Reescrevendo Lobato & cia

 

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Confira a coluna de hoje n’O Globo:

Reescrevendo Lobato & cia


 

Tendo caído em domínio público, o livro “As reinações de Narizinho”, de Monteiro Lobato, será reeditado.

Sem Pedrinho.

O garoto de estilingue no bolso foi limado com o argumento de que seria um peso morto na trama.

O Sítio do Pica-Pau amarelo, que já era um matriarcado, assumiu-se, nesta reedição do primeiro clássico da nossa literatura infantil, como Clube da Luluzinha.

Ali agora reinam Narizinho, Emília, Dona Benta e Tia Nastácia. O resto é figuração.

Haver um menino e uma menina num livro infantil permite um diálogo entre os universos masculino e feminino. Um contraponto, assim como há entre a despachada (e mandona) Emília e o conservador (e obediente) Visconde de Sabugosa.

Monteiro Lobato era um visionário – mas não completamente livre da mentalidade da sua época. O menino brinca de caçar passarinho e tem um boneco de espiga de milho; a menina vive num mundo de fantasia, e brinca com uma boneca de pano.

No Sítio não há lugar para beijo gay (só pós alucinógenos e casamento entre espécies…), mas vozes femininas são privilegiadas: Narizinho é muito mais criativa que Pedrinho; Emília, mais divertida que o Visconde; Tio Barnabé nunca foi páreo para Tia Nastácia; de Dona Benta, então, nem se fala.

Muitos meninos talvez não se interessem por ler o novo “Narizinho”, o que será uma pena.

Mas há outro argumento de peso para editar o texto de Monteiro Lobato: as expressões racistas.

“Beiço” quer dizer apenas “lábio”, mas tem conotação pejorativa. Talvez Emília faça beicinho ao ser contrariada ou D. Benta lamba os beiços após uma comilança, mas só Tia Nastácia, por ser preta, é referida como beiçuda.

Daí “A boa negra deu uma risada gostosa, com a beiçaria inteira” ter sido reescrito como “Tia Nastácia deu uma risada gostosa.”

O beiço não fez falta.
Antes não incomodava.
Hoje incomoda.

Obras literárias (ainda mais as que caem em domínio público) podem ser livremente adaptadas. Roteiristas e diretores fazem isso o tempo todo ao levá-las para o cinema, o teatro, a televisão.

O texto de hoje, n’O Globo, é um pequeno delírio sobre que outras mudanças poderiam ser feitas na obra de Monteiro Lobato – e de outros autores de livros infantis.

Um exercício de futurologia, só isso. Lembrando que o futuro não é lá longe: o momento em que você lê este parágrafo já é o futuro de quanto leu o parágrafo que abre o texto.

“A vida vem em ondas, como o mar,”. A onda agora é esta. Qual será a próxima, neste “indo e vindo infinito”?

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Enquanto isso, na ONU…

pacita

DISCURSO 1

– Capitão, está pronto o discurso que o senhor lerá na ONU.

– Tá do jeito que eu pedi isso daí, né?

– Sim, senhor.

– Não tem parocita nisso daí, tem?

– Parocita?

– Parocita. Palavra difícil.

– Ah, proparoxítona! Não, não tem. Tiramos todas.

– Nem palavra com muita siba.

– Siba?

– Siba. Si-ba.

– Não, não. São todas com, no máximo três sílabas.

– A única que pode com mais que três é cor-ru-pi-ção.

– Fique tranquilo. Corrupção tem três.

– Ininterrups tem quantas?

– Cinco. Mas podemos trocar por “contínuo”, que tem só quatro.

– Eu sei contar, tá? Contino tem três!  Deixa ininterrups mesmo, que contino parece que é ofisbói. E que palavra é essa daqui?

– Cônjuge.

– O quê queísso daí?

– Marido, mulher, companheiro…

– Ah, conge.  Escreve direito, poha!

– Pronto, corrigido. Conge. Depois eu vejo se é com G ou com J.

– Falou dos trezens milhões que a gente pagou por agens cubanos?

– Falei.

– É muito importante falar isso daí lá pra ONU. E também do ganho de protividade.

– A produtividade, quer dizer, a protividade está mencionada.

– E tem que falar no nome do Trampe.

– Sim, incluímos o nome do Trump.

– Trampe. Tá errado isso daí. Tá escrito Trump. O nome dele é Trampe.

– Sorry, capitão.

– Cadê o nióbio? Discurso meu sem nióbio não existe. Tem que ter nióbio nisso daí.

– Tem.

– E tem que ter qüestão.  É uma qüestão de estilo. O Lula tinha “cumpanhêros e cumpanhêras”. A Dilma tinha o “no que se refere”. Eu tenho a qüestão.

– Tem qüestão e qüestionar, para evitar qualquer qüestionamento.

– Cadê a parte que fala do Batistí?

– Quem?

– O Batistí, aquele bandido que eu queria prender, mas quem prendeu foi a Bolívia.

– Ah, o Battisti…  Tá aqui o nome dele, logo antes da parte em que fala do Moro.

– Ficou bem claro que o Moro é o ATUAL ministro? Se falar que ele é só ministro vai parecer que pode ficar até o fim. Bota ATUAL ministro, pra ele sabe que é um dia de cada vez.

– Mais claro, impossível.

– Tem que falar também da ideologia, que só os outros é que têm (eu não). E da celamáter.

– Quem?

– Como é que você pode ser do Itamarati e não saber o que é a celamáter? A família, poha!

– Ah, a célula mater…. Sim, vamos falar dela.

– Dá pra falar também do Zero Um, do Zero Dois e do Zero Três?

– Não, capitão. Aí também é demais.

 

DISCURSO 2

– Treinando o discurso, filha?

– Grrrrrrr!

– Ótimo. Mas ainda pode trincar um pouco mais os dentes.

– Grrrrrrrrrr!

– Bom, muito bom.  Se tremer mais as narinas e franzir as sobrancelhas…

– Grrrrrrrrrrrrr!

–  Isso. Um pouco mais de ódio no olhar, uma coisa meio Nazaré Tedesco, meio Perpétua, a irmã da Tieta.

– Grrrrrrrrrrrrrrrrr!

– Perfeito.  Boralá falar do seu amor pela Humanidade.

O Acre é um mistério

Acre

O Acre é um mistério.

Por vários motivos.

1.

Ninguém jamais passou pelo Acre.

Ou você vai ao Acre ou não vai.

O Acre não é passagem: é destino.

2.

O Acre tem suas idiossincrasias.

Uma delas é não aceitar a reforma ortográfica.

Não é o primeiro estado a fazer isso: segue o exemplo da Bahia, que se recusou a virar Baía quando o Piauhy, mais resignado, topou ser Piauí.

Brasileiro nascido no Acre, pelas normas vigentes, é acriano.

Acriano nascido no Acre é acreano mesmo.

Há muito os açoreanos aceitaram ser açorianos, mas a Academia Acreana de Letras bateu pé e garantiu que a população será acreana com “e” até morrer, digam o que disserem os lexicógrafos.

Se for fazer concurso público por lá, lembre-se disso na prova de português.

Duvido que eles abram mão dessa pegadinha.

3.

O Acre foi por 3 vezes uma república independente.

É o único estado que realmente pertence ao país, com escritura passada em cartório e tudo, porque foi comprado da Bolívia.

E não custou um cavalo, como diz a lenda, mas uma boa grana.

Sem contar que quase foi arrendado por um consórcio de capitalistas ingleses e americanos.

Por pouco, o Acre não estaria de malas prontas para o Brexit. Por pouco, o Trump não ia querer fazer um muro aqui também.

4.

Quem for ao dicionário procurando o significado de “acre” vai encontrar: ácido, afiado, agudo, áspero, avinagrado, azedo, cortante, mordaz, picante, queimante, sarcástico, ríspido, rude.

Nada a ver.

Acre é uma corruptela de “Aquiri”, que significa “rio dos jacarés” na língua dos apurinãs, que originalmente habitavam a região.

Mas, pensando bem, jacarés costumam ser ásperos ao toque, ríspidos no trato, ter dentes afiados e cortantes, algo rudes no convívio social, ter temperamento mordaz, lágrimas azedas e (repare bem) um sorriso sarcástico.

Os portugueses podiam ser ruins na fonética dos apurinãs, porém de psicologia de jacaré eles entendiam.

5.

Há 52 paulistas para cada acreano.

E quando você precisa de um João Donato, vai buscar onde? No Acre.

Foi de lá, da Amazônia, no sul da América, que veio a Glória Perez para nos ensinar o caminho dos índios e das índias (e eu prometo –  com o coração partido ao tomar essa decisão – que não vou cometer o pecado capital de buscar mencionar que clones têm dupla identidade, para não alugar a paciência de ninguém ou criar uma barriga neste texto).

Mas quando você tiver um desejo, daqueles de corpo e alma, tipo “explode, coração!” e nem o santo guerreiro Jorge te salvar do canto da sereia dessa força do querer, onde é que vai achar alguém que traduza esse seu furacão e o da sua diarista? No Acre.

6.

Imagine se um garoto de Roraima ia encher o quarto de mensagens criptografadas e abduzir a si mesmo? Se um bacuri do Amapá ia ensinar como ser gênio com pouco sono e nada de sexo? Se um curumim de Rondônia ia escrever um besticéler sobre a teoria da absorção do conhecimento, cheio de “não obstante”, “antemão”, “entrementes”, “outrossim”, “amiúde”? Quem mais faria isso senão um… menino do Acre?

7.

Minas tem fama de ser chocadeira de presidentes (7 eclodiram lá – o Itamar não entra na conta porque nasceu em alto mar).

Mas ultimamente ninguém tem tentado mais que os acreanos.

Enéas tentou em 89, 94 e 98. Marina, em 2010, 2014 e 2018.

Só escapamos da possibilidade de ter um presidente acreano em 2002 e 2006.

Perceberam do que o Acre teria nos livrado?

8.

Não me esqueci do Chico Mendes, não.  Nem do José Vasconcelos. Nem do Jarbas Passarinho. Ou do Armando Nogueira. E do Adib Jatene.

É que não sei como o Acre consegue ter menos de 0,5% da população e esse tanto de gente.

Deve ser por isso – por desafiar todas as probabilidades – que seu mapa parece que está rindo.

O Acre é inacreditável.

 

Tudo passa, tudo sempre passará

trudeau

Fidel Castro disse que a História o absolverá.

Tolinho.

A História nos condenará a todos, sem exceção. É questão de tempo.

Condenou Monteiro Lobato por descrever o beiço da Tia Nastácia, serviçal da branca Dona Benta.

Condenou o príncipe dos contos de fadas por despertar a princesa com um beijo não consentido.

Condena o ultramegagigablasterhipster primeiro ministro do Canadá, Justin Trudeau, por ter feito blequifeice na década de 90 e em 2001.

Como é que Monteiro Lobato ia adivinhar que a caracterização de uma empregada preta seria uma abominação menos de um século depois?

Como é que os príncipes encantados iam saber que seu fetiche por donzelas narcotizadas, moçoilas de madeixas quilométricas e senhoritas de pezinhos atrofiados (espremidos em desconfortabilíssimos sapatinhos de cristal) seria símbolo de opressão? E que seriam psicanalisados por causa de sua fálica espada em riste, e demonizados por levar os dragões à extinção?

Quando é que passaria pela cabeça do corretíssimo e virtuosíssimo Trudeau que uma fantasia carnavalesca aos 20 anos de idade poderia vir a ser sua ruína eleitoral 27 anos depois?

Não se enganem os certinhos de hoje: o amanhã lhes fará cobranças inimagináveis.

A atriz que exibe exuberantes tatuagens multicores e orgulhosas axilas felpudas como sinais de empoderamento será execrada quando, no futuro, decidirem que uma fênix no cóccix, uma flor no cangote ou uma frida na virilha não passam de iscas para atrair olhares e objetificar o próprio corpo. E que o buço espesso e as canelas cabeludas não são mais que estratégias veladas para valorizar a testosterona.

O jornalista que faz questão de citar todos, todas e todes os brasileiros, brasileiras e brasileires terá seus textos, textas e textes revistos, revistas e revistes porque se limitou a variar apenas, apenos e apenes alguns pronomes, pronomos e pronomas, mantendo os verbos, as verbas e es verbes sem conjugar, conjuguer, conjuguir, conjugor e conjugur, de forma, formo e forme a não tornar, torner, tornir, tornor e tornur o idioma, a idiomo e e idiome completamente, completamento e completamenta inclusivo, inclusiva e inclusive.

Os pósteros (e as pósteras e os pôsteres) olharão para ginecologistas e obstetras que atendiam apenas mulheres (e especialistas em próstata que atendiam apenas homens) do mesmo modo que hoje lançamos nosso olhar de incredulidade sobre os cirurgiões-barbeiros que curavam tudo com sangrias e sanguessugas, enquanto aparavam bigode, cavanhaque e costeleta.

Festa de revelação do sexo do bebê um dia será contravenção prevista no Código Penal, com pena de 5 a 8 anos de reclusão – aumentada em até 1/3 caso sejam usadas cores rosa e azul.  Mas, décadas depois, pintar o quarto de verde e escolher nomes neutros é que se tornará crime inafiançável.

Garfo, colher e faca mostrarão que éramos incivilizados e anti-higiênicos à mesa – mais ou menos como no tempo em que nossos pais palitavam os dentes após as refeições e nossos avós mantinham escarradeiras a postos na sala de visitas. As pessoas do futuro comerão com hologramas, e terão nojo da nossa prataria – tanto quanto dos nossos faqueiros de inox com cabo de plástico colorido.

Blequifeice será visto como reverência. Sororidade será palavrão. Ceder o assento no metrô aos idosos, sinal de desrespeito. Sistema de cotas, um modo vil de discriminação. Monogamia será catalogada como tara. Usar pírcim, um tipo de mutilação.

(Abre parênteses: Monteiro Lobato empoderava Emília e relegava seu marido, o Marquês de Rabicó – literalmente, um porco – a ser pouco mais que figurante.  Numa das reviravoltas da História, Lobato será reabilitado e, nas edições do século 22, o Marquês de Rabicó será o protagonista absoluto. A boneca de pano, com sua torneirinha de asneiras, não será mais que um símbolo do matriarcado têxtil opressor. Quem viver verá. Fecha parênteses)

(Abre parênteses de novo: Quem viver mais ainda verá Monteiro Lobato ser re-re-re-reescrito, e Emília ter sua importância reavaliada. Rabicó vai cair em desgraça e virar pururuca, sendo comido com angu de fubá feito a partir da espiga de milho falante outrora conhecida como Visconde de Sabugosa. Tudo preparado pela mucama Dona Benta e seu souschef Pedrinho, ambos a serviço de Tia Nastácia, a virgem dos lábios de mel. Fecha parênteses outra vez).

Pois é, Fidel, você errou rude. Aliás, o uso da expressão “errar rude” será tomado como referência do momento em que a língua portuguesa colapsou no Brasil, ali pelo início do século 21 (alguns estudiosos discordarão, dizendo que isso ocorreu quando se começou a usar o verbo “colapsar”).

Bem mais sábio que Fidel é o Nelson Motta, que escreveu que tudo que se vê não é igual ao que a gente viu há um segundo. Não adianta fugir nem mentir pra si mesmo: o futuro existirá só para nos condenar.

 

 

A invenção da linguagem

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Quando o primeiro ser humano descobriu que podia falar, antes de sair contando a novidade para todo mundo deve ter se dado conta da necessidade de dar nome às coisas – ou não teria nem como dizer que tinha adquirido o dom da fala.

Depois de milênios brincando de “imagem e ação” diante de qualquer evento – seja para dizer “eu te amo” ou “tem uma baratossaura pousada no seu ombro” – era um alívio poder simplesmente chegar e dizer “tem uma baratossaura pousada no seu ombro”, sem precisar levar os indicadores à testa imitando antenas, sacudir os cotovelos como se fosse levantar voo, e fazer cara de nojo.

Mas como dizer “tem uma baratossaura pousada no seu ombro” se nem o “ombro” nem a “baratossaura” tinham nomes, muito menos os verbos “pousar” ou “ter” (ainda mais no sentido de existir)?

O primeiro ser humano que descobriu que podia falar sentiu um peso maior sobre seus ombros ainda sem nome: nomear não só as coisas, mas também as ações, porque sem os verbos as palavras soltas não fariam muito sentido.

Vencida a etapa dos verbos e substantivos, o pobre ser humano deve ter entendido que havia a necessidade também dos adjetivos (era uma baratossaura pequenininha, de apenas dois palmos, ou uma daquelas que voam, e contra a qual não há tacape nem testosterona que deem jeito? Era um amor eterno e avassalador ou só um amorzinho legal agora à tarde enquanto os mamutes pastavam e os tigres dente de sabre faziam a sesta?). Vieram então os advérbios, as conjunções, os artigos definidos e indefinidos, o “que” relativo e todas aquelas malvadezas com as quais os professores de português nos torturaram.

Há de ter sido um desafio e tanto a nomeação do mundo. Olhar a baratossaura e pensar que nome sem muito valor para dar àquele bicho asqueroso. Olhar o ombro e imaginar um som que se ombreasse à beleza daquele patamar nascido da curva no final do pescoço e que iria morrer dali a pouco, em curva ainda mais bela, antes de virar braço. E criar palavras que se harmonizassem nessa sequência, fluindo sinuosamente – pescoço ombro braço.

Esse primeiro falante deve ter percebido que havia coisas demais no mundo, e que não daria conta sozinho. Aí chamou a família para ajudar (nascia a palavra “nepotismo”), e isso explica porque haja nomes tão esquisitos (dados pelo cunhado, talvez) e nomes esculpidos a cinzel (obra da cunhada); nomes tão límpidos (atribuídos pelo filho caçula), e outros tão obviamente equivocados (quem mandou chamar a sogra?).

Quem batizou a arara de “arara” deve ter sido uma criança. A mesma que nomeou o tatu, a cacatua, o jacaré, o pica-pau, o tico-tico e todos os bichos de nomes oxítonos ou onomatopaicos.

À filha teen coube dar nome ao beija-flor, ao bem-te-vi, à borboleta, ao arco-íris, à rosa dos ventos, ao bicho da seda, e às cores fúcsia, rosa-chá e off-white.

O cunhado denominou a fronha, a gonorreia, o ornitorrinco, o fluxo piroclástico e as placas tectônicas (placas tectônicas e fluxos piroclásticos eram bastante populares naquela época).

Ele mesmo, o hipotético homem das cavernas, nomeou as coisas práticas (dia, noite, vida, morte, sexo, cerveja, chave de fenda, moto de quinhentas cilindradas, pênalti, impedimento, juiz ladrão).

A mulher criou palavras como ciclo, lua, cólica, leite, castigo, chantagem emocional, refogado, dor de cabeça, tédio, evasê, dupla jornada, empoderamento.

São indubitavelmente obra da sogra os nomes dados à bertalha, à seriguela, à alcachofra, à rebimboca e a todas as geringonças (sendo sua, inclusive, a invenção da palavra “geringonça”).

Por não terem inventado uma palavra que sintetize essa ideia, “eu te amo” continua, até hoje, difícil de dizer.

O dia em que Carlos salvou o planeta

Planeta

– Krog, nossos computadores finalmente conseguiram decifrar parte da linguagem dos habitantes daquele planeta que vamos invadir.

– Aleluia! Já estamos há quase 5000 anos nisso, e o governo estava a ponto de cortar a verba.

– O problema é que… não dá para entender nada.

– Como assim, nós deciframos ou não deciframos?

– Decifrar é uma coisa. Entender é outro departamento.

– Mas você cruzou todos os dados, Grok?

– Sim. Veja essa mensagem: “O que se vê desde a época da transição é um “interesse” “crocodilal” em situações desnecessárias.”

– Hã?

– Sabemos o que é cada uma das palavras isoladamente (exceto crocodilal). Mas elas não fazem nenhum sentido. E ainda tem essas coisas voando em torno de algumas palavras, que eles chamam de aspas. Devem estar aqui por engano.

– Tem certeza que não é um código secreto?

– É nossa suspeita. Veja este outro: “Quando a única coisa que lhe resta é o último suspiro de vida, surgem estas pérolas que mostram muito mais do que palavras ao vento, mas algo que já acontece há muito. O quanto querer ser livre e independente parece ser a maior crueldade para alguns.”

– Não será um poema? Terráqueos fazem poemas.

– Analisamos dois milhões de poemas, e isso não pode ser classificado como tal.

– Música do Carinhos Brown? Papo de bêbado? Voto da Rosa Weber?

– Também não. O estilo não confere.

– A chave poderia ser esta, ó: “Jamais podemos deixar de lembrar deste fato, mesmo que a lacrosfera e a isentosfera digam que este assunto é passado e todo aquele mimimi proposital de prostituta perdedora!”

– Hein?

– Pois é. Tentamos o código da Vinci. Análise combinatória. Numerologia. Sexo tântrico. Nada. E há duas palavras que, de tão repetidas em outros textos podem ser uma pista: grobo e jean willians. Só que não constam de nenhum dicionário.

– E você tem certeza que esse é o Líder?

– Total. Esta semana ele cortou o tuíter do pai dele, e olha que isso, nessa civilização, é a suprema forma de poder..

– E se a gente ignorar as letras e prestar atenção só às aspas e exclamações, que parecem ser o mais importante?

– Aí vamos ter que reprogramar os computadores. Mais 5000 anos, no mínimo.

– Qual é o cargo dele mesmo?

– Vereador. Parece ser o topo da cadeia alimentar na política local. Abaixo dele vêm o presidente, os irmãos, o vice, os ministros, senadores, deputados, prefeito, youtubers e astrólogo. Não, acho que astrólogo fica noutro organograma.

– Já tentou decifrar o astrólogo?

– Quase. Falta decodificar cu, caraio, kant da vaquinha e carta capetal.

– Está pensando o mesmo que eu, Krog?

– Sim, Gork. Voltar a investir no Dilmês em portunhol. Era mais fácil.

– Tem também a linguagem telepática dos microorganismos do mar congelado de metano nas profundezas de Netuno. De repente…

– Afivela o cinto e retorna a poltrona à posição vertical, Gork. Netuno, aqui vamos nós!

 

(publicado originalmente em 25 de abril de 2019)

Sofrimento, dor e compaixão

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Quando entraram em contato propondo que eu escrevesse uma coluna n’O Globo, fiz mentalmente uma lista dos assuntos que gostaria de abordar.

Claro que o noticiário me atropelou várias vezes. O Museu Nacional pegou fogo. Os médicos cubanos foram embora. A ministra viu Jesus na goiabeira. Gente famosa falou besteira. Gente muito famosa falou muita besteira.

Mas os temas que me são caros sempre estiveram em pauta.

A língua portuguesa, essa nossa outra pátria, sem sapatos e sem meias, tão pobrinha.
O politicamente correto, o lugar de fala e outras formas de censura.
O cinema.
A morte.

Ainda vou escrever sobre o poder da poesia. A arquitetura carioca. A depressão. O amor nos tempos da intolerância.

Ontem foi a vez de falar da empatia, da compaixão, num texto sobre os prazeres e dores da carne.

Minha irmã me disse uma vez: “Parei de comer carne porque é muito cara. O preço é a dor”.

Ela nem se lembra de ter dito isso. Mas a frase ficou ressoando aqui dentro. E anos depois, vendo uma série de documentários sobre pesca, granjas, abatedouros, tudo finalmente fez sentido.

É conveniente não saber o que se passa nos bastidores da indústria de alimentos (e na cozinha dos restaurantes). Ou fica difícil engolir o cachorro quente, o hambúrguer, a vitela, o empadão de frango, o foie gras, o sushi, o chester, o iogurte, a omelete.

Não sou contrário ao consumo da carne. Ela faz parte da dieta da nossa espécie. Mas será que são válidos todos os meios para obtê-la? Creio que não, ou comeríamos carne humana, que é tão nutritiva (e, dizem, tão saborosa) quanto a bovina ou a suína. E não o fazemos porque há uma questão moral.

Escrevi sobre os limites éticos da exploração animal. Não usei a palavra “compaixão” (nem todo mundo exercita esse sentimento), mas “dor” e “sofrimento” (que todo mundo sabe bem o que são). Não fiz apologia a nenhum tipo de dieta. A ideia (como em qualquer texto que eu tenha escrito, aqui ou lá) não era doutrinar ou dar lição, mas expor um ponto de vista.

A coluna n’O Globo fica na página 3, a de Opinião. O jornal tem excelentes analistas políticos – e não sou um analista político. Tem jornalistas especializados – em cultura, esporte, informática, economia… – e não sou jornalista. Sou um homem comum, com direito a 4000 caracteres quinzenais para dizer o que penso sobre o que me der na telha. Poderia escrever crônicas (o jornal tem ótimos cronistas), fazer humor (o jornal também tem ótimos humoristas – por vezes, involuntários, mas isso é outra história). Acabo fazendo um pouco de cada coisa, que é o que um homem comum faz.

Alguns temas repercutem mais; outros, menos. Alguns são controversos; outros, nem tanto. E há os que têm o dom de provocar curtos-circuitos mentais, dissociações cognitivas – principalmente quando não são lidos.

Uma coisa é ler e não entender (acontece comigo quando me deparo com Lacan ou Carluxo, com textos em dilmês ou em árabe). Outra é conhecer os caracteres, formar as sílabas, juntá-las em palavras, perceber uma sintaxe e, ainda assim, não ler. Vir com uma ideia preconcebida e dela não se afastar um milímetro. Ler cegamente, sem se abrir ao que outro diz.

E há, ainda, o não ler – literalmente. Sequer pôr os olhos no texto. E, mesmo assim, discordar dele. Algo como passar na frente do cinema, ver o letreiro “Um estranho no ninho” e dizer que odiou porque não faz sentido fazer filmes sobre pássaros.

Tão certo quanto após uma sexta-feira 13 vir um sábado 14 é escrever sobre direitos dos animais e alguém retrucar que alface também é um ser vivo. A gente respira fundo, pensa que a revolução cognitiva ocorrida há uns 70 mil anos ainda não teve tempo de atingir todos os homo sapiens, e segue em frente.

Somos parte de uma cadeia, na qual uma vida se alimenta de outras vidas. Logo, a questão não é a equivalência entre assassinar alfaces ou abater bezerros recém-nascidos, mas o nível de sofrimento que infligimos a outros seres desnecessariamente. Vegetais não possuem sistema nervoso central e não são capazes de experimentar dor tal como a concebemos.

“Brócolis também é um ser vivo, que é arrancado da terra para o seu prato. Sua coluna de hj é um horror, onde você destila pseudo cultura.”, escreve A. – que leu a coluna e pelo menos teve a originalidade de trocar o alface pelo brócolis.

101 entre 100 textos sobre ética animal recebem os mesmos comentários.

“Se não houvesse consumo de carne bovina certamente os bovinos estariam à beira de extinção”, escreve J., que não leu o artigo, mas comentou assim mesmo.

Isso é mais ou menos como dizer que a mão tem cinco dedos por causa da luva.

Somos nós que dependemos do bovinos para viver, não eles de nós. Há 24 espécies de bovinos, do boi ao bisonte, do búfalo ao iaque, passando pelos antílopes. Por incrível que pareça, bois e vacas não se extinguiriam se não os confinássemos, castrássemos, lhes déssemos sal e ração, os apartássemos de seus filhotes, exauríssemos seu leite e finalmente os abatêssemos a marretadas. Bisontes, búfalos, iaques e antílopes estão aí para provar.

“Nossos antepassados não inventaram o arco e flecha para caçar repolho”, afirma F. – também sem ter lido meu texto.

Não sei muito dos hábitos alimentares dos repolhos da Idade da Pedra, mas nunca tive dúvidas de que nossos antepassados tenham inventado arco, flecha e tacape para se defender de outros predadores (tigres de dente de sabre, por exemplo) ou para caçar mamutes, renas e outras presas mais ágeis que um repolho.

Como a Lei de Godwin não falha, não seria um texto sobre vegetarianismo a exceção:

“Os nazistas foram responsáveis pela primeira tentativa de criar uma legislação equiparando humanos e animais. É conhecido o fato de que Hitler não comia carne e a própria ideologia nazista valorizava a natureza, a ecologia e os animais. Essa visão exacerbada sobre os animais e a natureza não é algo à parte de sua ideologia genocida. Não é que o vegetarianismo seja em si nazista, mas supor que está em um lugar isento de ideologia é um erro”, me informa M. (que tampouco leu meu artigo).

Hitler falava alemão, logo… Hitler amava seu cachorro, portanto… Hitler tinha bigode, ouvia Wagner, gostava do ar puro das montanhas, consequentemente…

Passei décadas acreditando que a ideologia nazista estivesse intimamente ligada ao preconceito, ao genocídio, à barbárie – mas ela está intimamente ligada é à natureza, à ecologia, aos animais. Eu devia ter dado ouvidos aos petistas que me mandaram, durante anos, estudar História. Teria descoberto que eu – que falo algo de alemão, amo meus cachorros, tenho bigode, ouço Wagner, gosto do ar puro das montanhas, sou ligado em ecologia e direitos dos animais e não como carne – além de fascista sou também nazista.

“Não pude deixar de imaginar como seria a tutela dos direitos de zebras, cervos e salmões ante a voracidade de leões, tigres e ursos. Talvez fosse o caso de ajustarmos nossa hipocrisia disfarçada e nossa sensibilidade”, diz B. (outro que não leu o artigo, mas se sentiu habilitado a comentar assim mesmo).

Leões não prendem zebras em cubículos, sobre grades, impedindo-as de se movimentar por meses a fio. Ursos não mantêm salmões em cativeiro alimentando-os à força e à base de hormônios para acelerar seu metabolismo. Tigres não separam cervos dos seus filhotes logo após o nascimento, matam o recém-nascido e ordenham a mãe diariamente, até induzi-la a nova gravidez, e assim por diante, até que ela não possa mais reproduzir e seja sacrificada.

Leões, tigres e ursos apenas pegam, matam e comem. E só quando têm fome ou para alimentar suas crias, não para fazer reality shows de gastronomia ou socializar com os amigos ouvindo pagode em volta da churrasqueira.

“E os pernilongos? E as moscas? E o Aedes aegypti?”, perguntam mais uns 3, numa variação menos inteligente da Falácia do Alface.

Eu amo (sim, o verbo é esse) meus cachorros, e os cachorros em geral. E mataria, se fosse necessário, um cachorro que me atacasse. Ou qualquer ser humano, em legítima defesa. Por que não o faria com um inseto ou um vírus?

“Curiosa essa extensão da ética, criação que opera exclusivamente no domínio humano, ao reino animal, regido por outras leis, estas naturais. E, mais interessante ainda, o non sequitur expresso na ideia de que, para parar com a crueldade dos métodos de manejo dos animais, devemos parar de comer carne (e não mudar os métodos). Que tal o autor tentar filosofar sobre a questão com um lobo faminto, e ver o que lhe aguarda”, questiona N. (que, obviamente, tampouco leu meu artigo). Ou saberia que escrevi justamente que temos que mudar os métodos, já que parar de comer carne parece inviável.

Se há quem concorde com Marx sem tê-lo lido, por que não haveria quem discordasse de mim sem ler o que escrevi? Sim, é mais fácil argumentar com um lobo faminto.

“Comparar escravidão e tortura com o consumo de carne ou alegar falta de ética de quem consome carne mais prejudica do que ajuda a causa vegana. Uma soberba nível hard. Aliás típica de quem se acha superior a quem come carne”, pontifica M., admitindo que não leu o artigo.

Eu não acho veganos superiores a ninguém, não sei de onde ele possa ter tirado isso. Não comparo escravidão e tortura com o consumo de carne, e não sei de onde alguém possa deduzir tal coisa. Mas acho uma soberba nível hard julgar algo ou alguém sem sequer tomar conhecimento de quem seja a pessoa ou do que ela tenha dito ou escrito. É preciso se sentir muito superior para agir assim.

“Animais comem animais. Eles estão errados? O próximo passo é ensinar leões a comer alface? A morte é inevitável”, filosofa A.

Eu talvez devesse informá-la que animais não só comem outros animais, mas comem também vegetais. E que há vegetais que comem animais (sim, as plantas carnívoras não são coisa de filme trash). Que não é possível ensinar leões a comer capim, assim como não dá para doutrinar girafas para caçar coelhos.

Mas paro por aqui, com o choque dessa revelação feita pela leitora (que não leu o que escrevi). Eu jurava que a vida era eterna. Não só a minha como também a do leitão à pururuca que não comi hoje, e a do espinafre que comerei.

Enquanto os argumentos a favor da crueldade forem esses (e sempre esses, e nenhum além desses), não será preciso acionar qualquer neurônio extra para defender meu ponto de vista.