A culpa é do estagiário

preguica

O sujeito que inventou a língua portuguesa deixou algumas partes a cargo do estagiário, e não fez o chequiliste das funcionalidades antes de colocar o produto no mercado.

Isso que temos aí para nos expressar é, claramente, uma versão beta.

Duvida?

“Fulano acabou de ser visto saindo do motel com sua mulher”.

Antes de ir tomar satisfações, a questão que se coloca é: esse “sua” é a sua mesmo (pessoa com que eu faço a intriga) ou a dele (pessoa em cuja vida eu não tinha nada que estar me metendo, já que a mulher é dele e eles vão aonde quiserem)?

São coisas bem distintas ir ao motel com a mulher alheia (falta de decoro) e com a própria mulher (falta de imaginação).

Imagine quantas D.R.s e crimes passionais poderiam ter sido evitados se o idioma fosse um pouco mais profissional. Como o inglês, por exemplo, em que “your” ou “his”/”her” esclarecem tudo.

Outro exemplo: “Temos que manter acesa a chama do amor em nossos corações”.

Como assim “nossos corações”? “Em nossos pulmões” (ou rins), tudo bem, porque temos dois. Mas coração a gente só tem um. Poucas pessoas – as que fizeram transplante, por exemplo – podem usar essa frase sem incorrer em dubiedade.

Por outro lado, dizer “em nosso coração” dá a impressão de termos um coração só, compartilhado.

Um estagiário além do 5º período teria pensado numa fórmula melhor para essas situações – algo como um plural só meu e um plural envolvendo mais gente.

Graças aos bombeiros, nossas vidas foram salvas”, poderiam dizer dois gatos (7 vidas cada um). Mas para duas pessoas, a coisa – mesmo para quem leva vida dupla – soa estranha.

Temos 5 vogais (mais o Y, que parece vogal mas é genderfluid) e 19 consoantes (mais o H, que é não binário). Dá pra fazer um sem número de combinações, permutações e arranjos. E, no entanto, a preguiça do estagiário fez com que tivéssemos uma penca de repetições.

“Vir” é tanto o infinitivo de um verbo (“Direito de ir e vir”) quanto o subjuntivo futuro do verbo “ver” (“Se eu vir você indo e vindo, você vai ver!”).

“Eu pulo” pode significar que estou polindo ou pulando. Mas se polir, não pule; se pular, não pula.

“Morto” é o particípio passado de “morrer” e de “matar”. É preciso uma análise jurídica e sintática para saber se se trata do réu ou da vítima.

Sem contar que o tal estagiário era adepto da lei do menor esforço. Só isso explica “em cima” e “encima”, “embaixo” e “em baixo”, “senão” e “se não”, “agente” e “a gente”, “acerca” e “a cerca”, “aparte” e “à parte”, “decerto” e “de certo”, “afim” e “a fim”, “haver” e “a ver”, “haja” e “aja”, “hora” e “ora”; e – aí era motivo para justa causa – “por que”, “por quê”, “porque” e “porquê”.

Eu, como qualquer falante do português, contrataria um profissional para revisar o idioma. E não ficar dependendo, como na sentença anterior, de uma vírgula para evitar mal entendidos.

 

 

 

 

2 comentários em “A culpa é do estagiário

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