O batizado do vírus

Virus

O coronavírus vai ganhar um novo nome.

“Um grupo de cientistas vem lutando a portas fechadas para encontrar um termo adequado.” (G1, ontem)

Eu jurava que um grupo de cientistas vinha lutando a portas fechadas para encontrar uma cura adequada. Mas os cientistas procuram é um nome.

O que há num nome? –  perguntou, premonitoriamente, Shakespeare. Teria o coronavírus a mesma letalidade com outro nome?

Aparentemente, sim.

“O perigo quando você não tem um nome oficial é que as pessoas comecem a usar termos como ‘vírus da China’, e isso pode criar uma discriminação contra certas populações.”

O próprio corona cria, como se sabe, discriminação contra uma marca de cerveja.

“Vimos que certos nomes de doenças provocam uma reação contra membros de comunidades religiosas ou étnicas específicas, criam barreiras injustificadas para viagens, comércio e provocam o abate desnecessário de animais para alimentação.”

Tirando a ambiguidade do “abate desnecessário de animais para alimentação” (se fossem de animais para decoração o abate seria necessário?), a coisa faz sentido.

Durante a gripe suína, o Egito mandou matar todos os porcos do país – mesmo que o porco, coitado, não transmitisse a doença. Imagine se o nome da gripe fosse gripe de bigode…

A gripe espanhola foi um desastre. Não só porque tenha provocado a morte de entre 50 e 100 milhões de pessoas, mas por ter estigmatizado a Espanha, os espanhóis e, em especial, as espanholas (além da prática da “espanhola”, modalidade sexual que não vem ao caso).

Mesma coisa com a febre amarela, que fomenta ainda hoje o preconceito contra os orientais, os silvícolas, os mínions e a família Simpson.

Ou a peste negra, que em 1351 já tinha dizimado 25 milhões de pessoas (um terço da população europeia na época), e que, graças a esse nome, provoca racismo no Brasil em 2020 – juntamente com a lista negra, as nuvens negras, o passado negro e a caixa preta dos aviões (se duvidar desta informação, os movimentos sociais deverão ser consultados).

Sem falar do mal da vaca louca, que gerou tantos trocadilhos infames, ou do próprio câncer, que não é vírus, mas estigmatiza os nascidos entre 21 de junho e 22 de julho.

Recentemente houve o Sars e o H1N1. Nomes fracos. O primeiro, porque praticamente nos obriga a usar sotaque paulista (não dá pra falar Sarrrrrrs em carioquês). O segundo, porque parece que estamos jogando batalha naval.

O nome oficial do corona, por enquanto, é 2019-nCoV. Muito ruim. É, inclusive, pior que o próprio vírus. Quem deu esse nome faltou à aula de name branding.

É preciso um nome eficiente, laico, politicamente correto e pronunciável no mundo todo.

Logo, não pode ser masculino (reforça o patriarcado), feminino (denota a misoginia estrutural da sociedade científica) nem neutro (é transfobia).  Não pode ser algo ilusoriamente fofinho, como Ebola, nem que pareça uma tradição do folclore nordestino, tipo Chicungunha. Tem que ser algo assim como… como…

Algo me diz que construir um hospital em 10 dias e descobrir a cura vai ser mais fácil que encontrar o nome.

5 comentários em “O batizado do vírus

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