Alguns pecados

pecados

Dos pecados, meu preferido sempre foi a gula.

Depois a luxúria, que é uma espécie de gula aplicada ao corpo inteiro.

Em seguida, a preguiça – natural após os excessos do paladar e da carne.

Mas o maior nunca deixou de ser a inveja.

Inveja dos gregos, romanos, egípcios, vikings, astecas, com uma penca de deuses e eu, no catecismo, tendo que me contentar com um deus só. Até me dar conta que um só já era demais.

Inveja dos americanos, que tomavam água da torneira sem levar bronca da avó ou da mãe. Lá em casa, só água do filtro, cuja vela era lavada semanalmente, e esfregada com açúcar para remover a lama acumulada. Queria ser americano, resistente à água de torneira – ou imune às broncas da mãe e da avó (que, por sinal, também tomavam água de torneira sem levar bronca de ninguém).

Inveja de quem tinha neve no inverno, folhas caindo no outono e flores na primavera. Viçosa tinha só calor e frio. Unaí, só chuva e seca – e calor todos os dias da existência.

Inveja dos que fechavam envelope com uma lambida, enquanto aqui se tinha que penar com o pincel endurecido de goma arábica nos correios.

De quem tinha lareira. Vitrola. Refrigerante na merendeira. Eu tinha fogão a lenha, do qual não podia me aproximar porque era “perigo de morte”. Um rádio no qual não podia mexer – e nem adiantava, porque só pegava a Rádio Montanheza. E café com leite – frio – no frasco que já perdera a tampa, e ainda tinha que ir devagar para a escola, ou o café com leite derramava e melava o sanduíche de pão com goiabada. Eu tinha inveja adicional dos que levavam sanduíche de presunto ou biscoito champanhe.

Invejava as primas de Muriaé, que operaram das amídalas e tinham (tinham!) que tomar sorvete. Eu chupava picolé e tomava sorvete escondido, ou por uma especial concessão dos meus pais (por causa da asma, não podia tomar nada gelado) – e as primas eram “obrigadas” a uma dieta de chicabon. Não era justo eu ter asma e elas terem amídalas.

Invejava Bud e Sandy, que moravam em Miami, tinham um pai viúvo (mães me pareciam um atraso de vida) e um golfinho, chamado Flipper, no quintal. E o quintal era o mar. Assim como a neve, a lareira e o envelope que se fechava com lambida, eu nunca vira o mar. Meu quintal era um pátio cimentado cheio de varais e quaradores, uma horta, um galinheiro. Meu único bicho de estimação tinha sido um coelho, o Bibi, que se enfiou no porão poucas horas depois de chegar – sem tempo de botar um ovo de páscoa sequer – e nunca mais foi visto.

Inveja de quem viajava no tempo. De quem tinha uma gênia na garrafa. Vivia numa terra de gigantes, ou saltava de planeta em planeta com uniforme prateado, morando num disco voador, e tendo por companheiro um robô que avisava quando o perigo se aproximava. Inveja de quem tinha um cão, fosse Lassie, Rin-tin-tin ou Lobo; uma leoa chamada Elsa, ou Ben, um urso amigo.

Os outros pecados não me interessavam muito, porque a inveja tomava conta de tudo.

Depois descobri que que podia vencê-la chamando-a de fantasia. De desejo de viver todas as vidas possíveis, de explorar todas as possibilidades. Ir à Lua, como Armstrong; ao fundo do mar, como Cousteau. Ao centro da terra, com Júlio Verne; ao Reino das Águas Claras, com Pedrinho e Narizinho.

A inveja era só uma gula do mundo.

10 comentários em “Alguns pecados

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