Mentiras que os donos de cachorro contam

mentiras

A mentira 1 que os donos de cachorro contam é que são donos de cachorros.

Ninguém é dono de ninguém, muito menos de um cachorro.

Cachorros são seres insólitos. Têm um ranço nato dos gatos, criaturas que os ignoram e cujos olhos felinos lhes dedicam, no máximo, uma mirada de indulgência. Têm inexplicável interesse por porcos espinhos, animais cujo leiaute é um cartão de visitas claríssimo: não mexa comigo. Têm fetiche por pneus, entidades que perseguem com afinco, como se cravar os dentes numa roda de borracha lhes fosse descortinar o sentido da vida.

E se afeiçoam justamente a seres humanos.

Qualquer organismo inteligente se afeiçoaria aos gatos, não aos seres humanos. Qualquer indivíduo sensato manteria dos humanos e dos porcos espinhos uma prudente distância. Qualquer entidade racional saberia que humanos e pneus não levam (metaforicamente, pelo menos) a lugar nenhum.

Pois os cachorros resolveram se afeiçoar aos seres humanos. Ignorar os alertas de perigo que os humanos emitem em cada gesto. E vivem correndo atrás de nós, seja abanando o rabo, seja cravando os dentes, como se para isso tivessem nascido.

Os “donos de cachorro” se encantam com esses paradoxos. Veem no cachorro um avatar peludo e arfante, uma versão melhorada de si mesmos. E deles se apropriam, oferecendo-lhes vacina coleira ração tosa e dois passeios diários em troca do amor maior que há no mundo (mãe perde) – da mesma forma como os exploradores trocavam miçangas espelhos e quinquilharias por ouro prata terras sem fim.

Donos de cachorro mentem (mentira 2) quando dizem que vão levar os cachorros para passear.

Cachorros não passeiam. Cachorros mijam e cheiram. O passeio é um meio, o instrumento do qual o cachorro tem que lançar mão (no caso, lançar pata) para poder mijar em vários lugares e cheirar tudo que estiver no raio de alcance da guia presa à sua coleira.

O passeio é uma mentira social que o suposto “dono de cachorro” inventa para não ter que assumir que apenas se presta a viabilizar as mijadas necessárias à comunicação olfativa do cachorro.

Claro que tem também o cocô, mas o cachorro está cagando e andando para isso. O cocô não tem relevância na sua visão de mundo (no caso, no seu olfato de mundo).  O “dono” é que ritualiza a coisa (humanos adoram rituais). Enfia a mão num saco plástico, recolhe os dejetos, amarra e caminha – desconfortabilíssimo –  duas quadras até depositar aquilo na lixeira mais próxima (“lixeira mais próxima” é um oximoro: nada é mais distante de um cocô de cachorro que uma lixeira).

A mentira número 3 é a de que o cachorro é educado e só faz cocô na rua. Isso não é educação: é chantagem. Uma forma que o cachorro encontra de constranger seu humano a levá-lo para mijar e cheirar em locais onde essas atividades sejam mais estimulantes que na área de serviço ou na varanda.

E cachorro não faz cocô na rua: faz na calçada. De preferência, nas saídas de garagem ou diante de aglomerações, de modo que o ritual de enluvar a mão no saco plástico, se agachar e catar o cocô sejam devidamente apreciados por quem estiver saindo de casa ou esperando o ônibus.  É que o cachorro gosta de exibir o adestramento do seu “dono”, fazê-lo demonstrar suas habilidades (“Estão vendo o meu “dono”? Olhem os truques que ensinei a ele: Luvinha! Agachado! Catando caca! Carinha de nojo! Nozinho no plástico! Isso! Bom garoto!”).

Mentira 4:  tratamos cachorros como filhos. Jamais. Filhos são filhos, cachorros são cachorros. Filhos saem sozinhos; cachorros, não – do cachorro a gente cuida direito e não permite que corram riscos desnecessários. Filhos um dia se casam e vão cuidar da própria vida –  cachorros ficam para sempre.

Cachorros envelhecem conosco. Morrem nos nossos braços. Quando se vão, nos deixam de herança um pote vazio e uma coleira adormecida que são a própria Dor em forma de vasilha, o Desalento em fivela e fita.

A mentira 5 é a maior de todas:  a do “nunca mais”. Todos dizemos “Nunca mais quero passar por isso”. “Outro cachorro, nem pensar”. E daí a pouco lá estamos nós desviando o olhar na Feira de Adoção (desviando o olhar, não o coração). E um minuto depois fazendo contato visual com um filhote, um adulto sem rabo, um ancião de focinho grisalho.

Aí lá vamos nós de novo. De novo “donos” – do Tião, da Duda, da Luna, que não são mais que novas manifestações da Bené, do Negão, do Bento, do Luke e de todas essas versões melhoradas de nós mesmos – só que com pulga e soltando pelo, que ninguém é perfeito.

[Levei Cacau para ser sacrificada. Despedimo-nos longamente. Fiz uma foto dela –a última – na maca.

Saí da clínica repetindo o mantra da mentira 5, a do “nunca mais”. Mas não custava fazer mais uma tentativa, e Cacau reagiu à medicação. Dois dias depois, fui buscá-la, e me recebeu andando com dificuldade, mas andando – ela que chegara no meu colo. O mesmo olhar, a mesma respiração ofegante, o mesmo jeito de abanar o rabo como se não houvesse amanhã. Houve amanhã.

Substituí a mentira 5 pela 1, e voltei a mentir para mim mesmo que sou “o dono da Cacau”, como um dia fui dos seus pais, Negão e Benedita.

Cachorros são seres estranhos. Ao contrário dos seus “donos”, que os levam “para passear”, “fazer cocô na rua” e os tratam “como filhos”, eles não precisam mentir. Jamais.]

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