Sufixos

A língua brasileira é paupérrima em sufixos.

Os portugueses, sim, têm um monte deles. Por isso conseguem criar, com o sufixo “ano”, a partir da palavra Itália, a palavra italiano. A partir de Índia, indiano. De Coreia, coreano. De Alentejo, alentejano.  

Têm o sufixo “ense”, que faz belenense, belmontense, catarinense, maranhense.

Têm o “ês”, que formou português, francês, inglês, galês, chinês.

O “ão”, que lhes deu bretão, alemão, afegão, catalão, parmesão – e aldeão, vilão, cidadão.

Têm o “eta” de lisboeta.

O “ita” de vietnamita, moscovita.

O “oto” do minhoto.

O “ino” de latino, londrino, bizantino, nova iorquino.

O “ista” de sulista, nortista, paulista.

O “enho”, que dá panamenho, hondurenho, porto-riquenho.

Têm até o “eiro”, que é de formar profissão, mas serve para brasileiro, mineiro, campineiro.

Nós, falantes da língua brasileira, não dispomos desses recursos e temos que importar – com o dólar no patamar em que está! – um sufixo estrangeiro, o “er”.

Tudo começou em São Paulo, com os “farialimers”, os mauricinhos do condado da Faria Lima. Realmente, ficava mal chamar aqueles uorcarróliques, consumistas, fechionistas, conservadores e endinheirados de farialimeiros, fariamanos, farialimenses ou farialimões.

A coisa desandou quando se percebeu que os alternativos, bichos grilos, progressistas e mais quebrados que arroz de terceira de Santa Cecília eram os “santacecíliers”, e não santacelistas, santacecilenhos ou santacecilhotos.

Urge colocar uma barreira sanitária em Queluz para impedir que isso se propague até o Rio de Janeiro – antes que a garota de Ipanema vire uma carióquer, que o camelô da Saens Peña se torne um tijúquer e eu, aqui na Barra, me veja transfigurado num emergênter.

Teríamos os farmedeamoêders desfilando com suas bermudas de bainha dobrada e camisas floridas, os diasferrêirers pagando por um sushi o valor de um Gol 1.6, os lápers tomando litrão e corote com seus vestidos mariamijona e camisetas de Che Guevara. Os jardimpernambúquers, os altoleblôners e os baixogávers lançando tendências logo copiadas pelos sãocristóvers, vilaisabélers, bangúers, realênguers, cascadúrers e mesmo meritíers e belforrôxers.

Na política, agora temos os quarentêners, que, feito gases nobres, não se misturam, e os adeptos da C18H26ClN3, também conhecidos como cloroquiners.

Se a moda tivesse chegado antes, teríamos tido coxínhers e mortadélers – muito mais finos e requintados que os dessufixados coxinhas e mortadelas.

Pensando bem, a culpa não é dos rípsters paulísters, porque em 2016, ainda que não tivéssemos os ególpers, já tínhamos os foratêmers.

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