O prazer é todo meu

orgasmo

– Me xinga, Marcelo!

– Como é que é?

– Qual parte do “me xinga, Marcelo” você não entendeu?

– Você quer que eu te xingue?

– Sim, Marcelo. É uma fantasia. Pessoas têm fantasias. Minha fantasia neste momento, é que você volte a fazer o que estava fazendo, e me xingue.

– Do quê?

– Do que você quiser, Marcelo. Faz de conta que eu te dei uma fechada no trânsito e me xinga, pomba. Não pode ser tão difícil de entender.

– Mas a gente está fazendo amor, eu não tenho motivo pra te xingar.

– É justamente porque a gente está fazendo um amorzinho legal em vez de sexo selvagem que eu preciso desesperadamente que você me xingue, Marcelo. Eu vislumbrei um orgasmo no horizonte, achei que ele estava acenando pra mim, mas parece é que está dando tchauzinho, e eu sinto, aqui dentro de mim, que só você me fazendo o sangue ferver é que há alguma chance de esse orgasmo não ser abduzido e se perder para sempre, como tantos outros.

– Você devia ter avisado antes de a gente começar. Assim, de improviso, sem motivação, fica difícil.

– Marcelo, eu penso em outros homens quando estou com você. E não é um de cada vez. Eu penso em quem faz segunda voz em dupla sertaneja, em deputados do baixo clero, em aborígenes, em decanos do STF, em figurantes da Record, em sindicalistas. Eu já pensei no homem de Neandertal. Eu fecho os olhos e imagino o subsíndico, o atendente de telemárquetim da Tim, o testemunha de Jeová que vem aqui todo domingo de manhã. Eu só estou te pedindo que me dê uma fantasia, qualquer que seja, porque as minhas se esgotaram nesses vinte e sete anos de casamento. Eu não tenho mais para onde apelar.

– Entendi, entendi. Ok. Posso ir?

– Vai.

– Gorda!

– Como é que é?

– Gorda. Você pediu algo que fizesse seu sangue ferver, eu te chamei de gorda. Não é um xingamento, mas…

– Gorda, Marcelo? Você acha que eu sou gorda?

– Amor, é só uma fantasia. Eu sempre tive tesão em mulher cheinha, bem fornida, mas você vive em dieta e…

– Marcelo, depois de vinte e sete anos você vem me dizer que estou gorda??

– Eu não disse que você está gorda! É uma fantasia! Eu só te chamei de gorda porque você…

– Porque você acha que eu estou acima do peso? Você não sabe que a última coisa que se deve dizer a uma mulher é que ela é gorda – principalmente se ela, mesmo não sendo, se sentir gorda?

– Amor, foi “gorda” do bom sentido. Eu sempre te disse que gostava mais quando você era menos magra. Você queria que eu fizesse seu sangue ferver e…

– Eu só queria que você criasse um clima, e você estragou tudo. Sai daí, seu… seu…

– Amor…

– Nunca mais encoste a mão em mim, Marcelo! Você é um machista retrógrado egocêntrico, que pensa só pensa si mesmo.

– Para com isso, que você está me ofendendo…

– Um macho abjeto, centrado nessa sua masculinidade tóxica. Um falocrata!

– Marlene, você está passando dos limites.

– Um lacaio do imperialismo, um pequeno burguês que se compraz com micro agressões!

– Não fala assim comigo, sua… sua…

– Isso, tá funcionando. O orgasmo parece que pegou o retorno e tá voltando. Vem, Marcelo! E deixa que de agora em diante só eu falo!

(Em comemoração ao 31 de julho, Dia do Orgasmo)

2 comentários em “O prazer é todo meu

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