Raudério

rauderio
Fonte wacandido.blogspot.com.br

 

Já tivemos a Geração Perdida, cuja adolescência foi afetada pela I Guerra, entrou de cabeça nos Loucos Anos 20 e na vida adulta sofreu o impacto da Grande Depressão.

“Perdida” é modo de dizer, porque nos legou o jazz, Hemingway, Pound, Eliot, Joyce.

Em seguida, meio misturadas, a geração Grandiosa e a Silenciosa – gente nascida ou já criança na Grande Depressão, e que viveu (ou morreu) durante a II Guerra.  Pertencem a ela Marlon Brando, Kennedy, Lennon, Marilyn Monroe e minha mãe.

Depois os Baby Boomers, os da explosão demográfica da segunda metade da década de 40 (logo depois da II Guerra, até o início dos anos 60). Foi a geração que passou pela polarização da Guerra Fria, e criou a contracultura.

Veio então a Geração Coca Cola, a partir anos 60, influenciada pelo rock, pela cultura americana, e que (pelo menos no Brasil) assistiu às guerras só pela televisão.

Aí acabou a imaginação para dar nome às gerações e passaram a usar letras – X, Y, Z -, ou, no máximo, a obviedade de um “Millenials” para quem estava na casa dos 20 durante a virada do milênio.

Aqui estamos nós, entrando nos Malucos Anos 20 do século 21 e nos deparando – 100 anos depois do jazz, do Hemingway, da ardecô, do cinema falado, do voto universal, da penicilina – com uma nova geração dando as caras. A Geração Raudério.

É a geração que viveu a guerra contra escovar os dentes depois do Nescau. Contra só seis horas de televisão por dia. Contra ter que arrumar a cama e colocar a roupa suja no cesto.

Minha geração (a Coca Cola, apesar de eu preferir Matte Couro), foi a mentora intelectual disso daí.  Nós é que começamos a exigir (“Cadê a minha Calói?”, “Compre Baton, compre Baton, compre Baton!”) em vez de pedir. Nós usamos sapatos cavalo de aço e calça de nesga – sem que ninguém nos obrigasse a isso. Dançamos imitando movimentos de kung fu, fumamos escondidos no banheiro (eu não: eu só vigiava na porta, para ver se vinha alguém).  Inocentes, achávamos que ‘camisinha’ e ‘rachadinha’ eram palavrões.

Reprimidos, consumistas, sem noção de estética, resolvemos dar aos filhos tudo que não tivemos: videogueime, celular, televisão no quarto, quarto com chave na porta e até o direito de se trancar com coleguinha no quarto.

Deu nisso.

– Raudério entrar no meu quarto sem bater na porta?

– Raudério colocar bêicon na farofa, cebola no vinagrete, açúcar no café?

– Raudério votar de acordo com as suas convicções, não com as minhas?

Uma ditadura raudéria não seria muito melhor que aquela do Conto da Aia, que tanto indignou os raudérios quanto os fez suspirar, sonhadores.

O rauderismo também pode vir a ser conhecido como a Geração Barulhenta, da indignação seletiva. Talvez por lhe faltar uma guerra de verdade como a Guerra Civil Espanhola, a da Coreia, a do Vietnã, a de Biafra.

Fascistas e comunistas queimaram livros – os raudérios querem queimar palavras. Implementar a Novilíngua. Viver um cosplêi de membro da Resistência Francesa, mas sem a boina e com um cigarro mais alternativo no canto dos lábios.

Raudérios, o tio aqui foi censurado, aos 11 anos, por fazer na escola um cartaz de Dias das Mães com uma foto da Leila Diniz grávida e de biquíni.  Era 1970, governo Médici, ouviram falar?

O tio aqui comprava o jornal assim que a banca abria para não correr o risco de chegar lá e o “Opinião” e o “Movimento” terem sido recolhidos. O tio aqui carregou faixa em manifestação pela Anistia, participou dos comícios das Diretas. O tio não é fascista. O tio, inclusive, sabe o que é fascismo (porque estudou), o que é ditadura (porque passou toda a infância, adolescência e parte da vida adulta sob uma), o que é censura (porque viu “Laranja Mecânica” com bolinha preta saltitando na tela para cobrir os pentelhos dos artistas).

Ditadura não é nada disso que vocês estão pensando. Podem acreditar em mim: o tio tem lugar de fala.

Nossa geração sobreviveu ao óleo de fígado de bacalhau, às aulas de OSPB, ao fusca sem ar condicionado nem cinto de segurança, ao cursilho, ao xampu que ardia nos olhos, ao quissuco de framboesa, ao avião com assentos para fumantes, à Lei Falcão, à mãe limpando nosso ouvido com grampo de cabelo, às balas Soft.

Não adianta vir nos fuzilar com o olhar:  crescemos acompanhando fuzilamentos muito mais concretos, os dos dissidentes cubanos no Paredón e dos que tentavam cruzar o Muro de Berlim.  O mundo hoje é muito mais seguro, justo e próspero do que era 50 anos atrás.

E você ainda quer que eu estude História – até essa que eu vivi e da qual você só ouviu falar.

Raudério?

Mentiras que os donos de cachorro contam

mentiras

A mentira 1 que os donos de cachorro contam é que são donos de cachorros.

Ninguém é dono de ninguém, muito menos de um cachorro.

Cachorros são seres insólitos. Têm um ranço nato dos gatos, criaturas que os ignoram e cujos olhos felinos lhes dedicam, no máximo, uma mirada de indulgência. Têm inexplicável interesse por porcos espinhos, animais cujo leiaute é um cartão de visitas claríssimo: não mexa comigo. Têm fetiche por pneus, entidades que perseguem com afinco, como se cravar os dentes numa roda de borracha lhes fosse descortinar o sentido da vida.

E se afeiçoam justamente a seres humanos.

Qualquer organismo inteligente se afeiçoaria aos gatos, não aos seres humanos. Qualquer indivíduo sensato manteria dos humanos e dos porcos espinhos uma prudente distância. Qualquer entidade racional saberia que humanos e pneus não levam (metaforicamente, pelo menos) a lugar nenhum.

Pois os cachorros resolveram se afeiçoar aos seres humanos. Ignorar os alertas de perigo que os humanos emitem em cada gesto. E vivem correndo atrás de nós, seja abanando o rabo, seja cravando os dentes, como se para isso tivessem nascido.

Os “donos de cachorro” se encantam com esses paradoxos. Veem no cachorro um avatar peludo e arfante, uma versão melhorada de si mesmos. E deles se apropriam, oferecendo-lhes vacina coleira ração tosa e dois passeios diários em troca do amor maior que há no mundo (mãe perde) – da mesma forma como os exploradores trocavam miçangas espelhos e quinquilharias por ouro prata terras sem fim.

Donos de cachorro mentem (mentira 2) quando dizem que vão levar os cachorros para passear.

Cachorros não passeiam. Cachorros mijam e cheiram. O passeio é um meio, o instrumento do qual o cachorro tem que lançar mão (no caso, lançar pata) para poder mijar em vários lugares e cheirar tudo que estiver no raio de alcance da guia presa à sua coleira.

O passeio é uma mentira social que o suposto “dono de cachorro” inventa para não ter que assumir que apenas se presta a viabilizar as mijadas necessárias à comunicação olfativa do cachorro.

Claro que tem também o cocô, mas o cachorro está cagando e andando para isso. O cocô não tem relevância na sua visão de mundo (no caso, no seu olfato de mundo).  O “dono” é que ritualiza a coisa (humanos adoram rituais). Enfia a mão num saco plástico, recolhe os dejetos, amarra e caminha – desconfortabilíssimo –  duas quadras até depositar aquilo na lixeira mais próxima (“lixeira mais próxima” é um oximoro: nada é mais distante de um cocô de cachorro que uma lixeira).

A mentira número 3 é a de que o cachorro é educado e só faz cocô na rua. Isso não é educação: é chantagem. Uma forma que o cachorro encontra de constranger seu humano a levá-lo para mijar e cheirar em locais onde essas atividades sejam mais estimulantes que na área de serviço ou na varanda.

E cachorro não faz cocô na rua: faz na calçada. De preferência, nas saídas de garagem ou diante de aglomerações, de modo que o ritual de enluvar a mão no saco plástico, se agachar e catar o cocô sejam devidamente apreciados por quem estiver saindo de casa ou esperando o ônibus.  É que o cachorro gosta de exibir o adestramento do seu “dono”, fazê-lo demonstrar suas habilidades (“Estão vendo o meu “dono”? Olhem os truques que ensinei a ele: Luvinha! Agachado! Catando caca! Carinha de nojo! Nozinho no plástico! Isso! Bom garoto!”).

Mentira 4:  tratamos cachorros como filhos. Jamais. Filhos são filhos, cachorros são cachorros. Filhos saem sozinhos; cachorros, não – do cachorro a gente cuida direito e não permite que corram riscos desnecessários. Filhos um dia se casam e vão cuidar da própria vida –  cachorros ficam para sempre.

Cachorros envelhecem conosco. Morrem nos nossos braços. Quando se vão, nos deixam de herança um pote vazio e uma coleira adormecida que são a própria Dor em forma de vasilha, o Desalento em fivela e fita.

A mentira 5 é a maior de todas:  a do “nunca mais”. Todos dizemos “Nunca mais quero passar por isso”. “Outro cachorro, nem pensar”. E daí a pouco lá estamos nós desviando o olhar na Feira de Adoção (desviando o olhar, não o coração). E um minuto depois fazendo contato visual com um filhote, um adulto sem rabo, um ancião de focinho grisalho.

Aí lá vamos nós de novo. De novo “donos” – do Tião, da Duda, da Luna, que não são mais que novas manifestações da Bené, do Negão, do Bento, do Luke e de todas essas versões melhoradas de nós mesmos – só que com pulga e soltando pelo, que ninguém é perfeito.

[Levei Cacau para ser sacrificada. Despedimo-nos longamente. Fiz uma foto dela –a última – na maca.

Saí da clínica repetindo o mantra da mentira 5, a do “nunca mais”. Mas não custava fazer mais uma tentativa, e Cacau reagiu à medicação. Dois dias depois, fui buscá-la, e me recebeu andando com dificuldade, mas andando – ela que chegara no meu colo. O mesmo olhar, a mesma respiração ofegante, o mesmo jeito de abanar o rabo como se não houvesse amanhã. Houve amanhã.

Substituí a mentira 5 pela 1, e voltei a mentir para mim mesmo que sou “o dono da Cacau”, como um dia fui dos seus pais, Negão e Benedita.

Cachorros são seres estranhos. Ao contrário dos seus “donos”, que os levam “para passear”, “fazer cocô na rua” e os tratam “como filhos”, eles não precisam mentir. Jamais.]

Discurso

discurso

Recicladores de papel de Los Angeles encontraram isto num A4 amassado numa lixeira, na saída do Dolby Theater. Pedem ajuda a quem puder traduzir e esclarecer do que se trata.

“Dear friends, deara friendas and dearx friendxs,

Brazilian democracy is under attack since Pocket went to the Palace of the Higland. He and Zero One, Zero Two, Zero Three, plus Giveseas, who saw Jesus on a guava tree and now wants us not to fuck. And Live, that judgeco from Curitiba. And Guedes who say we are “Parasite”. Along with the astronaut, they took the power in a blow against the brave heart woman and put Squid in jail.

The world must know what really happens in our country, which is not what reality says. But we know. Queiroz is an orange. Zero One had many oranges, too. Alvim is a nazi and Regina needed gays to hide her fat and paint her gray hair. Tati can’t celebrate holidays with her dad because he is a nazist. 56 million nazi fascists in Brazil don’t want to see golden shower on top of newsstands nor little monkeys sticking their fingers inside the little monkey’s ass in front of them. And there is the molotov because of the gay Jesus in the Backdoor Christmas video. That’s censorship!

The secretary of education in Rondonia state wanted to recover classics of our literature, such as “My ass is not a magnet”, by Mario de Andrade. Indian lands are to be turned into new Naked Saws. Not to mention the fake stab, the old man of Havan and the zap aunties.

We need international help – from the Oscar Academy, the United Nations, the Intercept and the Pope – to remove Pocket and bring Squid back.

I want to dedicate this statue to my father and my mother and Andrade Gutierrez, for their emotional support.

Moved with one, moved with all! Nobody releases nobody’s hands! If it affects my existence, I will be the resistor! It’s blow! He not! ”

O papel amassado foi encaminhado ao FBI e à CIA, pois suspeita-se que a linguagem cifrada esconda alguma conspiração. Ainda mais que estava em fonte Comic Sans, e papel timbrado da Ursal.

Pequi

Pequi

“Pesquisadores criam pequi sem espinhos.”

É o fim da picada. Quer dizer, da espetada. Na língua, nas bochechas, no céu da boca.

O pequi não é uma fruta: é um ouriço, um porco espinho, revestido com uma tênue polpa perigosamente comestível.

Pequi sem espinho faz tanto sentido quanto uma hemorragia sem sangue. Um quadrúpede de duas patas. Um ataque cardíaco no fígado.

Desprovido de sua essência, o pequi deixa de ser uma armadilha vegetal, uma mina terrestre da flora, para se tornar um fruto. Qual a graça disso?

Quem vai querer andar numa roda gigante em linha reta, parada no chão?  Num trem fantasma com as luzes acesas e sorridentes personagens da Disney acenando em cada curva? Para que serve um casamento sem ciúme, sem cobrança, sem passivo-agressividade, sem calcinha pendurada no box, sem o protocolar sexo conjugal das sextas-feiras, sem mensagens apagadas no celular?

Quem tirou o espinho do pequi roubou sua alma, sua razão de ser.

O que virá a seguir? A melancia sem semente? O abacaxi com casca de mexerica? A mini jaca de odor agradável? A tiririca fácil de arrancar?

Gente, esse pessoal da Emater está brincando de Deus, está extrapolando. Sua missão era criar milho híbrido e espécies resistentes a pragas. Pronto. Melhorar a produtividade, e só. Não era fazer reengenharia da natureza, retrofite no reino vegetal, criar monstros.

O pequi sem caroço arruína a educação infantil em grande parte do país.

Só há crianças obedientes em Goiás e no norte de Minas porque um dia ousaram não dar ouvidos à mãe, que disse, ao primeiro pequi: “Não morde que tem espinho”. E morderam. E sentiram na alma o poder da ira divina, e estiveram diante daquele olhar que iguala todas as mães, o do “Eu avisei, não avisei?”.

Sem o pequi, seríamos uma horda de vândalos, cravando os dentes em tudo que passasse pela frente, sem distinguir o Bem do Mal, o inócuo do letal, o que pode pôr na boca e o pequi.

O pequi é pedagógico. É um ritual de passagem. Está para a espécie humana como o primeiro voo está para as aves, a primeira caçada para um crocodilo, a primeira mentira para alguém de esquerda. Algo se quebra ali. Algo é revelado. O ser – seja periquito, predador ou petista – entra em contato com sua essência.  Seus poderes e seus limites. Ao morder de leve, só tangenciando os dentes na polpa (“Bom menino!”) ou cravar os dentes (“Eu não avisei?”), o ser humano sela sua sorte e encontra sua bússola moral.

O que tem de bom na invenção desse pequi transgênico e bobo é que, finalmente, as pessoas vão parar de dizer coisas absurdas, como “o espinho do pequi”.  O espinho “é” o pequi. Aqueles dois milímetros amarelos que circundam o gigantesco núcleo espinhoso são uma camuflagem, uma isca.

Temo pelas novas gerações que terão que aprender a obedecer à mãe e à avó através de métodos menos efetivos que o “Não morde que tem espinho”. Vão morder. Não vai ter espinho. Nunca mais vão mais acreditar em nada que as matriarcas – repositório de todo o saber da espécie – digam. Serão uns bárbaros, uns celerados, uns descrentes na sabedoria dos mais velhos. Vão ser todos de esquerda, porque não vão levar a sério quando a avó contar, à beira do fogão, que o socialismo nunca deu certo. Afinal, ela disse também para não morder o pequi, eles morderam e não aconteceu nada.

O petista infiltrado na Emater (só pode ter sido um petista) terá conseguido o que Gramsci tentou em vão através dos livros: destruir a civilização ocidental.

Era o pequi que nos fazia respeitar os conselhos dos nossos ancestrais, e temer o castigo divino.

Guardem esta data:  8 de fevereiro de 2020.  O dia em que milhares de anos de processo civilizatório foram por água abaixo. E, como no caso das duplas sertanejas, o epicentro dessa catástrofe terá sido Goiás. Se alastrando rapidamente pelo norte de Minas, pegando parte de São Paulo, Tocantins, Bahia, Ceará.

Quem diria que o anticristo era um pesquisador da Emater…

 

 

O batizado do vírus

Virus

O coronavírus vai ganhar um novo nome.

“Um grupo de cientistas vem lutando a portas fechadas para encontrar um termo adequado.” (G1, ontem)

Eu jurava que um grupo de cientistas vinha lutando a portas fechadas para encontrar uma cura adequada. Mas os cientistas procuram é um nome.

O que há num nome? –  perguntou, premonitoriamente, Shakespeare. Teria o coronavírus a mesma letalidade com outro nome?

Aparentemente, sim.

“O perigo quando você não tem um nome oficial é que as pessoas comecem a usar termos como ‘vírus da China’, e isso pode criar uma discriminação contra certas populações.”

O próprio corona cria, como se sabe, discriminação contra uma marca de cerveja.

“Vimos que certos nomes de doenças provocam uma reação contra membros de comunidades religiosas ou étnicas específicas, criam barreiras injustificadas para viagens, comércio e provocam o abate desnecessário de animais para alimentação.”

Tirando a ambiguidade do “abate desnecessário de animais para alimentação” (se fossem de animais para decoração o abate seria necessário?), a coisa faz sentido.

Durante a gripe suína, o Egito mandou matar todos os porcos do país – mesmo que o porco, coitado, não transmitisse a doença. Imagine se o nome da gripe fosse gripe de bigode…

A gripe espanhola foi um desastre. Não só porque tenha provocado a morte de entre 50 e 100 milhões de pessoas, mas por ter estigmatizado a Espanha, os espanhóis e, em especial, as espanholas (além da prática da “espanhola”, modalidade sexual que não vem ao caso).

Mesma coisa com a febre amarela, que fomenta ainda hoje o preconceito contra os orientais, os silvícolas, os mínions e a família Simpson.

Ou a peste negra, que em 1351 já tinha dizimado 25 milhões de pessoas (um terço da população europeia na época), e que, graças a esse nome, provoca racismo no Brasil em 2020 – juntamente com a lista negra, as nuvens negras, o passado negro e a caixa preta dos aviões (se duvidar desta informação, os movimentos sociais deverão ser consultados).

Sem falar do mal da vaca louca, que gerou tantos trocadilhos infames, ou do próprio câncer, que não é vírus, mas estigmatiza os nascidos entre 21 de junho e 22 de julho.

Recentemente houve o Sars e o H1N1. Nomes fracos. O primeiro, porque praticamente nos obriga a usar sotaque paulista (não dá pra falar Sarrrrrrs em carioquês). O segundo, porque parece que estamos jogando batalha naval.

O nome oficial do corona, por enquanto, é 2019-nCoV. Muito ruim. É, inclusive, pior que o próprio vírus. Quem deu esse nome faltou à aula de name branding.

É preciso um nome eficiente, laico, politicamente correto e pronunciável no mundo todo.

Logo, não pode ser masculino (reforça o patriarcado), feminino (denota a misoginia estrutural da sociedade científica) nem neutro (é transfobia).  Não pode ser algo ilusoriamente fofinho, como Ebola, nem que pareça uma tradição do folclore nordestino, tipo Chicungunha. Tem que ser algo assim como… como…

Algo me diz que construir um hospital em 10 dias e descobrir a cura vai ser mais fácil que encontrar o nome.

Principal e acessório

Kirk

O marido da Gisele Bündchen entrou na brincadeira de ser mais conhecido no Brasil como “o marido da Gisele Bündchen”, assumindo-se orgulhosamente como marido da Gisele Bündchen e pronto.

Coisa que o namorado da Fátima Bernardes ainda não fez e talvez jamais faça.

Fossem mineiros, tanto o marido da Gisele Bündchen quanto o namorado da Fátima Bernardes teriam tirado isso de letra. Lá em Minas, todo mundo é alguma coisa de alguém.

Minha mãe, antes de se casar, era Maria de Zizico. Casada, virou Maria de Sidney.

Meu pai, que era o Sidney de Custódio, virou Sidney da Conceição (nome de sambista, mas quis o destino que ele não tivesse ritmo nenhum e fosse advogado).

Fui, durante boa parte da minha vida, “o filho do juiz”.

Para quem não sabe, no interior, “filho do juiz” é um cargo honorífico, tipo “mulher do padre”.

Ser filho do juiz oferece duas alternativas: a) ser um mané consumado, pegando carona na autoridade paterna, ou b) despirocar de vez, seja se prevalecendo das costas quentes que o cargo de filho do juiz proporciona, seja para marcar posição e provar que ser filho do juiz não o tornou um mané consumado.

Eu optei pela letra a. Meus irmãos, livres desse encargo, gabaritaram marcando b.

É assim mesmo.  Tarcísio Filho sempre vai ser “filho do Tarcísio. Lulinha vai morrer sendo “filho do Lula”. Jesus Luz, o “ex da Madonna”. Aurora Miranda, a “irmã da Carmen”.

O Sorvete Alex vai ser sempre “atrás do Copacabana Palace” – o Copacabana Palace nunca vai ser “na frente do Sorvete Alex”. E olha que o sorvete do Alex é bom.

Quando quiserem lustrar a biografia do Alexandre Frota, vão dizer que ele foi casado com a Cláudia Raia. Quando quiserem alfinetar a Cláudia Raia, dirão que foi casada com o Alexandre Frota.

Não é uma questão de ser melhor ou pior. Mas do brilho de cada um. Do carisma. Daquele jenessequá que se nem os franceses conseguem definir, imagine eu.

Rosane é a ex do Collor – Collor nunca vai ser “o ex da Rosane”.

Marco Aurélio é o primo do Collor – Collor nunca vai ser “o primo do Marco Aurélio”.

Um dia, quando me julgava já liberto da sombra paterna, me tornei “o dono da Benedita”.

Faz parte.

Chamem o Brad Pitt de “ex da Jennifer Anniston”.

O Silvio Santos de “avô do Tiago Abravanel”.

A Princesa Diana de “sogra da Meghan”.

Agora, chamar o Kirk Douglas – morto ontem aos 103 anos –  de “pai do Michael Douglas”, aí é sacanagem.

Descobrimento em vertigem

Documentario 2

– Pessoal, conseguimos levantar o patrocínio e vamos fazer o documentário sobre o Descobrimento do Brasil!

– “Descobrimento”, não! Os nativos brasileiros já estavam aqui há muito tempo. Os portugueses invadiram o continente. Tem que se chamar “Invasão e colonização imperialista de Pindorama pelos brancos europeus”.

– Ok, depois a gente discute o título. O que precisamos agora é começar a pesquisa. Como um dos poucos documentos da época é a carta de Pero Vaz…

– Isso não é problema. Podemos criar novos documentos.

– Como assim “criar novos documentos”? Temos que nos basear nos elementos históricos – cartas, iconografia…

– Isso é um conceito arcaico, conservador. O documentário que vamos fazer é progressista. Podemos começar com as caravelas surgindo no horizonte com suas bandeiras piratas, disparando canhões, e, em seguida cortar para os índios sendo decapitados durante a Primeira Missa…

– Mas isso seria uma encenação – e não há nada que indique que índios tenham sido decapitados na Primeira Missa.

– Não é encenação. É a história real subjetiva. Milhares de nativos sul-americanos morreram no genocídio promovido pelos portugueses capitalistas. Os índios decapitados na Primeira Missa pelo padre alemão, que bebe o sangue deles, representam essas mortes e a apropriação cultural europeia.

– Mas então não é melhor chamar o filme de ficção?

–  Claro que não! É um documentário. E seguimos com Pedro Álvares Cabral violentando a filha mais nova do velho cacique moribundo e condenando o pajé trans da tribo a ser queimado na fogueira, por heresia.

– Mas será que houve autos-de-fé no Brasil? E pajés trans?

– Mesmo que não houvesse, ficaria havendo. O pajé LGBTQI+ queimado vivo enquanto os machos brancos europeus gargalham remete ao incêndio deliberado da Amazônia e à homofobia estrutural dos lusocristãos.

– Mas aí já fica uma coisa meio alegórica, não? A gente queria fazer um documentário, um lance histórico.

– História contada por quem? Pelos vencedores? Pero Vaz de Caminha, que era um lacaio do imperialismo. Temos que usar as cartas escritas pelos índios.

– Mas os índios não dominavam a escrita…

– Não dominavam porque eram dominados. Eram analfabetos porque Portugal não investiu aqui nem um centavo em educação antes de 1500. Então cabe a nós dar voz aos que foram amordaçados pelo neoliberalismo ibérico, pela elite tóxica da corte de Lisboa.

– Ok, então começamos com a decapitação dos índios, o estupro da filha do cacique, a incineração do pajé, quer dizer, dx pajx, aí são lidas as cartas dos índios…

– Quem lê são eles! Nós não temos lugar de leitura nessa história!

– E como é que eles vão ler se são analfabetos – ou pelo menos eram analfabetos em 1500?

– Você está sugerindo que algum portador do privilégio do letramento usurpe o protagonismo deles e leia as cartas?

– Ok, eles leem as cartas e então…

– Então entrevistamos alguns índios escolhidos a dedo, e gravamos a cena de uma índia idosa com um bebê no colo, se arrastando pelo Saara, ou pela Namíbia – ou, se a verba não der, por Atacama mesmo – e eu narro, com voz chorosa, que foram os golpes – golpes de machado, no caso – que destruíram o Brasil. Entra um pôr do sol bem vermelho e sobem os créditos ao som da Internacional Socialista em ritmo de kuarup.  Fim.

– Não entrevistamos nenhum português?

– Não precisa.

– E depois?

– Depois a gente arruma um agente, uma distribuidora, um canal de estrímim e inscreve no Oscar.

– Aquele prêmio da indústria hegemônica cultural estadunidense?

–  Essa parte não precisa problematizar. Bora fazer o doc?