Enquanto isso, num planeta retrógrado…

terrabolismo

– Ô, Marcos, tô precisando que você dá uma declaração aí pra mim.

– Pois não, presidente. Estamos no governo para ajudar.

– Você que foi lá em cima, quero que você desmente aí esse negócio que a Terra é redonda, talquei?

– Mas presidente…

– Tem gente que acredita aí nessas palhaçadas de terrabolismo, e tão zoando lá o presidente da Fuzarca.

– Da Funarte…

– Se tem arte, é Fuzarca. A parte do rock satânico eu vou pedir pro Feliciano confirmar – essa coisa de Satã é com ele mesmo. Mas você que é astrólogo…

– Astronauta…

– Você não é astrólogo? Foi fazer o quê na Lua, então?

– Presidente, o astrólogo é outro. Eu sou ministro da Ciência, Tecnologia, Inovações e Comunicações. E não fica bem um ministro de uma pasta como esta se envolver com certas teorias, digamos, heterodoxas.

– Como não? Se é hétero é porque é bom. Mas eu jurava que você era astrólogo, que nem o…

– Não, presidente.  Entendo um pouco de astronomia, que é outro departamento.

– Bom, eu nomeei uma roteirista de televisão pra um reálitixou chamado “A Casa da Rui Barbosa” e lá vai ter astrologia. Você devia se inscrever.

– Ahn, bem, é que… a Casa de Rui Barbosa não é bem um reálitixou. É uma fundação que cuida da obra do Rui Barbosa, e de outras personalidades da história do Brasil.

– Não é uma casa igual à do BBB, d’A Fazenda, do “De férias com o ex”, só que a dona é aquela ruivinha?

– É Casa “de” Rui Barbosa, não “da Ruy Barbosa.

– E o que é que uma apresentadora de televisão está fazendo lá com aula de astrologia?

– É o que eu também me pergunto, presidente. Aliás, é o que todo mundo se pergunta…

– Depois eu falo pra um dos meninos verificar isso daí.  O que eu preciso mesmo é da sua declaração de que esse negócio de Terra redonda rodando aí no céu em volta do Sol, sem domo de acrílico, só pode ser piada.

– Não é.

– Não é o quê?

– Piada. Eu vi. A Terra é redonda. Eu não consegui lugar na janelinha – fiquei sentado no corredor – mas deu pra ver que é redonda, sim.

– Vai ver aquilo não era janela, era um olho mágico. No olho mágico todo mundo fica redondo.

– Não era olho mágico, presidente.  Era uma escotilha.

– Quer que eu acredito que tá todo mundo errado – o meu astrólogo, o presidente da Fuzarca, esses vídeos do iutube – e só você é que tá certo?

– Pergunta pro Guedes, pro Moro, pro Mourão…

– Talkey, vou consultar os especialistas.

(Marcos sai da sala, preocupado com a gravidade da situação.)

– Ô Vaingarte, chama aí o Ernesto, a Damares e o Vaintraube, que eu quero tirar uma dúvida com eles.

O sol nasceu pra todos

perineo 2

Eu podia estar escrevendo sobre rânquim do Pisa, que colocou o Brasil abaixo da Moldávia, da Jordânia, da Romênia e da Bielorrússia – mas, ainda assim, acima do Cazaquistão, da Albânia e – certamente – do Haiti, do Sudão do Sul e da Guiné Equatorial.

Podia falar que só resta ao Cruzeiro, depois da derrota para o Vasco (e para o CSA!), cortar três zeros e mudar o nome para Cruzado.

Podia conjecturar sobre que cargo irão ocupar no governo a Inês Brasil, o Inri Cristo, o ET Bilu e o Menino do Acre.

Mas o assunto que não quer calar é o bronzeamento do períneo.

Se o sol nasceu para todos, por que não para o períneo?

O períneo é uma daquelas regiões que pareciam fadadas a viver nas sombras. Uma espécie de eminência parda da anatomia. Um Uruguai, com inúmeros atrativos, mas espremido entre dois vizinhos muito mais poderosos.

A etimologia dá uma pista: o prefixo de περίνεος (períneos, para quem, como eu, não entende lhufas de grego), é o mesmo de periferia, peripécia, período, perímetro, periscópio. “Peri” = O que está à volta, ao redor, em torno de.

O períneo nasceu para vice. Para papagaio de pirata. Nem chega a coadjuvante: é só figuração.

Sabe aquela moça que passa lá atrás, em segundo plano, de sombrinha, nas novelas de época? Pois é, ela é o períneo da cena. Sem ela, a coisa ficaria meio falsa. Não é preciso haver uma rua de verdade, com gente de verdade passando, cada um protagonista da sua própria existência. Daria muito trabalho. Basta, para conferir certa credibilidade, uma moça anônima andando sem rumo, de sombrinha, indo do nada a lugar nenhum para fazer coisa nenhuma. A diferença é que, no corpo humano, essa moça de sombrinha tem nome: chama-se períneo.

E por que tomar sol no períneo?

Porque já esgotamos todas as outras possibilidades. Já inventamos o creme para cotovelo. A barba desenhada. A cirurgia para fazer covinha no rosto. A prótese de silicone para panturrilha. A depilação em forma de bigodinho nazista. O papel higiênico com sabor pêssego. E o períneo lá, feito um dois de paus, fazendo cara de paisagem.

Já houve uma peça chamada “Monólogos da vagina” e uma entrevista da Marcia Tiburi sobre o cu ser laico. E o períneo ali, calado, esperando a deixa que não vinha. Na boca do gol esperando o passe. Quase um Príncipe Charles, há 70 anos com o pé na embreagem esperando o sinal abrir para engatar a primeira. E nada.

Imagino que tenha havido uma reunião de pauta numa dessas empresas que detectam tendências e turbinam a internet, e depois de um chequiliste completo viram que não faltava problematizar mais nada no corpo humano.

– Baço já foi tendência?
– Já. No outono de 1987.
– O mesentério?
– Verão de 1941.
– As amídalas?
– Da década de 70, quando ainda nem se chamavam tonsilas.
– As trompas de falópio?
– Essas passaram por um branding e agora são tubas uterinas.
– Então acabou. Até o complexo de golgi já foi pauta. Vamos ter que dispensar todo mundo e mudar de ramo.
– Não péra! Como é que chama aquela parte ali entre o… o… e a… a..
– Onde, Aparecida?
– Lá.
– Desembucha, Aparecida.
– Lá, gente. Naquele São Conrado genital, entre o Leblon e a Barra…
– Aquilo tem nome?
– Acho que tem. É alguma coisa tipo pericarpo, peritônio, periodontista, perinatal…
– Períneo!
– Isso! Vamos jogar alguma luz ali?

E foi assim.

~

Disclêimer:
1. Esta é uma obra de ficção;
2. Contém ironia;
3. Não há qualquer intenção de ofender os súditos de Sua Majestade ou, mais especificamente, seu herdeiro ao trono;
4. Jamais me ocorreu magoar nenhum país vizinho com referências depreciativas à sua localização geográfica;
5. Os estudantes cazaques, albaneses, haitianos, sudaneses do sul ou guineenses equatoriais merecem todo o nosso respeito;
6. Esperamos que nenhum torcedor do valoroso CSA se sinta ultrajado;
7. O Cruzado foi uma moeda legítima como qualquer outra, em nada inferior ao Cruzeiro ou ao Conto de Réis (que será o nome do time quando cairmos para a terceira divisão);
8. Inês Brasil é uma artista talentosa, não compactuamos com nenhum tipo de intolerância religiosa ao inricristianismo, extraterrestrial lives matter, e eu tenho o maior xodó pelo Acre;
9. A categoria profissional dos figurantes tem papel fundamental na dramaturgia, e jamais poderá ser considerada mera coadjuvante;
10. Desenhar a barba é uma opção estética lícita e a diagramação do púbis é uma decisão de foro íntimo;
11. Papagaios são animais silvestres e não devem ser retirados no seu habitat para viver em gaiolas ou no ombro de bucaneiros;
12. Empresas de trêndim e brêndim, assim como as de côutchim, fazem parte da economia criativa, geram empregos, pagam impostos e não devem ser alvo de pilhérias;
13. São Conrado é um bairro nobre e paga um dos mais altos IPTUs do Rio, sendo injusta qualquer ilação sobre ser apenas um lugar de passagem;
14. Em nenhum momento me ocorreu insinuar que a Barra da Tijuca – que, inclusive, é meu lar – seja o orifício anal do Rio de Janeiro.
15. Nenhuma Aparecida sofreu maus tratos na redação deste texto.

(Ufa, acho que já me defendi de todas as possíveis acusações. A menos que algum barista grego com complexo de golgi apareça – mas acho que as chances de isso acontecer são remotas).

Por um bullying de café

Cafe

Barista não é o sujeito que entende de café.

É o sujeito que problematiza o café.

É o que procura (e acha) defeito no café, enquanto a gente, que gosta de café, bebe café e pronto.

O barista está para o café assim como certos homens estão para as mulheres. Tão bonita, mas tem estria. Não tem estria, mas o seio esquerdo é um centímetro mais baixo que o direito (não sei se você já reparou, mas o direito é normalmente um pouco mais firme e altaneiro, principalmente nas mulheres destras; eu nunca reparei).

O barista está para o café assim como certas mulheres estão para os homens. Bonito, mas tem pelo no ombro. Não tem pelo no ombro, mas é casado. Ou seja, qualquer pequeno defeito invalida todo o conjunto.

O barista não gosta de tomar café, mas de fazer café. Gosta do ritual.  Da liturgia. Da misancêne.

Não pó pô pó no melita e despejar água quente.

Não.

Água quente não serve, muito menos água fervente: tem que ser água entre 93ºC e 94ºC.

Logo, para fazer café você precisa de pó, filtro, água (entre 93ºC e 94ºC) e um termômetro.

O pó deve ser moído (de preferência, na hora) na granulometria correta – nem grosso, nem médio, nem fino, mas médio mais para fino. Sabe aquela cara de desprezo que o garçom faz quando você pede filé ao ponto, mais para mal passado? Pois é, prepare-se que ver essa expressão na cara da tia do cafezinho quando você se tornar um coffee snob.

Para coador de pano, a proporção é de 8% de café, ou 80 g de pó, por litro de água. Para filtros de papel, 1% a menos. Portanto, além do termômetro, leve também uma balança de precisão para a pia da cozinha.

Não é de qualquer jeito que se deve proceder ao milagre diário da transformação da água em café. Nada de jogar duas colheres de pó e ir despejando água. Se for usar filtro de papel, ele tem que ser previamente umedecido – ou melhor, escaldado. Com água, claro, entre 93ºC e 94ºC.

Escaldado o filtro (e descartada essa água), aí, sim, se depositam os 8% de pó (sem apertar!) e é adicionada a água, em fio, de forma lenta e constante. Não no centro do coador, mas pelas bordas, em movimentos circulares no sentido anti-horário (essa parte eu que inventei, mas não duvido que haja algum barista que garanta que o sabor do café coado no sentido horário seja outro). E não despeje toda a água de uma vez: regue um pouco e deixe hidratar. Só depois adicione o restante.

Em briga de homem e mulher a gente já mete a colher. Ao coar café, não. É cafecídio, crime inafiançável.

Depois desse sacrifício todo, nem pense em colocar açúcar e esconder as notas sensoriais do café. Você não vai querer perder aquele toque cítrico ou floral, de avelãs, noz moscada ou tabaco, vai?

Sim, pode levantar o dedinho na hora de segurar a xícara. Ninguém é de ferro.