Drag me as a king

macho macho

Zapeando entre uma guerra de confeiteiros ciganos anões e uma pesca mortal das Kardashians no Serengeti, entre um monstro do rio largado e pelado e alienígenas do passado que procuram o vestido de noiva ideal, me deparei com um programa em que três drag queens formatam, repaginam, requalificam e dão um apigreide na auto estima de uma mocinha meio sem sal.

A premissa não deixa de ser divertida: homens ensinando feminilidade a uma mulher. Claro, não são homens quaisquer, mas homens que se identificam com uma mulher arquetípica, caricatural.

A coisa lembra um pouco Dustin Hoffman se tornando a melhor amiga e dando conselhos para a Jessica Lange em “Tootsie”, ou Tony Curtis fazendo côutchim de Marilyn Monroe em “Quanto mais quente melhor” (esta, por acaso, a melhor comédia de todos os tempos). Com a diferença que Dustin e Tony estavam apaixonados por Jessica e Marilyn, não apenas empenhados em fazê-las levantar, sacudir a poeira e dar a volta por cima.

A primeira tarefa para deixar de lagartear e sair borboleteando é mudar de nome.

Como no poema do T. S. Eliot sobre os gatos, também nós teríamos, além do nome que usamos para as coisas ordinárias da vida, um outro, que só nós sabemos. Esse seria o nome de drag, aquele que dá acesso à Mulher Gato que toda Batgirl queria ser.

O nome de drag, aparentemente, conecta a pessoa a outra dimensão, a um universo paralelo, onde tudo é um tom acima.

Uma coisa é ser Maria das Dores – outra, ser Candy Darling. Charlene Starlight.

Não vi o resto do programa. Mas a mudança de Terezinha de Jesus para Alaska Thunderfuck, por exemplo, já dá uma ideia do que vem a seguir (saltos estratosféricos, seios apontados para o céu como baterias antiaéreas, fendas que deixariam Jessica Rabbit zonza).

Porque uma drag é mais mulher que uma mulher jamais seria.

Pode ser que numa próxima zapeada encontre o reverso deste programa: lésbicas drag kings ajudando um homem a redefinir sua masculinidade. E intoxicando-a ainda mais.

Antes mesmo de parar de se depilar, de usar camisa justa e sapato sem meia, ou de desenhar a barba e tatuar símbolos esotéricos, esses homens deverão olhar para dentro de si e encontrar seu nome de macho.

Porque por trás de cada Breno, Enzo, Cauã ou Gael, há de haver um Ubirajara Pacheco, um Genésio da Fonseca, um Valdemar Peixoto, um Adamastor Valadão, mascando um palito, tomando Caracu, torcendo pro Vasco e coçando as partes.

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