Fora de órbita

mapa-astral

Madame Zorah acordou com um mau pressentimento. O horóscopo que preparara para si mesma no dia anterior garantia uma noite de harmonia no lar e sem surpresas até o amanhecer. Mas, por volta da meia noite, Edgar, que não levantava a voz nem em pensamento, fora tomar água e dera o maior piti por causa das forminhas de gelo vazias. Ele, que só tomava água em temperatura ambiente. Edgarzinho, normalmente alheio a tudo que não fosse jogo de computador, inexplicavelmente tinha se deitado cedo e reclamara de ser acordado. Logo ele, que não deixava ninguém dormir.

A diarista chegou, pela primeira vez na vida, uma hora mais cedo (“para compensar o atraso de ontem, dona Zoraide”) e encontrou o gato no parapeito da área de serviço, acuado pelo periquito.

Antes que a lei da gravidade começasse a puxar as coisas para cima, Madame Zorah correu para sua mesinha de trabalho e começou a refazer os cálculos zodiacais.

Tudo ok com Netuno. Vênus estava onde sempre estivera. Saturno. idem. Plutão, Plutão… por Júpiter, onde tinha ido parar Plutão? Sua casa estava vazia. Respirou fundo. Plutão às vezes era mesmo difícil de encontrar, perdido nos cafundós do sistema em sua órbita maluca. Mas agora tinha era sumido de verdade.

Madame Zorah limpou os óculos, ajeitou a franja, puxou a alça do sutiã e repetiu “isto não aconteceu, isto não está acontecendo, isto não vai acontecer”.

Olhou de novo os mapas e deu de cara com Xena.

Xena? Quem é Xena?

Pois na casa ao lado da que fora de Plutão agora morava Xena. Netuno, o vizinho mais próximo, se comportava de maneira estranha, como se uma tempestade lhe agitasse as profundezas. Mesmo Urano, o chuchu dos planetas, mudara seu trânsito e se arriscava, temerário, em novas quadraturas. Madame Zorah tentou gritar, mas a voz não saiu.

A presença de Xena explicava o mau humor de Edgar – aquele banana – e a inesperada reentrada de Edgarzinho no mundo dos vivos. Mas e a inusitada pontualidade de Marinalva? A resposta acabava de aparecer. Menor que a lua, lá estava Ceres, uma formiguinha cósmica ao lado do paquidérmico Júpiter.

Marinalva não ligara o rádio nos louvores de sempre. Naquele exato momento enchia as forminhas de gelo com água da torneira, toda trabalhada no funk. Era Ceres mostrando a que vinha.

“Meu mundo caiu”, pensou Madame Zorah. Corrigiu: “Meus mundos caíram”. Olhou no jornal o horóscopo que escrevera na véspera, anterior à safra de novos planetas. Tudo errado. Quantos negócios fechados no “bom momento para fechar negócios” seriam agora fechados de verdade? Imaginou-se na porta do Procon, cercada de aldeões com tochas e ancinhos, acusada de charlatanismo. E por um erro literalmente astronômico.

Os pedidos de socorro de Sultão, o angorá, fizeram-na levantar os olhos dos mapas. Omar Cardoso, o periquito, se apossara do pote de Whiskas, da bolinha e da caixa de areia, e mantinha Sultão encurralado no basculante, a um miado da queda livre no poço de ventilação. Madame Zorah teria se precipitado para salvar o gato se não vislumbrasse, naquele instante, outra causa da reviravolta: Plutão ressurgia, timidamente, agora dividindo sua casa com Caronte. Sim, Plutão saíra do armário.

Madame Zorah olhou a pilha de livros esotéricos e de autoajuda, subitamente inúteis. Os disquetes com programas de computador, inapelavelmente obsoletos. Todas as previsões escritas para os próximos meses, peremptoriamente condenadas à lixeira.

Sentiu a cabeça girar numa órbita elíptica e um calor ascendente que a menopausa não explicava. Uma vontade de agarrar Edgar pelo pijama, encostá-lo num quadrante e entrar em conjunção com o elemento ali mesmo, até atingir o zênite, como não faziam desde o nascimento de Edgarzinho, durante o Plano Collor.

Olhou de novo o mapa e.. não! Eram Eris e Sedna que se instalavam no zodíaco, acabando de arrombar a festa.

Madame Zorah (nascida Zoraide Aparecida, sob o que um dia fora o signo de Capricórnio), desmaiou antes de se dar conta de que 2003EL61 e 2005FY9, que nem nome direito tinham, já botavam as manguinhas de fora no zodíaco.

Marinalva se trancara com Edgar e duas forminhas de gelo no quarto de empregada, e, assunto resolvido com Sultão, Omar Cardoso mantinha Edgarzinho como refém, ameaçando cortar a mangueira do botijão de gás com o bico.

Omar Cardoso, outrora um pacato periquito de Touro com lua em Aquário, agora era de Gêmeos. E com ascendente em Escorpião.

 

(Este texto é de 2006, quando Plutão deixou de ser considerado planeta. Na época, se argumentou que, se ele mantivesse o status, um bando de planetoides ((Ceres, Sedna, Eris, Haumea…) também deveria ter o mesmo direito. Como era de se esperar, os astrólogos não deram a mínima para a decisão dos astrônomos. Ou será que…).

2 comentários em “Fora de órbita

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair /  Alterar )

Foto do Google

Você está comentando utilizando sua conta Google. Sair /  Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair /  Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair /  Alterar )

Conectando a %s