Sofrimento, dor e compaixão

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Quando entraram em contato propondo que eu escrevesse uma coluna n’O Globo, fiz mentalmente uma lista dos assuntos que gostaria de abordar.

Claro que o noticiário me atropelou várias vezes. O Museu Nacional pegou fogo. Os médicos cubanos foram embora. A ministra viu Jesus na goiabeira. Gente famosa falou besteira. Gente muito famosa falou muita besteira.

Mas os temas que me são caros sempre estiveram em pauta.

A língua portuguesa, essa nossa outra pátria, sem sapatos e sem meias, tão pobrinha.
O politicamente correto, o lugar de fala e outras formas de censura.
O cinema.
A morte.

Ainda vou escrever sobre o poder da poesia. A arquitetura carioca. A depressão. O amor nos tempos da intolerância.

Ontem foi a vez de falar da empatia, da compaixão, num texto sobre os prazeres e dores da carne.

Minha irmã me disse uma vez: “Parei de comer carne porque é muito cara. O preço é a dor”.

Ela nem se lembra de ter dito isso. Mas a frase ficou ressoando aqui dentro. E anos depois, vendo uma série de documentários sobre pesca, granjas, abatedouros, tudo finalmente fez sentido.

É conveniente não saber o que se passa nos bastidores da indústria de alimentos (e na cozinha dos restaurantes). Ou fica difícil engolir o cachorro quente, o hambúrguer, a vitela, o empadão de frango, o foie gras, o sushi, o chester, o iogurte, a omelete.

Não sou contrário ao consumo da carne. Ela faz parte da dieta da nossa espécie. Mas será que são válidos todos os meios para obtê-la? Creio que não, ou comeríamos carne humana, que é tão nutritiva (e, dizem, tão saborosa) quanto a bovina ou a suína. E não o fazemos porque há uma questão moral.

Escrevi sobre os limites éticos da exploração animal. Não usei a palavra “compaixão” (nem todo mundo exercita esse sentimento), mas “dor” e “sofrimento” (que todo mundo sabe bem o que são). Não fiz apologia a nenhum tipo de dieta. A ideia (como em qualquer texto que eu tenha escrito, aqui ou lá) não era doutrinar ou dar lição, mas expor um ponto de vista.

A coluna n’O Globo fica na página 3, a de Opinião. O jornal tem excelentes analistas políticos – e não sou um analista político. Tem jornalistas especializados – em cultura, esporte, informática, economia… – e não sou jornalista. Sou um homem comum, com direito a 4000 caracteres quinzenais para dizer o que penso sobre o que me der na telha. Poderia escrever crônicas (o jornal tem ótimos cronistas), fazer humor (o jornal também tem ótimos humoristas – por vezes, involuntários, mas isso é outra história). Acabo fazendo um pouco de cada coisa, que é o que um homem comum faz.

Alguns temas repercutem mais; outros, menos. Alguns são controversos; outros, nem tanto. E há os que têm o dom de provocar curtos-circuitos mentais, dissociações cognitivas – principalmente quando não são lidos.

Uma coisa é ler e não entender (acontece comigo quando me deparo com Lacan ou Carluxo, com textos em dilmês ou em árabe). Outra é conhecer os caracteres, formar as sílabas, juntá-las em palavras, perceber uma sintaxe e, ainda assim, não ler. Vir com uma ideia preconcebida e dela não se afastar um milímetro. Ler cegamente, sem se abrir ao que outro diz.

E há, ainda, o não ler – literalmente. Sequer pôr os olhos no texto. E, mesmo assim, discordar dele. Algo como passar na frente do cinema, ver o letreiro “Um estranho no ninho” e dizer que odiou porque não faz sentido fazer filmes sobre pássaros.

Tão certo quanto após uma sexta-feira 13 vir um sábado 14 é escrever sobre direitos dos animais e alguém retrucar que alface também é um ser vivo. A gente respira fundo, pensa que a revolução cognitiva ocorrida há uns 70 mil anos ainda não teve tempo de atingir todos os homo sapiens, e segue em frente.

Somos parte de uma cadeia, na qual uma vida se alimenta de outras vidas. Logo, a questão não é a equivalência entre assassinar alfaces ou abater bezerros recém-nascidos, mas o nível de sofrimento que infligimos a outros seres desnecessariamente. Vegetais não possuem sistema nervoso central e não são capazes de experimentar dor tal como a concebemos.

“Brócolis também é um ser vivo, que é arrancado da terra para o seu prato. Sua coluna de hj é um horror, onde você destila pseudo cultura.”, escreve A. – que leu a coluna e pelo menos teve a originalidade de trocar o alface pelo brócolis.

101 entre 100 textos sobre ética animal recebem os mesmos comentários.

“Se não houvesse consumo de carne bovina certamente os bovinos estariam à beira de extinção”, escreve J., que não leu o artigo, mas comentou assim mesmo.

Isso é mais ou menos como dizer que a mão tem cinco dedos por causa da luva.

Somos nós que dependemos do bovinos para viver, não eles de nós. Há 24 espécies de bovinos, do boi ao bisonte, do búfalo ao iaque, passando pelos antílopes. Por incrível que pareça, bois e vacas não se extinguiriam se não os confinássemos, castrássemos, lhes déssemos sal e ração, os apartássemos de seus filhotes, exauríssemos seu leite e finalmente os abatêssemos a marretadas. Bisontes, búfalos, iaques e antílopes estão aí para provar.

“Nossos antepassados não inventaram o arco e flecha para caçar repolho”, afirma F. – também sem ter lido meu texto.

Não sei muito dos hábitos alimentares dos repolhos da Idade da Pedra, mas nunca tive dúvidas de que nossos antepassados tenham inventado arco, flecha e tacape para se defender de outros predadores (tigres de dente de sabre, por exemplo) ou para caçar mamutes, renas e outras presas mais ágeis que um repolho.

Como a Lei de Godwin não falha, não seria um texto sobre vegetarianismo a exceção:

“Os nazistas foram responsáveis pela primeira tentativa de criar uma legislação equiparando humanos e animais. É conhecido o fato de que Hitler não comia carne e a própria ideologia nazista valorizava a natureza, a ecologia e os animais. Essa visão exacerbada sobre os animais e a natureza não é algo à parte de sua ideologia genocida. Não é que o vegetarianismo seja em si nazista, mas supor que está em um lugar isento de ideologia é um erro”, me informa M. (que tampouco leu meu artigo).

Hitler falava alemão, logo… Hitler amava seu cachorro, portanto… Hitler tinha bigode, ouvia Wagner, gostava do ar puro das montanhas, consequentemente…

Passei décadas acreditando que a ideologia nazista estivesse intimamente ligada ao preconceito, ao genocídio, à barbárie – mas ela está intimamente ligada é à natureza, à ecologia, aos animais. Eu devia ter dado ouvidos aos petistas que me mandaram, durante anos, estudar História. Teria descoberto que eu – que falo algo de alemão, amo meus cachorros, tenho bigode, ouço Wagner, gosto do ar puro das montanhas, sou ligado em ecologia e direitos dos animais e não como carne – além de fascista sou também nazista.

“Não pude deixar de imaginar como seria a tutela dos direitos de zebras, cervos e salmões ante a voracidade de leões, tigres e ursos. Talvez fosse o caso de ajustarmos nossa hipocrisia disfarçada e nossa sensibilidade”, diz B. (outro que não leu o artigo, mas se sentiu habilitado a comentar assim mesmo).

Leões não prendem zebras em cubículos, sobre grades, impedindo-as de se movimentar por meses a fio. Ursos não mantêm salmões em cativeiro alimentando-os à força e à base de hormônios para acelerar seu metabolismo. Tigres não separam cervos dos seus filhotes logo após o nascimento, matam o recém-nascido e ordenham a mãe diariamente, até induzi-la a nova gravidez, e assim por diante, até que ela não possa mais reproduzir e seja sacrificada.

Leões, tigres e ursos apenas pegam, matam e comem. E só quando têm fome ou para alimentar suas crias, não para fazer reality shows de gastronomia ou socializar com os amigos ouvindo pagode em volta da churrasqueira.

“E os pernilongos? E as moscas? E o Aedes aegypti?”, perguntam mais uns 3, numa variação menos inteligente da Falácia do Alface.

Eu amo (sim, o verbo é esse) meus cachorros, e os cachorros em geral. E mataria, se fosse necessário, um cachorro que me atacasse. Ou qualquer ser humano, em legítima defesa. Por que não o faria com um inseto ou um vírus?

“Curiosa essa extensão da ética, criação que opera exclusivamente no domínio humano, ao reino animal, regido por outras leis, estas naturais. E, mais interessante ainda, o non sequitur expresso na ideia de que, para parar com a crueldade dos métodos de manejo dos animais, devemos parar de comer carne (e não mudar os métodos). Que tal o autor tentar filosofar sobre a questão com um lobo faminto, e ver o que lhe aguarda”, questiona N. (que, obviamente, tampouco leu meu artigo). Ou saberia que escrevi justamente que temos que mudar os métodos, já que parar de comer carne parece inviável.

Se há quem concorde com Marx sem tê-lo lido, por que não haveria quem discordasse de mim sem ler o que escrevi? Sim, é mais fácil argumentar com um lobo faminto.

“Comparar escravidão e tortura com o consumo de carne ou alegar falta de ética de quem consome carne mais prejudica do que ajuda a causa vegana. Uma soberba nível hard. Aliás típica de quem se acha superior a quem come carne”, pontifica M., admitindo que não leu o artigo.

Eu não acho veganos superiores a ninguém, não sei de onde ele possa ter tirado isso. Não comparo escravidão e tortura com o consumo de carne, e não sei de onde alguém possa deduzir tal coisa. Mas acho uma soberba nível hard julgar algo ou alguém sem sequer tomar conhecimento de quem seja a pessoa ou do que ela tenha dito ou escrito. É preciso se sentir muito superior para agir assim.

“Animais comem animais. Eles estão errados? O próximo passo é ensinar leões a comer alface? A morte é inevitável”, filosofa A.

Eu talvez devesse informá-la que animais não só comem outros animais, mas comem também vegetais. E que há vegetais que comem animais (sim, as plantas carnívoras não são coisa de filme trash). Que não é possível ensinar leões a comer capim, assim como não dá para doutrinar girafas para caçar coelhos.

Mas paro por aqui, com o choque dessa revelação feita pela leitora (que não leu o que escrevi). Eu jurava que a vida era eterna. Não só a minha como também a do leitão à pururuca que não comi hoje, e a do espinafre que comerei.

Enquanto os argumentos a favor da crueldade forem esses (e sempre esses, e nenhum além desses), não será preciso acionar qualquer neurônio extra para defender meu ponto de vista.

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Os prazeres e as dores da carne

carne

Confira a coluna de hoje n’O Globo:

Os prazeres e as dores da carne


 

“As pessoas sensíveis não são capazes/ De matar galinhas./ Porém são capazes/ De comer galinhas”, escreveu Sophia de Mello Breyner Andresen, poeta portuguesa.

Li esses versos aos 15 anos, e foi quando descobri que, em certos casos, a sensibilidade nos concede a graça de disfarçar um pouco a nossa hipocrisia. O que os olhos não veem o estômago não sente.

Já foi legal e moralmente aceitável que seres humanos (de qualquer etnia) fossem capturados e escravizados. Que prisioneiros fossem torturados e, eventualmente, executados. Que mulheres não tivessem direito a voz e voto, sujeitas à tutela do pai, do marido, do irmão, do filho. Vitória, Elizabeth I, Elizabeth II, Catarina,a Grande, seriam apenas notas de rodapé se tivessem irmãos do sexo masculino (a profissão “irmão de rainha” só foi inventada no século 20).

Outro dia, o Ricardo Rangel escreveu que o respeito aos direitos humanos, a igualdade entre os sexos, a preservação do meio-ambiente e a luta contra o racismo são bandeiras suprapartidárias, civilizacionais. Eu incluiria aí os direitos dos animais – de todos os animais, não apenas os da espécie Homo sapiens.

Tudo começa pelo entendimento de que veganismo e vegetarianismo não são uma questão de dieta, mas de ética. Que tem menos a ver com consumo de carne e mais com a crueldade com que carne, leite, ovos e outros produtos de origem animal são obtidos.

Será uma longa batalha – mas quem disse que as outras foram breves?

White people problems

WPP

“White people problems” são os problemas dos outros – não importa a cor da pele.

Um preto que reclame que bateu o carro está tendo “white people problems”, porque pobrema mermo é pegá duas condução pra chegar no trabalho.

O que, por sua vez, é “white people problem” pra quem teve que fazer baldeação na Central vindo de trem do ramal Japeri, e vai a pé até a Praça 15 pegar a barca pra tentar arrumar emprego em São Gonçalo.

Qualquer perrengue que a gente conte no FB é “white people problem” (doravante chamado apenas de WPP) para alguém que teve um perrengue ainda maior. Ou menos divertido.

Meu WPP de hoje foi um exame de risco cirúrgico. Um dos exames, porque é uma bateria, cada um feito num lugar diferente – WPP dos bons, já que o plano cobre (de má vontade, mas cobre), e problema mesmo seria ir para a fila do SUS.

7h30 da manhã no Arpoador, depois de engarrafamento em São Conrado (WPP dos brabos!).

– Bom dia, tenho um eletro agendado para agora, 7h30 (era para chegar meia hora antes, mas não deu).

– Seu nome?

– Sidney Affonso (tenho que usar o primeiro nome, fazer o quê?)

– A médica não veio.

– Então está cancelado o exame? (levantei às 5h30, tomei café no galope, saí sem escovar os dentes, peguei engarrafamento e ninguém manda nem um zap pra avisar que a médica não apareceu? Bom, problema mesmo seria ter passado a noite em claro, o pó de café ter acabado, não ter dentes e o celular estar sem crédito até para receber zap).

– É.

– Não tem outra médica?

– Vou ver.

Consulta o terminal, disca para alguns ramais que não atendem, por fim se levanta e vai ver pessoalmente.

– Não, é só ela que faz eco.

– Mas eu não vim fazer eco. Vim fazer eletro.

– O senhor falou eco.

– Não, eu falei eletro.

– Falou eco, sim, sr. Sílvio!

(Respiro fundo. Mentalizo um palavrão. Na verdade, uma expressão envolvendo uma prestadora de serviços sexuais remunerados que deu à luz. Expiro.)

– Eu não me chamo Silvio, e não vim fazer um eco. Vamos começar tudo de novo. Bom dia. Meu nome é Sidney, e eu vim fazer um eletro. (O eletro não vai prestar, porque, apesar de eu falar pau sa da men te, o coração está acelerado).

Ela consulta o terminal, e está lá o Sidney e o agendamento do eletro.

– Ok, a carteirinha do convênio, a identidade e a requisição do médico, por favor. (Pelo tom de voz, e pela dureza do “por favor”, ela ainda tem certeza de que eu disse que era Silvio e queria fazer um eco).

Entrego a requisição – e é a de outro exame, para outro dia, em outra clínica.

Pelo menos estava uma manhã linda no Arpoador. E, mesmo sem ter direito, passei na recepção e filei um capuccino com bolo de chocolate.

 

O hímen, esse desconhecido

himen

Não sei você, mas eu nunca estive cara a cara com um hímen. Certamente nos esbarramos ao longo da vida, mas terá sido um contato superficial e o afastamento foi amigável, sem motivo para rompimento.

Eu julgava mesmo que ele, assim como o teletrim e o professor de OSPB, já tivesse sido extinto. Ninguém fala mais dele, e sua presença, outrora tão requisitada, hoje soa como um anacronismo.

O hímen só voltou à minha mente por causa de um vídeo, visto um dia desses, em que uma simpática mocinha derruba certos mitos a respeito dessa (obsoleta) peculiaridade da anatomia feminina. Foi quando descobri que a total ignorância no assunto não era exclusividade minha.

Admito que o hímen atiçava minha curiosidade, ali por volta da pré-adolescência. Eu o imaginava como um daqueles bastidores que as bordadeiras usam, só que em vez de algodão, haveria uma membrana, tipo essas de bola de soprar. A membrana arrebentaria na noite de núpcias (sim, sou do tempo da noite de núpcias) e pronto, problema resolvido.

Isso, claro, se o hímen não fosse complacente. Esse era um conceito perturbador. E se a membrana fosse muito resistente, e se recusasse a ceder passagem, permanecendo ali, desafiadora, feito um escudo invisível? A simples ideia de vir a topar com um obstáculo que barrasse a entrada, como se eu fosse um penetra, um sócio com mensalidade vencida, me causava leve terror. Eu ouvira dizer que, por outro lado, o hímen podia se romper, por exemplo, pulando corda ou andando de bicicleta – então, uma calói e uns quatro metros de corda de bacalhau haveriam de fazer parte do meu kit lua de mel, just in case.

O hímen suscitava também questões práticas. Como as virgens urinavam? A única hipótese possível era a membrana ser porosa. Menos parecida com a da bola de soprar, um pouco como um coador de pano (sou do tempo do coador de pano). Mas basta olhar pra um coador de pano e perceber que a solução não era nada higiênica.

Talvez as virgens simplesmente não urinassem. Mas algo me dizia que ou essa teoria estava furada ou os bebês dos sexo feminino não nasciam virgens, mas se tornavam virgens (eu, apesar da pouca idade, tinha meus momentos de Simone de Beauvoir). Depois que se envirginavam, deixavam de urinar – até a fatídica noite de núpcias, a partir da qual recuperavam essa função. Sim, minha ignorância sobre o hímen se estendia também à uretra.

O que contava é que o hímen tinha o papel de lacre, de selo de segurança. Ele era a prova incontestável de que a virgindade feminina era uma virtude – em contraponto à masculina, que era um mico. O homem precisaria adquirir bastante prática para, na hora H, saber exatamente o que fazer ao se defrontar, lança em punho, com o dragão do hímen. O fracasso masculino não seria a impotência (fantasma que sequer me ocorria então), mas não conseguir derrotar o hímen de primeira. Para garantir o êxito é que talvez fossem necessárias as tais preliminares – possivelmente uma pedalada de 12 km ou meia hora pulando corda.

Eu imaginava se o hímen se romperia fazendo “ploc” (acho que não faz). Se sangraria a ponto de precisar bandeide e mertiolate (possivelmente, não). Se ficava no começo, no meio ou (o que seria um pesadelo) lá no fundo – um fundo talvez fora do alcance, além das minhas possibilidades. E, mais que tudo, eu me perguntava por que isso era tão importante, a ponto de haver exames médicos para detectá-lo intacto num pré-nupcial, e cirurgias para reconstituí-lo no caso de a moça ter merendado antes do recreio.

Todas essas questões estavam, até um dia desses, totalmente esquecidas, perdidas nas brumas dos meus 12, 13 anos, que foi quando descobri de onde vêm os bebês e como é que foram parar lá dentro. E também que passei a sentir uma estranha atração por meninas ciclistas ou que gostavam de pular corda.

Não era fácil ser pré-adolescente num tempo em que não havia gúgol pra gente se informar direito.

 

(publicado originalmente em 2015)

Gênesis revisitado

Genesis

No princípio criou Deus o céu e as terras (uma esférica e uma plana – esta última, para ser usada até o século 6 a.C e depois só no século 21).

E disse Deus: Haja luz; e houve luz.
Deus viu que era boa a luz e instituiu as bandeiras tarifárias verde, amarela e vermelha.

Então Deus separou a luz das trevas – instituindo o divórcio – e as águas das terras secas – as águas, que deviam ter o melhor advogado, ficaram com 75% de tudo. Criou as espécies vegetais e animais, e as estrelas do firmamento.

Tudo isso em 5 dias, sem hora-extra.

E então no sexto dia criou Deus o ser humano à sua imagem; homem e mulher os criou.

Preparava-se para descansar no sábado quando viu que tinham ficado faltando os transgêneros.

E os FTM (Feminino para Masculino)

E as MTF (Masculino para Feminino)

Então, ao sétimo dia os criou.

No oitavo dia, se deu conta de que tinha esquecido os intergênero.

E o andrógino.

E o agênero.

E o terceiro gênero.

E os não binários.

O descanso ficou para o nono dia, quando, ao acordar, percebeu que Sua obra permanecia inconclusa.

E criou o pangênero.

E o epiceno.

E o travesti e a travesti.

E o crossdresser.

Deu os trâmites por findos, mas ao décimo dia Lhe ocorreu que precisava esquematizar melhor a coisa.

Definiu que haveria o sexo biológico (masculino, feminino e intersexo), a expressão de gênero (homem, mulher e não binário), a identidade de gênero (cisgênero e transgênero) e a orientação sexual (heterossexual, homossexual, bissexual, pansexual e assexual).

Ao décimo primeiro dia, percebeu que isso funcionava bem na teoria, com a combinação, permutação e arranjo de sexo biológico, expressão de gênero, identidade de gênero e orientação sexual dando origem a um número elevado, porém finito, de possibilidades.

Mas havia os genderfluid, que transitavam pelos gêneros ao sabor do momento.

E os genderqueer, que não são nem 100% homens, nem 100% mulheres e que agem contra as normas de gênero.

E as drag queens, que não necessariamente eram travestis nem crossdressers. E, se bobear, nem mesmo gays.

E as transformistas, que eram as drag queens que apareciam no programa do Silvio Santos antes de as drag queens serem inventadas.

Então, ao décimo segundo dia Deus concluiu de que era questão de tempo para aparecerem os metrossexuais, os incels, as fisiculturistas, os estudantes de Ciências Sociais, as neopentecostais de saia jeans na altura da canela, as bandas de pop coreano, os bi curiosos, as agentes da Imigração americana, os narcisistas, as feministas radicais, os fiscais da sexualidade alheia, as nadadoras da finada Alemanha Oriental, a Laerte e o Marco Feliciano.

Deus lavou as mãos e foi criar um universo paralelo.

Ele não, ele sim

Ele nao 3

Lúcia Helena e Regina Célia se cansaram da vida de solteira. E dos bares de solteiros. Dos bingos, antes mesmo que fechassem. Das aulas de dança de salão, onde tinham que fazer par uma com a outra. Das peças de teatro infantil, já que o cerco aos homens divorciados passando o fim de semana com os filhos era ferrenho. Acabaram no Tinder.  Gêmeas, houveram por bem fazer um perfil só.

– Botaí, Celinha: homem, entre 40 e 50 anos, até 10 km de distância pra gente poder ir de táxi.

– Não é melhor colocar logo até 60? A gente já tá com 65…

– Nossa idade não precisa aparecer.

– Precisa, menina, taqui no cadastro.

– Então muda o cadastro!

– Não pode, é o do feicebuque.

– Muda no feicebuque, ora!

– Pronto, já estamos com 42. Dependendo da foto que a gente escolher, 42 passa, né?

– Bota aquela de quando a gente tinha 35. Aquela em Araxá.

– Aquela com o Maverick do papai ao fundo? Acho que vão desconfiar. Essa aqui no Píer de Ipanema está melhor.

– Essa tá ótima. Mas corta a Estela Maris, ali no canto, que ela está com o Evandro Mesquita no colo. Ela era babá dele, lembra?

Estela Maris era a irmã caçula, já casada.

– Como agora aparecemos mais jovenzinhas, deixa eu mudar a configuração: homem, entre 30 e, vá lá, 60 anos, até 20 km de distância, porque aí pega toda a Zona Sul, e a gente pode ir de 99.  Pronto. Agora é só começar a deslizar.

– Olha esse, que simpático. Arlindo. 55. Bairro Peixoto, pertinho.

– Essa camisa polo pra dentro da bermuda rosa. Aquele forrinho de crochê na diagonal em cima do aparador. O gato angorá lá atrás.  Desliza pra esquerda. Ele não.

– Ok. Ó, Eurico, 42, mora em Niterói, professor, #democracia #resistencia  #vazajato #familicia #cadeoqueiroz Me chama pra um litrão,

– Litrão? O quê que é isso?

– Pode ser uma dessas práticas sexuais modernas, tipo mind setting e golden shower. Sei não.

– Tirando a barba, o coque e esse cigarro estranho na mão, até que ele, sim. Vou deslizar pra direita.

– Melhor não arriscar. Olha a camiseta das FARC e a tatuagem do Maduro. Desliza pra esquerda. Ele não.

– Tá bom. Elizeu, 57, empresário romântico pisciano amante de um bom vinho e afim de compromisso.

– Afim, assim, tudo junto?  E Pisciano?

– Nem vem, que você também não sabia que “paralisar” era com S, e nós duas somos de Peixes, qual o problema?

– Ser de Peixes é uma coisa, mas botar “pisciano”, e com esse cabelo cor de cutia? Aposto que mora com a mãe e mente a idade.  E eu não confio em homem que fala “um bom vinho”, como se alguém gostasse de vinho ruim. Desliza pra esquerda. Ele não.

– Mais um. Kawan, 18, gamer, nerd, 46 km de distância.  Sugar baby.

– Quem pediu isso? Essa idade? Essa distância?

– Ninguém. Apareceu aqui. Mas não é de se jogar fora.

– Tá maluca, Celinha? O menino podia ser seu neto! E essas asinhas de anjo? E esse focinho de cachorro? Pela distância deve ser depois de Realengo.

– Vai que dá match, Lúcia Helena. E a gente gosta da mesma música.

– Como é que você sabe?

– Tá aqui: Sugar baby. Um garoto de 18 anos que conhece hits dos anos 70!

– Celinha, você também achou que fosse de eletricistas aquela comunidade do Orkut “Homens que gostam de fio terra”.  E de marceneiros a comunidade “Pé de mesa”.  E de delegados de polícia a “Adoro uma DP”. Foram 6 meses para se recuperar de cada encontro com o pessoal dessas comunidades.

– Deu match, Lúcia Helena! Deu match!

– Você que sabe. Eu ainda acho que é roubada deslizar pra direita nesses casos. É um tiro no escuro.

– Isso é inveja sua. Vou tomar um banho e enquanto isso vá chamando o Uber. “Sugar baby love ♫, sugar baby love ♫, I didn’t mean to make you blue ♫.”

– Ok, mas depois não diz que eu não avisei, porque na volta, se for tarifa dinâmica, você tá lascada.

Acôrdo ortographico

acordo
(Ilustração: carnavalização de desenho de Bruno Carneiro, originalmente em preto e branco)

Uma comissão discute hoje na Câmara a revogação do Acordo Ortográfico de 1990 (esse que matou o trema, tirou o acento de ideia, fez as pazes com o K, o W e o Y, e nos tornou analfabetos em hífen).

Tudo bem que o acordo foi mal feito e que os portugueses se recusaram a adotá-lo (adoptá-lo) de fato (de facto). Em vez de unificar o idioma, o tiro ficou pior que o soneto e a emenda saiu pela culatra.

Mas se é para revogar por questões etimológicas ou por respeito a certas tradições, então revoga direito.

Podemos começar revogando a mudança feita em 1973, que aboliu unânimemente os acentos grave e circunflexo em palavras formadas pelo sufixo -mente e pelos sufixos iniciados por z.  Voltemos a escrever sòzinhos, sem corretor ortográfico por perto, como fazemos ùltimamente.

Depois a de 1971, quando caiu o acento diferencial.  Bora escrever que êste govêrno não tem pilôto (até porque – apertem os cintos! – não tem mesmo).

Em seguida, cancelamos a de 1945 e voltamos a escrever que êles teem sciencia de que a raínha ennegreceu o côco da Güiana.  Ok, ninguém nunca jamais escreveu isso, mas era assim que se escreveria até aquele anno.

Recuemos a 1943, quando respirávamos a athmosphera, caprichávamos na caligraphia, usávamos o telegrapho, desenhávamos polygonos, nos falávamos ao telephone (que então só falava, não tirava photoghraphia), e comíamos vegetaes. Nosso idioma era o portuguez e assim é que devíamos escrevel-o, fosse no Alentejo, fosse no Piauhy.

Anulemos também a de 1911, que levou Fernando Pessoa a declarar que sua pátria era a língua portuguesa (ops, portugueza), e que não se incommodaria se tomassem Portugal, mas sentia odio (sem acento) da pagina (também sem acento) mal escripta, não de quem não soubesse syntaxe ou escrevesse em orthographia simplificada.

Foi nessa epocha que o escriptor Teixeira de Pascoaes choramingou:

“Na palavra lagryma(…) a forma da y é lacrymal; estabelece (…) a harmonia entre a sua expressão graphica ou plastica e a sua expressão psychologica; substituindo-lhe o y pelo i é offender as regras da Esthetica. Na palavra abysmo, é a forma do y que lhe dá profundidade, escuridão, mysterio… Escrevel-a com i latino é fechar a boca do abysmo, é transformal-o numa superficie banal.”

E bora anular também a reforma de 1907, quando tiveram fim a deshonra e a inharmonia, bem como as palavras começadas por Ç. Foi também quando o idioma ficou orpham do K, do W e do Y (excepto no vocabulário de origem indígena, que manteve suas characterísticas originaes). Foi n’aquelle anno que o Brazil virou Brasil.

As reformas têm sido desde sempre um desacordo só. A de 1911 foi adoptada só por Portugal.  Houve um acôrdo em 1931, que não deu em nada. Este facto levou à convenção ortographica de 1943, que tampouco deu em alguma coisa – tanto que foi feita outra em 1945, com o mesmo triste fim.

Se é para unificar, melhor rebobinar a 1500, quando a língua chegou aqui, e encontrou homeës pardos todos nuus sem nenhuűa cousa que cobrisse suas vergonhas. traziam arcos nas maãos e suas see tas. vijnham todos Rijos pera o batel e nicolaao co elho lhes fez sinal que posessem os arcos, e eles os poseram. aly nom pode deles auer fala nem antë dimento que aproueitasse polo mar quebrar na costa. soomente deu;hes huum barete vermelho e huűa carapuça de linho que leuaua na cabeça e huűsombreiro preto. E huűdeles lhe deu huűsombreiro de penas daues compridas com huűa copezinha pequena de penas vermelhas e pardas coma de papagayo e outro lhe deu huűramal grande de comtinhas brancas meudas que querem pareçer daljaueira asquaes peças creo que o capitam manda a vossa alteza e com isto se volues aas naaos por seer tarde e nom poder deles auer mais fala por aazo do mar.

De lá pra cá, somos dois fados desencontrados, dois amantes desunidos. Eles lá, agarrados ao latim e ao grego; nós aqui, aos abraços e beijos com o tupi, o guarani, o quimbundo, o quicongo e o umbundo (sem contar os adultérios posteriores, com o francês e o inglês).

Vai dar certo trabalho aprender a falar como Camões, Cabral e Caminha. Mas não tendo hífen, é lucro.