Dialetos

– Amiga, cansei de sororidade.

– Eu também. Desapeguei.

– Ficou tão quarta-feira passada…

– Nem me fale. Quando comecei a usar, ninguém usava. Agora…

– Daqui a pouco está sendo usada até em novela bíblica da Record.

– Junto com empoderamento. Lembra do pré-lançamento?

– Lindo. Só para convidadas. Evento VIP, garçons étnicos, música autossustentável. Depois…

– Depois virou arroz de festa, que nem empatia.

– Comigo foi saberes.

– Você foi no lançamento de saberes?

– Fui, menina! Usei saberes quando só aparecia em tese de Humanas.

– Que luxo! Quando saberes chegou, eu já estava na fase da objetificação e achei que não ia combinar.

Objetificação tem que ter muito critério, ou fica over.

– Acho que cai bem com cultura do estupro e micromachismo, e olhe lá.

– Super cai bem!  E olha que micromachismo não é pra qualquer uma.

– Não mesmo. Tem que saber dosar. Tipo gaslighting.

Gasligting era tudo, né? Uma coisa de louco!

– Mas sabe que eu era mais o combo mansplaining, manspreading e manterrupting? Porque tinha uma leitura, dialogavam.

– Diferente de patriarcado e androcentrismo

– Totalmente. Androcentrismo pede, sei lá, uma atitude com mais conceito.

– Bem na vaibe da misoginia e do feminicídio.

– Isso. Se bem que eu fique mais à vontade na disparidade de gênero, sabe como? Uma coisa light, cool, fim de tarde, apperol.  Nessa linha.

– E qual é a tendência para hoje? Fiquei vendo laive da Katy Perry até de madrugada, acordei tarde e nem tive tempo de me atualizar.

Interseccionalidade.

– Jura? Amei!

– E dá pra usar com tudo.

– Amiga, só vou tirar essa máscara de avocado orgânico e começar a interseccionalizar agora mesmo.

– Mas interseccionaliza logo, porque acabei de ver que já estão usando no UOL. E quando isso acontece, já sabe, né?

– Sim. Daqui a pouco vira gratiluz.

– Vai lá. Beijo no coração, amiga! Gratiluz!

Gratiluz, amada!

Implicância

Cuidado com as suas implicâncias. Lenta e inexoravelmente, elas irão tomar conta de você e se tornar obsessões.

Minha mãe sempre implicou com edifícios sobre pilotis. Criada em casa de chão de terra batida, não sentia firmeza nas construções empoleiradas naquelas perninhas finas.  Resmungava cada vez que via um prédio desses – ou seja, resmungava sempre que ia à rua. 

Com a idade – e o Alzheimer – as vigas e pilares das construções nas encostas (trem mais comum em Minas que que chamar as coisas de trem) se tornaram uma ideia fixa. Um incômodo palpável. Era preciso distraí-la (“Olha que cor horrorosa aquela casa!”) sempre que seu olho se sentia atraído pelos monstrengos em pernas de pau encarapitados em cada aclive, declive, murundu ou pirambeira. Porque minha mãe também implicava com as cores das casas, mas os roxos, laranjas, vermelhões e verdes bandeira não eram páreo para as construções levantadas do chão.

Desde então venho pensando: qual será o meu piloti quando eu ficar velho (mais velho) e chato (mais chato)?

Tenho vários candidatos.

Os vícios de linguagem são os mais óbvios. São eles que me impedem de assistir à programação da CNN, porque minha cota diária de tolerância a barbarismos se esgota em cerca de 60 segundos.

Também tem a franja. Eu entendo a sombra verde, os óculos com correntinha, a sobrancelha imitando a logo da Nike, o pírcim no lábio – mas franja está além da minha compreensão.

Implico com gente falando alto ao celular em local público. Implico com gente falando alto. Ultimamente, dei para implicar com gente, mesmo calada, em local público – mas isso vai passar com a pandemia.

Implico com as rimas dos louvores evangélicos, sempre na base do luz / cruz / Jesus e glória / história / vitória. Tudo bem que não dê pra enfiar cuscuz, avestruz e arcabuz, nem rescisória, inflamatória e vibratória.  Mas no campo semântico de um louvor não há de faltar oportunidade para falar em belzebus e em nota promissória.

Implico com tatuagem. Com sotaque carioca em filme dublado. Com cachorro usando roupa. Com barba desenhada. Com locutor de supermercado.

Mas, correndo por fora e com grandes chances de chegar ao pódio, está a ombreira.

O que leva um ser humano do gênero macho a inflar artificialmente os ombros e ficar parecendo um jogador de futebol americano que botou um terno por cima do shoulder pad?

O Merval Pereira conta que, num voo, sentou-se ao seu lado um sujeito espaçoso, cheio de correntes de ouro e que não largava o celular, ignorando os pedidos da aeromoça para que desligasse o aparelho. Era o Wassef. Suponho que estivesse com o cabelo emplastado. E, possivelmente, com suas inseparáveis ombreiras – que o Merval não menciona, mas que não me escapariam.

A ombreira é o viagra do paletó.
A ombreira define o homem.
Diz-me se usas ombreira e eu te direi quem és.

Eu não reparo no cabelo do Guga Chacra. No olho de gatinha da Renata Vasconcelos. Na franja da Nina Lemos. Nunca reparei na peruca do Chico Xavier, nos anéis do Walter Mercado, no nariz do Juca Chaves, na boca da Cleo Pires, no busto (digamos assim) da Inês Brasil, no pescoço rabiscado do Fogaça.

A suposta participação do Wassef numa seita satânica pode dizer alguma coisa do seu caráter. Mas as ombreiras dizem tudo.

Anjos e padres

Em Minas se diz que cada vez que um casal de namorados fica em silêncio, nasce um anjo – ou morre um padre.

A ser verdade, meus primeiros namoros teriam superpovoado o céu – e dizimado o clero.

Minha primeira namorada se chamava Jane. Estávamos no pré-primário, talvez no primeiro ano. Ela era linda, tinha cabelos lisos,e imagino que tivesse uma voz igualmente lisa e linda, que receio nunca ter ouvido. Eu a namorava sem que ela soubesse, claro.

Contei à minha mãe que estava namorando.  E que Jane nunca ia às aulas às sextas-feiras.

– Vai ver, é bruxa – disse minha mãe, sem se desviar da costura.

Eu não sabia que havia relação entre bruxas e sextas-feiras. Jane – alva, silenciosa – em nada me lembrava as bruxas dos livros. Soube, depois, que ela apenas viajava com os pais todas as sextas. Por outro lado, descobri, naquele comentário, que minha mãe, com o humor característico da família, talvez não tivesse a menor vocação para ser a sogra mais amigável do planeta.

Zirlene, a namorada seguinte, também nunca soube que fomos namorados por quase um ano.

Estávamos então já na quinta série – sim, fiquei solteiro dos 6 aos 11 anos. Da Zirlene não me lembro de nada além do nome (como esquecer um nome desses?). Posso inventar agora que tinha cabelos cacheados, nariz de batata, que era baixinha. Não há de haver outra Zirlene, então será fácil localizá-la e verificar. Namoramos tempo suficiente para não trocarmos uma palavra, ainda que fôssemos colegas de turma.

Em seguida, ou em paralelo, não sei, houve a primeira Helena. Dessa me lembro bem. Era gorducha, tinha seios igualmente gorduchos – seios que nunca vi, seios apenas intuídos, mas dobrinha aquilo com certeza não era.  Devo ter uma fotografia dela, numa dessas caixas que me recuso a abrir.  Uma foto de borda serrilhada, autografada no verso, e posso dizer que namorei com a foto, não com ela.

Muito antes do Manuel Carlos, tive a epifania de que minha musa, quando eu me tornasse escritor, se chamaria Helena.  Eu já lera sobre a Marília de Dirceu, a Dulcineia de Dom Quixote, e em qualquer história que eu viesse a escrever – porque eu já sabia que escreveria – minha heroína seria Helena, não como a de Troia, mas como aquela, gorduchinha, de Araguari.

Houve então Dulcineia. Que, claro, nunca tinha ouvido falar em Dom Quixote e deve ter rido muito do garoto desengonçado, magricelo, que um dia, depois de muito ensaio, ousou lhe perguntar se ela tinha lido Cervantes. Não, não tinha. E eu me senti o cavaleiro da triste figura.

Veio então outra Helena, que amei só pelo nome, e porque me parecia impossível não amar alguém que se chamasse Helena. Ou Cecília.

Mas Cecília era nome non grato lá em casa – Cecília era a noiva do meu pai, até ele se encantar por uma Conceição. Se Jane era uma bruxa só por faltar às aulas nas sextas-feiras, imagino que passaria uma Cecília nas mãos da minha mãe.

Tive notícias da Jane décadas mais tarde – casada, uma filha, que não sei se terá herdado seus poderes mágicos. De Zirlene e da primeira Helena, nem fumaça. Dulcineia há de ter encontrado um Sancho Pança – ou um moinho. A segunda Helena eu revi num daqueles shows de 1º de maio, no Riocentro. Veio falar comigo, me apresentou o namorado. Conversamos ali, em cinco minutos, mais que nos dois anos do nosso namoro sem palavras.

Foram namoros sem beijos, sem mãos dadas, sem uma sílaba sequer.  Namoros unilaterais, com aquele silêncio solitário incapaz de fazer brotar anjos e fenecer padres. No máximo provocariam bocejos em coroinhas ou acúmulo de tecido adiposo em querubins. 

Se um dia for a Minas, e for à missa, repare no tédio dos coroinhas ao bambolear o incensório. Depois levante os olhos e preste atenção ao ventre dos querubins, às suas coxas roliças, às dobrinhas dos braços, às suas discretas papadas. Veja com que esforço as asinhas os sustentam no ar.  

É tudo obra minha, com a cumplicidade involuntária de Jane, Zirlene, Helena 1, Dulcineia, Helena 2. Só a partir de Maria de Fátima é que entrei no ramo da multiplicação de anjos e extermínio de autoridades eclesiásticas, atividades nas quais sou muito bom até hoje.

Love is in the air

Dia dos namorados, muita gente sem namorado/a/x querendo se arrumar, muita gente namorando e querendo dar um apigreide, respirar novos ares ou, quem sabe, apenas trocar de encosto.

Do alto das minhas seis décadas – boa parte delas passando o dia dos namorados chupando dedo – me sinto no direito de dar alguns conselhos a quem queira desencalhar até a meia-noite:

💔 Não tente ser sexy.

Quem é sexy é sexy até palitando os dentes. Quem não é pode esquecer aquela história de morder os lábios, murchar a barriga, forçar uma lordose, chacoalhar os cabelos como se estivesse num caraoquê dos Engenheiros do Hawaii.

Seja você mesmo/a/x, por mais que isso reduza suas chances. Bancar o/a/x sexy vai é acabar de vez com as poucas chances que lhe restam.

💔 Não tente parecer mais inteligente do que é.

Se o namoro engatar, a verdade virá à tona antes de a ciência viabilizar o transplante de cérebro – e muito antes que o seu plano de saúde cubra esse tipo de procedimento.

Não use palavras cujo significado você desconheça, ou vai ser um equinócio daqueles.

Não diga que viu os filmes do Foucault, que adorou os romances do Tchaikovsky – principalmente se não souber soletrar tchaicosque ou pronunciar fucô.

Assumir a ignorância e demonstrar interesse contam muito mais que qualquer falsa erudição.

💔. Não fale do/a/x ex.

Piadas de fanho, doenças infecciosas na família e histórias do/a/x ex são abortivos naturais de relacionamentos.

Pesquise no gúgol: há bilhões de coisas sobre as quais você pode falar. Ex, definitivamente, não é uma delas.

Seu/sua/sux pretendente/a/x não está nem um pouco interessado/a/x nas pessoas/pessoos/pessoxs com quem você andou se pegando.

Fale de si ou (melhor ainda!) queira saber dele/a/x.

Se ex merecesse ser mencionado/a/x, não teria virado ex.

❤️ O primeiro passo para arrumar alguém é não precisar desesperadamente de ninguém.

Estar bem sem ninguém é condição fundamental para se tornar interessante aos olhos do outro. Se você não aguenta ficar na sua própria companhia, por que outra pessoa te aguentaria?

Daí a dar uma de autossuficiente vai uma enorme distância. Você não precisa do outro para ser feliz, mas estando com o outro a felicidade é mais plena. Ou, pelo menos, a vida sexual diversifica um pouco.

❤️ O namoro vem – não precisa forçar.

Conheça, converse, convide, aceite o convite, vá para a cama – ou para o banco de trás -, ensaboe as costas dele/a/x, faça massagem nos pés, descubra interesses em comum (e interesses incomuns).

Se tudo isso for bom (principalmente a massagem nos pés), e se os interesses incomuns não forem muito bizarros, aí, sim, considere a possibilidade de transformar isso em namoro.

Boas amizades ou transas maravilhosas podem ir a pique se você tentar, por carência e/ou ansiedade, fazer delas o que elas não são.

❤️ Ache seu nicho de mercado.

Por que alguém escolheria você e não outro/a/x?

Porque você tem um diferencial. Você lava mais branco, tem tração nas quatro rodas, forno autolimpante, lactobacilos vivos. Tem mais vitaminas, proteínas e sais minerais, não tem gordura trans, não amarrota nem perde o vinco. Você não desbota, não solta as tiras, funciona 24 horas, é satisfação garantida ou o dinheiro de volta. Você tem enxague em quatro velocidades, frost free, o maior porta-malas da categoria. Você tem energia de dá gosto, é tudo que o dinheiro não pode comprar, o fino que satisfaz, vale por um bifinho e tem mil e uma utilidades. Você desce redondo, é impossível comer um/a/x só.

Sabe o que isso significa, não? Seja único/a/x. Elogie as sobrancelhas, em vez da bunda ou do peitoral. Sugira Ibitipoca em vez de Búzios. Cite Barthes (se você realmente conhecer Barthes, souber como se escreve Barthes e conseguir pronunciar Barthes) em vez de frases de autoajuda (feiques) da Clarice Lispector.

💞 Goste de “coisas de homem” (se for mulher) ou de “coisas de mulher” (se for homem) – e de coisas de homem e de mulher se for trans ou se quiser mesmo ser uma pessoa interessante.

Fuja do óbvio, do estereótipo. Atitude é isso – e não, como muita gente imagina, fazer selfie com decote e duck face, ou andar com metade da cueca aparecendo.

💘 Agora, se, mesmo assim, continuar sozinho/a/x, não tente se iludir com aquele papo de que é porque você é seletivo/a/x.

Conforme-se.

Seletivos, no caso, são os outros.

Bueiro

– Se já estão todas, todos e todes aí, podemos dar início a esta reunião extraordinária do Patrimônio Histórico e Cultural para decidir sobre os monumentos que merecem permanecer nos espaços públicos, os que vão para a reserva técnica dos museus e os que podem ser fundidos para fabricação de tampa de bueiro.  Deixa eu ver minha lista aqui. Hmmm… estátua equestre de Pedro I, na praça Tiradentes.

– Misógino, macho tóxico e abandonou afetivamente os filhos.

– Bueiro?

– Bueiro. Mas podemos deixar o cavalo.

– Ok, a estátua equestre vira uma estátua equina.  Estátua de Pedro II, na Quinta da Boa Vista.

– Escravocrata, gordofóbico…

– Gordofóbico?

– Já viu fotos da imperatriz, que ele trocou pela esbelta Condessa de Barral? Gordofobia raiz.

– Bueiro?

– Bueiro.

– Já que estamos na família imperial, temos a Princesa Isabel na avenida dela mesma. Essa fica, não é? Afinal, é mulher e…

– Sem chance. Vivia cercada de mucamas e se referia a uma de suas escravas, chamada Marta, como “negrinha de quarto”. Bueiro. E na Abolição, para aprender.

– Ok. Tiradentes, na Primeiro de Março, em frente ao palácio dele mesmo.

– Escravocrata. Perguntem pro Laurentino Gomes. Bueiro.

– Será que não vai escapar nem o Machado de Assis, ali em frente da Academia Brasileira de Letras?

– Nem pensar. Machado nunca assumiu sua negritude. Seus protagonistas são todos brancos. Capitu era quilombola? Brás Cubas era afrodescendente? Ele só tinha olhos para a burguesia da Rua do Ouvidor. Bueiro, e bem longe do Cosme Velho.

– Gente, vai faltar bueiro nesta cidade para tanta tampa! Para poupar tempo, melhor mandar fundir todas as estátuas de personalidades do século 19 para trás, não acham?

– Claro que não. Tem Zumbi dos Palmares, ali na Presidente Vargas. Essa fica.

– Mas Zumbi não tinha escravos? O Leandro Narloch levanta essa questão e….

– Nossa, quase quatro da tarde! Desculpe, mas marquei manicure e com essa demanda represada da pandemia, não posso me atrasar. Semana que vem a gente retoma, tá? E podemos começar pelo Drummond, ali no calçadão de Copacabana.

– Ah, tão bom passar pela orla e encontrá-lo ali, no meio do caminho…

– Esquece. Ele colaborou com o Estado Novo. Fascista.

– Bueiro?

-Bueiro. Fui!

Números

Noêmia se preparava para sair do cemitério, amparada pelos filhos, quando Moacirzinho a puxou pelo braço.

– Mãe, tá ouvindo?

Soluçando e fungando, Noêmia não ouvia nada.

– Mãe, escuta.

Todos pararam. Zirlene, que não tinha largado o celular um minuto durante todo o sepultamento, tirou o fone do ouvido e também ouviu.

– O barulho. Lá embaixo.

Havia mesmo um tum tum tum abafado, vindo debaixo do montinho de terra fofa.

Tudo bem que não tinha havido velório, que Moacir fora entregue envelopado e ninguém pudera ver o corpo, mas…

Começou o corre-corre, o escava-escava. O coveiro com a pá, Moacirzinho e o os primos e tios, com as mãos.  O tum tum tum cada vez mais forte, até que chegaram ao caixão, abriram-no, puxaram o fechecler do saco plástico e lá estava Moacir, de olhão arregalado.

Noêmia não sabia se desmaiava de emoção ou de pavor.

– Papai! – contra todas as recomendações médicas, era Moacirzinho que se jogava sobre o corpo do pai, dando no reencontro o abraço que não pudera dar na despedida.

Içaram Moacir enquanto Noêmia recuperava os sentidos.

Claro que estavam todos perplexos e felizes, mas era nítido que havia algo errado com Moacir.

Ele não respirava.

– Pai, você tá bem?

Moacir não respondeu.

Valdemar apalpou o irmão e declarou:

– Ele está duro.

– Rigor mortis – pontificou o coveiro, gastando o único latim que sabia.

Zirlene, de celular em punho, decifrou o mistério.

– Foi o governo. Papai não está mais morto. Ele e mais 352 foram ressuscitados na recontagem.

Ficaram todos imóveis – Moacir mais imóvel que os outros.  Quiseram levá-lo para casa, mas ele não andava.

– Rigor mortis, eu falei – repetiu o coveiro. As juntas não dobram.

Carregaram-no até o Uno, mas logo viram que iam precisar de uma Kombi ou, quem sabe tivessem que levá-lo em pé, de ônibus.

Moacir não só não respirava como não piscava, e só parava em pé porque Valdemar e Moacirzinho o seguravam.

Noêmia pensava num jeito de desmaiar de novo e acordar apenas quando tudo aquilo tivesse acabado.

– Gente – falou Zirlene, ainda mexendo no celular – parece que o Globo, a Folha e o Estadão estão fazendo uma contagem paralela dos óbitos e…

No meio da frase, Moacir caiu para trás. Mais duro do que antes.

Quem não tem cão…

Duda está ficando cega. Sobre o olhinho direito começa a baixar uma névoa.

Descobri quando passou a ter medo de andar por lugares onde sempre transitava lepidamente. O que os lugares tinham em comum era o piso escuro.

Ela não tem medo do escuro. Tem medo, possivelmente, do abismo que vê – ou pressente – diante de si.

Damos uma volta na garagem para evitar o piso de ardósia, diante do qual ela trava.  Ao descer pela escada de incêndio, esperamos que vença a hesitação diante do primeiro degrau de cada lance.

Tião foi o primeiro a se adaptar à nova rotina. Ele enxerga perfeitamente, mas intui o que a Duda não vê, e faz o caminho que ela faria. Ele seria um bom cão guia.

Tião vê o que os outros não veem.

Ele assiste televisão. Acompanha, atento, a disparada do leão no encalço da gazela. Segue, ziguezagueando com a cabeça, a tentativa desesperada de fuga. Posso quase intuir que torça pelo caçador, nunca pela caça, porque relaxa quando a presa é finalmente abatida.

Tião vê filmes de terror comigo. Duda e Chico apenas se aninham no sofá, ao meu lado – seja o lado direito, o lado esquerdo ou, no mais das vezes, o lado de cima mesmo. Não dão à tevê mais atenção do que ao fogão ou à geladeira. Tião percebe que a tela é um portal para outra dimensão, onde acontecem coisas não tão gostosas quanto no forno ou na gaveta das frutas, mas muito mais excitantes.

Ele se assusta quando o assassino salta das sombras. Se contrai nas facadas. Às vezes somos pegos, ambos, de surpresa, e sempre rio dos sustos que ele leva.  Por vezes, late, para afugentar alguém, para alertar do perigo.

Chico dorme. Durante o filme, durante o documentário sobre vida selvagem, durante o que for. Ainda não entendeu – talvez jamais entenda – que há caminhos por onde Duda prefira não ir. Que aquelas manchas se movimentando no retângulo que tem diante de si sejam um drama de vida e morte.

Chico não é Tião, que não é Duda. São três personalidades distintas. Com níveis distintos de percepção, com diferentes capacidades de compreensão.


Tião é carente, pede colo, lambe lambe lambe. Duda é não pede nada: exige. Seu relógio biológico sabe a hora exata do passeio, e qualquer atraso a deixa intratável.  Chico aguarda. Aceita carinho, mas não o procura. Ao contrário do Tião e da Duda, que sonham placidamente, Chico tem pesadelos. Talvez pressinta vazios sob seus pés, como a Duda; talvez seja ele a presa numa caçada onírica, ou a vítima do psicopata. Vá entender o inconsciente de um cachorro…

Cada um tem seu pote de comida, proporcional ao tamanho. Mas a ração do pote ao lado parece sempre mais gostosa – ainda que seja a mesma.  Houve um tempo em que Chico comia ração de adulto e Duda, a de filhote. Quem teve irmão caçula (eu tive quatro!) sabe que a comida do filhote é sempre mais gostosa, e Chico pegou gosto pelo pote pequeno da Duda, onde mal cabe seu focinho. Depois foi a vez da Duda migrar para a ração de adultos, e ser do Tião a de filhote. E havia que protegê-lo para que os mais velhos não lhe tomassem a comida.

Tião chegou por último, sabe seu lugar na hierarquia, e cede sempre. Duda foi a segunda a chegar, mas isso não a impediu de ser a alfa da matilha. É ela, a menor dos três, quem fica sempre com a melhor parte. Chico, macho desconstruído, não se importa.

Com a mesma comida em todos os potes, Duda ora prefere o pote vermelho do Tião, ora o enorme pote amarelo do Chico – nunca seu potinho grená. Tião e Chico se afastam quando ela vem farejar o cardápio. Brigam, os dois machos, pelas bolinhas de borracha, pelo canto no sofá, mas vão procurar outra coisa, outro lugar, se ela resolver que é hora de sofá, que quer bolinha.

Chico tem pelo mais comprido, e precisa ser escovado quase que diariamente, ou a casa vira uma nuvem de fiapos pretos. Duda tem pelo mais curto e não aprecia muito o processo fazer escova. Tião, o de pelo curtíssimo, e que não precisa ser escovado, entra assim mesmo na fila, e aguarda, impaciente, sua vez de ganhar aquilo que ele deve achar ser uma forma superior de carinho. Escovo-o, sem que saia um fio, para que fique feliz. E ele fica.

Foi ele o primeiro a entender a logística da limpeza das patas ao voltar do passeio. O primeiro a levantar voluntariamente a patinha dianteira quando me vê pegar a esponja. Duda o seguiu, a contragosto. Chico ainda prefere que eu lhe levante cada uma das patas pesadas. 

Com dois meses de quarentena, Tião já ergue as patinhas – inclusive as traseiras! – sempre na mesma ordem. Duda ainda prefere levantar as patas traseiras apenas para o xixi (cercada por machos, nunca fez xixi agachada).  Chico… bem, o grandão deve achar que essa coisa de pandemia e limpeza de patas vá passar logo, e não vale a pena incorporar o procedimento à sua rotina.

Quem não convive com cachorros jamais vai entender por que os chamamos de filhos. Por que conversamos com eles. Por que nos curvamos a algumas das suas vontades – o lado da cama, a posse do sofá, a hora exata do passeio.  

Quem não convive com cachorros há de pensar que projetamos neles nossa personalidade. Se for assim, devo ter transtorno dissociativo de identidade, porque convivo com três criaturas absolutamente únicas, que só têm em comum uma história de abandono.

Talvez não estivessem mais vivos se meu caminho não tivesse se cruzado com o deles – na Cidade de Deus, no Catete, em Jacarepaguá. Eu certamente seria menos feliz, e um pouco mais morto, se o caminho deles não tivesse se cruzado com o meu.

Transportadores e transportadoras

J.K.Rowling, a autora de Harry Potter, não sai por aí procurando encrenca. Em geral as encrencas é que vão ao encontro dela.

Ela está sendo acusada de transfobia por achar que um artigo intitulado “Criando um mundo mais igualitário pós-Covid-19 para pessoas que menstruam”, poderia ter sido chamado simplesmente de “Criando um mundo mais igualitário pós-Covid-19 para as mulheres”.

Rowling pode entender muito de animais fantásticos – e até saber onde habitam – mas ainda é do tempo em que menstruação era coisa de mulher.

Hoje há homens que menstruam, mulheres que ejaculam. Mulheres com disfunção erétil, homens com cisto no ovário. Homens que engravidam e amamentam; mulheres que fazem espermograma. E Rowling não se atualizou. Logo, é uma transfóbica, um daqueles seres abomináveis que ainda acreditam em sexo biológico. Praticamente um Voldemort de saias. Ops, a expressão “Voldemort de saias” pode ser transfóbica, porque associa o gênero feminino a saias, e tanto mulheres quanto homens quanto pessoas que menstruam quanto pessoas que ejaculam podem usar saias, calças, bermudas, o que bem entenderem, sem que isso defina seu sexo, seu gênero, sua orientação ou, no caso dos genderfluid, sua vaibe no momento.

Talvez os formulários retrógrados e transfóbicos em que a gente bota um X em F ou M devam ser modificados. Teremos PQM (Pessoa Que Menstrua) e PQE (Pessoa Que Ejacula).

Mas mulheres também ejaculam (dizem; eu mesmo nunca vi). E depois da menopausa não menstruam mais, assim como não menstruavam antes da menarca. Sem contar as pessoas que não menstruam porque fizeram um implante subcutâneo para não menstruar. PQM é um termo muito impreciso.

Que tal PPV (Pessoa Portadora de Vagina) e PPT (Pessoa Portadora de Testículo)? Não é mais inclusivo?

Claro que vamos precisar de um tempo para nos acostumar a ouvir a Renata Vasconcelos anunciar no Jornal Nacional que José Dirceu, pessoa portadora de testículo forte do governo Lula, declarou que uma chapa Rui Costa e Flávio Dino seria imbatível na disputa pelo governo federal em 2022.

Ou, na cerimônia à beira-mar, noivos e convidados de bermudas brancas e pés no chão, o padre Fábio de Mello perguntar:

– Brunnynho, aceita esta pessoa portadora de vagina, Camylla, como sua legítima esposa?

(Na fila dos padrinhos, Fellype, murmurará, de si para si: “E que vagina!”).

– Camylla, aceita esta pessoa portadora de testículos, Brunnynho, como seu legítimo esposo?

(De mãos dadas com Fellype, na fila das madrinhas, Victhorya suspirará: “E que testículos!”).

Para não sermos transfóbicos como Mrs. Rowling, que insiste na velha dicotomia “homem e mulher”, temos que fazer nossa parte e contribuir para o fim da invisibilidade trans. Porque não basta dizer homem trans e mulher trans. A palavra “mulher” é extremamente ofensiva; a palavra “homem”, nem se fala.

Resta a dúvida se devemos dizer “Pessoa Portadora de Testículo, Epidídimo, Ducto Deferente e Ejaculatório, Uretra e Glândulas Seminais Trans” (PPTTEDDEUGST) ou “Pessoa Trans Portadora de Testículo, Epidídimo, Ducto Deferente e Ejaculatório, Uretra e Glândulas Seminais” (PTPTEDDEUGS).  E “Pessoa Portadora De Lábios Menores, Lábios Maiores, Clitóris, Ovários, Tuba Uterina, Útero e Vagina Trans” (PPLMLMCOTUUVT) ou “Pessoa Trans Portadora de Lábios Menores, Lábios Maiores, Clitóris, Ovários, Tuba Uterina, Útero e Vagina” (PTPLMLMCOTUUV).


No próximo Harry Potter, em que finalmente Harry e Hermione assumem o relacionamento, havemos de ter diálogos assim:

– Harry, você é a PPTEDDEUGST da minha vida…
– Você disse PPT ou PTP, Hermione?
– PPT, Harry. T de testículo, não de trans. Não vá me dizer que…
– Não, Hermmy, é que no GST eu já não me lembrava mais do começo da sigla. E você é a PPLMLMCOTUUV mais mágica que já conheci.
– Own, Harry… Vamos colocar logo essa varinha de condão para funcionar!
– “Varinha”, Hermione? Você tem sempre que lembrar disso?
– Harry, não começa essa problematização de novo, por favor.
– Tá bom. Vamos apostar corrida de vassoura até aquela nuvem, e fazer amor ao luar?
– Own, Harry… vamos! E o último que chegar é PPLMLMCOTUUV do padre!

[Disclêimer 1: Nenhum transportador ou transportadora de qualquer sistema genital foi ferido na redação deste texto.]

[Disclêimer 2: Aos que forem compartilhar este texto em páginas de grupos democráticos (i.e, sem senso de humor e adeptos do pensamento único), com o fito de descer o pau no autor pelas costas, recomenda-se discrição, porque ainda não consegui sair de todos esses grupos e posso ter acesso aos comentários e, como sempre acontece nesses casos, ter também um acesso de riso em locais onde rir do risível é crime inafiançável).

Novo normal

Sabe quando você acorda depois de quase três meses em coma e percebe que o mundo está diferente? Nem eu nem você devemos saber, porque possivelmente não passamos por essa experiência, mas dá para imaginar, não dá?

Pois passei por isso na sexta-feira, quando fui a Nova Iguaçu, a trabalho.

Sou arquiteto, e arquiteto tem que ir aonde o terreno está. Como o terreno de um possível novo projeto estava em Nova Iguaçu, lá fui eu.

Tudo parecia do jeito que sempre foi.
Américas, Ayrton Senna, Abelardo Bueno e Transolímpica com tráfego intenso.
Avenida Brasil engarrafada.
Dutra com aquele trânsito pesado de sempre.

Nova Iguaçu de ruas lotadas.
Filas nas portas de bancos.
A mega-sena devia estar acumulada, porque havia aglomerações na frente de todas as lotéricas.
E também em todas as calçadas, em todos os sinais.

Tudo aparentemente normal, mas senti certa estranheza, e por uma coisa banal.

Pode ser uma nova moda, uma brincadeira tipo Pokemon, uma festividade local, mas… por que algumas pessoas, aqui e ali, usavam máscaras?
Não aquelas de Carnaval, cobrindo os olhos, mas coloridas, ora cobrindo só a boca, ora o queixo, ora pendurada na orelha.

Não deu para fazer uma estimativa confiável (eu estava dirigindo, tinha que me desviar dos pedestres, dos carros que entravam na preferencial, até de uma charrete), mas diria que cerca de 40% da pessoas usavam algo imitando máscaras, ou coisa que o valha.

Como podia ser alguma prescrição religiosa – e por acaso havia uma máscara no meu carro -, coloquei-a também.

Meus clientes não usavam máscara nenhuma. Me apertaram a mão efusivamente, o que também me deu uma sensação esquisita (nos quase três meses em coma metafórica, tive a impressão de não ter apertado a mão de ninguém, nem falado com ninguém a tão curta distância).

A experiência de ver aqui e acolá uma pessoa com um pano colorido na cara – ou no queixo, ou na orelha – me causou certo desassossego.

O resto estava normal.

Estranha e absolutamente normal.

Transição

Não estou cabeludo nem desgrenhado. Estou em transição capilar.

Uma transição entre sapiens e o neandertal, entre o apresentável e o melhor fazer de conta que não viu.

Sabe aquelas camadas geológicas através das quais os cientistas descobrem (ou inventam) quando ocorreu determinado evento? Pois está assim: dá pra ver exatamente a data do início do confinamento. Se o cientista for de Harvard, não de Rárvarde, é possível saber até a hora.

O cabelo vem liso, reto, de boa, até a altura da orelha – que é onde estava em março de 2020.  Nesse ponto, baixa um erê, sobe uma coisa esquisita e ele perde a linha.

Lembra da noviça voadora, uma que usava chapéu de aba, e levantava voo do Convento de San Tanco? Estou que nem. Só que com a ponta da aba para cima, feito as winglets dos aviões (não vou escrever uinguilete ou nem eu entenderia). Se bater um sudoeste, eu decolo.

Acontece a mesma coisa na nuca. O cabelo (pouco, mas meu) desce em ordem unida a partir da clareira do cocuruto. Um pouco antes da altura do lóbulo, é como se o chefe do pelotão gritasse “Pelotão, disper-SAR!” e dispara cada um pra um lado, fazendo cacho, pirueta, voluta, espiral, helicoidal, redemoinho. O que era uma disciplina militar vira quartelada, baderna na caserna, motim, sublevação.  Em vez do estilo Príncipe Danilo da minha infância, o corte agora é do tipo de daria corte marcial.

A barba, por sua vez, está em transição entre indivíduo em situação de rua para náufrago. Numa laive, supostos amigos sugeriram que eu conseguiria bom faturamento atuando no segmento da mendicância. Mas a intenção é fazer ho-ho-ho nos shoppings – se eles reabrirem até o Natal.

As sobrancelhas lançam gavinhas sobre as pálpebras, levando o fantasma de Leonel Brizola a me assombrar cada vez que me vejo no espelho. Mais uma semana e será Darcy Ribeiro em pessoa quem arregalará os olhos para mim toda manhã, na hora em que eu entrar no banheiro.

Das orelhas, nem falo nada, ou vão descobrir que reassumi, a contragosto, minha porção chupacabra.  

Se me perguntarem qual a primeira coisa que quero fazer quando a vida real for retomada, não será sexo, praia, livraria, chope, nada disso, mas depenar a orelha.

Sei que vai ter fila, senha, briga na porta da clínica de depilação. Que mulheres vão argumentar, aos gritos, que orelha não é parte da anatomia voltada para serviços essenciais. Mas estarei lá, acampado, esperando o momento de minha orelha poder retornar ao convívio social.

Na próxima pandemia,  tenho que me lembrar: esquece o álcool gel e o papel higiênico, e foca na cera quente.