Quem não tem cão…

Duda está ficando cega. Sobre o olhinho direito começa a baixar uma névoa.

Descobri quando passou a ter medo de andar por lugares onde sempre transitava lepidamente. O que os lugares tinham em comum era o piso escuro.

Ela não tem medo do escuro. Tem medo, possivelmente, do abismo que vê – ou pressente – diante de si.

Damos uma volta na garagem para evitar o piso de ardósia, diante do qual ela trava.  Ao descer pela escada de incêndio, esperamos que vença a hesitação diante do primeiro degrau de cada lance.

Tião foi o primeiro a se adaptar à nova rotina. Ele enxerga perfeitamente, mas intui o que a Duda não vê, e faz o caminho que ela faria. Ele seria um bom cão guia.

Tião vê o que os outros não veem.

Ele assiste televisão. Acompanha, atento, a disparada do leão no encalço da gazela. Segue, ziguezagueando com a cabeça, a tentativa desesperada de fuga. Posso quase intuir que torça pelo caçador, nunca pela caça, porque relaxa quando a presa é finalmente abatida.

Tião vê filmes de terror comigo. Duda e Chico apenas se aninham no sofá, ao meu lado – seja o lado direito, o lado esquerdo ou, no mais das vezes, o lado de cima mesmo. Não dão à tevê mais atenção do que ao fogão ou à geladeira. Tião percebe que a tela é um portal para outra dimensão, onde acontecem coisas não tão gostosas quanto no forno ou na gaveta das frutas, mas muito mais excitantes.

Ele se assusta quando o assassino salta das sombras. Se contrai nas facadas. Às vezes somos pegos, ambos, de surpresa, e sempre rio dos sustos que ele leva.  Por vezes, late, para afugentar alguém, para alertar do perigo.

Chico dorme. Durante o filme, durante o documentário sobre vida selvagem, durante o que for. Ainda não entendeu – talvez jamais entenda – que há caminhos por onde Duda prefira não ir. Que aquelas manchas se movimentando no retângulo que tem diante de si sejam um drama de vida e morte.

Chico não é Tião, que não é Duda. São três personalidades distintas. Com níveis distintos de percepção, com diferentes capacidades de compreensão.


Tião é carente, pede colo, lambe lambe lambe. Duda é não pede nada: exige. Seu relógio biológico sabe a hora exata do passeio, e qualquer atraso a deixa intratável.  Chico aguarda. Aceita carinho, mas não o procura. Ao contrário do Tião e da Duda, que sonham placidamente, Chico tem pesadelos. Talvez pressinta vazios sob seus pés, como a Duda; talvez seja ele a presa numa caçada onírica, ou a vítima do psicopata. Vá entender o inconsciente de um cachorro…

Cada um tem seu pote de comida, proporcional ao tamanho. Mas a ração do pote ao lado parece sempre mais gostosa – ainda que seja a mesma.  Houve um tempo em que Chico comia ração de adulto e Duda, a de filhote. Quem teve irmão caçula (eu tive quatro!) sabe que a comida do filhote é sempre mais gostosa, e Chico pegou gosto pelo pote pequeno da Duda, onde mal cabe seu focinho. Depois foi a vez da Duda migrar para a ração de adultos, e ser do Tião a de filhote. E havia que protegê-lo para que os mais velhos não lhe tomassem a comida.

Tião chegou por último, sabe seu lugar na hierarquia, e cede sempre. Duda foi a segunda a chegar, mas isso não a impediu de ser a alfa da matilha. É ela, a menor dos três, quem fica sempre com a melhor parte. Chico, macho desconstruído, não se importa.

Com a mesma comida em todos os potes, Duda ora prefere o pote vermelho do Tião, ora o enorme pote amarelo do Chico – nunca seu potinho grená. Tião e Chico se afastam quando ela vem farejar o cardápio. Brigam, os dois machos, pelas bolinhas de borracha, pelo canto no sofá, mas vão procurar outra coisa, outro lugar, se ela resolver que é hora de sofá, que quer bolinha.

Chico tem pelo mais comprido, e precisa ser escovado quase que diariamente, ou a casa vira uma nuvem de fiapos pretos. Duda tem pelo mais curto e não aprecia muito o processo fazer escova. Tião, o de pelo curtíssimo, e que não precisa ser escovado, entra assim mesmo na fila, e aguarda, impaciente, sua vez de ganhar aquilo que ele deve achar ser uma forma superior de carinho. Escovo-o, sem que saia um fio, para que fique feliz. E ele fica.

Foi ele o primeiro a entender a logística da limpeza das patas ao voltar do passeio. O primeiro a levantar voluntariamente a patinha dianteira quando me vê pegar a esponja. Duda o seguiu, a contragosto. Chico ainda prefere que eu lhe levante cada uma das patas pesadas. 

Com dois meses de quarentena, Tião já ergue as patinhas – inclusive as traseiras! – sempre na mesma ordem. Duda ainda prefere levantar as patas traseiras apenas para o xixi (cercada por machos, nunca fez xixi agachada).  Chico… bem, o grandão deve achar que essa coisa de pandemia e limpeza de patas vá passar logo, e não vale a pena incorporar o procedimento à sua rotina.

Quem não convive com cachorros jamais vai entender por que os chamamos de filhos. Por que conversamos com eles. Por que nos curvamos a algumas das suas vontades – o lado da cama, a posse do sofá, a hora exata do passeio.  

Quem não convive com cachorros há de pensar que projetamos neles nossa personalidade. Se for assim, devo ter transtorno dissociativo de identidade, porque convivo com três criaturas absolutamente únicas, que só têm em comum uma história de abandono.

Talvez não estivessem mais vivos se meu caminho não tivesse se cruzado com o deles – na Cidade de Deus, no Catete, em Jacarepaguá. Eu certamente seria menos feliz, e um pouco mais morto, se o caminho deles não tivesse se cruzado com o meu.

7 comentários em “Quem não tem cão…

  • Eduardo minha Duda está completamente cega e surda. Sinto pena da minha filha de quatro patas que até pouco tempo atrás adorava jogar bola comigo pontualmente às 20:30 horas. Sinto saudades de nossas brincadeiras e dos passeios que dávamos. Agora ela é incapaz de achar o prato da água ou da ração e tenho que dar tudo na boca. Antes Duda era a mãe,sempre zelando por mim. Agora é a filha de quem cuido com amor.

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    • Cachorros têm esse dom também: eles nos ensinam a envelhecer, a lidar com a finitude. Por viverem um quarto do que vivemos, servem de ensaio para o que vamos passar.

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  • Ontem eu postei um comentário, mas não sei onde foi parar…vou depositar…em 09/06/2020:Entendo cada frase sua…hoje um dos meus “filhotes” partiu e foi um alento ler seu texto… Essas personalidadezinhas são desafios pra gente e leva muito tempo compreender cada um… Esse meu filhote de hoje me apareceu já devia ter mais de 10 anos, mal enxergava e escutava, tinha poucos dentes e provavelmente já havia tido um AVC… Quando me viu era confiante de que o levaria pra casa e não era essa minha intenção, apenas o tirei da rua e queria arrumar um tutor porque já tinha vários filhotes…kkk Nem preciso dizer que em pouco tempo, ele com seus poucos centímetros já mandava em todo mundo aqui…Logo apareceram duas filhotinhas e acabaram com o “sonho da aposentadoria tranquila” … Teve de ter muita paciência com essas duas, mas logo as coisas se resolveram..ficou uns 5 anos comigo e nunca desistiu da vida e isso foi o que mais aprendi com ele…Aqui ficou um vazio, um lugar que sempre será dele…mas a vida sempre segue… abraço

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  • Queria ver uma foto das crianças 😔… Adorei o texto, senti toda a matilha. É exatamente assim, minha Luna quase fala e entende tudo. Joy tem um mundo só dela, fica alheia ao latido das demais. Bela só late quando sente perigo (esse latido nunca ignoramos) e a Bubble é caçadora. Se decidir que um canto do quintal ficou muito interessante, pode ir procurar que encontrá algum bicho entocado. São fantásticas, minhas crianças… ❤

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