Segundas intenções

Tenho dois tipos de cuecas. As de usar e as de segundas intenções.

São do mesmo modelo, da mesma cor e, creio, foram compradas no mesmo dia.

A diferença é que as cuecas de usar já estão meio lasseadas e com o cós ficando frouxo e grisalho.  Sim, com o tempo, as cuecas de usar vão ficando parecidas com o dono.

As cuecas de segundas intenções só são usadas em ocasiões especiais, quando se vislumbra a possibilidade de haver momentos em que não sejam necessárias. O que é um paradoxo: guardar a melhor cueca para quando ela não fará a menor falta, e ficará jogada no chão.

A cueca de usar serve para ir ao trabalho, ao supermercado, dar uma volta com os cachorros. Sua função é meramente sanitária. Já a de segundas intenções é para aqueles dias em que se vai, por exemplo, ao supermercado com a vaga esperança de que, na prateleira de achocolatados, duas mãos toquem ao mesmo tempo o mesmo último refil de Nescau. Não, isso nunca aconteceu, até porque não tomo Nescau. Mas tenho essa fantasia diante de cada pacote de granola.

A granola me parece o cupido ideal. Significa que aquelas duas pessoas têm um universo em comum. Se for granola com passas, então, as bodas de prata estão garantidas (não para mim, a esta altura do campeonato – mas sonhar não custa).

Nunca rolou nada diante da gôndola das granolas. No trabalho, duas ou três vezes, e olhe lá. Passeando os cachorros, às 6 da manhã, sem chance. Por isso as cuecas de segundas intenções duram anos, em estado de novas – enquanto suas irmãs gêmeas, que vão para a máquina de lavar toda semana, logo estão acabadas.

Sair com a cueca de segundas intenções e voltar para casa chupando dedo faz parte. É, inclusive, o defô. Não, querer não é poder: querer é apenas ter vontade; poder é outro departamento, e um não tem o zap do outro. O problema é sair com a cueca de usar e pintar um clima.

De que adianta ter as piores intenções se a primeira impressão é a que fica? E quer impressão pior que uma cueca bamba, com o elástico do cós fazendo ondinha? Sim, sempre se pode alegar fotofobia e apagar a luz, mas homem que pede para apagar a luz acende sempre uma luz de alerta no cérebro da parceira. Pode-se pedir licença para ir ao banheiro e voltar de roupão, mas aí as suspeitas se confirmam.

O jeito é dizer não.

Mulheres estão acostumadas a fazer forfé nessas horas, mas homem não tem essa expertise. A gente não tem como dizer que é fiel, porque hipocrisia tem limite, e a possibilidade de arrastar para a cama um homem fiel é muito mais excitante para uma mulher do que levar um galinha (nesse ponto, homens e mulheres são iguaizinhos).

Não dá para ser sincero e dizer “desculpe, hoje não vai dar porque não estou com minha cueca de segundas intenções, e sim com uma molambenta, com a costura aberta do lado”. Que mulher vai continuar querendo alguma coisa com um homem que usa uma cueca assim? Pois saibam todas (e todos e todes) que isso é muito mais comum do que se pensa.

Nada me tira da cabeça que a campanha do “não é não” não seja só uma forma de legitimar o “sem chance, que hoje não vim com minha calcinha de segundas intenções” ou “volte outro dia: estou com a depilação vencida”.  

Eu tinha duas belas cuecas de segundas intenções, tipo boxer, compradas em Buenos Aires, no meu aniversário de 50 anos.  Foram usadas com tanta parcimônia que continuam batendo um bolão. Eu é que não estou mais tão magro, e quando as uso fico me sentindo um Dória de calça jeans, um Marcelo Bretas, um cantor sertanejo, e tenho que andar como se estivesse apertado para ir ao banheiro.  É bom usá-las de vez em quando porque, mesmo que não role nada, o prazer de tirá-las ao chegar em casa é quase tântrico.

Agora de manhã, fui levar os cachorros para passear, sem segunda intenção nenhuma, claro – a não ser não cruzar com uns borders que eles detestam (e que não dão a mínima para eles). Abri a gaveta e cadê cueca limpa? Como atualmente sujo menos roupa, leva uns 15 dias para encher o cesto e há um momento em que todas as cuecas de usar já foram usadas. Sobraram hoje as torturadoras argentinas e as zorbas pretas de segundas intenções. Que eu não via há quase dois meses.

Dois meses sem segundas intenções!

Até passar o pico da pandemia, as cuecas já estarão todas iguais Terei que voltar à loja da Zorba ou perder uns dez quilos, para caber de novo nas sádicas argentinas.

E talvez precise fazer um curso de reciclagem sobre segundas intenções.

15 comentários em “Segundas intenções

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