Homônimos & parônimos

paronimos

Meses atrás, recebi de uma das maiores empresas de engenharia consultiva do país um documento solicitando delação de prazo para atender uma exigência legal.

Há coisa de uma semana, outra empresa de engenharia, também grandinha, mandou um relatório no qual informava que parte do reboco da fachada de uma edificação apresentava risco eminente de queda.

Neste segundo caso, fiquei tranquilo. Riscos eminentes hão de ser riscos importantes, proeminentes, magníficos – mas nada urgente. Fossem riscos iminentes, aí, sim, alguma providência tinha que ser tomada – e já!

Quanto à delação do prazo, fiquei na dúvida se era para ser feita à Prefeitura (onde corria o processo de aprovação) ou à Polícia Federal, e imaginando se o crime de atraso seria tão grave assim para merecer ser delatado.

A culpa não é dos engenheiros que confundem eminente e iminente, delatar e dilatar, mas da língua portuguesa, que, tendo 26 letras com as quais produzir permutações, combinações e arranjos os mais variados, faz corpo mole e cria essas pequenas variações em torno do mesmo tema.

Na vida profissional, já me deparei com esquadrilhas de alumínio. Com casas germinadas. Com telhas quebradas durante uma chuva de granito. E vários terrenos com problema de uso campeão.

Esse “uso criativo do idioma” é obra dos neurônios estagiários, que não querem suar a camisa e pegam a primeira palavra que soar parecida à que procuram. É por causa deles que tem gente que adoça e assusta cheque, desliga o fuzil e paga carneiro do INSS.

Quem já ficou na dúvida entre a apóstrofe e o apóstrofo, a descrição e a discrição, a dispensa e a despensa não precisa se infligir nenhum castigo por (quase) infringir uma regra da semântica. Basta espiar o dicionário (ou o gúgol, que é pai dos burros conectados) para não ter que expiar a culpa depois.

Devia haver uma seção de reclamações sobre essas pegadinhas do idioma, onde se pudesse pedir a cessão do direito de criar palavras novas, inconfundíveis. Ou, em último caso, uma sessão de descarrego para nos absolver de todos os pecados cometidos contra o vernáculo e nos tornar capazes de absorver essas sutilezas.

Ou não.

O idioma fica mais fragrante com a distinção menos flagrante entre as palavras.

Um cliente me pediu, há muitos anos, que projetasse para sua casa um telhado de vidro, enchendo o espaço de luz natural. Desenhei uma claraboia bem bonita, oval. Soube depois que ele andou elogiando o resultado, e dizia que seu lugar favorito era aquele cantinho com luz genital.

 

(originalmente publicado em 8 de janeiro de 2019)

2 comentários em “Homônimos & parônimos

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