Quem matou Claudinha Telles?

Claudinha

Confira a coluna de hoje n’O Globo:

Quem matou Claudinha Telles?


 

Deu no Jornal Nacional, porém não houve obituário nos jornais. Ninguém colheu depoimentos de artistas lamentando a perda. Não houve fotos de fãs aos prantos segurando capas de revistas. Suas canções não voltaram a tocar no rádio.  Mas, há exata uma semana – hoje, sexta, é sua missa de sétimo dia – morria Claudinha Telles, cantora brasileira.

Queria ter tido tempo de anotar suas histórias e transformá-las em livro. Contar da noite em que, ainda banguela dos dentes de leite, subiu ao palco para cantar “Arrastão” com Edu Lobo e o Tamba Trio. Falar das malas enormes e cheias de surpresas que a mãe trazia das turnês. Da viagem da qual a mãe nunca voltou. Do seu carinho por Chacrinha, da vida de crooner na orquestra de Chiquinho do Acordeom. Da madrugada que passou na gravadora ajudando a envelopar discos de Roberto Carlos para que pudessem estar nas lojas no dia seguinte. Da emoção de cantar “Dindi”, feita por Tom Jobim e Aloysio de Oliveira para Sylvinha Telles, a mãe que partiu tão cedo e, ainda assim – ou talvez por isso mesmo – a tenha marcado tanto.

Dizer que era sua a versão definitiva de “Eu e a brisa”, de Johnny Alf. Que era lindo o jeito como interpretava “Nanã”, de seu tio Mário Telles e Moacir Santos. Que é emocionante o disco em que revisita o repertório materno – e mãe e filha, separadas pelo tempo e pela morte, se juntam para cantar “Se todos fossem iguais a você”.

Quem matou Claudinha Telles foi o coração, mas ele não agiu sozinho. Matou-a também a depressão, companheira de anos, dos tempos de dificuldades financeiras e familiares. Matou-a o pulmão, vingando-se das décadas de tabagismo. E a vida de artista, com o sucesso e os discos de ouro nos anos 70, e o progressivo distanciamento dos holofotes nas décadas seguintes.

Nunca deixou de cantar. Gravou Cartola e Nelson Cavaquinho, gravou Tom e Vinícius, mas a música brasileira já seguia por outros caminhos, e a indústria fonográfica não era mais a mesma.

As plateias minguaram e a estrela voltou aonde começara, como vocalista de outras estrelas. Emprestou a voz e o talento para acompanhar Ivete Sangalo, Gilberto Gil, Shakira, Emílio Santiago, Sivuca, Sandra de Sá, Leci Brandão, Alceu Valença, Julio Iglesias. Ia aonde o trabalho estava, arregimentada para cantar forró, samba, axé, com a mesma alegria de quando brilhava sozinha.

Seu prazer era a música: cantava em escola, igreja, no seu trabalho social (preparando e entregando sopa a moradores de rua). Cantou enquanto pôde – até para os pacientes com quem dividiu a emergência no hospital.

Nos últimos tempos, estava infeliz. Com os problemas de saúde, que lhe dificultavam a locomoção. Com os amigos que se afastaram por causa da política (Claudinha era conservadora, num meio em que isso é uma espécie de maldição).

Veio adoecendo sem perceber – ou sem querer se dar conta. Com insuficiência respiratória, passou três dias numa cadeira na Coordenação de Emergência do Hospital Miguel Couto, onde tinha que ser amparada para ir ao banheiro (todas as cadeiras de rodas estavam quebradas…).  Mesmo lá, sua maior preocupação não era consigo mesma, mas com o paciente ao lado – um músico que não sabia o próprio endereço, e por quem ela tentava acionar as entidades de classe, e cuja foto queria divulgar nas redes sociais para ver se alguém o reconhecia e ajudava.

Transferida para o Hospital de Acari, teve o melhor tratamento que a saúde pública lhe pôde proporcionar, com uma equipe médica devotada, que a reanimou a cada parada cardíaca – uma delas, de infinitos 15 minutos. Ali, antes de perder a vida, perdeu a voz, após intubações e traqueostomia.

Com quase 50 anos de carreira, Claudinha ainda chorava no palco. Cada canção, dizia ela, era uma viagem. E ela viajou com estilo próprio, fosse como protagonista ou coadjuvante.  Passou por poucas e boas, cantou do bom e do melhor, com Tito Madi, Johnny Alf, Roberto Menescal – ainda que o grande sucesso lhe tenha chegado com as canções românticas de Mauro Motta e Robson Jorge.

Perdemos você, Claudinha. Sem razão. Sem querer.

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