Caro xará

Eduardinho

Depois de ler a carta que o André Gabeh escreveu para o andregabehzinho de 5 anos, resolvi fazer o mesmo para o eduardinhoaffonso de cabelo gomalinado e camisa quadriculada de verde (a foto é em P&B, mas eu me lembro da camisa e da cor), lá em 1964.

~

Xará,

Isso aí que acabou de acontecer e seu pai chama de Revolução pode ser, na verdade, um golpe. Mas não se preocupe em tomar partido: vai ser golpe, revolução, revolução, golpe por mais 55 anos, pelo menos; e tudo isso ainda vai piorar – e muito.

Quando estiver no grupo escolar ou no ginásio, não perca seu tempo aprendendo regras e exceções de hifens e acentos. Tudo vai mudar. Se a Irmã Edwiges, d. Zolavy, d. Joanna d’Arc, d. Odete e d. Marízia te derem um 9 ou um 9,5 por causa de uma “ideia” sem acento, olhe-as de baixo acima e diga “O tempo me dará razão”. Um dia elas vão entender – e talvez te devolver o ponto ou meio ponto perdido.

Faça pirraça. Bonzinho só se ferra.

Aproveite cada minuto com seu vô Tote, sua vó Rosa, seu vô Zizico e sua vó Preta. Pergunte tudo e não se contente com a primeira resposta. Assim que se alfabetizar, anote cada sílaba que disserem, para que a história deles – com as dores, os dramas, as tragédias e a comédia dos grandes personagens que eles foram – não se perca.

Tenha mais paciência com sua mãe.
Não tenha tanta paciência com seu pai.

Essa asma passa, não se desespere.
Essa gagueira não vai passar, mas vai melhorar muito.
A essa timidez, que te leva a ser mais feliz sozinho ou conversando com um livro, é bom ir se acostumando – ela será sua companheira até o fim.

Não aceite que te chamem de Sidney na escola. Tudo bem que seja o seu primeiro nome, que a chamada seja por ordem alfabética, mas isso só vai te causar confusão vida afora. Peça para ser chamado de Eduardo, que é como seus pais e seus avós e seus irmãos e seus primos e suas babás te chamam, que é como você se chama. Edu, no máximo. Dudu, só em momentos muito íntimos, e mesmo assim se a entonação for de Duduzão, não de Duduzinho.

Peça que tirem mais fotos suas, dos seus pais, dos seus avós, dos seus irmãos. Aí em 1964 isso é caro, complicado, só existe em preto e branco, tem que mandar revelar em Belo Horizonte, leva tempo, mas vale o investimento. Fale com o seu padrinho Valdete, que é fotógrafo, para documentar tudo – o seu velocípede, a pimenteira, os seus tios Tão, Tatão, Gigi, Nhanhá, Neca, Bereco, Geralda, Agonia, que apertam suas bochechas, e dizem coisas que você não alcança. Sua vó Rosa fazendo chouriço na cozinha, seu vô Tote com o dicionário fazendo palavras cruzadas na mesa da sala, sua vó Preta e seu passo-preto de estimação voando solto pela casa de telha vã, seu vô Zizico enrolando na palha o cigarro de fumo de rolo que acabará por matá-lo, seus presentes te esperando impacientemente ao pé da árvore de natal. Não se iluda: nada disso é banal.

Guarde tudo que escrever. Todas as composições. Todas as redações. Todos os poemas. Até aqueles sonetos de quando você descobrir o que é um soneto e desandar a sonetear. Tudo que você escrever escondido, decorar para que ninguém jamais leia e queimar no quintal achando que a memória é um cofre – para depois esquecer completamente e descobrir que ela é uma peneira de malha cada vez mais grossa, até se tornar apenas um aro emoldurando o vazio. Esses milhares de escritos não hão de servir para nada – a não ser para você se reencontrar consigo mesmo um dia.

Ame muito uma pessoa chamada Benedita. E dê atenção especial quando fizer amigos chamados Renato, Ricardo, Leandro, Cíntia, Vicente, Luisa. Todos partirão muito antes de você, e só então você vai descobrir o significado do verbo “partir”.

Se até 11/05/2019 você não tiver conseguido realizar seus sonhos de ter sua própria banca de verduras, ser astronauta, padre da paróquia de Santa Rita de Cássia, diplomata ou cantor romântico, aposte estes números numa coisa ainda a ser inventada, chamada megassena: 23, 24, 26, 38, 42, 49. Mas não conte pra ninguém que eu te contei, ou a mágica não funcionará como deve.

E saiba que essa onda de tristeza sem fundamento que te já te engolfou algumas vezes nesses curtos 5 anos de vida (e há de te engolir outras tantas) tem nome – e tem cura.

Se cuide! E aproveite enquanto ainda tem tanto cabelo. Um dia você terá saudade disso.

 

(originalmente publicado em 28 de maio de 2019)

Um comentário em “Caro xará

  • Deu vontade de escrever uma carta pra Ângela de 7 anos. Tanta coisa que gostaria que ela soubesse, tanta coisa que talvez tornasse a garota mais esperta, menos ingênua! Mas isso poderia ocasionar mudanças, poderia quebrar o contínuo espaço-tempo e eu não estaria aqui agora, pra me emocionar com sua carta. Brigadão por tornar meus dias melhores, te conhecer foi o máximo.

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