A cabala da justiça

Numeros

– Excelência, temos que ter máxima cautela na dosimetria desta pena.
– Sempre tivemos.
– Mas neste caso devemos considerar a jurisprudência da numerologia subjetiva.
– Quem?
– É um conceito novo, uma tradição criada desde que o réu foi condenado a 9 anos em função do seu número de dedos.
– Mas se réus fossem condenados em função do número de dedos, todo mundo pegaria 10 anos de prisão…
– Ou cinco, no caso dos manetas. Enfim. É uma tradição relativamente nova, mas que tem gerado muitas críticas ao Judiciário.
– Bem, temos a pena base de 12 anos…
– Doze não pode. Lembra dose de cachaça, e pode ser entendida como referência aos hábitos etílicos do réu.
– Treze…
– Sem chance. Ficaria evidente o ânimo persecutório desta Corte, porque é o número da sorte do réu.
– Catorze…
– 14 de novembro foi o Dia Nacional da Alfabetização. Vai soar como bullying contra a mãe dele, que nasceu analfabeta.
– Quinze pode?
– O Quinze é um livro da Rachel de Queiróz, que era amiga do Castello Branco, que foi o primeiro presidente depois do golpe.
– Dezesseis…
– É a nova maioridade penal proposta pela direita. Vai ficar evidente que queremos prendê-lo mais cedo ou mais tarde.
– Dezessete, então…
– … sem chance. É o número da besta.
– Não era 666?
– Era. Agora são o 17 e o 38. 17 x 38 = 646. Os 20 que faltam para 666 significam “vim te pegar”.
– E dezoito?
– Lembra a revolta dos 18 do Forte de Copacabana. Tentaram derrubar o presidente e foram derrotados.
– Não é melhor a gente fazer a dosimetria no sentido contrário? Que número eles aceitam sem inventar teorias conspiratórias?
– Zero.
– Mas aí o país inteiro vai achar que somos um zero à esquerda!
– Exatamente, Excelência. É essa a ideia.
– Bom, melhor aplicar a pena que a lei manda. Não vamos tirar do STF o gostinho de dar essa pena zero.
– O problema é que ele ainda é réu em outros sete processos, mais uma denúncia e um inquérito…
– O que dá nove…
– Sim, Excelência. A numerologia subjetiva nunca falha.

Criado mudo

pisando em ovos

Um dos problemas do Brasil é a piada pronta.

A gente tenta fazer graça com alguns absurdos, mas aí vem a realidade e pá! mostra que não há ironia, sarcasmo ou deboche que chegue aos seus pés.

Uma empresa vai tirar de linha o ‘criado mudo’, porque a expressão é racista.

Racista?

Os criados são uma raça? Há uma raça de mudos?

Aquele móvel onde você guarda remédios, lenços de papel, bombinha de asma, título de eleitor, cópia da chave do carro, e que serve de apoio para livros e luminária, alguma vez te lembrou um escravo calado, a noite inteira de pé ao lado da cama?

Bora rebatizar os móveis e acessórios opressores e perpetuadores de discriminação!

‘Olho mágico’ tem um quê de alucinógeno, não tem? Será preconceito contra usuários de substâncias ilícitas?

Por que essa falta de mobilidade social que prende a ‘mesinha de centro’ ao centro e a ‘mesinha de canto’ ao canto? Abaixo o comodocentrismo das mesinhas de centro! Liberdade para as mesinhas de canto assumirem o protagonismo!

Diga ‘não’ ao trabalho análogo à escravidão. Se o nome é ‘pano de prato’, ele deve receber hora extra quando for usado para enxugar talheres e panelas – e adicional de insalubridade quando, na falta de luvas, pegar caçarolas quentes no fogão. Que as lojas de artigos de cama e mesa mudem os nomes para ‘pano de garfo’, ‘pano de faca’, ‘pano de frigideira’ etc.

O mesmo vale para quem usa colher de sopa para medir açúcar, colher de chá para colocar pó de café no coador, forma de bolo para fazer pudim, tábua de carne para picar cebola…

Quer coisa mais estadocivilnormativa que ‘cama de solteiro’ e ‘cama de casal’. Não é cama que define o estado civil de ninguém. E como é que ficam os poliafetivos, os menagers, os suínguers, sendo o tempo todo lembrados que aquele móvel foi feito para um casal, não para práticas sexuais alternativas?

Também precisamos repensar o gênero quando se trata de sofá-cama. Porque ‘o’ sofá-cama, não ‘a’ sofá-cama? Sofá-cama é genderfluid – ora sofá, ora cama – portanto, nenhum gênero o/a define.

E a bicama? Por que expor assim a orientação sexual de um móvel? Se ela é bi, isso é questão de foro íntimo.

Desde quando sapato e mala são roupas? E onde é que a gente guarda? Na parte de baixo e lá na prateleira de cima do guarda-roupa. O nome ‘guarda roupa’ é discriminatório e não inclusivo. Doravante, refira-se a ele como ‘guarda lenço bolsa toalha sapato mala cinto e roupa’ (se preferir, use a sigla GLBTSMCR).

Como alguém pode, em sã consciência, almoçar na mesa de jantar?

Lavar pano (de prato, de talher, de panela, de chão) na lava-roupas?

Usar a escrivaninha para desenhar?

Meu ferro elétrico é quase todo de plástico, mas o plástico não tem representatividade – só o ferro. Pode isso?

É justo impedir a luminária de pé de se sentar? Chamar de corredor um lugar por onde a gente normalmente anda em baixa velocidade? Usar o computador para tudo, menos para computar? Apenas relaxar na espreguiçadeira? Fazer o número dois no urinol?

E, já que o criado-mudo é racista, o que dizer do machismo explícito de a cama king size ser maior que a queen?

 

 

 

Faxina linguística

PC

Há movimentos para tirar de circulação termos e expressões ofensivos a minorias.

É uma questão de civilidade.

“Fazer baianada”, “serviço de preto”, “coisa de mulherzinha”, “programa de índio” não vão fazer falta nem deixar saudades.

Por outro lado, há os exageros. Coisa de gente que perdeu a mão (e não vai aí nenhuma hostilidade aos amputados), o foco (não, não vejo com maus olhos os portadores de presbiopia, astigmatismo, catarata), o rumo (longe de mim querer alcançar as vítimas de desorientação amnéstica), o eixo (sem inclinação desfavorável aos que sofrem de labirintite).

“Caixa preta”, “sorriso amarelo” e “entrar no vermelho” não têm conotação racial. Mas, no ritmo em que as coisas vão (e continuam indo!), não será surpresa se a lista de expressões que devemos banir do idioma para torná-lo mais inclusivo incluir:

– Terça-feira gorda
> Ofende os dias da semana não adiposamente privilegiados;

– Apressado come cru.
> Busca ridicularizar os adeptos da dieta crudívora.

– A carne é fraca.
> Busca favorecer, sub-repticiamente, a dieta vegetariana.

– Gordura trans
> Associa os pluçaize e as pessoas cuja identidade de gênero difere daquela designada no nascimento a algo prejudicial à saúde;

– Quem vê cara não vê coração.
> Privilegia os cirurgiões cardiovasculares em detrimento dos cirurgiões plásticos.

– Tempos de vacas magras:
> Ofende as anoréxicas, correlacionando magreza e miséria;

– O trem tá feio:
> Insulta o já combalido sistema de transporte ferroviário e, simultaneamente, os indivíduos (mineiros ou não) em desconformidade com os padrões estéticos da sociedade

– Alto lá!
> Estigmatiza os esbeltamente avantajados;

– O que vem de baixo não me atinge.
> Ultraja os de estatura comprimida;

– Pimenta nos olhos dos outros é refresco
> Perpetua estereótipos contra as pimentas, ignorando o grupo minoritário das pimentas biquinho, que não ardem;

– Deus escreve certo por linhas tortas
> Fomenta a opressão gramatico-teísta em relação às pessoas diferentemente dotadas de destreza manual;

– Um dia é da caça, outro é do caçador
> Ignora a pesca, fonte de subsistência das populações ribeirinhas;

– Uma andorinha só não faz verão
> Discrimina os celibatários (voluntários e involuntários), os nerdes e os sologâmicos;

– Não julgue o livro pela capa
> Institucionaliza o menosprezo aos designers gráficos, cuja profissão sequer é reconhecida;

– É dando que se recebe
> Estimula práticas sexuais não ortodoxas entre parceiros do mesmo sexo, vinculando a entrega física a posterior recompensa;

– Cada cabeça, uma sentença
> Deprecia o STF.

– Roupa suja se lava em casa
> Propaga subliminarmente o boicote ao empreendedorismo na área das lavanderias;

– Quem com ferro fere, com ferro será ferido.
> Nega a teoria de que racismo reverso não seja racismo.

– Quem tem boca vai a Roma
> Faz apologia do tráfico de drogas, insinuando que traficantes sejam bem sucedidos, o que lhes permite viajar ao exterior;

– Preto emagrece.
> Essa não precisa nem comentar, precisa?

EstartAPPS do futuro

apps

Se eu tivesse dinheiro, aplicaria em um aplicativo.
Claro que para cada aplicativo que dá certo há milhares de aplicativos que dão errado.
É possível saber qual é um, quais são os outros? Não, não é.
Como é que a gente ia adivinhar que táxi pirata podia virar um negócio bilionário?
Que alugar vaga em casa de família ia transformar alguém em magnata?
A vida (e a grana) é curta demais para investir em algo muito bem pensado, com um mega modelo de negócios e uma baita estratégia de márquetchim.
O negócio é partir para estartapes mais pé no chão, daquelas em quem ninguém leva fé.
Tipo jogar 1-2-3-4-5-6 na Mega-Sena. É claro que você nunca vai ganhar. Mas se ganhar, ganha sozinho.
Andei pensando em algumas estartapes bem disruptivas, que têm tudo para botar o Uber pra correr e desalojar o AirBnB do topo do rânquim.
Acompanhem comigo.
Todo mundo tem meia desemparelhada. Todo mundo, menos eu, que compro logo 10 pares do mesmo modelo e assim uma pode acasalar com essa num dia e com outra no dia seguinte, como se minha gaveta fosse uma filial do mundo artístico.
Pois bem. Fotografe suas meias avulsas, faça uma breve descrição (“Marrom, canelada, calcanhar levemente esgarçado, furo imperceptível na altura do canto esquerdo do dedão – ou do direito do mindinho” e poste no MeiApp®, o aplicativo de emparelhamento de meias. Você pode optar por comprar o pé que te falta, vender o seu pé que sobra ou fazer escambo (um preto por um marrom, quatro azuis por um preto, nove lilases com carinhas de palhaço daqueles do Justin Trudeau por qualquer pé de meia de homem etc).
Eu, ou quem investir comigo, fica com 20% do valor da transação (no caso do escambo, aceitam-se pés de meia bege como pagamento), mais o frete.
Baseado no mesmo conceito, tem t-App-oé®, o aplicativo de troca de tapoés sem tampa por tampas de tapoé. Só que com uma segunda marca , voltada para as classes C, D, E, F e G, incluindo potes de margarina, de sorvete etc.
Por fim, um aplicativo menos mercantilista e mais socialmente engajado, a ser utilizado para dividir contas com base em critérios progressistas de dívida histórica.
Você sai com amigos, pede uma pizza em 8 fatias e uma coca litro. São dois casais à mesa, cada pessoa come duas fatias e toma dois copos (caso bem hipotético, porque tem sempre um que come mais). Como dividir?
“Por quatro”, diria um fascista.
“Por dois”, diria um machista (os homens racham a conta enquanto as mulheres vão ao banheiro).
“Deixa que eu pago”, diria quem convidou, esperando que ninguém aceite a proposta.
Tudo errado. Uma calculadora ou uma caneta + pedaço de guardanapo – se um dos quatro tiver frequentado a escola depois de 2003 – não dão conta da complexidade da operação.
E o rateio da dívida histórica, como é que fica?
Mulheres só tiveram direito a voto no século 19. Ganham, em média, 20% a menos que os homens. Têm cólica, estria, dão à luz, pintam o cabelo, precisam usar sutiã, salto alto, depilar virilha, carregar bolsa… Não, não é justo que paguem o mesmo preço que os homens.
Tem também a cor da pele. A orientação sexual. O coeficiente de gordura corporal.
Como dividir uma conta entre um homem branco gay, uma mulher hétero pluçaize, um não binário preto e uma trans oriental?
Lembra da brincadeira do “papel tesoura pedra”, em que a pedra amassa a tesoura que corta o papel que embrulha a pedra? O aplicativo PapelTesouraPedrApp® resolve o imbroglio da divisão da conta sem quebra-quebra ou acusações mútuas de misoginia, xenofobia, gordofobia e afins.
Branco paga mais que preto, que paga menos que oriental, que paga mais que árabe.
Homem paga mais que mulher, e não binário paga menos ainda.
Hétero paga mais que gay, e bi paga a média dos dois.
Crossdresser paga mais que trans,
Agênero paga o mesmo que genderfluid, dependendo de para que lado o genderfluid estiver fluindo no momento.
Mas paga-se quanto mais, ou quanto menos? Aí é que a porca torce o rabo e entra o pulo do gato. O aplicativo, valendo-se de um algoritmo justiceiro, leva em conta todas as variáveis e evita que amizades sejam rompidas por causa de uma meio calabresa meio quatro queijos.
– Por que estou pagando mais que você, se sou bi e você insiste nessa heterossexualidade tóxica?
– Nem vem. Eu sei que você só é bi quando fuma maconha e, mesmo assim, nem beija direito, fica só broderagem.
– Ah, é? E você, que tira o buço? Tirou o buço e separou a monocelha, perde direito ao desconto.
– Olha só quem fala! Entrou na Federal fora do sistema de cotas e quer lacrar. Pra cima de mim, não! E nem pense que me engana com esse sobrepeso: sei que isso são apenas ossos largos…
O PapelTesouraPedrApp® utiliza tecnologia de reconhecimento facial e análise de postagens no feicebuque. Quem votou Haddad paga menos que quem votou Bolsonaro, que paga mais que quem votou em branco, que paga 75% de quem anulou e justificou o voto. Defesa da Amazônia tem desconto maior que indignação por óleo nas praias. Vegano paga a metade do vegetariano, que paga um terço de um carnívoro. Menos na pizza marguerita, claro, porque aí era sacanagem.
Se você perdeu o bonde do IFood, da Netflix e do PTinder, o MeiApp®, o t-App-oé® e o PapelTesouraPedrApp® são sua chance de tirar o atraso e o pé da lama.
Invista djá!

Um conto de fadas moderno em 10 atos

Fada

1.
Drigo é um homão da porra.
Sensível.
Desconstruído.
Gosta de cozinhar.
Relaxa fazendo crochê.
Participou do curso de gestante, fez força no parto junto com a Nanda.
Tirou licença para cuidar dos bebês.
Faz trança, bota laço, ajeita a sapatilha e se emociona na apresentação de balé do Júnior.
Nanda é uma mulher forte.
Decidida.
Empoderada.
Trabalhada na sororidade.
Relaxa fazendo krav maga.
Abriu mão da licença maternidade para se dedicar a um projeto da empresa.
Leva a Manu no muay thai, no jiu jítsu e a fantasia de Frida no carnaval.
2.
Drigo começou depilando as axilas por achar mais higiênico.
Depois depilou o peito porque sentia que aquele tufo saindo pelo colarinho exalava masculinidade tóxica.
A turma com quem malhava glúteos achou estranha a depilação apenas do umbigo pra cima e aí ele tirou o resto.
Gostou do resultado.
Sobrancelha, só para acertar o desenho, porque tudo tem limite.
Nanda começou parando de depilar as axilas porque achava opressor.
Abandonou a depilação da virilha porque era uma sujeição aos padrões estéticos do patriarcado.
Acha que as mulheres devem se aceitar como a natureza as fez, e se exibe, orgulhosa, no instagram, com as canelas felpudas.
3.
Drigo não se sente à vontade para tomar a iniciativa no sexo. Acha que tem um quê de assédio, sei lá.
Tem se queixado com os amigos que a Nanda já não o procura mais como no início do relacionamento.
Nanda precisa que o secretário a lembre da data de aniversário do casamento.
Chega quase sempre cansada do trabalho. Com tanto problema na cabeça, não tem muito pique pra transar. Pelo menos não em casa.
4.
Júnior odeia balé, mas entendeu que um menino deve ser obediente.
Manu acha o muay thai muito chato, e preferia uma Barbie esquiadora à Frida artesanal.
Manu aprendeu granjetê com o Júnior. Tem deixado os coleguinhas do muay thai desconcertados – e com hematomas.
Júnior aprendeu chave de braço, joelhaço e faca de mão com a Manu. Ninguém mais se mete com ele quando o vê saindo de tutu.
5.
Drigo tem lido algumas revistas masculinas, que dão dicas para resolver o problema das unhas quebradiças e sugestões de como apimentar o relacionamento.
Nanda se cadastrou num aplicativo de encontros – com nome falso – e tem tido encontros casuais na hora do almoço.
6.
Júnior se assumiu hétero, parou de descolorir o cabelo e ouviu da mãe – após um longo suspiro inconformado – que, haja o que houver, ela estará lá para apoiá-lo, independentemente das suas opções.
Manu ainda está indecisa, como toda adolescente. Ouve pop coreano às escondidas e se tranca no banheiro para usar alguns dos cremes hidratantes do pai.
7.
Nanda tem sentido umas pontadas no peito e a sensação de que carrega o mundo nas costas, e ninguém reconhece isso.
Drigo luta contra a balança e passou a frequentar um grupo que se explora o conceito de broderidade.
8.
Nanda ficou ainda mais poderosa com look grisalho.
Drigo não consegue assumir os fios brancos.
9.
Manu gosta de um menino que conheceu no futebol, mas por enquanto prefere manter um namoro de fachada com uma colega de faculdade.
Júnior foi morar com a coreógrafa, e milita contra o matriarcado opressor.
10.
Drigo sabe que fez o melhor que pôde pelos filhos, mas imagina como tudo seria diferente se tivesse investido na carreira de engenheiro mecânico.
Nanda sabe que foi uma boa provedora, que não deixou faltar nada em casa, mas tem hora que… deixa pra lá. As crianças estão criadas, cada uma seguiu seu caminho – não o que ela esperava, mas fazer o quê? O que importa é que hoje tem Flamengo na final, e a cerveja está no ponto.

Rio de Janeiro, de novembro a março

enxurrada

Confira a coluna de hoje n’O Globo:

Rio de Janeiro, de novembro a março


 

Como nasce um texto? Ninguém perguntou, mas eu respondo.
Não sei.

Talvez “Das entrelinhas de um livro
Da morte de um ser vivo
Das veias de um coração.
Vem de um gesto preciso
Vem de um amor, vem do riso
Vem por alguma razão” – como canta o Ney Matogrosso, na canção de Alzira Espindola e Itamar Assumpção.

Pois ganhei um disco da Mísia, e viajei para Minas ouvindo tangos e fados. Um deles me fisgou. O poema de Horácio Ferrer para um tema do Astor Piazzola.

Falava de “un domingo de otoño por la plaza San Martín”, de “un sideral subterráneo Plaza de Mayo a Saturno”.

Em Juiz de Fora, me deparo com uma foto do Eduardo Campos: o Rio de Janeiro todo azul, como aquele que, há tantos anos passou em minha vida, e meu coração se deixou levar.

Voltei para o Rio com o “Prelúdio para el año 3001”

(“Arrodillado en mi Río de la Plata lindo y sucio
Me amasaré otro incansable corazón de barro y sal”)

tocando em loop, e a foto na cabeça.

À imagem daquele Rio de Janeiro arquetípico, visto do alto do Dona Marta, foram se juntando deuses, orixás, crimes, rios mortos ou moribundos, minhas primeiras memórias das grandes chuvas de 66 e 67 (as “chuvas atípicas” que acontecem desde o tempo de José de Anchieta), e bateu uma ternura ambígua por esta cidade tão vaidosa e tão maltratada. Que em 2020 elegerá novo prefeito – para dar as desculpas de sempre, e permitir novas Muzemas, novas mortandades de peixes nas lagoas, novos vazamentos de esgoto em Ipanema, velhos casarões se decompondo na Gamboa.

Veio assim, quase em versos, anotados, aos borbotões, no celular (se descer a serra de Petrópolis, não digite: se digitar, pelo menos fique na pista da direita e atento ao radar).

“A inspiração vem de onde?
Vem da tristeza, alegria.
Do canto da cotovia
Vem do luar do sertão.
Vem de uma noite fria
Vem, olha só, quem diria
Vem pelo raio e trovão.”

Foi assim que brotou o texto que era para virar poema, tango, declaração de amor. Tomou outro rumo, imprevisto. Feito chuva de verão.

Encargos

encargos

Ando preocupado com a uberização do trabalho.

Com essa coisa de a pessoa não ter que bater ponto e poder fazer o próprio horário.

Perder o direito de ficar se comparando ao colega que faz corpo mole e tem o mesmo salário.

Ou não ir trabalhar sem precisar “estar de atestado”.

Aqui em frente ao meu prédio há sempre uma fila de ex-engenheiros, ex-lutadores de MMA, ex-encarregados de serviços gerais, todos aguardando corrida. E pela ciclovia, enquanto passeio os cachorros, passam dezenas de bicicletas com sua preciosa carga de pizzas, lasanhas, iaquissobas e cocas litro.

Como eu, muita gente lamenta a instabilidade desses subempregados, sem as garantias da CLT.

Mas isso tem jeito – e não depende de nenhuma mudança na legislação, de nenhum protesto com vidraça quebrada, ponto de ônibus depredado, pichação de bem tombado pelo Patrimônio Histórico ou pneu incendiado em via pública.

Pediu comida pelo Rappi?
Chamou o Uber?
Contratou um frila?
Na hora que tiver que pagar, pegue a calculadora e adicione:

+ 20% de INSS
+ 1,5% de SESI
+ 1,0% de SENAI
+ 0,2% de INCRA
+ 0,6% de SEBRAE
+ 2,5 de Salário Educação
+ 3,0% de Seguro contra acidentes de trabalho
+ 8,0% de Fundo de Garantia
+ 1,0% de SECONCI
+17,99% de repouso semanal remunerado
+ 4,8% de feriados
+ 0,92% de auxílio enfermidade
+ 10,82% de 13º salário
+ 0,07% de auxílio paternidade
+ 0,72% de faltas justificadas
+ 1,23% de dias de chuvas
+ 0,11% de auxílio acidente de trabalho
+ 7,69% de férias gozadas
+ 0,03% de salário maternidade
+ 4,93% de aviso prévio indenizado
+ 0,12% de aviso prévio trabalhado
+ 6,09% de férias indenizadas
+ 5,05% de depósito de rescisão sem justa causa
+ 0,41% de indenização adicional

Calcule 16,8% de reincidência de INSS, SESI, SENAI, INCRA, SEBRAE, salário educação, seguro contra acidente de trabalho, FGTS e SECONCI sobre o repouso remunerado, os feriados, os auxílios enfermidade e acidente de trabalho, o 13º, a licença paternidade, as faltas justificadas, os dias de chuva, as férias gozadas e o salário maternidade.

Isto feito, calcule 0,44% dessa reincidência sobre o aviso prévio trabalhado e do FGTS sobre o aviso prévio indenizado.

Pronto.

Para adiantar o seu lado, aí vai um espóiler: isso dá 116,09%. É quanto você deve adicionar ao custo da entrega do iaquissoba ou do percurso entre a estação do metrô e a sua casa no Voyage do Adilson, que perdeu o emprego numa estartape e virou motorista para pagar a pensão da filha e a faculdade particular (à distância).

Se o uber deu R$ 35,00, pague mais R$ 40,63 de encargos. No caso de não ter trocado, deixe como gorjeta, quando o aplicativo pedir para você avaliar a corrida, que vai acabar saindo por R$ 75,63.

Fazendo isso, você desprecariza o trabalho sem precisar vandalizar nada nem atrapalhar a vida de ninguém.

Notas de rodapé:

1) Estes percentuais de encargos sociais sobre mão de obra referem-se ao Rio de Janeiro, setembro/2019, horista, sem desoneração. Para outros estados, mensalista ou com desoneração, outra tabela do SINAPI deverá ser consultada;

2) Sim, a empresa fica com uma parte do valor pago ao motorista. Se souber quanto é, é só descontar e fazer o cálculo apenas sobre o que o Adilson ou o moço do Rappi realmente recebem;

3) Não, o combustível, a manutenção do Voyage, o IPVA, nada disso é mão-de-obra. Nem a troca de pneu da bike. Pode descontar também;

4) Sim, o Brasil tem 30% de neoliberais insensíveis e 40% de isentões bundamole que não vão querer arcar com os encargos sociais. Fique à vontade para pagar a parte deles (defender grandes impostos trabalhistas exige grandes responsasbilidades…) ;

5) Tá, eu sei que com a Uberbras, a Rappibras e a Frilabras (estatais, com Presidente, Conselho de Administração, Diretoria Executiva, Conselho Fiscal, Departamento de Governança Corporativa e Compliance – cargos de confiança indicados pelo Centrão em troca de apoio na Câmara e no Senado) e o SindiUber, o SindiRappi e o Sindifrila (ligados à CUT) nada disso estaria acontecendo. Mas enquanto o verdadeiro petismo não chega ao poder – esse petismo que saiu não era o petismo verdadeiro, ele foi contaminado pelo acordo espúrio com o Centrão -, faça a sua parte.

5) Claro que a coisa não é simples assim, é mais complexa do que isso, patati patatá, mas você entendeu o espírito da coisa. Se é contra essa precarização do trabalho, que leva o Adilson a passar o dia no trânsito, levando desconhecidos pra lá e pra cá, e, com isso, conseguir pagar a pensão da Manuela (lembrei o nome da filha dele) e o EAD na Estácio, é só pegar o valor da corrida e multiplicar por 2, 16. Porque é isso que você faz com qualquer outro serviço – do segurança do metrô à moça do caixa no restaurante de comida a quilo.

Custa um pouquinho mais caro e é bem menos divertido que botar máscara, estilhaçar vidraça do Itaú, depredar lixeira e botar fogo em ônibus – mas faça sua cota de sacrifício. De vândalo, aqui no Rio, chega o prefeito.