Mulher, substantivo plural

marido

Não quero ser chato, mas o feminino de “marido” é “mulher”, não “esposa”.

Por isso o padre vos declara “marido e mulher”, não “marido e esposa”.

“Marido” vem do latim “maritus”, que significa “homem casado”. “Mulher” vem do latim “mulier”, que significa um monte de coisas: pessoa do sexo feminino, pessoa adulta do sexo feminino, pessoa casada do sexo feminino ou amante do sexo feminino. Marido só serve para uma coisa; mulher é polivalente.

Já “esposo” e “esposa” vêm de “sponsus” e “sponsa”, homem e mulher prometidos em casamento. Ou seja, noivos.

Com o tempo, “esposo e esposa” tornaram-se sinônimos de “marido e mulher” (como se fossem eternamente namorados, olha que romântico), permitindo que quem ache vulgar a palavra “mulher” a substitua por “esposa”.

Mas misturar os dois (marido e esposa) me soa a troca de casais. Nada contra. Só que quem chama, por pudor, a própria mulher de “minha esposa” deve ser a última pessoa na Terra a topar um suingue.

Porque mulher é mulher, esposa é esposa.

Pense num mulherão.
Agora pense num esposão.
Sentiu a diferença?

Quando um homem diz “esta é minha mulher”, está claro que eles transam. Não dá pra saber com que frequência ou em que posições, mas rola. Agora, quando ele diz “esta é minha esposa”, pode ter certeza que, no máximo, têm relações. De meia, com a luz apagada e sem fazer barulho para não acordar o Jonathan Gabriel e a Stefhany Karolyne no quarto ao lado.

Marido que tem problema em falar “minha mulher” certamente tem problema. Pode ser medo de que ela o chame de “meu homem”. E mulher quando chama o marido de “meu homem” é porque o couro come.

Mas “homem” não tem necessariamente a ver com “macho” (do latim “mascŭlus”, ser do sexo masculino). Vem de “homo”, “hominem”, “humus” (o solo, o que vem da terra), em oposição aos deuses, que vêm do céu. Por isso, somos todos – homens e mulheres – humanos: feitos do barro. Para o macho, o homão, havia a palavra “vir” (de onde vem virilidade).

Em latim, havia outro nome para a mulher: “domina” (proprietária, mulher, senhora, esposa), que em português virou “dona”, com os mesmos significados.

No interior, ainda é comum ouvir “Essa é a minha dona” – e é melhor não procurar saber a qual dos sentidos da palavra o marido dessa dona está se referindo. Mas com certeza ela tem uma pegada boa.

Há ainda quatro alternativas para o marido que fica sem jeito de chamar a mulher de mulher.

A primeira é chamar de “minha senhora” (do latim “senior”, mais velho, mais antigo). Se chamou de “minha senhora”, pode esquecer, Inês é morta. Aquilo é bananeira que deu cacho, a jiripoca já não pia, daquele mato não sai coelho. “Esta é minha senhora” é praticamente um atestado de óbito sexual.

A segunda, usar “cônjuge” (ou, mais modernamente, conje), que vem de “conjugare” (com = junto + jugum = jugo, canga). Ou seja, a quem você está unido e subjugado, tipo junta de bois na mesma canga, juntos e xelounáu. Além de ser muito sexy, traz um plus adicional a mais: o substantivo é sobrecomum masculino. Ou seja, não tem o conje a a conja. Tem que respirar fundo, dizer “esta é o meu cônjuge” (no masculino mesmo) e encarar as os olhares enviesados e as consequências.

A terceira alternativa é “esta é a minha consorte”. Não tenha dúvidas de que vá aparecer na hora um tiozão para fazer trocadilho (“Com sorte ou com azar? Rá rá rá!”). E não estará muito errado: “consorte” vem de “consors“ (companheiro, sócio, camarada, parente próximo; aquele que tem a mesma sorte, o mesmo destino; e de onde vem também a palavra “consórcio”). Só deve ser usado no caso de você pertencer a alguma família real – e aí a criatura que casar com você é sortuda mesmo.

Finalmente, a opção derradeira é chamar de patroa (do latim “patrona”: protetora, defensora). Quer um conselho? Não chame. Fique calado, chame de varoa, mas não chame de patroa. Chame de colega, de amiga, de “essa aí”, de “dona encrenca”, mas não chame de “patroa”.

Por mais que ela fume, insista na calcinha bege (que é um equivalente feminino à cueca laranja em termos de aniquilação de libido), adore uma DR, tenha aquele humor de quem vive em dieta, seja controladora, grudenta, faça chantagem emocional e tsunami em pires d’água, tenha ciúme da sua vida sexual pregressa, te compare com o ex e use franja, mulher, esposa, consorte, senhora, dona ou conje nenhuma merece ser chamada de “patroa”.

Por isso é muito mais fácil ter apenas a amante (do latim “amans”, aquela que ama). Não só é mais bonito, como dificilmente vão rolar apresentações nesses termos.

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10 comentários em “Mulher, substantivo plural

  • Adorei cada parágrafo. Há também aquelas que se referem ao marido como “meu esposo”. Isto é de arrepiar até os ossos. Proclamam o “esposo” como se isso fosse uma afirmação de status; envergam a palavra – no caso, o vocábulo – como um escudo: Alto lá! Tenho um esposo!

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    • Ri muito. Sempre apresentei casais de amigos assim: esse é o fulano e sua mulher…ou essa é fulana e seu marido. Esposo e esposa sempre tiveram um sentido de posse pra mim. Se torna melhor com sua explicação.

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  • Só faltou esclarecer, nesta guerra dos sexos chamada casamento, que lugar de mulher é na cozinha : por força da Convenção de Genebra, todo prisioneiro, digo, marido, tem direito a pelo menos uma refeição quente por dia.

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  • Ótima crônica! Detesto que me chame desse montão de palavras, que não mulher!

    Em ter, 18 de jun de 2019 09:36, EDUARDO AFFONSO escreveu:

    > Eduardo Affonso posted: ” Não quero ser chato, mas o feminino de “marido” > é “mulher”, não “esposa”. Por isso o padre vos declara “marido e mulher”, > não “marido e esposa”. “Marido” vem do latim “maritus”, que significa > “homem casado”. “Mulher” vem do latim “mulier”, que signifi” >

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  • Amei seu texto, seu humor, enfim tudo. Há muitos anos debati com um estrangeiro que insistia em dizer que mulher era ofensivo. Continuo apresentando minha mulher!
    Um abraço.
    Pierre

    Curtido por 1 pessoa

  • Marido só serve para uma coisa; mulher é polivalente. É muita pretensão da senhora não acha. Depois falam que homem é machista e vive menosprezando as mulheres. Os dois se completam e tem importâncias iguais nesta relação. Pode ser que em alguns casos a mulher, como mãe, tenha mais importância no âmbito familiar.

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    • 1. Se você tivesse se dado ao trabalho de ler o texto inteiro teria entendido que ele se refere às palavras ‘marido’, ‘esposa’, ‘mulher’, etc, e não à pessoa do marido ou pessoas do sexo masculino em geral.
      2. Sugiro aprender a escrever de forma apropriada antes de fazer um comentário. ‘É muita pretensão da senhora não acha.’ requer uma vírgula depois de ‘senhora’ e um ponto de interrogação no final da frase.
      3. O autor do texto, se não me engano, é do sexo masculino.

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  • Prezado Eduardo! Até poderia encetar alguma discussão dos rudimentos hermenêuticos em relação ao texto. Mas, não vale a pena porque ele em toda composição contém a dose certa de pimenta, mel, limão e sal. Muito bom.

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