Colocando os pingos nos YY:

“Despiorar” existe.

É verbo transitivo e intransitivo, e significa tornar ou ficar menos mau (ou menos mal). É o mesmo que melhorar.

“Desmelhorar” também existe.

É transitivo quando no sentido de impedir o melhoramento, intransitivo na acepção de tornar pior.

Quando uma coisa piora menos do que vinha piorando, há quem diga que começou a melhorar. E quem prefira dizer que está despiorando. Questão de copo meio cheio ou meio vazio.

Existe também “desconcordar”, que é quando você apenas não concorda, sem, entretanto, discordar. Lamentavelmente, “desdiscordar” não existe – ou você dá o braço a torcer ou fica quieto.

O antônimo de “amor” pode não ser ódio ou indiferença, mas “desamor”. Desamor é uma indiferença magoada, levemente ressentida, sem ânimo para ser ódio. Não chega a ser desprezo; é só uma desafeição. Um destesão.

É para isso que o prefixo “des” existe: para para indicar ação contrária. Mentir, desmentir. Fazer, desfazer. Carregar, descarregar. É bonito usá-lo porque (filósofos me ajudem nesta hora!) é uma negação que traz a afirmação dentro de si.

Desconhecer não é o mesmo que ignorar. Desiludir não é o mesmo que frustrar.

Nos dicionários até pode ser. Mas isso só para quem acredita em sinônimos.

Sinônimo quer dizer semelhante, não idêntico.

Mas nada é idêntico. “Só nós somos iguais a nós próprios”, escreveu o Fernando Pessoa, que era tão dessemelhante de si mesmo a ponto de se estilhaçar em tantos eus.

Taí outra palavra linda: “dessemelhante”. Tão bonita quanto “díspar” (sem par), e a gente a usa tão pouco.

Triste Bahia! Ó quão dessemelhante
Estás e estou do nosso antigo estado!
Pobre te vejo a ti, tu a mi empenhado,
Rica te vi eu já, tu a mi abundante.


Esse era o Gregório de Matos, mas lá no século 17, quando o barroco pedia mais e mais antíteses, dualidades, contradições e paradoxos (como uma palavra trazer dentro da barriga aquela que pretendia matar).

Para entender “despiora”, pode-se também lembrar que “desinfeliz” não é alegre: é mais que infeliz. “Desinquieto” é bem mais que inquieto, não o inerte.

“Despiora” – intuo –  pode ser uma melhora a contragosto. Uma melhora indigna da sua etimologia (“melhor” quer dizer “mais forte”, o que é diferente de “menos fraco”).

Essa talvez não seja uma questão linguística, mas filosófica. Ou só acessível por meio da poesia.

Sugiro começar com Camões:

“Amor com brandas mostras aparece:
Tudo possível faz, tudo assegura;
Mas logo no melhor desaparece.

Estranho mal! Estranha desventura!
Por um pequeno bem, que desfalece,
Um bem aventurar, que sempre dura!


Ou, sem as dicotomias do aparece / desaparece, bem aventurar e desventura,  com Aldir Blanc: “Pior que a morte é desviver”.

Quando começar a desmelhorar, a gente retoma o tema.

Catequese

O ser humano tem uma vocação atávica para a catequese. Seja por bem, tentando convencer com argumentos, seja batendo de porta em porta no domingo de manhã, domingo após domingo, até vencer pela exaustão; seja desovando clichês cada vez que a oportunidade se apresenta.

O paraíso há de ser um mundo em que não haja escolhas – logo, não existam erros, inexistam perdas. Ninguém há de se questionar sobre ter se casado com a pessoa errada, porque não haveria outro cônjuge possível. Nem outra profissão, outro modelo de celular, outra cor de vestido. O paraíso não tem bifurcação – logo, dispensa as placas de retorno.

A opção do outro é sempre um questionamento à nossa. Eu vou à Bola Preta, você vai ao Boitatá. E se o Boitatá bombar e na Bola Preta rolar tiro, porrada e bomba? Era melhor que houvesse um só bloco naquele dia, e só fosse permitida uma fantasia, para eu não me sentir chinfrim demais ou demasiadamente sem noção. Era preciso que não houvesse, no mundo, o diabo da escolha, a besta fera da comparação.

Só isso explica a compulsão de tanta gente com a conversão alheia. Não para que o outro fique melhor, mas para que o proselitista se sinta menos mal com suas escolhas.

Não faltam heterossexuais empenhados em salvar gays e lésbicas. Afinal, gays não sabem o que estão perdendo, e as lésbicas apenas não encontraram o homem certo, certo?  Na outra ponta, também não faltam gays e lésbicas achando que não há heterossexual, mas gay mal cantado ou mulher que ainda não experimentou transar com quem sabe exatamente onde ficam e como funcionam certas partes da anatomia. Ou seja, todo mundo é hétero, só precisa vencer o trauma – e todo mundo é homo, só falta um empurrãozinho.

Com os ateus não seria diferente. O ateu sabe que Deus existe, e está apenas fazendo charme. É claro que Deus existe! Olha o pôr do sol, o sorriso de uma criança, o milagre de uma flor! Como é que pode um ateu ser escritor, cantor, fotógrafo, se todos os dons são dádivas divinas?  Não faz sentido um ateu gente boa (do tipo que dá bom dia, paga imposto, joga lixo na lixeira) porque os religiosos (assim como os esquerdistas) detêm o monopólio da bondade. Fora de Deus só há o satanismo, as seitas com bebês sacrificados e as laives sertanejas.

A prova disso – todo mundo sabe – é que não há ateus em avião caindo.  Podem reparar: no chequim dos aeroportos há uma triagem secreta, e só é permitido aos ateus o embarque em voos sem chance de queda. Se você vai viajar, certifique-se que haja um ateu a bordo. Isso é sinal de que o voo será seguro. Havendo agnósticos, são altas as chances de turbulência (agnósticos precisam ser postos à prova). Sem ninguém com pinta de ateu (ou seja, sem camisetas vermelhas com pentagrama, tatuagens de tridente subindo pelo pescoço ou livro de São Cipriano a tiracolo), pule fora enquanto é tempo.

Sim, pode dizer “vai com Deus” (que significa “vá em paz, que nenhum mal te aconteça”). Mas evite elogios do tipo “Difícil acreditar que uma pessoa com tanta sensibilidade se defina como ateu”.

Esse elogio equivale a  “É tão inteligente que nem parece mulher”, “É incrível que uma pessoa tão limpa, tão cuidadosa, tão educada, seja preta”, “Quando é que eu poderia imaginar que um homem tão corajoso, tão respeitável, fosse gay?” ou “Apesar de judeu, ele é super honesto, super confiável.” Acredite: cada um sabe a dor e a delícia de ser o que é. E não perca seu tempo tentando convencer a namorar no pedalinho quem prefere um 69 na montanha russa.

Sob o signo de Leão

Para algumas mulheres, a beleza pode ser uma maldição. Em especial aquelas dotadas de uma perfeição paralisante, que monopoliza a visão e oblitera os demais sentidos de quem se vê (ou melhor, se cega) diante dela. Catherine Deneuve, Tônia Carrero, Bruna Lombardi devem ter padecido desse mal.

Há mulheres igualmente belas, mas de outro tipo: as donas de uma elegância que mobiliza, que instiga. Na sua presença (física ou virtual) se apura a audição, a atenção é redobrada. Essa classe de beleza é uma bênção, porque não compete com nenhum outro dom. Danuza Leão poderia ser a musa dessa categoria. Não consigo pensar em ninguém mais solar, mais dominical.

Talvez porque domingo fosse dia de ler Danuza, de ver o mundo pelos olhos (e que olhos!) da Danuza. De acompanhar sua prosa sem papas na língua, um papo reto sobre o que quer que fosse. No seu texto, o luxo era tratado com desconcertante simplicidade e o simples era sempre luxuoso. Coisa que quem conheceu o grand monde e não perdeu a sensibilidade para as grandezas do ínfimo.

Ler Danuza era bom também porque havia na sua escrita um exercício pleno da liberdade. Um destemor que saiu de moda com o advento das patrulhas do politicamente correto. Quem mais, além dela, escreveria que toda mulher deveria ser assediada pelo menos três vezes por semana para ser feliz, sem ter que explicar a que tipo de assédio se referia, sem pedir perdão aos que se arvoram em donos dos significados das palavras e das intenções dos autores?

Os que não conseguem ir além da superfície que fiquem no raso: Danuza sabia exatamente o que queria dizer, e disse. Quem viu na sua fala uma defesa do abuso é porque nunca leu Danuza. “‘Namorai-vos uns aos outros’; deveria ser um lema, o amai-vos a gente deixa para depois.” (…) Esse namoro, ou charme, ou flirt, não tem nada a ver com beleza, idade, posição social. É só pelo prazer, e pobres dos que são imunes a isso, não sabem o que perdem. Namora-se crianças de berço, gatos, cachorros, o macaco do Jardim Zoológico e, quando se começa, sempre há um retorno: faça a experiência e depois me diga.” 

Então eu digo: faz tempo que namoro a Danuza Leão. De longe, como costumam ser os melhores namoros — e os mais duradouros. Eu, lá no interiorzão de Minas; ela, na televisão, nas capas das revistas, nas páginas dos jornais. E quase a pedi em casamento (palavra que, segundo ela, não pode ser pronunciada) no dia em que li um texto seu sobre praça de touros, ou algo assim. Eu, que acho tourada uma das coisas mais estúpidas do mundo, consegui abstrair da crueldade e ver o que ela via. Porque era de outra coisa que ela falava, e as coisas têm muitas camadas.  

Danuza não é desse mundo careta e covarde. Pode-se discordar dela, achá-la “elitista” (como se isso fosse um defeito!), mas não deixar de admirar sua leveza, seu charme suave. “O Rio é uma cidade incrível, sobretudo no verão. E mais incrível ainda porque é verão, praticamente, o ano todo.” Danuza parece falar de si mesma, ela que costumava fazer de qualquer dia um domingo — tão solar quanto ela – para seus leitores. Um domingo assim, como este 26 de julho, em que o inverno acorda se achando verão, a gente namora (de longe…) o mar e, ainda que não haja Danuza nos jornais falando dos pequenos e maravilhosos prazeres da vida, há esse pequeno e maravilhoso prazer de dizer “feliz aniversário, Danuza”, a musa dos domingos, do signo de Leão.

Cyrano na pandemia

No início da pandemia, a Daniella me mandou um lote de máscaras, cada uma com uma estampa diferente. Tudo higienizado, esterilizado, bem embaladinho.

O uso ainda não era obrigatório, mas quis logo estrear as minhas – em especial uma, perfeita para o passeio com os cachorros, porque tinha desenhos de patas caninas.

A Daniella me conhece razoavelmente, mas devia ter se esquecido do meu perfil. Não o psicológico – o perfil literal mesmo. O narigão.

As máscaras eram do tipo peleja: se cobriam o nariz, descobriam a boca, e vice-versa. Sabe vestido de periguete? Aquele padrão.

Sob pena de parecer neurótico ou obsessivo, passei a usar duas máscaras – uma cobrindo o narigão e parte do lábio superior; outra, a boca e parte do queixo. Funcionou bem, considerando que eu não ia mesmo conversar com ninguém e respiração não chega a ser uma necessidade básica.

Consultei sobre modelos maiores. Claro que havia! E me chegou nova remessa, com máscaras de tamanho mais generoso.

Mas para um nariz como o meu, generosidade não basta. É preciso desperdício.

As pautas identitárias conseguiram que houvesse poltronas mais largas nos cinemas, teatros, auditórios e aviões, para acomodar pessoas com sobrepeso. Lojas passaram a disponibilizar roupas de modelagem compatível com índices de massa corporal pra lá de 30. Mas ninguém pensou nos portadores de nariz pluçaize.

Não há óculos cujas pontes não nos cavem uma vala horizontal no ponto de apoio. Não há armação com plaquetas afastadas o bastante para nossa envergadura nasal. Vale para óculos de grau, vale para os de natação. Conhece algum narigudo campeão de 800 metros cráu? Nem eu. Quando você se sentir profundamente frustrado, lembre-se do narigudo que tentou mergulhar de esnórquel.

Não há boné com aba de 20 cm. Não se vende Rinossoro em embalagem de 500 ml.

O pior é que nem somos uma minoria tão desprezível assim. Juca Chaves, Jean Paul Belmondo, Javier Bardem, Luciano Huck, Gerard Depardieu. Para não falar em Maria Bethânia, Maria Callas, Barbra Streisand e a bruxa da Branca de Neve.

Para não incomodar de novo a Daniella, acabei comprando mais algumas máscaras numa loja de artigos hospitalares. Antes, sondei quem estava fabricando máscaras caseiras (sempre é bom dar preferência ao pequeno empreendedor), mas ninguém produzia no tamanho Extra GGG Ultra Plus. O moço da loja disse que aquelas eram “oficiais”, do tipo seguro Golden Platinum, com cobertura total. Quebrei a cara.

Fabricantes de máscaras, óculos, burcas, esnórqueis, vaporizadores: pensem em nós. Claro que o gasto de material vai ser muito maior, mas somos um mercado consumidor disposto a pagar mais caro por um produto adequado à nossa pujança nasal. Se não se adaptarem – como fizeram as indústrias de cosméticos para pele negra, de biquínis manequim 54 ou de tesouras para canhotos – é porque vocês não enxergam um palmo adiante do nariz.

Vivendo em comunidade

Tenho sido muito injusto com meus vizinhos. Não devia me queixar deles, mas agradecer-lhes do fundo dos cafundós da minh’alma.

O vizinho de baixo deve saber que moro sozinho e tenta me enturmar fazendo festas na varanda, de modo que pareça haver 20 pessoas na minha sala.  No meu sofá. Abrindo minha geladeira e pegando minha última latinha de cerveja.

Deve saber que fico zapeando na Netflix sem achar quase nada interessante, então compartilha comigo as laives sertanejas. Se sacrifica, altruisticamente, ouvindo-as num volume que lhe há de avariar os tímpanos, só para que eu possa escutar tudo perfeitamente onde quer que eu esteja no meu apartamento.

A vizinha de cima deve saber que não malho, e faz o possível para me incentivar a abandonar o sedentarismo. Ela poderia se exercitar em qualquer lugar, mas prefere fazê-lo na varanda, logo de manhã cedo, de maneira que a música de academia (tum tum tum), os pesos caindo no chão (TUM TUM) e as batidas ritmadas na laje (piso dela, teto meu) não me deixem dúvidas de que eu tinha que estar queimando calorias, não tentando completar, a duras penas, as 8 horas de sono.

Ela deve intuir que eu viva em total solidão, e se apiedar deste ermitão desgarrado. Por isso toda noite, ali por volta das 23h, faz questão que eu saiba que não estou sozinho no mundo. Que há alguém por perto.

Outra mais abusada ligaria para dizer “boa noite, vizinho; se precisar de algum coisa, estou aqui”. Mas ela é educada demais para telefonar para um desconhecido a essa hora e, talvez, parecer incômoda. Então arrasta os móveis: cama, mesa, cadeiras, sofás, geladeira, cômoda.

Devo estar exagerando. Como o barulho é bem acima da minha cabeça, suponho que arraste só a cama, o armário embutido e a mesinha de cabeceira.

Pela manhã, depois da malhação, sabendo que não tenho amigos nem família, faz questão que eu participe de todas as suas ligações telefônicas. Jamais telefona da sala, do quarto ou – para dizer coisas mais íntimas – sentada no banheiro. Debruça-se na varanda, e me põe a par de todos os seus assuntos, por inteiro.

Os vizinhos do prédio em frente certamente estranham que eu não tenha gosto musical – já que nunca ouviram nenhum som a mais de 500 decibéis oriundo aqui do meu cafofo. Isso explica sua generosidade em dividir comigo, tão efusivamente e com tanto gosto, o gosto que têm. “Pé na areia, caipirinha, água de coco, cervejinha. Pé na areia, água de coco, beira do mar”, repetem – uma, dez, cem, cem mil vezes, todo fim de semana, talvez receosos de que eu ainda não tenha decorado a letra e por isso continue, silencioso, aqui no meu canto.

Supõem que eu não tenha dinheiro para comprar carne, e churrasqueiam não só nas churrasqueiras mas também nas varandas, repartindo comigo o cheirinho da sua proteína animal.

E eu, ingrato, ainda reclamo. Mas eles sabem que quando escrevo aqui e no livro de ocorrências para reclamar, é porque os amo. Quando digo que não quero mais essa muvuca, é porque eu quero. Eu tenho medo de abrir meu coração e confessar que estou em suas mãos, e não posso imaginar o que vai ser de mim se eu me mudar um dia.

Por isso, chega de mentiras, de negar o meu desejo. Eu quero mais que tudo ouvir – noite adentro –  funk, sofrência e sertanejo. Eu entrego a minha vida para os vizinhos (de baixo, de cima, da frente) fazerem o que quiserem de mim. Só espero que isso – assim como minha ingratidão – um dia tenha fim.

Vila do sossego

Alguém sugeriu – e eu encampei – a ideia de um condomínio para pessoas que queiram viver em paz.  Uma comunidade de ermitões, por assim dizer (pode parecer um paradoxo, mas a vida seria muito sem graça sem uns despropósitos aqui, uns oximoros acolá).

Dois lotes já estão reservados, um para mim e outro para a Chica da Silva. Por sermos os primeiros, teremos a prerrogativa de escolher. Ela deve ficar com o lote A; eu, para manter o distanciamento social, com o Z.  Como o loteamento é circular, acabaremos vizinhos de porta, que é como estava desde sempre destinado a ser.

Nosso empreendimento oferecerá uma fabulosa infraestrutura aos futuros moradores. NÃO terá quadras de esporte, NÃO terá piscina, NÃO terá cozinha gurmê. Nada de salão de festas, pleigráunde ou churrasqueira. Terá ar puro, silêncio e mato. Afinal, é um condomínio para pessoas de bom gosto, gente de fino trato.

As ruas – ou melhor, alamedas – terão árvores frutíferas, garantindo o café da manhã. Aqui e ali – porque a gente também come com os olhos – um ipê, uma quaresmeira, um flamboiã.

A taxa condominial será paga em serviços. Chica se dispõe a fazer faxina, eu me habilito a passear cachorro. Os candidatos aos lotes remanescentes não precisarão apresentar comprovante de renda, mas declaração de habilidades. Não haverá restrições de sexo, gênero, orientação, ideologia ou idade.

Tampouco será preciso nenhum talento excepcional, nem dotes paranormais ou superpoderes. Mas passar roupa será tão inútil quanto ser amolador de colheres. Ser cozinheiro de mão cheia vale mais que saber, como eu, descongelar comida pronta. Lavar roupa à moda antiga, com anil e quarador, contará mais que o saldo em conta.  

Os moradores poderão conversar com plantas e os animais, sem medo de serem vistos como malucos Até porque um pouco de maluquice é uma questão de higiene. Pede-se apenas que não falem muito alto nem entrem em tretas com as maritacas (como costuma fazer o Novaes, pretendente ao lote N).

O silêncio será permitido antes e depois das 22. Pensando bem, durante também, para não deixar brecha jurídica (vai que o Helinho, candidato ao lote H, resolva se mudar pra lá e venha com chicana para aprontar uma das suas).

O lote G é do Gomide, desde que não descuide do isolamento acústico, mantenha a adega liberada e tenha sempre alguma opção vegana no cardápio (pelo menos umas 20).  E, claro, se comprometa a terminar os saraus antes das 6 horas (do dia seguinte).

A Ana Zinger –que abarca todo o alfabeto – pode escolher o lote que quiser. E também como quer pagar a taxa do condomínio – se em aula de canto, de fotografia ou dividindo uma cerveja (duas, três, quatro…) ao cair do dia.

Com os lotes A e G já tomados, o André Gabeh poderá ficar com o C, de Carvalho – árvore à cuja sombra há de escrever, desenhar e cantar para que a gente o aplauda. E, sim, como não?, pode trazer dona Alda.

Como o lote N já tem dono, a Yara terá preferência para o Y, e o compromisso de cultivar ali uma nogueira (a quem chamaremos, com carinho, de Sylvinho).  Aninha Franco terá poderes plenipotenciários para estabelecer no lote F uma embaixada da República do Pelourinho.  Márcia Valle, seu ateliê de costura no lote V. A parceira Dina Tavares, para facilitar as parcerias, há de ocupar o D.

A Laïs pode ocupar o lote L, ali ao lado da Praça Claudinha Telles, para as oficinas de roteiro. A Cristiana Beltrão já tem alvará para uma filial do Bazzar no lote B, e não há de faltar candidato a aprendiz de cozinheiro.

O R é da Maria Roberto – ninguém ali precisará de contadora, mas, para o caso de falta de inspiração, é sempre bom ter uma musa por perto. 

Se as regras para o empreendimento estiverem muito complicadas, depois a gente simplifica. Mas algo me diz que tem tudo pra dar certo. Não concorda, Chica?

Duda Mind Control

Meus (meus? ok, meus) cachorros foram “adotados”, tirados da “situação de rua”.

Duda, mais morta que viva. Chico, um bebê que cabia na palma da mão, desnutrido e tomado por carrapatos. Tião, magrelo e com o pelo duro, largado num monte de brita, numa obra.

Hoje dormem em cama (comeram as caminhas que comprei para eles), se esparramam no sofá (onde, às vezes, sobra algum espaço pra mim), tomam banho de chuveiro (com um xampu mais caro que o meu). Mas continuam “de rua”. Rueiros que só.

Têm um relógio biológico que não conhece horário de verão, data de entrega de projeto, elevador em manutenção ou vendaval. Deu a hora de ir pra rua, cessa tudo que a antiga musa canta que outro valor mais alto (e com unhas afiadas) se alevanta.

É uma espécie de volta às origens. Aos postes. Aos cheiros de xixi de centenas de outros cachorros. Ao paraíso perdido.

Duda é a fêmea alfa. É ela quem puxa a matilha, quem escolhe o roteiro. Tem dia em que encasqueta de ir para a esquerda, tem dia em que nada a demove de seguir pela direita. Há de ter seus motivos – que acato, por não serem ideológicos, mas possivelmente estarem ligados ao olfato apurado. Se algo não cheirar bem, é pra lá mesmo que ela vai. Pensando bem, tem ideologia aí, sim.

O problema é que nenhum passeio é longo o suficiente para ela. Sua meta é se afastar de casa indefinidamente. Se depender dela, pegamos a Américas, a Linha Amarela, a Washington Luís, a 040 e não paramos antes do km 2000 da Belém-Brasília.

Ao mais leve indício de que eu possa estar iniciando um procedimento de retorno, ela trava. Crava as patas no chão e ergue aqueles olhos súplices de “Mas já?” – estejamos andando há 15 minutos ou há hora e meia, debaixo de chuva ou de sol implacável.

Não sei que GPS ela usa, mas é infalível. Independentemente do caminho – e eu vario sempre o caminho – basta embicar num sentido que lhe evoque a sensação de “volta” e ela liga a seta na direção contrária. Não adianta tentar a manobra da curva suave à esquerda fingindo rumar para o parcão, ou o artifício de uma falsa guinada na direção da praça, ainda fechada por causa da pandemia, onde ela gostava de correr na areia.

Ela me conhece. A alma humana, para ela, não é nenhum abismo: é óbvia como um comprimido “disfarçado” na comida, um cafuné a caminho do banheiro onde ela já farejou o maldito xampu no box.

Não pode ser só instinto ou psicologia aplicada. Suponho que haja telepatia envolvida.

Desejo

Eu desejo que morra o jornalista que escreveu que deseja que morra o presidente que deu a entender não se importar que pessoas morram. “

Confuso, incoerente? Nem tanto.

O desejo de morte manifestado pelos outros é do mal; o meu desejo de morte é do bem.

Eu desejo uma cova para o Covas (kkkkk). Mas os meus kkkkkk morrem se a cova for para o meu Messias. E vice-versa.

Só que desejo de morte não mata. Assim como desejo de comida não enche barriga.

Uma advogada recolhe printes de desejos de morte do presidente para encaminhá-los (os printes, não os desejos) ao STF.

Lamento informar, mas desejar a morte de alguém pode ser cruel, mas não é crime. Não deixa órfãos, não cria viúvos, não dá direito a obituário (se o morto presuntivo for famoso) ou a mudança da foto no FB por uma lágrima em preto e branco (se for pobre o defunto).

Eu desejo a Michelle Pfeiffer (ou o Alain Delon – uma versão 40 anos mais jovem do Alain Delon). Desejo o Renegade na vitrine da concessionária (ou o Bulgari na prateleira da perfumaria) e isso não lhes desabotoa a blusa, não lhes abre o zíper, não lhes muda a quilometragem, não faz com que exalem uma nota aromática que seja.

Sou desejoso por natureza: “O que não tenho e desejo / é o que melhor me enriquece” (Manuel Bandeira).

Meu desejo não me dá poderes sobrenaturais, talvez por eu ter me esquecido de esfregar a lâmpada dentro da qual cochilava há milênios um gênio com sobrepeso, de pantufas e turbante.

Desejo que haja paz na Terra, que a internet não caia justo agora, que o presidente se recupere, que o vizinho se dane, que o avião atrase porque estou atrasado, que ele não repare nas minhas estrias, que ela não note que pinto o cabelo – e permanecem as guerras, a Net não termina o diabo da manutenção, nem o vizinho sua musculação na sala. Ele repara nas minhas estrias, na virilha com a depilação vencida; ela repara na tinta no canto do bigode, na marca mal disfarçada que a aliança deixou no dedo ao migrar para o bolso, na tentativa desesperada de uma fantasia que me salve da perda do desejo.

Eu desejo que meu pai sobreviva, e a doença o vence.  Que minha mãe se cure, e a doença avança. Que o salário caia hoje na conta, que ainda haja sorvete no pote. Desejo que não chova, porque a estrada é de chão, mas a zona de convergência do Atlântico Sul tem outros planos. E o mundo, eppur, non si muove: não dá a mínima para o meu desejo.

 [– Fala, Zé Firmino! Veio fazer outra fezinha hoje?
– Não. Vim buscar o prêmio da mega sena que eu ganhei.
–  Ganhou não. Acumulou de novo
, Zé.
– Mas eu desejei ganhar. Pode me dar os 200 milhões em nota de 50, que pras de 100 o povo nunca tem troco.]

É horrível desejar a morte de alguém, mas disso não passa: de ser horrível.

Quando estive internado numa UTI, alguém comentou numa postagem minha “tomara que morra”. Não morri. E se melhorei tampouco foi porque dezenas tenham me desejado melhoras. O pensamento mágico é só pensamento, não ação; só mágico, sem lastro no real.

Quantas vidas teriam sido salvas com a morte prematura de Stálin, Pol Pot, Maníaco do Parque, Leopoldo II da Bélgica, Jack o Estripador? Quanta corrupção teria sido evitada com o passamento precoce de Lula, Papa Doc, Mugabe, Bokassa, Somoza – e quantas mortes decorrentes dessa corrupção? Quantos milhares não lhes desejaram a morte ou a prisão (ou a morte na prisão)?

É pena que alguém deseje a morte – não a redenção, não a recuperação. É pena que alguém prefira antagonizar com um cadáver. Que se faça todo um contorcionismo teórico quanto à relação custo x benefício de um exício (como diria o Celso de Mello). Que se considere a morte sob o ângulo da redução de danos (matar o atirador para que ele não atire na multidão).

Tão deplorável quanto desejar a morte é desejar controlar o desejo. (Ninguém controla o desejo – o próprio, muito menos o alheio).  

O desejo, como o pensamento – por mais terrível que seja – é livre.

Dark lá, sombrio aqui

Quem disser que entendeu “Dark”, a série alemã cuja última temporada estreou semana passada na Netflix, certamente estará mentindo. Porque o grande mérito da trama, que envolve viagens no tempo e entre mundos alternativos, é colocar Tico e Teco em pânico.

Nos acostumamos às novelas, em que tudo é reiterado, regurgitado, concebido de modo que se possa brincar com o gato no sofá ou levantar para pegar água na geladeira, sem perder o fio de meada. Em “Dark” todos os fios permanecem, até o último minuto, soltos – e desencapados. Piscou, perdeu. Não piscou, perdeu do mesmo jeito.

Mais ou menos como o Brasil.

Em que ano estamos? Depende. Tem hora que é 2020, tem hora que é 1964 ou 1968. Por vezes é 2018, ainda no auge da campanha eleitoral – ou nos vemos confinados em um perpétuo 1984, só que no universo paralelo do Orwell.

(…)

Em “Dark” o presente influencia o passado. Exatamente como acontece no Brasil, onde descobrimos que o nazifascismo é agora, e temos que rever o que houve na Alemanha dos anos 30 e 40. Vivemos num apartheid e até o Valter Hugo Mãe embarcou na narrativa do genocídio tupiniquim, o que exige reavaliação imediata das tragédias da África do Sul, da Armênia, do Camboja, de Ruanda.
Se na série é difícil saber quem são Mikkel, Mads e Magnus, aqui temos Weintraub, Wajngarten e Wassef, que não ficam atrás. Se lá o paradoxo é uma personagem ser avó de si mesma (ih, esqueci de avisar que tinha espóiler!), aqui a questão é se seria Chauí um Olavo de franja, ou Olavo uma Chauí de cachimbo.

(…)

“Ele não quer salvar o mundo do mal. Ele é o Mal”, diz alguém em “Dark”. É ou não é puro Brasil isso daí?
“O bem e o mal são uma questão de perspectiva”, filosofa Mikkel – ou seria algum pregador do “ódio do bem” nas redes sociais?
“Não é estranho sentirmos aversão às pessoas que são mais parecidas conosco?”, indaga-se o enigmático Adam – assumindo o que se passa na mente dos que negam peremptoriamente qualquer simetria entre o que temos hoje e o que tínhamos até alguns anos atrás.

Na política, como em “Dark”, o ontem e o hoje (e, presumivelmente, o amanhã e o depois de amanhã) não se sucedem, mas estão conectados em um círculo infinito. O eterno retorno do populismo, do fascínio pelo autoritarismo e – desgraça pouca é bobagem – do Centrão.

~

Porque hoje é sexta, n’O GLOBO.

https://oglobo.globo.com/opiniao/dark-la-sombrio-aqui-24512525

Teimosia

Ali pelos 15, 16 anos, era mais difícil disfarçar a timidez e/ou a falta de traquejo no convívio social. As cantadas, então, estavam totalmente fora de cogitação. O jeito era deixar que outros dissessem por mim – e nisso a música romântica era imbatível.

Havia bailes; dançava-se de rosto colado; a respiração junto à orelha, a mão dedilhando a alça do sutiã ou descendo pelos quadris, a coxa roçando a coxa – tudo isso ajudava a verbalizar o que a voz não ousava.

E, se houvesse que haver uma voz, que fosse a do Paul McCartney dizendo “uô uô uô uô uô uô uô uô, my love does it good”, a do Elton John pedindo “fly away, skyline pigeon, fly” (eu jurava que era Skylab pigeon, mas isso é assunto para outro texto), ou Junior confessando que ”when you’re near, reality loses its hold and loneliness’ tears wet my soul”. Mas, tirando o uô uô uô uô uô uô uô do Paul, eu não entendia patavina.  O que ajudava bastante.

O problema era quando as letras eram em português.

Em princípio, isso era um facilitador. Bastava cantar junto (ou fingir que cantava, tipo segunda voz de dupla sertaneja) e o recado estava dado. Se colasse, colou. Se não colasse, eu estaria só cantando a música, sem quaisquer décimas oitavas intenções.

Uma das minhas favoritas – para o bem e para o mal – era “Minha teimosia, uma arma pra te conquistar”, do Jorge Ben (ainda não era Benjor).

Era uma cantada perfeita. Direta. Para dançar com direito a olhares de promessa e um arremedo de gingado que podia ajudar na conquista pelo caminho da comiseração – mas, naquela idade, quem liga?

O problema era o meu apego à gramática. Eu tentava cantar corrigindo a letra, o que me tirava totalmente o foco. E, claro, ferrava com a métrica.

“A minha teimosia é uma arma
pra te (2º do singular) conquistar.
Eu vou vencer pelo cansaço
Até você (3º do singular)
gostar de mim, mulher, mulher.
Mulher graciosa, alcança a honra.
Você (3º do singular) alcançou, mulher.
Minha amada, minha querida, minha formosa
Vem (2º do singular) e me fala (2º do singular)
que eu sou o seu (3º do singular) lírio
e você (3º do singular) é minha rosa.
Mostra-me (2º do singular) teu (2º do singular) rosto
Fazei-me (2º do plural!!) ouvir a tua (2º do singular) voz
Põe (2º do singular) estrelas em meus olhos
Músicas em meus ouvidos
Põe (2º do singular) alegria em meu corpo
Junto com amor de você (3º do singular)
Mulher, mulher
Lá, lá, lá, lá
Mulher, mulher.”

Eu tentava pôr tudo na segunda pessoa do singular – e não funcionava. Tudo na terceira pessoa do singular – e não dava certo. E (vejam o nível de desespero) até mesmo tudo na segunda do plural. Em vão. A minha teimosia com as pessoas gramaticais acabou se tornando uma arma para não conquistar ninguém. O jeito era vencer pelo cansaço – e ir de com força no lá lá lá lá do final para tentar apagar a má impressão do gingado.