Contatinho

Sou uma pessoa que procura se atualizar. Demoro um pouco para entender como funcionam certos aplicativos (ainda não sei salvar laives), mas acho joia aprender novas gírias e estar em dia com o papo firme dessa patota batuta e supimpa de agora.

Para isso, nada melhor que ler as colunas de Comportamento dos portais progressistas. São bem prafrentex e é graças a elas que não pago de boko moko nas questões de sexualidade, por exemplo.

Descobri que tem gente furando a quarentena – e não é para fazer churrasco ou andar de jetisqui, mas para transar. Quem diria, não?

Gente como “Rogério, 35” que, “com o endurecimento do isolamento social em Recife” (no pun intended), “passou a fazer home office, adaptou os treinos de crossfit na sala” e, uma vez por semana “recebe pessoas em casa para transar”. 

Repare que ele não recebe mulheres ou homens – recebe “pessoas”. Uma coisa bem genderfluid, morou? Mas não o faz “sem antes pedir para o convidado tomar um banho” (aí o “pessoas” já ficou só no masculino, mas a vida do “Rogério, 35, do Recife” não é da minha conta – eu que achava que tomar um banho junto, antes, era mais velho que o arco da velha…).

Prossegue a matéria: “Recentemente, até a Anitta entrou no radar, após aparecer com um “contatinho” nos Stories”

Já sei quem é Anitta (a vizinha de cima passou horas, uma noite dessas, gritando “Vai, malandra!”). Sei o que são os “stories” (ainda que não haja o que me faça entender sua serventia). Mas o que será um “contatinho”?

Antes que tenha tempo de investigar, leio que “Enquanto muitos cinemas pornôs e bares de sexo se encontram fechados, nos grupos de internet, praticantes de swing, dogging e uma infinidade de outras modalidades sexuais ainda marcam encontros em segredo”. Bares de sexo? Dogging? Infinidade de outras modalidades sexuais? Me sinto um Estácio de Sá acordando no Aterro do Flamengo depois de uma soneca de 450 anos..

Em seguida, o artigo revela que “o Departamento de Saúde de Nova York orientou os moradores da cidade a abusarem da masturbação e dos brinquedos sexuais”. “Você é o seu parceiro sexual mais seguro”, diz a campanha. Mas isso não causava espinha, olheira, pelo na mão? Não era passaporte carimbado para o inferno? Não havia uma encíclica papal a respeito, e uma penitência de três pais-nossos e quatro ave-marias para quem “levasse lá a mão”?

“Ophélia, 30, furou a quarentena ainda em março. Convidou um “contatinho” com quem estava se relacionando antes da pandemia a passar alguns dias em sua casa. “Porque, se fosse para só vir, transar e logo sair, a gente pensava que seria pouco para se colocar em risco”, explica.

Morei no lance. “Contatinho” deve ser um apideite do peguete. Um caso, um rolo, uma treta. Um lanchinho da madrugada. Um amigo de virilha, um/a P.A., um flerte, um cacho, um afér.

“Por mais que eu tenha trocado nudes com vários caras, é como se não resolvesse a vontade. Na semana passada, por exemplo, eu tava bem na pilha de furar a quarentena para transar, mas como não tinha ninguém disponível — ou não podiam, ou não queriam, ou estavam longe —, acabei não furando mesmo. Chega num ponto em que você até perde o tesão, sabe?”

Sei, Ophelia. Como sei!

Susana, 48, de São Paulo, há dois meses de quarentena, confidencia que “tem vontade de furar o confinamento para fazer sexo”. Ela busca respostas para explicar a vontade: “sensação de poder morrer sem ter aproveitado a vida”, diz.

Fure o confinamento, Susana. Troque nudes e convide o contatinho, Ophélia. Fure a quarentena, Rogério, tendo o cuidado de pedir às “pessoas” para tomar um banho antes. Porque, de uma forma ou de outra, vamos morrer sem ter aproveitado a vida. E o que é um orgasmo senão uma crise respiratória aguda por livre e espontânea vontade, né não?

Pena que a matéria não informe onde a gente descola o contatinho. Se é no Orkut, no ICQ, no MySpace, no Linkedin. Se dá pra escolher o gênero ou tem que estar preparado para o que vier, seja um broto ou um pão, um gato ou uma mina, uma mona ou um bofe. Pode ser que haja alguma pista nos stories da Annita.

Aliás, hoje tem laive dela de novo. Vai que ela não só aparece com o contatinho como ensina o caminho das pedras. Mas sou quadrado e careta demais pra isso. E quando a vizinha de cima – que, pelo jeito, também não tem contatinho nenhum – começar a pular e gritar “Vai, malandra!”, eu boto tampão de cera no ouvido e sussurro pra mim mesmo “vai, mané!”.

3 comentários em “Contatinho

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