O barulho mora ao lado

vizinho

Ninguém se casa sem namorar.
Ninguém compra carro sem um testidraive.
Os mais esnobes até encenam aquela patacoada de chacoalhar a taça, cheirar e provar fazendo biquinho e fingindo entender de taninos e retrogosto, antes de autorizar que o vinho seja servido.

Para comprar um apartamento, não. A gente acha que basta visitar o imóvel, ver se o taco está firme, se os azulejos não estão estufados, se a maquiagem dos vazamentos está bem feita, a papelada em ordem, pedir um desconto de 10% e já se considera o proprietário de um novo lar, onde será feliz e livre do aluguel para sempre.

Esses compradores, pobres compradores, ah, se soubessem o que eu sei…

Antes de fechar negócio imobiliário, namore, chacoalhe, cheire e faça o testilive.

Não se deixe enganar pela vista, pela ampla varanda, pelo quarto bem arejado, a cozinha funcional, a sanca de gesso, a potência da água do chuveiro. Como diziam os filósofos Ortega e Gasset, o apartamento é o apartamento e sua vizinhança.

Ninguém se casa sem conhecer antes a sogra e o cunhado.
Conheça os vizinhos.

Procure se informar dos hábitos sexuais, etílicos e toxicológicos do vizinho de baixo.
Do gosto musical da vizinha do lado.
Do senso de humor do vizinho de frente.
E se a vizinha de cima tem hábitos noturnos e usa tamancos.

Peça as chaves emprestadas, pegue um colchonete, o pijama, a escova de dentes, e passe uma noite (de preferência a de sexta-feira) no local.
Se conseguir dormir, aí, sim, feche negócio.

Corretores adoram mostrar as maravilhas do condomínio.
A piscina.
A churrasqueira.
A quadra de tênis.
A quadra poliesportiva.

Veja tudo com atenção, repare na manutenção, pergunte sobre as regras de uso – e garanta que seu apartamento fique mais distante possível disso tudo.

Uma churrasqueira não significa que você vá dispor um local onde reunir os amigos para sua festa de aniversário – mas que terá que aguentar o baile fanque da festa de aniversário de todos os outros condôminos, todo sábado e domingo. Cinco ou seis horas contínuas de uma setiliste preparada pelo M.C. Satã em pessoa, tocada numa altura que, se o imóvel fosse na Suíça, a Inglaterra já teria pedido para sair da União Europeia faz tempo.

A quadra poliesportiva não é tudo que você precisava para, finalmente, abandonar o sedentarismo, e bater uma pelada de vez em quando, com uma cervejinha depois, socializando com os novos amigos. É apenas o lugar onde os adeptos da terapia do grito primal se reúnem no fim de tarde para vocalizar todos os sinônimos imagináveis do órgão genital masculino, propagar que a genitora do adversário exerce a profissão mais antiga do mundo, sugerir insistentemente que alguém deva copular consigo mesmo por via anal e outras amenidades de cunho escatológico. Para quem tem filhos pequenos, um apartamento de frente para a quadra poliesportiva é enriquecimento vocabular garantido.

Não deixe de verificar se o apartamento pega o sol da manhã (se for no Rio) ou o sol da tarde (se for em Curitiba).
Que a vaga da garagem não exija dons de contorcionista.
E vá a pelo menos uma reunião de condomínio.

Preste atenção no coronel reformado da PM que quer derrubar a síndica, e nas justificativas que a síndica dá para ter gasto todo o fundo de reserva na manutenção preventiva da decoração de Natal.

Procure saber até onde a água subiu na última enchente.
Leia o livro de reclamações: mais de 5 queixas diárias sobre o elevador, 3 sobre absorventes higiênicos jogados nas áreas comuns e 1 sobre alguém que mantenha 39 gatos em casa devem acender o sinal de alerta.

Pode ser que uma noite de sexta-feira só não baste.
Leve um sabonete, uma toalha, uma lanterna, um galão de água mineral, um pacote de Trakinas (ou Club Social) e acampe no apartamento por uns dias. Uma semana, quem sabe.

Se você tiver a impressão de que:

1. o tranca-rua da síndica não cruzou com o seu espírito de luz;

2. a Lei Maria da Penha precisa ser aplicada a alguns dos casais do prédio em frente;

3. o porteiro não dá a mínima quando você chega – mas te olha de cima a baixo só porque o encanador que você chamou para verificar as instalações desceu assobiando e de cabelo molhado;

repense a transação.

Se a pessoa beijou com boca dura ou de olho aberto, não case.
Se o carro seminovo tem um barulhinho estranho e o vendedor faz questão de falar o tempo todo e ligar o rádio, não compre.
Se a garrafa estava com a rolha ressecada e você sentiu notas de vinagre e retrogosto de dipirona, peça outra.

Não importa se o preço é de ocasião.
Se aceita financiamento da Caixa.
Se fica a duas quadras do metrô e tem farmácia na esquina.

Se no testlive você ficou convicto de que a vizinha de cima tem um rinoceronte de estimação e que ele faz cúper de madrugada, procure outro cafofo.

Um comentário em “O barulho mora ao lado

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