Criado mudo

pisando em ovos

Um dos problemas do Brasil é a piada pronta.

A gente tenta fazer graça com alguns absurdos, mas aí vem a realidade e pá! mostra que não há ironia, sarcasmo ou deboche que chegue aos seus pés.

Uma empresa vai tirar de linha o ‘criado mudo’, porque a expressão é racista.

Racista?

Os criados são uma raça? Há uma raça de mudos?

Aquele móvel onde você guarda remédios, lenços de papel, bombinha de asma, título de eleitor, cópia da chave do carro, e que serve de apoio para livros e luminária, alguma vez te lembrou um escravo calado, a noite inteira de pé ao lado da cama?

Bora rebatizar os móveis e acessórios opressores e perpetuadores de discriminação!

‘Olho mágico’ tem um quê de alucinógeno, não tem? Será preconceito contra usuários de substâncias ilícitas?

Por que essa falta de mobilidade social que prende a ‘mesinha de centro’ ao centro e a ‘mesinha de canto’ ao canto? Abaixo o comodocentrismo das mesinhas de centro! Liberdade para as mesinhas de canto assumirem o protagonismo!

Diga ‘não’ ao trabalho análogo à escravidão. Se o nome é ‘pano de prato’, ele deve receber hora extra quando for usado para enxugar talheres e panelas – e adicional de insalubridade quando, na falta de luvas, pegar caçarolas quentes no fogão. Que as lojas de artigos de cama e mesa mudem os nomes para ‘pano de garfo’, ‘pano de faca’, ‘pano de frigideira’ etc.

O mesmo vale para quem usa colher de sopa para medir açúcar, colher de chá para colocar pó de café no coador, forma de bolo para fazer pudim, tábua de carne para picar cebola…

Quer coisa mais estadocivilnormativa que ‘cama de solteiro’ e ‘cama de casal’. Não é cama que define o estado civil de ninguém. E como é que ficam os poliafetivos, os menagers, os suínguers, sendo o tempo todo lembrados que aquele móvel foi feito para um casal, não para práticas sexuais alternativas?

Também precisamos repensar o gênero quando se trata de sofá-cama. Porque ‘o’ sofá-cama, não ‘a’ sofá-cama? Sofá-cama é genderfluid – ora sofá, ora cama – portanto, nenhum gênero o/a define.

E a bicama? Por que expor assim a orientação sexual de um móvel? Se ela é bi, isso é questão de foro íntimo.

Desde quando sapato e mala são roupas? E onde é que a gente guarda? Na parte de baixo e lá na prateleira de cima do guarda-roupa. O nome ‘guarda roupa’ é discriminatório e não inclusivo. Doravante, refira-se a ele como ‘guarda lenço bolsa toalha sapato mala cinto e roupa’ (se preferir, use a sigla GLBTSMCR).

Como alguém pode, em sã consciência, almoçar na mesa de jantar?

Lavar pano (de prato, de talher, de panela, de chão) na lava-roupas?

Usar a escrivaninha para desenhar?

Meu ferro elétrico é quase todo de plástico, mas o plástico não tem representatividade – só o ferro. Pode isso?

É justo impedir a luminária de pé de se sentar? Chamar de corredor um lugar por onde a gente normalmente anda em baixa velocidade? Usar o computador para tudo, menos para computar? Apenas relaxar na espreguiçadeira? Fazer o número dois no urinol?

E, já que o criado-mudo é racista, o que dizer do machismo explícito de a cama king size ser maior que a queen?

 

 

 

20 comentários em “Criado mudo

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