O caminho das pedras

love hate

Há alguns dias, a Glória Perez me disse uma daquelas coisas que as pessoas dizem sem saber que vão provocar uma revelação, uma epifania:

– Prepare-se para o ódio.

Uma frase dita em meio a outras, entre uma fatia de pizza e um gole de coca cola (minha recaída depois de quase quatro anos longe dos refrigerantes). Uma frase sem pretensão. Sem vocação para ser premonitória. Algo como quem diz “coma antes que esfrie”.

É que preparamo-nos para ser amados. Ajeitamos o cabelo, o colarinho. Puxamos a saia um pouco mais para baixo. Um pouco mais para cima. Dizemos “eu te amo” na certeza do “eu também”. Esperamos o “eu te amo” para gaguejar alguma coisa – omitindo o verbo indizível, o que diz muito mais do que se o disséssemos.  Entregamos o presente e procuramos o brilho nos olhos de quem abre o embrulho. Revisamos o texto, trocando uma palavra que não muda nada, mas que muda tudo porque deixa claro para nós mesmos que todo cuidado é pouco quando se deseja ser amado.

Aprontamo-nos para o amor de quem amamos, para o amor de quem desconhecemos, para o amor de quem sequer sabemos se existe, até para o de quem nunca saberá que existimos. E nos esquecemos de que há uma fração da humanidade que é talhada para o ódio. E com a qual, fatalmente, haveremos de nos cruzar – os expectantes do amor, os caudatários do ódio.

“Prepare-se para o ódio” é mais ou menos a avó que nos pede que levemos agasalho (prepare-se para o frio, o sereno). O pai que nos lembra para ficar de olho na bagagem, não perder a baldeação, não aceitar nada de estranhos. A que nos sussurra “ligue quando chegar” como alerta velado de que há perigo na esquina. O que nos abraça e murmura, embaraçado, “te cuida, meu”, porque haverá momentos em que não poderá estar do lado, para nos cuidar.

Recebemos o tempo todo milhares de manifestações de amor – na forma de sorriso, bom dia, por favor, melhoras, coma antes que esfrie. Não vêm necessariamente de quem nos ame, mas, com muito mais frequência, de quem projeta em nós sua necessidade de amor, sob o manto de civilidade.

E vivemos, sem nos dar conta, a ilusão de que o ódio só existirá se o provocarmos. Mas ele independe de nós. Tem vida própria. Nós apenas nos prestamos, com maior ou menor eficiência, a ser alvo desse ódio. Há quem chame de inveja, de ciúme, despeito, ressentimento; não importa. O universo feito de matéria e antimatéria, amor e ódio. Tudo o mais é variação em torno desses temas.

Nem todo amor que recebemos se destina a nós: apenas estávamos lá, na hora certa, pare recebê-lo. E agradecemos (por vezes, até retribuímos!) como se tivéssemos algum mérito pelo amor alheio. Com o ódio, que é a contrapartida do amor, não haveria de ser diferente.

Ele virá. Queiramos ou não. Virá porque existe, não porque existimos. Apenas estaremos lá, na hora certa-errada, em lugar visível – ou, ainda que invisíveis, onde o acaso possa nos encontrar. Virá como a bala perdida – não somos o seu destinatário, não temos qualquer participação na cena, somos alheios à motivação.

Mas temos que estar preparados para ele, como estamos para o amor. Nem um nem outro nos dizem respeito (o amor e o ódio pertencem a quem ama e a quem odeia). Só nos deixamos, por vaidade, ser depositários do amor que não nos pertence – e, por estupidez, nos indignamos com o ódio que tampouco nos diz respeito.

– Prepare-se para o ódio.

A frase tinha tudo para ser banal. Nada no seu tom denunciava que fosse provocar uma revolução interna, um entendimento súbito. Uma compreensão de que, se queremos ser objeto de amor (e queremos), temos que aceitar sua contrapartida. Que o amor tem seu preço.

Dias depois de ouvir essa frase, uma mulher – de quem nunca tinha ouvido falar, cujo rosto nunca vi, cujo nome não diz nada – desejou que eu morresse do coração.  Em meio a uma avalanche de gente que insiste que eu tome água (ainda não estou tomando…), há uma pessoa (uma, entre milhares) que quer que eu morra.

Não porque eu lhe tenha feito mal, lhe ameace a existência ou seja indigno de viver. Para ela, eu sou “de esquerda” – e isso lhe faz mal. Ela preferia que eu não fosse – e pouco importa que eu não seja – e isso ameaça sua existência (ou a da sua crença no bolsonarismo). Por isso, é melhor que o meu coração pare de vez – o que morrerá será o Mal que represento, não eu.

Por que mil declarações de amor não provocaram a mesma reação que uma de ódio? O ódio não é assim tão maior, tão mais potente. Se o amor nos soa natural (“melhoras!”), por que nos haveria de soar estranho o ódio (“morra!”). São cara e coroa, o trem que chega e o trem da partida. É muita ingenuidade (por pouco não digo estupidez) achar que um existirá sem o outro.

As pessoas não se lembram de tudo que dizem, nem sabem das consequências das suas palavras. Mas nós sabemos quando ouvimos o que temos que ouvir.

Tenho que me preparar para o ódio, assim como venho me preparando para o amor. E vou comer – a pizza, o amor – antes que esfriem.

Para os criacionistas tomarem ciência

Criacionismo

Eu entendo os criacionistas – ou sua versão nutela, os adeptos do design inteligente.

A natureza é mesmo perfeita demais para ter sido obra do “acaso”, da “evolução”.

São inúmeros os exemplos de que haja uma intencionalidade, um desígnio por trás de cada coisa, e isso Darwin não explica.

Por exemplo, como pode a mão ter exatamente o mesmo formato da luva? A chuva vir de cima para baixo e deslizar perfeitamente pelo guarda-chuva?  Existirem orelhas na posição exata para os aros dos óculos se encaixarem e um nariz bem no meio, sobre o qual ele possa se apoiar?

Só não acredita no design inteligente quem não quer. Veja as asas das borboletas, o voo do colibri, o pôr do sol, a voz do Henry Cavill, os olhos da Bruna Linzmeyer. Tudo isso só pode ter sido meticulosamente planejado, com pós-produção no fotoxope e renderização em 3DMax.

Somos fruto de um projeto muito bem elaborado. Os joelhos, que nunca dão problemas, são a melhor prova disso.  A coluna, então, nem se fala. E essa sacada genial de termos o osso da canela desprotegido, na frente, e a batata da perna, a parte acolchoada, para trás? Não é coisa de gênio?

Outra ideia magistral do criacionismo foi vincular a reprodução ao sexo.  Se a falácia da evolução fizesse sentido, poderíamos ter eventualmente “evoluído” para seres que se reproduzissem através de outros meios. Imagine você e a patroa – ou você e o mozão – naquela lombeira boa pós orgasmo, concordando em ir juntos fazer uma colonoscopia – ou um tratamento de canal, ou – pior ainda – ouvir um CD da Ana Carolina – a fim de conceberem o Júnior e a Maria Eduarda.  Não fosse o design inteligente, que botou num único pacote os hormônios, o tesão, a ovulação, a ejaculação e a falta de juízo, Adão, Eva, a cobra e a maçã estariam até hoje jogando biriba no Éden, só os quatro, e a Humanidade, essa maravilha, jamais teria existido.

As constelações foram criadas para que pudéssemos ler o horóscopo antes de ir pro trabalho, fazer mapa astral e saber que devem ser evitados os homens de Touro e as mulheres de Escorpião (trans, sejam de que signo forem, não podem ser evitadxs, pois é transfobia).

A Terra foi feita sob medida para que que nela possamos viver e dela desfrutar. Daí os terremotos, vulcões, furacões, chuvas torrenciais, tsunamis, avalanches, deslizamentos, descargas elétricas, incêndios florestais. Sem esquecer os desertos – tanto os escaldantes quanto os congelados – que ocupam 20% da superfície do planeta e existem para… para… bem, existem para programas do Discovery.

Há também o fato de a espécie humana não viver sem água e só 3,5% da água do planeta serem próprios para consumo humano – 96,5% foram colocados aqui – neste planeta feito especialmente para nós –  para termos onde pescar, surfar, velejar, nos afogar e pular sete ondas no reveiôn (que, convenhamos, são coisas muito mais importantes que matar a sede).

A atmosfera foi desenhada com 120 km de altura, e 2,5% dessa altitude tem oxigênio em quantidade suficiente para a vida humana. 97,5% foram desenhados para que tivéssemos céus azuis para nossa selfies. É ou não é um toque de mestre? Sem contar que bastam dois minutos sem respirar para que a gente desmaie. Claro que há os mergulhadores profissionais, que aguentam dez vezes mais, mas você não é mergulhador/a profissional, é? Nem eu.

Somos o ápice da Criação. Os seres mais evoluídos, mais CDFs, e mais fodões. Tanto é que são poucas as outras criaturas capazes de nos matar. Apenas os leões, leopardos, linces, rinocerontes, hipopótamos, onças, elefantes, crocodilos, tubarões, cobras, escorpiões, aranhas, bactérias, vírus do ebola, HIV, marburg, hantavírus, coronavírus, H5N1, o da dengue, o da raiva, e alguns milhares de outros, bem como toxinas mis.

Claro que o tubarão tem dentes descartáveis e nós não. Panda digere bambu, e nós morreríamos intoxicados. Planárias, estrelas do mar, salamandras e lagartixas regeneram partes do corpo, e nós precisamos de próteses mecânicas. Ursos, minhocas, esquilos, lagartas, morcegos desaceleram o metabolismo, provocando uma queda radical da frequência cardíaca e da respiração e hibernam. Tirando um e outro faquir (você conhece algum?), nenhum de nós consegue fazer isso. Aliás, vagalume acende luz na bunda – coisa que você também não faz.

Mas ninguém até hoje provou a origem do protoplasma inicial – logo, foi o design inteligente. Nem o do sistema óptico, das asas com penas, do funcionamento das proteínas, da coagulação sanguínea ou do flagelo bacteriano. Logo, foi o design inteligente.

Também não havia, até pouco tempo atrás, explicação sobre como aconteciam as epidemias, o que vinham a ser os trovões, o que causava os terremotos – mas o design inteligente nos fez inteligentes o suficiente para descobrir a causa e concluir que não fora o design inteligente.

O design inteligente é tão, mas tão inteligente que conseguiu criar seres humanos capazes de acreditar nele.  Se isso não prova sua existência, nada mais provará.

Coração vagabundo

Coracao

Meus amigos, eu tentei, mas não vai dar para agradecer a um por um pelas mensagens recebidas durante o meu piripaque cardíaco.  E olha que nenhum comentário mereceria mais uma resposta do que aqueles.

O diagnóstico é “flutter e fibrilação atrial” – o que, em língua de gente, significa que o tique-tique-taque do meu coração atravessou o samba, que o meu coração traiçoeiro passou a bater mais que o bongô, a tremer mais que as maracas – e não era descompassado de amor.

Aí a pressão despencou e eu despenquei junto. Estava desidratado (pelo meu peso, preciso tomar uns dez copos d’água por dia – e minha média é de um copo a cada dois dias (devo ter sido cacto em outra encarnação, o que explica também esse jeito espinhoso de ser).

Já tinha desmaiado em casa, no sábado, mas não dei bola. Na quarta recomeçaram as tonturas e de repente entrou em cartaz o que parecia ser o tal filme a que a gente assiste, em sessão privada, na hora da morte. Foi quando descobri que minha vida era em preto e branco, sem nada digno de nota e sem nada branco. Simplesmente escureceu tudo e fui.

Fui para a emergência, com direito a cadeira de rodas e a furar fila. Pressão 8 x 6 – eu que sou 12 x 8 desde criancinha. Rodaram um eletro (sempre soube que faziam eletro – mas lá eles rodavam eletro) e o enfermeiro informou que teria que raspar meu peito.  Devo ter feito uma cara feia, porque ele entendeu, caprichou um pouco mais no gel e escapei da tosa. Coletaram sangue (e deixaram o acesso no meu braço, o que é sempre um mau sinal) e me botaram para ser hidratado, numa sala de clima glacial.

Éramos oito: eu, um outro cara e seis mulheres. As seis de agasalho e, a pedido, cobertas com uma manta. O cara, de camiseta e bermuda; eu em manga de camisa, ambos dotados daquele isolamento térmico que só a masculinidade tóxica provê. As meninas (tirando a que estava ao meu lado, eram todas bem jovens) batiam queixo, o cara mexia no celular, alheio ao frio, e eu me perguntava até quando iria aguentar aquele atmosfera curitibana (todos se ignorando, ninguém puxando assunto com ninguém e a temperatura em queda livre).

As pontas dos meus dedos já estavam adquirindo um belo tom azulado quando o cara foi liberado e eu pude me liberar também da minha obrigação de manter a pose e pedi a manta. Liberdade pode ser uma calça velha, azul e desbotada, mas felicidade é uma manta quentinha.

Novo eletro, e nova ameaça de depilação, também contornada. Já devia ser meia-noite, e lá ia eu para a tomografia.  Esperando pelo elevador, dou de cara com a placa “Análizes clínicas”. Parece que o Weintraub andou fazendo bico de comunicação visual antes de ser ministro.

Me injetam o contraste e tenho uma palinha do que deve ser uma experiência lisérgica, porque tomo consciência de todas as veias do meu corpo. Volto ao consultório e vem a notícia: não só não vou embora como vou é pra UTI.

Assim como as testemunhas de Jeová não aceitam transfusão e os esquerdistas não aceitam a realidade, eu não aceito uma série de procedimentos: ser entubado, amputado, transplantado, fazer quimioterapia e… ir para UTI.  Tento explicar isso à médica, sem muito sucesso. Cadê meu testamento vital, que eu devia carregar no bolso, junto com a identidade, a carteirinha do plano de saúde e o dinheiro do ladrão?

Chegam mais enfermeiros, me injetam um troço na barriga (para afinar o sangue), me coletam mais sangue (pelo outro braço, não pelo que já está com acesso, porque esse será para os medicamentos) e voltam com a história de raspar o peito para rodar outro eletro. Explico que é o terceiro eletro do dia e que os outros foram feitos sem nenhum procedimento depilatório.

– Mas você é um tonirramos – diz um dos enfermeiros, em tom que me soou libidinoso, mas pode ter sido impressão minha, efeito da pressão baixa ou do contraste ainda circulando no organismo.

Chega a cardiologista e me convence a ir para a UTI com um argumento matador: posso ter uma trombose ou um AVC.  Assim como capitulei à manta quentinha na sala gelada, capitulo diante dessa perspectiva nada auspiciosa.  Não há vaga na UTI, e vou ter que passar a noite na emergência – com luz acesa, macas entrando e saindo, gente falando como se estivesse num pregão da bolsa de valores e monitores apitando. Por um momento, tenho saudade da vizinha de cima. Mas passa logo.

Preciso tirar a roupa e vestir um daqueles aventais ridículos, que deixam a gente com a bunda de fora. Ainda vou entender esse fetiche que os médicos têm em ver os pacientes com a bunda de fora. Não posso ficar com nada, exceto os óculos. Explico que tenho que entregar um artigo pro jornal no dia seguinte, e que preciso do celular tanto para terminar o texto quanto para enviá-lo.  Já que não vai dar para dormir mesmo, tempo não vai me faltar.  Posso, inclusive, escrever outro texto sobre a brutal diferença entre hospitais públicos e privados, porque tinha estado no Miguel Couto alguns dias antes.

– Sobre o que é o texto? – pergunta a médica.

– Sexo – respondo, vagamente.

– Pode escrever sobre o coração.

– Pelo menos agora sei que tenho um. E como estou sendo cuidado por uma cardiologista, não por uma geóloga, é sinal que não é de pedra.

Ela me deixa ficar com o celular e eu fico na UTI por dois dias, pensando que com meus plugues de cera para o ouvido e uma daquelas máscaras de cobrir os olhos que a gente ganhava no avião (acho que a minha ainda é da PanAm), até que a experiência não é tão ruim.

De novo: obrigado a todo mundo que se preocupou, que desejou melhoras. Já estou bem (bem lento, meio em câmera lenta, mas estou). E fiquei pensando: no domingo, lá estava eu visitando a Claudinha Telles no hospital, preocupado com seu coração dilatado, e fazendo planos para um livro com as histórias da sua carreira, sem saber que o meu coração desafinava aqui do lado esquerdo do peito.  Três dias depois, estávamos ambos na UTI.

O que preciso agora é aprender a beber água. E, desde que possa levar os protetores auriculares, a máscara e o celular, vou tirar do meu testamento vital a menção à UTI.  E incluir a tricotomia entre os procedimentos inaceitáveis. Porque da depilação para a tatuagem e o piercing, é um pulo.

E vamos torcer para que a Claudinha possa logo vir contar os causos da sua internação. Já vi o vídeo em que ela canta para os outros pacientes. O coração dela não é só maior – é também mais afinado que o meu.

 

 

Baseado em fatos reais

rainha

– Alô.

– Oi, vó. Sou eu.

– William, já não te falei para não me ligar me chamando de vó no horário de expediente?  Das 7h às 22h é Your Majesty.

– Não, vó. Sou eu.

– Que foi desta vez? O George inventou de fazer mais um doutorado e você quer que eu ligue pra Oxford? Ele já tem 35 anos, 8 doutorados, acho que chega, né? Ele faz qualquer coisa para não casar, mas vai que um dia precisamos de um herdeiro ao trono…

– Não, vó. Eu.

– É a Charlotte, então? O que foi que as pestes das filhas dela aprontaram desta vez, William? Na semana passada rabiscaram um bigode no retrato da great-great-great-great-grandma Vitória e botaram fogo na sacristia de Westminster. Eu avisei que se fizessem isso mais uma vez eu deserdava as duas!

– Vó…

– Não vai me dizer que o Louis engravidou a namorada! William, é a terceira vez que o Louis engravida uma namorada este semestre. E nem é a mesma namorada! Desse jeito, a minha linha sucessória vai virar um novelo.

– Vó, sou eu, o Harry.

– Quem?

– Harry.

– Aquele ruivo? [Bota a mão no bocal do telefone e faz uma ligação pelo celular] Kate, é a Lilibeth. Como é que chamava aquele seu cunhado, irmão do Will, um ruivo, filho da Diana?

– Vó…

– Just a minute, please. [Cobre de novo o bocal com a mão] Um ruivo, Kate, de cabelo encaracolado, que não parecia com ninguém da família desde Henrique VIII.  Você e a mulher dele não se davam, lembra? Isso faz tempo, foi antes de você ter o Edward, o Philip, a Mary, o Richard, o James, a Alexandra, a Vic e os trigêmeos.

– Vó.

– Teiquirize, young man.   Já falo com você.  [Volta ao celular] O Charles ainda era vivo. Era Harry que se chamava, não era? Tem alguém aqui na linha com esse nome querendo falar comigo. Como é que será que ele conseguiu meu telefone?

– Vó…

– Olá, Harold. Desculpe, a ligação estava picotando. Há quanto tempo…

– Harry. Pois é, vó. Trinta anos, já.

– Time flies…

– Eu queria que a senhora soubesse que todos esses anos eu só pensei em voltar, mas a Meg…

–  Sei como é. O Philip e eu brigamos hoje cedo e desde então ele está tentando voltar, mas deve estar perdido em algum corredor, não acha o caminho…. rá rá rá.. E a Inglaterra quer voltar para a Europa desde 2020, e também não consegue. É a vida, né?

– Eu era jovem, ingênuo, vó. Mas agora eu dou valor. Eu levava uma vida de príncipe e…

– … abriu mão dela, right? Tio Dick também fez isso, e também por uma divorciada americana. Eu não sei o que os homens desta família veem em divorciadas americanas, mas, enfim.  Como é que está o…. o….  Flipper?

– Arquibaldo, vó.

– Eu sabia que era um nome de golfinho. O Arquibaldo, como vai?

– Vai bem. Trabalha como vendedor de seguros de dia, e de noite é barman num pub aqui de Toronto.  A Meg voltou pra casa da mãe dela, e o Archie preferiu ficar comigo, porque não queria ir pros Estados Unidos e correr o risco de ter que lutar na guerra de Dubai.

– Não era guerra do Qatar?

– Essa foi semana passada, depois da guerra da Arábia Saudita, e antes da guerra de Abu Dhabi.

– Mas assim que acabar o petróleo todo, não vai ter mais guerra lá, e ele pode voltar pros Estados Unidos sossegado.

– A gente estava pensando em voltar era para a Inglaterra, fazer as pazes com o Will, com a Kate, com as corridas de cavalos, com os bailes de gala, a pensão da família real…. Eu nem conheço todos os meus 11 sobrinhos…

– Estão lindos. E são 17, se não me engano. Pelo menos eram, até a última contagem que mandei fazer. O mais velho, o George, ainda não casou – mas mais vale um celibato que outra divorciada americana. Charlotte tem as duas meninas, Marge e Beth, umas encapetadas, que puxaram sua tia avó, a Margarete. Se o George não casar, quem talvez vá para o trono algum dia seja a Marge – e aí seja o que Santa Thatcher quiser. Louis puxou a família da avó, os Spencer, e é da pá virada. Mas enquanto eu aguentar apertar a mão dos primeiros ministros, e fingir que estou interessada no papo, vou levando.

– Então, vó, eu…

– Liga para o protocolo real, vê como está a agenda para 2050 e a gente marca um chá das 5 qualquer hora dessas. Se a Scotland Yard conseguir localizar o Philip até lá, ele participa também.

– Mas, vó, tem a passagem…

– Ah, sim, claro, a passagem. A passagem do Charles foi muito triste. A da Camilla nem tanto. Mas ele já estava com quase 90 anos, ela já tinha passado dos 100. Todos nós sentimos muito, principalmente os caricaturistas dos tabloides. Agora eles se divertem é com a careca do Will. E com a filharada dele e da Kate. A passagem da Anne, do Andrew, do Edward e do Winston também foi triste.

– Winston?

– O corgi. Sobreviveu à Maggie, ao John, ao Tony, ao Gordon, ao David, à Teresa, ao Bóris e aos outros 20 pets que vieram depois. Mas engasgou com um Yorkshire pudding. Quer dizer, ele achou que era um Yorkshire pudding, e era só um yorkshire. Poor Winston.

– Vó, se eu voltar, eu volto para a linha de sucessão, né?

– Quando você abriu mão de tudo, a fila andou e acho que sua posição agora deve ser logo depois do Keith Richards.

– O Keith Richards está vivo?

– Vivíssimo de Windsor! Vem inclusive tocar na minha festa de aniversário. Na dos 120 anos ele não pôde, porque estava numa rehab, mas agora na de 125 ai dele se faltar.

– Tá, vó. A Meg levou tudo, mas eu e o Archie damos um jeito e voltamos. Miss you!

– Só avise seis meses antes, que eu tenho que ir para a Austrália, a África do Sul, a Índia, o Quênia, as Malvinas, na comemoração dos 100 anos de reinado.

– Não vai passar pelo Canadá? Podia me dar uma carona…

– Vou, mas não dá. O iate vai estar lotado. Todos os filhos da Kate irão. Estamos até providenciando uns botes extras, para o caso de nascer mais algum durante a viagem. Beijo, Harold. Vovó adorou falar com você.

– É Harry, vó. E será que a senhora não podia passar um doc… Vó? Vó?

Partiu exit

exit

O Reino Unido parece chocado com o Megxit, a saída da duquesa de Sussex, Meghan Markle, da Casa Real. E levando a reboque o marido, que acumula as funções de neto da rainha, filho do provável futuro rei (se a rainha, eventualmente, resolver vir a falecer algum dia), irmão do rei seguinte e tio do reizinho que virá a seguir.

O casal ex-real quer partir para novos desafios, adquirir independência financeira e levar uma vida de gente normal, do tipo que compra a crediário, cerze meia e aproveita o aniversário do Guanabara para abastecer a despensa.

Já pensou se a moda pega, e temos aqui no Brasil o Flavioxit, o Duduxit e o Carluxexit?

No Flavioxit, o moço assume o mandato de senador e, nas horas vagas, vai vender chocolate. Arruma um partido (atualmente, não tem nenhum), arruma um bom advogado (atualmente, precisa muito de um) e resolve a relação com o Queiroz.

No Duduxit, o moço assume o mandato de deputado, abre uma hamburgueria numa academia de tiro (ou uma academia de tiro com hamburgueria anexa) e usa o próprio exemplo de superação de trauma (imagina perder a chance de fazer selfie no Salão Oval com o dedo no botão que dispara mísseis!) para dar uma moral no consultório de côutchim da patroa.

O Carluxexit seria mais complicado, porque cortar o cordão umbilical pode demandar anestesia. Mas o moço assumiria o mandato de vereador (é preciso passar o endereço da Câmara para ele, e ter alguém de receptivo na porta, com o nome dele numa plaquinha e um mapa do gabinete, para ele não se perder). Com o primo, pode abrir uma agência de viagens ou de relações públicas, usando sua expertise em redes sociais.

O PT deve sonhar com o Janjexit, e a nova senhora Lula da Silva deixando de controlar a agenda do namorado.

O PC do B comemoraria o foicexit, ensaiado no Movimento 65 (campanha de filiação ao partido sem mencionar que o partido é comunista e com a foice longe das vistas dos incautos).

O PODEMOS lidará super bem com o Felicianexit. O PSL, com o todomundexit. A Globo, com o Gagliassexit. A primeira divisão, com o Cruzeirexit.

As duplas sertanejas poderiam aderir ao segundavozexit. As gravações ficariam exatamente iguais e ninguém precisaria dividir o cachê. O problema é a segunda voz partir para a carreira solo, o que dobraria o número de artistas sertanejos. Melhor não.

O Gentilli e o Fachel só teriam a ganhar com o canecaexit, tirando da mesa aquela caneca inútil que só serve para lembrar que estão imitando tolquixôus americanos.

E o Rio, com o Crivelexit – se bem que se o prefeito deixar suas funções é capaz de ninguém notar a diferença.

Tatu

tatu

Lu resolveu que precisava fazer uma nova tatuagem.

Já tinha um alienígena, uma rosa, uma frase feminista, quatro ideogramas, grafismos maoris e celtas, um leão (seu signo), uma medusa subindo pelo pescoço, uma fênix, uma coluna vertebral em 3D ao longo da coluna (nascendo em cima da palavra “like” de “A woman without a man is like a fish without a bicycle”, em letras góticas) e uma orquídea.

Tinha também um código de barras no antebraço esquerdo, a língua dos Rolling Stones na lateral do seio, uma alcachofra no ombro, uma mão de Fátima no dorso da mão, uma flor de lótus no dorso da outra, dentes de leão logo abaixo da axila, uma coruja na panturrilha (era para ser na omoplata, mas ali, além do leão, já havia uma carpa, um unicórnio, uma Betty Boop, um Om e uma inscrição em árabe – que o moço que vendia esfirra artesanal traduziu como “Imóvel à venda, tratar com Jamile na loja de ferragens”, mas preferiu não contar).

Num dos pulsos, tinha um zíper; no outro, um cacto, uma borboleta, um filtro dos sonhos e um bando da andorinhas. Nas pernas, um arco íris, um yin e um yang, um revólver atirando flores, uma Jéssica Rabbit, uma rosa dos ventos, uma equação de segundo grau, um jogo da velha e um Coringa (o do baralho).

E agora precisava (precisava muito!) fazer um Chapolin Colorado, mas… não encontrava mais lugar.

Na virilha, havia cerejas (lembra da orquídea? ficava de um lado e as cerejas do outro – e, quando a depilação estava em dia, era possível ver com mais clareza um escorpião, que era seu ascendente, e uma lua em Capricórnio).

Talvez pudesse fazer o Chapolin entre o elefante, o dragão, o número 7 e a salamandra, que ocupavam as costelas de um lado (do outro, estavam um sapo, uma smurfete, uma jangada feita por um argentino em Jericoacoara – com um símbolo esotérico ancestral na vela, que Lu depois descobriu ser o escudo do River Plate -, uma estrela cadente, uma terra plana, um colibri, uma calculadora Cassio – com 3,1614 no visor -, uma libélula e um pentagrama).

Logo abaixo das nádegas, vinham um girassol, um gato, duas mandalas, uma âncora, Naruto, Pinóquio, e=mc2, um parafuso, uma cornucópia, e XIIIII/VIIII/IIMMIIII (data da primeira menstruação, supostamente em algarismos romanos, feita por uma tatuadora holandesa em São Tomé das Letras).

Resumindo – não cabia mais nada – porque numa nádega havia uma baleia jubarte com o filhote e, na outra, Alice com o Chapeleiro Maluco e uma barra de Toblerone.

Mas como ficar sem o Chapolin?  Num dos seios, tatuara um vulcão (o mamilo era a cratera, de onde a lava escorria até perto do ferro elétrico e a tábua de passar, homenagens à sua mãe). O outro seio era coberto por uma teia de aranha, sendo a aréola o abdome da caranguejeira, em alto relevo. Do umbigo subiam delicadas volutas verdes até encontrar as frases “Carpe diem”, “Accept your destination” e algo em sânscrito, que o moço que vende esfirra artesanal não conseguiu traduzir, mas que o tatuador peruano de Morro de São Paulo afirmou ser “Amar, pode dar certo” – assim mesmo, com vírgula e tudo.

Lu postou seu desespero no insta. De joelhos (num deles havia uma fada e um manete da Nintendo; no outro, um dálmata, um apontador de lápis e uma Frida) ela perguntava como ia viver sem o Chapolin Colorado, já que a mãe a proibira de tatuar o rosto (só mesmo o olho egípcio nas pálpebras, e olhe lá).  Alguém sugeriu pedir emprestado espaço na pele de outra pessoa, mediante pagamento. Apareceu um rapaz que ainda tinha cerca de 5 cm2 disponíveis na nuca e morava em Senador Firmino, MG. Não era a localização ideal, mas ele se comprometeu a passar máquina zero uma vez por mês e mandar uma foto para comprovar que o Chapolin continuava bem visível.

Lu e o namorado sentiram que havia ali um filão e criaram o Tattoober, que agencia pele extra para quem já não tem mais espaço no próprio corpo. Você diz que tatuagem quer fazer e as pessoas dizem que partes do corpo ainda têm disponíveis. Se der match, é só pagar a taxa e chamar o tatuador (a fatura cai no cartão do tatuado virtual).

Além do Chapolin em Senador Firmino, MG, Lu tem um teletubie roxo num ombro em Camaçari, BA, e uma tribal marajoara numa panturrilha em Zamboanga, nas Filipinas.

Para evitar que alguém venda tatuagem e aplique henna, a Tattoober exige que o procedimento seja transmitido onlaine, enquanto o tatuado remoto recebe agulhadas sem tinta, só para criar um vínculo álgico (também conhecido como “aquela deliciosa dor desgraçada”) com o desenho que irá circular em outra parte do corpo, em outra parte do mundo.

Hoje, Lu acordou precisando muito (muito!) tatuar um louva-a-deus ou um filtro de linha – não definiu ainda. Viu que há um cóccix disponível em Paragominas, PA, e uma parte de trás da coxa em Cochabamba, na Bolívia. No Rio, o cm2 de pele virgem está uma fortuna, e mesmo assim só se encontra em freiras na clausura do Convento de Santa Teresa e numa comunidade neopentecostal de Brás de Pina.  Mas de que adianta uma tatuagem que ninguém vai ver, a não ser numa eventual autópsia?

Lu e Beto, o namorado, têm estudado formas de fazer tatuagens internas, por meio de videolaparoscopia. A Anvisa ainda não foi consultada, mas já há lista de espera para quem quer uma sereia no fígado, um coração flechado no pericárdio (olha que fofo!) e uma caveira mexicana no interior do crânio.

Mas esta semana uma digital influencer belga chocou a internet e foi parar nos trend topics ao tatuar 100% da superfície corporal no tom da sua pele original. Suas aparições em público sem nenhum rabisco têm provocado uma onda mundial de pasmo e indignação. Especialistas se dividem entre tratar-se de um caso de exibicionismo crônico ou de incapacidade de expressar os próprios sentimentos.

O julgamento da desgaratujofobia deve entrar na pauta do STF em 2020. A Ministra Rosa Weber já prepara um voto em que fala das pintura rupestres, dos petroglifos de Nazca, dos corações em casca de árvore, dos queloides, das assinaturas no gesso do braço quebrado, passando pelos bois marcados a ferro quente, o chicle de bola Ploc, a hermenêutica teratológica e os carimbos usados nas boates para indicar quem já pagou.

Lu nem dormiu esta noite pensando em tatuar a íntegra do voto. Mas para isso precisa da população da China, da Índia, da Indonésia, do Paquistão e da Nigéria, além de quem acha que o Papa deva ser enquadrado na Lei Maria da Penha por espancar aquela fiel na Praça de São Pedro. E, ainda tem que fazer um ajuste no Chapolin Colorado, que saiu com M, não com N.