Incidente diplomático

Chapa

– Sr. Modesto Araújo, quero te apresentar aqui o novo chapeiro.

– Mas, seu Jaílson, esse não é o…

– Ele mesmo, o Ednardo. Meu filho.

– Ele tem experiência com chapa, fritura, essas coisas?

– Ele é diplomata. Fez Instituto Rio Branco. Foi embaixador na China. E já comeu pastel frito, não comeu, Ednardo?

(Ednardo concorda com a cabeça)

– Pois é, já comeu. E comeu na China, onde fritam muito pastel. É o chapeiro ideal para a JB Lanches.

– É que pastel não é feito na chapa…

– Modesto Araújo, você não está entendendo. Ele é meu filho. Portanto, está mais que qualificado para o posto de chapeiro.

– É que o fato de ele ser um diplomata, será que não vai atrasar um pouco o serviço? Ele pode querer negociar o hambúrguer bem passado por um ao ponto, não chegar nunca a um acordo com o cliente se o ketchup tem precedência sobre o alface, e aí a fila não anda…

– Com meu filho de chapeiro aqui, quando o presidente da França vier comer uma esfirra, vai falar direto com ele, sem nem fazer o pedido no caixa. Se for um sheik saudita, ele frita a coxinha de acordo com os preceitos do Alcorão. De protocolo ele entende. E de cerimonial. Ele sabe que o canudo fica à direita do copo de refrigerante e os sachês de mostarda vêm hierarquicamente embaixo dos de maionese.

– O senhor é que manda, seu Jaílson. Eu sou só o gerente desta franquia da JB Lanches. Se o senhor diz que o seu filho embaixador vai ser um bom chapeiro…

– Ele fala “quibe” e “esfirra” em vários idiomas Sr. Modesto Araújo. Fala aí “quibe” e “esfirra” em árabe, Ednardo, pro Modesto ver que você é a pessoa mais capacitada para o cargo.

(Ednardo tosse, coça a cabeça e começa a balbuciar alguma coisa.)

– Viu como ele fala? Vai lá, meu filho, que a chapa é tua. E se o pessoal do RH criar algum problema, é você quem vai pra chapa, Modesto, e ele fica de gerente.

(Modesto Araújo abaixa a cabeça, resignado. Gritos atrás do balcão. Era o pessoal do RH com o Bepantol na mão tentando – tarde demais – explicar pro embaixador Ednardo que a chapa é quente).

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19 de julho

Helder
Mãe e filho em 2014

 

Minha mãe me acordou.

– Vá chamar a parteira.

Com certeza já tínhamos telefone, talvez a parteira é que não tivesse.

Desci as escadas, dobrei à direita, passei pela praça, pela matriz, desci a Rua do Comércio, atravessei a linha, tomei o rumo do Bairro de Lourdes.

Daí a pouco voltávamos, eu e a parteira. Fui dormir de novo e só acordei de madrugada, com um choro de criança.

Minha mãe estava deitada, suada, com um bebê nos braços.

Não me lembro de ter sentido nada, de ter dito nada. Era só um bebê, ainda sem nome, que chorava. Um menino (mais um! e ela queria uma menina).

A parteira voltou para casa sozinha, ou chamou um táxi, ou dormiu por lá mesmo, não sei.

Meu pai, como nos quatro partos anteriores, não estava por perto. Não estava em casa, nem na mesma cidade.

Voltei a dormir e acordei com o dia já claro. Vi um dos meus irmãos, de 4 anos (até a véspera, o caçula), de pé no parapeito da varanda (nossa casa era imensa, e ocupávamos os quartos do segundo andar). Tinha uma toalha de banho amarrada no pescoço, como quando brincávamos de super-herói.

– Pula. Você voa – insistia meu outro irmão, um ano mais novo que eu.

E ele tinha medo de não voar, e não pulava.

– Pula!

E estava prestes a ser empurrado para o voo quando minha mãe surgiu na porta, arqueada como se tivesse 100 anos.

Agarrou pela toalha o que estava no parapeito e pelos cabelos o outro, o que o instigava a voar.

E bateu nos dois.

Até se cansar. Até não conseguir mais levantar a mão.

Então voltou para a cama, se apoiando nas paredes, abraçou o recém-nascido e chorou.

Chorou mais que todos.

Chorou pelo filho que ganhara horas antes e pelo que, por pouco, não perdera horas depois.

Chorou por estar sozinha, com 5 filhos em casa. (Talvez estivessem ainda ali a parteira, ou alguma das empregadas, não sei. Mas era o choro de quem estava visceralmente sozinha.)

Chorou por estar dolorida do parto. Chorou pela caminhada trôpega até a varanda. Chorou pelo esforço do salvamento e da surra.

Chorou porque sabia que não poderia morrer pelos próximos 20 anos, pelo menos, até o novo caçula, o temporão, estar “criado”.

Chorou por tudo que não tinha chorado e não tornaria a chorar – não creio jamais tê-la visto chorando, antes ou depois.

Chorou porque era uma mulher que não chorava.

Isso foi há 51 anos.
Num 19 de julho, como este de hoje.

(para o Hélder, o que nasceu; o Hubbley, o que não voou; e para minha mãe, que talvez tenha esgotado ali todas as lágrimas)

Alice Gonzaga e o país da memória

Alice

Confira a coluna de hoje n’O Globo:

Alice Gonzaga e o país da memória

 


 

Conheci Alice Gonzaga através da Patricia Queiroz. Já era amigo virtual da sua filha, Maria Alice.

Com a internet, caiu por terra a teoria dos “seis graus de separação”. Conhecer Alice é estar a um passo, no máximo dois, de Tyrone Power, Douglas Fairbanks, Carmen Miranda, Humberto Mauro, Rossana Ghessa, Ana Maria Magalhães, Charles Chaplin, Oliver Hardy & Stan Laurel, Dulcina de Moraes, Mário Peixoto, Oscarito, Grande Otelo, Orson Welles.

O que para nós, cinéfilos, é a história do cinema, para Alice é o cotidiano. Não são nomes: são pessoas com quem conviveu diretamente, ou das quais soube através de seu pai, Adhemar Gonzaga, fundador da Cinédia.

Alice é uma enciclopédia, uma cornucópia. Há um documentário sobre ela (“Desarquivando Alice Gonzaga” (de Betse de Paula). Deveria haver um longa metragem, contando a trajetória da menina que pintava cenários, esteve diante das câmeras, conheceu os bastidores e hoje é guardiã da memória de um tempo em que São Cristóvão foi uma espécie de Hollywood.

O texto de hoje, n’O Globo, é uma homenagem a quem, com zelo e memória prodigiosos, cuida para que parte da nossa cultura não caia (ou queime, ou seja soterrada) no esquecimento.

Progressistas do passado

smith

Fala-se tanto em inclusão, diversidade, representatividade, mas só pode ser gente que ainda não era nascida nos anos 60 e tem a impressão que o planeta sempre foi reacionário, quadrado e careta.

O Gordo e o Magro viviam juntos. Dormiam na mesma cama, inclusive. E era a coisa mais normal do mundo. Isso nos anos 40.

Acha pouco?

Moe, Joe e Larry não eram tão patetas quanto se imagina: também coabitavam e dividiam o leito, num esquema de poliafetividade que não escandalizava ninguém.

Como essa gente lacradora de hoje acha que Tony Curtis, um dos maiores galãs do seu tempo, conquistou Marilyn Monroe, a mulher mais cobiçada do cinema? Não foi exibindo os bíceps ou agarrando pelo cabelo, como fazem os machos opressores de hoje no Carnaval, mas usando vestido, peruca e maquiagem pesada. Jack Lemmon, heterossexual convicto, acaba encontrando o homem da sua vida, Joe Brown, também vestido de dregue quando as dregues nem sonhavam em ser queens.

O que dizer dos inseparáveis Zorro & Tonto e Mandrake & Lothar, que, ainda por cima, eram relacionamentos inter-raciais?

E Xena e Gabrielle?

Maga Patalójika e Madame Min?

Matracatrica e Fofoquinha?

Tom & Doug, que tinham não só um passado mas também um futuro, e viviam juntos para lá e para cá, no Túnel do Tempo?

Fred e Barney, com seus casamentos de fachada?

Recruta Zero e seu fetiche bondage com o Sargento Tainha?

E as novas configurações familiares dos personagens Disney, com sobrinhos invariavelmente criados pelos tios solteirões?

Emília, no Sítio do Pica Pau Amarelo, fazia de gato e sapato o Visconde de Sabugosa (“milhonário” macho, nobre, espigado). E ainda se casou com um porco, o Marquês de Rabicó – num tipo de relacionamento que nem o ministro Barroso aprovaria.

Nós, da década de 60 (eu nasci em 59, mas com sensação térmica de 1960) aplaudimos Simonal, Tony Tornado, Jair Rodrigues, Golden Boys, Trio Esperança, Elza Soares, Agostinho dos Santos, Evaldo Braga, Lady Zu, Miriam Makeba, Donna Summer, Tina Turner, Ray Charles, Bob Marley, Stevie Wonder, Jimi Hendrix, Michael Jackson (ele ainda era preto na ocasião) porque sabíamos que black is beautiful e que “no matter, no matter your color, you are still my brother”. E sem precisar ser chamados de palmito, de brancos opressores sem lugar de fala (ou, no caso, de escuta).

Um dos maiores mitos da nossa época era o Dr. Smith, a quem é impossível descrever de modo politicamente correto. Ele fez mais pelo movimento LGBTQ+ da época (que ainda não existia) do que qualquer parada gay. Era uma péssima influência para o pequeno Will Robinson (mau caráter no úrtimo!), e nem por isso o garoto desgrudava dele (com a anuência dos pais, John e Maureen Robinson, que ou eram muito ingênuos ou eram simpatizantes da causa e adeptos da ideologia de gênero).

Dr. Smith ainda por cima mantinha um relacionamento abusivo com uma criatura cibernética e não binária, o Robô. A quem, durante as frequentes D.R.s, chamava de “lata de sardinha enferrujada”. E não há evidências de que o pequeno Will ou a ingênua Penny Robinson tenham virado genderfluid ou se tornado de Humanas por causa disso.

Jeannie vivia com o Major Nélson sem serem formalmente casados – isso num tempo em que mulher amigada era vista como uma sirigaita, não como descolada.

A empoderada Agente 99 era muito mais esperta que o abilolado Agente 86. A tripulação do Star Trek era mais multiétnica que os anúncios da Benetton e da Natura ou aquela propaganda censurada do Banco do Brasil.

Sem contar que, bem antes das Marchas da Maconha, já lidávamos de boa com o uso de alucinógenos, como o pó de pirlimpimpim.

Do Zé Colmeia & Catatau e do Batman e Robin eu nem vou falar, porque ainda não consegui encontrar um jeito de aportuguesar “sugar daddy”.

Os fascistas e as tias do zap eram muito mais progressistas do que vocês imaginam.

Santa treta, Batman!

treta

Nada contra 007 ser mulher, ou negra.

Podiam ter criado a agente 008, ou, para maior empoderamento, a agente 700.

Mas talvez 007 seja o cargo – que, afinal, já foi ocupado por Sean Connery, Roger Moore, Pierce Brosnan, David Niven, até o aviso prévio do Daniel Craig.

Era natural que uma mulher assumisse o posto algum dia.

Nada contra a pequena sereia ser negra.

Dinamarquesa e negra, qual o problema? Afinal, Branca de Neve também já foi negra (Adele Fátima, quem não se lembra?).

São personagens de ficção. São seres imaginários.

Deus era sempre homem e branco. Mas já foi negro (Morgan Freeman). E negra (Octavia Spencer). E o Vaticano continua de pé,

Até Marighella (que não era personagem de ficção) já foi negro – o que abre precedentes para que Martin Luther King seja representado por um ator nórdico, ou Nelson Mandela, por um coreano.

Kate Blanchett já interpretou Bob Dylan.
Nathalia Timberg foi mãe da Susana Vieira.

Temos que nos libertar desse “naturalismo” e entender que atores não são: atores representam.

Imaginem se gays só pudessem representar personagens gays. O que teria sido da carreira de tantos galãs de Hollywood e de novelas? Se para fazer um serial killer o ‎Anthony Hopkins tivesse que ter cometido sei lá quantos assassinatos?

Tirando o Schwarzenegger, ninguém mais poderia fazer papel de robô.

Foi-se o tempo em que a vilã da novela era xingada na rua e o vilão não era convidado para apresentar baile de debutante no interior.

Cinema, teatro, pintura, é tudo mentira.
A arte é uma ilusão.
Representar, etimologicamente, quer dizer “colocar-se à frente de”.
Não é ser tal e qual: é estar no lugar de outro.

Só vou ficar preocupado quando o Super Homem for mulher trans lésbica negra acima do peso não binária e soltar teia de aranha pelos pulsos.

Ou o Homem Aranha virar um halterofilista verde nos dias em que se esquecer de tomar o rivotril, tiver uma chimpanzé de estimação chamada Chita e morar na Batcaverna.

Escrito nas estrelas

Novela

Quando encontrar de novo a Gloria Perez, vou tomar coragem e propor parceria numa novela.

Já houve tramas na Turquia, no Marrocos, na Índia, mas eu queria ir mais longe.

Será, aparentemente, a velha história de amor impossível entre pessoas que se amam apesar de pertencer a mundos diferentes: a mocinha na Terra e o mocinho em Marte.

Quer dizer, mocinho, não: ETzinho.

Vera Fischer será a protagonista, a terráquea Klaxya, que se apaixona pelo marciano Juca.

Mas não será uma paixão qualquer, porque Klaxya ficará literalmente sem ar ao se encontrar com Juca (a atmosfera marciana é composta de 95% de dióxido de carbono, 3% nitrogênio e 1.6% argônio, o que desestabiliza até um mulherão como a Vera Fischer).

E Juca se sentirá esmagado na presença de Klaxya (não somente porque a Vera Fischer seja um mulherão, mas porque a massa da Terra é maior, e quanto maior a massa etc etc etc).

As famílias dos pombinhos (tem pombinho em Marte?), o Código Civil, a bancada evangélica e o Olavo de Carvalho não aprovam o casamento entre seres de espécies diferentes (a alienigenofobia ainda não foi criminalizada pelo STF), e tudo farão para separá-los e impedir sua união.

A vilã (Cristiane Torloni ou Susana Vieira, ainda não decidi), não aceita Vera Fischer como nora, porque acha que Vera é muito madura para o seu filho Juca (o marciano) que, claro, ainda é verde.

O merchã social abordará a contaminação de plutônio em Mercúrio (ou de mercúrio em Plutão, a decidir) e o búlim que sofrem os lunáticos apenas por viverem no mundo da Lua.

A trama teria como pano de fundo o fato de que, como o socialismo nunca deu certo em lugar nenhum da Terra, toda a esquerda resolveu ver se, quem sabe, na Lua a coisa funciona (afinal, tudo lá tem menos gravidade). E a Lava-Jato não chega lá (só a Lava-Foguete, cuja força-tarefa fica em Alfa Centauro, a 4 anos luz de distância, para tentar escapar do ráquer da Intercept).

E aí é que os lunáticos-raiz (São Jorge, o dragão e demais nativos) passam não só a conviver com a escassez de tudo (e olha que lá já não tinha nada!) como também se tornam vítimas de preconceito – ao ser confundidos com os lunáticos-nutella do Partido do Sol (P-Sol) e de outro partido que, a essa altura, já terá assumido suas reais intenções e trocado a estrelinha por um meteoro.

Juca (Eri Johnson em seu primeiro papel de protagonista), inicialmente lidera o MSL (Movimento dos Sem Lua) – apesar de sua família ser proprietária de um resort às margens no Mar da Tranquilidade e ele mesmo possuir um enorme luneno de frente para a carcaça da Apolo 11 (a Vieira Souto da Lua).

Mesmo sendo marciano (nascido um planeta naturalmente vermelho), Juca é um liberal e denuncia as fraudes do programa Minha Cratera Minha Vida e as condições desumanas (e desextraterrestres) dos ETs enviados pelo governo vermelho de Marte para trabalhar em regime de semiescravidão no programa Mais Alienígenas.

Para alívio cômico, haverá um núcleo suburbano que mora na comunidade de Nova Varginha, em Urano, e vive do contrabando de anéis de Saturno e camisas de Vênus.

Miguel Falabella e André Gabeh (estreando em novelas) estarão nesse núcleo (o mais incandescente da trama), e vão popularizar o bordão “Pelas barbas de Netuno!”

Todo final de capítulo Klaxya ligará para Juca e ficaremos ansiosos para saber se ela está fazendo uma declaração de amor (“Irei amar-te!”) ou avisando que está pegando o próximo ônibus espacial (“Irei a Marte!”).

O destino do casal está escrito nas estrelas (a música tema será esta mesma, na voz da Tetê Espíndola), mas até o último momento nenhuma astróloga conseguirá prever se há compatibilidade entre os dois, já que Klaxya é de Touro (signo de elemento Terra, com Lua em Marte) e Juca é de Spock (signo de elemento Marte, com Fobos em Terra).

A Globo vai precisar construir uma galáxia cenográfica no Projac, mas não tenho dúvida de que haverá uma fila de astros e estrelas querendo participar da trama e que o ibope será estratosférico.

Eu já fiz a a minha parte, a mais difícil, que é dar a ideia. Sinopse, escaletas, minutagem, 30 laudas diárias – que é mamão com açúcar – isso aí já é com a Glória.

Deepfake

Carey

Se vazarem nudes meus no zape, já sabem: é fotoxope.

Mesmo que seja eu, cuspido e escarrado, negarei até a morte (e enviarei postagens psicografadas do Além – caso haja Além, e uaifai no Além – negando até depois de morto).

Parece comigo, mas não sou eu. É montagem. Olha esses pneus, esse nariz idêntico ao meu, mas é o Al Pacino, é o Cyrano de Bergerac, é a Barbra Streisand. É, eu sei, a Barbra Streisand não tem essa monocelha e essas orelhas felpudas, mas quem garante que ela não fica assim nas sextas-feiras?

Qualquer imagem comprometedora que vazasse, a gente podia negar as aparências, disfarçar as evidências e viver fingindo que era tudo fotoxope. Não havia provas. Era gópi.

Mas e quando surgissem vídeos? Você e três travestis entrincheirados numa jacuze do Vip’s, sem que fosse possível distinguir o que era de quem – como apelar para o “não é nada disso que você está pensando” sem piorar ainda mais a situação?

Seus problemas acabaram!

Pode levar quem quiser para a jacuze (menos a do Vip’s, que fechou, e a do Holiday, que infelizmente continua em obras) e deixar filmar à vontade. Se a “ménage à trente trois” cair na rede, é só dizer que é dipifeique.

Para quem chegou agora ao planeta, dipifeique é um aplicativo que usa (e abusa) da inteligência artificial para trocar o rosto (e, em breve, outras partes da anatomia) em vídeos.

Mais ou menos o que foi feito na suposta suruba do Dória, só que na ocasião a trucagem ainda era tosca demais para ser levada a sério.

Agora, quem não gostou muito da performance do Schwarzenegger no “Exterminador do Futuro” pode confirmar que ficaria ainda pior com o Stallone (veja os linques abaixo). Quem achou que o Jack Nicholson era imbatível em “O iluminado” pode se surpreender ao descobrir que Jim Carrey até que daria um caldo ali.

A dipifeique está para o “vazou na internet” assim como a pílula esteve para a revolução sexual. Nada será como antes.

O Intercept poderá receber gratuitamente de algum ráquer imparcial e desinteressado um monte de vídeos da Dilma dizendo coisas compreensíveis – e até razoáveis. E de forma tão convincente que a próxima geração tenderá a achar que os feiques eram aqueles em que ela afirmava que o meio ambiente era uma ameaça ao desenvolvimento sustentável, que a autossuficiência do Brasil sempre foi insuficiente, que a inflação foi uma conquista do presidente Lula, que atrás da criança tem a figura de um cachorro etc.

O falso parecerá mais verdadeiro que a verdade. O simulacro será mais verossímil que o real. E ninguém (a não ser você e as trinta e três travestis) jamais saberá o que realmente se passou naquela noite em que você beijou na boca de quem não devia, pegou na mão (ou sabe-se lá em que outra extremidade) de quem não conhecia, dançou até o chão em traje de maiô – e nem por isso a sua reputação se acabou.

O dipifeique veio para mostrar que São Tomé, se ainda fosse vivo, além de velho pra caramba, ainda estaria lascado. Não é preciso mais ver para crer: é preciso descrer de tudo. Da imagem, da voz, da cena. Nossos sentidos nunca nos enganaram tanto.

E se algum velho timbira garantir “Meninos, eu vi”, duvide. Não era eu. Eu jamais faria aquilo. Não naquela posição. Minha coluna não aguenta. Eu não ia correr riscos desnecessários numa jacuze escorregadia como a do Vip’s. Ainda mais numa água fria daquele jeito e com os sais de banho que deixaram meu cabelo esverdeado por três dias.

Não era eu mesmo.
Era dipifeique.

Juro pela inocência do Lula como era.

 


 

Sylvester Stallone em Exterminador do futuro 2

Sylvester Stallone em Exterminador do futuro 2 – trecho 2

Jim Carrey em O iluminado