Porque ontem foi sábado

Lembram quando diziam que sábado era dia de tomar banho? Pois sábado agora é dia de tomar banho mesmo. Aquele de corpo e alma, de lavar atrás da orelha, esfregar com bucha e sabonete onde quer que haja pele, e não só “nas partes”, e deixar a água levar a espuma e o cansaço. Sem desperdício, mas com fartura. Até porque sábado também é dia de dar banho nos cachorros e haja água para limpar tanto pelo.

Cada sábado tenho faxinado um canto da casa. Depois, encharcado do suor da faxina, vem o tal banho purificador.

Houve o sábado do armário da cozinha. Tirei tudo, lavei tudo, passei álcool em todas as prateleiras. Canecas que não viam a luz do dia há muitos anos esfregavam os olhinhos com as asas, atônitas com a luminosidade deste maio sem poluição. Revi louça que julgava desencarnada há tempos, xicrinhas de quando eu tomava café em doses não letais, cumbucas do tempo em que cumbuca ainda não tinha virado bowl. Uma coleção de copinhos de vodca – e eu não bebo vodca, então deve ser herança de algum casamento que não deixou nem ressaca.

Descobri que todos os meus potes têm tampa e todas as minhas tampas têm pote. Faltava apenas fazer a audiência de conciliação.

Foi nesse sábado que resolvi deixar de fora apenas um casal de cada talher, um prato raso e um fundo, duas panelas (a inofensiva e a de pressão), duas frigideiras (na esperança de uma hora dessas aprender a fazer banana frita), o saca-rolha e um artefato de vidro de socar limão para caipirinha (tirando o ferro elétrico, ninguém é de ferro). (Aliás nem o ferro elétrico é de ferro: o meu é 90% de plástico).

No sábado de arrumar o guarda-roupa, reencontrei o ferro elétrico. O tempo para ele não passa: continua o mesmo de quando nos vimos pela última vez, há cerca de um ano. Ou dois, não sei.

Apesar de ter saído de casa aos 15 anos para morar sozinho, quase meio século depois eu ainda dependo de alguém para passar minha roupa. Quer dizer, dependia. Não dependo mais. Agora ando de roupa amarrotada, com a maior desenvoltura.

Separei as camisas, bermudas, meias e cuecas de que preciso e me dei conta de que meu guarda-roupa poderia ser do tamanho de uma caixa de sapato. Gandhi precisava de mais roupa que eu. A propósito da caixa de sapato, limpei os sapatos e me peguei pensando nas coisas estranhas que fizemos juntos, como ir a livrarias, a reuniões de trabalho, a restaurantes… Não rolou nenhuma furtiva lágrima, mas quase.

Houve o sábado do armário do banheiro. Tenho remédio para abastecer os Médicos Sem Fronteiras por um trimestre. Pena que esteja tudo vencido. É que não vendem comprimidos por unidade, mas por caixa, por frasco, de 20, de 30, de 50. E eu paro de tomar tão logo cessem os sintomas. Logo, sempre sobram 10, 20, 40.  Como nunca sei quando vou ter outra virose, outra faringite, outra broncopneumonia (ano passado, foram duas) ou outro início de AVC (já foram três), vou guardando.  Não, não tinha cloroquina, porque o máximo de esoterismo que eu me permito é chá de carqueja e homeopatia.

Ontem limpei atrás da geladeira. Vocês fazem ideia do que tem atrás de uma geladeira? Nuvens de pó. Pelo de cachorro em quantidade suficiente para encher várias almofadas. Moedas, Uma colher. Insetos mumificados. Não foi uma faxina, mas uma expedição arqueológica.

Lá em casa (casa dos meus pais), a geladeira morava na copa e sua retaguarda servia para secar tênis, uniforme, pano de prato. Era um eletrodoméstico móvel e arejado. Aqui não: fica engastado num armário, onde também estão incrustrados o fogão, o micro-ondas, a máquina de lavar. Entrou ali, é pro resto da vida. Ou, pelo menos, até surgir uma pandemia e a gente resolver investigar se a Marleide fazia o serviço direito.

Já houve o sábado da estante da sala e o sábado da varanda. Mais 15 dias de quarentena e vou começar a oferecer meus serviços de personal clíner. O prazer do crosfite doméstico com escova, esponja, álcool 70 e lisoforme, seguido de um banho de alegria, num mundo de água quente, ninguém me tira. Marleide só volta agora se reabilitarem a moda da roupa passada.

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