Aoristo, Pirahã

 

Os pirahãs são um povo amazônico que vive às margens do Rio Maici. Não creem em nada que não possam ver, não acreditam em nada que não possa ser provado. Logo, não têm religião nem mitos de origem. Não sabem o que é ficção.

Em sua vida, tudo está no presente: só existem o aqui e o agora. Consequentemente, em sua língua não há os tempos passado e futuro.

Não conhecem numerais – apenas “pouco” e “muito”.

Não há palavras para cores – apenas “claro” e “escuro”.

Um único termo designa “pai” e “mãe”. Não há nomes para nada além de avô e de neto.

Há um único verbo para “matar” e “morrer”.

Os pirahãs falam também por meio de assobios e zumbidos. Ignoram os sons das letras D, F, J, L, M, N, R, V, X, Z.  Apenas os homens usam o K.

Soube deles muitos anos atrás, quando quis aprender guarani (acabei optando pelo alemão, mais útil em Curitiba) e alguém me falou da língua em que é impossível mentir. Sim, também tem essa:  os pirahãs – que não fazem ideia do que não seja o real – não têm o conceito de mentira.

Talvez olhando na noite amazônica a Nuvem de Magalhães acesa no céu, alguém da tribo deseje ter uma palavra para “inefável”, um modo subjuntivo, um tempo verbal para o presente que já se foi e para o presente que está por vir. E intua que não seja possível filosofar em pirahã.

Também em português nos faltam alguns tempos verbais.  

Temos os pretéritos perfeito, imperfeito e mais que perfeito.  Eu fui, eu era, eu fora.  Os pirahãs só têm o “eu sou”.

Temos o mais que perfeito composto do indicativo, o mais que perfeito composto do subjuntivo: eu tinha sido, eu tivera sido.

Todos os passados possíveis estão aí? Ou há passado que, como aos pirahãs, nos escape?

Há. O passado que persiste, que já deixou de ser e continua sendo. Algo entre o “eu amei” e o “eu amo”, se estendendo talvez até o “amarei para sempre”.

Poderia se chamar “passado perpétuo”. Como quando a pessoa se vai, o sol se põe e a sombra permanece ao nosso lado. O côncavo ainda quente de um corpo impresso nas dobras do lençol, na cama já vazia. O endereço da casa demolida. O telefone do morto, ainda insepulto na agenda.

Era preciso um futuro que não virá, o “futuro quimérico”.  Antípoda do futuro do presente simples (“eu serei”), ali entre o futuro do pretérito composto (“eu terei sido”) e o condicional (“eu seria”). Para se conjugar o que jamais será e ainda assim se projeta para adiante, como a mesa posta para quem se sabe que não vem, o telefone que não vai tocar e isso não impede que eu espere e enquanto espero antecipe a voz que nunca se ouvirá do outro lado.  

Era fundamental haver um presente que não há mais, que só está por já ter sido. Um tempo verbal em que eu possa falar que minha mãe gosta de cantar. Dói usar o passado (ela está viva, e não deixou de gostar do que gostava, e ainda cantaria, se pudesse) e não cabe o presente (ela não gosta ou desgosta; vive no limbo da demência em que já não sabe mais o que é ter gostos). Um “presente intuído”, talvez. Talvez um “presente suposto”.

Crianças inventam tempos verbais porque entendem que entre o que passou e o que virá é tudo ilusório. Por isso dizem “agora eu era uma princesa” – sabem que o “agora” não espera a última sílaba ser dita para ser um tempo ido, e que a infância não é um eterno presente, mas um passado sem perdas.

Há uma forma verbal no grego antigo, no turco e no sânscrito que expressa a essência de uma ação, sem início, sem fim, sem duração. O verbo, nessa forma, é um ponto fora do tempo. Essa forma verbal (não é o infinitivo) é chamada aoristo (que, em grego, significa “sem limite”).

Não é preciso – nem possível – explicar aoristo aos pirahãs. Mas na sua linguagem rudimentar eles sentem perfeitamente isso que, para nós, é uma sofisticação.

Pode ser que precisemos de mais tempos verbais, ou de aboli-los todos. Viver em modo pirahã, “num eterno domingo” temporal.  Com tudo que tenha sido, esteja sendo e venha a ser, ao mesmo tempo. Os tempos todos, que são um tempo só.

8 comentários em “Aoristo, Pirahã

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