A conta

O garçom se aproxima, solene, com a conta.São 9.265 mortes, senhores. Sem os 10%. Não aceitamos crédito; só débito ou dinheiro.

Os comensais se entreolham.

Uma senhora muito distinta, única mulher à mesa, se apressa em tirar o seu da reta.

– No que se refere a essa conta, tem uma coisa muito importante que é, não sei se vocês sabem, mas eu nunca estimulei aglomeração. Aliás, onde eu chego, as pessoas se afastam.

Fala olhando para todos, menos para um senhor desalinhado, de cabelo mal cortado e maneiras rudes à mesa.

– Minha senhora, não fui eu que pedi uma refinaria enferrujada em Pasadena que custou quase 2 bilhões, o suficiente para construir 200 hospitais de campanha, talquei?

– Calma, cumpanhêro – apressa-se em apartar um simpático senhor barbudo. A gente tamo junto e vamo rachá a conta direitinho. Um Fiat Elba, quem foi que pediu?

Outro senhor, de porte altivo e nariz aquilino, se levanta, indignado, e dá um murro na mesa.

– Meu povo! Não me abandonem! Eu não admito! O Youssef não trabalhava pra mim Esse Queiroz também meu não é…

– Calma, xará… – diz pausadamente o afável comensal da cadeira vizinha. Vamos começar pelas entradas. Quem foi que usou verba pública para ganhar um ano de mandato, verba que, se aplicada onde devia, talvez pudesse ter poupado tantas vidas no Maranhão?

– Maribondos de fogo me mordam! O valor gasto na aprovação da emenda da reeleição é que poderia ter sido usado em São Paulo, que, por sinal, é onde há mais mortes…

O elegante senhor de cabelo impecável, mãos manicuradas e olhar transilvânico, pede um aparte:

– Caros confrades…

– E confradas… – resmunga a senhora de taiê vermelho.

– Caros confrades e confradas, tem que manter isso, mas lembrar-lhes-ei que o Mensalão e o Petrolão…

Não consegue dizer mais nada. Instaura-se o caos.

– Eu não pedi sítio em Atibaia! Eu não botei parente no governo!

– Esse Centrão aí não é o meu! O meu era mal passado.

– Esse Banestado é de quem? E esse Friboi?

– Eu só quero que as pessoas sai na rua, trabalha, se pegar a gripezinha, pegou, morre, fazer o quê com isso daí, porra?

O garçom retorna ao caixa.

– Pendura a conta, Pacheco. Quem vai pagar, de novo, é o povo.

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