Assim, do nada

A teoria da geração espontânea foi abandonada no século 19. Uma pena. Só ela era capaz de explicar certos fenômenos.

Ponha toda a roupa na máquina para lavar. Toda. Esvazie a cesta de roupa suja, cate no chão do banheiro, pegue o que estiver jogado em cima do sofá, da cama, das cadeiras. Passe um pente fino pela casa. Assim que tiver fechado a tampa da máquina e acionado o “Iniciar”, um par de meias brotará de dentro de um pé de sapato.

A comprovação científica da geração espontânea das meias é simples. Instale câmeras sobre todos os pares de sapato e confirme, in loco, que não há meia alguma lá dentro. Dê printe das telas, por garantia. Feche a tampa da máquina, aperte o “Iniciar” e plum!  um par de meias (sujas) surgirá, do nada, num dos sapatos. Ou tênis. Ou crocs. Há registros de ter surgido até dentro de sandálias havaianas – mas só no Paraná, e no inverno.

Lave a louça da pia. A louça que ficou na mesa, depois do almoço. As canecas esquecidas sobre os aparadores. O copo que dorme sobre a mesinha de cabeceira para o caso de você acordar com sede ou de um rivotril só não ter sido suficiente para te fazer pegar no sono. Lavou tudo? Limpou o tampo da pia, deixou tudo brilhando? Um prato (sujo) nascerá, de geração espontânea, em algum lugar da casa. Em cima da máquina de lavar roupa, por exemplo – certamente esquecido no parágrafo anterior, enquanto você se preocupava com as meias.

Como a natureza é sábia, é preciso uma contrapartida para esse surgimento inexorável e irrefreável de meias, cuecas, camisetas, pratos e talheres – todos sujos. É por isso que meias somem (dentro da máquina, de preferência). Que camisetas que você jurava que tinha evaporam das gavetas. E que pratos aparecem trincados, guardadinhos no armário, prontos para ser jogados no lixo. Não, não é culpa da Celeste, que tem mão pesada e costuma ir embora carregando uma sacola de um jeito meio suspeito. É o equilíbrio ecológico, para impedir que o planeta saia da órbita, soterrado por meias usadas e louça suja, geradas espontaneamente.

Problemas, boletos e gente sem noção também surgem do nada. Você dirá que problemas e boletos não são organismos. Ingenuidade sua. Eles têm DNA, ribossomo, mitocôndria, citoplasma. Se reproduzem por partenogênese, por esporulação, brotamento, cissiparidade. (Eu sabia que ainda ia usar esse vocabulário algum dia. Que aquelas milhares de inúteis aulas de Biologia que me roubaram parte da adolescência e do prazer de viver tinham que servir para alguma coisa. Pronto, serviram. Obrigado, d. Sonia.  Obrigado, prof.  Haroldo).

Petistas cuja existência você ignorava brotam na sua página para soltar os cachorros em cima de você a cada postagem sua que blasfeme contra a divindade que eles cultuam.  Bolsomínions que você nunca viu mais gordos desabrocham em comentários iracundos – basta que você ouse desmitificar o seu mito. Os mais céticos dirão que são robôs, que são feiques, que há seres supostamente humanos por trás deles. Que gente sem noção não irrompe assim, feito cogumelo em pau podre depois da chuva.

Lamarck, que acreditava que a girafa, de tanto esticar o pescoço para pegar as folhas mais altas, foi ficando pescoçuda e gerando filhotes pescoçudinhos, também devia ser reabilitado. Lombroso é outro que merecia uma segunda chance.  Mas prometi a mim mesmo não falar de política por uma semana, então não vou desenvolver o tema.

6 comentários em “Assim, do nada

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