Paraíso

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Só vamos chegar a um estágio civilizatório minimamente aceitável quando médico atender na hora marcada. Nas minhas últimas consultas, o atraso nunca foi inferior a uma hora – com recorde de hora e meia na endocrinologista.

Não sei se há estatísticas confiáveis sobre o percentual de pacientes que marcam consulta e não aparecem, mas não deve ser superior a 75%, obrigando as pobres secretárias a partir para o overbuque e agendar 3 pacientes para cada horário. Isso quando não há encaixe, que é o overbuque do overbuque.

Só vamos nos descolar da barbárie quando nenhum ser humano tiver mais necessidade atávica de bloquear passagem na escada rolante. Com todas as suas carências emocionais supridas, as pessoas vão ficar serenamente do lado direito, deixando livre o esquerdo para quem estiver atrasado, com pressa, precisando exercitar as pernas ou simplesmente querendo exercer o direito constitucional de ir e vir (no caso, só de ir).

Faremos jus a estar no topo da cadeia alimentar quando, no transporte público, a pessoa mais lenta não fizer questão de ser a primeira a sair. Isso vale para ônibus, trem, metrô, velitê, navio, avião, espaçonave, charrete, pedalinho, elevador.

Quando o funcionário mais antissocial, aquele que é uma mistura do mal com atraso e pitadas de psicopatia, não for o escalado para atender o público nas repartições ou fazer a triagem no autoatendimento do Banco do Brasil.

Quando quem estiver de guarda-chuva não ocupar lugar embaixo da marquise.

Quando o/a vizinho/a de cima vencer a compulsão de arrastar móveis todas as noites.

Quando quem gostar de pagode, funk e sertanejo se tornar egoísta e quiser todos os 500 decibéis só para si.

Quando a atendente da Claro que tem uma oferta irrecusável entender que não é não.

Quando os clientes que pegam a fila para compras até 15 volumes descobrirem finalmente a utilidade daquelas aulas de matemática em que se aprendia que 20 > 15.

Quando o motorista que vem atrás interpretar sua seta para a esquerda como sinal de que você quer ultrapassar, não como “ultrapasse logo antes que eu consiga fazê-lo!”.

O nirvana chegará quando todo mundo permanecer sentado com cintos afivelados até que os sinais luminosos tenham sido apagados.

 

(originalmente publicado em 25 de março de 2019)

5 comentários em “Paraíso

  • Na Suíça, só quem atende sem hora marcada é o Pronto Socorro. Médico só recebe quem tiver marcado hora. Caso um paciente deixar de comparecer sem avisar com 24h de antecedência, receberá pelo correio a conta pela falta. A tarifa é uniforme: 50 francos (cerca de 200 reais).

    No dia em que instituírem essa prática no Brasil, o atendimento médico se fará em ritmo civilizado.

    Observação
    Um grande (e aliviado) cumprimento a você, Eduardo, por evitar o estrambótico “agendar”, praga que se alastrou em substituição capenga e aleijada da fórmula consagrada «marcar hora». Já não me sinto o último dos moicanos a fincar pé na expressão desusada.

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  • Na minha cidade as calçadas também tem postes de energia … e as pessoas costumam estacionar exatamente neles, com os braços apoiados, para conversar, fechando toda a calçada… e você tem de ir prá rua para continuar … há pouco tempo uma moto colheu uma senhora nesta triste tentativa de seguir em frente… que alias é outro problema… eles vem tangenciando a calçada, apesar da rua ampla … teve até um que colidiu com o poste para a felicidade da patuléia …

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  • Não por necessidade atávica de bloquear passagem na escada rolante, mas confesso que faço isso, ficando ao lado, no mesmo degrau, de quem está comigo. Vou tentar fazer a minha parte para ajudar a elevar o atual estágio civilizatório.

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