Vale tudo

xadrez

Nunca aprendi a jogar xadrez.

Até sei o nome das peças, mas só consegui assimilar a regra que diz ser preciso pensar muitas jogadas adiante.

Qualquer jogo, com a exceção de burro-em-pé, é assim. Mas no xadrez a futurologia parece ser a alma do negócio.

Todo movimento – pelo menos até chegar ao xeque mate – tem décimas oitavas intenções. É como se cada “oi, tudo bem?” embutisse a briga pela guarda das crianças.

Não é pra mim.

Prefiro jogos simples.
Palitinho.
Par ou ímpar.
Papel, tesoura, pedra.

Jogo da velha é bem melhor que jogo de damas.
Troco War e Banco Imobiliário por pega-varetas, fácil.
Dominó, forca, batalha naval – daí não passo.

Jamais joguei videogueime. Outro dia meu sobrinho perguntou se eu sabia onde estava o manete e fiquei olhando para ele com a mesma cara que ele faria se eu o questionasse sobre a derivada do cosseno de y.

Conheço maneta, manequim, maneirismo, manemolente (sim, isso existe). Mas manete nunca fez parte do meu vocabulário. Nem fará.

Eu seria mais feliz em Roma, onde “que comecem os jogos!” significava abrir a jaula e soltar os leões.
Nada contra os cristãos, mas pelo menos as regras eram simples: quem terminar dentro do estômago do outro perdeu ou quem for dividido em menos pedaços ganhou.

Não tinha impedimento.
Não tinha que quicar a bola o tempo todo ou passá-la adiante em 5 segundos.
Podia queimar a largada.
Dentada abaixo do umbigo valia do mesmo jeito.
Não tinha isso de consultar árbitro de vídeo.

Não gosto também de lutas. Menos ainda de boxe ou MMA.
Tirando sexo, nada que deixe hematoma me apetece.

Bom mesmo era o Telequete Montilla, uma espécie de luta-livre na qual tudo era permitido, menos machucar o adversário ou derrotar o mocinho.
Podia até bater no juiz, que ninguém (nem o juiz) se importava.

O mocinho era pisado, prensado, moído, triturado, e permanecia intacto.

Ted Boy Marino enfrentava, em rodízio, Rasputin, Tigre Paraguaio, Verdugo, Mongol e Leopardo e sequer desmanchava o topete.

Além do xadrez, nunca aprendi a jogar pôquer.
Nem truco, o que é crime inafiançável para um mineiro.

Jogo paciência e crapô – que é a paciência para quem quer jogar paciência mas tem alguém do lado perturbando sua solidão, e aí, para não ter que conversar, joga-se paciência a dois. De preferência, em silêncio.
Não à toa, paciência em inglês se chama “solitaire”.

Prefiro os jogos solitários, eu contra mim mesmo, nas horizontais e verticais das palavras cruzadas, nas 81 casas do Sudoku. Quadradinhos aparentemente idênticos, mas sob medida para um único habitante, seja letra ou número.

O jogo dos 7 erros.
As charadas novíssimas – que, de tão velhas, ninguém mais faz.
Isso, sim, é passatempo.

Xadrez é um jogo de estratégia.
E nesse ponto sou como alguém de quem vou tentar não falar por uma semana: não tenho estratégia nenhuma.

Estou topando qualquer coisa, de Pokémon a jogo do bicho, para não falar de política.

Se alguém souber de aplicativo para jogar mico preto, sete e meio ou rouba-montinho onlaine, me avise. Purrinha também serve. Até bafo ou birosca.

Vale tudo para não falar deste vale-tudo.

3 comentários em “Vale tudo

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