Coração vagabundo

Coracao

Meus amigos, eu tentei, mas não vai dar para agradecer a um por um pelas mensagens recebidas durante o meu piripaque cardíaco.  E olha que nenhum comentário mereceria mais uma resposta do que aqueles.

O diagnóstico é “flutter e fibrilação atrial” – o que, em língua de gente, significa que o tique-tique-taque do meu coração atravessou o samba, que o meu coração traiçoeiro passou a bater mais que o bongô, a tremer mais que as maracas – e não era descompassado de amor.

Aí a pressão despencou e eu despenquei junto. Estava desidratado (pelo meu peso, preciso tomar uns dez copos d’água por dia – e minha média é de um copo a cada dois dias (devo ter sido cacto em outra encarnação, o que explica também esse jeito espinhoso de ser).

Já tinha desmaiado em casa, no sábado, mas não dei bola. Na quarta recomeçaram as tonturas e de repente entrou em cartaz o que parecia ser o tal filme a que a gente assiste, em sessão privada, na hora da morte. Foi quando descobri que minha vida era em preto e branco, sem nada digno de nota e sem nada branco. Simplesmente escureceu tudo e fui.

Fui para a emergência, com direito a cadeira de rodas e a furar fila. Pressão 8 x 6 – eu que sou 12 x 8 desde criancinha. Rodaram um eletro (sempre soube que faziam eletro – mas lá eles rodavam eletro) e o enfermeiro informou que teria que raspar meu peito.  Devo ter feito uma cara feia, porque ele entendeu, caprichou um pouco mais no gel e escapei da tosa. Coletaram sangue (e deixaram o acesso no meu braço, o que é sempre um mau sinal) e me botaram para ser hidratado, numa sala de clima glacial.

Éramos oito: eu, um outro cara e seis mulheres. As seis de agasalho e, a pedido, cobertas com uma manta. O cara, de camiseta e bermuda; eu em manga de camisa, ambos dotados daquele isolamento térmico que só a masculinidade tóxica provê. As meninas (tirando a que estava ao meu lado, eram todas bem jovens) batiam queixo, o cara mexia no celular, alheio ao frio, e eu me perguntava até quando iria aguentar aquele atmosfera curitibana (todos se ignorando, ninguém puxando assunto com ninguém e a temperatura em queda livre).

As pontas dos meus dedos já estavam adquirindo um belo tom azulado quando o cara foi liberado e eu pude me liberar também da minha obrigação de manter a pose e pedi a manta. Liberdade pode ser uma calça velha, azul e desbotada, mas felicidade é uma manta quentinha.

Novo eletro, e nova ameaça de depilação, também contornada. Já devia ser meia-noite, e lá ia eu para a tomografia.  Esperando pelo elevador, dou de cara com a placa “Análizes clínicas”. Parece que o Weintraub andou fazendo bico de comunicação visual antes de ser ministro.

Me injetam o contraste e tenho uma palinha do que deve ser uma experiência lisérgica, porque tomo consciência de todas as veias do meu corpo. Volto ao consultório e vem a notícia: não só não vou embora como vou é pra UTI.

Assim como as testemunhas de Jeová não aceitam transfusão e os esquerdistas não aceitam a realidade, eu não aceito uma série de procedimentos: ser entubado, amputado, transplantado, fazer quimioterapia e… ir para UTI.  Tento explicar isso à médica, sem muito sucesso. Cadê meu testamento vital, que eu devia carregar no bolso, junto com a identidade, a carteirinha do plano de saúde e o dinheiro do ladrão?

Chegam mais enfermeiros, me injetam um troço na barriga (para afinar o sangue), me coletam mais sangue (pelo outro braço, não pelo que já está com acesso, porque esse será para os medicamentos) e voltam com a história de raspar o peito para rodar outro eletro. Explico que é o terceiro eletro do dia e que os outros foram feitos sem nenhum procedimento depilatório.

– Mas você é um tonirramos – diz um dos enfermeiros, em tom que me soou libidinoso, mas pode ter sido impressão minha, efeito da pressão baixa ou do contraste ainda circulando no organismo.

Chega a cardiologista e me convence a ir para a UTI com um argumento matador: posso ter uma trombose ou um AVC.  Assim como capitulei à manta quentinha na sala gelada, capitulo diante dessa perspectiva nada auspiciosa.  Não há vaga na UTI, e vou ter que passar a noite na emergência – com luz acesa, macas entrando e saindo, gente falando como se estivesse num pregão da bolsa de valores e monitores apitando. Por um momento, tenho saudade da vizinha de cima. Mas passa logo.

Preciso tirar a roupa e vestir um daqueles aventais ridículos, que deixam a gente com a bunda de fora. Ainda vou entender esse fetiche que os médicos têm em ver os pacientes com a bunda de fora. Não posso ficar com nada, exceto os óculos. Explico que tenho que entregar um artigo pro jornal no dia seguinte, e que preciso do celular tanto para terminar o texto quanto para enviá-lo.  Já que não vai dar para dormir mesmo, tempo não vai me faltar.  Posso, inclusive, escrever outro texto sobre a brutal diferença entre hospitais públicos e privados, porque tinha estado no Miguel Couto alguns dias antes.

– Sobre o que é o texto? – pergunta a médica.

– Sexo – respondo, vagamente.

– Pode escrever sobre o coração.

– Pelo menos agora sei que tenho um. E como estou sendo cuidado por uma cardiologista, não por uma geóloga, é sinal que não é de pedra.

Ela me deixa ficar com o celular e eu fico na UTI por dois dias, pensando que com meus plugues de cera para o ouvido e uma daquelas máscaras de cobrir os olhos que a gente ganhava no avião (acho que a minha ainda é da PanAm), até que a experiência não é tão ruim.

De novo: obrigado a todo mundo que se preocupou, que desejou melhoras. Já estou bem (bem lento, meio em câmera lenta, mas estou). E fiquei pensando: no domingo, lá estava eu visitando a Claudinha Telles no hospital, preocupado com seu coração dilatado, e fazendo planos para um livro com as histórias da sua carreira, sem saber que o meu coração desafinava aqui do lado esquerdo do peito.  Três dias depois, estávamos ambos na UTI.

O que preciso agora é aprender a beber água. E, desde que possa levar os protetores auriculares, a máscara e o celular, vou tirar do meu testamento vital a menção à UTI.  E incluir a tricotomia entre os procedimentos inaceitáveis. Porque da depilação para a tatuagem e o piercing, é um pulo.

E vamos torcer para que a Claudinha possa logo vir contar os causos da sua internação. Já vi o vídeo em que ela canta para os outros pacientes. O coração dela não é só maior – é também mais afinado que o meu.

 

 

14 comentários em “Coração vagabundo

  • Primeiramente desejo muita saúde a vc. Agora, essa experiência pela qual passou, embora preocupante, rendeu um texto genial! Que capacidade fenomenal de escrever textos deliciosos de se ler!

    Enviado do meu iPad

    >

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  • Eduardo, eu tenho isto tambem ha uns dez anos (tenho 74 agora). Aqui, fibrilacao atrial e “carinhosamente” chamada de “afib”. No principio impressiona muito, mas depois voce vai vendo que a vida segue normal, ou quase.

    Melhoras!

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  • Eduardo, que bom que está bem. Sei exatamente o que vc passou. Vivi situação semelhante aos 47 anos, ou seja , há vinte anos atrás. Passei mal numa cidade do interior do Rio, fui parar num CTI muito pior que o pior do SUS, e no dia seguinte fui de avião UTI para o HCor em SP. Mas antes, precisava fazer um Eco para levar. E cadê o aparelho? Estava no porta malas da irmã de um médico, passeando pela cidade em pleno sol de dezembro. Com dificuldade conseguiram localizá-la, fiz o Eco e decolamos. Vôo tranquilo apesar do mau tempo. Pior foi estar deitada dentro de uma ambulância com sirene gritando pelas ruas de SP. Claro, enjoei. Quando cheguei no HCor, me senti no sétimo céu. Fui para a UTI semi intensiva, ou seja, com 2 pacientes. Meu primeiro vizinho de cama, me recebeu com um gentil sorriso e um conselho de quem estava lá pela terceira vez: Para sair logo daqui, coma tudo! No dia seguinte, ele foi para a cirurgia e nova vizinha entrou, uma senhorinha cuja filha me pediu para olhar por ela. Claro que fiz isso. À noite, ela sumiu e entrou uma senhora idosa, que tinha mania de misturar remédios, passando mal. Estava injuriada por dividir um quarto com uma reles mortal, eu, justo ela tão nobre, só que grosseira e mal educada. Quiseram até me dar um calmante para dormir enquanto ela estrebuchava os desaforos contra a minha presença. Estava acompanhada de uma empregada, mocinha menor de idade e humilde, que estava desde cedo sem comer acompanhando a bruxa. Penalizada, chamei os enfermeiros para que cuidassem dela, que estava começando a passar mal de fraqueza, enquanto sua nobre patroa soltava impropérios. Na manhã seguinte ela foi para seu quarto particular. Eu fui fazer um cateterismo e depois para o meu quarto particular. O mais divertido foi um familiar me levar uma revista Veja fresquinha, onde tinha um assunto quente de um famoso e respeitado médico do hospital. Conheci e fiz amizade com todo o quadro da enfermaria, porque iam de um em um folhear rapidinho a minha revista. Foi dez! Passado o susto, tira-se o pavor e ficam as lembranças tragicômicas da passagem pelo hospital. E assim segue a vida! Abraços Eduardo, e muita saúde!

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  • Antes de mais nada, que bom que vc está melhor, te desejo uma rápida recuperação agora que o susto já passou. Como sempre, me deliciei com suas palavras e, ao mesmo tempo, experienciei um certo desconforto, porque gosto muito de vc e sei que tudo deve ter sido muito difícil e sofrido. Vc transcende a realidade vivida nos seus textos, dá um colorido todo especial, parabéns. Isso vai te ajudar com teu coração que a gente espera que bata no compasso da tua alegria de viver, sempre! Uma recomendação a mais, além de pedir que siga as sugeridas pelos médicos: Sr. ‘Cactáceo’, beba água! Água fresca,´água gelada: põe casquinha de limão siciliano para animar…. mas beba, ok? Grande abraço, muita saúde, não faça isso de novo! Cuide-se e fique bem. Beijos

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  • Ainda bem que estava sem o Testamento Vital (se é verdade que o tem) e ainda podendo estar aqui. Não sou contra esse instrumento. Fiz o meu, inclusive. Mas, em situações de reversibilidade plausível, certos recursos ficam liberados, mesmo eu sendo muito mais velha. Bem-vindo ao seu blog onde eu me achei!!!…

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