Como escrever um texto sem clichês

chave

Para abrir um texto com chave de ouro, antes de mais nada faça uma colocação que quebre paradigmas, abale os alicerces e dê água na boca. Vista a camisa e pense com seus botões, a nível de conceito, enquanto proposta, para dar o ar da sua graça antes do apagar das luzes e não pegar o bonde andando.

Se quiser coroar-se de êxito, ser um sucesso retumbante (com uma carreira meteórica) e receber calorosos aplausos pelos quatro cantos do mundo, não vá por um caminho já trilhado. A perda pode ser irreparável, gerando prejuízos incalculáveis (e mesmo escoriações generalizadas, que podem deixar seus familiares inconsoláveis).

A literatura é uma caixinha de surpresas, por isso não escreva a toque de caixa nem espalhe aos sete ventos. Faça por merecer, tome uma injeção de ânimo e só dê o pontapé inicial se estiver com a corda toda, com as turbinas aquecidas e disposto a estourar a boca do balão.

Via de regra, na vida real é preciso correr por fora e sempre enxergar a luz no fim do túnel, mesmo quando estiver no fundo do poço, ouvindo o ruído ensurdecedor de uma sonora vaia – ou um silêncio mortal.

Não se deixe trair pela emoção se entrar em rota de colisão, bater de frente, ficar feito barata tonta e receber pesadas críticas. Um líder carismático, com atuação impecável, sempre terá uma vitória esmagadora, mesmo que não consiga agradar a gregos e troianos até debaixo d’água. E quem quer seduzir corações e mentes tem que sair do armário e dar nome aos bois, nem que seja só da boca pra fora.

Quando seu texto gerar polêmica, procure debelar as chamas desse pavoroso incêndio. Troque figurinhas com uma alma gêmea para alimentar sua usina de ideias, que é uma fonte inesgotável e dispensa apresentações.

A fim de descascar esse abacaxi, ponha as barbas de molho e não pise na bola. Antes de rasgar o verbo e debruçar-se sobre o tema com alegria contagiante, tenha em mente que, para um texto ser um verdadeiro tesouro, a joia da coroa e ter uma estrondosa recepção do Oiapoque ao Chuí, é de vital importância que esteja inserido no contexto e não haja erros gritantes. Procure aparar as arestas e fazer a pergunta que não quer calar: vale a pena rodar a baiana e mexer nesse vespeiro?

É preciso saber dar a volta por cima se der com os burros n’água, se se sentir jogado às traças ou for tudo por água abaixo – nem que tenha que botar a boca no trombone e bater na mesma tecla. No afã de botar banca, não se pode brincar com fogo nem ser pego com a boca na botija, como um escravo do vil metal.

Por último, mas não menos importante, haja o que houver saia de cabeça erguida, e bola pra frente. Recarregue as baterias e respire aliviado, evitando chutar o balde com sede de vingança e requintes de crueldade, como se tivesse um rei na barriga.

São coisas da vida.

 

(publicado originalmente em 1 de agosto de 2018)

3 comentários em “Como escrever um texto sem clichês

  • Mais uma vez, pra variar, leio um texto seu me perguntando: “gente, como ele consegue?” E mais uma vez lamento não ter turmas de alunos para trabalhar um excelente texto. “Como escrever um texto sem clichês” seria um prato cheio!
    Parabéns pela coletânea!

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