tampouco foi porque dezenas tenham me desejado melhoras. O pensamento mágico é só pensamento, não ação; só mágico, sem lastro no real.

Quantas vidas teriam sido salvas com a morte prematura de Stálin, Pol Pot, Maníaco do Parque, Leopoldo II da Bélgica, Jack o Estripador? Quanta corrupção teria sido evitada com o passamento precoce de Lula, Papa Doc, Mugabe, Bokassa, Somoza – e quantas mortes decorrentes dessa corrupção? Quantos milhares não lhes desejaram a morte ou a prisão (ou a morte na prisão)?

É pena que alguém deseje a morte – não a redenção, não a recuperação. É pena que alguém prefira antagonizar com um cadáver. Que se faça todo um contorcionismo teórico quanto à relação custo x benefício de um exício (como diria o Celso de Mello). Que se considere a morte sob o ângulo da redução de danos (matar o atirador para que ele não atire na multidão).

Tão deplorável quanto desejar a morte é desejar controlar o desejo. (Ninguém controla o desejo – o próprio, muito menos o alheio).  

O desejo, como o pensamento – por mais terrível que seja – é livre.

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