Sofrimento, dor e compaixão

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Quando entraram em contato propondo que eu escrevesse uma coluna n’O Globo, fiz mentalmente uma lista dos assuntos que gostaria de abordar.

Claro que o noticiário me atropelou várias vezes. O Museu Nacional pegou fogo. Os médicos cubanos foram embora. A ministra viu Jesus na goiabeira. Gente famosa falou besteira. Gente muito famosa falou muita besteira.

Mas os temas que me são caros sempre estiveram em pauta.

A língua portuguesa, essa nossa outra pátria, sem sapatos e sem meias, tão pobrinha.
O politicamente correto, o lugar de fala e outras formas de censura.
O cinema.
A morte.

Ainda vou escrever sobre o poder da poesia. A arquitetura carioca. A depressão. O amor nos tempos da intolerância.

Ontem foi a vez de falar da empatia, da compaixão, num texto sobre os prazeres e dores da carne.

Minha irmã me disse uma vez: “Parei de comer carne porque é muito cara. O preço é a dor”.

Ela nem se lembra de ter dito isso. Mas a frase ficou ressoando aqui dentro. E anos depois, vendo uma série de documentários sobre pesca, granjas, abatedouros, tudo finalmente fez sentido.

É conveniente não saber o que se passa nos bastidores da indústria de alimentos (e na cozinha dos restaurantes). Ou fica difícil engolir o cachorro quente, o hambúrguer, a vitela, o empadão de frango, o foie gras, o sushi, o chester, o iogurte, a omelete.

Não sou contrário ao consumo da carne. Ela faz parte da dieta da nossa espécie. Mas será que são válidos todos os meios para obtê-la? Creio que não, ou comeríamos carne humana, que é tão nutritiva (e, dizem, tão saborosa) quanto a bovina ou a suína. E não o fazemos porque há uma questão moral.

Escrevi sobre os limites éticos da exploração animal. Não usei a palavra “compaixão” (nem todo mundo exercita esse sentimento), mas “dor” e “sofrimento” (que todo mundo sabe bem o que são). Não fiz apologia a nenhum tipo de dieta. A ideia (como em qualquer texto que eu tenha escrito, aqui ou lá) não era doutrinar ou dar lição, mas expor um ponto de vista.

A coluna n’O Globo fica na página 3, a de Opinião. O jornal tem excelentes analistas políticos – e não sou um analista político. Tem jornalistas especializados – em cultura, esporte, informática, economia… – e não sou jornalista. Sou um homem comum, com direito a 4000 caracteres quinzenais para dizer o que penso sobre o que me der na telha. Poderia escrever crônicas (o jornal tem ótimos cronistas), fazer humor (o jornal também tem ótimos humoristas – por vezes, involuntários, mas isso é outra história). Acabo fazendo um pouco de cada coisa, que é o que um homem comum faz.

Alguns temas repercutem mais; outros, menos. Alguns são controversos; outros, nem tanto. E há os que têm o dom de provocar curtos-circuitos mentais, dissociações cognitivas – principalmente quando não são lidos.

Uma coisa é ler e não entender (acontece comigo quando me deparo com Lacan ou Carluxo, com textos em dilmês ou em árabe). Outra é conhecer os caracteres, formar as sílabas, juntá-las em palavras, perceber uma sintaxe e, ainda assim, não ler. Vir com uma ideia preconcebida e dela não se afastar um milímetro. Ler cegamente, sem se abrir ao que outro diz.

E há, ainda, o não ler – literalmente. Sequer pôr os olhos no texto. E, mesmo assim, discordar dele. Algo como passar na frente do cinema, ver o letreiro “Um estranho no ninho” e dizer que odiou porque não faz sentido fazer filmes sobre pássaros.

Tão certo quanto após uma sexta-feira 13 vir um sábado 14 é escrever sobre direitos dos animais e alguém retrucar que alface também é um ser vivo. A gente respira fundo, pensa que a revolução cognitiva ocorrida há uns 70 mil anos ainda não teve tempo de atingir todos os homo sapiens, e segue em frente.

Somos parte de uma cadeia, na qual uma vida se alimenta de outras vidas. Logo, a questão não é a equivalência entre assassinar alfaces ou abater bezerros recém-nascidos, mas o nível de sofrimento que infligimos a outros seres desnecessariamente. Vegetais não possuem sistema nervoso central e não são capazes de experimentar dor tal como a concebemos.

“Brócolis também é um ser vivo, que é arrancado da terra para o seu prato. Sua coluna de hj é um horror, onde você destila pseudo cultura.”, escreve A. – que leu a coluna e pelo menos teve a originalidade de trocar o alface pelo brócolis.

101 entre 100 textos sobre ética animal recebem os mesmos comentários.

“Se não houvesse consumo de carne bovina certamente os bovinos estariam à beira de extinção”, escreve J., que não leu o artigo, mas comentou assim mesmo.

Isso é mais ou menos como dizer que a mão tem cinco dedos por causa da luva.

Somos nós que dependemos do bovinos para viver, não eles de nós. Há 24 espécies de bovinos, do boi ao bisonte, do búfalo ao iaque, passando pelos antílopes. Por incrível que pareça, bois e vacas não se extinguiriam se não os confinássemos, castrássemos, lhes déssemos sal e ração, os apartássemos de seus filhotes, exauríssemos seu leite e finalmente os abatêssemos a marretadas. Bisontes, búfalos, iaques e antílopes estão aí para provar.

“Nossos antepassados não inventaram o arco e flecha para caçar repolho”, afirma F. – também sem ter lido meu texto.

Não sei muito dos hábitos alimentares dos repolhos da Idade da Pedra, mas nunca tive dúvidas de que nossos antepassados tenham inventado arco, flecha e tacape para se defender de outros predadores (tigres de dente de sabre, por exemplo) ou para caçar mamutes, renas e outras presas mais ágeis que um repolho.

Como a Lei de Godwin não falha, não seria um texto sobre vegetarianismo a exceção:

“Os nazistas foram responsáveis pela primeira tentativa de criar uma legislação equiparando humanos e animais. É conhecido o fato de que Hitler não comia carne e a própria ideologia nazista valorizava a natureza, a ecologia e os animais. Essa visão exacerbada sobre os animais e a natureza não é algo à parte de sua ideologia genocida. Não é que o vegetarianismo seja em si nazista, mas supor que está em um lugar isento de ideologia é um erro”, me informa M. (que tampouco leu meu artigo).

Hitler falava alemão, logo… Hitler amava seu cachorro, portanto… Hitler tinha bigode, ouvia Wagner, gostava do ar puro das montanhas, consequentemente…

Passei décadas acreditando que a ideologia nazista estivesse intimamente ligada ao preconceito, ao genocídio, à barbárie – mas ela está intimamente ligada é à natureza, à ecologia, aos animais. Eu devia ter dado ouvidos aos petistas que me mandaram, durante anos, estudar História. Teria descoberto que eu – que falo algo de alemão, amo meus cachorros, tenho bigode, ouço Wagner, gosto do ar puro das montanhas, sou ligado em ecologia e direitos dos animais e não como carne – além de fascista sou também nazista.

“Não pude deixar de imaginar como seria a tutela dos direitos de zebras, cervos e salmões ante a voracidade de leões, tigres e ursos. Talvez fosse o caso de ajustarmos nossa hipocrisia disfarçada e nossa sensibilidade”, diz B. (outro que não leu o artigo, mas se sentiu habilitado a comentar assim mesmo).

Leões não prendem zebras em cubículos, sobre grades, impedindo-as de se movimentar por meses a fio. Ursos não mantêm salmões em cativeiro alimentando-os à força e à base de hormônios para acelerar seu metabolismo. Tigres não separam cervos dos seus filhotes logo após o nascimento, matam o recém-nascido e ordenham a mãe diariamente, até induzi-la a nova gravidez, e assim por diante, até que ela não possa mais reproduzir e seja sacrificada.

Leões, tigres e ursos apenas pegam, matam e comem. E só quando têm fome ou para alimentar suas crias, não para fazer reality shows de gastronomia ou socializar com os amigos ouvindo pagode em volta da churrasqueira.

“E os pernilongos? E as moscas? E o Aedes aegypti?”, perguntam mais uns 3, numa variação menos inteligente da Falácia do Alface.

Eu amo (sim, o verbo é esse) meus cachorros, e os cachorros em geral. E mataria, se fosse necessário, um cachorro que me atacasse. Ou qualquer ser humano, em legítima defesa. Por que não o faria com um inseto ou um vírus?

“Curiosa essa extensão da ética, criação que opera exclusivamente no domínio humano, ao reino animal, regido por outras leis, estas naturais. E, mais interessante ainda, o non sequitur expresso na ideia de que, para parar com a crueldade dos métodos de manejo dos animais, devemos parar de comer carne (e não mudar os métodos). Que tal o autor tentar filosofar sobre a questão com um lobo faminto, e ver o que lhe aguarda”, questiona N. (que, obviamente, tampouco leu meu artigo). Ou saberia que escrevi justamente que temos que mudar os métodos, já que parar de comer carne parece inviável.

Se há quem concorde com Marx sem tê-lo lido, por que não haveria quem discordasse de mim sem ler o que escrevi? Sim, é mais fácil argumentar com um lobo faminto.

“Comparar escravidão e tortura com o consumo de carne ou alegar falta de ética de quem consome carne mais prejudica do que ajuda a causa vegana. Uma soberba nível hard. Aliás típica de quem se acha superior a quem come carne”, pontifica M., admitindo que não leu o artigo.

Eu não acho veganos superiores a ninguém, não sei de onde ele possa ter tirado isso. Não comparo escravidão e tortura com o consumo de carne, e não sei de onde alguém possa deduzir tal coisa. Mas acho uma soberba nível hard julgar algo ou alguém sem sequer tomar conhecimento de quem seja a pessoa ou do que ela tenha dito ou escrito. É preciso se sentir muito superior para agir assim.

“Animais comem animais. Eles estão errados? O próximo passo é ensinar leões a comer alface? A morte é inevitável”, filosofa A.

Eu talvez devesse informá-la que animais não só comem outros animais, mas comem também vegetais. E que há vegetais que comem animais (sim, as plantas carnívoras não são coisa de filme trash). Que não é possível ensinar leões a comer capim, assim como não dá para doutrinar girafas para caçar coelhos.

Mas paro por aqui, com o choque dessa revelação feita pela leitora (que não leu o que escrevi). Eu jurava que a vida era eterna. Não só a minha como também a do leitão à pururuca que não comi hoje, e a do espinafre que comerei.

Enquanto os argumentos a favor da crueldade forem esses (e sempre esses, e nenhum além desses), não será preciso acionar qualquer neurônio extra para defender meu ponto de vista.

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5 comentários em “Sofrimento, dor e compaixão

  • Eu gosto muito dos seus textos e também de deixar um comentário. Ontem, como de costume, eu li, reli e fiquei tentada a comentar, mas resisti. A intuição me dizia que o texto e o tema podiam ser impiedosos, fiquei com medo de não aguentar! E depois de ler o texto de hoje, ainda não sei se aguento…

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  • Não sei qual texto é melhor, este ou o que o antecedeu, n’O Globo. Parabéns!
    Cheguei a escrever um comentário lá no FB, na sua página, mas ficou enorme, mesmo após minhas tentativas de reduzi-lo. Apaguei tudo. Resolvi ousar escrever um texto no meu blog, sobre o tema, para satisfazer minha ânsia de expor meu pensamento. Meu blog é só uma coisa familiar mesmo; não podendo ter aquelas longas conversas que tínhamos, meus irmãos e eu, agora separados, em hemisférios opostos, resolvi escrever lá; quase uma terapia… hahaha
    Mas, então, aí vai o meu texto, onde dou uma ideia para solucionar essas questões. É engraçado mas é sério… 🙂 À+
    Pus o link para o meu texto no espaço para “site”, abaixo.

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  • O imediatismo para expressar pontos de vista e a preguiça da leitura faz com que muita gente passe vergonha. Ansiosa aqui pelo seu texto sobre o poder da poesia! Acho que nesse tema eu poderia contribuir dizendo que a poesia cura e muda vidas! Parabéns pelo texto! Das coisas boas que adquiri no fb é o conhecimento do que escreve! Obrigada!

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