A linguagem das flores

flores

As rosas falam: botão de rosa branca é coração que não conhece o amor; de rosa de cem folhas, virgindade; de rosa de musgo, esperança receosa.

Rosa amarela, infidelidade.
Rosa branca, silêncio.
Uma rosa branca e uma vermelha, fogo no coração, sofrimentos de amor.

Não só as rosas falam: havia, no século 19, um código, uma linguagem das flores. Corte, declarações, muxoxos, amuos, pedidos de perdão, reconciliações, promessas, o rompimento, tudo era dito em pétalas, em flores avulsas, em ramalhetes, dispensando palavras.

O modo de entregar as flores era parte da gramática. O botão de rosa de musgo, com seus espinhos e folhas, informava “espero, mas receio”. Se entregue de cabeça para baixo, tinha o sentido invertido: “não há o que temer nem esperar”. O mesmo botão, sem as folhas, mas com os espinhos, alertava “há tudo a temer”.

O sujeito da frase era dado pela posição da flor. Virada para a direita, “eu”. Para a esquerda, “tu”. Em pé, referia-se a uma terceira pessoa. Flores duplicadas, “nós”.

O malmequer no cabelo: pena d’alma.
No coração, pena d’amor.
No seio, cruéis tormentos.
Na boca, não digo o que sinto.

Idiomas nascem, florescem, minguam – e morrem quando não há mais quem os fale, quando o que têm a dizer não diz nada a mais ninguém. Centenas de línguas se extinguem no mundo neste momento, uma dúzia delas no Brasil (amanayé, urupá, yuriti, xakriabá…), indo se juntar a outras centenas de línguas já mortas (omurano, amonita, acadiano, asvético, tupi).

A linguagem das flores morreu com o século 19, com a emancipação feminina, a industrialização. Morreu enquanto morria um mundo de coisas não ditas, apenas insinuadas. Morreu quando o velado se viu sem véus, quando o amor impossível, o lencinho deixado cair, os olhares lânguidos, os rubores e palpitações saíram de moda, tangidos por um século 20 sem lugar para sutilezas.

A quem, hoje em dia, ofertar perpétuas, flor de macieira, artemísia, se sequer sabemos o que querem dizer constância, primazia, ventura? A quem oferecer a acácia branca do meu amor platônico, o meu amor perfeito (existo só para ti), o botão de cravo roxo do meu amor humilde e desgraçado – se não para receber em troca a alfazema da desconfiança, os beribéris do azedume, o cravo amarelo do desdém?

Quem, neste mundo, teria a ingenuidade (violeta branca) e a modéstia (violeta roxa) de fazer uma declaração de amor (tulipa), expressando submissão (macela), encantamento (verbena) e fidelidade na desgraça (goivo)? Provocaria desconfiança (alfazema), causaria mexericos (folhas de limoeiro).

Hoje, uma mensagem no whatsapp substitui o alecrim (“quero falar-te”) e o botão de cravo branco (“espero resposta”). Deixar de seguir no tuíter é a nova hortênsia (“não me interessais”), mandar solicitação de amizade equivale à glicínia (“vossa amizade me é doce e agradável”), curtir a foto no perfil é malva rosa (“sois bela”). A mudança de status para “relacionamento sério” é um buquê de dálias (“meu reconhecimento excede vossos cuidados”) e resedás (“vossas qualidades excedem vossos encantos”). A cutucada é o miosótis (“lembrai-vos de mim”), eu que cultivo celestinas (“perigos imaginários”), refém de gerânios (“teus caprichos”), pobre flor de limoeiro (“vítima de ciúmes”) que sou.

Mas as línguas não morrem de todo. Hoje não há mais tupis, mas no português falado no Brasil preferimos o gerúndio (“estou falando”, em vez de “estou a falar”) e a próclise (“me dê”, em vez de “dê-me”) porque era assim no tupi, Tanto quanto o DNA do tupi no nosso falar brasileiro, a linguagem das flores ainda pode ser ouvida, quase um sussurro, nas flores de laranjeira (“castidade”) que enfeitam noivas, nas rosas vermelhas (“paixão”) do dia dos namorados, nos ramos de cipreste (“imortalidade”) que acompanham as coroas de flores nos enterros.

Pode parecer bico de grou (“tolice”), mas botão de rosa de jericó (“não posso”) me dar ao castanheiro da índia (“luxo”) de fazer desta crônica apenas columeia (“passatempo frívolo”) ou flores do campo (“divertimento”). Eu junquilho (“desejo”) que tenham labaça (“paciência”) e entendam meu lírio (“mensagem”), que é tirar essa linguagem da lunária (“esquecimento”) e trazê-la de novo à luzerna (“vida”).

Um forte cacho de flores brancas (“abraço”) a todos, com meus votos de oliveira (“paz”) e faia (“prosperidade”). Papoula raiada (“não duvides”) que alecrim do norte (“vossa presença aqui me reanima”).

 

(originalmente publicado em 25 de agosto de 2018)

3 comentários em “A linguagem das flores

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