Ao pé da letra

louro

“Literalmente” vem de “littera” (“letra” em latim), e quer dizer “no sentido estrito da palavra”, ao pé da letra.

Mas não literalmente ao pé da letra, já que letra não tem pé.

(“Ao pé da letra” é uma expressão idiomática (de sentido figurado), uma locução adverbial (conjunto de palavras que funciona como advérbio), uma catacrese (assim como asa da xícara, dente de alho, olho da rua). Ou seja, não é para levar “ao pé da letra” ao pé da letra.)

Por motivos insondáveis, “literalmente” deixou de ser usado no sentido de exato, estrito, para se transformar no seu oposto: algo exagerado, figurativo.

Eu estou literalmente careca (felizmente, só no cocuruto) de saber que a língua evolui, que palavras adquirem novos significados (isso às vezes é sinistro, não acha?) e que algumas formas, ainda que equivocadas, se consagram pelo uso (“a voz do povo é a voz de Deus”).

Mas acontece que sou ateu, e a voz do povo ao usar “literalmente” como adjunto adverbial de intensidade me soa blasfema, sacrílega e pecaminosa.

Só quem pode dizer que está literalmente se lixando para alguma coisa é a mulher que está fazendo as unhas. Só quem pode dizer que é literalmente forte como um touro é um búfalo, um bisão ou, eventualmente, um gnu. Só soltou literalmente a franga quem abriu a porta do galinheiro e deixou a bichinha escapar.

O “literalmente” parece estar trilhando o mesmo caminho do ”com certeza”, que passou a significar “sem certeza nenhuma“ (“Ah, com certeza antes de ligar o lepitope ele vai lembrar que lá em Brasília é 220V”), e do “progressista”, que é o sujeito que acredita num sistema que só leva ao atraso.

Se quiser enfatizar, use “demasiadamente”, “excessivamente” (mineiros têm o direito de lançar mão do “demais da conta”). Para exagerar com certa parcimônia, use “praticamente” (“Eu estou praticamente me matando de trabalhar”).

(Não, não use! “Praticamente” deveria significar “na prática”, “na realidade”, e virou “aproximadamente”).

Enfim, se não for para ser entendido concretamente, ipsis litteris, tale e quale, use qualquer coisa, menos “literalmente”.

Você pode abotoar literalmente o paletó ou bater literalmente as botas sem precisar morrer. Mas só diga que caiu literalmente a ficha se você for um orelhão. Que andou literalmente engolindo sapos se for uma sucuri. Que está literalmente se matando se for um suicida.

Só abra literalmente o coração se for um cirurgião cardiovascular. Só volte literalmente à vaca fria se for um touro muito perseverante.

Eu fico literalmente uma arara quando alguém usa “literalmente” como hipérbole ou metáfora.

 

(originalmente publicado em 4 de maio de 2019)

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Um comentário em “Ao pé da letra

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