Inventando moda

Não entendo nada de moda. Até certa idade usei a roupa que minha mãe comprava e a usava até até minha mãe não aguentar mais me ver usando aquilo e jogar fora.

Depois que minha mãe parou de comprar e de jogar fora minhas roupas, minha grife preferida sempre foi a Promoção (às vezes, pra ostentar, compro na Sale) e uso até acabar. Depois que acabam, uso para dormir (se forem camisetas) ou para ficar em casa, ir para o sítio. Está pra ser inventada roupa mais gostosa que aquela que já deu o que tinha que dar.

Como o Drummond, faz tempo que deixei de ser moderno para tentar ser eterno. Ou, pelo menos, atemporal. Por isso, tirando umas calças de nesga nos anos 70, não tenho muito do que me envergonhar do meu figurino nas fotografias.

Ok, tive uma camisa de anarruga. Se você não sabe o que é anarruga, sorte sua. Se sabe, não é preciso dizer o que uma camisa de anarruga representa no currículo de uma pessoa.

Tive também sapato cavalo de aço, bicolor. E camisa estampada, com colarinho em bico vindo até quase o bico do peito. Tive macacão Staroup. Tive calça Fiorucci paraguaia, com aquele corte perfeito – a gente só sabe que lado é pra frente porque tem um fecheclér e o de trás porque tem o bolso, mas não faz a menor diferença.

Mas tirando isso e um jaquetão de 3 botões com ombreira que usei muito nos anos 90, em Curitiba, não há nada que deslustre minha biografia.
Sim, claro, teve a fase da pochete e da meia branca com sapato preto, também em Curitiba, também nos anos 90 (tive o azar de morar em Curitiba em plenos anos 90, quando além do jaquetão de ombreira e das meias coloridas – daquelas de causar inveja ao Justin Trudeau – eu ainda por cima usava gel).

Mas descontando isso e o cinto de lona com fivela militar e a ponta caída para a frente, não há nada do que me penitenciar. A não ser, talvez, a gravata com estampa do coelhinho Pernalonga – que não uso há décadas, mas deve estar em alguma gaveta.

Esse mea culpa todo – que não inclui a calça branca com All Star vermelho que eu usava muito quando trabalhava no Banco do Brasil, e uma camisa abóbora que caí na asneira de usar, inconscientemente, num evento ligado ao Partido Novo – bem, tudo isso é para falar que não ligo para moda. Até parei de combinar calça cáqui com camisa azul quando descobri que era coisa de paulista, e uma única vez usei terno com tênis (quando? anos 90; em Curitiba, onde mais?).

Em estatística, moda é o valor mais frequente num conjunto de dados (sei disso porque já fui professor de estatística). Na rua, moda não é necessariamente o mais frequente, mas o que chama mais a atenção.

Quando é só um maluco que usa, é extravagância; quando vários malucos usam, é moda.

Foi assim com a blusa transparente e o sutiã aparecendo. Foi assim com a calça no meio da bunda, e a cueca de fora (ou a calça no meio da cueca e a bunda de fora). Foi assim com o meião branco por cima do colã nas academias de ginástica.

A última moda é a máscara no queixo. Voltei agora da padaria e, no caminho, passei por umas dez pessoas usando máscara assim, cobrindo o gogó, escondendo a papada. Deve ser uma releitura do boné com a aba para trás.

Pra essa gente, talvez a moda da máscara no queixo seja a última mesmo.

A indesejada

As coisas têm, como nós, uma roupa de ficar em casa, uma de ir à missa. Têm modos de quem come se servindo da panela, na cozinha, e modos de quem segura o garfo com o polegar e o indicador e não põe os cotovelos na mesa, na sala de jantar.

Por isso existem o favor e o obséquio, o beijo e o ósculo, o azar e a desdita (e o revés, a desventura, o infortúnio – o azar tem um closet inteiro).

Vejam a morte. É uma palavra áspera, ríspida, sem muita cerimônia, em trajes que não permitem entrever se tem peitoral ou seios, se tem cintura e quadris. É sem vaidade, e serve para qualquer vivente, bicho ou planta. Os preços podem estar pela hora da morte, muita coisa é questão de vida ou morte, ficamos pensando na morte da bezerra.

A morte é trivial. A morte é o fim, e ponto. E o que é o óbito? O óbito é a morte sem mortalha, é a morte em traje de gala.

Óbito vem do latim “obire”:  ir (“ire”) na frente, se afastando (“ob”).  É apenas partir antes.

A morte dói; o óbito vem com anestesia. Por isso, nas estatísticas da pandemia se prefere falar no número de óbitos, não em mortos, cadáveres, finados, defuntos.

O que também não seria problema: cadáver é, literalmente, “caído”. Defunto é o que cumpriu o que tinha que ser cumprido, pagou o que devia ser pago, completou seu tempo de vida. Finado é o que finou-se.

Além da morte e do óbito, temos ainda o falecimento. Falecer é, além de uma das palavras mais lindas do idioma, uma das mais falaciosas: falecer é enganar, fingir, ser infiel, não cumprir o trato.  Falecer, falsidade, falta e falácia têm a mesma origem (“fallere”).  De onde também veio o desfalecimento, o desmaio – que, como o sono e o orgasmo, são pequenas mortes.

Por tudo isso, optamos pelo óbito, que não tem as mãos calejadas da morte, prefere o jaleco branco ao manto preto, o bisturi à foice. A morte é o fim; o óbito, uma ultrapassagem, uma precedência. Falecimento é um eufemismo (ninguém falece de covid, de acidente de trânsito, de bala perdida).

Mesmo sem saber etimologia, o sepultamento nos comove menos que o enterro. Enterrar é cobrir de terra; sepultar é apenas fazer desaparecer.  Por isso cremamos (reduzimos a cinzas), em vez de queimar os nossos mortos: cremar e queimar são a mesma coisa, mas sabemos a dor das queimaduras, desconhecemos a da cremação.

A morte é uma fatalidade. E fatalidade é uma sentença divina. Fatal é o que causa a morte (o óbito, o falecimento, o passamento, a ida para o mundo dos pés juntos, o abotoamento do paletó, o batimento das botas, a partida desta pra melhor, o envergamento do pijama de madeira, o embarque na derradeira viagem, a passagem para outro plano, o esticamento das canelas, a degustação de capim pela raiz, a transformação em purpurina).  Portanto, esqueça aquela história de “vítimas fatais”. A menos que a vítima tenha matado alguém, a vítima é apenas a vítima: fatal é a doença, o acidente.

E a vida. Porque a vida, sim, é fatal.

Apertem os cintos

– Torre de controle, aqui é o capitão.

– Torre de controle na escuta, capitão. Prossiga.

– Quero trocar o engenheiro de voo, talquei?

– Durante o voo, capitão?

– Agora mesmo.

– Mas capitão…

– Eu sou o capitão, não sou? Quero colocar no lugar dele, hmmm, deixa eu ver, o comissário Éverton.

– O comissário Éverton tem conhecimentos para ser o engenheiro de voo?

– Ele trabalha no avião, porra. Conhece o avião. Já andou de avião. Quero o comissário Émerson como engenheiro de voo e pronto. O engenheiro antigo está demitido.

– Capitão, o senhor falou comissário Éverton ou comissário Émerson?

– Sei lá, porra. Um comissário aí.

– Está bem, capitão. O senhor está no comando, há de saber o que é melhor para a condução da aeronave até o seu destino.

– Eu andei pensando em mudar também o destino disso daí.

– O senhor quer mudar o plano de voo em pleno voo, capitão?

– Se os passageiros quiserem… E eu sei que os passageiros não estão satisfeitos de ser obrigados a viajar com o cinto afivelado, mesinha travada, não poder fumar… Tem muita gente insatisfeita com isso daí.

– Capitão, esses são procedimentos normais. É para a segurança dos passageiros e da tripulação.

– Falando em tripulação, eu não quero mais aquela aeromoça como chefe de cabine. Minha sobrinha, que está na poltrona 7F, é a nova chefe de cabine.

– Capitão, sua sobrinha trabalha na empresa? Tem os cursos?

– Contrata agora, porra. Contrato temporário. É que eu preciso de alguém de confiança na cabine enquanto eu vou lá fora trocar as turbinas.

– O senhor vai… trocar as turbinas?

– Vou. Elas estão me incomodando ali na asa. Não gosto de turbina zumbindo no meu ouvido.

–  O senhor não prefere pousar primeiro para depois trocar as turbinas?

– Não. E quero as turbinas ali na parte de baixo. Naquele lugar ali, como é que chama? Aquele com pneu. Trem de pouso. Isso, quero as turbinas no lugar do trem de pouso.

– Capitão, vai ser difícil pousar sem os trens de pouso. Troque apenas a aeromoça e…

– Droga, tem uma luzinha vermelha acendendo aqui no painel. Ô da torre, como é que eu apago essa luzinha?

Aoristo, Pirahã

 

Os pirahãs são um povo amazônico que vive às margens do Rio Maici. Não creem em nada que não possam ver, não acreditam em nada que não possa ser provado. Logo, não têm religião nem mitos de origem. Não sabem o que é ficção.

Em sua vida, tudo está no presente: só existem o aqui e o agora. Consequentemente, em sua língua não há os tempos passado e futuro.

Não conhecem numerais – apenas “pouco” e “muito”.

Não há palavras para cores – apenas “claro” e “escuro”.

Um único termo designa “pai” e “mãe”. Não há nomes para nada além de avô e de neto.

Há um único verbo para “matar” e “morrer”.

Os pirahãs falam também por meio de assobios e zumbidos. Ignoram os sons das letras D, F, J, L, M, N, R, V, X, Z.  Apenas os homens usam o K.

Soube deles muitos anos atrás, quando quis aprender guarani (acabei optando pelo alemão, mais útil em Curitiba) e alguém me falou da língua em que é impossível mentir. Sim, também tem essa:  os pirahãs – que não fazem ideia do que não seja o real – não têm o conceito de mentira.

Talvez olhando na noite amazônica a Nuvem de Magalhães acesa no céu, alguém da tribo deseje ter uma palavra para “inefável”, um modo subjuntivo, um tempo verbal para o presente que já se foi e para o presente que está por vir. E intua que não seja possível filosofar em pirahã.

Também em português nos faltam alguns tempos verbais.  

Temos os pretéritos perfeito, imperfeito e mais que perfeito.  Eu fui, eu era, eu fora.  Os pirahãs só têm o “eu sou”.

Temos o mais que perfeito composto do indicativo, o mais que perfeito composto do subjuntivo: eu tinha sido, eu tivera sido.

Todos os passados possíveis estão aí? Ou há passado que, como aos pirahãs, nos escape?

Há. O passado que persiste, que já deixou de ser e continua sendo. Algo entre o “eu amei” e o “eu amo”, se estendendo talvez até o “amarei para sempre”.

Poderia se chamar “passado perpétuo”. Como quando a pessoa se vai, o sol se põe e a sombra permanece ao nosso lado. O côncavo ainda quente de um corpo impresso nas dobras do lençol, na cama já vazia. O endereço da casa demolida. O telefone do morto, ainda insepulto na agenda.

Era preciso um futuro que não virá, o “futuro quimérico”.  Antípoda do futuro do presente simples (“eu serei”), ali entre o futuro do pretérito composto (“eu terei sido”) e o condicional (“eu seria”). Para se conjugar o que jamais será e ainda assim se projeta para adiante, como a mesa posta para quem se sabe que não vem, o telefone que não vai tocar e isso não impede que eu espere e enquanto espero antecipe a voz que nunca se ouvirá do outro lado.  

Era fundamental haver um presente que não há mais, que só está por já ter sido. Um tempo verbal em que eu possa falar que minha mãe gosta de cantar. Dói usar o passado (ela está viva, e não deixou de gostar do que gostava, e ainda cantaria, se pudesse) e não cabe o presente (ela não gosta ou desgosta; vive no limbo da demência em que já não sabe mais o que é ter gostos). Um “presente intuído”, talvez. Talvez um “presente suposto”.

Crianças inventam tempos verbais porque entendem que entre o que passou e o que virá é tudo ilusório. Por isso dizem “agora eu era uma princesa” – sabem que o “agora” não espera a última sílaba ser dita para ser um tempo ido, e que a infância não é um eterno presente, mas um passado sem perdas.

Há uma forma verbal no grego antigo, no turco e no sânscrito que expressa a essência de uma ação, sem início, sem fim, sem duração. O verbo, nessa forma, é um ponto fora do tempo. Essa forma verbal (não é o infinitivo) é chamada aoristo (que, em grego, significa “sem limite”).

Não é preciso – nem possível – explicar aoristo aos pirahãs. Mas na sua linguagem rudimentar eles sentem perfeitamente isso que, para nós, é uma sofisticação.

Pode ser que precisemos de mais tempos verbais, ou de aboli-los todos. Viver em modo pirahã, “num eterno domingo” temporal.  Com tudo que tenha sido, esteja sendo e venha a ser, ao mesmo tempo. Os tempos todos, que são um tempo só.

Concorrência desleal

concorrencia

Muitas mulheres reclamam (com razão) da opressão dos padrões estéticos impostos pelo patriarcado.

Isso começa na infância, com as Barbies – cópias de seres possivelmente alienígenas, de proporções incompatíveis com a anatomia humana – e prossegue vida afora com as modelos, que não são modelo de nada, porque não há cristão que consiga sobreviver à base de rúcula e cigarro.

Musas fítines com barriga negativa, glúteos de granito e coxas de jatobá também já deviam ter sido banidas da mídia. Blogueirinhas de moda, em quem qualquer roupa cai bem, idem.

As mulheres normais querem ver, nas vogues, nas marriclér, nos telejornais, na novela das nove, outras mulheres normais – ou seja, com estria, culote, bigode chinês e pé de galinha. Se possível, também com papada, pelanca, cotovelo escamado, joanete, dedo do pé encavalado e canela ruça.

Como manter a autoestima sabendo que o marido (ou amante, ou namorado ou match no tinder) tem fantasias com as coelhinhas do pôster central da Playboy americana – criaturas de seios inefáveis, virilha aveludada, púbis de pelúcia, pele esfumada e sem um poro sequer no corpo inteiro? Ou com as russas e ucranianas com roupa de menos e fotoxope de mais que insistem em procurar amor verdadeiro em saites suspeitos?

Pois saibam que os homens também sofrem com a opressão dos padrões sociais – no caso, os padrões eróticos impostos pela indústria dos filmes adultos e das sexxopes. Se duvida, digite “Rocco” na Netflix. Vai ver como a natureza não é justa.

Mas pelo menos o Rocco é um ser humano – sujeito, portanto, à câimbra, à dor nas juntas, à fadiga, ao “isso nunca me aconteceu antes”. Agora, como concorrer com um vibrador de 16 velocidades, diâmetro regulável, cabeçote giroscópico, modelo Turbo, feito de liga de aço-carbono, que funciona em modo “pulsar” e, se lhe pudessem acoplar uma hélice, bateria claras em neve com um pé nas costas?

Diante de equipamentos assim – disponíveis em tamanhos inverossímeis, com bateria de lítio e carga para duas horas ininterruptas – a opressão da celulite e das gorduras localizadas é pinto.

Se as mulheres querem ver atrizes sem maquiagem e sem fotoxope, e ter modelos pluçaize nos editoriais de moda, os homens deviam exigir direitos similares.

Por exemplo, vibradores com, no máximo, 12 cm de comprimento e consistência de mariola, dotados de bateria de 15 minutos – e meia hora para recarga. Sujeitos a dar tela azul assim, do nada, e não voltar a apresentar vitais nem com São Judas Tadeu na causa.

Vibradores sujeitos a estresse. Com boletos vencendo na segunda. Sensíveis a gatilhos do tipo crianças dormindo no quarto ao lado, referências ao ex, dúvida se a camisinha foi colocada direito ou se não soltou lá dentro.

Se inventarem o vibrador que diz “eu te amo” e liga no dia seguinte, até o Rocco tá lascado.