O prazer é todo meu

orgasmo

– Me xinga, Marcelo!

– Como é que é?

– Qual parte do “me xinga, Marcelo” você não entendeu?

– Você quer que eu te xingue?

– Sim, Marcelo. É uma fantasia. Pessoas têm fantasias. Minha fantasia neste momento, é que você volte a fazer o que estava fazendo, e me xingue.

– Do quê?

– Do que você quiser, Marcelo. Faz de conta que eu te dei uma fechada no trânsito e me xinga, pomba. Não pode ser tão difícil de entender.

– Mas a gente está fazendo amor, eu não tenho motivo pra te xingar.

– É justamente porque a gente está fazendo um amorzinho legal em vez de sexo selvagem que eu preciso desesperadamente que você me xingue, Marcelo. Eu vislumbrei um orgasmo no horizonte, achei que ele estava acenando pra mim, mas parece é que está dando tchauzinho, e eu sinto, aqui dentro de mim, que só você me fazendo o sangue ferver é que há alguma chance de esse orgasmo não ser abduzido e se perder para sempre, como tantos outros.

– Você devia ter avisado antes de a gente começar. Assim, de improviso, sem motivação, fica difícil.

– Marcelo, eu penso em outros homens quando estou com você. E não é um de cada vez. Eu penso em quem faz segunda voz em dupla sertaneja, em deputados do baixo clero, em aborígenes, em decanos do STF, em figurantes da Record, em sindicalistas. Eu já pensei no homem de Neandertal. Eu fecho os olhos e imagino o subsíndico, o atendente de telemárquetim da Tim, o testemunha de Jeová que vem aqui todo domingo de manhã. Eu só estou te pedindo que me dê uma fantasia, qualquer que seja, porque as minhas se esgotaram nesses vinte e sete anos de casamento. Eu não tenho mais para onde apelar.

– Entendi, entendi. Ok. Posso ir?

– Vai.

– Gorda!

– Como é que é?

– Gorda. Você pediu algo que fizesse seu sangue ferver, eu te chamei de gorda. Não é um xingamento, mas…

– Gorda, Marcelo? Você acha que eu sou gorda?

– Amor, é só uma fantasia. Eu sempre tive tesão em mulher cheinha, bem fornida, mas você vive em dieta e…

– Marcelo, depois de vinte e sete anos você vem me dizer que estou gorda??

– Eu não disse que você está gorda! É uma fantasia! Eu só te chamei de gorda porque você…

– Porque você acha que eu estou acima do peso? Você não sabe que a última coisa que se deve dizer a uma mulher é que ela é gorda – principalmente se ela, mesmo não sendo, se sentir gorda?

– Amor, foi “gorda” do bom sentido. Eu sempre te disse que gostava mais quando você era menos magra. Você queria que eu fizesse seu sangue ferver e…

– Eu só queria que você criasse um clima, e você estragou tudo. Sai daí, seu… seu…

– Amor…

– Nunca mais encoste a mão em mim, Marcelo! Você é um machista retrógrado egocêntrico, que pensa só pensa si mesmo.

– Para com isso, que você está me ofendendo…

– Um macho abjeto, centrado nessa sua masculinidade tóxica. Um falocrata!

– Marlene, você está passando dos limites.

– Um lacaio do imperialismo, um pequeno burguês que se compraz com micro agressões!

– Não fala assim comigo, sua… sua…

– Isso, tá funcionando. O orgasmo parece que pegou o retorno e tá voltando. Vem, Marcelo! E deixa que de agora em diante só eu falo!

(Em comemoração ao 31 de julho, Dia do Orgasmo)

Nada Além

espirita

Quando eu morrer, assim que chegar do lado de lá e confirmar que não há lado de lá, faço questão de baixar em algum centro só para dar a má notícia.

– Se houver algum espírito entre nós, que se manifeste.

– Não tem espírito nenhum porque espírito não existe. Vim só para dizer que não tem nada do lado de cá. O Além é uma ilusão.

– Se não tem nada desse lado daí, onde é que tu estás?

– Em lugar nenhum. Ateus são como a Buzina do Chacrinha: acabam quando terminam. Morreu, zefini. E não precisa me tratar na segunda pessoa porque sei que este centro é em Magé, não em Bagé.

– Mas se tu, quer dizer, se você acabou e não está em lugar nenhum como é que estamos conversando neste momento. Não faz sentido…

– Exatamente. Sabe qual a diferença entre o unicórnio de 4 chifres e o de 7 chifres?

– Um tem 3 chifres a mais.

– Não, não tem diferença nenhuma. Nenhum dos dois existe. Você estar falando agora com um espírito ateu inexistente é a mesma coisa de estar falando com um espírito de luz, que também não existe. É tudo uma projeção do seu inconsciente, tudo sua imaginação.

– Você está insinuando que isto aqui é uma armação?

– Uma armação, eu não digo. Um delírio, com certeza. Mas acredito que seja uma forma de consolar as pessoas, e nada mais consolador que a fantasia. Então, tá de boa.

– Mas não tem mesmo nada aí?

– Nadica.

– “Nosso lar” então era…

– … licença poética. Onde já se viu passarela para espírito, que não tem corpo, ter guarda-corpo? Tinha que ter guarda-espírito…

– É que os espíritos…

– Nem vem. Espírito é espírito, corpo é corpo. Uma coisa é o relógio, outra é a corda do relógio.

– Você não está comparando a alma humana com a corda do relógio, está? A corda é uma coisa mecânica…

– … e a alma é uma coisa química. Ou quer que eu acredite que, quando um relógio para, a corda do relógio vai para a “Nossa relojoaria”, onde continua tendo a forma de despertador, cuco, carrilhão, Casio, Rolex? E que depois um reloginho desses de ponteiro, se nunca tiver se atrasado na vida, pode reencarnar – quer dizer, reenrelojar – num relógio digital ou mesmo num celular…. me poupe.

– Mas é que a alma, o espírito, o perispírito, a psique, princípio vital…

– Mano, eu só vim para avisar que vocês vão se decepcionar quando chegarem aqui e não for nada do que imaginam. Porque aqui não existe. É só um imenso Nada, um Nada absoluto. Até eu, que sabia que ia encontrar o Nada fiquei abismado com um o tamanho do Nada que encontrei. Vazião mesmo.

– Ok, o papo tá ótimo, mas tem outros ectoplasmas na fila de espera para se manifestar e o pessoal aqui do centro tá ficando meio indócil com essa nossa conversa. Ide em paz, espírito ateu!

– Valeu, irmão! E obrigado pela segunda do plural. Pena que não exista nenhum centro espírita ateu. Ia ser divertido baixar lá com Freud, Einstein, da Vinci, Hawking, Sagan, Sartre, Niemeyer – que também chegaram aqui, não encontraram nada e vão passar o resto da eternidade sem uma corrente pra arrastar, uma cartinha para ditar, uma gira para animar, uma casa mal assombrada pra assombrar. Pensando bem, inexistir tem suas vantagens. A gente descansa. Fui!

– Já vai tarde. (Suspira fundo) Desculpem, irmãos. Tivemos uma interferência aqui na conexão com o Além, que já foi restabelecida. Tem alguém aqui cujo nome começa com a letra M? O espírito de um ente querido tem uma mensagem de paz para você…

Drag me as a king

macho macho

Zapeando entre uma guerra de confeiteiros ciganos anões e uma pesca mortal das Kardashians no Serengeti, entre um monstro do rio largado e pelado e alienígenas do passado que procuram o vestido de noiva ideal, me deparei com um programa em que três drag queens formatam, repaginam, requalificam e dão um apigreide na auto estima de uma mocinha meio sem sal.

A premissa não deixa de ser divertida: homens ensinando feminilidade a uma mulher. Claro, não são homens quaisquer, mas homens que se identificam com uma mulher arquetípica, caricatural.

A coisa lembra um pouco Dustin Hoffman se tornando a melhor amiga e dando conselhos para a Jessica Lange em “Tootsie”, ou Tony Curtis fazendo côutchim de Marilyn Monroe em “Quanto mais quente melhor” (esta, por acaso, a melhor comédia de todos os tempos). Com a diferença que Dustin e Tony estavam apaixonados por Jessica e Marilyn, não apenas empenhados em fazê-las levantar, sacudir a poeira e dar a volta por cima.

A primeira tarefa para deixar de lagartear e sair borboleteando é mudar de nome.

Como no poema do T. S. Eliot sobre os gatos, também nós teríamos, além do nome que usamos para as coisas ordinárias da vida, um outro, que só nós sabemos. Esse seria o nome de drag, aquele que dá acesso à Mulher Gato que toda Batgirl queria ser.

O nome de drag, aparentemente, conecta a pessoa a outra dimensão, a um universo paralelo, onde tudo é um tom acima.

Uma coisa é ser Maria das Dores – outra, ser Candy Darling. Charlene Starlight.

Não vi o resto do programa. Mas a mudança de Terezinha de Jesus para Alaska Thunderfuck, por exemplo, já dá uma ideia do que vem a seguir (saltos estratosféricos, seios apontados para o céu como baterias antiaéreas, fendas que deixariam Jessica Rabbit zonza).

Porque uma drag é mais mulher que uma mulher jamais seria.

Pode ser que numa próxima zapeada encontre o reverso deste programa: lésbicas drag kings ajudando um homem a redefinir sua masculinidade. E intoxicando-a ainda mais.

Antes mesmo de parar de se depilar, de usar camisa justa e sapato sem meia, ou de desenhar a barba e tatuar símbolos esotéricos, esses homens deverão olhar para dentro de si e encontrar seu nome de macho.

Porque por trás de cada Breno, Enzo, Cauã ou Gael, há de haver um Ubirajara Pacheco, um Genésio da Fonseca, um Valdemar Peixoto, um Adamastor Valadão, mascando um palito, tomando Caracu, torcendo pro Vasco e coçando as partes.

O peixinho que não sabia nadar

fish

Vinte e tantos anos atrás, quando começaram a me nascer sobrinhos por todos os lados, resolvi que ia escrever livros infantis para eles.

É que sempre achei livros infantis um tanto… infantis demais.
Já achava isso quando era criança.
Não me identificava com aquela prosa tatibitate, com as ilustrações toscas, que me tratavam como se eu fosse uma… criança.

Queria que meus sobrinhos tivessem algo além do que eu tive.
Não tiveram, porque dei com os burros n’água: literatura infantil não é pra principiante.

Agora que os sobrinhos já estão me arrumando sobrinhos-netos, volta a vontade de escrever para eles, e retomar o projeto.

Quem sabe não aparece um ilustrador, não me vêm novas ideias, e a coisa, finalmente, deslancha?

Fui atrás do que escrevi lá no início dos anos 90- e talvez algo ainda se aproveite. Como, por exemplo…

O PEIXINHO QUE NÃO SABIA NADAR

Era uma vez um peixinho
que não sabia nadar

Vivia junto da praia
e tinha medo do mar.

Usava boia, o peixinho,
para poder flutuar

Comprou até pé-de-pato
mas não tinha como usar.

Seus colegas de cardume
iam pra lá e pra cá

Entretanto, o tal peixinho
não saía do lugar.

Tinha medo de baleia
e até de estrela do mar

Só de pensar em mergulho
sentia falta de ar.

E então a maré subiu
a ponto de transbordar

E lá se foi o peixinho
numa onda, para o mar.

As barbatanas tremiam
como se fossem voar

De susto, bateu o rabinho
e deslizou devagar.

Viu os cascos de navios
tesouros do fundo do mar

Sereias, conchas, golfinhos
– e nadava sem parar.

Fez logo um monte de amigos
além de se apaixonar

E com um cavalo marinho
saía pra cavalgar.

Nunca mais ficou sozinho.

Nem parecia o peixinho
que um dia, pequenininho,
tivera medo do mar.

 

(publicado originalmente em 28 de julho de 2016)

Seres fictícios

Seres ficticios

“Pela invasão do meu celular e pelas mensagens enviadas, imaginei que se tratasse de alguma armadilha montada por meus adversários políticos. Por isso, apesar de ser jornalista e por estar apta a produzir matérias com sigilo de fonte, repassei ao invasor do meu celular o contato do reconhecido e renomado jornalista investigativo Glenn Greenwald. ” (Manuela D’Ávila, ex-deputada pelo PC do B e ex-candidata a vice-presidente da república)

Eu também sou assim.
Quando meu telefone é invadido, eu repasso ao invasor o contato de algum reconhecido e renomado jornalista investigativo, em vez de avisar à polícia e à operadora.

E se eu fosse um reconhecido e renomado jornalista investigativo, divulgaria de forma seletiva apenas aquilo que pudesse ser do interesse do meu partido, sem questionar se a informação fora obtida por meios lícitos e, claro, sem oferecer nada em troca, além do anonimato – e da cortina de fumaça de a fonte ter sido um “whistle blower” (é impossível aportuguesar isto, por enquanto).

O araponga de Araraquara raqueou por esporte o ministro do STF Alexandre de Moraes, o ministro Sergio Moro, os ex presidentes Lula e Dilma, o ex-governador Pezão, o ex Procurador-Geral da República Rodrigo Janot, o procurador Deltan Dallagnol e outros menos votados (mais ou menos umas mil pessoas). E repassou, graciosamente, as conversas que considerou “de interesse público” – que eram (vejam só!) só as da tchurma da Lava-Jato.

Eu também, se fosse um sujeito sem ocupação definida, com seis processos na Justiça por crimes de estelionato, furto qualificado, apropriação indébita e tráfico de drogas (com duas condenações) e tivesse em mãos um material desses, entregaria as informações em nome do interesse público, sem pedir nada em troca.

Afinal, mesmo para quem vive de golpes, o dinheiro não é tudo. Onde é que ficam o altruísmo, o idealismo, o senso de dever cívico?

Não sei como alguém consegue ver algo de errado nisso tudo.

Deve ser porque não estamos acostumados a ráquers golpistas patriotas, deputadas sensatas e gentis, e jornalistas investigativos escrupulosos.

Fama & prestígio

poder

Fama vem do grego “pheme”, que quer dizer simplesmente “notícia” – ou fala, rumor, reputação. O verbo “phánai” significava “espalhar pela palavra”.

Famoso é aquele (ou aquilo) de quem se fala – não necessariamente bem (para os mal falados se inventou a palavra “infame”).

Em Roma, o status de uma pessoa era definido não só pela fama, mas também pelo seu poder e seu prestígio.

Poder (do latim “potis”) quer dizer “ser capaz de” e deriva do grego “pótis” (“marido”) e “despotés” (“senhor, chefe da casa”, de onde se originou “déspota”). Sim, “poder” é uma palavra machista, mas fazer o quê, se as próprias feministas se apoderaram (!) dela quando resolveram se empoderar?

Prestígio é que é boa reputação. Mas não devia: vem de “praestigiae” (“truques, atos de destreza, de malabarismo”). Originalmente, era sinônimo de engano, ilusão, obra dos mágicos, dos prestidigitadores. Daí ter ganho o sentido de impressionar, ter influência sobre os outros.

Em Roma, era preciso o pacote completo (ser falado, obedecido e causar boa impressão), cercando pelos 3 lados. Hoje, basta um desses atributos e a pessoa já se acha uma celebridade (do latim “celebritas” = “multidão, muito repetido”).

A fama (o equivalente a “ser notícia”) às vezes depende de esforço. Outras, do acaso. Ou até da desgraça.

Quem tem mais de 60 se lembra de quando Penha e Pavuna eram famosas – uma, por causa de uma fera; outra, por uma noivinha.

Abadiânia de Goiás ficou famosa por fenômenos paranormais (ou apenas anormais). Varginha, por fatores extraterrestres.

Atibaia, pelo sítio de um amigo. Araraquara, por uns arapongas de araque.

A Ladeira do Sacopã deve sua fama a um crime. A Rua Tonelero, a um atentado. O Carandiru, a um massacre.

Taubaté, a uma grávida e uma velhinha. Bagé, a um analista. Ipanema, a uma garota.

Andy Warhol, na década de 60 (muito antes do insta e das selfies e dos digital influêncers) disse que “um dia, todos terão direito a 15 minutos de fama” (não necessariamente de poder e de prestígio).

Já morei em lugares famosos – sem precisar me mudar para Beverly Hills, Notting Hill ou Manhattan. Lugares que tiveram só seus 15 minutos mesmo.

Unaí poderia ser famosa pelo seu calor diabólico, seus flamboiãs e cajueiros, sua pamonha salgada, seu requeijão moreno, suas pelotas de cabrito. Mas chegou ao Jornal Nacional por uma chacina, quando o prefeito mandou matar 4 fiscais do Ministério do Trabalho.

Andrelândia merecia manchetes pelo frio do cão, o casario colonial, a procissão de Corpus Christi, o sítio arqueológico, os “veados” e “caranguejos” (um dia eu explico). Mas ganhou fama efêmera por uma seita que escravizava seus fiéis.

Esmeraldas tem a Folia de Reis, a Fazenda Santo Antônio, os mascarados no Carnaval, um dialeto próprio (ô bondade!), mas só se ouviu falar dela quando o goleiro Bruno a escolheu para cenário de um assassinato e o sumiço de um corpo.

Fama era também uma deusa romana, mensageira de Júpiter. Tinha asas enormes, com um olho em cada pena. E tantas bocas e orelhas quantos olhos, e voava sem descanso, espalhando mentiras e verdades, misturadas.

Essa fama eu queria. Nem que fosse para tornar mais sincrético meu altar doméstico, que já conta com Sf. Ioan cel Nou de la Suceava (São João de Suceava), Nossa Senhora de Luján, São Jorge e Iemanjá.

O poder só me interessaria se viesse junto com o amor – mas o amor e o poder parecem fora de cogitação, agora que a Rosana (apesar das dedicatórias apaixonadas de 10 anos atrás) nem se lembra mais de mim.

E queria prestígio também. Mas aquele com recheio de coco e cobertura de chocolate.

Deu bode

maconaria

Meu pai era maçom. Nunca soube muito bem o que significava isso. Mas sabia que era como ser de capricórnio – algo que eu nunca seria.

Havia a lenda de que os maçons se reconheciam à distância, como os cachorros. Mas era só um toque de mão, um jeito de cumprimentar, de coçar a orelha, ou três pontinhos ao final da assinatura. Coisas assim, bem mais banais. Como as formigas, batendo as antenas. Abelhas dançando no ar.

Tinham segredos.
Montavam bodes.
Faziam pactos de sangue.
Adoravam o diabo.

Não conseguia ver meu pai fazendo nada disso, principalmente montar um bode. Então nunca levei essas crendices muito a sério.

Mas gostavam, sim, de símbolos.
E de roupas estranhas.
Aventais.
Babadores.
Anéis.

Não conseguia imaginar meu pai de avental, como minha mãe, e de babador, como meu irmão caçula.

Mas isso não queria dizer nada, porque eu tampouco conseguia imaginá-lo fazendo sexo com minha mãe – eu tinha doze anos, já tinham me contado tudo na rua, e, como éramos cinco filhos, eu sabia não apenas que já tinham feito, como que não fora uma vez só.

Mas entre acreditar e conseguir imaginar vai uma boa distância.

Eu via os maçons como uma espécie de templários genéricos, fora de época, sem armadura, sem cavalos, sem jerusaléns a conquistar.

Seu templo era, naquela época, uma série de valetas escavadas no terreno baldio em frente à nossa casa, onde seriam as fundações da sua Loja.

Brincávamos por ali, tentando adivinhar onde era a sala da caveira, o calabouço, a sala do bode.

Só quando começaram a subir a construção é que perceberam que havia um erro no projeto. O engenheiro rabiscara a planta apenas com linhas, sem considerar a espessura das paredes.

Com 50 cm perdidos nas alvenarias externas, mais 15 descontados aqui, 15 esquecidos ali e outros 15 acolá, as salas menores se tornaram corredores.

Alheios às sérias discussões dos adultos sobre como resolver o problema e salvar a Loja, brincávamos do mesmo jeito no corredor da caveira, no corredor do calabouço, no corredor do bode.

Nisso que dava acreditar num Supremo Arquiteto do Universo e contratar um engenheiro na hora de fazer o projeto.

Você sabe que está ficando velho quando…

bifocal 2

Você sabe que está ficando velho quando começa a reparar a idade das pessoas que morreram. E achar que morreram novas.

– Nossa, morreu tão nova! 79 anos…

Logo você, que outro dia mesmo não confiava em ninguém com mais de 30.

Envelhece em escala industrial quando descobre que seus heróis não morrem mais de overdose, mas de velhice. Como o David Hedison, outro dia mesmo pilotando o Seaview (que eu jurava que era Civil) ao lado do Almirante Nelson, e de repente morrendo aos 92 anos. Como é que alguém passa assim, dos 37 aos 92 anos, de uma hora pra outra, sem escalas?

Você está ficando – inexoravelmente – velho quando (exceto na fila do banco ou no exame de próstata) o tempo começa a passar rápido demais.

Você sabe que está ficando velho quando acha que todo mundo tem cabelo demais. Disposição demais. Barriga de menos.

Quando não precisa mais se preocupar com a pílula ou com manter a depilação em dia. Ou quando tintura para cabelo já faz parte da cesta básica.

Você sabe que está ficando velho quando começa a suspirar.

– Ai, senhor, misericórdia!
– Que foi, vó?
– Nada. Por que?

Era só um suspiro.

E para haver um último suspiro tem que começar a haver os primeiros.

Você está ficando velho quando ainda acha que “caralho” seja palavrão. E a velhice é irreversível se continua acreditando que “pentelho” também seja.

Está envelhecendo a olhos vistos quando procura os óculos com os óculos bem ali, apoiados no seu nariz. Ou (pior!), pendurados no pescoço com uma correntinha de plástico.

Está ficando velho quando já sabe onde ficam as coisas na farmácia e o conhece os genéricos pelo nome completo.

Ainda não é velho de todo se vai à farmácia e pede Viagra e Isordil (não necessariamente nesta ordem, nem no mesmo dia). Mas se o diálogo for:

– Tudo bom, Marleide? Me vê aí dois dinitrato de isossorbida e uma caixinha de citrato de sildenafila. Com 8.

aí o você já está mesmo de meio dia pra tarde .

Isso se o citrato for o de 50 mg. Se for o de 100 mg, esquece o dinitrato ou logo alguém tão velho quanto você vai olhar sua foto no obituário e dizer:

– Nossa, morreu tão novo! 69 anos…

E você sabe que já parou de começar a ficar velho e ficou velho de vez quando começa a escrever textos com “você sabe que está ficando velho quando… ”.

Enquanto ainda rir (ou sorrir) com esse tipo de texto, você está apenas ficando velho. Quando parar de achar graça, te prepara porque a velhice pode ainda estar a caminho, mas a rabugice (que é pior que a velhice) já chegou.

Manhole

manhole

O que mais gosto no politicamente correto é o labirinto no qual ele mesmo se perde.

Devemos deixar de usar a palavra “homossexualismo”, que teria conotação de doença (reumatismo, raquitismo, sonambulismo) e passar a utilizar a neutra “homossexualidade” (como em privacidade, capacidade, honestidade).

“Homossexualite” talvez fosse injustificável, já que o sufixo “ite” indica doença, inflamação (bursite, labirintite, faringite, conjuntivite). Ou “homossexualose” (“ose” é sufixo indicador de doença não inflamatória: neurose, cirrose, mononucleose, lordose, tuberculose). Ou homossexopatia (“patia” se refere a processo mórbido: cardiopatia, encefalopatia, psicopatia ou até mesmo antipatia).

Ocorre que “ismo” não indica apenas condição patológica. Ou será que são doenças o feminismo, o lirismo, o iluminismo, o romantismo? E qual a parte boa e neutra da crueldade, da infidelidade, da infelicidade e de todas as calamidades?

Mudemos, então, o feminismo para feminidade – e o machismo para machite, machose ou machopatia (dependendo de considerar se a coisa é inflamatória, não inflamatória ou apenas doentia).

Palavras derivadas de “pênis” deveriam ser evitadas. Nada de ir de penetra numa festa, ou “penetrar surdamente no reino das palavras” (como sugeriu o Drummond), ou mesmo passear na península ibérica (ainda que “península”, por mais que seja um trecho de terra penetrando o mar não tenha nada a ver com pênis, mas com “pæne” (quase) e “insula” (“ilha”). Mas as feministas que querem abolir a palavra “península” não sabem disso.

“Vagina” seria outro termo a substituir. Sua origem é a mesma de bainha (não a da calça ou da saia, mas o recipiente onde se guardava a espada). Existiria não por si mesma, mas como receptora do órgão masculino. O politicamente correto é “vulva” (ainda que vulva e vagina sejam coisas distintas: a vagina é o tubo que liga a vulva ao cérvice e ao útero). Mal sabem que “vulva” vem de “volva” (aquele ou aquilo que envolve). Trocaram seis por meia dúzia.

Deveriam ser abolidas todas palavras carregadas de machismo estrutural. Alguns grupos feministas (ops, grupos femininadistas) já chamam seus encontros de “ovulários”, porque “seminário” deriva de sêmen (palavra seminalmente machista).

Mas “sêmen” vem do latim “semen”, que significava semente, o grão que se semeava; “óvulo” vem do mesmo idioma: “ovulum”, diminutivo de “ovum”, que significa “ovo”. O seminário é onde se semeiam ideias; um ovulário me soa ao lugar onde nascem ideias de chocadeira.

Já nos livramos (ainda bem) de expressões como “belo sexo” ou “sexo frágil”. Já ninguém se sente nas nuvens ao ser chamada de “rainha do lar” e ganhar um liquidificador ou um jogo de panelas no aniversário. Mas “abrir as pernas” ainda é sinônimo de se submeter, de não ter o controle de uma situação.

Falta muito para caírem em desuso as expressões sexistas (homem não chora, coisa de mulherzinha, falar grosso, mulher direita, seja homem, bom pra caralho). Essas, sim, são expressões que ajudam a perpetuar estereótipos.

Mas até que temos sorte, porque nos Estados Unidos se discute se não seria machismo haver a palavra “man” dentro da palavra “woman”; se “mankind” (humanidade) não deveria ser trocada para “peoplekind” (para não ser exclusividade dos “man”) e se quando uma mulher for gerente deva ser chamada de “womanager“ em vez de “manager”. Que mania (ou womania…) de ver machismo em tudo!

Em Berkeley (ver linque abaixo), tiraram o “man” de “craftsmen” (artesãos), para virar “craftspeople”. E “repairmen” (reparadores) virou “repairers”. Mas será que não teriam que tirar a palavra “pair” (par) para deixar de conter discriminação contra os solteiros?

A essa brava gente que, armada de sufixos e falsos cognatos, luta para criar um mundo mais justo, fica aqui minha sincera homenagem (e mulheragem).


Cidade dos EUA vai mudar palavras para que fiquem com neutralidade de gênero

Arial 10

caligrafia

Descobri que não sei mais escrever à mão. Virei analfabeto caligráfico: só sei assinar meu nome, e olhe lá. A descoberta se deu por acaso: enquanto tomava o café da manhã, me ocorreu uma ideia que achei que renderia um texto, mas como escrever se não havia nenhum computador por perto? Sim, eu tinha papel e caneta – só que em questão de segundos ficou claro que a coisa não ia funcionar. Minha mão se arrastava em câmera lenta, deixando um rastro de garranchos para trás – bem diferente da rapidez a que estou acostumado com o teclado e da beleza da minha letra no monitor (caprichada, tipo Arial, corpo 10).

As ideias começaram a me atropelar. Minha cabeça já tinha terminado o primeiro parágrafo, ia célere rumo ao segundo, e lá estava eu, ainda rastejando com a caneta num arremedo de escrita, tentando arrematar a primeira frase.

Aprendi a digitar tão rápido quanto penso (ou a pensar na velocidade em que digito, sei lá), e agora minha mão pesava, me abrigando a reduzir o passo, a pensar ANTES de escrever – coisa que todo mundo que escreve devia fazer, mas que eu definitivamente já não sei mais como se faz. No computador, a palavra praticamente se materializa à minha frente na medida em que surge a ideia – e depois é que vou ver o que fazer com ela. Como é que se faz isso à mão? E não sei se alguém já se deu conta disso, mas a bic não tem corretor ortográfico!

Na faculdade de Arquitetura, todos, de uma forma ou de outra, acabam tendo a mesma letra. Minha mãe chegou a me interpelar uma vez, perguntando por que é que eu estava mandando cartas para mim mesmo (a letra no envelope endereçado a mim era igualzinha à minha, e eu mesmo teria dificuldade em saber se era minha ou não). E só se usava letra de imprensa. A cursiva, que lutei anos a fio para aprimorar, a custa de cadernos e mais cadernos de caligrafia, foi definitivamente aposentada então. Meus rebuscados erres, meu elegantes éles, meus sinuosos ésses, tudo jogado fora, em nome de um estilo mais adulto, mais estiloso.

Na vida profissional, a máquina de escrever e, depois, o computador, redigiram o atestado de óbito da cursiva, agora reduzida a garatujas que nem mesmo eu consigo entender. Mas houve ganhos: meu G e meu J minúsculos viraram uma coisa só, acabando com a eterna dúvida sobre como escrever laje, jiló, jeito, viagem, beringela (ou será berinjela?). Infelizmente, ainda não consegui nada similar para o Ç e o SS, mas acho que não demora para que todas as consoantes tenham o mesmo aspecto (o que já acontece com as vogais), e aí os problemas de ortografia estarão resolvidos. Restará o desafio, muito maior, de entender o que está escrito. Mas isso fica para depois.

Claro que de nada serviu a inspiração matinal: o tal texto morreu antes de concluída a primeira frase – e nem sei mais do que se tratava. Temo que vários outros textos venham a ter o mesmo destino, já que bani da minha vida pessoal o computador e a internet. Nada mais de café da manhã conectado, com gotas de geleia e farelo de pão no teclado. Nada mais de sono adiado, navegando à deriva. Nunca mais da velha desculpa de ligar a internet “só pra ver os e-mails” e ficar folheando saites os mais absurdos. Não. A internet é a sereia dos tempos modernos: te atrai e te arrasta ao fundo. Melhor não tê-la por perto, ao alcance de uma senha. E para não cair em tentação, só não tendo sequer computador em casa. Mas sem o computador, como escrever?

Terei que me realfabetizar para a escrita manual. Ainda existirão cadernos de caligrafia? Conseguirei escrever tão rápido quanto exigem os meus neurônios? Será que ainda tenho na estante aquele velho Aurélio, já desencadernado, para substituir o google e o corretor? Mesmo que não o tenha descartado, ele é anterior à bendita reforma ortográfica, e agora tão obsoleto quanto os do meu avô, que ainda definiam pharmácia, lyrio, commércio, facto, omnibus.

Sem contar que, depois que escrever à mão, terei que digitar tudo no computador para postar aqui – pelo menos até juntar coragem para criar um blogue. Não, é trabalho demais. Melhor manter a mente ocupada quando não houver computador por perto. As ideias, se quiserem virar texto, que não apareçam na hora errada. Que me esperem chegar ao escritório e haver uma brecha no trabalho, um pouco de silêncio, e uma necessidade incontrolável de, como agora, escrever um pouco sobre o nada.

 

(originalmente publicado em 29 de novembro de 2012)